Corações Sujos

Fernando Morais · Capítulo 2 de 12

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Corações Sujos

2 - Súdito do eixo não pode ter rádio, carro, dinheiro. não pode nem falar.

2

SÚDITO DO EIXO

NÃO PODE TER RÁDIO,

CARRO, DINHEIRO.

NÃO PODE NEM FALAR.

O rompimento de relações entre o Brasil e o Japão transformou a vida da colônia em um inferno. Duas velhas leis que nunca tinham sido aplicadas foram desenterradas e colocadas em prática. A primeira delas, de 1933, fora aprovada no auge da xenofobia dos “eugenistas” e proibia o ensino da língua japonesa a qualquer criança menor de dez anos, não importando sua nacionalidade. A outra medida, mais recente, fora baixada em 1938, a pretexto de controlar as “ideologias estranhas”, e que também nunca entrara efetivamente em vigor, agora passava a

valer com força redobrada. Esta estabelecia que a língua portuguesa deveria ser obrigatória

para o ensino de qualquer matéria; que as escolas rurais — onde se concentrava a maioria dos

japoneses — teriam de ser regidas por brasileiros natos; que o limite de idade para que uma

criança pudesse aprender línguas estrangeiras subia de dez para catorze anos; e, finalmente,

que todos os livros destinados ao ensino primário teriam de ser escritos em língua portuguesa.

Responsáveis pela aplicação das restrições baixadas pelo governo federal, as autoridades

paulistas decidiram endurecê-las ainda mais. No dia 29 de janeiro, a Superintendência de

Segurança Política e Social de São Paulo publicou a portaria que iria “regulamentar a

atividade dos estrangeiros naturais dos países do Eixo”:

 

Em face da ruptura das relações diplomáticas do Brasil com a Alemanha, Itália e Japão,

faço público que ficam os súditos destes últimos países, residentes neste estado,

proibidos:

— Da disseminação de quaisquer escritos nos idiomas de suas respectivas nações;

— De cantarem ou tocarem hinos das potências referidas;

— Das saudações peculiares a essas potências;

— Do uso do idioma das mesmas potências, em concentrações, em lugares públicos

(cafés etc.);

— De exibir em lugar acessível, ou exposto ao público, retrato de membros do governo

daquelas potências;

— De viajarem de uma para outra localidade sem salvo-conduto fornecido por esta

Superintendência;

— De se reunirem, ainda que em casas particulares, a título de comemoração de

caráter privado;

— De discutirem ou trocarem idéias, em lugar público, sobre a situação internacional;

— De usarem armas, mesmo que hajam anteriormente obtido o alvará competente, bem

como negociarem com armas, munições ou materiais explosivos ou que possam ser

utilizados na fabricação de explosivos;

— De mudarem de residência sem comunicação prévia a esta Superintendência;

— De se utilizarem de aviões que lhes pertençam;

— De viajarem por via área sem licença especial concedida por esta

Superintendência.

Os salvo-condutos serão fornecidos todos os dias úteis, das 9 às 11 horas — das 14 às

18 horas e das 21 às 23 horas. Aos domingos das 14 às 17 horas.

Olinto de França Almeida e Sá, major do Exército,

superintendente da Segurança Política e Social

 

Um feirante que bateu na porta do distrito policial de Penápolis para saber os limites da

nova proibição recebeu do delegado uma resposta desconcertante:

“Japonês continua podendo fazer tudo: pode trabalhar, pescar, jogar futebol. Só não pode

falar japonês. E quem não souber português não pode falar nada.”

E era nada mesmo. Dias depois um sacerdote budista seria preso em Valparaíso quando

celebrava uma cerimônia na única língua que sabia falar, o japonês. No decorrer do mês de

fevereiro de 1942, diariamente chegavam aos distritos policiais circulares de São Paulo

reiterando as proibições ou anunciando novas. Para exercer controle mais rigoroso sobre as

atividades dos imigrantes, uma portaria da Secretaria de Segurança Pública obrigou os

duzentos e tantos mil japoneses residentes no estado de São Paulo a comparecerem à polícia

para renovar seus registros. O pesadelo parecia interminável: no dia 13 de setembro os

japoneses foram obrigados a entregar à polícia todos os aparelhos de rádio existentes em suas

casas ou locais de trabalho. Uma semana depois, foram informados de que não poderiam mais

utilizar seus automóveis, caminhões, motocicletas e embarcações, que passariam a ficar sob

guarda policial.

No começo do ano os alemães afundaram mais dois navios brasileiros, o Arabutan e o

Cairu, ambos torpedeados na costa dos Estados Unidos. Getúlio responde, no plano externo,

com uma medida de impacto, autorizando Roosevelt a iniciar a construção de bases no

Nordeste. E, no interno, aperta ainda mais o garrote nos “súditos do Eixo”: em 11 de março de

1942 o Diário Oficial publica um decreto que seria o responsável pela asfixia quase total das

atividades dos imigrantes alemães, italianos e japoneses. Vargas decide que os prejuízos

decorrentes de agressões praticadas por países do Eixo contra bens do Estado brasileiro

seriam cobertos pelos depósitos bancários dos imigrantes residentes no Brasil, “pessoas

físicas ou jurídicas”.

Para assegurar o pagamento das indenizações, o governo decretava o confisco de dez a

trinta por cento de todos os depósitos bancários superiores a dois contos de réis de que

fossem titulares súditos alemães, japoneses e italianos. Dois contos de réis, na época, era o

preço de dez vacas boas, ou dois alqueires de terra. O arresto seria realizado na seguinte

proporção: o imigrante com depósitos e obrigações até vinte mil-réis teria dez por cento de

suas economias transferidas para o Banco do Brasil; até cem mil-réis, confisco de vinte por cento; acima de cem mil-réis, trinta por cento. O apetite do governo parecia insaciável: o

decreto determinava ainda que toda pessoa física ou jurídica brasileira ou estrangeira que

fizesse pagamentos superiores a dois contos de réis a alemães, japoneses ou italianos teria que

exigir do “súdito” a comprovação do cumprimento das exigências oficiais. A única maneira

de escapar da lei era esconder o dinheiro em caixas, latas e garrafas e enterrá-lo em buracos

cavados na terra. Esconder ou “entesourar”, como diria o ministro da Fazenda Artur de Souza

Costa, ao exibir aos jornalistas uma apodrecida nota de um mil-réis apreendida pela polícia

no fundo de um poço em Getulina.

