Contos de Grimm

Jacob e Wilhelm Grimm · Capítulo 3 de 16

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Contos de Grimm

O Príncipe Sapo

 

Há muito, muito tempo, quando as fadas lançavam bons e maus feitiços, vivia um rei num reino distante que tinha várias lhas, todas muito bonitas. A mais nova, então, era tão linda que até o próprio Sol sorria quando lhe acariciava o rosto com os seus raios.

Perto do palácio havia um bosque cheio de recantos frescos por onde a princesa gostava de passear nos dias quentes. Costumava caminhar por um carreiro até junto de uma nascente. Entretinha-se depois a brincar com uma bola de ouro, o seu brinquedo preferido. Gostava muitíssimo dessa linda bola.

Certo dia, atirou a bola com demasiada força e esta acabou por cair num buraco muito fundo que a água da nascente escavara no chão. A princesa ainda correu atrás dela, mas não conseguiu apanhá-la. Muito infeliz, começou a chorar. Chorou, chorou, sem parar.

— Porque choras assim, linda princesa? — perguntou alguém. — Choras tanto que até as pedras se comovem com a tua infelicidade.

A princesa olhou em redor, mas não viu senão um sapo a espreitar com a cabeça fora de água.

— Ah, és tu que estás a falar, Sapo? — perguntou ela. — Estou a chorar porque a minha bola de ouro caiu nesse buraco.

— Limpa as lágrimas e não chores mais — respondeu o Sapo. — Posso ajudar-te. Mas o que me dás se te trouxer a bola de ouro?

— Dou-te tudo o que quiseres, meu querido Sapo — respondeu. — Os meus lindos vestidos, os meus colares de pérolas e também a coroa de ouro que trago na cabeça.

— E para que me servem os teus vestidos, os teus colares e a tua coroa? Em vez disso, casa comigo. O que desejo é ser teu amigo, brincar contigo, sentar-me à tua mesa, comer do teu prato de ouro, beber da tua taça e dormir na tua cama. Se me prometeres tudo isso, descerei até ao fundo do buraco à procura da tua bola de ouro.

— Sim, sim! — exclamou a princesa. — Prometo tudo isso, mas traz-me a minha bola de ouro!

«Posso prometer qualquer coisa… — pensava ela. — A nal um sapo só pode viver junto de outros sapos, à beira da água.»

O Sapo nadou até ao fundo da nascente, agarrou na bola e voltou para a margem. Deu dois saltos e largou a bola aos pés da princesa.

A menina apanhou-a e correu para o palácio.

— Espera por mim! — gritou o Sapo. — Leva-me contigo! Não consigo correr como tu.

Pobre Sapo! Estava a perder o seu tempo porque a princesa nem sequer olhou para trás. Nunca mais se lembrou dele… Muito triste, o Sapo voltou para a nascente.

No dia seguinte, quando todos se sentaram à mesa do palácio para jantar e a princesa saboreava as iguarias que tinha no seu prato de ouro, ouviu-se qualquer coisa a trepar com di culdade as escadarias de mármore, fazendo um ruído estranho: ploque, ploque. Pouco depois, alguém bateu à porta da sala de jantar e uma voz gritou:

— Princesa, linda princesa, abre a porta!

A princesa correu a abrir. Assim que viu o Sapo, fechou rapidamente a porta e voltou a tremer de medo para a mesa. O rei percebeu a a ição da menina e perguntou-lhe:

— O que receias, minha lha? Por acaso está algum gigante atrás da porta, pronto para te levar com ele?

— Oh, não! — respondeu a princesa. — Não é um gigante, é apenas um Sapo horroroso.

— Mas o que quer de ti esse Sapo?

Então a menina contou ao pai o que se passara no dia anterior.

O Sapo continuou a bater à porta, dizendo:

— Princesa, linda princesa, abre a porta! Não te lembras do que me prometeste ontem junto à nascente?

— Minha lha, se prometeste, deves cumprir a promessa — disse o rei. — Abre-lhe a porta.

Imagem: Walter Crane

A princesa obedeceu e o Sapo entrou na sala aos saltinhos, avançando até à cadeira da menina.

— Agora pega-me e põe-me ao teu lado.

A menina hesitou, mas o pai obrigou-a a fazer o que o Sapo pedia. Assim que se viu sentado na cadeira, o Sapo quis subir para cima da mesa. Depois quis que a menina lhe pusesse na frente o prato de ouro e dividisse com ele o seu jantar.

Contrariada, a menina obedeceu. O Sapo repugnava-a e, por isso, não comeu quase nada.

— Não quero comer mais nada. Estou cheio de sono — disse o Sapo. — Leva-me para o teu quarto e deita-me na tua cama.

A princesa começou a chorar. O Sapo causava-lhe repugnância e nem queria imaginar que tinha de dormir na mesma cama que ele!

O rei cou furioso com a atitude da lha:

— Não deves desprezar quem te ajudou quando precisavas! Obedece!

Vencendo a sua repugnância, a princesa pegou no Sapo com a ponta dos dedos e levou-o para o seu quarto. Largou-o num canto e deitou-se. Mas o Sapo aproximou-se da cama aos saltinhos e disse:

— Estou muito cansado, princesa. Quero dormir na tua cama. Obedece-me, senão conto ao teu pai.

Furiosa, a menina pegou nele e atirou-o com toda a força contra a parede, gritando:

— Já estás satisfeito, Sapo nojento?

Assim que o Sapo bateu na parede, transformou-se num lindo príncipe. Olhou para a princesa com gratidão e ela percebeu que aquele era o noivo que o pai lhe tinha destinado e que estivera encantado na pele de um sapo.

O príncipe contou-lhe que uma fada má o enfeitiçara e que só caria livre se a

lha de um rei aceitasse casar com ele, mesmo sob a forma de um sapo.

Na manhã seguinte, o príncipe resolveu levar a noiva para o seu reino. Pouco depois, chegou ao palácio uma linda carruagem puxada por seis cavalos brancos, enfeitados com plumas de avestruz e arreios de ouro. De pé, na parte de trás da carruagem estava Henrique, o criado mais el do príncipe. Quando o seu amo fora transformado em sapo, o coração de Henrique inchara de dor e quase rebentara. Para que isso não acontecesse, tiveram que lhe pôr em volta do peito uns aros de ferro. Henrique estava agora muito feliz e ajudou o jovem casal a subir para a carruagem.

Passadas algumas horas de viagem, ouviu-se um estalo.

— O que aconteceu, Henrique? A carruagem partiu-se? — perguntou o príncipe.

— Não, meu senhor — respondeu o criado. — O meu coração cou tão cheio de alegria pelo vosso regresso que um dos aros de ferro acaba de estalar.

Mais adiante, ouviu-se outro estalo e depois outro. Eram os dois últimos aros de ferro em volta do coração de Henrique que acabavam de estalar. O rapaz estoirava de alegria por ver o seu amo livre do encantamento e muito feliz junto da sua noiva!

A viagem continuou e, quando chegaram ao palácio do príncipe, houve uma grande festa que durou uma semana.