Como Ter uma Memória Superpoderosa
4. Interesse na memória
A verdadeira arte da memória é a arte da atenção.
Samuel Johnson
Por favor, leia atentamente o seguinte parágrafo:
Você está dirigindo um ônibus com 15 passageiros. O ônibus faz uma parada e 10 pessoas saem, enquanto três entram. Na próxima parada, sete passageiros descem do ônibus e dois sobem. Há mais duas paradas nas quais quatro pessoas desembarcam a cada vez, três entram em uma parada e nenhuma na outra. Neste momento, o ônibus pára devido a problemas mecânicos. Alguns passageiros estão com pressa e decidem ir a pé. Portanto, oito pessoas descem do veículo. Quando o problema mecânico é resolvido, o ônibus vai para a última parada, e o restante dos passageiros desembarca.
Agora, sem reler o parágrafo, verifique se pode responder duas perguntas a respeito dele. Tenho certeza de que se lhe pedisse para contar-me agora quantas pessoas saíram do ônibus ou quantas entraram na última parada, você teria a resposta no mesmo instante. Entretanto, uma das perguntas que desejo fazer é a seguinte: Quantas paradas o ônibus fez no total?
Pode ser que me engane, mas não creio que muitas pessoas conseguirão responder esta pergunta. Naturalmente, o motivo é que se
achavam seguras de que, após aleitura do parágrafo, a pergunta feita por mim iria relacionar-se à totalidade dos passageiros que desembarcaram e embarcaram no ônibus. Estavam interessadas no número de pessoas. Em resumo, queriam saber ou lembrar quantos indivíduos ficaram no veículo. Como não pensavam que o número de paradas era importante, não se detiveram muito nesse ponto. Não se interessaram pelo número total das paradas e não se lembraram dele.
Contudo, se alguns leitores estivessem convictos de que a totalidade das paradas era importante ou se acreditassem que seriam interrogados sobre este aspecto específico, então na certa saberiam a resposta da primeira indagação ou se recordariam do número de paradas que o ônibus fez. Também neste caso, simplesmente por estarem interessadas ou quererem obter esta informação específica.
Se você está exultante porque respondeu minha pergunta, não fique assim, pois duvido que acerte a segunda. Um bom amigo meu que trabalha no Grossinger, um grande hotel de veraneio onde costumo apresentar-me, a inclui nos seus testes de brincadeira realizados à tarde. Sei que uma percentagem muito pequena dos convidados acerta a resposta algumas vezes, se não nunca. Sem tornar a olhar para o primeiro parágrafo, responda esta pergunta: Qual o nome do motorista do ônibus?
Como já disse, duvido que alguém seja capaz de respondê-la corretamente, se responder. Na verdade, é mais um truque de observação do que um teste de memória. Utilizo-o Se lhe tivesse dito antes de ler esta história do “ônibus” que aqui só para mostrar a importância do interesse na memória. pediria o nome do motorista, ter-se-ia interessado pelo nome. Desejaria notar e lembrar-se dele.
Ainda assim, esta é o tipo de indagação capciosa e você talvez não seja bastante observador a ponto de respondê-la. Por falar nisto, este é um princípio aplicado há anos por muitos mágicos profissionais. E chamado de desorientação”. Significa tão-somente que o movimento importante em um truque, o que na verdade é o modus operandi, fica em segundo plano ou é disfarçado com outro que nada tem a ver com o truque, mas que leva a pessoa a crer que é o ato importante. Este é o movimento que vai observar e recordar. Aquilo que fez o truque funcionar passa desapercebido, e é por esta razão que o espectador é enganado inteiramente. Ao descrever um truque de mágica, a maioria das pessoas tornará o efeito tão impossível que, se o próprio mágico estivesse ouvindo, não acreditaria nele. Só porque excluíram todo o movimento fundamental na descrição. Afora o truque da ‘‘caixa” ou os que funcionam sozinhos mecanicamente, os mágicos passariam um mau pedaço iludindo as platéias, se não fosse pela arte da “desorientação”.
Bem, “desorientei” você ao fazê-lo pensar que ia perguntar uma coisa e, então, indaguei outra que nem chegou a notar. Creio que já o mantive em suspense por longo tempo. É provável que esteja ansioso para saber a resposta da segunda pergunta. Na verdade, a primeira palavra do parágrafo lhe diz quem é o motorista. A primeira palavra é “você”. A resposta correta à pergunta “Qual é o nome do motorista?” é o seu próprio nome! Você estava dirigindo o ônibus. Tente isto com seus amigos e veja como só alguns deles conseguem acertar a resposta.
Como afirmei antes, este é um teste mais de observação do que de memória. Porém memória e observação estão realmente de mãos dadas. E impossível lembrar-se de qualquer coisa que não se observa. E é extremamente difícil observar ou lembrar-se de algo que não se quer recordar ou que não se está interessado em memorizar.
E lógico que isto leva a uma óbvia regra de memória. Se quer melhorar logo sua memória, force a si mesmo a querer lembrar. Procure forçar-se a ficar interessado o suficiente a ponto de observar qualquer coisa que deseje recordar ou reter. Digo “forçar-se” porque no início talvez seja necessário um pequeno esforço. Entretanto, em um tempo surpreendentemente curto, você se descobrirá querendo lembrar de tudo. O fato de estar lendo este livro já é um passo à frente. Não estaria fazendo isso, se não desejasse recordar ou se não estivesse interessado em melhorar a memória.k”Sem motivacão, não pode haver lembrança.”