Poucos dias depois da medida, seriam baixadas restrições comerciais ainda mais

draconianas: qualquer transação financeira com empresas dirigidas por japoneses, italianos e

alemães teria de ser previamente autorizada pelo Banco do Brasil. Para evitar encrencas com

o governo, as pessoas preferiam não fazer nenhum tipo de negócio com os estrangeiros que

eram objeto do decreto. O fecho do cordão sanitário em torno dos japoneses aconteceria

semanas depois, quando o governo decidiu intervir em todas as empresas controladas por

“súditos do Eixo”, demitindo os diretores e nomeando para seus lugares dirigentes brasileiros.

Não era de surpreender, assim, que o retorno à terra natal fosse o sonho de 85 por cento dos

japoneses residentes em São Paulo no começo da guerra, segundo pesquisa feita pelo governo.

Mas eles sabiam que, enquanto a guerra durasse, a volta ao Japão seria apenas isto, um sonho.

O confisco das economias, a proibição de se reunir em grupos de mais de três pessoas, o

fechamento dos jornais japoneses, a proibição de viajar, de andar armado e até de falar, tudo

isso parecia ser o “insuportável” que o imperador havia pedido a seus súditos que

suportassem. À noite, antes de dormir, as famílias oravam silenciosamente pedindo bênçãos a

Fudo, o deus budista encarregado de combater os demônios, e a Kannon, a deusa da

misericórdia.

Nenhuma dessas medidas, contudo, doeria tanto na alma japonesa quanto a ordem de

fechamento das escolas de seus filhos. Nem tanto pela alfabetização, que até poderia ser

realizada em outra língua. O problema é que, sem a escolinha japonesa, as crianças estariam

privadas do aprendizado do Yamatodamashii — a doutrina do “espírito nipônico” e do “modo

de vida japonês”. Era na escola que meninos e meninas aprendiam o padrão de

comportamento japonês — aprendiam a ser bons e leais súditos do imperador Hiroíto. E isso,

os pais sabiam, nenhuma escola brasileira e nenhum professor gaijin saberia ensinar. De todo

o rosário de proibições impostas aos disciplinados japoneses residentes no Brasil, esta foi a

única que eles resolveram burlar. Se não podiam educar seus filhos às claras, iriam fazê-lo

clandestinamente.

Começava então um verdadeiro jogo de gato e rato entre os japoneses, a polícia e a horda

de dedos-duros — brasileiros, quase sempre. Embora os “inspetores de quarteirão” fossem a

autoridade mais próxima dos japoneses, e portanto a mais temida, os imigrantes sabiam que

não podiam confiar em ninguém. Decididos a não entregar os pontos, a cada escola que era

fechada os japoneses abriam outra, clandestina. As aulas eram dadas à noite, nos fundos das casas, com livros e cadernos que no final eram escondidos pelo professor. Crianças de até

sete anos de idade eram obrigadas a assistir aulas tarde da noite, quando todos já estavam

dormindo e os riscos de ser descobertos eram menores. Se alguém desconfiava que no bairro

tinha sido instalada uma escola clandestina, a polícia era a primeira a saber. Desavenças de

vizinhos, dívidas não pagas e até brigas de crianças eram motivos para que os japoneses

fossem delatados anonimamente às autoridades. Na maioria das vezes, porém, os brasileiros

praticavam a delação abertamente, certos de que estavam prestando um serviço à pátria.

Odilon Martins Cruz, um professor da rede pública de ensino de 33 anos, orgulhava-se de ter

chefiado pessoalmente o fechamento de mais de cem escolas na região da Alta Paulista.

Embora residente em Pompéia, Cruz viu sua fama de “fechador de escolas japonesas” correr a

região, fazendo com que recebesse denúncias vindas de vários municípios.

As batidas policiais para o fechamento das escolas eram sempre ruidosas e invariavelmente

dramáticas. Em uma dessas ocasiões, o professor Cruz soube de uma escola que funcionava

clandestinamente em um sítio da Fazenda Jacutinga, na sua própria cidade. Já era noite

fechada, mas mesmo assim ele tirou de casa o delegado Antônio Dourado e mais quatro

soldados armados e partiu com eles para o local do crime. Às dez da noite a cena se repetiu:

Cruz bateu na porta da frente da casa suspeita, enquanto o delegado e os soldados, de armas

embaladas, arrombavam a entrada dos fundos. O silêncio no interior da casa fez o professor

supor que se tratasse de uma denúncia falsa: ninguém conseguiria manter crianças em silêncio

numa sala de aula por tanto tempo. Quando os soldados invadiram um galpão no fundo da

casa, de fuzis engatilhados, deram com os criminosos em plena atividade: 56 crianças e

adolescentes se espremiam em mesinhas, cadeiras, sobre tatames, sentadas no chão. Apesar do

choro e dos protestos dos alunos, os três professores improvisados foram presos em flagrante.

Junto com eles foi levado um menor de idade, o garoto Antônio Kukoki, de quinze anos. Seu

depoimento deixou excitados os policiais, que o ouviram confessar que o professor ensinava

que, “apesar de terem nascido no Brasil, eles continuavam sendo japoneses”. Apreendido, o

“móvel do crime” encheu o porta-malas de dois táxis “pé-de-bode”, como eram chamados na

região os veículos Ford dos anos 30. Era impossível enxergar riscos para a segurança

nacional naquele “material subversivo” arrolado horas depois por um escrivão da polícia: um

quadro-negro; quinze revistas infantis em tamanho diverso, impressas em japonês; sete

cadernos de apontamentos já usados; dez cadernos de caligrafia da língua japonesa; catorze

livros de idioma japonês; quatro lenços de pano destinados a embrulhar livros; dezoito livros

didáticos impressos em português; vários estojos infantis de madeira, de lata e de galalite,

uma espécie de plástico; um apagador de quadro-negro; uma caixa de giz. Ausente na hora da

invasão, o dono do sítio, Matsushiro Kunii, só seria preso de madrugada, escondido na casa

de parentes. A noite terminava, segundo o delegado, “com o sossego e a confiança

restabelecidos no seio da família pompeiana”.

