Corações Sujos
7 - EIITI Sakane, o ronin solitário, prepara um banho de sangue em tupã
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EIITI SAKANE, O RONIN
SOLITÁRIO, PREPARA
UM BANHO DE
SANGUE EM TUPÃ
A sucessão de crimes da Shindo Renmei fez com que os japoneses saltassem das páginas policiais para o austero plenário do Palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro, onde desde fevereiro estava reunida a Assembléia Nacional Constituinte, eleita para redigir a nova Constituição brasileira. Durante os primeiros cinco meses de trabalhos, os conflitos ocorridos no interior de São Paulo não tinham merecido espaço nem mesmo no pinga-fogo, o pequeno expediente dedicado a discursos e comunicações breves dos deputados e senadores. A repercussão
nacional da desastrada reunião no Palácio dos Campos Elíseos, porém, acabou transportando
para a tribuna o que à primeira vista parecera aos constituintes um problema policial.
Incendiados pela matança que acontecia no sertão paulista, os debates reacenderam um dos
temas mais polêmicos da Constituinte de 1934 — a questão imigratória — e fizeram renascer
a chamada “bancada eugenista”, que oito anos antes conseguira transformar em preceito
constitucional a polêmica “emenda antinipônica”. Dessa vez o líder do grupo era o deputado
Miguel Couto Filho.
Herdeiro do nome, dos votos e da xenofobia do pai, o médico carioca parecia ser um
antijaponês ainda mais radical que o velho, o constituinte que em 1934 ameaçara “educar os
netos em japonês”, tal o pânico que os imigrantes lhe infligiam. Até então, em apenas duas
oportunidades a Constituinte ocupara-se do tema, e em ambas para deliberar sobre o mesmo
assunto: a devolução dos bens e fundos bancários confiscados aos “súditos do Eixo” durante a
guerra. Convencidos de que não havia mais sentido em manter seqüestrados recursos e
propriedades de estrangeiros residentes no Brasil, o udenista mineiro Gabriel Passos e o
democrata-cristão paulista Manuel Victor recorreram a “razões econômicas e humanitárias”
para propor ao governo “a devolução imediata de propriedades industriais, comerciais e
agrícolas e a liberação dos fundos bancários pertencentes a súditos de países do Eixo”. O
projeto não teve sucesso, nem mesmo estabelecendo exigências rigorosas para requerer o
benefício (o estrangeiro deveria exibir “certidões de isenção de culpa”, fornecidas pela
polícia e pela Justiça). Radicalmente contrário à proposta, Miguel Couto Filho ocupou a
tribuna para advertir que a devolução dos bens iria fermentar ainda mais as atividades do
“quisto amarelo” instalado em São Paulo:
“Denuncio à nação que os japoneses ricos de São Paulo, inspirados pelo divino Hiroíto,
pretendem ainda criar um novo Japão no Brasil. Habilíssimos agentes e advogados
administrativos procuram cegar-nos para conseguirem que esta Constituinte escancare as
portas do Brasil aos japoneses.”
Com a ajuda dos deputados comunistas, o escritor Jorge Amado e o ex-militar José Maria
Crispim, Miguel Couto conseguiu arquivar a iniciativa. A “questão japonesa” voltaria à tona logo após a reunião de Macedo Soares com os japoneses, no final de julho. Três dias depois o
amazonense Pereira da Silva subia à tribuna da Constituinte carregando uma mala de recortes
de jornal com notícias sobre o encontro dos fanáticos com o interventor paulista. Sempre se
referindo à Shindo Renmei como “a camorra amarela”, o parlamentar desancava a tese da
“serenidade e da prudência” defendida por Macedo Soares (filiado ao psd, como o deputado)
nas relações com os japoneses:
“Não se compreende que representantes do governo cheguem ao ponto de convocar
fanáticos sanguinários, que no íntimo nos odeiam, para uma audiência no próprio palácio,
como acaba de acontecer em São Paulo.”
Como qualquer crítica a Macedo Soares recebia o apoio automático dos comunistas, o
primeiro a aplaudir o orador foi Carlos Marighella, deputado pelo pcb baiano que se
celebrizaria como líder guerrilheiro nos anos 60:
“Estou inteiramente de acordo com Vossa Excelência. O interventor de São Paulo tem
grande responsabilidade na questão a que Vossa Excelência se refere. Em vez de olhar para as
condições de vida do povo, ele prefere fazer todas as concessões aos fascistas da Shindo
Renmei, enquanto seu secretário de Segurança persegue trabalhadores em Santos.”
Pereira da Silva terminava seu discurso apresentando uma indicação — nome dado às
sugestões feitas pelos constituintes ao Executivo, sem nenhuma garantia de aplicação — que
propunha uma solução radical para o problema: a imediata expulsão do território nacional de
“todos os japoneses ligados à organização terrorista Shindo Renmei”. A bancada comunista
em peso disputava o microfone de apartes. O fluminense João Amazonas (que anos depois
romperia com o pc, fundando o pc do b) ridicularizou a proposta do colega, aconselhando-o a
abrir a lista dos expulsandos com o nome do interventor Macedo Soares. O paulista Ataliba
Nogueira, do psd, sentiu-se na obrigação de sair em defesa do interventor, mas percebeu que
estava cercado de comunistas por todos os lados. Marighella retomou a palavra para acusar
Macedo Soares de estar dando guarida a “uma organização escancaradamente fascista como a
Shindo Renmei”. Até o lendário Luís Carlos Prestes, já imortalizado por Jorge Amado como o
“Cavaleiro da Esperança” (e agora senador eleito pelo Distrito Federal), aproveitaria a
oportunidade para fustigar o interventor paulista, velho algoz dos comunistas:
“O interventor Macedo Soares, que se mostra tão tolerante em relação aos japoneses
fanáticos da Shindo Renmei, não vacila em perseguir operários que reclamam seus direitos.”
O deputado comunista e ex-sargento paraense José Maria Crispim, um dos revoltosos do
levante comunista de 1935, cobrava coerência do representante de São Paulo:
“Quando o interventor se recusou a receber operários grevistas, Vossa Excelência justificou
a decisão alegando que eles eram fora-da-lei, pois estavam em greve. Mas agora o país vê o
mesmo governante que usou esse pretexto receber em audiência os criminosos confessos da
Shindo Renmei.”
O futuro presidente da República João Café Filho, então deputado pelo psp do Rio Grande
do Norte, não resistiu à ironia:
“Se o interventor de São Paulo só recebe fanáticos, temos que transformar nossos operários
em fanáticos do direito de greve. Quem sabe, talvez assim eles mereçam idêntico tratamento
ao que foi dado aos matadores da Shindo Renmei.”
