Como Ter uma Memória Superpoderosa

Harry Lorayne · Capítulo 21 de 27

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Como Ter uma Memória Superpoderosa

20. A importância da memória

Enquanto viajava pelo meio-oeste, um negociante soube que nas proximidades vivia um índio cuja memória era fantástica. Como acabara de completar um curso sobre memória e orgulhava-se da habilidade recentemente adquirida, decidiu visitar o tal índio, para verificar qual das memórias era a melhor.

Ele se apresentou ao índio e passou a testá-lo. O especialista da memória respondeu a todas as perguntas com presteza e exatidão. Sua mente era como uma reserva de conhecimento, contendo informações tais como população de quase todas as cidades americanas, datas importantes, teorias científicas etc. O negociante não conseguia confundi-lo. Afinal, decidiu tentar uma última pergunta:

— O que comeu no almoço em 5 de abril de 1931?

O índio não hesitou nem por um segundo ao responder:

— Bife!

O negociante partiu completamente abismado com aquela memória prodigiosa. Quando chegou em casa, contou a todos os amigos sobre o índio, só para ser alvo de zombarias e ouvir comentários de que era comum comer bife no almoço e que qualquer pessoa podia responder a essa pergunta.

Dez anos depois, o homem começou a acreditar nisto, até o dia em que precisou regressar ao meio-oeste em uma viagem de negócios. Certa tarde, encontrou por acaso o mesmo índio que conhecera anos atrás. Querendo mostrar que a sua memória para nomes era muito boa, levantou a mão no tradicional gesto de saudação india e falou:

— Rau. Como passou?

O índio pensou por um momento e então respondeu:

— MAL PASSADO!

Embora a anedota acima seja muito tola, pois nunca se pediria a alguém para lembrar qual foi o almoço de uma certa data anos atrás, você ficaria surpreso com as coisas que algumas pessoas costumam indagar-me. Se eu tivesse conversado com um indivíduo há algum tempo, ele iria me pedir para repetir fielmente a conversa. Se me tivessem apanhado lendo o jornal, decerto o tirariam de mim e insistiriam comigo para provar que memorizei tudo palavra por palavra. Não compreendem que o aspecto fenomenal de uma memória treinada e sistemática é a possibilidade de lembrar o que desejo recordar.

Seria um bocado ridículo para mim decorar o conteúdo do jornal palavra por palavra. Não há necessidade disso. Entretanto, posso realmente guardar na cabeça tudo que julgo ser importante o bastante para memorizar. Simplesmente faço uma associação para isto durante a leitura. Quando leio uma história ou um romance, em geral só o faço para meu entretenimento pessoal e não estou interessado em decorar o que leio. Existem algumas coisas que todos nós queremos esquecer. Por exemplo, é diplomático lembrar-se do aniversário de uma mulher, mas não de sua idade.

Após terminar este livro, espero que todos os leitores sejam capazes de recordar-se de tudo que lêem, isto é, se quiserem. Conforme mencionei antes, você pode gravar na mente qualquer coisa, se assim o desejar. Os sistemas mnemônicos simplesmente facilitam a tarefa. Talvez alguns leitores ainda não concordem com tal afirmação. Podem achar que é muito mais fácil anotar um número de telefone do que parar e fazer uma associação, tal como expliquei. Bem, devo admitir que provavelmente isto seria mais rápido e mais fácil tio princípio, mas você não estaria auxiliando sua memória.

Talvez pense que não precisa preocupar-se em lembrar, já que há milhões de livros de referência a serem usados sempre que necessitar de certas informações. E, naturalmente, a maioria dos homens de negócio tem secretárias que lembram de tudo por eles.

Sim, é verdade que homens de negócio têm secretárias, mas provavelmente não estariam em posição de contratar uma se, antes de mais nada, não possuíssem uma boa memória para os negócios. E por quanto tempo acha que a secretária manteria o emprego, se ela não pudesse lembrar?

