Contos e Lendas
Capítulo VI
Era domingo. Tudo repousava na aldeia. Sobre a tarde um cavalleiro, correndo a redea larga, subia a ladeira torcida por entre os penhascos que findava á porta do castello. Atraz, mas longe, uma vistosa quadrilha de monteiros, de guarda-coz verde e cintos de couro, passou rindo e folgando, em quanto os moços de monte sustinham das tréllas as matilhas impacientes, cujos saltos e latidos formavam condigno acompanhamento aos alaridos dos caçadores. No meio do prestito jovial uma azemola conduzia atravessado em duas varas o corpo de um javardo, victima enorme e cerdosa sacrificada depois de aturada{140} fadiga e renhido combate, segundo attestavam os golpes, com que suas navalhadas presas tinham descosido os mais valentes e fugosos cães.
Soavam as buzinas a brava alegria das florestas, e o tropel ruidoso, trotando, recordava as proesas dos sabujos mais atrevidos, e resava, entre chufas e galhofas, a oração funebre do pingue eremita, que todos haviam corrido sem parar desde a madrugada até ao pôr do sol.
D. Sueiro, que se apartára d'elles ao pé da fonte da moura, era o unico serio e silencioso. Contra o seu costume, a trompa de prata pendia muda, e nem o ardor da carreira, nem as iras do javali, varado pelo seu venabulo, lhe arrancavam os sons festivos, que era sempre o primeiro a levantar. Que magoa, ou que remorso entristecia o senhor de Algoço? Nas trevas, nas horas atormentadas das noites sem somno, apparecera-lhe a visão terrivel, com que na raça de Biscaia a sombra de Diogo Lopes avisava a cabeça da familia de estar proximo o dia dos ultimos e tardios arrependimentos? Ao pé da fonte apeiou-se, e, com a cabeça entre as mãos, alongou a vista até aos montes fronteiros. O olhar vago e perdido dizia que o espirito não se achava ali. De repente rangeram e estalaram os ramos junto d'elle, e do meio dos loureiros saiu uma figura. Ao ruido o rico-homem levou a mão ao punho da espada, inculcando sobresalto sem receio. O mêdo{141} nunca entrára n'aquelle peito inaccessivel á piedade.
—Quem és? O que buscas? bradou irado, medindo com os olhos torvos o robusto e esbelto mancebo, que de arco frouxo na mão, e frechas passadas no cinto, se lhe descobria subitamente.
Este não se alterou. Vendo perto de si o homem, que tantas lagrimas accusavam, assomou-lhe ás faces morenas um leve rubor e as pupillas negras faiscaram duas chispas. Sueiro Lopes apertou com mais força os copos da espada.
—Sou o filho de Ayres Vasques, o de Miranda, e a vós buscava!
A firmesa do tom e a concisão da resposta desagradaram ao cavalleiro. Brilharam os olhos mais sombrios, e um sorriso mau encrespou-lhe os beiços.
—O que vem pedir o filho de Ayres Vasques ao senhor de Algoço, fóra do seu castello, n'este logar deserto?
A ironia salpicava de escarneo as palavras pronunciadas com desprezo.
—Venho dizer-vos, redarguiu o besteiro, aspero e frio, que vive em vossas terras a donzella que ha de ser minha mulher.
—Ah! Só isso?! E é bonita e moça a tua noiva? Por força a conheço então. Como se chama?
Fallando assim, o tom e os modos de Sueiro estillavam tal veneno, que as furias do ciume se levantaram{142} no peito do mancebo. Conteve-se, porem, e retorquiu:
—A mais formosa da aldeia. É a Silvana do Marnel.
—A Silvaninha? A perola de Algoço? Dal-a a um javardo de Miranda?! Pões alto o pensamento, villão. Muito alto! Manjares de senhor não se dão a servos.
Foi Deus, ou o anjo custodio, que suspendeu o braço a Tello. A mão procurou a seta mais aguda no cinto, e os olhos chammejantes apontaram no peito do rico-homem o logar do tiro. O cavalleiro percebeu, mas disfarçou. Continuando a pungir o mancebo com mofas, proseguiu:
—Sabes, Tello, que pelos olhos verdes de Silvaninha dera eu o melhor cavallo e o melhor arnez, e que um beijo d'aquella bocca pagaria o resgate de um barão? Cuida o villão que eu havia de enterrar na sua posilga a roza dos nossos sitios?
—Senhor! bradou o besteiro, tremulo de colera e de ciume.
—Fora! exclamou Sueiro Lopes, mettendo o pé no estribo e sacudindo o látego no ar. Arreda! ajuntou vendo-o adiantar direito e pallido, com mil ameaças nos olhos e no gesto. Arreda, ou por meu bisavô te juro, que tantas noutes dormirás na cisterna do meu castello, que de lá te arranquem cego e doudo!{143}
—Veremos! articulou o besteiro retesando o arco. Só Deus sabe aonde vós dormireis hoje!
O cavalleiro ja tínha cravado esporas no corsel, e começára a levantar o galope, quando lhe chegaram aos ouvidos estas palavras. Escutando-as, parou o cavallo de repente, e voltando rijo sobre Tello, sem baixar a vista sobre elle, disse-lhe rindo affrontosamente:
—Villão! Não has de ir queixoso, olha bem! No dia em que Silvana tecer de fios de ortigas, nascidas na sepultura do avô, duas camisas para mim, dou licença que se chame tua mulher. É uma joia por um ceitil! uma das camisas será o meu brinde de noivado, a outra desejo-a para me enterrar com ella no dia seguinte. Até lá que não vos torne a ver a ambos!
A esperança acabou de fallecer no peito ao mancebo. Fez-se branco, fugiu-lhe a luz da vista, e sentiu-se tão prostrado, como se o sangue se lhe esvaisse todo. Quiz fallar e correr, mas os pés arraigavam-se ao chão. A mão inerte não se erguia. A dor immensa tinha-lhe quasi suspendido a vida. Quando volveu a si para olhar em roda, avistou ao longe na planicie o vulto do cavalleiro maldito, e pareceu-lhe ouvir estalar ainda as risadas do seu escarneo. Tello elevou então ao ceu a vista toldada de lagrimas e caiu em um scismar profundo. Desceu a noute sem elle dar por si; soprou o vento da serra nas{144} arvores sem elle o sentir; e as primeiras gotas da chuva, nuncias da tempestade, orvalharam-lhe a cabeça nua, sem o despertarem da amargura. Ao rebombo dos trovões é que acordou, e que principiou a afastar-se com passos vagarosos do sitio, aonde o amor cercado de illusões lhe sorrira alegre, e aonde deixava calcadas e desfeitas as melhores esperanças da existencia.{145}