Contos de Grimm
O Alfaiate Valente
Há muito, muito tempo, num país distante, via um alegre alfaiate de quem toda gente gostava, porque era muito bom e generoso, ainda que as pessoas não o levassem muito a sério, porque era um grande gabarolas e tinha o hábito de exagerar quando contava as suas aventuras.
Certo dia, o alfaiate estava a coser umas calças, muito contente porque lhe tinham oferecido um bolo, que ia comer quando acabasse o que estava a fazer. Contudo, o cheiro do bolo atraíra várias moscas, que se puseram a voar à sua volta.
O alfaiate tentou enxotá-las com um pedaço de tecido, mas as incómodas moscas só se afastavam por alguns segundos, voltando de imediato a pousar em cima do bolo.
— Mas que teimosas. Já ides ver o que vos acontece.
Aproximando-se com todo o cuidado, o alfaiate deu uma forte palmada em cima da mesa, com a qual desfez o bolo, mas em compensação matou sete moscas de uma só vez.
Como era um bocadinho gabarolas, o alfaiate bordou num cinto a palavra «MATO SETE DE UMA VEZ», com letras bem grandes, e passou a usá-lo.
Convencido da sua bravura, resolveu sair pelo mundo, para mostrar a toda a gente como era valente. A todas as pessoas com quem se cruzava dizia:
— Eu cá mato sete de uma vez!
No caminho encontrou um passarinho caído no chão, que meteu na sacola que levava com ele.
Passado um bocado, resolveu parar a descansar e comer um pouco do queijo que trouxera para a merenda. Nesse momento, apareceu um enorme gigante, mas, longe de se assustar, o alfaiate disse-lhe:
— — Ando pelo mundo para mostrar como sou valente! Lê só isto! E mostrou-lhe o seu cinto.
— — "Mato sete de uma vez!," leu o gigante, e cou a pensar que o pequeno alfaiate matara sete homens com um golpe só.
Para o pôr à prova, o gigante pegou numa pedra e partiu-a com as mãos, com a maior facilidade.
— — — Pensas que me impressionas com essas habilidades disse o alfaiate. Olha para isto.
Fingindo que apanhava uma pedra do chão, o alfaiate espertalhão mostrou ao gigante o bocado de queijo que se preparava para comer; depois, com cara de quem estava a fazer muita força, esmagou-o com uma única mão.
Ainda não convencido, o gigante agarrou numa outra pedra e atirou-a ao ar até às nuvens.
— — — Só isso? disse o alfaiate. Acho que a minha chega mais alto.
Fingindo novamente que apanhava uma pedra, tirou do saco o passarito, atirando-o ao ar. Este ao ver-se livre, voou o mais alto que pode, até se perder de vista. Então o gigante, furioso mas impressionado, arrancou uma grande árvore pela raiz e disse:
— Vamos ver se me consegues ajudar a levar lenha para casa.
Imagem: Carl Offterdinger
— — — Claro que sim! respondeu o alfaiate. Vai tu à frente, que sabes o caminho, e eu vou atrás.
O gigante pôs o grande tronco às costas, e o alfaiate, ngindo que o estava a ajudar, agarrou-se a um ramo.
Ao chegarem a casa do gigante, este convidou o alfaiate a passar a noite, convite que este aceitou, pois já estava a anoitecer. Contudo, ao ver a enorme cama que tinha no quarto, o alfaiate preferiu dormir no chão, o isso salvou-lhe a vida, pois o gigante, invejoso da sua força, a meio da noite revolveu matá-lo, entrando de mansinho no quarto e partindo ao meio a cama com um único golpe.
Pela manhã, o pequeno alfaiate apresentou-se na frente do gigante, ameaçando-o de mãos na cintura. Ao vê-lo são e salvo, o gigante pensou que se tratava de um ser invencível e fugiu espavorido.
A extraordinária proeza do rapaz acabou por chegar aos ouvidos de um rei, que mandou chamar o alfaiate e lhe disse:
— No meu reino há dois gigantes que fazem todo o tipo de maldades e aterrorizam os meus súbditos. Se conseguires ver-te livre deles, dar-te-ei metade do meu reino e a mão da minha lha.
— – Não vos preocupeis, majestade disse o alfaiate -, os gigantes são a minha especialidade. Dizei-me onde posso encontrá-los e não vos tornarão a incomodar.
Com as indicações que o rei lhe deu, o rapaz não tardou a encontrar os gigantes que dormiam debaixo de uma árvore.
O alfaiate subiu à árvore e de lá de cima atirou uma pedra a um dos gigantes que, ao pensar que tinha sido o seu companheiro, deu-lhe uma violenta pancada.
O outro gigante acordou e bateu-lhe em resposta à pedrada, e assim, pancada após pancada, os dois gigantes acabaram por se envolver num combate mortal. Arrancaram árvores para usar como mocas, atiraram um contra o outro pedras tão grandes que conseguiam destruir uma casa, gritaram, deram pontapés… e no m acabaram por morrer os dois.
Então o alfaiate desceu da árvore e foi chamar os soldados do rei, que não podiam acreditar no que os seus olhos viam.
E voltou ao palácio, para relatar ao rei o seu novo feito heroico. Mas este, antes de cumprir a promessa, deu-lhe um novo encargo:
— — — Foste valente disse o rei mas preciso que me faças outra coisa: quero que me tragas o chifre mágico do unicórnio selvagem, que vive solto na
oresta.
A princesa cou um pouco desiludida, mas o alfaiate não desanimou
— Isto será fácil para mim. Matei sete de uma vez só e derrubei dois gigantes malvados. Vou trazer-vos o chifre, Majestade.
E partiu de volta para a oresta. Ainda não tinha andado muito quando, no meio de um descampado, viu investir contra ele, a galope, o enorme unicórnio, feroz cavalo branco de chifre na testa!
Rápido como uma gazela, o alfaiate saltou para trás de uma árvore, e o unicórnio, sem conseguir deter a corrida, espetou o chifre no tronco da árvore, e lá cou preso, sem poder levantar a cabeça!
Imagem: Carl Offterdinger
Tirando da sacola o machado que levara consigo, o alfaiate, com um golpe certeiro, cortou o chifre do unicórnio, que vendo-se livre, fugiu a galope.
Contudo, nem após receber das mãos do alfaiate o precioso troféu o rei se deu por satisfeito e inventou outra artimanha para evitar pagar o prometido.
Disse ao alfaiate para ele car no palácio, aguardando os preparativos para o casamento com a princesa. Nesse meio tempo, o rei chamou os seus soldados e ordenou-lhes que quando o alfaiate estivesse a dormir, entrassem no quarto e o amarrassem muito bem, que ele depois trataria dele.
Contudo, a princesa ouviu tudo e resolveu avisar o seu noivo do perigo que corria.
Este disse-lhe que não se preocupasse, que ele tomava conta da situação
À noite, ngindo que dormia, a alfaiate escondeu-se atrás da porta esperando pelos soldados que viriam prendê-lo. Quando os ouviu chegar, deixou que se aproximassem, e abrindo a porta de repente, gritou com a sua voz mais forte:
— Eu já matei sete de uma vez, dei cabo de dois tremendos gigantes e cortei o chifre de um unicórnio selvagem! Não são sete pequenos soldadinhos que me metem medo!
Quando os soldados ouviram isto, tremeram de susto e saíram correndo, apavorados.
Dessa vez o rei não teve outra opção senão cumprir o prometido. O valente alfaiate casou com a bela princesa, receberam metade do reino e viveram felizes para sempre.