Embora existam milhões de livros de referência e certamente necessitemos deles, um advogado que estivesse defendendo um cliente no tribunal preferiria muito mais ter na memória os detalhes de um precedente do que precisar parar para investigar. Se pudesse citar as páginas e as leis de determinados livros de Direito, decerto o juiz e o júri ficariam impressionados de modo muito favorável. Um carpinteiro não teria de interromper o trabalho para dar uma olhada no livro quando precisasse usar uma certa ferramenta, pois se lembraria de como utilizá-la. Se surgisse uma emergência na mesa de operação, o cirurgião tomaria providências imediatas. Nenhum dos livros médicos existentes ajudaria o paciente, se o doutor não soubesse exatamente o que fazer. Quando visitamos o médico e ele nos diz os sintomas da doença, não precisa examinar as anotações feitas enquanto estava na Escola de Medicina, pois recorda-se de qual doença tem estes ou aqueles sintomas.

Os que concebem novas idéias sobre antigos temas devem primeiro saber ou lembrar-se de todas as velhas idéias. Será que um homem como o Professor Einstein conseguiria criar novas fórmulas e teorias, se não conhecesse ou se recordasse das atuais? E lógico que não. O telefone nunca teria sido inventado, se Alexander Graham Bel não tivesse conhecido ou memorizado todos os princípios então existentes sobre a transmissão do som. Se não fosse pela memória, nunca teríamos novas invenções.

Eu poderia prosseguir infinitamente, demonstrando como e por qual motivo a memória é importante ou por que nem sempre é conveniente recorrer a listas ou livros. A maioria das coisas que fazemos baseia-se na memória. Em geral! aquilo que afirmamos fazer por “instinto” na verdade é executado pela memória.

Não basta anotar tudo em um papel para ajudá-lo a lembrar. Por que algumas crianças são lentas na escola, apesar de fazerem anotações em aula? Não é porque sejam estúpidas! A razão é que não memorizam os deveres. Na escola dizem-lhes que devem lembrar-se de certas coisas, mas, infelizmente, não lhes ensinam como fazê-lo.

Portanto. uma memória treinada e retentiva é importante sem dúvída alguma.

O mais difícil em qualquer coisa nova que aprendemos é sempre vencer a primeira barreira. A primeira dificuldade no treinamento da memória é realmente usar o sistema. Aplique-o, e ele trabalhará por você. O simples fato de conhecer o sistema e continuar anotando números de telefone no papel é o mesmo que não conhecer o sistema de modo algum.

Agora indago àqueles que sabem datilografar bem depressa lembram-se de como se sentiram quando começaram a aprender a bater à máquina? Achavam que nunca pegariam o jeito e que os outros, os bons datilógrafos, davam melhor para isto do que vocês. Agora é provável que não entendam por que se sentiram assim. Nada lhes parece mais natural do que sentar e bater à máquina rapidamente. Bem, ocorre o mesmo com uma memória treinada. Creio que sou capaz de memorizar um número de telefone mais ligeiro do que qualquer pessoa poderia escrevê-lo e fortaleço a memória a cada vez que o faço. Quando comecei a empregar esses sistemas senti-me como você deve sentir-se agora, que é mais fácil anotar as coisas e esquecê-las do que preocupar-me com associações. Mas insista e irá sentir-se da mesma forma a esse respeito, tal como acontece em relação à datilografia. Após algum tempo, se perguntara por que envidou qualquer esforço que seja no princípio.

O que deve ter em mente acima de tudo o mais é fazer todas as associações ridículas e’ou ilógicas. Muitos dos sistemas ensinados hoje e os outros no passado não acentuam bastante este fato. Na verdade, alguns deles o ensinarão a formar associações lógicas. Há apenas uma falha em tais métodos, no que diz respeito a mim — não funcionam. Não creio que possamos lembrar-nos de associações lógicas em qualquer parte tão bem ou tão facilmente quanto as ridículas.

