Corações Sujos

Fernando Morais · Capítulo 3 de 12

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Corações Sujos

3 - Um velhinho comanda o terror na colônia japonesa: É o sábio coronel kikawa

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UM VELHINHO COMANDA

O TERROR NA COLÔNIA

JAPONESA: É O SÁBIO

CORONEL KIKAWA

O coronel Junji Kikawa podia até estar louco, como imaginavam os policiais que o ouviram na saída da prisão. Mas, pelo menos no caso do Rescrito Imperial, ele tinha razão. Ainda que se atribuísse sua convicção à ambigüidade da língua japonesa, que pode permitir mais de uma interpretação do mesmo texto, a verdade é que o documento assinado por Hiroíto não utilizava nem a palavra rendição e muito menos incondicional. Mesmo derrotado, o imperador guardava um fiapo de trunfo na manga: os Estados Unidos temiam que,

consolidada a paz, o Japão pudesse pender para o lado dos comunistas. O principal obstáculo

às ambições do marechal Joseph Stalin, líder supremo da União Soviética, os americanos

sabiam, era a manutenção, ainda que simbólica, de Hiroíto no trono do Império — e ele estava

tentando tirar proveito disso. Se dependesse apenas da vontade do presidente americano

Harry Truman, Hiroíto teria sido obrigado a ir pessoalmente ao Missouri oferecer a rendição

a MacArthur, mas, graças à intervenção do premiê britânico Clement Attlee e do presidente

chinês Chiang Kai-chek, ele pôde ser substituído na cerimônia pelo ministro do Exterior.

Contra a vontade dos “duros” do Departamento de Estado, que queriam fazer o imperador

sentar-se no banco dos réus como criminoso de guerra, MacArthur fincou pé na decisão de

poupá-lo. Não por qualquer simpatia ou piedade, mas pelas razões que ele transmitira a

Truman em carta secreta: se a decisão fosse a de derrubar Hiroíto do trono seria preciso 1

milhão de soldados para conter o povo japonês. O máximo que o imperador conseguiu foi

fazer pequenas mudanças no texto redigido pelo Supremo Comando Aliado. Por sugestão do

ministro da Guerra Korechika Anami, que se suicidaria horas depois, Hiroíto pediu que uma

frase fosse substituída. Em vez de: “A situação da guerra torna-se cada vez mais desfavorável

para nós”, acabou ficando: “A situação da guerra se desenvolveu de modo não

necessariamente vantajoso para o Japão”. Uma mudança que, apesar de não ser drástica,

custaria uma noite inteira de negociações do monarca com o comando aliado.

Sempre se poderá repetir, como fazia o general MacArthur, que o rescrito era apenas um

pedaço de papel, e que a guerra tinha sido vencida, de fato, nos campos de batalha e não nos

gabinetes de Tóquio. A versão final do documento, no entanto, parece ser um deliberado

exercício de dissimulação:

 

Aos nossos bons e leais súditos:

Depois de profunda ponderação sobre as tendências mundiais atuais e sobre as

condições reais de nosso Império hoje, decidimos estabelecer um compromisso em torno

da atual situação, recorrendo a uma medida extraordinária.

Ordenamos ao nosso governo que comunique aos governos dos Estados Unidos, da

Grã-Bretanha, da China e da União Soviética que nosso Império aceita as disposições de

sua declaração conjunta.

Esforçar-nos para a prosperidade e a felicidade de todas as nações, assim como para

a segurança e bem-estar de nossos súditos, é a obrigação solene que nos foi transmitida

por nossos ancestrais imperiais, e que temos sempre junto ao coração. De fato,

declaramos guerra à América e à Grã-Bretanha movidos por nosso sincero desejo de

garantir ao Japão a autopreservação e a estabilização da Ásia oriental, estando longe de

nosso pensamento infringir a soberania de outras nações ou procurar o crescimento

territorial. Mas agora a guerra já durou quase quatro anos. Apesar de todos terem feito

o melhor possível — a luta heróica das forças militares e navais, a diligência e

assiduidade de nossos súditos e o serviço devotado de nossos 100 milhões de pessoas —,

a situação da guerra se desenvolveu de modo não necessariamente vantajoso para o

Japão, enquanto as tendências mundiais gerais se voltam contra o nosso interesse. Além

disso, o inimigo começou a empregar uma nova e mais terrível bomba, cujo poder de

destruição é incalculável, tirando a vida de muitos inocentes. Se continuássemos a lutar,

isso não apenas resultaria no colapso final e na obliteração da nação japonesa, mas

também levaria à extinção total da civilização humana. Dada essa situação, como

poderíamos salvar nossos milhões de súditos ou nos explicar diante dos espíritos

santificados de nossos antepassados? Esta é a razão por que nós ordenamos a aceitação

das exigências da declaração conjunta das potências.

Podemos somente expressar o mais profundo lamento diante dos países nossos aliados

na Ásia oriental, que cooperaram consistentemente com o Império no sentido da

emancipação da Ásia oriental. Pensar nos oficiais e homens que, assim como outros,

caíram nos campos de batalha, os que morreram em seus postos de honra, ou os que

encontraram a morte prematura e suas famílias desoladas, entristece meu coração noite

e dia. O bem-estar dos feridos de guerra e dos sofredores, e dos que perderam seus lares

e sua alegria, é objeto de nossa profunda solicitude. Os percalços e sofrimentos a que

será submetido nosso país daqui em diante certamente serão grandes. Estamos

profundamente conscientes dos sentimentos mais íntimos de todos vocês, nossos súditos.

No entanto, é de acordo com os ditames do tempo e do destino que nós resolvemos

cimentar o caminho da grande paz para todas as gerações vindouras, suportando o

insuportável e sofrendo o que é insofrível.

Tendo sido capazes de salvaguardar e manter a estrutura do Estado imperial, nós

estamos sempre convosco, nossos bons e leais súditos, confiando em vossa sinceridade e

integridade. Evitai estritamente quaisquer arroubos de emoção que possam provocar

complicações desnecessárias, ou quaisquer disputas e discórdias fraternas que possam

criar confusão, desunir-vos e fazer-vos perder o respeito mundial. Que toda a nação

continue como uma família de geração a geração, sempre firme em sua fé na

imperecibilidade de sua terra divina, cônscia de seu pesado fardo de responsabilidades e

da longa estrada que temos adiante. Uni todas as vossas forças para vos devotardes à

construção do futuro. Cultivai os caminhos da retidão; alimentai a nobreza de espírito; e

trabalhai resolutamente para que possamos alcançar a glória inata do Estado imperial e

mantermo-nos passo a passo com o progresso mundial.

Hiroíto [Selo Imperial]

14o dia do oitavo mês do vigésimo ano da Era Showa

 

Tal como afirmara o coronel Kikawa, a palavra rendição não era utilizada sequer uma vez

no documento. A convicção com que o coronel falara da vitória do Japão, na saída da cadeia,

reforçava a suspeita do delegado Cardoso de Mello de que o ex-militar era mais que um

velhinho delirante. Se dependesse do policial, Kikawa não teria sido libertado. Pouco antes

da decisão do tsn, o chefe do serviço secreto do dops enviou ao tribunal um despacho em que

manifestava sua apreensão com o caso. “Sou contra a soltura”, escreveu o policial, “no

momento em que se iniciou, em algumas localidades do estado, entre nipônicos, um esquisito

movimento de regozijo pela suposta ‘vitória do Império do Sol Nascente’.”

No dia em que Kikawa era libertado, porém, o tal movimento esquisito já havia incendiado

a colônia. Era difícil encontrar na comunidade japonesa alguém que acreditasse que o Japão

tivesse perdido a guerra — ou, pelo menos, que dissesse isso em público. A minoria que

aceitava a versão oficial temia fazê-lo em público e ser taxada de “traidora” ou “derrotista”.

