Contos de Grimm

Jacob e Wilhelm Grimm · Capítulo 10 de 16

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Contos de Grimm

Os Dois Irmãos

 

Era uma vez dois irmãos, um rico e outro pobre. O rico era ourives e malvado até não poder mais. O pobre ganhava a vida fabricando vassouras e era bom e honesto.

O pobre tinha dois lhos, dois gémeos iguaizinhos como duas gotas de água. De vez em quando, eles iam até à casa do rico e, às vezes, ganhavam umas sobras de comida.

Um dia, o fabricante de vassouras foi até ao bosque apanhar uns gravetos de bétula e viu um pássaro todo dourado, mais bonito do que qualquer outra ave que ele jamais tivesse visto. Pegou numa pedra a atirou-a ao pássaro, atingindo-o de raspão. Uma pena caiu ao chão e o animal voou e foi-se embora.

O homem pegou na pena e levou-a até ao irmão, que olhou para ela e disse:

— Mas é de ouro puro!

E deu muito dinheiro por ela.

No dia seguinte, o fabricante de vassouras subiu a uma bétula, para arrancar alguns galhos. De repente, viu o mesmo pássaro saindo a voar da árvore. Olhou em volta e acabou por encontrar um ninho com um ovo dentro, um ovo de ouro. Pegou no ovo, levou-o para casa e o mostrou-o ao irmão, que mais uma vez disse:

— É de ouro puro!

E deu-lhe de novo uma elevada quantia por ele.

Finalmente, o ourives disse:

— Gostaria de ter esse pássaro.

Pela terceira vez, o fabricante de vassouras foi até ao bosque. Novamente, viu o pássaro dourado, desta vez pousado num galho, e, atirando-lhe uma pedra nele, matou-o. Levou o pássaro ao irmão, que novamente lhe deu um dinheirão.

Agora vou poder refazer a vida — pensou o fabricante de vassouras. E foi para casa.

Acontece que o ourives era esperto e sabia que tipo de pássaro era aquele. Chamou a mulher e disse:

— Quero que asses este pássaro com todo cuidado e não deixes perder nem um pedacinho dele. Quero comê-lo todo, sozinho. Fica a saber que este pássaro não era como os outros. Tinha uma coisa maravilhosa: quem lhe comer o coração e o fígado passará a achar, todas as manhãs, uma moeda de ouro debaixo do travesseiro.

A mulher limpou o pássaro e o pô-lo num espeto para assar. Enquanto assava, ela teve de sair da cozinha por causa de algum outro trabalho, e nesse e momento chegaram os lhos do fabricante de vassouras. Pararam em frente ao fogo, rodaram o espeto algumas vezes e, quando dois pedacinhos pequenos caíram na panela, um dos dois rapazes disse:

— Vamos comer esses pedacinhos? Estou com tanta fome... E ninguém vai reparar.

E puseram os dois pedacinhos na boca.

Quando a mulher voltou, viu que eles tinham comido alguma coisa e perguntou:

— O que é que vocês estiveram a comer?

— — Uns pedacinhos que caíram dessa ave disseram eles.

— — Eram o coração e o fígado! gritou a mulher, a ita.

Como ela não queria que o marido desse pela falta e casse zangado, rapidamente matou um frango, tirou o coração e o fígado e os pô-los dentro do pássaro dourado. Quando a ave cou pronta, ela serviu-a ao ourives, que comeu tudo sozinho. Mas na manhã seguinte, quando ele pôs a mão debaixo do travesseiro, esperando encontrar uma moeda de ouro, não havia nada diferente de todos os outros dias.

Os dois meninos nem descon avam de sua boa sorte. Quando se levantaram no dia seguinte, alguma coisa caiu no chão, tilintando. Quando olharam, viram que eram duas moedas de ouro. Mostraram-nas ao pai, que cou muito espantado:

— — Que será isso? perguntou. Mas, no dia seguinte, quando acharam outras duas, e mais duas na manhã a seguir, e assim por diante, ele resolveu ir procurar o irmão e contar aquele caso estranho.

Imediatamente, o ourives descobriu que as crianças tinham comido o fígado e o coração do pássaro dourado. Mas ele era um homem invejoso e sem piedade e, para se vingar, disse ao pai dos meninos:

— Os teus lhos zeram um pacto com o diabo. Não ques com esse ouro, nem deixes que ele que guardado em tua casa, porque o diabo já se apossou dos teus lhos e, se não tomares cuidado, vai acabar por te destruir também.

O pai tinha muito medo do diabo. Por mais que lhe custasse fazer uma coisa dessas, levou os gémeos para a oresta e lá, com o coração apertado, abandonou os dois.

As crianças andaram e andaram, procurando o caminho de casa, mas não o conseguiram achar. Quanto mais andavam, mais se perdiam. Finalmente, encontraram um caçador, que perguntou:

— Quem são vocês? De onde é que vocês vêm?

— — Somos os lhos do pobre fabricante de vassouras responderam.

E contaram-lhe que o pai não podia car com eles em casa, porque todas as manhãs apareciam duas moedas de ouro debaixo dos travesseiros deles.

— — — Não há nada de mal nisso disse o caçador , desde que vocês continuem a ser bons e honestos e não comecem a car preguiçosos.

O bom homem gostou das crianças. Como não tinha lhos, resolveu tomar conta dos meninos e disse:

— Eu vou ser vosso pai e tomarei conta de vós.

E fez isso mesmo: criou os dois e ensinou-os a caçar. Eles continuaram a achar moedas de ouro todas as manhãs, mas o caçador guardava-as com cuidado, para o caso de algum dia eles precisarem.

Um dia, quando eles já tinham crescido e estavam uns homens feitos, o pai adotivo levou-os à oresta e disse:

— Hoje eu vou testar a vossa perícia como atiradores. Se passardes no teste, deixareis de ser aprendizes e eu vou declarar-vos mestres-caçadores.

