Contos e Lendas

Luiz Augusto Rebello da Silva · Capítulo 11 de 21

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Contos e Lendas

Capítulo II

 

Nos dias d'esta veridica historia governava el-rei D. Pedro, chamado o Justiceiro, e tres annos depois o reino parecia outro. Poderosos e humildes, ricos e pobres, todos eram tratados do mesmo modo, quer punisse, quer premiasse. Os bons sabiam que o rei os amava como filhos, os maus tremiam diante da sua face, porque o castigo de suas mãos seria vingador como a ira de Deus, e rapido como a impaciencia dos opprimidos. No seu tempo a lei era de um só rosto e a pena não coxeava atraz da culpa. Entre o crime e a expiação não se interpunham annos, promessas, ou favores. Devedor honrado,{118} o principe ajustava logo a sua conta a cada um, e pagava-a immediatamente. Só aos moradores de Algouço, coitados! é que ainda não chegára a boa sombra do justiceiro, mas assim mesmo sentiam sua fé tão viva n'elle, que nas maiores afflicções a voz de todos era sempre: «Valha-nos aqui el-rei D. Pedro!» Por fim valeu, e o caso devia ser escripto com lettras de ouro pela penna d'aquelle honrado e singelo chronista Fernão Lopes, mais poeta do que toda uma arcadia, e grande pintor de vultos e de cousas.

Ainda então se aninhava a povoação de Algouço em volta do castello, construido para a defender, e da egreja, que estendia sobre as campas a sombra misericordiosa dos braços da sua cruz. Por ambas as encostas até á corôa da montanha, aonde se erguiam as torres do solar com os engenhos armados nos eirados, e as ameias sempre vigiadas, subiam as casinhas da aldeia, pendurando-se, umas cingidas de verdura, outras negras e arruinadas de velhice, estas mudas e desertas a desabar, aquellas alvas e remoçadas dissimulando a pobreza com os ares quasi festivos!! «Deus nos livre de tão mau senhor!» era o voto dos burguezes de Miranda, compadecidos da escravidão dos moradores de Algouço, e ainda não diziam desgraçadamente toda a verdade. Ali o suor de sangue regava os banquetes da sala de armas e as pompas quasi regias do rico-homem.{119} O pranto da viuva e as lagrimas dos orphãos molhavam suas mãos, sempre alçadas contra a miseria dos desditosos para destruir o tecto, que lhes abrigava o berço, e revolver ás vezes até o chão sagrado do cemiterio aonde repousavam seus paes, avós, e irmãos.

O mordomo trazia de cór os sulcos de cada arado, e o pezo de cada rez. A vontade do amo e a cubiça dos servos deixavam mendigos á noite os que tinham amanhecido remediados!

D. Sueiro descendia dos senhores de Biscaya. N'aquella raça o sangue nobre confundia-se com a chamma infernal do espirito das trevas desde o casamento de Diogo Lopes com a Dama-pé-de-Cabra. Verdadeira, ou fabulosa, a alliança dos altivos barões com os demonios tinha sido fertil em crimes. N'uma epocha, em que a lança e a espada cortavam as contendas, calando as leis, e calcando os direitos, os cavalleiros de Algoço excediam os mais ferozes na braveza, e na crueldade ferina. Vêr correr prantos, e derramar sangue, para elles era um deleite. Pizar aos pés dos cavallos as searas maduras, ou atassalhar nos dentes das matilhas o rebanho, unica riqueza do lavrador, parecia o verdadeiro objecto das estrondosas caçadas, em que talavam campos e vinhas a pretexto de montear lobos e javardos. D. Sueiro foi o ultimo d'esta familia impia. Tres esposas, em seis annos, haviam passado do leito{120} nupcial para o tumulo, sem nenhuma lhe deixar penhor de tão mal agourada união. Rosas pallidas, a melancolia d'aquelles muros, desbotando-as em flor, fanava-as logo? O segredo não transpirou dos labios gelados das victimas; mas sabia-se que os sorrisos do amor nunca lhes tinham alegrado a vida. Desceram ao sepulcro, tristes e silenciosas como existiam d'esde o dia em que haviam entrado aquellas sombrias portas. D. Sueiro não soltára um suspiro! Se uma lagrima congelada n'aquelle coração de marmore veio tremer na palpebra, essa lagrima fundia-se queimada pelo orgulho. O povo accusava-o. A nodoa do homicida estampava-se na fronte maldicta. O crime das tres esposas fôra a esterilidade. O ferro, ou o veneno, rompera o laço conjugal. A sepultura quebrára o vinculo apertado no altar! Era calumnia? Era verdade? Quem sabe! Mas as noites de Sueiro Lopes podiam espantar os mais ousados.{121}