Embora todos os jornais brasileiros tivessem divulgado a íntegra do Rescrito Imperial, os

japoneses que se dispunham a falar sobre o assunto tinham uma resposta pronta: “Isso é

propaganda americana”. O Diário da Noite coloca repórteres nas ruas do bairro japonês à

procura de alguém que aceite dar declarações. Ninguém quer falar nada, até que encontram um

voluntário, que responde com absoluta segurança: “O Japão não perdeu a guerra”. O jornalista

retruca que a notícia é oficial, foi o imperador em pessoa quem a leu na Rádio de Tóquio, em

irradiação repetida no mundo inteiro, mas o entrevistado permanece impassível: “Aquilo foi

uma transmissão americana feita em japonês”. Mas e o Rescrito Imperial? “O rescrito é falso,

o imperador nunca erra.” Não havia mais como esconder que o fim da guerra tinha rachado a

colônia. De um lado, em franca minoria, estavam os makegumi, “esclarecidos” ou

“derrotistas”, ala formada por japoneses com situação econômica e cultural mais elevada, que

já se haviam integrado à sociedade brasileira, falavam português e não alimentavam sonhos de

retornar à pátria. No extremo oposto ficava a maioria da comunidade, aqueles que se auto-

intitulavam kachigumi, “patriotas” ou “vitoristas” — lavradores, feirantes, tintureiros e ex-

militares, pessoas de formação modesta que tinham imigrado para o Brasil com um só

objetivo: arrumar a vida e voltar para o Japão. Devotos das mais rígidas tradições militaristas

japonesas, seguidores cegos do imperador, sustentavam a teoria da vitória do Japão com

argumentos que consideravam indiscutíveis: em 2600 anos o Japão jamais perdera uma guerra;

na remotíssima hipótese de que a pátria tivesse sido derrotada, o mundo teria testemunhado a

“morte honrosa de 100 milhões de japoneses”, que se suicidariam coletivamente, acompanhando o mesmo gesto do imperador — o que efetivamente não acontecera. A partir do

dia 15 de agosto de 1945, a colônia japonesa residente no Brasil estava irremediavelmente

dividida em dois grupos: os kachigumi e os makegumi.

A polícia ainda tinha esperanças de que aquilo fosse apenas uma briga restrita aos

residentes na capital, até que o delegado de polícia da cidade de Pompéia, Antônio Dourado,

apareceu em pessoa no dops com um documento que ele havia apreendido com o nacionalista

Massayuki Kawasaki, de Quintana, e que o policial considerava “ouro puro”: duas versões do

original do Rescrito Imperial da rendição, com o selo de Hiroíto aplicado ao final. A alegria

dos policiais transformou-se em espanto quando chegou o tradutor. Idêntico à verdadeira Fala

do Trono apenas na aparência, o primeiro documento não esclarecia praticamente nada:

 

Fala do Trono destinada aos patrícios que se encontram no exterior

Os patrícios que se encontram no exterior devem se auxiliar mutuamente, não

enveredando para o terreno das vantagens pessoais, tudo fazendo para bem suportar as

provações e sofrimentos e conservar a beleza do Yamatodamashii — o espírito japonês.

Em 3 de agosto do vigésimo ano da Era Showa

Hiroíto

[Nome e chancela do imperador]

 

O segundo, com data posterior ao fim da guerra, era uma palavra de estímulo do monarca a

seus soldados:

 

Fala do Trono destinada ao Exército e à Marinha

As forças de Terra e de Mar que prosseguem na guerra de perpetuação do nosso povo

devem levar a guerra a seu objetivo.

Em 17 de agosto do vigésimo ano da Era Showa

Hiroíto

[Nome e chancela do imperador]

 

Os dois documentos eram idênticos em tudo ao original, inclusive na assinatura, e pareciam

ter saído das mãos de calígrafos do Ministério da Casa Imperial, mas eram falsos como uma

nota de três cruzeiros. A polícia descobriu que o texto tinha sido falsificado por um pintor

“vitorista” e que o Selo Imperial fora feito artesanalmente por outro kachigumi, Mitsuro

Ikeda, dono de uma pequena fábrica de carimbos de borracha de Tupã. Quando a tal cópia

chegou ao dops, milhares de exemplares dela já vinham sendo vendidos na colônia,

clandestinamente, como prova de que a guerra prosseguia e de que o Japão continuava invicto.

O “esquisito movimento de regozijo” de que falava a polícia não parava aí. Aos poucos os

policiais descobriram que o estado havia sido inundado não só por falsas proclamações

imperiais, mas por dezenas de panfletos anônimos, notícias falsificadas e até fotos fraudadas da cerimônia de rendição a bordo do Missouri. Em setembro os policiais foram surpreendidos

por um inusitado movimento, na capital, de japoneses vindos do interior. Hotéis e pensões do

bairro japonês já não tinham mais vagas, e o emaranhado de ruas e vielas compreendidas entre

a Várzea do Glicério e a praça da Sé, onde se concentravam os japoneses, vivia uma agitação

pouco comum. O mistério seria esclarecido ao cair nas mãos da polícia um panfleto que

transcrevia uma suposta notícia transmitida pela Rádio Central Militar do Japão. No folheto

anunciava-se, para o dia 11 de setembro de 1945, a chegada a Santos de uma esquadra da

Marinha imperial encarregada do repatriamento de todos os japoneses residentes no Brasil.

Naquele dia, na verdade, a Rádio Central Militar jazia em escombros, bombardeada por

soviéticos e americanos, e a Marinha japonesa já havia sido dissolvida por um ato

administrativo de MacArthur, mas ainda assim cerca de 2 mil japoneses saídos do interior ou

da capital desceram a serra do Mar em direção ao porto. Dois dias se passaram sem que,

naturalmente, nenhum navio japonês aparecesse. Desolados, os imigrantes retornaram a São

Paulo, onde já os esperava um outro panfleto, esclarecendo que a chegada da missão japonesa

tinha sido adiada para o dia 24 e transferida para o porto do Rio de Janeiro. O documento

recomendava que os membros da colônia comparecessem à então capital federal “se possível

portando uma bandeira japonesa para a saudação aos compatriotas que chegam para nos

repatriar”.

Para os “esclarecidos” da colônia, aquilo era um delírio inadmissível. Ser confundido na

rua com um fanático ou com um idiota que acreditava naqueles desatinos era algo vergonhoso.

E foi um makegumi, o “esclarecido” Shibata Miyakoshi, quem sugeriu à polícia a solução

para pôr fim de vez àquilo que ele considerava “uma farsa que envergonha a colônia

japonesa”. Embora vivesse no Brasil fazia pouco tempo (ele viera nas últimas levas de

imigrantes dos anos 30), Miyakoshi se tornaria conhecido e respeitado pela colônia como

diretor da kkkk, uma das empresas responsáveis pela imigração. Logo após o fim da guerra ele

tinha estado na cidade de Álvares Machado e deixara perturbados os nacionalistas da região

ao repetir quantas vezes lhe pedissem: a guerra havia acabado e o Japão fora derrotado. Os

argumentos dele para a polícia pareciam de uma lógica irrefutável:

“Se um brasileiro disser a esses loucos que a Terra é redonda, eles vão duvidar. Se alguém

pode convencê-los da verdade, tem que ser um japonês.”