Foram todos para o esconderijo de caça e caram muito tempo à espera, escondidos, mas não apareceu nenhum animal. Depois, o caçador viu que vinha no céu um bando de gansos selvagens, voando numa formação em triângulo, e disse a um dos rapazes:

— Abate um em cada ponta.

O rapaz acertou e passou no teste.

Daí a pouco, outro bando chegou, desta vez voando na forma do número dois. O caçador disse ao outro irmão que acertasse num ganso em cada canto, e ele também passou no teste. Diante disso, o pai de criação exclamou:

— Muito bem! Sois agora mestres-caçadores.

Então os dois irmãos foram juntos para a oresta, pensaram, conversaram muito e combinaram um plano. De noite, disseram ao pai adotivo:

— Resolvemos que não vamos tocar num único bocado de comida enquanto o senhor não nos zer um favor.

— — E qual é esse favor? perguntou ele.

— — — Já aprendemos bem nosso ofício replicaram. Agora devemos pôr-nos à prova, a nós mesmos. Queremos sair para correr mundo.

O velho cou feliz e respondeu:

— Falais como caçadores de verdade. Era isso mesmo o que eu esperava. Podeis ir. Tenho certeza de que tudo vai correr bem.

E então eles comeram e beberam juntos, muito alegres.

Quando chegou o dia em que tinham resolvido partir, o pai adotivo deu a cada um uma boa arma e um cão, e disse-lhes que levassem com eles todas as moedas de ouro que quisessem, daquelas que estavam guardadas. Seguiu com eles uma parte do caminho e, na despedida, deu aos dois uma faca com a lâmina muito brilhante.

— — — Se algum dia vos separardes recomendou , en ai esta faca numa árvore na encruzilhada. Dessa maneira, se um de vós voltar, vai poder saber como está o irmão ausente, porque o lado da lâmina que estiver na direção em que ele foi vai enferrujar se ele morrer. Mas, enquanto ele estiver vivo, continuará brilhante.

Os dois irmãos continuaram, indo cada vez mais para longe, e chegaram a uma

oresta tão grande que não foi possível atravessá-la num único dia. Pararam

para passar a noite e comeram o que tinham nos seus sacos de caça. Depois, caminharam outro dia inteiro, mas ainda não conseguiram chegar ao m da

oresta. Não tinham mais nada para comer e um dos irmãos disse:

— Vamos ter de abater alguma caça ou car com fome.

Carregou a arma e olhou em volta. Quando uma velha lebre apareceu, ele fez pontaria, mas a lebre gritou:

— Bom caçador, deixa-me viver e dou-te em troca dois pequenos.

Saiu a correr para dentro de uma moita e voltou com dois lhotes de lebre.

As lebrinhas brincavam tão alegres e eram tão engraçadas que os caçadores não tiveram coragem de matá-las. Então, resolveram poupá-las e elas começaram a segui-los.

Daí a pouco, apareceu uma raposa. Eles iam disparar, mas a raposa gritou:

— Bom caçador, deixa-me viver e dou-te em troca dois pequenos.

É claro que, em seguida, trouxe duas raposinhas. De novo, os caçadores não tiveram coragem de matá-las e disseram que elas podiam fazer companhia às lebres.

Não tinha se passado muito tempo e um lobo saiu do mato. Os caçadores apontaram a arma, mas o lobo gritou:

— Bom caçador, deixa-me viver e dou-te em troca dois pequenos.

Os caçadores puseram os dois lobinhos com os outros animais e todos foram andando atrás deles.

Depois apareceu um urso, que queria continuar a viver e gritou:

— Bom caçador, deixa-me viver e dou-te em troca dois pequenos. Os dois ursinhos foram levados para junto dos outros bichos, e agora já eram oito. E quem veio no m de todos? Apareceu um leão, sacudindo a juba. Mas não assustou os caçadores. Eles zeram pontaria e, bem como os outros tinham feito, o leão disse:

— Bom caçador, deixa-me viver e dou-te em troca dois pequenos.

Também trouxe os dois lhotes dele e agora os caçadores tinham dois leões, dois ursos, dois lobos, duas raposas e duas lebres que iam atrás deles e os serviam.

Só que isso não matava a fome. Então eles disseram às raposas:

— Toda gente sabe que vocês são espertas e sabidas. Pois então, tratai de nos arranjar comida.

Elas responderam:

— Perto daqui há uma aldeia onde já nos servimos de galinhas, uma ou duas vezes. Vamos mostrar-vos o caminho.

Assim, eles foram até à aldeia, compraram alguma coisa para comer, deram comida também aos animais e continuaram a viagem. As raposas conheciam bem a região, porque já tinham andado a vigiar todos os galinheiros por ali. Por isso, sabiam sempre mostrar o caminho aos caçadores.

Andaram a esmo durante algum tempo, mas os caçadores não conseguiram encontrar nenhum emprego que permitisse que todos cassem juntos. No m, disseram:

— Assim não dá. Vamos ter de nos separar.

Dividiram os animais, de modo que cada um cou com um leão, um urso, um lobo, uma raposa e uma lebre. Depois, despediram-se, prometeram amar-se como bons irmãos até à morte, e en aram numa árvore a faca que o pai adotivo lhes tinha dado. Depois, um foi para leste, outro foi para oeste.

Seguido pelos seus animais, um dos irmãos chegou a uma cidade que estava cheia de faixas de crepe preto dependuradas por toda parte. Foi até uma estalagem e perguntou onde podia deixar os animais. O estalajadeiro levou-os para um celeiro que tinha um buraco na parede. A lebre esgueirou-se pelo buraco e acabou por conseguir um repolho. A raposa apanhou uma galinha e, depois de comer, acabou por apanhar também um galo. O lobo, o urso e o leão eram grandes demais para passar pelo buraco, por isso o estalajadeiro teve de levá-los até um lugar onde havia uma vaca deitada no pasto, e eles comeram até se fartar. Finalmente, quando todos os animais já estavam alimentados e abrigados, o caçador perguntou ao estalajadeiro porque é que toda a cidade estava de luto. O estalajadeiro respondeu:

— Porque a lha única do nosso rei vai ter de morrer amanhã.