Episódios idênticos ao de Pompéia aconteciam todos os dias na região. Alceu Guerner

Gonzalez, um professor da cidade de Bastos, procurou a polícia para contar que havia fechado sozinho uma escola na zona rural em cujo pátio, segundo ele, crianças japonesas eram

adestradas militarmente. Gonzalez contou à polícia que na casa onde funcionava a escola ele

vira duzentos meninos treinando com fuzis de madeira. Embora jamais se tenha localizado uma

só das tais “armas”, a história corria o interior como sendo verdadeira. Aos poucos a colônia

ia se convertendo em um velório. Proibidos de falar em público e de se reunir em grupos, os

japoneses, escaldados por episódios como o da “festa da bandeira” na casa de Koketsu,

tiveram que pôr fim até às atividades sociais e esportivas que antes juntavam as famílias nos

fins de semana. Não se podia mais realizar o undokai, a gincana oriental, nem disputar

partidas de kendô, a arte da esgrima japonesa. Restava apenas o hanafuda, popular jogo de

cartas para casais em que os parceiros devem jogar sem abrir a boca, silenciosamente.

As intermináveis provações que castigavam os japoneses do interior do estado não eram

menores na capital paulista. Lá viviam cerca de 20 mil imigrantes, cuja maioria se

concentrava no bairro central da Liberdade. O “bairro japonês” tinha como vizinho a Bela

Vista, ou “Bexiga”, onde moravam outros “súditos do Eixo”, os italianos. Os japoneses que

viviam na capital representavam cerca de dez por cento da colônia, e eram quase todos ex-

lavradores. Embora tivessem imigrado para trabalhar no campo, a vida inóspita da zona rural

acabou os empurrando para São Paulo, onde se dividiram basicamente em dois grupos. Muitos

preferiram continuar na agricultura e se espalharam pelas cidades em torno da capital, onde

começaram a semear o que seria chamado anos depois de “cinturão verde” — o gigantesco

anel de pequenas chácaras que produziriam as hortaliças, verduras e frutas consumidas pelos

paulistanos. Os demais viraram feirantes, tintureiros, fotógrafos e pequenos comerciantes.

Além de serem vítimas das mesmas restrições impostas a seus patrícios do interior, os

japoneses da capital que eram inquilinos de imóveis ainda tinham que suportar mais um

castigo: os despejos feitos pela polícia.

O primeiro deles aconteceu dias depois do rompimento de relações entre o Brasil e o

Japão. No meio da noite, os moradores das ruas dos Estudantes e Conde de Sarzedas foram

acordados pelo barulho dos caminhões da Força Pública, que chegavam juntamente com

carros do dops. Um delegado distribuiu aos soldados e investigadores cópias mimeografadas

da ordem que seria entregue aos moradores, àquela hora, de mão em mão: uma portaria do

dops determinando que, “por razões de segurança nacional”, todos os súditos do Eixo

residentes nas duas ruas deveriam “evacuar” os imóveis em doze horas. À pergunta que se

repetia em todas as portas — “Mas mudar para onde?” —, os policiais respondiam sempre da

mesma forma:

“Isso não é problema nosso.”

O máximo que a polícia se sentia obrigada a fazer era transportar as mobílias dos que se

mudariam para outros bairros da capital, em caminhões que já estavam estacionados nas ruas

da Liberdade. Quem fosse para o interior teria que pagar a mudança do próprio bolso.

Até o meio da tarde seguinte cerca de quatrocentas famílias tinham sido despejadas de suas

casas. Centenas de homens e mulheres, inclusive crianças e idosos, muitos deles empregados ou donos de pequenos negócios a poucos metros de suas casas, terminaram a noite acampados

em casas de amigos ou de parentes, ou hospedados em modestas pensões do próprio bairro

japonês. No correr do ano de 1942 as mudanças forçadas ainda se repetiriam mais três vezes.

Quando a “evacuação” não era na Conde de Sarzedas ou na rua dos Estudantes, a escolhida

podia ser a rua do Carmo ou a Conde do Pinhal. Aos jornalistas que se interessavam pela

sorte dos japoneses, os policiais respondiam sempre que haviam recebido denúncias de que

alguma sabotagem estaria sendo tramada no lugar visado — e que o despejo temporário era a

única solução. A presença de tropas armadas passou a fazer parte da paisagem do bairro

japonês. Pelo menos uma vez por semana caminhões da Força Pública estacionavam na porta

de uma das livrarias do bairro. Os soldados desciam, enchiam caixas com livros e revistas

impressos em japonês — não importava o conteúdo, nem os policiais conseguiam ler o que

estava escrito neles —, jogavam o “material subversivo” na carroceria do veículo e sumiam.

Um dia a vítima do confisco era a Livraria Endo, na rua Conde de Sarzedas. Dias depois,

novas blitze policiais repetiriam o rapa na Livraria Oriente, na Toyoyoshi ou na Nambei: os

japoneses pareciam decididos a não respeitar a lei que proibia a circulação de publicações

estrangeiras. O Hotel Cristal, cujo bar fora o ponto de encontro dos imigrantes japoneses para

um trago de saquê no fim do dia, estava entregue às moscas. Convencidos de que as leis e

restrições impostas aos “súditos do Eixo” acabavam se voltando exclusivamente contra eles,

os japoneses viam o preconceito dos brasileiros em todos os cantos. Quando o Brasil cortou

relações com os três países do Eixo, por exemplo, eles estranharam que o Diário da Noite e a

Agência de Notícias Meridional tivessem promovido a troca regular de correspondência entre

os imigrantes italianos e suas famílias na Europa, e que nem houvesse passado pela cabeça

dos jornalistas fazer o mesmo com as famílias japonesas.

