Contos de Grimm

Jacob e Wilhelm Grimm · Capítulo 2 de 16

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Contos de Grimm

O Capuchinho Vermelho

 

Era uma vez uma menina muito doce e muito meiga. Como era muito simpática, toda a gente gostava muito dela.

Um dia, a avó deu-lhe um capuchinho de veludo vermelho. A menina gostou muito do presente, passou a andar sempre com ele e, daí em diante, passaram a chamar-lhe «Capuchinho Vermelho».

Certo dia, a mãe chamou-a e disse-lhe:

— Leva este bolo e esta garrafa de vinho à tua avó que está doente e bastante fraca. Isto vai fazer-lhe bem. Vai sempre pelo caminho da oresta e não te afastes.

O Capuchinho Vermelho prometeu que se portaria bem, pegou na cesta com a comida e partiu depois de se despedir da mãe.

A avó morava no meio da oresta, longe da vila. Assim que a menina entrou na

oresta, apareceu um Lobo muito grande, mas ela não sentiu medo nem

descon ou das suas más intenções, porque era muito inocente.

— — Bom dia, Capuchinho Vermelho cumprimentou o Lobo.

— — Bom dia, Lobo respondeu ela, delicadamente.

— Onde vais tão cedo, Capuchinho?

— Vou a casa da minha avó.

— E o que levas na cesta?

— Levo um bolo e uma garrafa de vinho. A minha avó está doente e estas guloseimas vão deixá-la forte e saudável.

 

Imagem: Gustave Doré

— — Onde mora a tua avó? quis saber o Lobo.

— Ainda falta um pouco para lá chegarmos. A casa dela tem uma sebe de aveleira e ca por baixo de três grandes carvalhos. Deves conhecê-la — informou a menina.

«Hum… que menina tão tenrinha! Se me despachar, posso almoçar a avó e saboreá-la à sobremesa.» — pensou o Lobo.

— Olha à tua volta, Capuchinho Vermelho. Já reparaste como são lindas as

ores desta oresta? Ouve o canto dos pássaros! És muito séria e caminhas sem

ver a beleza que te rodeia. Olha para a oresta!

O Capuchinho Vermelho olhou em volta e viu os raios de Sol por entre a ramagem, o tapete de lindas ores que cobria o chão da oresta e pensou: «Se

zer um ramo com estas bonitas ores, tenho a certeza que a minha avó vai car muito feliz.»

Saiu do caminho e entrou na oresta para apanhar ores. Sempre que colhia uma or, via mais adiante outra ainda mais bonita. Por isso, foi-se afastando cada vez, embrenhando-se na oresta.

Enquanto isso, o Lobo correu para casa da avó e bateu à porta.

— — Quem é? perguntou a velhinha.

— — Sou eu, o Capuchinho Vermelho respondeu o Lobo, disfarçando a voz. — Trago um bolo e uma garrafa de vinho. Pode abrir-me a porta, avozinha?

— A porta está aberta. Levanta a tranca e entra. Não posso sair da cama porque estou muito fraca — respondeu a avó.

Foi o que o Lobo quis ouvir! Entrou em casa, correu para a cama e engoliu a avó num instante. Depois, vestiu as roupas da velhinha, cobriu a cabeça com uma toca, correu as cortinas da cama e deitou-se à espera do Capuchinho Vermelho.

Entretanto, a menina continuava na oresta a apanhar ores. Quando já tinha um ramo muito grande voltou ao caminho e continuou a andar para casa da avó.

Quando lá chegou, viu que a porta estava aberta. Surpreendida, entrou na sala e olhou em volta.

— «Por que será que sinto tanto medo? Não é costume sentir-me assim em casa da minha avozinha…» — pensou ela.

Imagem: Gustave Doré

Aproximou-se da cama da avó e correu as cortinas. A avó estava deitada, com a toca na cabeça cobrindo-lhe parte do rosto. Parecia muito estranha…

— Avó, tens umas orelhas tão grandes!

— É para te ouvir melhor.

— Avó, tens uns olhos tão grandes!

— São para te ver melhor.

— Avó, tens umas mãos tão grandes!

— São para te abraçar melhor.

— Avó, tens uma boca tão grande e horrível!

— É para te comer melhor.

Dizendo isto, o Lobo saltou da cama e engoliu a menina. Depois, voltou a deitar-se, adormeceu e começou a ressonar muito alto.

Pouco depois, um caçador passou perto da casa. Ouviu o barulho e achou muito estranho que uma velhinha ressonasse tão alto. Resolveu ir ver o que se passava.

Entrou em casa e deu de caras com o Lobo deitado na cama. Percebeu logo o que se passara e pensou: «Deve ter comido a velhinha, mas talvez ela ainda esteja viva. Não posso dar-lhe um tiro».

Pegou numa tesoura e abriu a barriga do Lobo. Assim que começou a cortar, viu a ponta de um Capuchinho Vermelho. Cortou mais e a menina saltou cá para fora, exclamando:

— … Tive tanto medo! Lá dentro está muito escuro

A avó ainda estava viva e também se salvou.

Então a menina pegou numas pedras bem grandes e pesadas e colocou-as dentro da barriga do Lobo. Quando este acordou tentou fugir, mas não conseguiu porque as pedras pesavam muito. Caiu no chão e morreu.

O caçador cou com a pele do Lobo. A avó comeu o bolo e bebeu o vinho que a neta lhe tinha trazido. O Capuchinho Vermelho pensou: «Nunca mais vou desobedecer à minha mãe e andar sozinha pela oresta»!