— — Ela está assim tão doente? perguntou o caçador.

— — — Não disse o estalajadeiro. Ela goza de ótima saúde, mas, de qualquer forma, vai morrer.

— — Como pode ser uma coisa dessas? quis saber o caçador.

— Não muito longe da cidade, existe uma montanha. Nessa montanha vive um dragão e todos os anos ele precisa de ter uma donzela imaculada. Se não, ele devasta todo o país. Já todas as donzelas foram dadas ao dragão, agora só resta a lha do rei. Por isso, lha do rei ou não, ela não pode ser poupada. Amanhã, ela vai ser entregue ao dragão.

— — Mas por que é que ninguém mata esse dragão? perguntou o caçador.

— — — É uma história muito triste disse o estalajadeiro. Muitos cavaleiros já tentaram, mas todos perderam a vida. O rei prometeu a mão da sua lha em casamento a quem matar o dragão e, além disso, o reino todo de herança quando o velho rei morrer.

O caçador não disse mais nada. Porém, no dia seguinte, saiu com os animais e escalou a montanha do dragão. Lá no alto, havia uma igreja e no altar havia três taças, cheias até a borda, e ao lado havia uma inscrição que dizia:

«Quem esvaziar estas taças será o homem mais forte da terra e poderá brandir a espada que está enterrada do lado de fora da porta.»

O caçador não bebeu. Saiu e encontrou a espada enterrada, mas não conseguiu arredá-la do lugar. Voltou e esvaziou as taças. Aí cou bem forte, conseguiu tirar a espada do chão e manejá-la à vontade.

Quando chegou a hora de entregar a donzela ao dragão, vieram com ela o rei, o marechal e toda a corte. De longe, ela avistou o caçador na montanha do dragão e achou que era o dragão à espera dela. Não queria subir, mas isso ia ser a desgraça de toda a cidade. Finalmente, ela acabou por se conformar e começou a amarga subida. Chorando, o rei e os cortesãos voltaram para casa, mas o marechal cou, pois tinha instruções de acompanhar tudo à distância.

No momento em que a lha do rei alcançou o alto da montanha, viu que quem estava lá à espera dela não era o dragão, mas o jovem caçador, que a consolou e prometeu salvá-la.

Para começar, ele levou-a para a igreja e a trancou-a lá dentro. Daí a pouco, o dragão de sete cabeças arremeteu com um poderoso rugido. Quando viu o caçador, cou surpreso e perguntou:

— O que é que estás a fazer na minha colina?

O caçador respondeu:

— Vim para te derrotar.

O dragão disse:

— Alguns cavaleiros já morreram aqui em cima, e num instante vou também dar cabo de ti.

Dizendo isso, cuspiu chamas pelas suas setes goelas. A ideia dele era incendiar a erva seca que por ali havia, de modo que o caçador morresse sufocado no calor e no fumo, mas os animais vieram a correr e pisotearam o fogo até o apagar.

Em seguida, o dragão atacou, mas o caçador brandiu a espada com tanta agilidade e rapidez que ela cantou no ar e cortou três cabeças do monstro.

Aí o dragão cou zangado de verdade. Levantou-se no ar, lançando chamas ferozes, e abateu-se sobre o caçador no instante em que ele brandiu outra vez a espada e cortou mais três cabeças. O dragão caiu no chão. Mas, apesar de toda a fraqueza que sentia, atacou de novo. Reunindo as suas últimas forças, o caçador conseguiu cortar a cauda do monstro, mas depois disso já não podia lutar mais.

Então, chamou os animais, que zeram o dragão em pedaços.

Depois de a batalha terminar, o caçador abriu a porta da igreja. A lha do rei jazia no chão, porque tinha desmaiado de medo durante a luta. Ele levou-a para fora e, quando ela voltou a si e abriu os olhos, ele mostrou-lhe os pedaços do dragão e lhe disse que estava salva. Ela cou muito feliz e disse:

— Então vais ser o meu marido muito querido, porque o meu pai prometeu a minha mão ao homem que matasse o dragão.

Para recompensar os animais, ela tirou do pescoço o colar de coral e o dividiu entre eles. O leão cou com o fecho de ouro. Ao caçador, ela deu um lenço, com o nome dela bordado. O caçador cortou as sete línguas do dragão, enrolou-as no lenço e guardou-as com cuidado.

Depois disso, como estava exausto do incêndio e da luta, disse à lha do rei:

— Nós dois estamos mortos de cansaço. Vamos dormir um pouco.

Ela concordou. Deitaram-se no chão e o caçador disse ao leão:

— Fica de guarda. Não deixes que ninguém nos ataque enquanto estivermos a dormir.

E os dois adormeceram. O leão deitou-se ao lado deles para montar guarda, mas, como também estava muito cansado da luta, chamou o urso e disse:

— Deita-te ao meu lado. Preciso de dormir um pouco. Se acontecer alguma coisa, acorda-me.

O urso deitou-se ao lado dele, mas também estava muito cansado. Por isso, chamou o lobo e disse:

— Deita-te ao meu lado. Preciso de dormir um pouco. Se acontecer alguma coisa, acorda-me.

O lobo deitou-se ao lado dele, mas também estava muito cansado. Por isso, chamou a raposa e disse:

— Deita-te ao meu lado. Preciso de dormir um pouco. Se acontecer alguma coisa, acorda-me.

A raposa deitou-se ao lado dele, mas também estava muito cansada. Por isso, chamou a lebre e disse:

— Deita-te ao meu lado. Preciso de dormir um pouco. Se acontecer alguma coisa, acorda-me.

A lebre sentou-se ao lado dela, mas, coitadinha, também estava muito cansada e não tinha ninguém para quem pudesse passar a guarda. Mas, mesmo assim, acabou por adormecer também. E assim, em pouco tempo, o caçador, a lha do rei, o leão, o urso, o lobo, a raposa e a lebre, estavam todos a dormir a sono solto.

