Contos de Grimm
A Raposa e o Gato
Um dia, o gato encontrou a raposa no bosque e disse para si mesmo: vou cumprimentá-la. Ela é tão inteligente, tão experiente, tão respeitada por todo mundo...
E fez uma saudação amigável:
— Bom dia, querida Dona Raposa! Como tem passado?
Imagem: Arthur Rackham A raposa cou inchada de orgulho. Olhou o gato de alto a baixo e levou algum tempo para resolver se respondia ou não.
Finalmente disse:
— Dobra a língua, seu patife lambedor de bigodes, seu palhaço de meia-tigela, seu pilantra caçador de ratos, não tens vergonha? Quem pensas que és? Como ousas perguntar-me como eu tenho passado? Quem és tu? Que é que tu sabes? O que aprendeste? Que artes dominas?
— Só uma — respondeu o gato, modestamente.
— E qual é?
— Quando os cães correm atrás de mim, consigo escapar, subindo para cima de uma árvore.
— Só isso? — disse a raposa. — Pois eu sou senhora de mil artes e além disso tenho um monte de truques que dariam para encher um baú... Fico de coração apertado só de pensar como tu és indefeso. Venha comigo, vou-te ensinar a fugir dos cães.
Justamente nesse momento, apareceu um caçador com quatro cães. O gato deu um pulo rápido para o tronco de uma árvore e foi lá para cima, para o meio da copa, onde as folhas e os galhos o esconderam por completo.
— Abra o baú, Dona Raposa, abra o baú! — gritava o gato.
Mas não adiantou nada. Os cães já tinham agarrado a raposa, que estava bem presa e imóvel nas patas deles.
— Que pena, Dona Raposa! — disse o gato. — Veja a encrenca em que a senhora está, com todas as suas mil artes. Se pelo menos soubesse subir às árvores, como eu, salvava a vida...