A atmosfera de angústia em que estava mergulhada a colônia pode ser medida pela

correspondência enviada na época pela Cooperativa Agrícola de Bastos à Bratac, em São

Paulo:

 

Tendo consciência de viver no país inimigo, mas acreditando na vitória final, todos os

colonizadores, que são pacientes e prudentes, estão obedecendo à lei brasileira. Eles

estão mantendo atitude pacífica, tentando somente o aumento da produção, [...]. Porém,

por serem japoneses, eles não podem mais viajar à vontade, nem escrever cartas em

japonês, nem se reunir livremente ou escutar rádio. Além disso, os brasileiros mal-

educados estão destratando os colonizadores por serem japoneses e eles precisam estar

de sobreaviso mesmo para ler algum livro em japonês. Assim, a situação geral da colônia

realmente está lamentável. [...] É natural que oitenta por cento de todos os que estão

nestas condições lamentáveis desejem viver sob a Hinomaru [bandeira japonesa] e

observamos que a maioria deles pretende reemigrar para as ilhas dos Mares do Sul,

onde o governo japonês deverá ter poder depois da Guerra.

A aflição se justificava. Por razões que os imigrantes japoneses não conseguiam entender,

tinha virado mania em São Paulo atribuir a eles a culpa por todas as privações que a guerra

estava impondo aos brasileiros. Quando começou o racionamento de alimentos, por exemplo,

os jornais jogaram a culpa nos japoneses. “O colono japonês arrenda a terra, rouba toda a sua

fertilidade e a abandona, depois, por outra onde seja possível repetir a façanha”, perorava um

editorial do Diário da Noite. “Esses vampiros do solo são, em parte, os responsáveis pela

escassez de gêneros de primeira necessidade.” Só faltava eles serem responsabilizados pelo

torpedeamento dos navios brasileiros. Mas nem isso tardaria a acontecer.

Ao longo do ano de 1942 os submarinos alemães afundariam mais dezesseis navios

brasileiros, provocando a morte de dezenas de pessoas e causando enormes prejuízos

materiais à marinha mercante nacional. O sentimento antiestrangeiro aumentava na mesma

proporção entre os brasileiros, o que podia ser visto até nas pequenas notas perdidas nas

páginas policiais dos jornais. “Deu ao filho o nome Rommel. Foi preso e vai ser processado”,

anunciava um deles, referindo-se a um germanófilo que homenageara o marechal Erwin von

Rommel, um dos mais destacados comandantes do Exército alemão. A purga não pouparia nem

mesmo o inocente Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, que a polícia garantia ter

sido transformado em uma “sucursal do fascio de Mussolini”. Segundo os jornais, a devassa

policial no conservatório descobrira que o lugar tinha virado um “verdadeiro reduto da

quinta-coluna”. No inquérito montado pelo dops, o maestro Francesco Casabona, imigrante

italiano, era acusado de “desrespeitar as leis nacionais, malbaratar o dinheiro público e

perseguir os alunos e professores brasileiros, para endeusar os italianos e filhos de itálicos”.

Em três dias sucessivos do mês agosto, mais seis navios brasileiros são postos a pique por

submarinos alemães. Os estudantes de direito do largo São Francisco, em São Paulo,

organizam uma manifestação convocada como “demonstração de força para a quinta-coluna”.

Mais de 200 mil pessoas (quinze por cento da população da capital paulista) lotaram a praça

da Sé — situada no coração do bairro japonês. A massa assustou os moradores do lugar,

como se lembraria em suas memórias, muitos anos depois, o imigrante Tomoo Handa:

 

Os bondes retornavam a partir da praça João Mendes. À tardinha, já se ouviam as

músicas da banda vinda da praça da Sé, e a multidão se mexia. Eu, que era de um país do

Eixo, retornei para casa e limitei-me a imaginar o calor da manifestação através do

rádio de meu vizinho brasileiro. Parece que a manifestação teve andamento com

discursos exaltados e eloqüentes, seguidos de muitos aplausos, encerrando-se com o

Hino Nacional.

 

Embora convidado, Getúlio preferiu enviar uma mensagem pessoal para ser lida no ato. As

feridas abertas pela Revolução de 1932, quando os paulistas se levantaram em armas contra o

governo federal, exigindo eleições, ainda não haviam cicatrizado o suficiente para ele

enfrentar uma massa daquelas em São Paulo. No bilhete dirigido aos estudantes, o presidente se comprometia, caso prosseguissem os ataques a navios brasileiros, a “internar” — ou seja,

transferir compulsoriamente para o interior do país — toda a quinta-coluna residente na orla

marítima. O discurso foi ouvido com apreensão pelos imigrantes, que entenderam claramente

o recado de Vargas: a quinta-coluna eram eles.

Como a história se encarregaria de confirmar, no entanto, a única colônia de “súditos do

Eixo” que de fato justificava vigilância rigorosa da polícia era a alemã. Ao contrário do que

desconfiavam as autoridades paulistas, as informações sobre posições de navios brasileiros

não eram transmitidas aos submarinos alemães pelos imigrantes japoneses, mas por uma

monumental rede de espionagem montada pelo Reich alemão no Brasil. Apesar da má vontade

de Filinto Müller com as investigações, um delegado do dops paulista, Elpídio Reali,

acabaria contando com o apoio de Osvaldo Aranha para desbaratar o maior complexo de

espionagem nazista no hemisfério sul. Poderosas estações de rádio instaladas pela Alemanha

no Rio e em São Paulo, com o decidido apoio de empresários alemães residentes no Brasil,

eram as responsáveis pelas mensagens enviadas aos submarinos alemães. Temerosos de

represálias, imigrantes alemães que haviam fundado no fim do século xix um elegante clube

recreativo para a colônia, o Germânia, decidiram apressadamente rebatizá-lo com o nome de

Esporte Clube Pinheiros, em homenagem ao bairro paulistano em que sua sede tinha sido

construída.