Quando o marechal, que fora instruído para acompanhar tudo à distância, não viu o dragão sair a voar com a lha do rei e achou que tudo estava tranquilo na montanha, encheu-se de coragem e foi até lá. Então viu o dragão estraçalhado e, ali por perto, a lha do rei e um caçador com todos os seus animais, todos dormindo profundamente. Como ele era um homem mau e ímpio, tirou a espada, cortou a cabeça ao caçador, pegou na lha do rei no colo e desceu a montanha com ela.

Quando chegaram lá em baixo, ela acordou sobressaltada e o marechal disse:

— Estás em meu poder. Tens de dizer que fui eu quem matou o dragão.

— — — Não posso dizer uma coisa dessas respondeu ela. Foi um caçador com seus animais.

Ouvindo isso, ele puxou a espada e ameaçou matá-la se ela não prometesse con rmar a história dele. Depois, a levou-a até ao rei, que achava que o dragão tinha despedaçado sua lha adorada e não coube em si de alegria ao vê-la viva.

O marechal disse:

— Matei o dragão, salvei a sua lha e todo o reino. Agora ela tem de casar comigo, como o senhor prometeu.

O rei perguntou à lha:

— É verdade?

— — — É... disse ela deve ser... Mas o casamento não pode ser celebrado antes de um ano e um dia.

Ela achava que durante esse tempo devia ter alguma notícia de seu amado caçador.

Na montanha do dragão, os animais ainda estavam a dormir ao lado do corpo do seu dono morto. Aí veio uma abelha e pousou no focinho da lebre, mas a lebre espantou-a com a pata e continuou a dormir. Ela veio outra vez, e mais uma vez a lebre a espantou-a e continuou a dormir. Mas quando a abelha veio pela terceira vez e picou o focinho da lebre, ela acordou. E no instante em que a lebre acordou, acordou a raposa, e a raposa acordou o lobo, e o lobo acordou o urso, e o urso acordou o leão. E quando o leão acordou e viu que a lha do rei tinha desaparecido e o seu dono estava morto, deu um rugido que parecia um trovão e perguntou:

— Quem fez isto? Urso, por que é que não me acordaste?

O urso perguntou ao lobo:

— Por que é que não me acordaste?

O lobo perguntou à raposa:

— Por que é que não me acordaste?

A raposa perguntou à lebre:

— Por que é que não me acordaste?

E como a coitadinha da lebre não podia pôr a culpa em cima de ninguém, cou ela a única culpada. Iam todos avançar para cima dela, mas ela pediu:

— Não me matem. Eu posso devolver a vida ao nosso dono. Sei de uma montanha onde cresce uma raiz e, se a gente puser essa raiz na boca de um ferido, ele ca inteiramente curado de qualquer doença ou ferimento. Mas essa montanha ca a duzentas horas daqui.

O leão disse:

— Tens vinte e quatro horas para ir e voltares com essa tal raiz.

A lebre saiu à toda a velocidade, e em vinte e quatro horas estava de volta com a raiz. O leão pôs a cabeça do caçador no lugar, a lebre pôs a raiz na boca do morto e no mesmo instante as duas partes costuraram-se e caram juntas outra vez, o coração começou a bater e a vida voltou.

Quando o caçador acordou, cou tristíssimo por ver que a princesa se tinha ido embora.

— — — Por certo ela quis livrar-se de mim disse ele. Aproveitou que eu estava a dormir e foi-se embora.

Quando estava a consertar o dono, o leão, com a pressa, tinha posto a cabeça do caçador ao contrário, de trás para frente, mas este estava tão ocupado com os seus pensamentos tristes sobre a lha do rei, que nem reparou. Por volta do meio-dia, quando o caçador foi comer, notou que tinha a cabeça ao contrário.

Ficou muito intrigado com isso e perguntou aos animais o que é que tinha acontecido enquanto ele estava a dormir. Então o leão contou-lhe que todos estavam tão cansados que acabaram por dormir e que, quando acordaram, descobriram que ele estava morto, com a cabeça cortada, e que a lebre tinha ido buscar a raiz da vida e que ele, leão, tinha colado a cabeça na posição errada porque estava com pressa, mas agora ia corrigir o erro. Assim, ele arrancou a cabeça do caçador outra vez, virou-a direito, e a lebre colou e tratou da ferida com a raiz.

A partir desse dia, o caçador, sempre muito triste, passou a andar de um lado para o outro com os seus animais, fazendo-os dançar para as pessoas. Quando tinha passado exatamente um ano, ele chegou à mesma cidade onde tinha salvado do dragão a lha do rei. Desta vez, o lugar estava todo enfeitado com faixas vermelhas.

— — Que quer dizer isso? perguntou ao estalajadeiro. Há um ano, a cidade estava toda pendurada com faixas de luto. Agora, está toda de vermelho. Porquê?

O estalajadeiro replicou:

— Há um ano, a lha do nosso rei ia ser entregue ao dragão, mas nosso marechal lutou com o dragão e matou-o, e amanhã eles casam-se. Por isso é que a cidade estava de preto, de luto, e agora está de vermelho, de alegria.

Ao meio-dia do dia do casamento, o caçador disse ao estalajadeiro:

— O senhor acredita que eu vou comer pão da mesa do rei, bem aqui na sua casa, antes que o dia termine?

O estalajadeiro respondeu:

— Aposto cem moedas de ouro em como não vai.

O caçador aceitou a aposta e pôs em cima da mesa uma bolsa que tinha exatamente as cem moedas de ouro. Depois, chamou a lebre e disse:

— Minha querida Pé-Leve, traz-me um pouco do pão que o rei come.

A lebre era o menor dos animais, não podia passar a ordem adiante para nenhum outro, e disse para si mesma:

— Se eu for a correr sozinha pelas ruas, todos os cães me vão perseguir.

E foi isso mesmo: os cães foram a correr atrás dela, com evidentes intenções de lhe deitar os dentes. Mas ela deu um salto gigantesco e meteu-se dentro da guarita da sentinela. O soldado nem viu que ela estava lá.

