Contos e Lendas

Luiz Augusto Rebello da Silva · Capítulo 2 de 21

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Contos e Lendas

A Torre de Cain

 

LENDA DO SECULO XI

I

De um bom irmão um mau christão

 

O monge começou assim a sua historia:

No tempo em que os walis de Cordova tinham quasi todo o reino sujeito, é que succedeu o que vou contar. Estava o conde D. Henrique a entrar por dias, e com elle vinham boas lanças para o ajudarem a resgatar do poder dos infieis as provincias de Portugal. A essa hora nos castellos da fronteira não se descansava de dia, nem de noite; ninguem despia as armas; e quer luzisse a manhã, quer cerrasse a tarde, o clarão das almenáras, ou o rebate das trombetas não consentia nem leve repouso aos defensores da verdadeira lei. Nas ameias, ou no{20} campo da peleja, não se socegava um momento. Os melhores castellos ainda tinham a voz dos descridos; muitas terras pagavam-lhes tributo; e as bellas tapadas do Minho e do Alemtejo eram para elles correrem os veados, os ursos e os javalis. Do marmore de nossas pedreiras arrancavam as columnas e as ricas laçarias de seus paços. Tudo na abençoada primavera d'este formoso jardim chamado Portugal era dos sarracenos e em tudo punham o seu deleite. Nas campinas floridas, em que a lua nasce suave como sorriso infantil, e o ceu brilha radioso como olhar de virgem namorada, a tristeza até parecia desmaiar o sol. Antes de o tragar o inferno, cujo é, o arabe sensual passava pelo paraiso, que nos tinha roubado! Por isso a saudade do que perdeu lhe punge tão viva hoje o coração!...

—E não havia cavalleiros, que lhes estalassem as lanças no peito, bradando: esta terra é nossa! acudiu Martin Paes.

—Havia! redarguiu o frade. Mas eram poucos. N'aquelles dias de captiveiro todos inclinavam a fronte, regando de lagrimas os sulcos da charrua, guiadas por mãos de escravos. Deus exalte o braço victorioso, que nos deu outra vez a terra de nossos paes, que fez nossos, a casa em que abrimos os olhos, o cemiterio aonde dormem os que nos amaram, a arvore que nos cobriu com a sombra a infancia e a velhice, e a fonte que ferve ao pé do rosal!...{21} N'aquelle tempo, quando o mouro passava, baixavam todos a vista, porque elle era o senhor.

—Mas a terra havia de ser então quasi um deserto, padre?

—Não. As espigas douravam-se nas searas como agora; os campos vestiam-se de relvas e de arvoredos; as noras gemiam nas hortas; e os gados pastavam nos montes. Mas a terra, tão alegre por fóra, toda era magoa e desconsôlo por dentro; porque a terra, em que sômos escravos, mesmo que seja a da patria, parece-nos mais só e vasia, do que um êrmo. A casa alheia, a courella que é de outro, e o fogo accêso na lareira a medo, fazem-nos chorar, porque nada d'aquillo é nosso, e hoje, ou amanhã, podem dizer-nos: sáe! O reino vivia, como vive agora; o que estava morto era o coração do homem. Resplandecia o mesmo sol, corriam as mesmas aguas, nasciam as mesmas flôres; porém as creanças não brincavam por baixo dos pampanos da vinha, como brincam estas; e a donzella assustada, tremendo de se vêr formosa, não se assentava tranquilla, como aquella, debaixo da amendoeira em flôr ouvindo descantar o rouxinol por cima da cabeça. O harem do sarraceno, aberto diante d'ella, como um abysmo, fazia-a empallidecer. De um momento para outro podia ser obrigada a escolher entre a deshonra e a morte.{22}

—Que martyrio não seria a vida assim?!...

—Era! Foi!... Mas viveu-se, e por quantos annos!... O dia declina. Faz-se tarde. Quereis que continue?