Em agosto Getúlio declara guerra ao Eixo, decisão acompanhada de mais medidas

restritivas aos imigrantes dos três países. A primeira delas autorizava os empregadores a

rescindir, sem o pagamento de nenhum direito, os contratos de trabalho com “súditos das

nações com as quais o Brasil rompeu relações diplomáticas ou se encontra em estado de

beligerância”. A segunda, uma portaria do ministro da Justiça, proibia a venda de aparelhos

de rádio sem licença da polícia. O golpe de misericórdia viria com a decisão do presidente de

decretar a liquidação extrajudicial de todas as empresas, indústrias e bancos controlados por

“súditos do Eixo”. Dessa medida só escapariam os pequenos negócios. Grandes corporações

japonesas, como a Bratac, a Tozan e o Banco América do Sul, ou alemãs, como o laboratório

Schering e o Banco Alemão Transatlântico, seriam executadas em poucos dias. No final de

1942 Getúlio Vargas surpreenderia até os próprios auxiliares ao anunciar que autorizara a

formação de uma força expedicionária composta de soldados brasileiros para lutar contra o

Eixo na Europa. O projeto do presidente previa o envio de três divisões, totalizando 100 mil

homens.

No começo de 1943, Vargas deu uma demonstração pública da consolidação das boas

relações com os Estados Unidos, reunindo-se com o presidente Roosevelt em Natal, onde

inspecionaram as bases americanas ali instaladas. A resposta do inimigo não tardaria, e o

revide, mais uma vez, seria aplicado na frota mercante brasileira. Nos primeiros meses do

ano, mais seis navios foram afundados por submarinos alemães em águas brasileiras, tirando a

vida de mais 147 pessoas. Como os transmissores alemães já tinham sido silenciados pela

polícia, as suspeitas das autoridades recaíram sobre os japoneses que viviam no litoral. No começo de julho, o Pelotas Lóide, que fora alugado ao governo americano, fazia o trajeto

entre Port of Spain, em Trinidad, no Caribe, e Recife. Quando se aproximava da costa

brasileira, ao norte de Belém do Pará, foi afundado por um submarino alemão, em ataque que

deixou cinco tripulantes brasileiros mortos. Em resposta à agressão, no dia 9 de julho Getúlio

anunciou que decidira cumprir a promessa feita um ano antes aos estudantes de direito: tinha

dado ordens ao então interventor federal em São Paulo, Fernando Costa, para “internar”, a

pelo menos cem quilômetros da costa, os “súditos do Eixo” que vivessem no litoral paulista.

Na manhã seguinte a cidade de Santos amanheceu sitiada por tropas do Exército e da Força

Pública, encarregadas de “evacuar” para o interior do estado os cerca de 10 mil imigrantes

residentes na Baixada Santista, dos quais quase 9 mil eram japoneses e os demais, alemães e

italianos. Na estação ferroviária da cidade, filas intermináveis de vagões de trens,

requisitados pelo Exército, aguardavam a hora de subir a serra do Mar em direção a São

Paulo. Ninguém teve tempo nem sequer para pagar contas, desfazer-se dos bens, despedir-se

de amigos. Lavradores que chegavam das chácaras nas imediações de Santos viam, desolados,

a família e todos seus bens na carroceria de um caminhão. Doentes eram transportados em

macas improvisadas e deitados no chão dos vagões. Temendo que alguém pudesse escapar da

razia, um dos oficiais encarregados da operação mandou notificar todos os hoteleiros, donos

de pensões e casas de cômodos do litoral de que estava “expressamente proibido dar

hospedagem a qualquer cidadão de nacionalidade alemã ou japonesa” (os italianos tinham

sido inexplicavelmente excluídos da proibição). Em vários pontos da cidade, segundo o jornal

A Tribuna, formaram-se feiras livres improvisadas, no meio da rua, nas quais os japoneses

tentavam remediar a situação vendendo o que podiam:

 

Colhidos de surpresa pela medida da Ordem Política e Social, numerosos japoneses

trataram de se desfazer de seus bens. No Marapé, na Ponta da Praia e em Santa Maria,

houve verdadeira corrida para a venda de suínos, galináceos, muares etc. Os japoneses

— quase todos proprietários de chácaras — expuseram à venda quase tudo quanto

possuíam. Vendiam a qualquer preço, pois não havia tempo para regateamento. Sabe-se

de um deles que, para se desfazer de sua chácara em Santa Maria, vendeu três porcos,

uma carroça e um muar pela quantia de mil cruzeiros. E galinhas? Essas foram vendidas

a três e dois cruzeiros a cabeça.

 

Diante do desespero de milhares de pessoas, que viam o produto de uma vida de trabalho

evaporar diante de seus olhos, o delegado de polícia da cidade distribuiu uma curiosa nota.

Nela, o policial pedia à população de Santos que tomasse a si “a vigilância e a guarda das

propriedades, bens, semoventes e plantações deixadas pelos seus proprietários, sem uma

pessoa encarregada de zelar pelos mesmos”. Desconfiado, porém, de que alguém pudesse se

aproveitar da desgraça dos japoneses, ele pedia que fosse comunicado à polícia “qualquer

fato que possa desmentir a nobreza e a civilização que sempre foram o apanágio desta terra de Santos”. Menos de 48 horas depois do anúncio feito por Getúlio, a imprensa santista festejava

a rapidez com que o litoral tinha sido “varrido de todos os elementos nocivos ao Brasil”,

tranqüilizando seus leitores quanto ao fato de que já não havia mais “um só súdito do Japão e

da Alemanha em nossa cidade”.

Ao descerem na estação do Brás, em São Paulo, os passageiros foram colocados em

caminhões e despejados na Hospedaria dos Imigrantes, provisoriamente transformada em

prisão e centro de triagem de “evacuados”. Japoneses que anos antes haviam cruzado as

portas do velho prédio da rua Visconde de Parnaíba com os olhos brilhando de esperanças

agora retornavam a ele humilhados, tratados como coisas ou bichos, tangidos de um canto para

outro.

Os “internamentos” e “evacuações” de súditos do Eixo não ocorriam apenas no litoral

paulista. Em Santa Catarina, o Exército já tinha removido dezenas de “quistos” alemães da

costa para as montanhas. No Norte e no Nordeste os interventores repetiam, em escala menor,

a operação efetuada em Santos. Na Bahia, o general Pinto Aleixo mandou transferir cerca de

trezentos “eixistas” do litoral para as cidades de Andaraí, Lençóis, Mocupé e Seabra, no

interior do estado. Entre os “internados” estavam os frades alemães do Convento de Cajuru,

suspeitos de espionagem. No estado do Pará, em cujas águas vários navios brasileiros haviam

sido postos a pique por submarinos alemães, o temido coronel Magalhães Barata isolou em

Acará, no meio da selva, todos os japoneses, italianos e alemães encontrados na região Norte.