Os cães aproximaram-se e tentaram tirá-la dali, mas o soldado não gostou nada daquilo e saiu atrás deles batendo com a coronha da espingarda até que eles fugiram uivando e latindo. Quando a lebre viu que o caminho estava livre, correu para dentro do palácio, foi até aonde estava a lha do rei, sentou-se debaixo da cadeira e começou a coçar o pé dela.

A moça pensou que era o seu cão e disse:

— Sai daí!

A lebre coçou o pé dela mais uma vez e de novo ela disse:

— Sai daí!

Mas a lebre não desanimou. Quando coçou o pé da lha do rei pela terceira vez, a rapariga olhou para baixo e a reconheceu-a pelo coral no pescoço. Pegou no bichinho ao colo, levou-o até ao seu quarto e disse:

— Minha lebre querida, o que é que eu posso fazer por ti?

Ela respondeu:

— O meu dono, que matou o dragão, está aqui. Mandou que eu lhe pedisse um pão, dos que o rei come.

Quando ouviu isso, a rapariga cou contentíssima. Chamou o padeiro e mandou que ele lhe trouxesse um pão, dos que o rei comia.

— — — Mas disse a lebre o padeiro também precisa de entregar o pão em meu lugar. Se não, os cães acabam comigo.

O padeiro levou o pão até à porta da estalagem.

Chegando lá, a lebre cou de pé nas patas traseiras, pegou no pão com as patas da frente e levou-o ao seu dono. Então o caçador disse ao estalajadeiro:

— Como vês, as cem moedas de ouro são minhas.

O estalajadeiro cou muito espantado, mas o caçador continuou:

— Sim, senhor! Tenho pão, mas agora quero um pouco da carne que o rei come.

O estalajadeiro disse:

— Eis uma coisa que eu queria ver...

Mas dessa vez não propôs nenhuma aposta. O caçador chamou a raposa e disse:

— Raposinha, traz-me um pouco da carne assada que o rei come.

A raposa sabia todos os truques, esgueirou-se ao longo de muros, passou por buracos de cercas, os cães nem a viram. Quando chegou ao palácio, sentou-se debaixo da cadeira da lha do rei e coçou o pé dela. A rapariga olhou e reconheceu a raposa por causa do coral no pescoço, e disse:

— Minha raposa querida, que é que eu posso fazer por você?

Ela respondeu:

— O meu dono, que matou o dragão, está aqui. Mandou que eu lhe pedisse um pouco da carne assada que o rei come.

Então a rapariga mandou chamar o cozinheiro e disse-lhe que preparasse um assado igual ao que o rei comia e o levasse até a porta da estalagem. Depois, a raposa pegou na bandeja, abanou bem a cauda para espantar as moscas que vinham atrás do assado, e levou-o até ao seu dono.

Aí, o caçador disse ao estalajadeiro:

— Como vê, senhor, tenho o pão e tenho a carne, mas agora quero a guarnição do prato, igual à que o rei come.

Chamou o lobo e disse:

— Caro lobo, traz-me um pouco da guarnição que acompanha esse assado que o rei come.

O lobo foi direto ao palácio, porque não tinha medo de ninguém. Quando chegou junto da lha do rei, deu-lhe um puxão no vestido, pelas costas. Ela teve de se virar e olhar para ele, e logo o reconheceu, por causa do coral no pescoço. Levou-o até ao seu quarto e perguntou:

— Meu lobo querido, que é que eu posso fazer por ti?

O lobo respondeu:

— O meu dono, que matou o dragão, está aqui. Mandou que eu lhe pedisse um pouco da guarnição que acompanha o assado, igual à que o rei come.

Então a rapariga mandou chamar o cozinheiro, que teve de preparar a guarnição igual à que o rei comia, e levá-la até à porta da estalagem, onde o lobo pegou na travessa e a levou ao seu dono.

Aí, o caçador disse ao estalajadeiro:

— Como vês, agora eu tenho pão, carne e acompanhamento, mas também quero uma sobremesa das que o rei come.

Chamou o urso e disse:

— Caro urso, tu gostas de doces. Traz-me um pouco da sobremesa que o rei come.

O urso saiu a trotar para o palácio e todo a gente saía da frente dele. Mas quando chegou ao portão, as sentinelas ameaçaram-no com as espingardas e não o queriam deixar passar. Ele cou de pé nas patas traseiras e bateu-lhes nas orelhas com as patas, para a direita e para a esquerda, e todas as sentinelas caíram. Então ele foi até onde estava a lha do rei, cou mesmo atrás dela e deu uma rosnadela suave. Ela olhou para trás, reconheceu o urso, pediu-lhe que a seguisse até ao seu quarto e disse:

— Meu querido urso, que é que eu posso fazer por você?

Ele respondeu:

— O meu dono, que matou o dragão, está aqui. Mandou que eu lhe pedisse um pouco da sobremesa que o rei come.

Ela mandou chamar o pasteleiro e ordenou que ele preparasse uns doces como aqueles que o rei comia de sobremesa e os levasse até à porta da estalagem. Primeiro, o urso lambeu umas ameixas açucaradas que enfeitavam os doces e tinham rolado de cima deles, depois levantou-se nas patas de trás, pegou a travessa e a levou até o dono.

O caçador então disse ao estalajadeiro:

— Como vê, agora tenho pão, carne, acompanhamento e sobremesa, mas ainda quero um pouco do vinho que o rei bebe.

Chamou o leão e disse:

— Caro leão, tu gostas de beber de vez em quando. Traz-me então um pouco do vinho, do que o rei toma.

O leão saiu passando pela rua e as pessoas correram para tudo quanto era lado. Quando chegou ao palácio, os guardas tentaram barrar-lhe a entrada, mas ele deu um rugido e eles fugiram a sete pés. A seguir foi até aos aposentos reais e bateu à porta com o rabo. A lha do rei abriu e apanhou um susto quando viu o leão, mas logo o reconheceu pelo fecho de ouro do seu colar de coral. Pediu-lhe que fosse com ela até ao quarto e perguntou:

— Meu leão querido, que é que eu posso fazer por ti?

