Contos de Grimm
A Serpente Branca
Imagem: Walter Crane
Há muitos, muitos anos, vivia um rei muito celebrado por sua sabedoria. Nada era oculto para ele. Era como se o conhecimento das coisas mais secretas chegasse até ele pelo ar. Mas tinha um estranho costume. Quando a refeição do meio-dia acabava, a mesa era tirada e não havia mais ninguém presente, um criado de con ança trazia-lhe um prato a mais. Esse prato era coberto. Nem mesmo o criado sabia o que havia ali dentro. Nem ele nem mais ninguém, porque o rei só tirava a tampa e comia depois de car sozinho.
Um dia o criado não aguentou mais a curiosidade e secretamente levou o prato para o seu quarto, trancou a porta com cuidado e, quando levantou a tampa, viu que dentro havia uma serpente branca.
Depois de ver a cobra, não resistiu a provar semelhante iguaria. Cortou um pequeno pedaço e o pô-lo na boca. Assim que o pedacinho da serpente tocou a língua dele, o criado começou a ouvir estranhos sussurros do lado de fora da janela. Quando se debruçou para ver o que era, descobriu que as vozes que murmuravam eram de pardais a conversar, contando uns aos outros o que tinham visto pelos bosques e campos. Provar a serpente tinha-lhe dado o poder de entender a linguagem das aves e dos animais.
Ora, aconteceu que justamente naquele dia desapareceu o melhor anel da rainha. Como o criado de con ança tinha toda a liberdade para ir onde bem entendesse no palácio, suspeitaram que fosse ele o ladrão. O rei mandou-o chamar e ameaçou-o, dizendo que, a não ser que ele desse o nome do ladrão até ao dia seguinte, seria considerado culpado e decapitado. Não adiantou ao criado jurar inocência. O rei mandou-o embora sem uma palavra de consolo. Com medo e sentindo-se desgraçado, foi até ao quintal e cou a pensar, vendo se encontrava uma maneira de sair daquela situação. Alguns patos estavam calmamente sentados à beira de um riacho, à vontade, alisando-se com o bico e a conversarem uns com os outros. O criado parou e escutou. Cada um dizia aos outros o que tinha acontecido em todos os lugares por onde tinha nadado naquela manhã, e toda a comida saborosa que tinha comido. Mas um deles disse, queixoso:
— Estou com um peso no estômago... Estava a comer tão depressa que engoli um anel que estava no chão por baixo da janela da rainha...
O criado rapidamente agarrou o pato pelo pescoço, levou-o para a cozinha e disse ao cozinheiro:
— Olha só que pato tão gordo... Diz lá se não está bom para assar.
— — — É mesmo... disse o cozinheiro, pesando o pato com a mão. Já que ele se esforçou para ganhar tanto peso, é tempo de ir para o forno.
Cortou o pescoço do pato e depois, enquanto estava a limpava ave para antes de a assar, encontrou o anel da rainha no estômago dela. Com isso, não foi difícil o criado convencer o rei de sua inocência.
Querendo reparar a injustiça que tinha feito, o rei perguntou-lhe se havia alguma coisa que ele desejasse e ofereceu-lhe o cargo que ele quisesse escolher na corte.
O criado recusou todas as honras e disse que só queria um cavalo e um pouco de dinheiro, porque desejava viajar e conhecer o mundo. O rei deu-lhe o que pediu, e o criado partiu.
Um dia, passando por um lago, viu três peixes presos nuns caniços e que estavam a car sem água. Dizem que os peixes são mudos, mas ele ouviu muito bem como eles gemiam, lamentando-se da morte horrível que os esperava. Como era um bom sujeito, o criado desceu do cavalo e pôs os três cativos novamente na água. Estes puseram então as cabecinhas de fora, abanando-se de alegria, e disseram:
— Vamos lembrar-nos disto e recompensar-te por nos ter salvado.
Imagem: Arthur Rackham
O criado continuou o seu caminho e, pouco depois, ouviu uma voz que vinha do chão. Prestou atenção e ouviu a queixa do rei das formigas:
— Se os humanos conseguissem manter os seus animais desajeitados bem longe de nós, seria ótimo! Este cavalo estúpido com esses cascos imensos e pesados está a esmagar o meu povo sem piedade...
Ouvindo isso, o criado saiu por um caminho lateral, e o rei das formigas gritou:
— Vamos lembrar-nos disto e recompensar-te...