Com a autorização do dops, Miyakoshi propôs que se conseguissem cópias dos documentos

originais da rendição e que elas fossem fartamente distribuídas na colônia, com o aval de

nomes conhecidos entre os imigrantes. Com a ajuda da polícia e do Ministério das Relações

Exteriores do Brasil foi montada uma operação para fazer chegar a São Paulo uma cópia

autêntica do Rescrito Imperial. De Tóquio o documento foi enviado à sede da Cruz Vermelha

em Gênova, na Itália, que o remeteu ao escritório da organização em Buenos Aires. Da capital

argentina a proclamação foi levada em mãos até São Paulo, onde foi entregue a Dag Heagler,

delegado da Cruz Vermelha no Brasil, que encaminhou o rescrito ao padre italiano Guido del

Toro. Uma escolha estranha, já que o jesuíta tinha passado dois meses preso no dops, acusado de ministrar catecismo em língua japonesa na Escola São Francisco Xavier, especializada em

oferecer educação cristã a filhos de japoneses não budistas. Traduzidos do japonês para o

português, inglês e francês, os documentos eram acompanhados de uma mensagem do ministro

Togo, das Relações Exteriores, dirigida “aos compatriotas residentes no exterior”.

Foi essa papelada que o padre fez chegar às mãos de Shibata Miyakoshi, o makegumi que

tivera a idéia de esclarecer a colônia sobre o resultado da guerra. Depois de muita discussão

entre a polícia e representantes da comunidade japonesa, decidiu-se que a forma mais

eficiente de fazer os documentos chegar às mãos de todos os interessados era uma só: publicá-

los nos jornais paulistas e, além disso, imprimir algumas centenas de milhares de exemplares

e distribuí-los nas regiões de alta concentração de imigrantes. Por sugestão de Miyakoshi, o

Rescrito Imperial seria acompanhado de uma nota explicativa, assinada pelas personalidades

mais vistosas da colônia.

O coronel Junji Kikawa ainda estava preso, nos primeiros dias de outubro, quando um

carcereiro jogou dentro de sua cela um exemplar do jornal A Gazeta que estampava na

primeira página a notícia intitulada: “Aos compatriotas residentes no Brasil”:

 

O presente tem por fim reportar-vos, mediante consentimento das autoridades policiais

da capital de São Paulo, à nota oficial do Ministério das Relações Exteriores do Japão,

acerca da situação crítica que nossa mãe-pátria enfrenta. A referida nota traz-nos a

proclamação imperial de 14 de agosto e a mensagem do então ministro das Relações

Exteriores, sr. Togo, conforme tradução apensa. [...] Fizemos o possível para traduzi-las

letra por letra. Não passa, porém, de uma tradução: não podemos afirmar que não haja

certas diferenças na transposição de vocábulos de um idioma para o outro. Podeis estar

certos, entretanto, que esperamos não ter cometido nenhum erro quanto ao sentido

substancial do texto original. Notai que no prefácio do documento oficial percebe-se a

preocupação de nosso governo no que diz respeito aos seguintes termos: “[...] tendo em

vista o fato de não se poder negar o perigo de que os súditos do Império do Japão,

residentes em países inimigos, ou naqueles de relações diplomáticas rompidas, venham a

praticar algo irremediável e grave, pede-se transmitir esta nota oficial [...]”.

Nossa mãe-pátria, o Japão, encontra-se, neste momento, em dificuldades jamais

experimentadas desde a sua fundação. Para que ela possa vencê-las é preciso que seus

filhos unam-se como um só homem e num só coração, para a reconstrução do novo

Japão, tolerando o intolerável, suportando o insuportável, acautelando-se contra

explosões emotivas, conforme o venerando desejo de Sua Majestade, o imperador.

Esperamos e fazemos votos que cuidareis da vossa própria dignidade e saúde.

São Paulo, 5 de outubro de 1945

Jinsaku Wakiyama, Shigetsuna Furuya, Kunito Miyasaka, Kiyoshi Yamamoto, Senichi

Hachiya, Shibata Miyakoshi,

Kameichi Yamashita.

Naquela noite Junji Kikawa escreveu em seu diário: “Ao ver o nome do velho camarada

Wakiyama encabeçando uma lista de traidores da pátria, senti-me como se uma adaga de aço

tivesse varado meu coração”. Estava explicado por que o companheiro de viagem não

aparecera uma só vez para visitá-lo na cadeia: o dono da mais alta patente militar japonesa no

Brasil tinha se passado para o lado “dos inimigos, dos japoneses de corações sujos”. A

surpresa se justificava, porque Kikawa conhecia quase todos os demais signatários: Kunito

Miyasaka era diretor da Bratac e havia sido um dos fundadores do Banco América do Sul.

Kameichi Yamashita fora presidente da poderosa Cooperativa Agrícola de Cotia. Shigetsuna

Furuya tinha sido embaixador do Japão na Coréia, no México e na Argentina até mudar-se

para o Brasil, onde se tornara um grande produtor e exportador de bananas. Senichi Hachiya,

um dos pioneiros da imigração para o Brasil, era dono de uma importadora. Bem informado,

apesar de estar na prisão, Kikawa soubera que um outro patrício fora articulador daquele

documento, e só não aparecia na lista porque viajara no dia da divulgação. Era o industrial

Chuzaburo Nomura, o culto ex-diretor do jornal Nippak Shimbun, dono de um pequeno

império industrial de fibras vegetais que dera a ele o apelido de “o Rei do Rami”. Afinal,

perguntava-se Kikawa, o que fazia entre empresários, jornalistas e diplomatas o coronel

Jinsaku Wakiyama, um patriota que já havia até sido preso pelo dops sob suspeita de

espionagem a favor do Japão?

O “sábio coronel Kikawa” não sabia que os dois anos que os separavam tinham produzido

mudanças profundas na cabeça de Wakiyama. Ele já não era um xintoísta tão fervoroso quanto

o amigo e passara a ter dúvidas quanto às virtudes do militarismo extremado do Japão. As

transformações surgiram, ironicamente, no começo da guerra, durante uma viagem à pátria,

quando Jinsaku Wakiyama representara a colônia nos festejos do 2600o aniversário do

Império japonês. Viagem que terminaria com sua prisão no dops por quatro dias, ao retornar

ao Brasil. Do Wakiyama militarista dos velhos tempos restara uma pequena excentricidade

que deliciava a população de Bastos, onde ele vivia. No fim da tarde, quando terminava o

trabalho na lavoura, ele repetia o ritual: depois de um bom banho no ofurô, Wakiyama vestia a

engomada farda de gala de coronel do Exército Imperial japonês, prendia à cintura a espada

de cabo dourado e tomava o rumo da cidade para a prosa diária com os amigos. Ninguém que

o tenha visto poderá se esquecer da imagem daquele homenzinho de quase setenta anos ainda

empertigado, de bigodinho cuidadosamente aparado e óculos de grau, chegando à cidade

montado em Cambraia, seu imponente cavalo branco. Feito sob medida em casimira azul-

marinho, o dólmã militar era do modelo três-quartos, que terminava abaixo dos joelhos. Na

frente era fechado por duas fileiras de sete botões dourados de cada lado. A gola, as dragonas

de patentes e os punhos eram de galões dourados, cercados por debruns bordados em

vermelho — cor utilizada também nos vistos externos da calça azul-marinho. Sobre a cabeça,

Wakiyama ajustava cuidadosamente um chapéu colonial inglês que escondia a calva quase

total — e que o povo apelidara de “chapéu de caçar onça”. A caprichada alegoria fazia da chegada dele à pracinha de Bastos, no começo da noite, uma aparição quase sobrenatural.

A última vez que Kikawa o vira assim engalanado já fazia mais de três anos. Em agosto de

1942, no auge das restrições impostas pelas leis de guerra, a situação dos japoneses parecia

insuportável. Cartas e documentos trocados clandestinamente pelas lideranças “patrióticas”

concluíam que era impossível deixar uma comunidade de 200 mil pessoas ao léu, isolada do

mundo, submetida às piores humilhações e proibida de fazer praticamente tudo, até de falar.

