Contos de Grimm

Jacob e Wilhelm Grimm · Capítulo 7 de 16

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Contos de Grimm

A Rainha das Abelhas

 

Imagem: Arthur Rackam

Certa vez, dois lhos de rei saíram em busca de aventuras e entregaram-se a uma vida tão desregrada e dissoluta que nem se lembravam de voltar para casa. O mais novo, a quem chamavam João Simplório, saiu à procura dos irmãos; quando nalmente os encontrou, estes troçaram dele, porque, sendo tão ingénuo, pensava em vencer na vida, enquanto eles, muito mais espertos, não tinham conseguido.

Mesmo assim, aceitaram a sua companhia e puseram-se os três a caminho. Passado algum tempo, chegaram a um formigueiro, e os dois irmãos mais velhos quiseram destruí-lo para ver as formigas fugirem alvoroçadas, mas o João Simplório disse-lhes:

— Deixai os bichinhos em paz, eu não suporto que lhes façais mal.

Continuaram a caminhar e chegaram a um lago onde nadavam, muitos patos. Os dois irmãos queriam matar alguns para comer, mas o João Simplório não consentiu e disse:

— Deixai os bichinhos em paz, eu não suporto que eles sejam mortos.

Por m, chegaram a uma colmeia, onde havia tanto mel que escorria pelo tronco da árvore. Os dois quiseram acender uma fogueira por baixo para sufocar as abelhas e poder tirar o mel. O João Simplório tornou a impedir, dizendo:

— Deixai os bichinhos em paz, eu não suporto que eles sejam queimados.

Por m, os três irmãos chegaram a um castelo. Nas cavalariças havia cavalos de pedra, e não aparecia pessoa alguma. Eles passaram por todas as salas até que, no m, encontraram uma porta com três fechaduras. No meio da porta havia, porém, um buraquinho por onde se podia espiar o aposento. Viram lá dentro um homenzinho grisalho, sentado diante de uma mesa. Eles chamaram-no uma, duas vezes, mas o homenzinho não ouviu. Quando o chamaram pela terceira vez, ele levantou-se, abriu as fechaduras e saiu. Não disse uma palavra, mas levou-os a uma mesa ricamente preparada. Tendo os três irmãos comido e bebido, o homenzinho conduziu cada um ao seu quarto de dormir.

Na manhã seguinte, o homenzinho grisalho chegou-se ao mais velho e por meio de sinais pediu-lhe que o seguisse até uma placa onde estavam escritas três tarefas que poderiam quebrar o feitiço do castelo. A primeira tarefa era recolher, sob o musgo da oresta, mil pérolas da Princesa que estavam lá espalhadas. A tarefa tinha de ser cumprida até ao pôr do sol e, se faltasse apenas uma pérola, a tarefa não estaria cumprida, sendo ele transformado em pedra. O mais velho dos irmãos foi estão para a oresta e procurou o dia inteiro. Como, porém, o dia chegou ao m e ele só tinha encontrado cem pérolas, aconteceu o que estava escrito na placa, e transformou-se em pedra.

No dia seguinte, o segundo irmão assumiu a tarefa, mas não se saiu melhor que o mais velho, pois só achou duzentas pérolas e acabou transformado em pedra.

 

Imagem: Walter Crane

Por m chegou a vez do João Simplório, que começou a procurar no musgo; mas era tão difícil encontrar as pérolas e demorava tanto, que se sentou numa pedra e começou a lamentar-se. Nisto, apareceu o rei das formigas, cuja vida ele salvara. Vinha acompanhado de cinco mil formigas e logo as pequenas criaturas reuniram milhares de pérolas, entregando-as todas de uma vez. Mas a segunda tarefa era ir apanhar, no fundo do lago, a chave do quarto da lha do rei. Quando o João Simplório chegou ao lago, encontrou os patos que ele uma vez salvara, e logo mergulharam e apanharam a chave lá no fundo.

 

Imagem: Arthur Rackham

A terceira tarefa era a mais difícil, pois das três lhas do rei que estavam a dormir ele devia escolher a mais nova. Elas eram, porém, completamente iguais, não tendo nada que as distinguisse uma da outra, a não ser por terem comido, antes de dormir, três doces diferentes: a mais velha, um torrão de açúcar; a segunda, um pouco de melaço; e a mais jovem, uma colherada de mel. Então chegou a rainha das abelhas, que o João Simplório havia protegido do fogo, e foi provando da boca de todas três; por m cou pousada na boca da que havia comido mel, e assim o João Simplório reconheceu qual era a princesa certa. Com isso, o feitiço desfez-se, tudo no castelo despertou daquele sono, e quem se tinha transformado em pedra retomou a sua forma. O João Simplório casou-se com a princesa mais jovem que, por sua sabedoria e prudência, sucedeu ao pai no trono. Os seus irmãos mudaram de vida, comportando-se dignamente e casando-se com as outras duas princesas.