O calor dos debates antecipou a discussão sobre como a futura Constituição deveria tratar a
questão da imigração. Nas semanas seguintes seria raro o dia em que o pinga-fogo e o grande
expediente da Constituinte não fossem ocupados por debates sobre a seita japonesa. Os
fanáticos kachigumi tinham conseguido o prodígio de juntar contra si esquerda e direita,
pessedistas e udenistas, no ódio aos japoneses em geral. Para os comunistas, a Shindo Renmei
era uma corja de fascistas que deveria ser reprimida com rigor. Na outra ponta da linha
estavam os ultraconservadores “eugenistas”, defensores da “teoria do melhoramento do tipo
racial”, que propunham simplesmente fechar as portas do Brasil aos imigrantes japoneses.
Liderando a “bancada antinipônica”, Miguel Couto Filho brandia na tribuna um exemplar de
seu livro intitulado Para o futuro da pátria — Evitemos a niponização do Brasil , obra que se
converteria no vade-mécum dos inimigos da Shindo Renmei. Uma das raras vozes a se
levantar a favor dos japoneses seria a do udenista de São Paulo Aureliano Leite —
celebrizado como o grande tribuno da Revolução Paulista de 1932 —, que lutaria até o fim da
Constituinte para defender uma política de imigração menos restritiva. Os anais registrariam
as batalhas verbais provocadas pelo terrorismo japonês:
O sr. Manuel Novais (UDN-BA) — Meditemos bem sobre as novas correntes imigratórias
que estão se formando. Não cometamos de novo o suicídio de juntar a escória humana
formada por traidores japoneses, alemães e italianos. O Brasil não é o depósito do lixo
moral e político do mundo.
O sr. Galeno Paranhos (PSD-GO) — Não podemos permitir novos quistos raciais no
Brasil.
O sr. Aureliano Leite (UDN-SP) — Não existem quistos raciais no Brasil. O que se
propala por aí a esse respeito é uma fantasia. Desaparecido o perigo dos imperialismos
japonês, italiano e alemão, não há mais razões para restrições à imigração. É
indiscutível que o Brasil precisa de braços.
O sr. Plínio Barreto (UDN-SP) — Não de braços amarelos.
O sr. Aureliano Leite (UDN-SP) — Até esses, se os braços brancos não derem para
atender à lavoura.
O sr. Dolor de Andrade (UDN-MT) — O Brasil está carecendo de aproximadamente 1
milhão de braços.
O sr. Plínio Barreto (UDN-SP) — Desde que não sejam amarelos...
O sr. Dario Cardoso (PSD-GO) — Sim, os amarelos tentam rearticular-se, e o melhor
exemplo disso é essa sociedade secreta que está implantando o terror em São Paulo.
O sr. Aureliano Leite (UDN-SP) — Isso é um fenômeno chamado sensacionalismo, é
coisa para efeito jornalístico. Onde vamos buscar os braços de que precisamos, senão
abrindo as portas a outras nacionalidades, como a espanhola, a balcânica e a própria
japonesa?
O sr. Plínio Barreto (UDN-SP) — A japonesa, não. Absolutamente.
O sr. Galeno Paranhos (PSD-GO) — Nenhuma asiática.
O radicalismo despertado pelo assunto acabava baixando o nível dos debates a tal ponto
que não se pouparia sequer o imperador Hiroíto, agora rebaixado à condição de limpador de
penicos do chefe das forças aliadas:
O sr. Leopoldo Peres (PSD-AM) — A aliança do bonifrate asiático, o outrora todo-
poderoso e ultradivino imperador Hiroíto, hoje humílimo baciniqueiro do general
MacArthur, com o Tamerlão do Ocidente asseguraria ao Micado posse imediata de
vastíssimas glebas que implantara em São Paulo, e cujos tentáculos se estenderiam ao
extremo Norte do Brasil. E se isso não se verificou é que, uma vez ainda, Deus quis
mostrar que é brasileiro.
Peres não era o único a acreditar na mirabolante versão de que os japoneses ainda
pretendiam “ocupar” partes do território brasileiro. Exibindo mapas e documentos tidos como
secretos, Miguel Couto Filho sustentava que, mesmo perdida a guerra, os japoneses haviam
decidido manter na América do Sul o que ele chamava de “grande eixo amarelo” — uma linha
imaginária na qual se instalariam colônias de fanáticos japoneses, iniciando-se em Santos,
cortando todo o estado de São Paulo e o Centro-Oeste brasileiro, atravessando a Bolívia e
indo bater nos portos chilenos de Antofagasta e Iquique, no Pacífico. Segundo o deputado,
essas duas “portas de entrada amarela da América do Sul” permitiriam a realização do sonho
de Hiroíto de constituir um “Estado japonês” cortando os três países.
O que deputados e senadores não sabiam é que a organização que levara os debates a tanto
radicalismo já estava agonizante. A política de prisões em massa de japoneses, adotada pelo
dops paulista, levara aos xadrezes quase 30 mil pessoas. Dessas, mais de 4 mil foram
identificadas, fichadas e indiciadas em processos com base na Lei de Segurança Nacional. O
superlotado presídio da Ilha Anchieta abrigava duas vezes mais presos que sua capacidade
normal e a Casa de Detenção, na capital, fora tomada por multidões de japoneses vindos de
todo o estado. Com a prisão dos principais líderes da capital e do interior, a polícia quebrou
finalmente a coluna vertebral da Shindo Renmei. Os jornalistas compartilhavam do otimismo
dos policiais: se ainda houvesse algum foco sem comando atuando no interior, seu
aniquilamento era questão de semanas.
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Temas de semelhante magnitude, como os discutidos pelos constituintes, não faziam parte do universo de preocupações de Eiiti Sakane. Nem mesmo a tuberculose transmitida pela
mulher e que lhe devastava os pulmões o afligia tanto. O problema dele, naqueles dias, era a
solidão. Com quase todos os amigos e superiores presos, Sakane perdera os contatos com o
que restava da máquina da Shindo Renmei. E acabara se convertendo em uma espécie de
ronin — o guerreiro que de repente, por escolha ou forçado pelas circunstâncias, se vê sem
patrão e inicia uma carreira solo, como um samurai errante. Mas Sakane sempre fora um
tokkotai singular. O tempo todo sisudo e mal-encarado, dono de uma coragem sem limites, ele
se distinguia dos demais matadores da Shindo Renmei — em geral jovens silenciosos e
circunspectos — por seu caráter exibicionista e teatral. Para ele, as ações e atentados deviam
ser revestidos de tratamento quase cenográfico. Se não pudessem ser executados
ritualisticamente — dar à vítima o direito de se suicidar, oferecer-lhe a bandeira japonesa e o
tanto para o haraquiri etc. etc. —, deveriam ser ruidosos e espetaculares. Como tinham sido a
bomba e o frustrado incêndio que ele planejara e ajudara a executar em Osvaldo Cruz, ou a
chegada cinematográfica de Kazuto Yoshida e Kohei Kato a cavalo em Inúbia, para matar
(também nesse caso sem sucesso) Assano e Maramatsu.
