Contos e Lendas

Luiz Augusto Rebello da Silva · Capítulo 12 de 21

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Contos e Lendas

Capítulo III

 

Tinha fama de grande monteiro o castellão. Mál o dia despontava, saltava logo no cavallo, e a galope, por sarças e estevaes, por montes e campinas, no meio dos caçadores, entre risos, juras e brados, corria até á noite. Uma tarde, na primavera, levantou-se-lhe um veado quasi nas terras de um colono, e a despeito das supplicas do velho, cães e corseis, salvando valados, e calcando pavêas, arrazaram em minutos o trabalho de mezes. Sobre as vozerias, latidos, e relinchos soavam, sem cessar, os gritos de cavalleiro: Avante! Sus! Aboca! Tocavam buzinas, estalavam lategos, o tropel, ennovelado desappareceu{122} atraz da pista. Garcia de Marnel, o dono do campo, fôra o melhor besteiro dos sitios. O mais rijo arco dobrava-se, como vime, em suas mãos, e a seta da sua aljava atravessara sempre o alvo. De avôs a netos esta robusta e laboriosa raça lançára raizes profundas no solo, remido pelo seu braço. Os mais fundos affectos prendiam-a á terra rôta e lavrada com o suor do trabalho. Na choupana do pequeno casal tinham-lhe nascido viçosas as primeiras esperanças, tinham-lhe alvorecido os castos amores da esposa e dos filhos. No altar da egreja haviam sido abençoadas as promessas de mutua ternura; e agora debaixo da cupula frondosa dos álamos, á sua porta, o avô, no inverno dos annos, sentia-se renascer nas graças infantis da neta, mimosa e unica vergontea, que sobrevivia dos ramos decepados pela morte no velho tronco da familia. Garcia amava tudo isto com o ardor calado, mas intenso das almas viris, retemperadas pelo infortunio.

A pobreza honrada nunca lhe curvara a cabeça, nem o peso da enxada lhe desfallecera o braço. A dor, ferindo-o tres vezes no mais vivo do coração, a dor mesmo não lhe prostrára o animo. A esposa, por tantos annos alegria e conforto de suas fadigas, tinha-o deixado a meio caminho da vida para ir esperal-o na mansão de paz. Dois filhos, amparo da sua velhice, orgulho da sua alma, ceifados em flôr seguiram a mãe, em quanto o ancião desgraçado,{123} só e de joelhos não via a seu lado no desterro da vida, êrmo de consolações, senão a infancia fragil e graciosa de Silvaninha, duas vezes filha, por que duas vezes era o sangue do seu sangue. Inclinado sobre tres tumulos, e trazendo sempre diante de si as sombras da morte, converteu-se-lhe a ternura, com que amava a neta, em um extremo louco e quasi delirante. Só esta saudade, só este amor o prendia ainda ao mundo, mas com tal encanto, que muitas vezes pedira a Deus que lhe dilatasse os dias para não se unir aos que o chamavam do ceu, senão depois de a ver mulher e feliz.

Quando Sueiro Lopes lhe pisou aos pés dos cavallos os fructos de um anno, o sangue do velho, remoçado pela ira, pulou nas veias; as faces cavadas coráram de subito, e os olhos despediram dois relampagos. Saindo ao encontro do cavalleiro, a voz e o corpo tremiam, mas não de mêdo.

Aquelle campo era o dote da neta, e só por causa d'ella é que supportava o peso aborrecido de setenta annos de fadigas. «Senhor! Senhor! dizia elle correndo e clamando, tendes o atalho da esquerda! Ruim caçada contra um velho e uma donzella!» O rico homem não respondeu. As matilhas e os cavallos, precipitando-se, partiam á róda d'elle, envoltos em nuvens de pó, e o afflicto lavrador, de pé e coberto, tinha lançado mão das redeas do corsel.{124}

Um brado rouco denunciou a raiva do senhor. Depois o látego, silvando, cingiu o corpo do velho, em quanto o ginete fogoso empinando-se-lhe ameaçou o peito com ás patas «Fóra! rugiu o cavalleiro. Eis a paga do conselho!» Garcia desviou-se quasi cego de dôr, e Sueiro, cravando as esporas nos ilhaes, voou á redea larga por cima das hortas e ceáras, bradando: «Sus! Abóca!»

O açoute infamante não cortou o corpo, cortou a alma ao desgraçado. Recuando para a porta, como o tigre, e medindo a distancia com as pupilas inflammadas, poz os olhos com ancia no arco e na aljava. Um rujido surdo expirava ao mesmo tempo á flôr dos labios. A vida do homem orgulhoso e máu estava á mercê d'aquelle arco. Tomou-o e encurvando-o ajustou a seta. O que no intimo peito diziam o desespero e a colera era medonho. O rosto não o encobria. Ao apontar o tiro a vista ardente elevou-se ao ceu. Pedia perdão, ou auxilio?

De repente baixou-a magoada sobre a casinha humilde. Uma voz fresca e melodiosa cantava dentro. Duas lagrimas rebentaram então dos olhos seccos do velho; os braços descairam. Quiz vencer-se e resistir, não pôde. O arco fugiu-lhe das mãos, e a bocca murmurou:

«Fôra matal-a tambem a ella!» Enxugando depois as palpebras entregou a Deus o castigo do oppressor.{125}

Mas a desgraça entrára no seu campo com Sueiro Lopes.

O mordomo do castello veiu depois, e consumou a ruina. Desde que fôra aviltado, Garcia não parecia o mesmo homem. A ferida occulta minava-o. Falecia-lhe a alma e com ella os brios para o trabalho. Os visinhos, acudindo ao choro da neta, vieram encontral-o morto debaixo de uma oliveira plantada pelo mais novo dos filhos. A terra, dote da pobre orphã, confiscada caiu nas mãos de um sobrinho do mordomo, e Silvaninha, sem parentes, e protectores, teria morrido de frio e de fome se lhe não valesse a caridade dos amigos do besteiro. Um deu-lhe a casa e o sustento; outro vestiu-a; e muitos, captivos de sua gentilesa, soccorreram-a, cada qual com o que podia. No entanto crescia a donzella em edade e formosura; mas á medida que os annos corriam, o rosto pallido e os olhos verdes entristeciam-se. Muitas vezes deslisavam-se-lhe pelas faces as lagrimas e não as entendia. É que o pão da esmola, mesmo dado com amor, sempre tráva na bocca do infeliz! Ao declinar do dia, olhando para o tecto da casinha, de que fôra desherdada, apertava-se-lhe o coração por medo tal, que tinha pena de viver, e que sentia saudades da sepultura, aonde seu avô descansava, aonde todos os seus dormiam!{126}

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