Alguns dos velhos sistemas ensinavam o estudante a correlacionar dois objetos, quando desejassem recordar-se de um junto com o outro. Uma correlação implicava em ligar ambos os objetos através de outras palavras que tivessem sons semelhantes, significassem a mesma coisa, fossem os antônimos exatos ou fossem evocados de uma forma ou de outra. Isto pode ser um excelente exercício de imaginação. Portanto, deixe-me explicá-lo. Se quisesse lembrar-se de “poste” e “pluma” por alguma razão, poderia raciocinar desta maneira:

poste — ferro — pesado — leve —pluma.

Percebe como é fácil? Poste naturalmente o faria pensar em ferro, pois o poste é feito de ferro. O mineral ferro é muito pesado. O contrário de pesado é leve. E é lógico que leve conduz a pluma.

Como correlacionaria “diamante” a “cigarro”? Bem, aqui está um modo: diamante — anel — anel de fumaça —fumaça — cigarro. Na verdade, pode inter-relacionar qual quer par de objetos, até mesmo os mais disparatados. E óbvio que é muito mais fácil lembrar-se de “poste” e “pluma”, fazendo uma associação de um poste com uma pluma acesa no lugar da lâmpada ou mesmo um poste que é uma pluma gigantesca. Quanto a “diamante” e “cigarro”, se “viu” a si mesmo fumando um diamante, ao invés de um cigarro, na certa se lembrará disso com mais facilidade do que do processo de estabelecer uma correlação.

Menciono as correlações só porque são um bom exercício de imaginação e você poderia divertir-se um pouco, experimentando-as com seus amigos. É lógico que a idéia é usar o menor número possível de palavras, a fim de correlacionar dois itens quaisquer.

As correlações são uma idéia bastante atual para treinar-se a memória. Porém, como eu disse antes, já na Grécia Antiga havia sistemas mnemônicos. Creio que foi Simonides, o poeta grego, o primeiro a usa algo semelhante ao sistema de fixação no ano 500 a.C. Utilizava como elemento de fixação os diferentes aposentos de sua casa e as peças de mobília neles existentes. Isto é limitado, mas Vai funcionar. Se resolvêssemos usar os aposentos de nossa casa e a mobília em uma ordem definida, teríamos uma lista de palavras de fixação. Estas seriam as coisas que já conhecemos ou das quais nos lembramos, e qualquer elemento novo a ser memorizado estaria associado a elas.

Isto deve ter funcionado para Simonides, porque uma das histórias a seu respeito fala de uma ocasião na qual estava recitando um poema durante um banquete e o teto da casa desabou. Todos morreram, exceto Simonides. Como os corpos estavam mutilados, não podiam ser identificados para o enterro. Simonides foi capaz de dizer exatamente quem era cada um deles, pois havia memorizado suas posições em torno da mesa do banquete.

Retornando à época atual, temos o exemplo do General Marshall, que recebeu uma publicidade favorável por algo que realizou em algumas de suas entrevistas a imprensa. Ele avisava aos jornalistas para interrompê-lo e fazer quaisquer perguntas, a qualquer instante enquanto falava. Os repórteres agiam assim, indagando coisas referentes ao tópico que o general estava discutindo no momento. O General Marshall ouvia a pergunta, mas não a respondia. Não interrompia o raciocínio e continuava falando. Quando acabava, olhava para um dos homens que haviam feito uma pergunta e respondia esta indagação específica. Fazia isso até todas ou a maioria delas ser respondida. Isto sempre deixava pasmos os jornalistas, porém esta é uma façanha bastante fácil de realizar com o auxílio do sistema mnemônico.

James Farley, antigo e muito conhecido político americano, tinha a reputação de conhecer umas 20 mil pessoas pelo primeiro nome. Em um artigo para o N. Y. Times, o Sr. Farley afirmou que lembrar nomes era o mais eficaz de todos tipos de lisonja”. Decerto sua incrível memória para nomes o ajudou muito. Comentam até que a participação do Sr. Farley na campanha e o fato de chamar as pessoas pelo nome influenciou na primeira eleição de Franklin Roosevelt para a presidência do país.

Não espero que todos os leitores exerçam influência nas eleições presidenciais. mas na certa poderão desenvolver a memória muito além das mais loucas esperanças, se aprenderem e aplicarem os sistemas ensinados neste livro.