Contos e Lendas
Capítulo X
Como o Douro vae fundo e impetuoso! Como se arremessa irado contra os penedos do seu leito! Que trovões rebramam as aguas despenhadas em cascatas contra as penhas, que lhe opprimem a furia da corrente! Como a noute se cobre de luto quasi de repente de minuto para minuto! Aos bramidos do vento responde o estampido longinquo da tempestade. Os relampagos fuzilam sobre as eminencias.
Lá em cima, nos penhascos fragosos, que villa é aquella, cujas torres negras estrellam vivas luzes pelas frestas ponteagudas? Seguindo a margem do{162} rio, Tello Vasques não sente fadiga; o brioso corsel devora a distancia. Batia a hora de se alçarem as levadiças, quando o mancebo atravessa pontes e estradas, enfia ruas e villas, e pára no terreiro, defronte dos Paços do conde e da torre de menagem. Apeia-se, e sobe os degraus a dois e dois até ao portal da primeira sala. Os guardas intentam detel-o; mas sem voltar a cabeça, e continuando, responde: busco o senhor! Ninguem o suspende. De corredor em corredor, de aposento em aposento chega á sala de armas. Entre os cavalleiros, que passeiam, divisa o monteiro desconhecido com o mesmo guarda-coz ainda.
Grossas tochas em armeis de ferro illuminam a vasta quadra. Corpos de armas brunidas, achas, montantes, lanças e adagas entrelaçadas em caprichosos ornatos enfeitam as columnas, cujos capiteis lavrados sustentam os fechos da abobada. O monteiro, apercebendo Tello, encaminhou-se para elle. O mancebo vinha tão soffocado, que pôde dobrar apenas o joelho e offerecer-lhe a trompa. Foi preciso que elle sorrisse para o besteiro narrar o successo, que o trazia áquella hora. Concluindo, o moço ergueu as mãos, e com a vista inflammada bradou:
—Levai-me aos pés de El-rei D. Pedro. Dizem que não conhece grandes, nem pequenos. A donzella, que roubaram, é pura e santa como a mais pura e nobre de vossas filhas. Não deixeis sem castigo{163} o rico-homem por ella ter nascido no berço de um villão!
Á medida que o besteiro fallava, a phisionomia do desconhecido mudava de aspecto. Os olhos pretos dilatados chammejavam, e o semblante, rosado e jovial, empallidecia, torvo de severidade. Arquejava-lhe o peito. O gesto infundia medo até nos que se achavam distantes. Quando Tello poz termo a suas queixas, e levantou a vista, recuou assustado. A expressão dos olhos do seu protector era terrivel. Ensanguentados e delirantes mais se assimilhavam ás pupillas encandeadas do tigre, do que a olhar humano. A voz cheia, mas presa, gaguejando, fallava tão convulsa, que pouco se entendia. Adiantando-se, o desconhecido clamou em grandes brados:
—Lourenço Gonsalves! Acudi! Um rico homem furtou a mais linda de minhas filhas!
O brado, e a immensa colera, revelaram tudo ao mancebo. Lourenço Gonsalves era o corregedor da côrte. Ninguem ousaria chamal-o assim senão el-rei. Tello prostrou-se cheio de esperança.
—Segue-me! Affonso Madeira! o meu cavallo enfreado á porta! A minha capellina de aço! Gonsalo Vasques de Goes, escrivão da Puridade! Chamae os desembargadores, relatae-lhes o feito, e lavrae a sentença. Por alma de Ignez de Castro!... Pelo seu amor! murmurou mais baixo. Antes de{164} nascer o sol haverá um criminoso de menos no meu reino, e mais uma justiça de minhas mãos no livro de suas chronicas!
Fallando assim enlaçava a capellina, calçava as luvas de gamo, e com o açoute cingido, desprendia a acha de armas mais pesada.
O besteiro seguiu-o sem proferir palavra. Os cavalleiros montavam, e uns apoz outros galoparam para o alcançar. El-rei ia deixando atraz do cavallo o proprio Tello Vasques, e cego de ira mettia-se pelas terras de Algoço. Por cima d'esta vertiginosa carreira a chuva cahia em torrentes. A procella abria os ceus em clarões lividos, desarraigando as arvores annosas. Quando D. Pedro assomava diante da porta do castello, um vulto surgiu, que tomou-lhe as redeas, convidando-o a apeiar-se. De um salto estava em terra e levantando a cabeça via as frestas da torre illuminadas. O vulto travou-lhe do braço, e disse:
—É ali!
—Vamos! redarguiu o principe, e seguiu-o sem desconfiança.
Uma entrada falsa, além do fosso, cedeu á chave e ao impulso.