Eiiti Sakane viera para o Brasil em junho de 1927, ano em que a população japonesa no
país mal chegava aos 40 mil habitantes. Tinha dezenove anos e havia deixado o sítio dos pais
no interior do Japão diretamente para o navio, sem jamais ter posto o pé em uma cidade
grande. Após desembarcar em Santos, passou algumas horas preenchendo formulários na
Hospedaria dos Imigrantes, na capital, e foi dormir sua primeira noite brasileira em
Cafelândia, cidade em que viveria os três anos seguintes trabalhando como lavrador. Casou-se
e teve três filhos com Mosako, a jovem imigrante que conhecera a bordo do Buenos Aires
Maru, a caminho do Brasil. Em 1930 mudou-se para Marília, passando a trabalhar na colheita
de algodão. Meses depois da chegada, Mosako contraíra uma inesperada tuberculose,
obrigando-o a hospitalizá-la em São José dos Campos, do outro lado do estado. Para que a
família pudesse ficar mais perto da mãe doente, Sakane transferiu-se com os filhos para Moji
das Cruzes, nas imediações de São Paulo, cidade onde havia grande concentração de
imigrantes japoneses. Abandonou a lavoura e passou a trabalhar como ajudante de caminhão
na rodovia Rio—São Paulo, emprego que permitia visitar com freqüência a mulher, internada
a meio caminho entre as duas metrópoles.
De volta a Marília, após a cura de Mosako, Eiiti Sakane não quis mais saber de morar no
mato. Arranjou um emprego de balconista na farmácia de um patrício e em pouco tempo já
sabia aplicar injeções, fazer e limpar curativos, e conhecia de cor os nomes dos remédios. E
foi como “enfermeiro profissional” que conseguiu um emprego ainda melhor na farmácia de
outro japonês, mas na cidade vizinha de Tupã — onde ele iria conhecer Kanji Aoki, o homem
que mudaria sua vida. Um dos chefes locais da Shindo Renmei, Aoki era admirado por ser, a
um só tempo, intelectual refinado e grande mestre de artes marciais. De rígida formação
militarista e professor de judô, gabava-se de ser capaz de subir sobre as lâminas de duas
catanas com os pés descalços, tal era o poder de sua mente sobre o próprio corpo. Aoki não precisou muita conversa para aliciar o recém-chegado para o credo da seita: Sakane era um
patriota radical, “um súdito capaz de dar a vida pela honra do Japão e de seus valores
maiores”, como ele próprio diria. Dias depois, Eiiti Sakane anunciava orgulhoso à mulher e
aos filhos que abandonara o balcão da farmácia para se dedicar em tempo integral à causa
patriótica.
Ele não esperou que Aoki o procurasse para testar sua disposição. No dia 1o de janeiro de
1946, ao saber que, no bairro Coim, um militar tinha limpado as botas com a bandeira
japonesa, foi Sakane quem propôs ao chefe da Shindo a montagem imediata de um comando
para vingar o insulto com o fuzilamento do cabo Edmundo. Aprovado o plano, em poucas
horas ele arregimentou seis tokkotais e, na reunião de todos com Aoki, deu asas à imaginação.
Disse que o ideal seria realizar a ação com o grupo a bordo de um carro veloz e potente —
“um Lincoln, por exemplo”, sugeriu — e que, em vez de revólveres enferrujados, as armas
utilizadas fossem pistolas Mauser, de dez tiros, e as infalíveis automáticas alemãs Parabellum.
Trazido de volta à realidade por Aoki, concordou em que a pena de fuzilamento fosse
convertida em degola, e foi dele a idéia de que todos fossem à caça de Edmundo armados de
suas catanas, os temíveis sabres orientais.
Ainda que nada do plano tivesse dado certo — o cabo escapou com vida e os sete pegaram
27 dias de cadeia —, Aoki estava certo de ter descoberto um verdadeiro samurai. E logo
arranjou uma viagem de Sakane a São Paulo para que a direção da seita o conhecesse
pessoalmente, o que acabaria acontecendo no final de março de 1946. Sakane passou algumas
semanas hospedado na sede da Shindo, na rua Paracatu, tempo suficiente para Kikawa, Tomari
e Negoro perceberem que de fato tratava-se de um tipo original, que nutria pelos derrotistas
um ódio incontrolável. “Makegumi não é japonês. Mas também não é brasileiro, nem chinês,
nem coreano”, ele repetia em ladainha, para completar: “Então pode matar que é bicho”. As
recomendações de Aoki procediam, mas por prudência os chefes da seita decidiram limitar o
campo de atuação de Sakane ao interior do estado. Tanto arrebatamento na capital poderia
virar um prato cheio para as autoridades. Eiiti Sakane se preparava para retornar a Tupã, no
dia 2 de abril, quando a polícia invadiu a casa-sede da Shindo Renmei, prendendo todo mundo
que lá encontrou, inclusive ele. Uma semana depois da prisão, separado dos líderes da seita,
ele foi mandado para a Casa de Detenção, onde permaneceu preso até o dia 2 de julho, data
em que foi despachado de volta para Tupã para responder em liberdade ao inquérito aberto
pela polícia.