Ele respondeu:

— O meu dono, que matou o dragão, está aqui. Mandou que eu lhe pedisse um pouco do vinho que o rei bebe.

Então ela mandou chamar o encarregado da adega e ordenou-lhe que desse ao leão um pouco do vinho que o rei bebia. Mas o leão disse:

— É melhor eu ir com ele, para ter a certeza de que ele está traz o vinho certo.

Foi com o encarregado até a adega e, quando chegaram lá, o funcionário queria pegar num pouco de vinho comum, daquele que os criados bebiam, mas o leão disse:

— Espera aí! Vou provar esse vinho.

O encarregado deu meio litro ao leão e ele bebeu tudo de um gole. Depois disse:

— Não. Este não é o vinho certo.

O encarregado da adega olhou para ele espantado e foi então até outro barril, que tinha o vinho reservado para o marechal do rei. O leão disse:

— Primeiro, vou provar esse vinho.

Tirou meio litro, bebeu e disse:

— Este é melhor, mas ainda não é o vinho certo.

Isso deixou o encarregado da adega furioso. Tão furioso que disse:

— Como é que um animal estúpido desses pode querer entender alguma coisa de vinho!

O leão deu-lhe uma patada tão forte atrás da orelha, que ele caiu com estrondo sentado no chão. Quando se levantou, não disse nada, mas levou o leão até uma pequena adega separada, onde se guardava o vinho especial do rei, que ninguém jamais tocava. O leão tirou meio litro e provou. Depois, disse:

— Ah, este, sim, deve ser o vinho certo.

Então, disse ao encarregado da adega que enchesse meia dúzia de garrafas, e depois subiram novamente as escadas. Quando chegaram lá fora, o leão estava ligeiramente bêbedo e balançava de um lado para outro. O encarregado da adega teve de carregar o vinho até à porta, onde o leão segurou a alça da cesta nos dentes e levou o vinho até ao seu dono.

O caçador disse então ao estalajadeiro:

— Como vês, agora tenho pão, carne, acompanhamentos, sobremesa e vinho, como o rei, e agora vou jantar com meus animais.

Sentou-se, comeu e bebeu, dividindo a comida e a bebida com a lebre, a raposa, o lobo, o urso e o leão. Estava feliz, porque via que a lha do rei ainda o amava. Quando acabou a refeição, disse para o estalajadeiro:

— Como vê, senhor, comi e bebi como o rei come e bebe. Agora, vou até ao palácio do rei casar com a lha dele.

O estalajadeiro espantou-se:

— Como é que pode? Ela está noiva, vai-se casar hoje mesmo.

O caçador tirou do bolso o lenço que a lha do rei lhe tinha dado lá na montanha do dragão, e as sete línguas do monstro ainda estavam embrulhadas nele.

— — — Vou conseguir isso disse ele com a ajuda do que tenho aqui na mão.

O estalajadeiro olhou para o lenço e duvidou:

— Estou disposto a acreditar em qualquer coisa, menos nisso. Aposto a minha estalagem.

O caçador tirou da cintura uma bolsinha com mil moedas de ouro, colocou-a em cima da mesa e disse:

— Aposto isto aqui contra a tua estalagem.

Enquanto isso, o rei e a lha estavam sentados à mesa real.

— O que é que todos aqueles animais que entravam e saíam do palácio queriam contigo? — perguntou ele.

Ela respondeu:

— Estou proibida de dizer, mas o senhor faria muito bem se mandasse buscar o dono desses animais.

O rei mandou um criado ir até a estalagem convidar o estranho para vir até ao palácio. O criado chegou no momento em que o caçador tinha acabado de fazer sua aposta com o estalajadeiro.

O caçador disse ao estalajadeiro:

— Como vês, o rei mandou o seu criado para me levar, mas eu não vou assim.

E respondeu ao criado:

— Por gentileza, pede ao rei que me mande trajes reais e uma carruagem com seis cavalos e criados que me sirvam.

Quando o rei ouviu a resposta, perguntou à lha:

— Que é que eu faço agora?

— — O senhor faria bem se mandasse buscá-lo, como ele diz respondeu.

Então o rei mandou os trajes reais, a carruagem com seis cavalos e criados para servi-lo. Quando o caçador os viu chegar, disse ao estalajadeiro:

— Como vês, mandaram-me buscar, como eu pedi.

Vestiu os trajes reais, agarrou no lenço com as línguas do dragão e foi para o palácio. Quando o rei o viu chegar, perguntou à lha:

— Como devo recebê-lo?

— — O senhor faria bem se fosse ao seu encontro respondeu ela.

O rei foi ao encontro do caçador e convidou-o a entrar. Os animais foram atrás. O rei mandou que ele se sentasse a seu lado, perto da lha. Do outro lado estava sentado o marechal, porque era o noivo, mas não reconheceu o caçador. Então trouxeram as sete cabeças do dragão para mostrar a todos, e o rei disse:

— O marechal cortou estas sete cabeças do dragão. Portanto, dou-lhe a mão da minha lha em casamento.

Ouvindo isso, o caçador levantou-se, abriu as sete bocas e perguntou:

— O que é que aconteceu às sete línguas do dragão?

O marechal cou pálido de susto e não conseguia pensar em nenhuma resposta para dar. Finalmente, aterrorizado, acabou por dizer:

— Os dragões não têm línguas.

O caçador disse:

— Seria muito melhor se quem não tivesse língua fossem os mentirosos. As línguas de um dragão são a presa do matador do dragão.

Abriu o lenço e lá estavam as sete. Aí ele pôs cada uma das línguas na boca em que se encaixava, e todas se ajustaram perfeitamente. Depois, ele pegou no lenço que tinha o nome da lha do rei bordado, mostrou-lho a ela e perguntou-lhe a quem ela o tinha dado.

Ela respondeu:

— Ao homem que matou o dragão.

