Contos de Grimm

Jacob e Wilhelm Grimm · Capítulo 12 de 16

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Contos de Grimm

O Alfaiate Valente

 

Há muito, muito tempo, num país distante, via um alegre alfaiate de quem toda gente gostava, porque era muito bom e generoso, ainda que as pessoas não o levassem muito a sério, porque era um grande gabarolas e tinha o hábito de exagerar quando contava as suas aventuras.

Certo dia, o alfaiate estava a coser umas calças, muito contente porque lhe tinham oferecido um bolo, que ia comer quando acabasse o que estava a fazer. Contudo, o cheiro do bolo atraíra várias moscas, que se puseram a voar à sua volta.

O alfaiate tentou enxotá-las com um pedaço de tecido, mas as incómodas moscas só se afastavam por alguns segundos, voltando de imediato a pousar em cima do bolo.

— Mas que teimosas. Já ides ver o que vos acontece.

Aproximando-se com todo o cuidado, o alfaiate deu uma forte palmada em cima da mesa, com a qual desfez o bolo, mas em compensação matou sete moscas de uma só vez.

Como era um bocadinho gabarolas, o alfaiate bordou num cinto a palavra «MATO SETE DE UMA VEZ», com letras bem grandes, e passou a usá-lo.

Convencido da sua bravura, resolveu sair pelo mundo, para mostrar a toda a gente como era valente. A todas as pessoas com quem se cruzava dizia:

— Eu cá mato sete de uma vez!

No caminho encontrou um passarinho caído no chão, que meteu na sacola que levava com ele.

Passado um bocado, resolveu parar a descansar e comer um pouco do queijo que trouxera para a merenda. Nesse momento, apareceu um enorme gigante, mas, longe de se assustar, o alfaiate disse-lhe:

— — Ando pelo mundo para mostrar como sou valente! Lê só isto! E mostrou-lhe o seu cinto.

— — "Mato sete de uma vez!," leu o gigante, e cou a pensar que o pequeno alfaiate matara sete homens com um golpe só.

Para o pôr à prova, o gigante pegou numa pedra e partiu-a com as mãos, com a maior facilidade.

— — — Pensas que me impressionas com essas habilidades disse o alfaiate. Olha para isto.

Fingindo que apanhava uma pedra do chão, o alfaiate espertalhão mostrou ao gigante o bocado de queijo que se preparava para comer; depois, com cara de quem estava a fazer muita força, esmagou-o com uma única mão.

Ainda não convencido, o gigante agarrou numa outra pedra e atirou-a ao ar até às nuvens.

— — — Só isso? disse o alfaiate. Acho que a minha chega mais alto.

Fingindo novamente que apanhava uma pedra, tirou do saco o passarito, atirando-o ao ar. Este ao ver-se livre, voou o mais alto que pode, até se perder de vista. Então o gigante, furioso mas impressionado, arrancou uma grande árvore pela raiz e disse:

— Vamos ver se me consegues ajudar a levar lenha para casa.

 

Imagem: Carl Offterdinger

 

— — — Claro que sim! respondeu o alfaiate. Vai tu à frente, que sabes o caminho, e eu vou atrás.

O gigante pôs o grande tronco às costas, e o alfaiate, ngindo que o estava a ajudar, agarrou-se a um ramo.

Ao chegarem a casa do gigante, este convidou o alfaiate a passar a noite, convite que este aceitou, pois já estava a anoitecer. Contudo, ao ver a enorme cama que tinha no quarto, o alfaiate preferiu dormir no chão, o isso salvou-lhe a vida, pois o gigante, invejoso da sua força, a meio da noite revolveu matá-lo, entrando de mansinho no quarto e partindo ao meio a cama com um único golpe.

Pela manhã, o pequeno alfaiate apresentou-se na frente do gigante, ameaçando-o de mãos na cintura. Ao vê-lo são e salvo, o gigante pensou que se tratava de um ser invencível e fugiu espavorido.

A extraordinária proeza do rapaz acabou por chegar aos ouvidos de um rei, que mandou chamar o alfaiate e lhe disse:

— No meu reino há dois gigantes que fazem todo o tipo de maldades e aterrorizam os meus súbditos. Se conseguires ver-te livre deles, dar-te-ei metade do meu reino e a mão da minha lha.

— – Não vos preocupeis, majestade disse o alfaiate -, os gigantes são a minha especialidade. Dizei-me onde posso encontrá-los e não vos tornarão a incomodar.

Com as indicações que o rei lhe deu, o rapaz não tardou a encontrar os gigantes que dormiam debaixo de uma árvore.

O alfaiate subiu à árvore e de lá de cima atirou uma pedra a um dos gigantes que, ao pensar que tinha sido o seu companheiro, deu-lhe uma violenta pancada.

O outro gigante acordou e bateu-lhe em resposta à pedrada, e assim, pancada após pancada, os dois gigantes acabaram por se envolver num combate mortal. Arrancaram árvores para usar como mocas, atiraram um contra o outro pedras tão grandes que conseguiam destruir uma casa, gritaram, deram pontapés… e no m acabaram por morrer os dois.

Então o alfaiate desceu da árvore e foi chamar os soldados do rei, que não podiam acreditar no que os seus olhos viam.

E voltou ao palácio, para relatar ao rei o seu novo feito heroico. Mas este, antes de cumprir a promessa, deu-lhe um novo encargo:

— — — Foste valente disse o rei mas preciso que me faças outra coisa: quero que me tragas o chifre mágico do unicórnio selvagem, que vive solto na

oresta.

A princesa cou um pouco desiludida, mas o alfaiate não desanimou

— Isto será fácil para mim. Matei sete de uma vez só e derrubei dois gigantes malvados. Vou trazer-vos o chifre, Majestade.

E partiu de volta para a oresta. Ainda não tinha andado muito quando, no meio de um descampado, viu investir contra ele, a galope, o enorme unicórnio, feroz cavalo branco de chifre na testa!

Rápido como uma gazela, o alfaiate saltou para trás de uma árvore, e o unicórnio, sem conseguir deter a corrida, espetou o chifre no tronco da árvore, e lá cou preso, sem poder levantar a cabeça!

Imagem: Carl Offterdinger

Tirando da sacola o machado que levara consigo, o alfaiate, com um golpe certeiro, cortou o chifre do unicórnio, que vendo-se livre, fugiu a galope.

Contudo, nem após receber das mãos do alfaiate o precioso troféu o rei se deu por satisfeito e inventou outra artimanha para evitar pagar o prometido.

Disse ao alfaiate para ele car no palácio, aguardando os preparativos para o casamento com a princesa. Nesse meio tempo, o rei chamou os seus soldados e ordenou-lhes que quando o alfaiate estivesse a dormir, entrassem no quarto e o amarrassem muito bem, que ele depois trataria dele.

Contudo, a princesa ouviu tudo e resolveu avisar o seu noivo do perigo que corria.

Este disse-lhe que não se preocupasse, que ele tomava conta da situação

À noite, ngindo que dormia, a alfaiate escondeu-se atrás da porta esperando pelos soldados que viriam prendê-lo. Quando os ouviu chegar, deixou que se aproximassem, e abrindo a porta de repente, gritou com a sua voz mais forte:

— Eu já matei sete de uma vez, dei cabo de dois tremendos gigantes e cortei o chifre de um unicórnio selvagem! Não são sete pequenos soldadinhos que me metem medo!

Quando os soldados ouviram isto, tremeram de susto e saíram correndo, apavorados.

Dessa vez o rei não teve outra opção senão cumprir o prometido. O valente alfaiate casou com a bela princesa, receberam metade do reino e viveram felizes para sempre.