Voltar ao interior contaminado pela tuberculose, e com todos os companheiros presos, era
um retorno melancólico demais — até mesmo para aquele ronin solitário que vagava pelo
sertão paulista em julho de 1946. Mas a consciência de que sua prisão significaria o fim da
Shindo Renmei, em vez de deprimi-lo ainda mais, pareceu ter estimulado a veia teatral de
Eiiti Sakane. Se a organização patriótica estava mesmo moribunda, então que morresse
espetacularmente. No dia 21 daquele mês Sakane reuniu no galpão de um plantador de
amendoim do bairro Jurema, em Tupã, cerca de vinte rapazes — provavelmente os derradeiros tokkotai ainda em liberdade na região. Para levantar o moral dos jovens, ordenou
as ações em Inúbia e Osvaldo Cruz. Embora a primeira tivesse sido um fiasco, a bomba na
casa de Abe e o começo de incêndio na de Suzuki haviam reanimado o pessoal. Agora, no
entanto, aproximava-se uma data importante para os derrotistas, e que eles, os vitoristas, não
poderiam deixar passar em branco: o dia 15 de agosto, primeiro aniversário “da farsa do
Missouri” — como ele se referia à cerimônia de rendição do Japão. Era preciso festejar a
data, sim, mas à maneira dos patriotas, dos kachigumi, com uma ruidosa matança de
makegumi, os traidores de corações sujos. Sakane anunciou que no dia 15, às três da tarde,
quinze derrotistas de Tupã seriam executados por bandos de tokkotai armados e organizados
por ele. Alguém lembrou que o dia escolhido tinha para os brasileiros um sentido muito mais
forte do que a comemoração do fim da guerra: era o dia da assunção da Virgem Santíssima,
um feriado nacional guardado pela maioria dos católicos. Marcar o massacre para essa data
significaria procurar encrenca com os brasileiros, que nada tinham a ver com aquela guerra
santa. Sakane não se apertou: se era assim, então adiava-se tudo para o dia 16. Para não
quebrar o simbolismo, o ataque seria desfechado às quatro da tarde e o número de mortos
subiria de quinze para dezesseis.
Convertido à condição de chefe dos últimos tokkotai, Eiiti Sakane determinou que todas as
vítimas fossem devidamente informadas da condenação. Os bilhetinhos manuscritos,
advertindo os makegumi do que os esperava e deixados debaixo de portas de casas e de
estabelecimentos comerciais, davam uma medida do terror espalhado pelos fanáticos:
Takata: fomos informados de que você andou propagando falsas notícias da guerra nipo-
americana, dizendo que o Japão foi derrotado e ainda falando mal e desrespeitando a
Família Imperial. Nós o castigaremos, iremos buscar a sua vida. Lave o seu pescoço,
para não deixar na espada a sujeira que o envergonha.
Ishida: terminada a guerra nipo-americana, você tem propalado notícias que
desrespeitam a Família Imperial. Não só isso. Conseguiu levar à prisão os inocentes
patrícios que ora se acham sacrificados. Você será vingado desse crime pesadamente.
Esta vingança contra você será praticada por nós, os fiéis à Família Imperial. Reino do
Mundo. Viva o Grande Império japonês! Vencedor, poderoso Império japonês!
Tushida e companhia: vocês dois pregaram uma calúnia contra o respeitabilíssimo
imperador do nosso grande Império japonês. Nós, os japoneses, castigaremos os nossos
inimigos traiçoeiros. Para isso usaremos armas. Vocês, se são japoneses, enfrentem-nos
como japoneses e recebam os nossos castigos. No caso de vocês não saberem enfrentar
essa medida, esperai-nos de pescoço bem lavado.
Ohara: você será castigado pelo crime de andar pregando notícias desrespeitosas
referentes à Casa Imperial. Lave já seu pescoço e espere-nos.
Mitomatsu: você andou pregando a derrota do Japão, compartilhou com a turma da
comissão apaziguadora e nos maltratou. Agora nos levantamos energicamente para
liquidar os haisen — os traidores de coração sujo. Lave sua garganta!
Takano: você foi incluído na lista dos inimigos da pátria, porque andou propagando a
derrota da nossa pátria. Também sabemos que conversou com Ishida sobre derrota. Por
esse motivo, nós iremos buscar sua vida. Lave seu pescoço e nos espere.
Nitto: você, depois do término da guerra nipo-americana, esparramou notícias que
desrespeitam a Família Imperial e anunciou a derrota do Japão. Embora esteja fora da
pátria, a nossa obrigação é respeitar a Família Imperial e salvar os inocentes patrícios.
E você falou coisas que jamais um japonês devia falar. Espere-nos.
Além de ser contemplado com o bilhete ameaçador, o fotógrafo Kenjiro Nitto, ao sair à rua,
viu que sua casa tinha sido pichada com os ideogramas da morte: “Traidor da Pátria!”. Os
“crimes” cometidos pelos dezesseis jurados de morte eram os mesmos de sempre. Shuro
Ohara, dono de um bazar chamado Casa Ono, era acusado de distribuir na colônia os jornais
enviados ao interior pelo consulado americano. Nitto fora incluído na lista porque “falava mal
da família imperial”. A presença do nome do contador Jorge Okazaki na lista de morte parecia
ser a única óbvia, já que ele tivera a cabeça colocada a prêmio meses antes, quando atuara
como intérprete da polícia no “caso da bandeira”, em janeiro. Outro dos ameaçados, o
comerciante Koiti Takano, parecia fadado a penar por ser japonês. Dono de dois postos de
gasolina em Getulina, ele havia sido obrigado a se desfazer do negócio depois que as
distribuidoras americanas pararam de fornecer combustível a “súditos do Eixo”. Vendeu os
postos e mudou-se para Tupã, onde logo foi tachado de makegumi pelos japoneses
nacionalistas da cidade. Um dia a mulher de Takano saiu de casa e viu que no muro tinha sido
pichada com carvão a frase fatídica: “Traidor da Pátria!”. Tempos depois o próprio Koiti
receberia uma carta anônima onde ameaçavam cortar-lhe a garganta.
Embora o fluxo de dinheiro para as sucursais tivesse sido interrompido com a prisão dos
líderes e o fechamento da sede da Shindo, em São Paulo, ainda havia japoneses endinheirados
dispostos a pagar as contas dos fanáticos. A fonte de recursos para financiar as operações de
Sakane passou a ser a Casa Marília, uma grande loja de ferragens e de secos e molhados que
funcionava na avenida Tamoios, no centro de Tupã. O comprometimento da empresa com a
Shindo Renmei era tal que um dos sócios, Seiiti “Paulo” Hayakawa, já se encontrava preso em
São Paulo fazia vários meses, acusado de co-autoria dos crimes da Shindo por ter financiado
as atividades da organização — coisa que ele nunca negou. O radical Hayakawa tinha sido o
porta-voz da exigência mais estapafúrdia dos japoneses na reunião do Palácio dos Campos Elíseos: a censura ao noticiário da imprensa sobre a derrota do Japão. A ação planejada por
Sakane para Tupã chegou aos ouvidos de Hayakawa, que de dentro da prisão mandou uma
mensagem ao sócio Tetsuo Kuga autorizando-o a abrir os cofres da Casa Marília para
socorrer Sakane. Dias depois este receberia um pacote com 5 mil cruzeiros e as chaves de um
caminhão para o transporte dos matadores, no dia 16.
