Corações Sujos
8 - Na tribuna, Prestes, Capanema e Gilberto Freyre: A “Camorra Amarela” racha a constituinte ao meio
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NA TRIBUNA, PRESTES,
CAPANEMA E
GILBERTO FREYRE:
A “CAMORRA AMARELA”
RACHA A CONSTITUINTE AO MEIO
O s crimes cometidos pela Shindo Renmei em Tupã ainda estavam nas primeiras páginas dos jornais quando a Assembléia Nacional Constituinte decidiu abrir o processo de votação das propostas que tratavam da questão imigratória. Além das emendas que estabeleciam normas genéricas para a política brasileira de imigração, alguns projetos apontavam especificamente para os japoneses — como o do pessedista Álvaro Castelo, do Espírito Santo, que exigia exame de sanidade mental de “todo e qualquer representante da raça amarela” que pretendesse
viver no Brasil. Nenhum deles, porém, provocaria tanta celeuma entre os constituintes quanto
a emenda 3165, de autoria de Miguel Couto Filho, que em apenas dezesseis palavras pretendia
resolver definitivamente o que ele chamava de “problema japonês”. Sem preâmbulos nem
rodeios, ele ia direto à questão:
É proibida a entrada no país de imigrantes japoneses de qualquer idade e de qualquer
procedência.
A solução radical proposta por Miguel Couto dividiu a Constituinte. O primeiro a ocupar a
tribuna foi Aureliano Leite, para carimbar a emenda como “iníqua, odiosa e inconstitucional”.
No microfone de apartes, Luís Carlos Prestes anunciou que a bancada comunista tinha fechado
questão a favor da emenda — o que significava que o autor poderia contar com quinze votos.
“Do ponto de vista político”, sentenciou o secretário-geral do pcb, “é indispensável, nos dias
de hoje, proibir a entrada de imigrantes japoneses no Brasil.” O festejado sociólogo Gilberto
Freyre, eleito constituinte pela udn pernambucana, acabaria fazendo uma de suas raras
aparições na tribuna da Assembléia para manifestar-se contra a emenda. Freyre citou a
generosidade com que ele próprio havia sido recebido pelos norte-americanos, quando fora
compelido a se auto-exilar nos Estados Unidos, “desgraçado pelos excessos do movimento
denominado Revolução de 30”:
Isso sem falarmos nas honras e vantagens de que têm sido cercados nos Estados Unidos e
no Canadá os Einstein, os Thomas Mann, os Jacques Maritain, os grandes repudiados
pelo ódio, pela intolerância, pela inveja ou pela intriga em seus países de origem. A
França fez o mesmo com Paulo Duarte, Portugal com Cícero Dias, a Bolívia com o hoje
ilustre senador Luís Carlos Prestes, a Argentina com o admirável escritor Jorge Amado.
Responderemos a esse espírito fraternal fechando as portas a estrangeiros que procuram
o Brasil para se integrarem na comunidade brasileira? Seria um arcaísmo.
Com ironia ferina, Freyre tratava os brasileiros como “quase brancos”, ou “aparentemente
brancos”, para lamentar que a xenofobia e o racismo pudessem triunfar “numa democracia que
já teve pelo menos um mulato ilustre na Presidência da República” — uma referência ao
fluminense Nilo Peçanha, que governara o Brasil entre 1909 e 1910. Nem mesmo o ex-ditador
Getúlio Vargas, agora convertido à condição de senador eleito pelo ptb do Rio Grande do Sul,
escaparia dos debates provocados pela polêmica emenda. Em sete meses de sessões da
Constituinte, Getúlio jamais passara perto da tribuna ou do microfone de apartes. Na primeira
e única ocasião em que decidiu usar a palavra, não conseguiu impedir que a “questão
japonesa” invadisse seu discurso. Acusado pelo udenista potiguar Ferreira de Souza de ser
co-responsável pelas “hordas de amarelos” que haviam entrado no Brasil durante seu
governo, Getúlio retrucou que a comunidade japonesa já era numerosa quando ele chegou ao
poder, em 1930, e lembrou que “o Brasil daquela época já tinha a maior colônia japonesa do
mundo, fora do Oriente”. Ao contrário de estimular a vinda de mais japoneses para o Brasil,
lembrou o ex-ditador, todas as restrições impostas a estrangeiros vigentes no país eram fruto
de decretos nascidos nos quinze anos em que ele estivera na Presidência da República.