Em 1929, 43 famílias de imigrantes japoneses haviam se instalado nessa cidade, dedicando-se

ao cultivo de pimenta-do-reino. Meio século depois, já com o nome de Tomé-Açu, Acará se

transformaria num modelo mundial de produtividade agrícola, graças à colônia japonesa que

se formou no local a partir da mudança forçada.

O tempo se encarregaria de comprovar que os sacrifícios impostos aos imigrantes tinham

sido em vão. Os internamentos não diminuíram em nada a agressividade dos submarinos

alemães. Três semanas depois de encerradas as operações, chegou a notícia de que o navio

Bagé fora torpedeado e afundado no litoral de Sergipe, provocando a morte do comandante,

de dezenove tripulantes e oito passageiros. Embora já tivessem feito centenas de mortos, os

alemães ainda iriam ensangüentar a costa brasileira por muito tempo. Ao todo, entre novembro

de 1939 e julho de 1945, eles afundariam 32 navios mercantes e três vasos de guerra

brasileiros, sacrificando um total de 1439 vidas, entre tripulantes, passageiros e militares —

três vezes mais baixas que as sofridas pela Força Expedicionária Brasileira (feb) na Itália. A

ousadia dos ataques leva a Conferência de Ministros do Exterior das Américas, reunida em

maio de 1943 no Rio de Janeiro, a aprovar uma resolução que autoriza os países membros a

expulsar de seu território ou confinar em campos de concentração cidadãos do Eixo. A medida

é posta em prática imediatamente pelos governos de Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Costa

Rica e Panamá, que prendem e deportam para os Estados Unidos cerca de 1300 japoneses. A

prática já vinha sendo adotada nos Estados Unidos desde o ano anterior. Com a aprovação,

pelo Congresso americano, da polêmica ordem executiva no 9066, o governo cria na Costa Oeste do país as chamadas “zonas de evacuação”, como eram chamados os campos de

concentração distribuídos pelos estados da Califórnia, Idaho, Wyoming, Arizona, Colorado,

Oregon e Arkansas. Para internar quase 200 mil japoneses, vindos do Havaí, de vários

estados americanos e de países amigos, as “zonas de evacuação”, cuja área, somada, era

superior à do território japonês, chegaram a ocupar dois quintos do estado do Oregon, dois

terços do estado de Washington, parte do sul do Arizona e mais da metade da Califórnia.

Profundamente ligada a seu país de origem, ao qual pretendia retornar em breve, a colônia

japonesa no Brasil acompanhava apreensiva o desenrolar da guerra. Os imigrantes se

ressentiam do que era tido como falta de patriotismo dos diplomatas japoneses, que deixaram

o país imediatamente após o rompimento de relações com o Brasil, abandonando mais de 200

mil pessoas à própria sorte. Nos meses seguintes, as únicas fontes de informação da

comunidade sobre o andamento da guerra eram os raros patrícios que haviam decidido

enfrentar a proibição e mantinham em casa, escondidos, pequenos rádios de ondas curtas.

Através deles, sintonizando a Rádio Central Militar de Tóquio, podiam-se obter notícias da

guerra. Era assim que a colônia recebia, e festejava silenciosamente, informações como a de

que 120 pilotos kamikazes haviam atirado seus aviões contra objetivos aliados em ilhas do

arquipélago que cerca Porto Rico. Ou a de que Londres vinha sendo duramente castigada

pelos foguetes V2 alemães. Quem não tinha rádio reservava tratamento especial para os

mascates ou viajantes, que sempre apareciam com notícias frescas. Quando estas, porém,

falavam de vitórias aliadas, a reação dos japoneses era sempre a mesma: “Isso é propaganda

dos americanos”. Mas, se nos campos de batalha a propaganda era uma arma eficiente, no

interior de São Paulo os dois lados valiam-se até da crendice popular e de histórias

sobrenaturais para acuar o inimigo. Quando o Brasil anunciou o embarque do primeiro

escalão da feb para a luta na Europa, os supersticiosos japoneses comentavam entre si: “Vão

morrer todos, o bebê-monstro previu”. A história, inventada pela colônia, tinha vindo de

Marília, cidade onde teria nascido uma criança com cabeça humana e corpo de animal.

Minutos antes de morrer, o bebê fizera um vaticínio: “A guerra vai acabar este ano, e os

países do Eixo serão vitoriosos. Depois da guerra, uma epidemia tomará conta do Brasil”.

Para se contrapor ao bebê-profeta, um jornal noticiou que nos céus de Mato Grosso surgira um

cometa cuja cauda deixara no ar o “V” da vitória, “sinal indiscutível” de que os Aliados iriam

vencer a guerra.

No começo de 1944 o chefe do serviço secreto do dops, delegado Geraldo Cardoso de

Mello, soube que um delegado da região de Marília tinha prendido o agricultor Shobei

Yassuda, acusado de ameaçar de morte os japoneses que se dedicavam à plantação de hortelã

e ao cultivo de bicho-da-seda. Com sua enorme barba branca, que lhe dava a aparência de um

pacífico monge, Yassuda prometia matar quem produzisse a matéria-prima que, segundo ele,

“estava sendo utilizada pelos Aliados no esforço de guerra”. O bicho-da-seda criado no

Brasil, diziam, seria exportado para a fabricação dos pára-quedas dos soldados aliados. Para

dissuadir os plantadores de hortelã, circulava pela colônia um confuso folheto escrito em japonês, intitulado Hakka Kokuzokuron — ou “Teoria de traição à pátria pelo cultivo de

hortelã”, cuja autoria ora era atribuída a “um químico alemão”, ora a um certo “dr. Sentaro

Takaoka”. Uma das cópias caiu nas mãos da polícia e dizia o seguinte:

 

Uso do mentol em tempo de guerra

1. Para o aumento da explosão e propagação de combustão: a) Adicionado à

nitroglicerina, aumenta trezentas vezes o poder de sua explosão; b ) Adicionado ao

explosivo para canhão, aumenta em várias vezes sua propagação (ou seja, o poder de

radiação do fogo).