—Oh, de certo. Fallae!... Todos vos ouvimos.

—No tempo que disse, lavrava a discordia entre dous ricos homens nas terras de Alem-Douro, afirmavam uns que por amor dos lindos olhos de certa dama, juravam outros que por causa da aposta de um cavallo. De seus castellos os dous inimigos, postos defronte, corriam o campo talando vinhas, pomares e cearas, e mal um se descuidava, o outro, assaltando-o, vinha logo acordal-o a ferro e fogo. Em suas mesnadas, ou companhas de homens d'armas, ardia a guerra em toda a furia. Nos casaes assolados de ambos, o solarengo ou o pastor nunca sabia se ao anoutecer recolheria os frutos, e os rebanhos a salvo, ou se despertaria ao clarão das labaredas, para enterrar algum dos seus assassinado.

Por fim o cavalleiro mais velho accommetteu o paço acastellado do contrario, e tomou-o á traição, deixando a cabeça do senhor cravada nas ameias. Aconteceu isto vespera de S. João, por alta noute, quando todos festejavam o bemdito Santo com fogueiras, cantigas e follias. O cavalleiro tinha um filho e um irmão. O filho de edade tenra; o irmão temido{23} pela indole e pelo braço. Entraram e sairam os annos assim; a creança fez-se homem; e de parte a parte a aversão das duas familias cada vez crescia mais. O rio que as separava, tingiu-se de sangue por muitas vezes, e os sinos não cessavam de dobrar na egreja pelos que morriam. O tempo, que tudo gasta de dia para dia, parecia avivar mais aquella rixa. A este tempo o herdeiro do cavalleiro assassinado era já um mancebo louvado pela destresa nas armas e pela prezença gentil a cavallo e nos saráus. Chamava-se D. Moço Ansures, e vendo-o passar, esbelto e affogueado da carreira, com o falcão no punho, as donzellas sorriam-se e córavam, e os homens saudavam-o admirando a fiel imagem do rico homem morto na vespera de S. João.

D. Moço ainda não dissera a mulher nenhuma: amo-te! Um dia, por desgraça, viu a neta do senhor do solar inimigo, e logo o coração esquecido da vingança guardou para sempre a doce imagem. O sangue do pae derramado á falsa fé, as malquerenças de tantos annos, as promessas da meninice e da juventude, tudo d'ahi em diante se apagou da sua alma para não vêr outro sol, outra luz, senão a dos bellos olhos, que o tinham feito seu captivo. Segredos de Deus! Do maior odio rebentou o mais constante amor!... Correram mezes, e o affecto escondido saltou aos olhos de todos. Os parentes lançaram{24} em rosto ao mancebo a sua fraqueza, mas a paixão pôde mais, que as memorias do tumulo, que deixava sem vingança. Por ultimo, cansados das guerras dilatadas, os rancores cederam, e o casamento ajustou-se. Uma rosa veiu unir as duas casas inimigas. O sorriso de uma dama veiu aplacar no sepulcro os que não podiam dormir o somno eterno, e os que haviam jurado não perdoar. Aprazou-se para vespera de S. João o ditoso enlace. Seria proposito, ou acaso? N'esse dia contavam-se justamente quatorze annos, que o pae de D. Moço de Ansures fôra assassinado.

O homem põe e Deus dispõe!

O cavalleiro morto tinha, como disse, um irmão, que lhe queria mais do que á propria vida. Haviam nascido ambos vespera de S. Pedro, e escusado fôra procurar mais do que uma vontade e um affecto nas duas almas. D. Inigo Lopes, era o nome do irmão mais novo, andava ausente. Acertou chegar de longe, quando estavam pregando as taboas do caixão do infeliz. A dôr fez de D. Inigo uma estatua, e sete dias com sete noutes o viram todos jazer deitado sobre a sepultura. Parece que a terra, comendo-lhe os ossos do irmão, consumia ao mesmo tempo n'elle tudo que tinha de humano. Quando rompeu a alva do oitavo dia, e se levantou, trazia a cabeça e as barbas brancas como neve. Envelhecêra ali um seculo em sete dias! Nem um lagrima nos olhos seccos! Nem{25} um soluço do peito mudo. Deixou sobre a campa espada e arnez, e levou só comsigo o punhal. Ao entrar ainda fizera o signal da cruz, mas, saindo, Jesus! voltou as costas ao altar. Os anjos nos defendam!