No interior, os japoneses eram vigiados pela polícia e pelos vizinhos. Na capital, o bairro

japonês tinha sido convertido em um gueto em que as pessoas se sentiam prisioneiras na

própria casa. A cada notícia de derrota militar do Japão, os imigrantes reagiam com desânimo

e prostração. Na cabeça de Kikawa, era chegada a hora de alguém “unificar de novo a colônia

em torno do Yamatodamashii, o espírito japonês”. Como as reuniões de súditos do Eixo

estavam proibidas, duas famílias de Marília conseguiram do delegado local, Pahim Pinto,

autorização especial para realizar no Hotel Sawaya, o melhor da cidade, a festa de casamento

de seus filhos. A população se surpreendeu com a afluência de convidados, numerosa demais

para uma cerimônia que unia noivos de modestas famílias de agricultores. Cerca de

quatrocentos japoneses vindos de todo o estado haviam desembarcado em Marília. A maioria

só podia ter chegado lá ilegalmente, imaginava-se, já que a solicitação de tantos salvo-

condutos para viagens com o mesmo destino certamente teria despertado suspeitas na polícia.

O sentimento contra os japoneses naquele dia era de profunda revolta: nas últimas 72 horas

mais cinco navios brasileiros haviam sido postos a pique por submarinos do Eixo. Em três

dias tinham sido afundados os vapores Baependi, Aníbal Benévolo, Itagiba, Araras e

Araraquara. Ver aqueles japoneses circulando com total desenvoltura pela cidade deixou os

marilienses inquietos. No meio da festa, circulou pela cidade a notícia, espalhada por um

empregado do Hotel Sawaya: o casamento era apenas um pretexto. Na verdade os japoneses

estavam lá dentro fazendo reuniões subversivas, “com o retrato do imperador e a bandeira do

Japão na parede”.

Os pequenos grupos de brasileiros que começaram a se juntar pelas esquinas eram

estimulados por gente que se dizia “indignada com a ousadia da quinta-coluna japonesa”.

Segundo registrou o correspondente do Diário de S. Paulo, “centenas de nipônicos,

devidamente protegidos pela polícia, banquetearam-se num dos ágapes mais ricos que a rica

Marília já assistiu”. Novas rodas se formavam nas imediações do hotel. De vez em quando

alguém gritava uma frase como: “Este banquete é uma afronta aos nossos mortos”. Uma

reunião de “bodes” em pleno centro da cidade, com fotos e bandeiras, era sinal de uma

“tolerância incompreensível” das autoridades. E, se estas não se mexiam, os bravos

brasileiros de Marília tomariam a si a grave responsabilidade de defender a pátria da ação do

inimigo. Para passarem da intenção ao gesto demorou pouco. Ao se juntar, os grupos

espalhados pela cidade já formavam uma pequena multidão — o que talvez os tenha

encorajado a marchar para a avenida Brasil e invadir o Hotel Sawaya. Fosse o que fosse que

acontecia lá dentro — assembléia política ou casamento —, a cerimônia foi interrompida a golpes de porrete. Homens, mulheres, crianças, idosos, ninguém foi poupado. A bandeira do

Japão e um enorme estandarte de seda com a imagem de Hiroíto foram arrancados da parede e

incinerados no meio da rua. Dentro do salão do hotel, em meio ao alvoroço provocado pela

ação dos agressores, um pequeno grupo de jovens japoneses aproveitou-se da confusão para

retirar, pelos fundos do hotel, cinco “convidados”, que seriam colocados dentro de “pés-de-

bode” e desapareceriam na noite. Entre eles estavam o coronel Kikawa, o capitão Kiyo

Yamauchi e, enfarpelado com sua vistosa farda de gala, o coronel Jinsaku Wakiyama.

A escaramuça foi feia. Dezenas de feridos foram internados na Santa Casa de Misericórdia,

e só no final da noite, quando uma tropa de quarenta soldados chegou de Bauru, é que a calma

voltou à cidade. Apesar do susto, a poucos quilômetros dali, num galpão de madeira de uma

chácara de Quintana, os três senhores que haviam sido retirados às pressas do hotel

festejavam, com mais uma centena de japoneses, o sucesso da empreitada. O ambiente festivo

não denunciava que todos ali tinham escapado de um linchamento. Na parede do galpão foram

grudadas uma enorme fotografia do imperador Hiroíto fardado de marechal-de-campo e, ao

lado dela, uma bandeira japonesa — a bandeira da Marinha de Guerra japonesa, com os raios

do sol vermelho invadindo o tecido branco. De pé atrás de uma mesinha, com um gesto de mão

Junji Kikawa chamou para junto de si, além de Wakiyama e Yamauchi, os dois homens que

passariam a ser suas visitas freqüentes nos catorze meses de cadeia: Ryotaro Negoro e Seiichi

Tomari. De uma jarra de louça derramou saquê quente em cinco minúsculas tigelinhas

brancas, passando uma para cada colega de mesa. Pediu que todos ficassem de pé e o

acompanhassem “espiritualmente” no brinde que ele levantava:

“No tempo de guerra, a única forma de mostrar nossa fidelidade à pátria é cumprir com as

obrigações dos súditos do trono. A colônia já não está mais órfã. O imperador não será mais

ultrajado no Brasil. Hoje nasceu a Shindo Renmei, a Liga do Caminho dos Súditos. Longa,

muito longa vida à Shindo Renmei!”

O brinde, seguido por todos, a cerimônia solene e até o conteúdo do brevíssimo discurso do

coronel Kikawa pouco tinham de novo, aparentemente, para os membros da colônia. Até 1942

os japoneses se dividiam entre quase trinta associações criadas por eles no Brasil. Embora

oficialmente extintas pelas leis de guerra, muitas delas continuaram funcionando

clandestinamente. Eram pequenas sociedades locais, quase todas voltadas para o culto de

valores patrióticos, cujos objetivos vinham estampados nos próprios nomes: Aikoku Doshikai

(Associação Patriótica dos Unidos pelo Pensamento), Chudokai (Associação pelo Caminho de

Fidelidade ao Imperador), Kodo Jissen Renmei (Liga pela Prática das Diretrizes do

Imperador), Kokusui Seinendan (Grupo Nacionalista de Jovens), Sei Aikokudan (Grupo dos

Verdadeiros Patriotas), Seika Renmei (Liga do Puro Espírito) e Zaihaku Zaigo Gunjinkai

(Associação dos Ex-Militares Japoneses no Brasil). Criadas em uma cultura em que o papel

das mulheres era sempre secundário, apenas uma delas as aceitava como associadas, a

Zaihaku Seika Fujinkai (Associação do Puro Espírito das Senhoras Japonesas no Brasil).

Se dependesse da opinião de Wakiyama e Yamauchi, o nome da organização seria Kodosha (Movimento Unificador) e não Shindo Renmei. Mas Junji Kikawa fincou pé e, como quase

sempre, prevaleceu a sua vontade. E foi com o nome de Shindo Renmei que a sociedade

funcionou durante três anos e meio sem que a polícia sequer desconfiasse de sua existência.

Durante o período em que o coronel Kikawa esteve preso, a presidência foi ocupada

provisoriamente pelo capitão Kiyo Yamauchi. Mas tratava-se de mera formalidade, uma vez

que, mesmo da cadeia, quem dava as ordens era Kikawa. A permanência de Yamauchi na

cabeça do movimento acabaria durando pouco. Divergências internas (a começar pelo nome,

com o qual ele não concordava) acabariam fazendo com que o capitão rompesse com a Shindo

e reabrisse clandestinamente a sua antiga Zaihaku Zaigo Gunjinkai, a associação dos ex-

militares japoneses. Quando ele deixou a organização, com Kikawa ainda na cadeia, a direção

ficou a cargo do engenheiro Ryotaro Negoro.