Além da intenção de recordar, a certeza de que vai lembrar também é útil. Se a pessoa atacar qualquer problema de memória com o pensamento de vou lembrar, com muita freqüência o conseguirá. Pense na memória como uma peneira. Todas as vezes em que acha ou diz “tenho uma memória horrível” ou “nunca serei capaz de lembrar-me disso”, faz outro buraco na peneira. Por outro lado, se disser “tenho uma memória maravilhosa” ou ‘irei lembrar-me disto com facilidade”, estará vedando um desses buracos.
Muitas pessoas que conheço indagam-me invariavelmente por que não conseguem recordar-se de uma coisa, muito embora anotem por escrito tudo o que querem lembrar. Bem, isso é como perguntar por que não podem nadar direito, mesmo amarrando em torno do pescoço uma pedra de 10 quilos. É provável que o simples fato de realmente escreverem seja o motivo do esquecimento. Ou melhor, razão pela qual não se lembraram em primeiro lugar. No que me diz respeito, a frase “esqueci”não deve constar da linguagem. Devia ser “não me lembrei antes”.
Não podemos esquecer algo que realmente não lembramos. Se anotássemos as coisas por escrito com a intenção de auxiliar a memória ou com o pensamento consciente de ajudar-nos a ser exatos com a informação, isto seria ótimo. No entanto, usar lápis e papel como substitutos para a memória (o que a maioria das pessoas faz) decerto não vai melhorá-la, A caligrafia talvez melhore, ou a velocidade com que escrevemos, mas a memória irá piorar, devido à negligência e falta de uso. Entenda, costumamos escrever as coisas somente por causa da recusa ou preguiça excessiva em dedicar tempo e um pequeno esforço para recordar. Oliver Wendell Holmes colocou a situação dessa maneira:Um homem precisa obter uma coisa antes de poder esquecê-la.
Por favor, tenha em mente que a memória gosta que confiem nela. Quanto mais confiamos na memória, mais útil confiável ela se torna. Anotar tudo em um papel, sem tenta lembrar, contrapõe-se a todas as regras básicas para ter-se uma memória melhor e mais forte. Você não está confiando na memória, não está exercitando-a e seu interesse não intenso o bastante para retê-la, se precisa escrever tudo.
* Aqui há um jogo de palavras entre os termos get (obter) e forget (esquecer) imposssivel de traduzir. (N. Da T.)
Lembre-se de que pode perder o papel ou o caderno de notas, mas não a cabeça. Se me permitem fazer uma pequena piada, se você perde a cabeça, não importa muito lembrar ou não, certo?
Falando sério, se está interessado em recordar, se tem a certeza confiante de que lembrará, não precisa escrever coisa alguma. Quantos pais queixam-se sempre de que os filhos têm péssima memória porque não conseguem recordar-se do dever escolar e, conseqüentemente, obtêm notas baixas? Contudo, algumas dessas mesmas crianças podem lembrar-se de cada gol marcado pelo craque do time pelo qual torcem, quando foi o jogo, contra que adversário, bem como conhecem as regras do futebol. Se são capazes de lembrar-se desses fatos e números tão bem e com tanta facilidade, por que não memorizam as lições no colégio? O único motivo é que se interessam pelo beisebol mais do que pela álgebra, história, geografia e outras matérias escolares.
O problema não está na memória mas na falta de interesse. A prova central disso é o fato de que a maioria das crianças supera-se no mínimo em uma determinada matéria, muito embora tenha notas baixas em todas as outras. Se um estudante possui boa memória para um assunto, é um bom estudante naquele tema. Se não pode memorizar ou tem memória fraca no outro, será um mau estudante naquela matéria. É simples assim. Entretanto, isto prova que o estudante realmente possui boa memória nas coisas de que gosta
ou nas quais está interessado.
Muitos leitores que completaram o curso de 2°. grau precisaram estudar uma ou duas línguas estrangeiras. Ainda se lembram dessas línguas? Duvido muito. Se você tivesse viajado para outros países ou lugares onde se falassem essas determinadas línguas, muitas vezes desejaria ter prestado mais atenção na escola. Obviamente, se soubesse que viajaria para tais lugares quando estava na escola, mostraria interesse em aprender a língua. Iria fazê-lo. Ficaria surpreso em descobrir o quanto suas notas iriam melhorar. Sei que isto é verdade no meu caso.
Se eu soubesse então que quereria conhecer essas línguas, iria aprender ou recordar com muito mais facilidade. Infelizmente, não tinha uma memória treinada naquela época.
Muitas mulheres reclamam que sua memória é atroz e que não são capazes de lembrar-se de nada. Essas mesmas mulheres vão descrever e lembrar em detalhes o que uma amiga vestia, quando se encontraram semanas atrás.
Em geral podem localizar outra mulher viajando em um carro a mais de 40 quilômetros por hora e escrever o que estava vestindo; as cores, o estilo do penteado, se o cabelo era natural ou pintado e qual é sua idade aproximada!
É provável que cheguem até a saber quanto dinheiro a outra possuía. E lógico que isto foge do campo da memória e começa a tocar na área dos poderes psíquicos. O aspecto fundamental, o que estou tentando acentuar neste capítulo, é que o interesse é de enorme importância para a memória. Se a pessoa pode recordar-se de coisas pelas quais se interessa a tal ponto, fica comprovado que tem de fato uma boa memória. Isso também prova que se estivesse tão interessada
assim por outras coisas, seria capaz de lembrar-se delas da mesma forma.
A providência a tomar é decidir que vai interessar-se em recordar nomes, rostos, datas, números, fatos, qualquer coisa, e que terá confiança na capacidade de retê-los. Por si só, sem os atuais sistemas e métodos de associação presentes neste livro, isto melhorará sua memória a um grau detectável. Com os sistemas de associação servindo de ajuda para uma memória real, o leitor está a caminho de adquirir uma memória surpreendentemente notável e retentiva. Pode começar a provar isso a si próprio no próximo capítulo.