O que fez sete dias com sete noutes D. Inigo só e encerrado na capella? Se alguem o soube foi a cova fria. Contavam, depois, que um monge na ultima noute vira a pedra do tumulo erguida sem lhe tocarem, e um corpo crescer da sepultura e a mão do morto apertar a mão do vivo. Illusões! Quem vae nunca mais torna. O que não foi fabula, porque todos o presencearam, foi ao oitavo dia rebentar com o primeiro raio de luz uma rozeira do centro da cova, tão viçosa e robusta como se existisse ha muitos annos. Que frescas rosas e que lindos botões nos ramos! Mas se queriam apanhal-os por devoção, murchavam nos dedos; se tentavam cortar uma pelo pé, o sangue corria da haste como se corresse de veia aberta. Em cada ramo abriam sete rosas brancas e sete rosas vermelhas. E que outros tantos dias se contavam tambem desde que o corpo do valente cavalleiro descera á sepultura trespassado de sete feridas.

Nunca mais se soube, ou se fallou de D. Inigo. Dizia-se que sete annos com mais cinco vagueára como peregrino, pelos desertos, que Deus pisou, comendo das ervas do monte, bebendo da agua das nascentes, dormindo ás inclemencias do tempo. Que vida penitente a d'aquelle Santo! Vozes do mundo!{26} O Senhor, que lê nos corações, ha muito que tinha desviado os olhos d'elle. Com ser christão nascido nunca mais ajoelhára á cruz, ou se encommendára á Virgem. Quasi ao cabo do longo desterro anouteceu-lhe no deserto da Tentação ao atravessar pela terceira vez a Palestina. Valha-nos Maria Santissima!... De repente as areias inflammaram-se em um mar de fogo; o ceu cobriu-se de trevas; e nas pontas recortadas das altas rochas dançaram, crusando-se, milhares de luzeiros. Ouviu-se então na vasta solidão do ermo um brado immenso. D. Inigo respondeu, e o pacto, que ali firmou, foi tão negro, que a lua tornou-se côr de sangue e sumiu-se, que as estrellas esconderam tremulas a sua luz. O christão acabáva de vender ali a alma ao inferno pela vingança. Desde aquella hora seguiu-o sempre por toda a parte, como a sombra segue o corpo, a imagem do irmão assassinado. Ajoelhára ao poder de Satanaz, elle que não se prostrára diante da cruz, e rasgando as veias afirmára o juramento. Quando se ergueu soou o cantar do gallo por tres vezes no espaço, repetido pelos echos, e risadas tremendas, levantando-se das aguas immoveis do Mar Morto, applaudiram a victoria do espirito do mal. O reprobo escarneceu do passado. Uma blasphemia atroz saltou-lhe da bocca. Mas elle que se ria de Deus e do inferno, estremeceu sentindo fugir-lhe a terra debaixo dos pés, como horrorisada do peso do seu crime. Aos primeiros{27} passos o clarão dos relampagos cegou-lhe a vista. O temporal rebentava ao mesmo tempo no mar aonde as ondas se empolaram como serras, no ceu aonde os trovões estalavam uns apoz outros; na terra, que se abria em voragens, e no deserto, aonde o furacão, bramindo, cavava abysmos, e alteava montanhas, revolvendo em vortice as areias. Cedros antigos, como os do Libano, desabavam de pancada. As feras, timidas que nem cordeiros, acoutavam-se submissas nos povoados. Os homens elevavam suas orações a Deus pedindo-lhe piedade. Quando tudo se fazia humilde e pequeno para a supplica, porque riria só o orgulho do culpado? D'ali em diante não passou uma hora sem elle se despenhar mais e mais fundo no precipicio. Raiava a manhã um dia e curvado sobre a corrente do Jordão, debruçava o cantaro e enchia-o. As ramas das arvores enfezadas torciam-se em toldo raro sobre a ribeira. A duas passadas de distancia caíra um velho desfallecido de sede e de fadiga. Bastava uma gota d'aquella agua para lhe restituir a vida. D. Inigo negou-lh'a entornando-lhe de proposito o cantaro diante dos olhos para lhe exacerbar o tormento, diante dos olhos que estavam tragando de longe a agua, que o maldito derramava zombando da sua agonia, e dizendo-lhe por mofa: «chama pelo teu Deus e pede-lhe uma nascente ao pé de ti!» O Senhor não accudiu com prodigios ao seu servo. Quiz que expirasse vencedor do{28} inferno. Mas, desde aquelle crime, a sêde intensa ateiada nas entranhas do reprobo, nunca mais se aplacou. Os rios e as fontes convertiam a fresquidão em fogo para o abrazar. A gota de agua negada no deserto pesára na balança do Senhor largos seculos de culpas.