Mesmo não tendo sido escolhidos formalmente por seus patrícios, os cerca de quatrocentos

japoneses que estiveram no Hotel Sawaya pareciam ser efetivamente representativos das

aspirações da colônia. Quando estourou a organização, anos depois, o dops descobriu que a

Shindo tinha, espalhados por 64 municípios paulistas, cerca de 100 mil sócios-contribuintes

inscritos oficialmente e “mais 60 mil simpatizantes” que a apoiavam, mas não queriam se

meter em encrencas com as autoridades brasileiras. Cerca de vinte membros da direção foram

profissionalizados: remunerados pela Shindo, abandonaram suas ocupações para dedicar-se

exclusivamente à organização. Apenas o coronel Kikawa, a seu próprio pedido, não era

assalariado pela Shindo, preferindo continuar vivendo apenas dos modestos rendimentos de

sua tinturaria. No fim das contas, fazia pouca diferença, já que os salários pagos pela

associação eram esquálidos. Seiichi Tomari, por exemplo, considerado “o ideólogo” da

Shindo, recebia modestos mil cruzeiros por mês como remuneração (a moeda brasileira, que

era o mil-réis, mudara de nome em 1942). Os mais significativos registros de pagamentos de

pessoal apontavam sempre na direção do mesmo beneficiário, um misterioso personagem

chamado Tsuguo Kishimoto. Inúmeros pagamentos feitos a ele — de 3,5 e até 20 mil cruzeiros

— apareciam com freqüência na contabilidade da Shindo como sendo dinheiro utilizado para

“engraxar” autoridades e colocar em liberdade militantes presos. O grosso dos recursos

amealhados na colônia era gasto na compra de mimeógrafos, transmissores de rádio, gráficas

e estúdios fotográficos instalados secretamente nas casas de japoneses em vários pontos do

estado.

Entre a fundação, em 1942, e o término da guerra, em agosto de 1945, a Shindo parece ter

se dedicado mais ao trabalho de unificação da colônia. Para burlar a vigilância da polícia e

evitar os olhares indiscretos dos gaijin brasileiros, a doação de 30 mil cruzeiros de um

fazendeiro japonês da Alta Paulista foi usada para montar uma empresa atacadista, a Casa

Paulista, situada na capital. Foi ela que passou a funcionar como “fachada” para que a

organização pudesse mandar para o interior agentes aliciadores disfarçados de mascates.

Foram principalmente os “vendedores” da Casa Paulista, orientados por Kikawa, Tomari e

Negoro, que se encarregaram de recrutar as dezenas de milhares de sócios e simpatizantes que a Shindo arrebanhou em todo o estado. E era na caixa postal 5784, de propriedade da firma,

que pousavam todos os dias centenas de envelopes vindos do interior, recheados de

mensagens, pedidos de orientação e dinheiro. Muito dinheiro. Como cada associado

contribuía com mensalidades que variavam de dois a dez cruzeiros, a polícia concluiu que a

Shindo Renmei movimentava todos os meses a razoável fortuna de 700 mil cruzeiros —

dinheiro equivalente, sessenta anos depois, a aproximadamente 500 mil dólares (ou 800 mil

reais).

Durante os anos de 1944 e 1945 a Shindo realizou um silencioso porém frenético trabalho

de catequese patriótica e de aliciamento de associados. Segundo um relatório feito pela

polícia após o final da guerra, “um verdadeiro exército de colonos, verdureiros, tintureiros,

vendedores ambulantes e sapateiros” varou o estado de ponta a ponta. Sob os mostruários da

Casa Paulista, as malas dos falsos mascates escondiam boletins, panfletos e recortes de

jornais e de revistas cujo conteúdo poderia ser resumido em uma idéia fixa: o desempenho da

pátria na Segunda Guerra Mundial tinha sido excelente, o Japão nunca perdera uma guerra, o

imperador continuava vivo etc. etc. Além de notícias — falsas, quase sempre — cada agente

levava no bolso um panfleto intitulado “De como instalar sucursais”, que funcionava como um

roteiro das reuniões. Ele continha instruções genéricas, tais como os objetivos da Shindo

Renmei, a forma de selecionar os diretores das sucursais, orientação religiosa e política.

Ensinavam-se cuidados para que a correspondência não fosse violada pela polícia e até como

realizar com êxito o trabalho de sabotagem de “atividades produtivas de interesse militar do

inimigo”. Todo sócio deveria ter obrigatoriamente, além de firmes convicções patrióticas,

“um passado de procedimento moral sem manchas”. Mas era a parte final das preleções que

enchia de alegria a alma dos japoneses. O último capítulo das conversas era dedicado à

organização do repatriamento: o regresso em massa de todos os japoneses do Brasil não ao

Japão, mas à prometida “Grande Ásia Oriental” em que a pátria se transformaria após a

vitória sobre os Aliados.

Terminada a pregação, centenas de cópias mimeografadas de um manuscrito do “ideólogo”

Seiichi Tomari eram deixadas na cidade para distribuição entre os novos associados.

Intitulado “Classificação hierárquica dos correligionários”, o documento dividia a colônia em

cinco categorias:

 

1) Os patriotas fervorosos, corretos no modo de proceder, que reúnam, ao mesmo tempo,

entusiasmo, coragem, e que não se deixem empolgar pelas honrarias de ordem material.

Os que, enfim, reconheçam a situação atual pelo verdadeiro espírito patriótico (esta

categoria divide-se em duas: os que apóiam pela ação e os que apóiam moralmente);

2) Os que, embora enquadrados no item 1 supra, sejam impedidos por circunstâncias

especiais;

3) Os que, embora possuidores de espírito patriótico, sejam desprovidos de coragem e

que, embora a sua palavra e os seus atos se harmonizem e proclamem a vitória da Ásia

Oriental, o fazem por simples conveniência pessoal, sendo, na realidade, apegados às

coisas de ordem material;

4) Os preguiçosos, bem como os que, perdendo a noção de pátria, se dedicam à

produção de utilidades de natureza inimiga;

5) Os maus condutores (ou orientadores) e os delatores.

 

Junto com esse folheto, os “mascates” deixavam também rumas de cópias mimeografadas de

um confuso manuscrito de Tomari, em que ele misturava orientações administrativas com

xintoísmo, segurança, conduta moral, prática de esportes e até conselhos sobre higiene. Ao pé

de cada panfleto o autor jamais se esquecia de destacar a mesma advertência: “Educação e

espírito, em vez de ganhar dinheiro”. Em meados de agosto de 1945, quando chegaram ao

clímax as notícias do fim da guerra, Tomari foi ao dops aconselhar-se com Kikawa. Os dois

concordaram em que era avassaladora a campanha do que entendiam ser propaganda

americana, dando a guerra como terminada e o Japão como perdedor. Rádios, jornais,

revistas, ninguém mais falava de outro assunto. A Shindo Renmei não havia assumido o

compromisso público de ser a bússola da colônia? — perguntou Kikawa, para ele mesmo

concluir: só os “mascates” não seriam suficientes para fazer frente à onda de boatos

derrotistas. Era preciso que os dois principais dirigentes em liberdade percorressem o estado

oferecendo de viva voz orientação aos patrícios. Se pudesse, Kikawa gostaria de fazer

pessoalmente esse papel. Impedido pela prisão, no entanto, ele delegava a missão a Seiichi

Tomari e Ryotaro Negoro.