O caminho levava a uma oresta. Lá, ele viu um casal de corvos empurrando os lhotes para fora do ninho:
— — — Fora, seus marotos! gritavam. Não podemos continuar a encher-vos as barrigas. Já estais bem grandinhos para procurardes a vossa própria comida.
Os pobres lhotes batiam as asas desajeitados e não conseguiam levantar-se do chão.
— — — Ainda somos lhotes indefesos... gritavam. Como é que podemos arranjar comida se ainda nem sabemos voar? Vocês vão nos fazer morrer de fome!
Ouvindo isso, o bondoso jovem apeou-se, matou o cavalo com a espada e deu a sua carne para alimentar os pequenos corvos. Eles vieram saltitando, comeram até se fartar, e disseram:
— Vamos lembrar-nos disto e recompensar-te.
Daí para a frente, ele teve de usar as pernas. Depois de muito caminhar, chegou a uma grande cidade. As ruas estavam cheias de barulho e movimento. Um homem a cavalo anunciava que a lha do rei estava a procura de marido, mas que quem quisesse pedir a mão dela precisava primeiro de cumprir uma tarefa muito difícil e, se falhasse, perderia a vida. Muitos já tinham tentado, mas arriscaram a vida à toa.
Quando o jovem viu a lha do rei, cou tão estonteado com a beleza dela que se esqueceu do perigo, foi até junto do rei e apresentou-se como pretendente.
Foi levado diretamente à beira do mar. Lá, diante dos seus olhos, atiraram à água um anel de ouro. Depois, o rei disse-lhe que ele precisaria de ir buscar o anel lá no fundo. E acrescentou:
— Se saíres da água sem ele, será de novo atirado para lá, tantas vezes quantas necessário, até morreres nas ondas.
Os cortesãos caram todos com pena do jovem e lamentaram sua sorte. Depois, deixaram-no sozinho na praia.
Ele cou um pouco ali parado, pensando no que ia fazer. De repente, viu três peixes nadando na sua direção — justamente os três cujas vidas ele tinha salvado. O do meio tinha uma concha na boca. Depositou-a na praia, junto aos pés do rapaz.
Quando ele pegou na concha e a abriu, viu que dentro estava o anel de ouro.
Todo contente, levou o anel até ao rei, esperando receber a recompensa prometida. Mas a princesa era muito petulante e, quando viu que ele era inferior a ela em nascimento, desprezou-o e disse que ele ia precisar de cumprir uma segunda tarefa.
Desceu até ao jardim e espalhou dez sacos de farelo no meio da relva.
— — Vais ter de recolher tudo isso até amanhã, antes de o Sol nascer disse ela —, sem faltar nem um grãozinho.
O rapaz sentou-se no jardim e começou a pensar numa forma de cumprir a tarefa, mas não lhe ocorria nada. E lá cou ele, tristíssimo, esperando que o levassem para a morte quando o dia nascesse. Mas quando os primeiros raios do sol chegaram ao jardim, ele viu que os dez sacos estavam de pé, cheios até a borda, sem faltar nem um grãozinho. O rei das formigas tinha vindo durante a noite, com milhares e milhares de formigas, e os bichinhos agradecidos tinham juntado todos os grãos de farelo dentro dos sacos outra vez.
A lha do rei veio em pessoa até o jardim e cou espantadíssima de ver que a tarefa tinha sido cumprida. Mas seu coração prosa ainda se recusava a se render.
Por isso, ela disse:
— Ele cumpriu as duas tarefas. Mas não será meu marido enquanto não me trouxer um fruto da árvore da vida.
O rapaz nem sabia onde cava essa árvore da vida. Partiu à sua procura, resolvido a andar até onde as pernas o levassem, mas sem qualquer esperança de a encontrar.
Uma noite, depois de procurar por três reinos, ele chegou a uma oresta. Sentou-se debaixo de uma árvore e estava quase a adormecer quando ouviu um barulho nos galhos e uma fruta de ouro caiu-lhe nas mãos. Ao mesmo tempo, três corvos desceram voando da árvore, pousaram-lhe nos joelhos e disseram:
— Nós somos os lhos de corvo que tu não deixaste morrer de fome. Quando crescemos e ouvimos dizer que estavas à procura da fruta de ouro, voámos por cima do mar até o m do mundo, onde cresce a árvore da vida, e apanhámos a fruta.
Imagem: Walter Crane
Muito contente, o rapaz voltou para casa. Deu a fruta de ouro à princesa e, depois disso, ela já não tinha mais desculpas. Dividiram a fruta da vida e a comeram juntos. Aí o coração dela se encheu-se de amor por ele, e os dois viveram felizes para sempre.