Lembrou que, muito antes da deflagração da Segunda Guerra, fora dele a iniciativa de colocar
sob controle a colônia japonesa, com medidas como a proibição da publicação de livros,
revistas ou jornais em línguas estrangeiras. Nove anos depois, Getúlio justificava “o acerto e
a previdência” da medida:
“Em 1937, 300 mil japoneses ocupavam posições estratégicas no litoral de São Paulo e em
todo o interior. Organizavam-se a infância e a adolescência brasileiras no culto racial a seus
antepassados estrangeiros e incutia-se em seu espírito a ligação à pátria de seus pais e não à
pátria brasileira.”
Vargas insinuava que, se os parlamentares estavam interessados em descobrir defensores
dos japoneses, deveriam olhar à sua própria volta, e não para o governo que ele chefiara sem
nunca precisar de votos:
“Ricas e poderosas, organizadas e disciplinadas, as zonas coloniais forneciam fortes
contingentes eleitorais aos que defendiam sua política.”
Os debates prosseguiram até o dia 27 de agosto, quando o presidente da Constituinte, o
senador mineiro Fernando Melo Viana, do psd, decidiu colocar a emenda de Miguel Couto em
votação. Embora fosse uma terça-feira, dia propício a votações que dependiam de quórum
qualificado, só à noitinha, quando os trabalhos estavam prestes a se encerrar, é que a mesa
contabilizou a presença de 199 parlamentares, sete além dos 192 necessários para
deliberações. Melo Viana estava disposto a se livrar logo daquele abacaxi: ao constatar a
existência de número suficiente, convocou para aquela mesma noite uma sessão extraordinária
para votar a emenda 3165. Abertos os microfones para os chamados “encaminhamentos de
votação”, uma fila de parlamentares se inscreveu para usar a tribuna. Por ter sido o primeiro a
subscrever a emenda, junto com Miguel Couto, o udenista potiguar José Augusto teve direito à
precedência. Mas mal ele ensaiou os primeiros prolegômenos e o tiroteio começou:
O sr. Aureliano Leite (UDN-SP) — Repetirei o que aqui já disse: a emenda é
inconstitucional, iníqua e odiosa. É um absurdo uma Constituição consagrar um
princípio dessa ordem. [...]
O sr. Luís Carlos Prestes (PCB-DF) — Nos anos de 1936, 1937 e 1938 entraram 28, 39
e 30 mil japoneses na nossa pátria. Nos Estados Unidos, quando o número dessa
imigração chegou a 40 mil, o governo tomou medidas para que tal concentração não
continuasse. É indispensável, portanto, proibir a entrada de imigrantes japoneses no
Brasil. [...]
O sr. Adroaldo da Costa (PSD-RS) — Os japoneses são como o enxofre, são insolúveis,
não se deixam assimilar. Irão constituir quistos raciais. [...]
O sr. Rui Almeida (PTB-DF) — Em 1938 tive oportunidade de levar ao então ministro
da Guerra, general Dutra, hoje presidente da República, relatório completo sobre as
atividades dos japoneses em São Paulo. Já naquela época, vários oficiais do estado-
maior japonês entravam naquele estado como lavradores. É de estranhar que ainda
apareçam aqui defensores dos inimigos do Brasil! [...]
(Trocam-se apartes não regimentais.)
O sr. Aureliano Leite (UDN-SP) — Essa emenda é desumana.
O sr. José Augusto (UDN-RN) — Desumano é permitir que nossa pátria seja invadida
por gente que não será assimilada.
O sr. Wellington Brandão (PSD-MG) — Posso saber por que o nobre orador não
inclui na sua emenda os alemães?
O sr. Hamilton Nogueira (UDN-DF) — No atual momento histórico, a imigração
indesejada é a japonesa.
O sr. Rui Almeida (PTB-DF) — É nociva.
O sr. José Augusto (UDN-RN) — Será uma calamidade.
O sr. Hamilton Nogueira (UDN-DF) — Muito embora estejamos de acordo a respeito
da nocividade amarela, defendo que esta é matéria de lei ordinária. Incluir na
Constituição um dispositivo condenando a imigração japonesa é afirmar um princípio
racista, que já condenamos no nazismo.
(Trocam-se apartes não regimentais. O senhor presidente faz soar os tímpanos.)
O sr. José Augusto (UDN-RN) — Sou tão anti-racista quanto o senador Hamilton
Nogueira, mas esta não é uma questão racial, senão política.
O sr. Aureliano Leite (UDN-SP) — No momento em que a grande França dá um
exemplo a todo o mundo, pretendendo colocar na sua Constituição o princípio de que ali
não existe preconceito de raça e de religião, o Brasil é convidado a seguir a teoria
nazista...
(Trocam-se apartes não regimentais. O senhor presidente faz soar os tímpanos.) [...]