Como nenhum deles tinha antecedentes criminais, os dois partiram para o interior sem

nenhuma medida especial de segurança. Tomari solicitou um salvo-conduto a pretexto de

“visitar parentes doentes em Campo Grande, em Mato Grosso”, e Negoro declarou à polícia

que ia “ultimar um negócio muito urgente, com o proprietário da Fazenda Rami, de Pirianito,

sita na Estação Pirianito — norte do estado do Paraná”. Com esses dois destinos nos salvo-

condutos eles poderiam circular livremente por toda a Alta Paulista e pela Noroeste. Qualquer

cidade em que fossem eventualmente parados por batidas policiais poderia ser considerada

meio de caminho até o Norte do Paraná ou Campo Grande.

Entre final de agosto e meados de novembro, Tomari e Negoro visitaram mais de quarenta

municípios, vilas e bairros onde houvesse concentrações de imigrantes japoneses. Nesse

período os dois se encontraram apenas uma vez, num hotelzinho de Lucélia, para trocar

informações sobre os resultados obtidos. Os relatos não diferiam muito uns dos outros.

Ryotaro Negoro preferiu entregar a Tomari trechos do seu diário referentes ao trabalho com a

colônia. O documento, na verdade, era um amontoado de opiniões desencontradas, futricas e

delações de patrícios. Para manter o caráter “secreto” das informações, alguns nomes de

lugares ou de pessoas eram substituídos por uma letra. O que acabava revelando o

amadorismo reinante, já que qualquer criança de curso primário saberia, por exemplo, que “o

sr. F., da cidade de H.”, só podia ser de Herculândia, o único dos quase seiscentos municípios paulistas a começar com a letra h.

 

Em Bastos o sr. F. verificou que todos os dias sua casa amanhece pichada com dizeres

alusivos à sua traição. Por isso não dorme sossegado. Seu túmulo já está pronto, porque

é derrotista. Até em seu caminhão e em outros pertences seus, foram encontrados tais

escritos.

 

Em V. um brasileiro, filho de um fazendeiro japonês, estudante em São Paulo, voltando

para a fazenda de seu pai, contestou a alegação de um brasileiro seu vizinho que gritava

a derrota do Japão. Retorquiu o brasileiro, filho de japonês: “O Japão já ganhou a

guerra!”. O vizinho brasileiro ficou boquiaberto com a notícia e não disse mais nada,

como que abobalhado.

 

O sr. F., da cidade de H., é um idiota. Trabalhou na antiga livraria japonesa. Esse

indivíduo costuma chamar o imperador do Japão simplesmente de “Hiroíto”, mas trata

Chiang Kai-chek de “imperador”. Esse mesmo indivíduo disse que o Japão, tendo

perdido a guerra, devia acabar-se completamente. Seu irmão mais moço, que foi militar,

brigou com ele por isso, criticando sua atitude e alegando que ele já está na lista negra.

Cortaram relações. Seu irmão mais moço, entretanto, homem correto, é um exemplar

membro da Shindo Renmei.

 

Na Noroeste, na cidade de P., um patrício que foi empregado da Casa Tozan, e é

considerado derrotista, veio a São Paulo para denunciar seus patrícios às autoridades

da Ordem Política e Social. Disse-lhes que no interior estavam festejando a vitória do

Japão. Pediu, então, força policial para acabar com tal coisa. A autoridade respondeu-

lhe: “Neste negócio não se mexe mais”. E o derrotista ficou sem saber o que fazer.

 

A polícia tem recebido muito dinheiro dos japoneses derrotistas para trabalhar contra

a Shindo Renmei. A imprensa, também. Mas quando esse dinheiro chegar ao fim não mais

se escreverá contra a Shindo Renmei.

 

O chefe do Serviço Secreto da Polícia disse ao ministro da Justiça que, se não

exterminar a Shindo Renmei, os acontecimentos não terão fim. Parece que o ministro da

Justiça veio a São Paulo para verificar os acontecimentos e achou que a Shindo Renmei

não tem culpa alguma. O advogado sr. Moraes disse que o secretário da Segurança é de

parecer que a Shindo Renmei não é maléfica.

 

Um derrotista japonês, o “cão policial” Paulo Morita, recebeu muito dinheiro dos

derrotistas e distribuiu ao chefe dos inspetores do Serviço Secreto da polícia. É por isso

que a polícia está contra a opinião do ministro da Justiça. Isso é lamentável!

 

O relatório do macambúzio Seiichi Tomari foi verbal e mais objetivo. Ele contou por alto o

que acontecera em cada visita e só desceu a detalhes em relação a duas cidades: Presidente

Prudente e Bastos. Ao chegar à primeira ele descobriu, como acontecera em outros locais

visitados, que já havia uma associação de japoneses funcionando clandestinamente. Era a

Kodo Jissen Renmei (Liga pela Prática das Diretrizes do Imperador), que Tomari imaginava

desativada. Ele repetiu em Prudente o mesmo discurso que dera resultados positivos

anteriormente: o ideal, para o espírito patriótico e para os interesses do Japão, era que a

colônia se unisse em uma única sociedade. Nesse sentido, a Shindo propunha à Kodo uma

fusão, idêntica à que a maioria das associações haviam feito. Pela primeira vez na viagem,

Tomari ouviu um não. O presidente da Kodo, Motoi Bam, bateu o pé e decidiu que não iam se

fundir com organização nenhuma. E em Bastos, após Tomari instalar uma sucursal da Renmei,

os patrícios o advertiram para a desenvoltura com que o presidente da cooperativa local, Ikuta

Mizobe, alardeava a derrota do Japão na guerra. O atrevimento do traidor era tal, disseram-

lhe os informantes, que ele chegara ao cúmulo de escrever tal blasfêmia e assinar embaixo. A

prova, entregue a Tomari, era mostrada agora a Negoro: uma breve circular distribuída por

Mizobe aos empregados da Cooperativa de Bastos no dia 15 de agosto de 1945.

 

Ao chefe da seção...

Apresso-me a comunicar a V. S. o seguinte: ouvi hoje (15 de agosto) a irradiação do

Japão, de sete horas da manhã, que anunciou: “O governo japonês teve que aceitar a

proposta das quatro potências”. Isso nos dá a entender que se chegou ao estado de

cessação das hostilidades. É impossível qualquer previsão sobre as futuras modificações

da situação. Diante disso, esperamos que os japoneses residentes nesta localidade se

comportem de modo a evitar quaisquer atos levianos.

Ikuta Mizobe (Cooperativa Agrícola de Bastos)

 

Ao perguntar que orientação Tomari deixara para os patrícios de Bastos, no caso de

Mizobe, Negoro ouviu uma sentença de morte:

“Não precisei dizer nada. Os companheiros já avisaram a esse ‘coração sujo’ que ele vai

ter que lavar a garganta.”

 

■

 

A polícia paulista parecia ter problemas mais graves para resolver do que os delírios de

um bando de japoneses desequilibrados. Represadas durante quinze anos de ditadura, as

reivindicações populares transbordavam para as ruas. A anistia política que Getúlio fora

obrigado a conceder devolveu à liberdade, segundo relatório do dops, “elementos perniciosos, que na rua passaram imediatamente a agitar as massas proletárias”. Da noite para

o dia brotavam “comitês”, “comissões”, “movimentos” em todos os cantos. Para desespero

dos policiais, até o Partido Comunista fora legalizado, e agora pulverizava o país com células

onde se fazia “franca e desabusada campanha contra as autoridades, agitando massas

trabalhadoras que havia muitos anos não se manifestavam de maneira tão violenta”, como

denunciava um informe oficial. Greves pipocavam por todo o estado. Abertamente ou através

do Movimento Unificador dos Trabalhadores (mut), o pc era acusado pelo dops paulista de ter

sob seu controle os estivadores do porto de Santos, os operários da Light, a companhia de

eletricidade que abastecia o estado, os bancários, os motoristas de ônibus, os metalúrgicos e

os ferroviários da Sorocabana e de outra ferrovia privada existente na época, a São Paulo

Railway.