Em seguida, ele chamou os animais, pegou nos cordões de coral e no fecho de ouro do leão, mostrou tudo à lha do rei e perguntou-lhe a quem pertenciam. Ela respondeu:

— O colar e o fecho de ouro eram meus. Eu dividi-os entre os animais que ajudaram a matar o dragão.

— Quando eu estava exausto e me deitei para descansar depois do combate, o marechal veio e cortou-me a cabeça enquanto eu dormia. Depois, pegou na

lha do rei e disse que quem tinha matado o dragão era ele: Isso é mentira,

como eu já provei, com as línguas, o lenço e o colar.

Em seguida, contou sua história. Contou como os animais o tinham salvado com uma raiz milagrosa, como ele tinha andado à deriva durante um ano até voltar à mesma cidade e como, então, tinha cado a saber pelo estalajadeiro que o marechal estava enganar toda a gente. O rei então perguntou à lha:

— É verdade que quem matou o dragão foi este jovem?

— — — É, sim respondeu ela. Agora posso falar sobre o crime do marechal, pois todos caram a saber sem que eu dissesse nada. Ele me tinha feito prometer guardar segredo. Por isso é que eu insisti para que o casamento não se celebrasse antes de um ano e um dia.

O rei mandou reunir os seus doze conselheiros e pediu-lhes que julgassem o marechal. A sentença condenou-o a ser esquartejado por quatro bois. Dessa forma, o marechal foi executado e o rei deu a mão da lha ao caçador, que também foi nomeado regente de todo o reino. O casamento foi celebrado com muitos festejos e o jovem rei mandou chamar o pai verdadeiro e o pai adotivo e cobriu-os de presentes.

Também não se esqueceu do estalajadeiro, mas mandou buscá-lo e disse:

— Como vês, senhor, casei-me com a lha do rei. Agora, a tua estalagem é minha.

— — De direito, é mesmo concordou o estalajadeiro.

Mas o jovem rei disse:

— A misericórdia é mais importante que o direito. Podes car com a tua estalagem. E também te vou dar as mil moedas de ouro, de presente.

Aí tudo cou bem com o jovem rei e a jovem rainha, que viveram felizes juntos. Ele ia sempre caçar, porque gostava muito, e seus éis animais iam sempre com ele.

Ora, acontece que havia uma oresta, não muito distante do palácio, que tinha fama de ser encantada. O que se contava é que quem entrava lá custava muito a sair. Mas o jovem rei queria muito ir lá caçar, e não deixou o velho rei em paz enquanto não obteve a permissão para ir. E então, partiu, com um grande séquito.

Quando chegou à oresta, viu uma corça branca e disse a seus homens:

— Fiquem aqui até que eu volte. Vou caçar aquela bela corça.

Entrou na oresta e apenas os seus animais o seguiram. Os homens esperaram até cair a noite. Como ele não voltava, eles foram para casa e disseram à jovem rainha:

— O jovem rei foi perseguir uma corça branca na oresta encantada e não voltou mais.

Quando ela ouviu isso, cou muito preocupada. Enquanto isso, ele perseguia a corça branca, mas não conseguia alcançá-la. Ela às vezes parecia estar ao alcance de um tiro, mas quando ele fazia pontaria e ia atirar, de repente via-a dando saltos mais adiante, cada vez mais distante, até que acabou por desaparecer por completo.

Vendo que estava na oresta profunda, muito longe, ele pegou na sua trompa de caça e tocou. Mas não houve resposta, pois seus homens não o ouviram. Quando caiu a noite, ele compreendeu que não ia poder voltar naquele dia. Então, apeou-se do cavalo, acendeu uma fogueira debaixo de uma árvore e se preparou para passar a noite.

Quando estava sentado com os animais à beira do fogo, achou que ouviu de repente uma voz humana. Procurou, mas não conseguiu ver nada. Depois, ouviu um gemido que parecia vir do alto. Olhou e viu uma velha sentada na árvore:

— — — Ai, ai! chorava ela. Estou com tanto frio!

— — Pois desça e venha se aquecer chamou ele.

— — — Não disse ela. Os teus animais podem-me morder.

— — — Não se preocupe, avozinha disse ele. Eles são mansos, não lhe vão fazer nada, pode descer.

Mas a velha era uma bruxa e disse:

— Vou partir uma varinha e deitá-la abaixo. Bate nas costas deles, que assim não me magoam.

Ela atirou a varinha e ele bateu nos animais que, num instante, caram imóveis, transformados em pedra. Sem os animais para atrapalhar, ela num instante pulou lá de cima e tocou também no caçador com a varinha. No mesmo momento, ele transformou-se em pedra. Aí, dando uma gargalhada horrível, ela arrastou-o, e aos animais, para um barranco onde já havia uma porção daquelas pedras.

Quando o jovem rei não voltou, a preocupação e o medo da jovem rainha foram cando cada vez maiores. Ora, acontece que, nessa mesma ocasião, o outro irmão, que tinha ido para o leste quando se separaram, estava a chegar a esse reino. Depois de procurar emprego sem encontrar, resolveu ir de vila em vila com os animais, que dançavam para distrair as pessoas. Depois de algum tempo, ele lembrou-se da faca que eles tinham en ado no tronco da árvore quando se separaram, e resolveu ir até lá para saber como estava o irmão. Quando chegou lá, viu que o lado da lâmina que correspondia ao irmão estava metade enferrujado e metade brilhante.

Isso é mau — pensou —, algo deve ter acontecido a meu irmão, mas talvez eu ainda possa salvá-lo, porque metade da lâmina está brilhante.

Saiu caminhando para oeste com os animais e, quando chegou aos portões da cidade, uma sentinela veio-lhe perguntar se queria que mandasse anunciar sua chegada para a jovem rainha, sua esposa, porque ela estava muito preocupada, com medo de que ele tivesse morrido na oresta encantada. É que o jovem rei e o irmão eram tão parecidos que a sentinela os confundiu, ainda mais porque o irmão também tinha aquele bando de animais selvagens que o seguiam. Ele entendeu o erro da sentinela e pensou: é melhor eu fazer de conta que sou ele, assim ca mais fácil salvá-lo.