O sr. Prado Kelly (UDN-RJ) — Senhor presidente, há de ter notado Vossa Excelência
que o assunto interessou vivamente a Assembléia, porque, de fato, estamos entre dois
sentimentos que dificilmente se conciliarão: em primeiro lugar, nossa vocação anti-
racista (Muito bem! Muito bem!), que impediria incluirmos no texto permanente da
Constituição dispositivo que determinasse a proscrição de um povo, fosse ele qual fosse.
(Apoiados.)
(Trocam-se apartes não regimentais. O senhor presidente faz soar os tímpanos.)
O sr. Prado Kelly (UDN-RJ) — Os únicos homens imperialistas do mundo são os
japoneses. Não é possível, porém, mancharmos o texto constitucional, saturado de tão
altas e nobres inspirações, com um dispositivo como o que está em discussão, que
amesquinharia nossa obra (Muito bem! Muito bem!).
O sr. Nereu Ramos (PSD-SC) — Gostaria de desde já manifestar meu voto: embora
radicalmente contrário à imigração japonesa, não darei meu voto à inclusão da emenda
no texto da Constituição (Muito bem! Muito bem!).
O sr. Miguel Couto Filho (UDN-RJ) — É de lamentar.
O sr. Pereira da Silva (PSD-AM) — Devido a concessões dessa natureza, o Brasil tem
sido humilhado.
O sr. Miguel Couto Filho (UDN-RJ) — Já levaram uma parte do Amazonas e do Pará.
Convencido de que o plenário jamais chegaria a uma decisão consensual, Melo Viana
decidiu colocar a emenda em votação. Temendo que a aprovação fosse inevitável, Prado
Kelly apresentou um requerimento propondo que, se aprovada, a emenda seria incluída nas
disposições transitórias, e não no corpo da nova Constituição. Depois de mais uma hora de
debates é que o requerimento foi votado e aprovado por uma margem mínima de votos.
Quando se supunha que a questão estava resolvida, um deputado levantou uma nova dúvida:
O sr. Medeiros Netto (UDN-AL) — Indago de Vossa Excelência como deverá manifestar-
se quem não pretenda votar a emenda como matéria permanente nem como matéria
transitória.
Não se tratava de dúvida de um jovem alagoano perdido entre as estrelas da política
nacional. Velhas raposas também pareciam confusas.
O sr. Gustavo Capanema (PSD-MG) — Sou um deles. Não posso votar dessa forma,
porque sou contra a emenda de qualquer maneira.
O sr. Luís Carlos Prestes (PCB-DF) — Tenho conhecimento de que diversos senhores
representantes somente votarão a emenda desde que ela conste das disposições
transitórias. Sem saberem da destinação do preceito, votarão contra ele. Pedimos, por
isso, que a votação se processe nas disposições transitórias.
Como se lembraria muitos anos depois, Melo Viana sentiu no ar “um cheiro de obstrução”.
A Constituinte estava rachada e nenhuma das duas correntes tinha certeza de poder vencer no
voto. Para evitar que um dos lados decidisse obstruir a votação, ele encerrou a discussão
abruptamente:
O senhor presidente — Considero que a emenda já foi regimentalmente discutida, tendo
se manifestado os senhores representantes contrariamente e a favor. Deliberou ainda a
Assembléia que, aprovada, figuraria nas Disposições Transitórias. Vou submetê-la a
votos. (Palmas.) Os senhores que aprovam a emenda no 3165, queiram levantar-se.
(Pausa.)
Em geral barulhento, o plenário silenciou diante de um presidente que pela primeira vez
temia errar. Não que o senador Fernando Melo Viana fosse um jejuno, alguém que estivesse
pela primeira vez diante de uma decisão política grave. Governador de Minas entre 1924 e
1926 e vice-presidente da República no governo Washington Luís, ele chegara a se envolver
em um incidente político na cidade de Montes Claros, no interior de Minas, pouco antes da
eclosão da Revolução de 30. Militantes getulistas apedrejaram uma caravana chefiada por
Melo Viana, que acabou ferido sem gravidade. Mesmo experimentado em situações difíceis,
ele parecia temeroso de cometer uma injustiça irreparável.
O senhor presidente — Minha consciência vacila na proclamação do resultado. Trata-se
de assunto da máxima importância e não quero assumir a responsabilidade de anunciar
a aprovação ou a rejeição sem absoluta segurança. Vou proceder à contagem dos votos.
No primitivo sistema de apuração utilizado pela Constituinte, os parlamentares que fossem
a favor da matéria votada se manifestavam colocando-se de pé no plenário. O secretário da
mesa contava os votos um por um e depois, no caso das votações apertadas, repetia a
apuração ao contrário, para evitar erros: os favoráveis se sentavam e quem fosse contra ficava
de pé — e nova contagem era realizada. O resultado apurado era grave demais para ser
anunciado sem solenidade.