Não havia polícia que chegasse para tanta greve. A primeira delas ocorrera em abril de

1945 nas docas de Santos. Durante várias semanas o maior porto do país ficou parado. Foram

infrutíferas as tentativas do governo de levar os estivadores a retomar o trabalho. O uso de

tropas do Corpo de Fuzileiros Navais para reprimir os piquetes não adiantou nada. Os

trabalhadores só encerraram o movimento quando suas reivindicações foram atendidas:

aumento de 38 por cento nos salários e adoção da “hora de 52 minutos” para o pagamento das

horas extras. O sucesso da greve dos estivadores de Santos atiçou dezenas de outras

categorias. A censura à imprensa caíra de podre, não tendo sido necessário nenhum ato oficial

para extingui-la. Sem a presença dos censores do governo nas redações, os jornais viviam em

lua-de-mel com a liberdade de expressão — e publicavam tudo o que lhes caía nas mãos,

sobretudo notícias sobre as greves. Desde a paralisação do porto de Santos até o final do ano

de 1945, o dops contabilizou 491 greves no estado de São Paulo, que levaram 350 mil

trabalhadores a cruzar os braços. Derrubada a ditadura, em outubro de 1945, a máquina

repressiva montada pelo Estado Novo desabara, deixando incontrolável o movimento

sindical. Em dezembro de 1945 e janeiro de 1946 as reivindicações de aumentos de salários

se juntaram aos pedidos de abono de Natal e praticamente paralisaram o estado.

Desacostumadas a lidar com movimentos sociais em uma democracia, as equipes do dops

eram obrigadas a reprimir os piquetes em portas de fábricas, bancos e repartições públicas

sempre com um olho na imprensa, agora vigilante contra os abusos da polícia. No primeiro

trimestre de 1946, com o país já vivendo sob o governo do general Dutra, eleito presidente da

República após a derrubada de Getúlio Vargas, um novo foco de agitação política viria se

somar aos movimentos paredistas. Convocadas as eleições para 19 de janeiro de 1947, a

campanha para governador corria solta pelo estado, com quatro candidatos já registrados:

Ademar de Barros, pelo psp, Hugo Borghi, pelo ptn, Mário Tavares, pelo psd, e Antônio

Almeida Prado, pela udn. Devidamente legalizado e registrado nos cartórios eleitorais, o

Partido Comunista decidira não sair com candidato próprio e se coligara com Ademar de

Barros, antigo interventor da ditadura no estado.

Com tanta complicação pela frente, era compreensível que a polícia deixasse passar despercebida a convulsão que sacudia a comunidade japonesa. Sem que o dops se desse

conta, a colônia tinha sido inundada por fraudes, intimidações e falsificações de documentos.

Bilhetes ameaçadores, escritos em japonês, eram deixados nas casas dos “derrotistas”, os

makegumi que insistiam em dizer que o Japão tinha perdido a guerra. Se na capital as ameaças

eram enfiadas sob as portas das casas, no interior elas eram feitas com mais sofisticação. Lá a

Shindo Renmei pintava o nome do inimigo num sotoba, ou ihai — o pedaço de madeira

colocado no altar budista, nos velórios, no qual se inscreve o nome do morto —, e cravava a

sinistra ameaça na porta da casa do derrotista. O dops, no entanto, parecia estar mais

preocupado com os comunistas de Luís Carlos Prestes do que com japoneses malucos.

Estimulada pela indiferença policial, a Shindo resolveu ousar. Na manhã de 6 de janeiro de

1946 o coronel Kikawa voltou espontaneamente ao dops, onde passara mais de um ano preso.

Acompanhado de Ryotaro Negoro e de mais cinco japoneses, disse que queria falar “com a

autoridade”. Sem paciência para ouvir, pela enésima vez, a mesma chorumela dos japoneses,

o delegado Cardoso de Mello mandou que o intérprete Mário Botelho de Miranda os

atendesse na sala dos inspetores. Kikawa ficou bravo quando soube que seria recebido por um

subalterno, mas acabou tendo que se contentar com isso. E foi ao tradutor que entregou uma

folha de papel escrita em japonês, explicando a Miranda o motivo da visita:

“Vim aqui pedir ao governo autorização para funcionamento da Shindo Renmei.”

Quando o intérprete quis saber o que era a Shindo Renmei, Kikawa explicou

minuciosamente:

“Shindo é uma sociedade para cultivar o Yamatodamashii, o espírito nipônico, e para unir

os japoneses, sem criticar ou menosprezar o nome do imperador, como os japoneses

derrotistas fazem. Queremos pedir à autoridade para proibir a propaganda que alguns

patrícios fazem inutilmente dentro da colônia, pregando o derrotismo. Com essa propaganda

judaica inescrupulosa, de pregar a derrota do Japão, os lavradores não trabalham direito e a

economia do Brasil pode ir mal.”

Miranda respondeu-lhe que todas as sociedades de estrangeiros estavam proibidas, não

sendo possível autorizar o registro da Shindo Renmei. Acreditando ou não na derrota do

Japão, eles que voltassem a trabalhar e terminassem com aquela conversa sem pé nem cabeça.

A resposta deixou indignado o coronel Kikawa, que reagiu com exaltação:

“Então queremos ser presos. Mas o dops não tem lugar para prender todo mundo. Nós

somos mais de 120 mil. Se a polícia não der a licença, eles podem ficar furiosos. São jovens,

cabeça quente, o doutor sabe como é...”

O funcionário, que não parecia muito interessado naquela conversa, devolveu-lhe o

requerimento:

“E tem mais, coronel: qualquer documento entregue a uma repartição pública brasileira tem

que estar escrito em português. O senhor leva isso aqui de volta e manda traduzir. Mas já sabe

que nem em português vocês conseguem autorização. Podem se retirar, que está terminada a

reunião.”

Horas depois o grupo estava de volta, trazendo uma folha de papel datilografada em

português e assinada por uma lista de dez pessoas, encabeçada por Kikawa, Negoro e Tomari:

 

Ao senhor delegado de Ordem Política e Social

O abaixo assinado, Junji Kikawa, japonês, casado, comerciante, residente à rua

Vergueiro no 3424, nesta capital, com 67 anos de idade, vem respeitosamente solicitar a

Vossa Excelência se digne conceder-lhe licença para organizar uma liga associativa

denominada liga Shindo Renmei, com o intuito cultural conforme anexo uma cópia do

estatuto, com sede à rua Paracatu, no 98, nesta capital, sendo o solicitante o presidente

da referida instituição, constituída pelos seguintes membros da diretoria.

São Paulo, 6 de janeiro de 1946

Junji Kikawa

 

O coronel e os demais diretores, que assinaram o documento com ele, não exigiam que lhes

dessem algum recibo, protocolo, nada. Bastava receber o documento. Claro, aquele e mais as

caixas que tinham sido deixadas nos corredores do dops, contendo milhares de folhas de papel

almaço assinadas, segundo Kikawa, por todos os 120 mil membros da Shindo Renmei. Mesmo

depois de aliviado da carga que trouxera, o coronel ainda resmungava sua megalomania pelos

corredores. “Se não recebessem aqui, íamos entregar o memorial à autoridade suprema”,

esbravejava. “Ao presidente da República, o general Dutra.”

A versão da reunião que Kikawa mandou passar para os sócios era mais uma peça de

propaganda — mentirosa — do que um relatório. O boletim diário da Shindo do dia 7 de

janeiro abria falando do assunto:

 

[...] No dia 6, Massao Sato, Kanji Waki, Muneo Takabatake e Toshio Mori apresentaram-

se à polícia para entregar um requerimento e proclamação da Shindo Renmei. Insistiram

durante sete horas, mostrando um espírito tokkotai, de unidade especial de ataque.