Nem a distribuição dos bilhetes ameaçadores nem a proximidade do aniversário da
rendição, porém, parecia preocupar os brasileiros de Tupã. Aquela era uma pendenga de
imigrantes com imigrantes, e a cidade talvez fosse, em toda a região, a que mais aprendera a
conviver com culturas estranhas. Fundada em 1929 pelo fazendeiro pernambucano Luiz de
Souza Leão, sobre terras tomadas aos índios caingangues, Tupã foi sendo sucessivamente
ocupada por colônias de imigrantes vindas dos mais distantes pontos do planeta. Primeiros a
chegar, os espanhóis se instalaram em Juliápolis e São Martinho. Os japoneses vieram em
seguida e ocuparam os bairros de Monteiro, Vanheri, Bandeirantes, Anápolis e Coim. Os
italianos foram para o bairro de Toledo e os letões se concentraram no distrito de Varpa.
Metade dos 45 mil habitantes da cidade era estrangeiros, e cerca de 13 mil deles tinham vindo
do Japão. Graças também à contribuição desses imigrantes, em 1946 Tupã vivia o auge de sua
economia rural, impulsionada pelas grandes safras de café, algodão e amendoim. Além de ter
sido palco do “caso da bandeira”, a cidade tinha ido parar nos jornais por causa da Shindo
Renmei outra vez quando a polícia descobriu quem era o autor das fraudes nas edições da
revista Life: o fotógrafo Masashigue Onishi, o mesmo que fizera a célebre foto dos “sete
samurais”, cujas cópias agora eram vendidas como suvenir a preço de ouro em toda a colônia.
Ao ser interrogado pela polícia, Onishi não deixou dúvidas quanto à sua fé patriótica:
[...] Que o declarante tem acendrado amor à pátria e educa seus filhos nos moldes
japoneses. Que é membro da Shindo Renmei porque, sendo patriota, nada lhe impedia de
pertencer a uma sociedade cujo principal escopo é combater a falsa propaganda das
Nações Unidas, que aponta o Japão como país vencido, sendo ele invencível. Que o
declarante, sendo fanático, está convencido da vitória da pátria e, em caso contrário,
não titubearia em matar-se, única atitude compatível com os seus sentimentos
patrióticos. Que, para provar aos patrícios a falsa notícia da derrota japonesa,
reproduziu muitas fotografias publicadas pela revista americana Life, da cerimônia da
rendição incondicional dos americanos aos generais japoneses, representantes do
imperador que, na opinião do declarante, é um Deus e em obediência a quem mataria
quem quer que fosse. Que o declarante está certo de que as notícias da derrota do Japão
são falsas e mentirosas e, se as declarações prestadas aqui implicarem em expulsão,
aceitará tal ordem com grande satisfação. Que se houvesse uma guerra entre Brasil e
Japão, o declarante lutaria com todas as suas forças a favor da pátria, contra o Brasil.
[...]
No dia-a-dia, porém, o convívio na cidade de brasileiros com japoneses sempre fora
pacífico. Se havia algum preconceito contra os imigrantes, era coisa das autoridades. O
homem do povo mal sabia o que significava a expressão “quinta-coluna”, freqüentemente
usada para carimbá-los como inimigos. Às vezes aparecia em Tupã algum maluco, como
Kano, um japonês que quando exagerava no saquê ia para a zona do meretrício gritar que os
brasileiros eram malandros e que, terminada a guerra, o Japão iria “colocar ordem nisto aqui,
e ensinar brasileiro a virar gente”. Nesses casos uma noite no xadrez era suficiente para curar
a macacoa e esfriar os brios nacionalistas do bêbado.
Mas desta vez as coisas iam ser diferentes. Na noite de 15 para 16 de agosto o pelotão
montado por Sakane se dividiu em três grupos, que pernoitaram em três casas diferentes. Sem
meios de conseguir automóveis e armas sofisticadas para os atentados, Sakane decidiu que o
impacto da ação estaria na pontualidade: rigorosamente às quatro da tarde, em diferentes
lugares da cidade, dezesseis “corações sujos” tombariam mortos pelo crime de traição.
Depois do almoço o bando reencontrou-se para a última reunião — desta vez nos fundos da
farmácia de Fusakiti Fujii. Sistemático como sempre, Eiiti Sakane distribuiu a cada tokkotai
um pedaço de papel com o nome de sua vítima — ou os nomes, no caso de alguém ter sido
encarregado de mais de uma morte. Sakane comunicou que tinha reservado para si a execução
de Okazaki. Do ponto de vista dos fanáticos, o privilégio se justificava. Não fosse sua
aparência asiática, Jorge Okazaki podia ser visto como um perfeito ocidental. Cristão,
apaixonado pelo Brasil, ele nunca escondera o desprezo que sentia pelos militantes da Shindo
Renmei e por suas idéias exóticas. Dono do maior escritório de contabilidade da cidade, ele
era guarda-livros do homem mais rico e poderoso de Tupã, Luiz de Souza Leão, de quem
havia se tornado compadre anos antes, quando o patrão batizara sua filha. Além de ter o perfil
típico de um makegumi, a colaboração escancarada de Okazaki com a polícia o convertera no
inimigo número um da Shindo na cidade. Quando Sakane acabou de falar, Kohei Kato, que
tinha ficado encarregado de executar Tushida, pediu permissão para divergir do chefe: ele se
sentia em dívida com a organização. Desde o fracasso da missão em Inúbia, quando não
conseguira matar “o farmacêutico Assano”, seu coração estava “apertado de vergonha” pelo
malfeito. Kato queria redimir-se executando o mais importante dos “corações sujos” de Tupã,
Jorge Okazaki. Sakane concordou em “trocar Okazaki por Tushida” — e, após distribuir
armas, balas, tantos e bandeiras japonesas, fez a última recomendação:
“Todos os que tiverem sucesso nas suas missões devem se entregar à polícia imediatamente
depois da execução, sem nenhuma reação.”
No meio da tarde o bando se espalhou pela cidade, cada um a caminho de sua vítima.
Quando faltavam quinze minutos para a hora marcada, um jovem japonês entrou em uma
farmácia suando frio, com as mãos na barriga, e pediu um remédio que estancasse a cólica que
parecia queimar-lhe as tripas. Antes de ser atendido, o rapaz desmaiou no chão, contorcendo-
se em dores. O próprio farmacêutico diagnosticou: era apendicite e, se estivesse supurada, ele
morreria. Era preciso levá-lo imediatamente para o Hospital São Francisco. Enquanto alguém providenciava uma condução, o dono da farmácia começou a afrouxar a camisa do japonês, na
tentativa de fazê-lo respirar mais livremente. Ao sentir mãos estranhas apalpando suas roupas,
o desconhecido abriu os olhos e, como um morto que ressuscitasse, deu um pulo e saiu dali
correndo. Era o tokkotai Noboru Mihabara, vendedor de frutas encarregado de liquidar o
comerciante Shuro Ohara, dono da Casa Ono, por coincidência um freguês de sua banca de
frutas.