Cumpridos doze annos, D. Inigo voltou, sem se saber como, á terra em que nascera. Disseram que um cavallo da côr da noute, com os olhos todos chammas, o trouxera em breves instantes da Judeia a Portugal. A cauda varria o pó, a respiração era toda fogo, e as crinas ondeavam ao vento. Diante d'elle as mais altas montanhas encolhiam-se e tornavam-se outeiros; o mar e os abysmos solidificados aplanavam-se; e no perpassar do galope infernal os carvalhos inclinados tremiam e beijavam o chão, flexiveis como juncos. Cavallo e cavalleiro não corriam, voavam! Debaixo da ferradura magica as aguas tomavam a dureza do diamante: a terra oscillava, e mil faiscas, saltando da cratera dos vulcões, vinham coroar o rei do fogo. Ao romper da aurora o corsel retrahiu-se, e estacou. Apontava o dia no topo de uma cruz de pedra. Não passou d'ali. Á medida que ia aclarando a manhã adelgaçavam-se-lhe as formas e do primeiro raio de sol dissolveu-se desfeito em fumo.

Quando acabou de desapparecer tangia um sino. D. Inigo olhou e conheceu o sitio. Estava junto da egreja aonde fôra sepultado seu irmão. Ao primeiro{29} passo que deu, descerrou-se o portal por si mesmo; ao segundo illuminou-se a capella repentinamente; ao terceiro as rosas vermelhas cairam seccas e as brancas floriram juntas. Um cantico suave dentro levantava o Ave maris stella. Estava aplacada a vingança do morto. A fé, porem, debalde chamava ali por Inigo; elle não a ouvia. A voz do ceu em vão lhe offerecia o perdão; elle, surdo, não escutava a palavra de misericordia! Orava n'aquelle momento a Deus, muito longe, um santo hermita pelo maior peccador. Arrebatado em espirito, viu um homem cuspindo por odio na cruz á porta de uma egreja. O anjo Custodio, ajoelhado no cruzeiro, banhava de lagrimas as vestes luminosas; mas o desacato gelou-lhe o pranto, e, cobrindo o rosto com as azas, subiu na aragem até se perder nos raios dourados do sol nascente.

«A tua clemencia, Senhor, é infinita! exclamou o justo. Haverá perdão para o que renega o teu Santo nome?»

N'este ponto a visão sumiu-se; as portas da ermida fecharam-se com estrondo; e uma voz, semelhante á da tempestade, bramindo nas selvas, repetiu ao longe: memento, homo, quia pulvis es!{30}

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