Foram postos para fora e voltaram várias vezes, mas finalmente conseguiram as

seguintes reivindicações:

— a polícia autorizará o registro da Shindo Renmei, se for especialmente requerido;

— agora, terminada a guerra, a polícia tratará os japoneses da mesma maneira que os

ingleses, norte-americanos etc. Será preciso, porém, obedecer às leis nacionais. [...]

— foi a falta de registro que causou a suspeita de que a Shindo é uma sociedade

secreta. Aqueles representantes voltaram hoje à polícia e apresentaram um requerimento

oficial, assinado pelo presidente e demais diretores, mas a polícia disse que o assunto

estava fora de sua alçada e aconselhou apresentarmos tal requerimento ao ministro da

Justiça, dando-nos instruções a respeito. [...]

— em virtude dessa nossa atuação, a polícia reconheceu o objetivo real da Shindo

Renmei. Mesmo antes de ser dada a autorização por parte do ministro da Justiça, a

polícia não intervirá na Shindo Renmei.

Até hoje, dia 7, às dezoito horas, a situação era essa. A sede central resolveu

apresentar o requerimento ao ministro da Justiça, de acordo com as instruções da

polícia. Será necessário certo tempo até ser conseguida essa autorização; mas há grande

possibilidade de obtê-la. Conforme se vê, os desejos da Shindo Renmei estão sendo

conseguidos aos poucos, o que se deve à grande decisão dos membros da sede central,

dos representantes das sucursais do interior e de todos os membros. O louro da vitória

brilhará, dentro em breve, sobre vossas cabeças!

 

Ao contrário de justificar o entusiasmo dos japoneses, a polícia ficara com a pulga atrás da

orelha com a ousadia de Kikawa e seus amigos. Encarregado pelos delegados de resumir o

encontro com o grupo, Miranda resolveu passar os olhos no documento deixado por eles. Até

alguém fluente em japonês, como o tradutor, teria dificuldade para entender o que estava dito

no meio do confuso cipoal que o coronel chamava de “estatutos”. A papelada dizia que a

Shindo nascera para “repelir e corrigir os japoneses derrotistas que espalham falsas notícias

de rendição incondicional do Japão, fazem atos desumanos e usam palavras vergonhosas”.

Para evitar problemas com a polícia, porém, deixava claro que “nossa Shindo Renmei não é

uma sociedade política nem uma sociedade secreta de selvagismo como propalam boatos dos

derrotistas”. O capítulo que tratava da questão do repatriamento parecia mais um trecho de

uma carta entre amigos do que o estatuto de uma organização política — mas deixava entrever

a mágoa dos imigrantes com os brasileiros:

 

É natural que dá vontade de ir ao país natal para ver parentes. É assim com todas as

raças. Mas [...] parece-nos que os brasileiros é que não gostam dos japoneses. Durante a

Guerra Mundial muitos de nossos patrícios foram maltratados e insultados. Chamavam-

nos de “Japão”, “estrangeiro”, “quinta-coluna”. Japonês foi tratado mal

espiritualmente e materialmente. Parece que quem deseja o retorno dos japoneses para o

país de origem são mesmo os brasileiros. Contudo, quando chegarem os representantes

do governo nipônico, notificaremos diretamente a eles.

 

O documento terminava pedindo o registro da sociedade, solicitação subscrita “pelas

assinaturas anexas de representantes de 120 mil membros de Shindo Renmei espalhados em

todos os cantos do Brasil”.

Cismado, o policial-tradutor leu e releu várias vezes o manifesto assinado por Kikawa,

Negoro e mais cinco outros imigrantes. Remexeu nas caixas com as assinaturas trazidas pelos

japoneses (que não eram 120 mil, como eles disseram, mas cerca de 40 mil, segundo seus

cálculos). Pegou alguns maços de papel, aleatoriamente, e checou: todos eles, além da

assinatura, traziam o nome por extenso e o número da respectiva cre, como era chamada a

Carteira de Registro de Estrangeiro. Não era balela, a “japonesada”, diria Miranda, estava dando uma demonstração de força para a polícia.

Nas semanas seguintes a temperatura parecia ter subido ainda mais na colônia. As ameaças

se multiplicavam. Em Santópolis, então bairro da cidade de Coroados, um agricultor pediu

autorização ao delegado para andar armado depois que sua casa amanheceu pichada com

inscrições em japonês: “Shiragura traidor! Chefe da filial de propaganda judaica de

Santópolis! Vem aí o castigo divino! Deixe o pescoço lavado!”. As margens das estradas nas

regiões de grande concentração de imigrantes amanheciam com inscrições nacionalistas em

japonês, como “Viva a elevação do espírito nipônico!”, “Viva o Japão!”, “Grande vitória

militar!”. Além das ameaças, a polícia andava intrigada com uma inesperada derrama de ienes

em São Paulo — algo insólito para uma moeda cujo valor tinha sido reduzido a pó depois do

fim da guerra. E os problemas causados pelos fanáticos não paravam de surgir. Chamado ao

gabinete do interventor Macedo Soares, o chefe do Serviço Secreto do dops foi informado de

que a produção agrícola na “zona japonesa” tinha caído à metade.

Pressionado por seus superiores, Cardoso de Mello reiniciou as prisões dos suspeitos de

liderar a agitação entre os nacionalistas japoneses. Um dos primeiros apanhados pela polícia

foi Isamu Matsumoto — o mais velho dos sete do “caso da bandeira”, ocorrido em Tupã —,

que acabou confessando ser o chefe da Shindo em sua cidade. Logo seriam presos Negoro e

Tomari, mas, sem saber que tinha nas mãos o lugar-tenente de Kikawa e o ideólogo da Shindo

Renmei, a polícia acabou colocando-os em liberdade poucos dias depois. Quando a ii Região

Militar consegue que a Justiça decrete a prisão preventiva do cabeça da organização, em

fevereiro, o prudente coronel Kikawa já tinha sumido de casa e tomado rumo desconhecido.

Como já desconfiasse que alguma coisa estava para explodir na colônia, foi sem surpresa

que o delegado Geraldo Cardoso de Mello foi acordado em casa por dois subordinados seus,

nas primeiras horas da manhã de 2 de abril de 1946, para interrogar dois japoneses que foram

presos de madrugada, instantes após a tentativa frustrada de matar o ex-diplomata Shigetsuna

Furuya, idealizador e signatário do documento “derrotista” divulgado no final de 1945. No

caminho para o dops, o delegado soube que com os dois presos havia mais três japoneses que

tinham conseguido escapar. Ao chegar à sua sala, Cardoso de Mello deu com dois jovens

japoneses algemados, vestidos com capas amarelas de brim emborrachado, iguais às que eram

usadas por feirantes. Eram Tatsuo Watanabe, 27 anos, e Mitsuro Ikeda, de 29. Enrolada no

corpo, sob a capa, cada um deles trazia uma bandeira do Japão militarista. O interrogatório

ainda nem havia começado quando um investigador entrou esbaforido na sala com a novidade:

“Dr. Geraldo, um outro grupo de cinco japoneses acabou de matar o empresário Chuzaburo

Nomura, o tal ‘Rei do Rami’. Mataram o sujeito em casa, na frente da família, e fugiram.”

O diretor do Serviço Secreto do dops vestiu de novo o paletó que acabara de pendurar na

cadeira. Antes de sair, deu ordens para um auxiliar:

“Identifica esses vagabundos e depois leva os dois pro xadrez. O interrogatório deles fica

para depois. Vou para a casa do Nomura e depois vou ao palácio falar com o interventor.

Convoca todos os policiais da Captura, porque estou desconfiado de que a matança começou.

”