O senhor presidente — Votaram a favor 99 senhores representantes, e contra, 99.
Empate. Ele ia ter que decidir se a emenda seria aprovada ou arquivada. Melo Viana
aprumou a voz e anunciou:
O senhor presidente — Voto contra a emenda. Está rejeitada.
■
Apesar da vitória na Constituinte, os simpatizantes da Shindo Renmei, que representavam
mais da metade da colônia japonesa, não tinham motivos para festejar. Milhares deles estavam
presos, famílias inteiras haviam se desagregado e as denúncias de tortura nas prisões eram
comuns. Com o passar dos meses, no segundo semestre de 1946 os crimes cometidos pela
Shindo começaram a ser julgados e o balanço da operação policial dava a medida do golpe
que vitimara os fanáticos. Ao todo tinham sido detidos, fotografados e identificados 31380
imigrantes japoneses. Depois de sucessivas triagens, 1014 foram denunciados como autores
ou co-autores de crimes, para os quais o Ministério Público pedia punições que variavam de
alguns meses de cadeia até a pena máxima, de vinte anos. Para 190 presos — os chefes e
matadores da Shindo Renmei — a promotoria pedia a expulsão do país.
A população do presídio da Ilha Anchieta aumentava a cada dia que passava. Os presos
eram levados até Santos de trem ou em caminhões do Exército, e de lá embarcados para a ilha.
A viagem significava doze horas de padecimento: dezenas de presos eram atiradas nos porões
imundos das embarcações, e durante o trajeto vomitavam, defecavam e urinavam no chão.
Quem reclamasse já sabia que ao chegar ao destino seria castigado com golpes de cassetete.
Nas primeiras semanas as relações entre os japoneses e os carcereiros eram muito tensas.
Como quase todos os presos lutavam judô, jiu-jítsu ou praticavam alguma outra arte marcial,
os incidentes eram freqüentes. O mais sério deles aconteceu quando circulou entre os
carcereiros a informação de que “doze valentões” pretendiam liderar o levante e tomar a ilha
(segundo os presos, isso era um boato inventado pelos makegumi de São Paulo). Os guardas
escolheram doze prisioneiros japoneses ao acaso e meteram-nos na solitária. O protesto de um
deles ia sendo punido com uma sessão pública de chicotadas, mas o japonês era um judoca
experiente e reagiu com um violento golpe contra o soldado. Quando um grupo de carcereiros
armados de cassetetes apareceu em socorro do colega, cinqüenta japoneses avançaram sobre
eles, aplicando nos guardas uma sova em regra — ou, segundo escrevera um preso em seu
diário, “uma festa de cacholetas”. Como punição foram todos parar na solitária, e o diretor
determinou que a partir daquele dia os japoneses só podiam andar acompanhados de soldados
armados. Mas o episódio serviu para mostrar à direção do presídio que aqueles não eram
prisioneiros submissos como os que costumavam freqüentar a ilha.
Com o tempo, porém, a situação se acalmou. A presença dos japoneses mudou o cotidiano
da Ilha Anchieta. Às seis da manhã, quando tocava o estridente apito-despertador, os detentos
viravam-se em direção ao nascente e faziam o Saikerei, a reverência ao imperador, seguida de
um minuto de silêncio em homenagem à memória dos mortos na guerra, e encerravam o ritual
cantando, todos juntos, o Kimigayo, o hino nacional japonês. Só então caminhavam até o
refeitório onde era servido o café da manhã. Salvo um ou outro excessivamente rebelde,
nenhum japonês ficava preso em celas, ao contrário dos criminosos comuns, que passavam
todo o dia trancafiados. O major diretor do presídio percebeu que os novos hóspedes da ilha
tinham habilidades que poderiam ajudá-lo a melhorar as condições dos próprios presos. Em poucas semanas já havia hortas espalhadas por todo lado, criações de galinhas e de porcos e
algumas equipes que se encarregavam de garantir peixes para as refeições. O que sobrava da
produção era vendido no continente.
No presídio, cada um cuidava de uma atividade. Por serem mecânicos, Fusatoshi Yamauchi
e o tokkotai Masao Honke ficaram encarregados da manutenção dos cinco barcos da polícia,
alguns deles com capacidade para transportar até 250 pessoas. Bem-comportado, Yamauchi
foi “promovido” a piloto de barco, o que permitia que fosse com freqüência a Ubatuba, a
cidade do litoral norte paulista mais próxima da ilha, onde fazia as compras para o presídio.