—Ide agora e Deus seja comvosco! disse a mesma voz.
Ouvindo vozes e risadas no andar superior, o amante de Ignez de Castro subiu. No topo da escada{165} de caracol, a scena que se lhe representou excitou-lhe ainda mais a colera. Perderia o terror salutar do nome Justiceiro se perdoasse aquelle crime.
Era espaçoso o aposento. Um lampadario allumiava parte d'elle; o resto mergulhava-se em meia escuridão. No centro da sala, em um leito, com as mãos ligadas, jazia Silvaninha. Duas voltas de lenço sobre a bocca até os ais lhe suffocavam! Só os olhos, os lindos olhos, banhados de lagrimas pediam a Deus a morte, remedio extremo da infamia. Sueiro Lopes, defronte, sorria-se medindo com a vista a queda lenta da areia d'uma ampulheta. A seu lado o villico silencioso corria os dados sobre a mesa. A tela da mortalha, fiada e tecida com as ortigas do tumulo, estava nas mãos do cavalleiro, e suas palavras, ironicas como punhaes, atravessavam o peito da infeliz. Estranho ao remorso, o neto dos senhores de Biscaia cevava na formosura captiva o furor dos zelos.
—Porque choras, Silvana? Dera hontem o melhor arnez e o melhor cavallo por um sorrir de teus olhos. Pedi-te amor e respondeste não. A tua prenda foi esta mortalha! Que te acudam agora as fadas, que a teceram, e os anjos porque chamavas! Brada pelo besteiro villão, que preferiste ao rico-homem! Grita por el-rei D. Pedro! Por forte que seja o seu braço as portas chapeadas d'este castello ainda são{166} mais fortes. Em esta areia, que está por instantes, cahindo toda...
Faltou-lhe a voz. A mão erguida do villico deixou tambem rolar o ultimo dado. Ao limiar estava el-rei D. Pedro, e nos olhos d'elle brilhava um clarão terrivel. A pesada acha reluzia em suas mãos.
—Traidor! bradou o principe. Mentes! O braço de D. Pedro quebra e rompe todas as portas. Vais ver!... Villão! ajuntou fallando ao villico. Solta as mãos e a boca a essa donzella. Ninguem se mova! Sueiro Lopes, conta bem os grãos de areia da tua ampulheta. É o tempo que te dou. Vais comparecer na presença de Deus!
O orgulho indomito do cavalleiro não cedeu. Empunhando a adaga, e posto que pallido, sempre firme e seguro, voltou-se para D. Pedro e redarguiu:
—Quem dá aqui ordens e ameaça? O verdugo de Pero Coelho e de Alvaro Gonsalves? O rei carrasco, falso á sua alma e á alma de seu pae? Imaginas que farei como os outros cavalleiros? Estou no meu solar, e a quem entra de noite e á má fé chamo-lhe inimigo! Villico! Aperta os laços da captiva. No alto e no baixo, irado e pagado, não entrego o castello senão a Deus. A mim, homens d'armas!
—Deus é justo! clamou el-rei, cuja furia não conhecia limites. O matador de tres mulheres levanta-se{167} contra o seu rei. O perseguidor cruel de donzellas nega-me o preito e menagem. Bem! Morrerás como villão ás mãos dos teus villãos. Não mancho em tal sangue o ferro da minha acha. Villãos! bradou imperioso aos servos do senhor que tinham acudido. Sou D. Pedro! Sou o rei! Esse que ahi está, rebelde e traidor, prendei-m'o em quanto os meus não chegam!
A presença e a voz do filho de Affonso IV infundiam terror. Os homens d'armas temiam, mas não amavam Sueiro Lopes. A ordem foi cumprida. Depois de curta e desesperada resistencia, o cavalleiro ficou á mercê de el-rei.
—Passae um laço na cadeia do lampadario, ponde um escanho para elle subir, e cingi-lhe o nó na garganta! proseguiu o soberano indignado.
—Sou rico-homem por foro de Hespanha. A afronta da morte vil, caírá sobre vós e sobre todos os filhos d'algo. Pedir-te-hão contas d'ella, verdugo! gritou o cavalleiro estorcendo-se.
—A Deus as darei, e a mais ninguem! O desleal que violenta donzellas não é cavalleiro. Quebro-te a espada e o foro com o meu sceptro.
Momentos depois, D. Sueiro estava em cima do escanho, e o villico enrolava-lhe o laço. Commovida e tremula, Silvana lançou-se supplicante aos pés do rei. Debalde! D. Pedro, desviando-se, perguntou ao paciente:{168}
—Pedes perdão a Deus e ao teu rei?
—Não!
O pé do principe tombou o escanho e a morte cortou as ultimas palavras do cavalleiro.{169}