Ele tinha motivos para se apressar. Eram pontualmente quatro da tarde, hora marcada para
varrer de uma vez por todas os cabeças do movimento makegumi em Tupã. O barulho do
primeiro disparo sacudiu a monotonia da tarde. Logo em seguida, mais dois, e depois mais
um, todos vindos da firma de Okazaki. Minutos antes, Kohei Kato tinha entrado
sorrateiramente no escritório do contador, pulado o balcão de um salto e, ao ver Okazaki de
pé, num outro cômodo, ele disparou quatro vezes, sem pronunciar uma só palavra. A poucas
centenas de metros dali, o tokkotai Toshio Hirama perguntava a um jovem que atendia atrás
do balcão do Foto Nitto:
“Você é o Nitto?”
Diante da resposta afirmativa, disparou dois tiros no japonês, que tombou morto. Sem
saber, Hirama matara o Nitto errado — o morto era Minoru, irmão mais novo do fotógrafo
Kenjiro, que tinha sido condenado pela Shindo Renmei. Tanto Kato como Hirama saíram para
a rua, depois dos disparos, como se nada tivesse acontecido. Cada um levava nas mãos um
revólver ainda fumegante. O primeiro popular a botar as mãos em Kato foi, ironicamente, um
homem que já havia ajudado a Shindo Renmei: o advogado Quirino Travassos, que junto com
Paulo Lauro tirara os “sete heróis” da cadeia de Marília, no começo do ano. Ajudado pelo
motorista de táxi Olívio de Barros, o advogado deu voz de prisão ao japonês, que reagiu,
segundo testemunhas, com um sorriso cínico:
“Calma. Não precisa me prender. Eu fiz minha obrigação e vou me entregar à polícia.”
Diante do espanto dos dois, Kato tirou do bolso um pedaço de papel escrito em português e
japonês e entregou a Quirino. Era uma carta que ele pretendia deixar com o delegado Benedito
Veras, ao se entregar à polícia, na qual explicava as “razões patrióticas” de seu crime. Com
Hirama não fora diferente. Após deixar o ateliê de Nitto, de revólver na mão, ele foi atracado
por um grupo de charreteiros que estava num ponto a poucos metros do crime e entregue à
polícia. O rápido desmaio fizera Noboru Mihabara chegar à Casa Ono com dois minutos de
atraso. Trespassado de dor, ele perguntou por Shuro Ohara. Para desespero do tokkotai, o
dono do bazar tinha acabado de sair para a rua, atraído pelo barulho de tiros vindo do
escritório de Okazaki. O kachigumi achou que não agüentaria ir atrás de Ohara, mas assim
mesmo saiu capengando pela rua, no meio da multidão, tentando localizar sua vítima.
Segurando com a mão esquerda a barriga, que parecia em chamas, e cambaleando entre os
curiosos que se dirigiam para o escritório de Okazaki, Mihabara finalmente pôde ver Ohara,
que andava apressadamente alguns metros à sua frente. Quando estava a um metro de
distância, tirou o revólver, no meio do povaréu, apontou para a nuca de Ohara e disparou. Já não importava tanto acertar ou errar o tiro. A única coisa que Mihabara queria agora era
entregar-se logo à polícia para ser atendido por um médico. A bala entrou atrás da orelha de
Shuro Ohara, correu por entre o crânio e o couro cabeludo e saiu quatro centímetros adiante,
na testa, derrubando no chão o japonês, que milagrosamente ficou ferido sem nenhuma
gravidade. Atônita, a multidão que estava nas ruas viu o tokkotai disparar a arma e cair
desmaiado — e partiu para cima dele a chutes e pontapés. A tarde de São Bartolomeu
prometida por Eiiti Sakane estava para começar, mas contra os japoneses. Indignados com as
duas mortes, os brasileiros de Tupã resolveram imitar os vizinhos de Osvaldo Cruz e ir à
forra contra “a japonesada”.
Entre o primeiro disparo contra Okazaki e o começo do linchamento de Noboru Mihabara
haviam se passado dois, no máximo três minutos. Dos demais tokkotai, alguns tinham se
acovardado ao ver a turba nas ruas, de paus nas mãos à caça de japoneses, e simplesmente
desistiram da empreitada. Outros meteram-se em trapalhadas circenses, como aconteceu com
Sueto Yiama e Kohei Itikawa, a dupla que havia participado dos atentados de Osvaldo Cruz.
Quando faltavam alguns minutos para a hora fatal, eles se encontraram no centro da cidade,
cada um vindo de um lado. Um quis saber quem era a vítima do outro, e descobriram que
Sakane escrevera o mesmo nome nos dois papeizinhos: Kenjiro Nitto (cuja execução fora
encomendada por Sakane também a Hirama). Como cada um entendeu que o outro se
encarregaria de matar Nitto, Yiama e Itikawa se despediram, tomando rumos diferentes.
Mesmo estropiado pela apendicite, Mihabara era o único tokkotai que a massa tinha nas
mãos, então era ele quem ia pagar pelos crimes da Shindo Renmei. O sargento Mauro
Ferreira, da Intendência da v Companhia do Exército, saía de um armazém onde fazia compras
para o quartel e testemunhou a primeira agressão, na hora que o japonês caiu no chão, com as
duas mãos crispadas sobre a barriga:
“Um soldado da Força Pública veio correndo do escritório do Okazaki e deu um chute tão
violento na cara do sujeito que o bico do coturno chegou a entrar na boca dele, partindo-lhe os
dentes. Aí o povão se animou e umas vinte ou trinta pessoas começaram a chutá-lo.”
Populares que circulavam pelo comércio — senhores, jovens e mulheres — aproximavam-
se para ver o que acontecia e ao encontrar o japonês descadeirado e coberto de sangue no
chão, aproveitavam para tirar sua diferença. Alguns simplesmente davam um pontapé naquela
coisa disforme, outros pisavam ou pulavam com os dois pés em cima dele. O médico Luiz
Cálgaro tentou socorrer o infeliz, mas foi empurrado pelos populares:
“Deixa, doutor. Hoje esses filhos da puta vão aprender a nos respeitar.”