Lá ele acabou fazendo amizade com a filha do dono do armazém, uma jovem professora que se
compadeceu da sorte dos japoneses e passou a fazer secretamente a troca de correspondência
entre eles e suas famílias. A confiança do major em Yamauchi era tanta que, quando era
preciso buscar no continente uma autoridade policial ou judiciária que viesse de São Paulo
para ouvir algum preso, o diretor ordenava que Yamauchi viajasse armado de revólver —
prudentemente descarregado —, para que ninguém desconfiasse que um preso estava pilotando
o barco. Nas horas vagas o japonês ainda cuidava da manutenção da usina de força que gerava
energia para a ilha.
O tokkotai Tatsuo Watanabe, que viajara de trem até São Paulo para comandar a execução
do coronel Jinsaku Wakiyama, tinha se convertido em um pacato farmacêutico a quem
entregaram a enfermaria do presídio. Aplicava injeções, receitava remédios e, quando não
havia médicos de plantão, era ele quem fazia os partos das moradoras da ilha — onde, além
do presídio, existia uma vila de pescadores. O costume japonês de registrar em fotografias
tudo o que acontecesse de importante fez com que o major permitisse a montagem de um
laboratório fotográfico na cadeia para a revelação e cópia de fotos. A maioria guardava os
últimos minutos antes de dormir para escrever algumas linhas no nikki — o tradicional diário
japonês. Como eram quase todos de origem modesta, escreviam sob a forma de haicus, os
breves versos japoneses compostos de apenas dezessete sílabas, ao contrário da poesia
tradicional, aristocrática na forma e no conteúdo. As horas vagas eram destinadas às disputas
de sumô do campeonato organizado pelos presos.
A vida de alguns deles, como o fotógrafo Noriyoshi Sakamoto, de Penápolis, acabaria
sofrendo positivas transformações na prisão. Apesar de não ter sido acusado de nada (tanto
que acabaria nem sendo julgado), Sakamoto passou dois anos na Ilha dividindo seu tempo
entre o trabalho de ajudante-de-ordens de um capitão e o de garçom do refeitório dos presos.
E foi lá que conheceu sua futura esposa, uma jovem que aparecia com freqüência para visitar
o pai, o preso Kinzo Idemori. Outros entendiam que o período passado na prisão deveria ser
dedicado ao “aprimoramento espiritual”. Kenjiro, pai de Hiroshi e Fusatoshi Yamauchi, tinha
um conselho sempre na ponta da língua para oferecer aos patrícios: não se lamentem. Segundo
ele, logo ia chegar “o dia e a hora em que as nuvens negras se dissiparão e o sol irá brilhar
para provar a nossa inocência”. O sereno Kenjiro estava disposto a perdoar a todos, apesar de
ter sido vítima de arbitrariedades e violências. No dia em que foi preso em Tupã, sua casa fora varejada por dois investigadores de polícia que, irritados por não terem encontrado
nenhuma arma, levaram todo o dinheiro que acharam e ainda quebraram cinqüenta discos de
música japonesa. Já em São Paulo, Kenjiro tinha sido forçado pelo intérprete Paulo Yoshikazu
Morita a fazer o fumie sobre uma fotografia de Hiroíto cortada de um jornal. Agora, na prisão,
ele recebera a visita de um emissário de Morita. Temendo ser vítima de algum tokkotai ainda
em liberdade (como Eiiti Sakane, que o ameaçara nos interrogatórios de Marília, no começo
do ano), o intérprete pedia perdão à Shindo Renmei por ter ficado do lado da polícia. Kenjiro
disse que de sua parte ele estava perdoado, lembrando que “só o verdadeiro perdão era capaz
de perdoar o imperdoável”. Mas aquela era uma posição pessoal. Ele não podia responder
por algum tokkotai que ainda estivesse em liberdade e que tivesse contas a acertar com
Morita.
Um dia um preso pediu para ser recebido reservadamente pelo capitão Enoque Martins, de
plantão no comando do presídio. Era Satoru Yamamoto, que, embora fosse o autor do
primeiro crime da organização — o assassinato de Ikuta Mizobe, diretor da Cooperativa de
Bastos —, era um desconhecido dos policiais, um dos muitos que lá se encontravam sem
acusação formal, apanhados nos arrastões da polícia. Yamamoto começou a conversa dizendo
que não agüentava mais saber que a polícia, ainda em busca do matador de Mizobe,
continuava prendendo e torturando muitos japoneses. Vendo tanta gente inocente sofrer,
Yamamoto resolveu contar a verdade: ele era o matador de Mizobe. Levado à delegacia de
Bastos, onde o crime havia sido cometido, o japonês confessou com minúcias como acabara
com a vida do diretor da Cooperativa da cidade. No começo dos anos 50, quando cumpria sua
pena, Yamamoto faria mais uma revelação surpreendente. Diante das câmeras da nhk, a tv
japonesa que produzia um documentário sobre a Shindo Renmei, ele contou que já se
considerava perdoado pelo crime. “A mulher de Ikuta Mizobe falou que eu posso viver sem
problemas de consciência”, disse ele aos repórteres. “Ela não tem ódio de mim.”
