Contos e Lendas
III Deus seja comnosco
III
Deus seja comnosco
Na sala de armas do castello soam mil vozes de jubilo. Que luz faisca das malhas pulidas e que reflexos, que cegam, saltam dos dourados capellos! Cavalleiros moços fallam de amores, inclinados sobre os estrados das donas e donzellas. Violas e doçainas acompanham as coplas dos trovadores. Mais adiante, em turbilhões de cem côres, em collos ondeados e graciosos, giram e volteam as dansas, e o olhar furtivo de alguns pares promette, em breve, dias semelhantes a mais de um solar.
Na vasta quadra apparelhada para o festim em quanto os convivas não entram, o vento geme por entre frizos{38} e laçarias dos delgados columnellos. A lua, alta no ceu, entorna pelos vidros corádos das frestas golphadas de luz branca. De repente as trompas quebram o silencio. Avizinha-se, e já se reflete nas paredes, o clarão de muitas tochas. Povoa-se a sala, innundada de luz subitamente. Os escanções enchem as taças e fazem-as circular em roda. Saudes, acclamações, e vozes crusam-se, trocam-se e voam em confusão jovial de um a outro extremo da casa. D. Ordonho parece remoçado. Á sua direita senta-se Auzenda. Da esquerda um escanho vazio aguarda D. Moço Ansures. Defronte, em outro escanho, tambem vazio, estaria o pae do noivo, se podesse deixar a sepultura. Cobre-o um veu de luto.
A meio do banquete as dansas tornam a entrançar os pares como grinaldas vivas do festejo. Pelas portas abertas do alcacer enxameiam incessantemente donas, cavalleiros e monges, convidados pela hospitalidade quasi regia do rico-homem. As taças cheias de licor espumoso correm de mão para mão. D. Ordonho, de pé, alça a sua, e com a fronte erguida brada:
—Á paz dos christãos! Á ruina e confusão dos infieis! «Uma longa acclamação responde á sua voz: «Assim findem todas as discordias entre irmãos!»
Ainda não tinha pousado o vaso na mesa quando, voltando a vista, soltou um grito. Os convivas olharam{39} tambem e ficaram immoveis com as taças suspensas.
No logar vazio destinado a honrar a memoria do pae de Ansures, appareceu de repente um homem sentado. Vestia armas pretas com a viseira callada e na cotta o açor bordado. Descalçando o guante direito, e empunhando a primeira taça cheia, ergueu-a lentamente.
—Bem fallado, conde Ordonho! (exclamou.) Á paz da noute de S. João!..
Não bebeu, derramou o vaso, e o vinho, maculando a toalha, tornou-se vermelho e vivo como sangue. No sitio em que pousou a taça uma malha de ferro em braza queimou a alvura do linho. Alçou então a viseira. Os olhos, as feições o os modos eram exactamente os do cavalleiro assassinado havia quatorze annos; porem os cabellos e as barbas brancas lembravam, que por cima do seu corpo passára o frio da sepultura.
Alguns dos que o viram desejaram fugir, mas, petreficados por um poder occulto, não poderam mover-se. O horror gelava a todos.{40}
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