Contos e Lendas
Capítulo VII
—O açor encontrará a aguia. Sinto-a já voar! Não chores, Silvana, serás feliz. Diz-to quem o sabe! Tello!.. A frecha do teu arco pode descansar na aljava. Esta noite, á meia noite, ide ambos ao cemiterio da igreja. Ajoelhai e rezai sobre a sepultura de Garcia. Como as ortigas crescem e estão n'ella viçosas! Quando sair o luar, Silvaninha, colhe-as a duas e duas, e traz-m'as no regaço á fonte da Moura. Vespera de S. João ha de torcer-se o fio. As duas camisas não hão de faltar. A semana que vem será a do noivado e a do enterro. Ouvis dobrar o sino? A aguia não tarda. Enxugai os olhos. {146}
E a velha Aldonça, dizendo isto, ria-se com aquelle ar que fazia da feiticeira a amiga de todos os afflictos. D. Sueiro puzera por condição, que só daria o sim, se a donzella lhe fiasse e tecesse de ortigas da sepultura do avô duas camisas.
—Queres acompanhar-me, Tello? atalhou a donzella suspirando.
—Por que não fugimos nós? acudiu elle a meia voz.
—Por que ninguem foge á sorte! tornou a velha, erguendo-se e sustendo a mão alva e breve de Silvana entre as suas. Não vos demoreis. Á meia noite, ao romper da lua, todos tres na fonte da Moura!
Era já escuro, e as estrellas começavam a scintillar. Suspirava a viração por entre as folhas das arvores, que no cemiterio cobriam de sombra as sepulturas. As relvas altas ensurdeciam os passos. A roza silvestre entrelaçava-se com as verbenas e com os goivos. Ao lado da egreja, entre rosmaninhos, erguia-se uma cruz de pau; tinha entalhado um arco no topo. Ali repousava de setenta annos de edade e de fadigas o avô da donzella. Segundo afirmára Aldonça, uma seára de ortigas vestia o chão. Como o pranto se corre pelas faces de Silvana ajoelhada! Como a oração sobe pura e fervorosa de seus labios ao regaço dos anjos, que vão depor aos pés do Senhor! Mais afastado, Tello, tambem de joelhos, orava com ardor; mas aquelle peito, menos brando,{147} mistura com as preces vozes de vingança. Por fim levantou-se a donzella, e beijando a terra aonde o pó dos que amára se volvera ao pó, principiou a cumprir as ordens de Aldonça. A duas e duas foi apanhando as ortigas. Quando acabava chispou no outeiro mais proximo a labareda da primeira fogueira, e soou na voz de bronze do sino o primeiro repique. A lua rompia de traz da serra, e o seu clarão branco allumiava toda a campina. Era a hora aprazada. O mancebo deu a mão a Silvana. Tinham ambos tantas cousas dentro d'alma, que nenhum fallou em todo o caminho.
Quando chegaram não viram senão uma serpente, fugindo por cima dos penhascos, e uma corsa branca pulando por entre as arvores. A velha Aldonça appareceu de repente ao pé da fonte, e acenou-lhes. Recebendo das mãos da donzella as tres regaçadas de ortigas, banhou-as outras tantas vezes na agua encantada, pronunciando algumas palavras a meia voz. Passados minutos tirou-as do tanque reduzidas a feveras finas, como o fio que tece a aranha. Tres dias decorreram. Em todos elles não cessou de girar o fuso da velha.
No quarto dia dobou-se a linha; no quinto metteram-se as meadas no tear.
Quando a semana pendia só de poucas horas, Sueiro Lopes passou a cavallo pela choupana, olhou, e viu Aldonça á porta, cozendo com Silvana{148} uma tela tão branca e transparente, que deslumbrava.
—Guarde-vos Deus! disse detendo-se. Que estais cosendo com tanta pressa?
E o cavalleiro não tirava a vista dos dedos afilados da donzella que voavam sobre a costura.
—Estamos cumprindo um voto! redarguiu a velha sem levantar a cabeça. Aquella é a camisa do noivado, esta é a camisa do enterro. Ortigas do cemiterio nos deram o fio, e boas fadas nos teceram o panno. Em tres dias estarão acabadas e em tres dias veremos tambem a noiva no altar e o morto no caixão.
Ouvindo-a, o rico-homem mudou de côr e largou as redeas ao cavallo. A velha, vendo-o correr, exclamou, meneando a cabeça:
—Corre! Que mais corre o destino! Ao que ha de ser ninguem escapa!{149}