Tudo indicava que, aos poucos, as feridas abertas pela Shindo Renmei iam se cicatrizando.
Com o fim das atividades da seita, os paulistas voltavam às suas atividades de sempre. E o
que galvanizava a opinião pública do estado, naquele segundo semestre de 1946, eram as
eleições convocadas para janeiro do ano seguinte. Pela primeira vez, desde a Revolução de
30, o governador do estado ia ser escolhido pelo voto direto. O eleitorado parecia indeciso
entre os nomes dos dois favoritos na disputa: o ex-interventor Ademar de Barros — candidato
d o psp, que ele mesmo fundara meses antes, e apoiado pelo Partido Comunista — e o
milionário Hugo Borghi, do pouco expressivo ptn. Borghi tinha sido lançado pelo ptb de
Vargas, mas, envolvido em uma negociata conhecida como “o escândalo do algodão”, fora
deserdado pelo getulismo. Logo abaixo deles na preferência popular vinham Mário Tavares,
d o psd, e Antônio Almeida Prado, da udn. Em uma época em que as pesquisas de opinião
pública eram um luxo do qual só se tinham notícias pelas revistas estrangeiras, o que valia era
o olfato dos políticos, e estes sabiam que, embora Ademar fosse favorito, a eleição prometia
ser apertada.
Não havia estatísticas confiáveis, em 1946, que garantissem quantos eleitores teria a
colônia japonesa instalada em São Paulo. Mas as raposas do ademarismo tinham seus
cálculos, segundo os quais deveria haver cerca de 15 mil filhos de imigrantes japoneses na
casa dos dezoito anos — nascidos e registrados no Brasil e, portanto, eleitores. Ora, se para
pleitear os modestos votos dos comunistas o dr. Ademar aceitara coligar-se até com seu
arquiinimigo Luís Carlos Prestes, por que não tratar com mais carinho o que o próprio
candidato chamava, com sua voz fanha, de “essa japonesada”? E foi na japonesada que os
pessepistas decidiram colocar suas fichas. As primeiras aproximações do ademarismo com a
Shindo Renmei tinham ocorrido no começo do ano, quando o advogado Paulo Lauro — futuro
prefeito da capital e dirigente do ademarismo — saiu em defesa dos “sete heróis” de Tupã.
O elo entre dois mundos tão distantes foi construído pelo mais misterioso e sorrateiro
personagem dos milhares que gravitaram na órbita da seita nacionalista: o jornalista Tsuguo
Kishimoto — que também se apresentava como advogado, “revolucionário de 32” e
“secretário do dr. Ademar de Barros para assuntos nipônicos”. Conselheiro dos chefões do
alto escalão da organização japonesa, ele chegara a cobiçar para si nada menos que a
presidência da Shindo Renmei. Uma pretensão aparentemente natural, não fosse Kishimoto
informante remunerado tanto do serviço secreto do dops como da ii Região Militar. Nos
arquivos da polícia jaziam pilhas de processos contra ele — por crimes que iam da chantagem
pura e simples à espionagem pró-Eixo, passando por denúncias de extorsão, falso testemunho,
estelionato e falsa identidade. Mas surpreendentemente, mesmo com folha corrida tão pouco
exemplar, Tsuguo Kishimoto conseguia estar sempre na superfície, na crista dos
acontecimentos da colônia — para só submergir quando surgia alguma nova denúncia contra
ele.
