Contos de Grimm

Jacob e Wilhelm Grimm · Capítulo 1 de 16

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Contos de Grimm

Músicos de Bremen

 

Era uma vez um burro que tinha trabalhado durante muitos anos para o seu dono, acartando sacos de milho. Com o tempo, foi perdendo as forças e acabou por não conseguir trabalhar como antigamente. Então o dono começou a pensar em desfazer-se dele. Mas o burro, adivinhando a sua intenção, fugiu e pôs-se a caminho da cidade de Bremen.

— Em Bremen posso tornar-me músico — pensava ele enquanto caminhava.

Depois de andar um pouco, encontrou, à beira da estrada, um cão de caça que arfava como se tivesse acabado de correr muito.

— — Por que respiras assim com tanta di culdade? perguntou o burro.

— Ah, sabes lá! Como estou velho e cada dia que passa me sinto mais fraco, já não posso caçar. O meu dono queria matar-me, mas eu fugi a sete pés. Mas, agora, o que vai ser de mim? — queixou-se o cão.

— — — Por que não vens comigo para Bremen? perguntou o burro. Vou tornar-me músico da cidade e tocar alaúde. Tu podias tocar tambor…

O cão concordou e meteram-se ambos ao caminho.

Andaram algum tempo até que encontraram um gato que estava muito, muito triste.

— — — Então, meu velho, o que é que te aconteceu? perguntou o burro. Não pareces muito animado.

— — Quem é que pode andar alegre quando se tem a vida em risco? queixou-se o Gato. — Como estou velho e me apetece mais enroscar-me à lareira do que caçar ratos como antigamente, a minha dona quis afogar-me e eu fugi. Mas, agora, o que será de mim?

— — — Vem connosco para Bremen convidou o burro. Podes ser um músico como nós e entrar para a banda da cidade.

O Gato concordou e foi com eles.

Pelo caminho passaram por uma quinta e viram um galo empoleirado numa cancela. Cantava a plenos pulmões.

— — — Eh, queres deixar-nos surdos? perguntou o burro. Porque te esganiças tanto?

— — — Amanhã é domingo explicou o galo e a minha dona tem convidados. Mandou a cozinheira cortar-me o pescoço logo à noite e meter-me na panela. Por isso, canto enquanto posso.

— — — É melhor vires connosco convidou o burro. Nós vamos para Bremen e sempre é melhor do que ires para a panela. Tens uma bela voz e juntos faremos um belo quarteto.

O galo concordou e lá seguiram os quatro. Mas como a cidade de Bremen ainda cava longe, resolveram passar a noite numa oresta.

O burro e o cão deitaram-se debaixo de uma árvore e o gato e o galo aninharam-se nos seus ramos. O galo escolheu um dos ramos do topo da árvore porque aí se sentia mais seguro. Antes de adormecer, olhou em volta e viu ao longe uma luz a brilhar na escuridão. Chamou os amigos e disse-lhes que, naquela direção, havia com certeza uma casa.

— — — Vamos até lá propôs o burro. Aqui não estamos lá muito bem instalados.

O cão também pensou que lá pudesse encontrar um par de ossos com alguma carne agarrada, por isso concordou e puseram-se todos a caminho.

Guiados pela luz, acabaram por chegar a uma velha casa que era a nal um esconderijo de ladrões.

O burro, como era o mais alto, aproximou-se da janela e espreitou para dentro.

— — O que vês? perguntou o cão.

— Vejo uma mesa repleta de coisas boas e quatro ladrões que se estão a banquetear à farta — respondeu o burro.

— — De um manjar assim é que nós precisávamos disse o galo.

— … — Ah, se ao menos pudéssemos lá entrar acrescentou o burro, cheio de fome.

Conversaram durante algum tempo e, por m, os quatro amigos tiveram uma ideia para expulsar os ladrões.

Imagem: Walter Crane

O burro apoiou as patas dianteiras no parapeito da janela, o cão saltou para cima dele, o gato saltou para cima do cão e o galo voou para cima do gato. Depois, começaram a fazer barulho, cada um à sua maneira: o burro zurrou, o cão ladrou, o gato miou e o galo cantou. Enquanto faziam este concerto, saltaram através da janela, partindo os vidros com um grande estrondo. Os salteadores pensaram que se tratava de um fantasma horrível e fugiram a sete pés, rumo à oresta.

Muito satisfeitos, os quatro amigos sentaram-se à mesa e comeram tranquilamente até se fartarem. Depois, apagaram a luz e procuraram um sítio para dormir. O burro deitou-se num monte de palha que havia no pátio, o cão deitou-se atrás da porta das traseiras, o gato enroscou-se junto das brasas da lareira e o galo empoleirou-se numa das traves do teto da casa. Como estavam muito cansados adormeceram num instante.

Por volta da meia-noite os salteadores voltaram. Estava tudo às escuras e não se ouvia barulho nenhum.

— — Não nos devíamos ter deixado assustar daquela maneira disse o chefe, e mandou um dos seus homens à frente para examinar a casa.

O homem entrou e dirigiu-se à lareira para acender uma vela. Os olhos do gato brilhavam no escuro e o ladrão pensou que eram duas brasas. Aproximou um fósforo do focinho do gato para o acender. O gato não gostou da brincadeira e saltou-lhe para a cara, arranhando-a muito, enquanto miava e soprava. O ladrão apanhou um valente susto e quis fugir pela porta das traseiras, mas o cão atirou-se a ele e ferrou-lhe uma valente dentada na perna. Cada vez mais aterrorizado, o homem lançou-se a correr pelo pátio, passando perto do burro que lhe deu dois valentes coices. Nisto, o galo acordou em sobressalto e pôs-se a cantar:

— Có-có-ró-có-có! Có-có-ró-có-có!

O ladrão fugiu o mais depressa que pode. Quando chegou perto dos outros, gritou apavorado:

— Estamos perdidos! Está uma bruxa horrorosa sentada à lareira que me arranhou a cara com as suas unhas enormes. Junto à porta está um homem que me esfaqueou a perna. No pátio está um monstro que me encheu de pauladas. Em cima do telhado está o chefe deles todos que gritou: «Corre senão comes! Corre senão comes!» Foi o que z, para não apanhar mais.

Imagem: Walter Crane

Os salteadores nunca mais se atreveram a voltar àquela casa.

Quanto aos quatro músicos de Bremen, sentiram-se tão bem por lá que resolveram nunca mais sair…