Quem não conseguia furar a roda que cercava Mihabara saía pelas ruas à cata de qualquer
outro japonês para agredir. Paralelepípedos empilhados nas esquinas, que seriam usados no
calçamento do centro da cidade, converteram-se em munição para apedrejamento de lojas e
ataques aos imigrantes. Embora a ira fosse dirigida apenas contra os japoneses, os brasileiros
resolveram prudentemente fechar as portas de seus estabelecimentos comerciais. Atraído pela
turbulência que já tomara conta de todo o centro da cidade, o delegado Benedito Veras chegou de revólver em punho ao local onde Noboru Mihabara era linchado. O japonês estava
prostrado no chão, imóvel. Sob a camisa dele, desabotoada pelo policial, apareceu a
denunciadora bandeira japonesa. Um homem com um taco de beisebol ensangüentado na mão
falou, triunfante, com o delegado:
“Pode levar, doutor, que esse não incomoda mais ninguém. Está morto.”
Ao ser jogado na carroceria de uma charrete, ainda inconsciente, Mihabara fez um
movimento com uma das pernas. A malta exultou:
“Ele está vivo! Lincha!”
Alguém apanhou um latão de lixo e o atirou sobre a cabeça do tokkotai, que, agora sim,
parecia ter morrido. Benedito Veras impediu novas agressões, mas, por via das dúvidas,
amarrou com arame os pés e as mãos do japonês, para assegurar que dali ele não escaparia —
se é que sobreviveria ao linchamento que o deixara desfigurado. Reanimado minutos depois,
na delegacia de polícia, Mihabara surpreendeu o juiz de direito Antônio Porto: apesar de ter
ficado irreconhecível depois da surra, ele esbravejava não por ter sido linchado, mas por
saber que Ohara escapara com vida. Apesar de toda valentia, Mihabara não conseguiria
sequer chegar ao fim do depoimento. Minutos depois de começar a falar, ele desmaiou,
devastado pela dor da apendicite, e foi levado inconsciente para o hospital.
O tenente Edoardo de Cerqueira César, herói da campanha da feb na Europa, era o
subcomandante de plantão no quartel da v Companhia quando o delegado Veras apareceu à
procura do capitão Gil Moss. O terno branco que o policial vestia estava tingido pelo sangue
de Noboru Mihabara. Sem homens suficientes para controlar a multidão alucinada que
linchava japoneses pelas ruas, ele pedia socorro ao Exército. Cerqueira César não se
amedrontou:
“Para quem prendeu 19 mil alemães na Itália, prender quatrocentos japoneses é uma
porcaria.”
Trinta atiradores do Tiro de Guerra que jogavam basquete na quadra de esportes do quartel
foram embarcados em um caminhão e despachados para patrulhar as saídas da cidade. Mas
quando fazia a curva em alta velocidade para sair da rua Tamoios e entrar na Aimorés,
transformada num campo de batalha, o veículo capotou, deixando feridos vários recrutas e
aumentando ainda mais a balbúrdia em que o centro de Tupã tinha se transformado.
Convocados às pressas, os outros sessenta soldados que compunham o restante do efetivo do
Exército foram colocados nas ruas para tentar controlar a situação. A tropa, porém, parecia
insuficiente. Em todos os cantos os soldados topavam com japoneses imobilizados por cordas,
sendo brutalmente espancados. Um deles foi caçado como um bicho no forro de uma casa. Os
soldados que o encontraram agarraram-no pelos colhões e o arrastaram assim até o meio da
rua, quando, quase castrado, ele passou a ser espancado. O soldado Goldoni, atirador do Tiro
de Guerra da cidade, comandava uma patrulha numa região retirada do centro em busca de um
japonês suspeito de ser tokkotai. O sujeito acabou sendo localizado pelos militares no fundo
de uma cisterna, sentado em um pedaço de pau amarrado à corda de puxar o balde. Como ele se recusasse a sair de lá, Goldoni começou a passar as costas da baioneta na corda, fingindo
que estava para cortá-la, até que lá do fundo o japonês começou a pedir “pelo amor de Deus”
para ser puxado para fora do buraco. Em outro local, um rapaz foi apanhado pela multidão
quando esmurrava, desesperado, a porta da casa do sogro, pedindo socorro. Do lado de dentro
o velho se recusava a abrir, temendo que o genro pudesse ser um tokkotai. Acuado por um
grupo, o dono de uma quitanda conseguiu fechar a pesada porta de aço de seu estabelecimento
antes que os brasileiros entrassem (e lá dentro passou dez dias, comendo frutas e verduras, até
se sentir seguro para abrir a porta e sair à rua).
Aterrorizado com o que via, o médico Armando Cravo teve que vestir sua velha farda de
oficial da reserva do Exército e armar-se de um revólver para poder sair às ruas e socorrer os
japoneses sem ser ele próprio vítima de alguma agressão. Temendo ser preso ou linchado, um
verdureiro deu o que imaginava ser a prova mais eloqüente de que não era um tokkotai:
enrolou-se numa bandeira do Brasil e saiu pelas ruas. Mas a polícia e os soldados já não
pareciam mais interessados em tokkotai — e sim em impedir que o dia terminasse em um
banho de sangue.
A idéia de prender os japoneses para protegê-los surgiu quando um deles entregou-se
espontaneamente no quartel da v Companhia. Era o mecânico Hiroshi, filho do velho Kenjiro
Yamauchi, conhecido como “o ideólogo” da organização na região. Como o pai e o irmão
mais velho, Fusatoshi, estivessem presos na Ilha Anchieta, o caçula Hiroshi, de 26 anos, ficou
com a responsabilidade de tocar a oficina mecânica da família — um negócio razoavelmente
rendoso, que dava emprego a oito patrícios. Hiroshi percebeu que corria perigo no comecinho
da noite — meia hora depois que o expediente terminou e quando a cidade ainda fervia.
Acompanhado apenas de um empregado, o descendente de russos Nicola Gutinik, ele viu,
parado na porta da oficina, um grupo de sete ou oito pedreiros brasileiros que trabalhavam na
vizinhança, armados de paus e gritando insultos contra japoneses. Certo de que a indecisão
poderia custar-lhe a vida, Hiroshi não teve dúvidas:
“Entreguei a chave e a oficina na mão do Gutinik, que era uma pessoa de confiança, muito
honesto. Saí pelos fundos, pulei a cerca do vizinho — pois pela frente era perigoso, uma vez
que poderia apanhar de pauladas — e fui correndo diretamente para a cadeia. Para não ficar
na mão do povo, preferi ir para o quartel. Pelo menos lá eu estava protegido.”