Diretor das revistas Dan e Rashimbam e, depois, dos jornais Notícias Japonesas e
Membei Shimpo, Kishimoto, que em 1946 contava 52 anos, tinha acesso às altas rodas do
poder de São Paulo — e ganhava dinheiro com isso. Sua especialidade era libertar japoneses
presos por violação das leis de guerra, e o método era simples: ele cobrava entre 5 e 15 mil
cruzeiros por caso resolvido. Com uma décima parte do recebido ele subornava escrivães,
investigadores e carcereiros, e acabava conseguindo tirar da prisão, aparentemente, quem ele
quisesse. Munido de credenciais de informante do Exército e da polícia, se fosse necessário
ele ia até o Rio de Janeiro em busca de pistolões para libertar patrícios — desde que
pagassem por isso. Foi assim, por exemplo, que Kishimoto atuou para tirar da Casa de
Detenção ninguém menos que o chefe da Shindo Renmei, o coronel Junji Kikawa (libertação
que custou aos cofres da seita a considerável bolada de 30 mil cruzeiros). O intrigante de tudo
isso é que o próprio Kishimoto estivera preso várias vezes, acusado dos mais diferentes
crimes, para logo em seguida reaparecer, insinuante, em todos os acontecimentos relevantes
de São Paulo — e, como antes, prestando seus valiosos serviços tanto à polícia como aos
kachigumis. Prestígio não parecia faltar a Tsuguo Kishimoto: o jornalista Sak Miura pagou
caro o atrevimento de fazer-lhe concorrência com o jornal Nippak Shimbun. O “rasputin amarelo”, como o chamavam os repórteres, tanto fez que conseguiu que Miura fosse expulso
do Brasil por ato do presidente da República. A desenvoltura de Kishimoto era tal que em
1942, após uma de suas prisões, ele teria sua imagem reduzida a pó por uma reportagem de
duas páginas da festejada revista Diretrizes, na qual sua vida pregressa era dissecada.
Quando os “sete heróis” de Tupã foram presos, no começo do ano, Seiichi Tomari recorreu
mais uma vez aos serviços do melífluo Kishimoto. Era a brecha de que este precisava para
enfiar a primeira cunha do ademarismo no coração da Shindo Renmei. Em abril, porém,
quando foi fechada a sede da seita em São Paulo, até a polícia — para quem Kishimoto
trabalhava — se espantou com o grau de envolvimento dele com os fanáticos. Mais do que
isso: os policiais estavam impressionados mesmo era com a montanha de dinheiro que Tsuguo
Kishimoto tomara dos ingênuos chefes da Shindo para manter seus líderes em liberdade. Não
restou ao dops outra alternativa senão levar para o xadrez um de seus melhores gansos —
nome pejorativo dado aos informantes da polícia. Os jornais insinuavam que fora preciso
mobilizar o Exército e a polícia para prendê-lo — e queriam saber que segredos o misterioso
japonês escondia para merecer tanta preocupação. A boataria exigiu que o secretário de
Segurança divulgasse uma nota à imprensa com a versão oficial sobre a prisão:
O Departamento de Ordem Política e Social faz público que a prisão de Tsuguo
Kishimoto, brasileiro naturalizado, envolvido no caso dos japoneses que fazem parte da
Shindo Renmei, não decorreu de qualquer entendimento entre o excelentíssimo senhor
general comandante auxiliar e o diretor deste Departamento, conforme foi noticiado por
um dos jornais desta capital. As visitas que o delegado Venâncio Ayres tem feito ao
ilustre comandante da II Região Militar são de caráter de mera cortesia, nelas não se
tratando, senão incidentalmente, do rumoroso caso dos terroristas japoneses. Tsuguo
Kishimoto é indivíduo com acentuado contato com a Polícia Política, sendo as suas
atividades objeto de investigações rigorosas, dentro do processo respectivo em curso.
As investigações parecem não ter sido tão rigorosas assim, já que algumas semanas depois
ele estava na rua, envolvido na campanha de Ademar para governador. Com o passar dos
meses Kishimoto foi aparando as rejeições da Shindo Renmei ao ademarismo — rejeições
naturais, já que se tratava, de um lado, do mais desbragado populismo e, do outro, de um
fundamentalismo político cego. Em meados de outubro Kishimoto se sentiu seguro para enviar
emissários à Ilha Anchieta com o objetivo de saber como os chefes da Shindo Renmei veriam
um eventual apoio da organização à candidatura de Ademar de Barros. Se eleito, o candidato
se comprometia a jogar com o peso do governo de São Paulo na tentativa de conseguir a
comutação das penas dos japoneses. Um obstáculo precisava ser superado: a Shindo se
recusava a apoiar um candidato que havia aceitado os votos do Partido Comunista. Foi
preciso um cansativo exercício de malabarismo político para convencer os japoneses de que
não ocorrera uma aliança, mas apenas um apoio eleitoral — e os pessepistas juravam que os comunistas não teriam nenhuma participação ou influência no governo de Ademar (o que era
verdade). Durante o processo de aproximação com os japoneses, o advogado Paulo Lauro,
que já os defendera antes, saiu a público em defesa dos presos da Shindo Renmei. Não era
munição pequena: o advogado estava no auge do seu prestígio, tanto assim que meses depois
seria nomeado prefeito de São Paulo — o primeiro negro a ocupar aquele posto. Paulo Lauro
publicava artigos em jornais denunciando as injustiças jurídicas de que os japoneses estavam
sendo vítimas “pelo fato de pertencerem a uma associação pacífica como a Shindo Renmei”.