2. Adicionado a um gás venenoso (ou tóxico), aumenta sua penetração, tornando

inúteis as máscaras contra gás, utilizadas atualmente. Como o gás venenoso é mais

pesado do que o ar, se concentra em lugares mais baixos. Se não for utilizada a

ventilação, o gás não funciona satisfatoriamente, mas com a adição de mentol, ele

adquire maior poder de difusão.

3. O mentol é indispensável para refrigeração de motores de alta rotação.

 

Segundo a polícia, o folheto estava sendo distribuído em todo o estado por uma organização

clandestina chamada Sokoku Aikoku Sekiseidan, cujo objetivo era destruir a lavoura de

hortelã e a indústria de fios de seda na Alta Paulista e combater “com todas as armas” a

produção de artigos que facilitassem aos inimigos continuar sua guerra contra o Japão. Para

demonstrar que não estava brincando, o grupo já havia ateado fogo em plantações de hortelã e

criações de bicho-da-seda. Mas foi um outro manifesto que circulava na colônia, também

mimeografado em japonês, que deixou a polícia de sobreaviso. Nele o autor lamentava não

poder estar no campo de batalha ao lado de seus patrícios:

 

[...] O fato de nós, 300 mil compatriotas, não podermos tomar parte pessoalmente desta

provação divina — oportunidade raríssima — é para nós motivo de uma grande lástima,

que dói profundamente em nossas almas. E se um único indivíduo indigno se enquadrar

na descrição acima, como vamos nós, os japoneses radicados no Brasil, poder encarar de

frente a nossa pátria?

 

O panfleto terminava com uma ameaça: quem quer que fosse seu autor, ele prometia

“realizar uma completa operação de limpeza na colônia, varrendo todas as impurezas

advindas dos nossos compatriotas residentes no Brasil”. A polícia passou os meses seguintes

vasculhando cidades do interior em busca do cabeça daquele movimento. Nesse meio tempo

tomava vulto e aumentava em violência o cerco dos “nacionalistas” aos “traidores” que

insistiam em continuar produzindo hortelã, menta e seda. Lavouras inteiras eram destruídas

durante a noite. Galpões de cria de bicho-da-seda eram incendiados. Envoltos em um delicado

casulo natural de fios de seda, milhões e milhões de larvas e de ovos desapareciam em segundos sob as chamas. A desenvoltura com que os fanáticos agiam era tal que, em

Mirandópolis, um casal de japoneses provocou o descarrilamento de uma composição da

Estrada de Ferro Noroeste que transportava fardos de seda para São Paulo.

A Secretaria da Agricultura alertou o dops para um problema que seus técnicos começavam

a identificar: aquela escaramuça entre japoneses ameaçava se transformar em um problema

econômico. Com a guerra, a cotação do quilo do casulo no mercado internacional tinha dado

um salto espantoso, pulando de cinco para cinqüenta contos de réis em poucos anos. E, para

que a polícia tivesse uma idéia da quantidade de dinheiro que se perderia se o boicote desse

certo, o documento citava apenas o exemplo de Bastos — um dos principais centros de

criação de bicho-da-seda do estado. A cidade, que antes do início da guerra produzia cerca de

quarenta toneladas de casulos por ano, naquele ano deveria produzir mais de seiscentas

toneladas. Isso, claro, se a polícia conseguisse prender os malucos que prometiam fazer a tal

“operação limpeza” na colônia.

Mesmo à custa de dezenas de prisões — e de muita tortura —, só em setembro de 1944 é

que o dops conseguiria chegar à ponta do novelo. Durante as investigações para achar o autor

do panfleto, os policiais ouviram falar, em lugares diferentes, de alguém a quem os japoneses

se referiam como “o admirável coronel Kikawa”. O adjetivo podia mudar de cidade para

cidade. Ora era “o implacável”, ora “o justo”, “o sábio” ou, ainda, “o sincero coronel

Kikawa”. Precedido de tal fama, o homem que abriu a porta de sua casa, naquela noite de

quinta-feira, surpreendeu o delegado do dops Eduardo Saad, que fora prendê-lo. No lugar do

Gêngis Khan que imaginava ter que enfrentar, o policial deu com um sexagenário de 1 metro e

51 de altura e aparência frágil, alguém que nem de longe lembrava o “implacável coronel

Kikawa” de quem as pessoas falavam no interior, com os olhos faiscando.

Junji Kikawa nascera 67 anos antes na cidade de Niigata. Como a maioria dos filhos de

famílias pobres, buscou no Exército Imperial japonês uma saída para o brutal desemprego que

seu país enfrentava no começo do século xx. Cursou com brilho os treze anos da Academia

Militar, saindo de lá oficial da arma da cavalaria. Enérgico, metódico e seguidor das mais

rígidas tradições japonesas, Kikawa encontraria no Exército duas almas gêmeas: o coronel

Jinsaku Wakiyama e o capitão Kiyo Yamauchi, ex-combatente da guerra russo-japonesa do

começo do século, que passariam a ser seus melhores amigos. Quando tinha 45 anos, em

meados dos anos 20, Kikawa descobriu que se tornava vítima de uma forte miopia, que o

obrigaria a usar óculos. Defensor ardente da teoria de que um componente do Exército

Imperial não podia ter nenhuma deficiência física, decidiu passar para a reserva no posto de

tenente-coronel.