Ele não seria o único japonês de Tupã a pensar nisso. Em poucas horas, as celas da
delegacia de polícia e os alojamentos da v Companhia do Exército estavam superlotados de
japoneses, que chegavam às centenas em busca de socorro. Quando não havia mais onde enfiar
ninguém, o delegado Benedito Veras encontrou a solução: criar um campo de concentração e
internar lá tanto os japoneses que temiam ser agredidos por brasileiros como as dezenas de
envolvidos nos crimes da tarde que estavam sendo presos pela polícia. Para que eles “não se
comessem uns aos outros”, o delegado sugeria a presença permanente de um pelotão de
soldados do Exército no lugar, assegurando a ordem entre os “internados”. Quando o dia
seguinte clareou, uma cidade ainda sob os escombros da tarde anterior descobriu a novidade: o galpão vazio da rua Caetés, onde outrora funcionara uma quadra de bocha dos colonos
italianos, tinha sido transformado em campo de concentração de japoneses. E já recebera os
primeiros inquilinos, uns setenta ou oitenta japoneses transferidos do quartel e da delegacia.
Ao ser levado do quartel para o campo, Hiroshi Yamauchi não pôde deixar de observar a
amarga ironia: ele estava sendo preso no lugar em que, durante muitos anos, funcionara a
oficina do pai — e onde, portanto, ele vivera sua adolescência. Levas de japoneses iam sendo
despejadas lá dentro com o passar das horas. Por ordem do Exército, patrulhas mistas
compostas de soldados e policiais — sempre acompanhados de um japonês de confiança, para
servir de intérprete — passaram a rondar a cidade dia e noite. Os acessos a Tupã foram
fechados por barreiras militares. Com tanta gente para prender japoneses, era natural que a
clientela do “campo de concentração” crescesse. Dias depois dos linchamentos, no lugar não
cabia mais ninguém: um boletim do Exército dava conta de que a população do campo chegara
a oitocentos presos — espremidos em um terreno de pouco mais de trezentos metros, dos
quais só metade era coberta.
A repressão fora tão severa que pela primeira vez, desde que a Shindo Renmei começara a
cometer atentados, mulheres também tinham sido presas. As cinco japonesas eram Sako Fujii,
mulher do farmacêutico Fusakiti Fujii, em cuja casa os tokkotai haviam feito a última reunião
antes da matança; Eso Hirama, mãe de Toshio e Shigueo Hirama, que contou candidamente aos
policiais ter dado rosários budistas aos filhos, para protegê-los quando tivessem que entrar
em ação; Sadako Hirama, 21 anos, filha de Eso e irmã dos dois tokkotai, que confeccionara à
mão a bandeira que Toshio levou sob a roupa e disse aos policiais que se a sua família “não
possuísse elementos homens”, ela não teria dúvidas em ingressar “na corporação” e cumprir
as determinações dos chefes, de bom grado encarregando-se de fazer o que seu irmão havia
feito com Minoru Nitto; e Toshiko Goto e Teru Shinae, acusadas de esconder armas em suas
casas a pedido de tokkotai. Por serem as únicas mulheres detidas, elas ficaram em celas da
delegacia de polícia, sendo poupadas do inferno do “campo de concentração”.
Os presos ainda passariam algumas semanas lá, até serem triados, ouvidos pela polícia e só
então terem decidido o seu destino (que tanto podia ser a volta para casa como ir parar nas
enxovias do presídio da Ilha Anchieta). Tudo no “campo de concentração” era improvisado.
Os presos dormiam no chão de terra, usavam como privada um buraco nos fundos do terreno
e, enquanto estiveram lá, ninguém tomou banho. De vez em quando algum parente trazia uma
pequena bacia d’água e um pedaço de pano para a higiene mínima — assim como a comida de
cada um dos japoneses tinha que ser levada por suas famílias. À noite os vizinhos ficavam
impressionados com o tom melancólico das litanias que eles entoavam: eram cânticos
patrióticos e hinos de guerra de exaltação ao Japão. O local transformou-se em ponto de
atração turística não só para os tupãenses, mas para gente que pegava a jardineira nas cidades
vizinhas e enfrentava a poeira das estradas para ver de perto “o campo de concentração dos
japoneses”. Para manter os curiosos a distância, o Exército isolou as laterais do terreno com
cordas, dispondo ao longo delas soldados armados de fuzis.
Mas nem aquela exibição pública de que os japoneses de Tupã estavam sob controle
afastou a atmosfera de terror que pairava sobre a cidade desde o dia dos atentados. Soldados
do Exército passaram a guardar dia e noite a casa do juiz Antônio Porto, que dali a semanas
iria presidir e julgar o processo da Shindo Renmei local. Patrulhas identificavam nas estradas
todo estranho que se aproximasse da cidade. Os soldados eram especialmente vigilantes com
os japoneses vindos das cidades onde havia bases importantes da seita dos fanáticos. Filas e
filas de caminhões transportando produtos agrícolas eram barradas e vistoriadas. À menor
suspeita, motorista e veículo eram levados para o campo de futebol ao lado do quartel, que
logo viraria um grande estacionamento de caminhões. No dia seguinte, cerca de 150
personalidades da cidade enviavam um telegrama ao presidente da República, denunciando o
clima de “inquietação e insegurança diante de ameaças de novos atentados por parte de
membros da sociedade secreta japonesa”, e advertindo para a possibilidade de haver uma
nova “chacina geral”. O remédio prescrito a Dutra pelos tupãenses era amargo: a criação na
cidade de um “campo de concentração e dispersão de japoneses, aqui em número superior a
20 mil”. Mas a ira da população ainda não tinha sido aplacada: no dia 22, as personalidades
enviariam outro telegrama ao presidente, desta vez sem muitos rodeios:
Excelentíssimo senhor presidente da República
Palácio do Catete — Rio
Nós, componentes de todas as classes sociais de Tupã, pertencentes a diversos credos
religiosos e políticos, vimos pedir sentença de morte para todos os assassinos nipônicos
e a expulsão do território nacional de todos os membros da Shindo Renmei.
Os temores da cidade eram infundados. As prisões em massa, as torturas, as incontáveis
evacuações e internamentos de milhares de japoneses tinham dado resultado. Salvo meia dúzia
de samurais errantes, como Eiiti Sakane, que ainda zanzavam sem destino pela Alta Paulista, a
Shindo Renmei tinha sido desmantelada pela polícia. Nenhum atentado poderia mais ser
atribuído a uma organização decapitada, cuja cúpula estava integralmente na cadeia. O que
quer que acontecesse, a partir de então, seria obra de algum ronin solitário fazendo acertos de
contas pelo sertão paulista.