Tanto confete acabou dando resultados. Dias depois dos primeiros contatos já circulava
pela colônia um manifesto anônimo, mas cujos termos não deixavam dúvidas quanto à sua
origem:
Dirigimo-nos apressadamente a VV. SS. para informar que, como já lhes foi comunicado
por intermédio de nossos elementos de ligação, nosso movimento pró-Ademar de Barros,
do Partido Social Progressista, nada mais é do que o apoio que nós japoneses, pais de
nipo-brasileiros, devemos dar a esse candidato e seu partido, que têm grande
compreensão a respeito da colônia japonesa, especialmente sobre a Shindo Renmei, além
de apoiarem o movimento de nossa Renmei. O fato de o sr. Ademar de Barros ter aceito
os votos do Partido Comunista Brasileiro, porém, nos proibiria de apoiá-lo. Mas a
verdade não é essa, como se percebe pela declaração feita pelo sr. Ademar de Barros,
publicada no Diário de S. Paulo de hoje, 8 de janeiro. Portanto, nada precisamos recear
nesse sentido. Caso haja necessidade de se interromper esse nosso movimento de apoio,
telegrafaremos a VV. SS.
Na Ilha Anchieta a aliança da Shindo Renmei com Ademar deixou de ser um assunto apenas
cochichado depois que dois caminhões desembarcaram da balsa carregados de cédulas para
serem carimbadas pelos presos com o nome do candidato. Célebre pelo estilo escorregadio de
fazer política, Ademar quis dar à comunidade uma demonstração de que o trato era para valer,
e um dia apareceu em pessoa para uma visita aos japoneses presos na Casa de Detenção. O
candidato conversou com “a japonesada”, almoçou no bandejão da cadeia e na saída
comprometeu-se de novo: se eleito, faria tudo para soltá-los. Irreverente mesmo nas situações
mais solenes, ao sair ele saudou os tokkotai com uma comparação bem a seu estilo:
“Eu entendo vocês. A Shindo Renmei é como o ademarismo: ou o sujeito é contra ou a
favor. Não tem meio-termo.”
Abertas as urnas em janeiro de 1947, Ademar tinha sido eleito governador com 393 mil
votos, 40 mil na frente do segundo colocado, Hugo Borghi. Empossado, ele não faria jus —
pelo menos no caso dos japoneses — à má fama de nunca cumprir a palavra empenhada.
Ademar pagou não apenas as promessas paroquiais da Shindo Renmei (como mandar prender
os “derrotistas” Abe e Suzuki, de Osvaldo Cruz, a pedido da organização), mas de fato se
empenhou para solucionar os problemas judiciais e financeiros da colônia. Dois meses depois de assumir o governo, ele pediu uma audiência ao presidente Eurico Gaspar Dutra, após a
qual anunciou publicamente que havia solicitado a liberação dos bens japoneses confiscados
durante a guerra, “uma fortuna de mais de 2 bilhões de cruzeiros”, informou o governador.
Ironicamente, se o político tido como malandro cumprira a palavra, o mesmo não se poderá
dizer dos kachigumi: das 25 cidades onde a Shindo Renmei tinha bases numerosas, Ademar
fora derrotado em dezessete.
■
Antes que fizesse um ano da primeira aparição pública da Shindo Renmei — a caminhada
marcial dos “sete heróis” na noite de Tupã, ameaçando degolar um policial —, o Ministério
Público já havia decidido de que forma pretendia que a Justiça punisse os crimes cometidos
pela seita. Mais de mil japoneses foram indiciados como co-autores dos crimes, para os quais
pediram-se penas que variavam de um a vinte anos de prisão. Para 190 chefes e matadores foi
proposta a deportação para o Japão. Embora a aventura dos Batalhões do Vento Divino de
Hiroíto no Brasil tivesse chegado ao fim, dois ronin ainda vagavam pela sombra das noites.
Eles já tinham sido parceiros em ações da Shindo Renmei e agora, procurados pela polícia,
ambos viviam clandestinamente, passando os dias escondidos, e só saíam protegidos pela
escuridão. A mão do destino, no entanto, os colocara em situações opostas: Eiiti Sakane, o
mentor dos ataques de Osvaldo Cruz e Tupã, achava que sua missão só terminaria quando
liquidasse o último derrotista de sua lista: o intérprete Paulo Morita, que ele jurara de morte
meses antes. E o tokkotai Namide Shimano, o assassino de Goiti Mori, de Bilac, tinha uma
preocupação adicional, além de ter a polícia no seu encalço: escapar de patrícios makegumi
dispostos a fazer justiça com as próprias mãos.