Por isso, deixou que a sentinela o levasse ao palácio, onde foi recebido com muita alegria. A sua jovem esposa também achou que era o marido dela e perguntou porque ele tinha demorado tanto.

— — Eu perdi-me na oresta e não consegui encontrar o caminho respondeu ele.

De noite, ele foi levado ao leito real, mas colocou uma espada de dois gumes entre ele e a jovem rainha. Ela não sabia porquê, mas cou com medo de perguntar.

E assim se passaram alguns dias, em que ele tentou descobrir tudo o que podia sobre a oresta encantada. Depois disse:

— Vou lá caçar novamente.

O rei e a jovem rainha tentaram dissuadi-lo, mas ele insistiu e partiu com um grande séquito. Quando chegou à oresta, aconteceu com ele a mesma coisa que tinha acontecido ao irmão. Viu uma corça branca e disse aos seus homens:

— Fiquem aqui até eu voltar. Vou caçar essa bela corça branca.

Cavalgou para dentro da oresta, seguido pelos animais.

Mas não conseguiu alcançar a corça e acabou por se embrenhar tão profundamente na mata que teve de passar a noite lá. Depois de acender a fogueira, ouviu alguém gemendo no alto:

— Ai, ai! Estou com tanto frio!

Ele olhou para cima, viu a bruxa na árvore e disse:

— Pois desça e venha aquecer-se!

— — — Não disse ela. Os teus animais podem-me morder.

Ele então respondeu:

— Não se preocupe, avozinha. Eles são mansos, não lhe vão fazer nada, pode descer.

Então ela disse:

— Vou partir uma varinha e deitá-la abaixo. Bate nas costas deles, que assim não me magoam.

Quando ouviu isso, o caçador descon ou da velha:

— — Não vou bater nos meus animais. Desce já ou eu subo aí e apanho-te

disse ele.

— — — Não me faças rir... respondeu a velha. Não me podes fazer nada.

Ele então ameaçou:

— Se não desces, dou-te um tiro.

— — — Pois podes dar desa ou ela. Não tenho medo nenhum das tuas balas.

Ele fez pontaria e atirou, mas a bruxa era à prova de balas. Ficou a dar gargalhadas e a gritar:

— Não me consegues acertar!

Mas o caçador era muito esperto. Arrancou três botões de prata do casaco e carregou a arma com eles, porque contra a prata não havia poder mágico. No momento em que ele puxou o gatilho, ela caiu aos berros. Ele pôs o pé em cima dela e disse-lhe:

— Sua bruxa velha, se não me disseres imediatamente onde está o meu irmão, eu agarro-te com as duas mãos e atiro-te já ao fogo!

Ela cou com tanto medo que pediu clemência e disse:

— Ele e os animais estão caídos naquele barranco, transformaram-se em pedra.

Ele fez a velha levá-lo até o lugar e a ameaçou:

— Sua bruxa velha! Devolve a vida imediatamente ao meu irmão e a todas as criaturas que estão aí, ou então vais para o fogo!

Ela pegou numa varinha e tocou nas pedras. O irmão e os animais voltaram à vida. E muitos outros homens também, mercadores, artesãos, pastores. Todos se levantaram, agradeceram ao caçador por libertá-los e foram para casa. Os gémeos abraçaram-se e beijaram-se, contentíssimos por se encontrarem novamente.

Agarraram e amarraram a bruxa e atiraram-na à fogueira. Quando ela acabou de arder, a oresta abriu-se sozinha e deu para ver o palácio real à distância, a mais ou menos quatro ou cinco quilómetros dali.

Os dois irmãos voltaram juntos e, pelo caminho, foram contando o que tinha acontecido com cada um. Quando o mais jovem disse que era regente de todo o país, o outro disse:

— Eu descobri, porque, quando eu cheguei ao palácio e me confundiram contigo, me deram honras reais. A jovem rainha achou que eu era o marido dela, e tive de me sentar ao lado dela na mesa e dormir na cama dela.

Quando o jovem rei ouviu isso, cou tão zangado e com tanto ciúme que puxou a espada e cortou a cabeça do irmão. Mas quando viu que ele estava caído, morto, e viu o sangue vermelho escorrendo, cou transtornado de tristeza.

— — — O meu irmão salvou-me gritava , e foi assim que lhe agradeci!

Chorou e lamentou-se, mas depois a sua lebre aproximou-se e ofereceu-se para ir buscar um pouco da raiz da vida. Saiu a toda a velocidade e regressou em pouco tempo. Deu para ressuscitar o irmão morto, e ele nem percebeu a cicatriz.

Depois, continuaram a andar e o irmão disse:

— Tu pareces-te comigo, estás a usar roupas reais, como eu, e os animais seguem-te como me seguem. Vamos entrar por dois portões opostos e aparecer ao mesmo tempo diante do velho rei, vindo de direções diferentes.

Assim, separaram-se e depois, duas sentinelas, uma de cada portão, chegaram ao mesmo tempo junto do velho rei para anunciar que o jovem rei e os seus animais estavam a regressar da caçada. O velho rei disse:

— Impossível. Os dois portões cam longe um do outro, é uma caminhada de uma hora.

Mas nesse instante os dois irmãos entraram no pátio, vindos de duas direções opostas, e ambos subiram as escadas ao mesmo tempo. O rei disse à lha:

— Diz-me qual dos dois é teu marido. São tão iguais que não sei.

Ela não conseguia descobrir e estava muito espantada, mas depois lembrou-se do colar que tinha dado aos animais. Olhou bem para eles e descobriu o fecho de ouro num dos leões.

— — O meu marido é aquele que este leão seguir disse, toda contente.

O jovem rei riu e disse:

— É, está certo.

Sentaram-se juntos à mesa, comeram, beberam e divertiram-se. Nessa noite, quando o jovem rei foi para a cama, a esposa perguntou:

— Por que é que puseste uma espada de dois gumes na cama nestas últimas noites? Pensei que me ias matar...

Foi assim que soube como seu irmão lhe tinha sido el.