Pai de sete filhos e arrimo da mãe viúva, Junji Kikawa se desesperava com a crise

econômica vivida por seu país e, acima de tudo, com o que considerava sua mais grave

conseqüência: a impossibilidade de oferecer educação de qualidade aos filhos. Durante dez

anos fez de tudo para sustentar a família. Foi confeiteiro, professor de esgrima, tintureiro e

declamador profissional em peças teatrais e dramas nô, o secular teatro japonês cujos protagonistas são sempre homens, inclusive na representação de papéis femininos. Em 1933,

aos 55 anos e cansado de bater cabeça, resolveu seguir o exemplo de milhares de patrícios em

situação semelhante e decidiu imigrar para o Brasil. Junto com ele, naquele ano, mais 25 mil

japoneses tomariam o rumo do porto de Santos, formando o maior contingente de toda a

imigração japonesa para o Brasil, que na época já formava uma comunidade de 130 mil

pessoas. Kikawa traria consigo um verdadeiro estado-maior: além de convencer os amigos

Yamauchi, de 66 anos, e Wakiyama, de 62, a acompanhá-lo na aventura, ele ainda seduziria

para o sonho brasileiro os tenentes Seiichi Sato e Azuma Samejima, o sargento Nisuke

Shigueto e o soldado Takeichi Maeda, que havia servido em Fort Dulles, no Oregon, Estados

Unidos, e que depois retornara ao Japão. A liderança que o franzino Kikawa exercia sobre os

patrícios acabaria fazendo dele, durante a viagem, um dos três “chefes de grupo” nomeados

pelo comandante do navio.

Chegando ao Brasil o grupo se dispersou. O capitão Kiyo Yamauchi resolveu ficar na

capital de São Paulo. O coronel Wakiyama acabou escolhendo a cidade de Bastos para viver.

Kikawa arrastou mãe, mulher e sete filhos pelo sertão adentro e foi bater em Rancharia, a mais

de quinhentos quilômetros da capital, onde ele se estabeleceria como plantador de algodão em

terras de uma cooperativa. Apesar da distância, mantinha praticamente a mesma rotina diária

dos tempos do Japão: acordava cedo, vestia-se ritualmente, com coloridos quimonos de seda,

cobria a cabeça com um barrete e fazia uma demorada reverência em direção ao nascente: o

primeiro cumprimento do dia era reservado ao imperador. Depois se dirigia ao pequeno

oratório xintoísta da deusa Amaterasu Omikami, rezava por alguns minutos, de mãos postas, e

só então pronunciava as primeiras palavras do dia com a família. Apesar de ser um homem

taciturno e de poucos sorrisos, Kikawa se tornara popular nas festas da colônia pelo talento

como declamador de nô. Os patrícios se referiam a ele de forma solene e reverente. “É digno

de ser um grande chefe”, dizia um. “Não é homem de duas caras”, diria outro. Seus

admiradores consideravam importante lembrar que, mesmo quando perdia a paciência com

alguém, “era sempre o admirável coronel Kikawa”. Seu prestígio acabaria levando-o a ser

eleito o primeiro presidente das Associações Japonesas de Rancharia, mas nem isso o

seguraria na cidade. Depois de sete anos sem grandes sucessos na lavoura, ele decidiu mudar-

se para a capital.

Em São Paulo Kikawa instalou-se com a família em um sobradinho alugado no final da rua

Vergueiro, nas proximidades do bairro japonês. No andar térreo, onde antes tinha funcionado

uma oficina mecânica, montou uma tinturaria. Apesar do eterno ar macambúzio e dos silêncios

intermináveis, o velhinho parecia mesmo ser “o admirável coronel Kikawa”: um ano depois

de chegar à capital, anônimo como milhares de outros japoneses, ele era eleito presidente da

Liga das Tinturarias Japonesas de São Paulo. Preso pelo dops, Kikawa não negou nenhuma

das acusações que lhe faziam: assumiu a autoria não só dos panfletos ameaçando quem

plantasse hortelã e produzisse seda. Reconheceu também ser o autor de vários documentos

mimeografados em japonês, que vinham sendo distribuídos periodicamente em diversas cidades do interior e em pensões de japoneses na capital, intitulados Idéia de Kikawa. Nessas

reflexões, repletas de metáforas e simbolismos, o coronel defendia a cega obediência da

colônia ao imperador Hiroíto e o fiel cumprimento do Yamatodamashii, o “espírito nipônico”,

padrão de comportamento ideal que o militarismo ultranacionalista japonês adotara como

doutrina. Mexendo nos arquivos do dops, o delegado Saad descobriu que Kikawa não era

marinheiro de primeira viagem: em abril de 1942, dois anos e meio antes, portanto, ele havia

sido preso por “ameaça de represálias contra o Brasil” — sem que a ficha esclarecesse

exatamente o que vinha a ser aquele crime. Identificado criminalmente, fora libertado poucos

dias depois.

O delegado se divertiu ao comparar as duas fichas de Kikawa: na de 1942 ele dizia ser

“tintureiro”, e agora, quando lhe perguntaram a profissão, respondeu: “Tenente-coronel do

Exército Imperial”. Sempre com o auxílio de um intérprete, claro, porque ele jamais se

interessara em aprender português. Outra mudança ocorrida entre as duas datas foi na estatura

de Kikawa. Se na ocasião da prisão ele dissera medir 1 metro e 51, agora, ao perguntarem sua

estatura, não titubeou: “Eu meço 1 metro e 65”. Pressentindo que desta vez, porém, as coisas

iam ser diferentes, o coronel não reagiu à prisão, mas exigiu o direito de redigir, em japonês,

antes de ser levado para o dops, uma “carta-protesto” contra o que considerava uma

arbitrariedade:

 

Se as autoridades brasileiras forçarem a realização do presente julgamento, será um

evidente estratagema para condenar japoneses inocentes. Nós, os acusados, aceitamos

qualquer castigo, por mais severo que seja, mas os japoneses do Brasil não permitirão

que tais atos ilegais sejam levados a efeito. Uma vez restabelecidas as relações

diplomáticas, farão com que o Japão proteste. Conforme as circunstâncias, será possível

que se chegue ao rompimento das relações diplomáticas, ou mesmo à guerra.

 

Acusado formalmente de sabotagem, Junji Kikawa viu seu processo passar catorze meses

na fila do Tribunal de Segurança Nacional — período em que permaneceu preso em São

Paulo, para só ser libertado em novembro de 1945. Mesmo na cadeia, o “admirável coronel

Kikawa” conseguiu consolidar sua liderança sobre a corrente nacionalista da colônia. Da cela

em que foi colocado, na Casa de Detenção, continuava redigindo, aos borbotões, sucessivas

edições do Idéia de Kikawa, que às vezes podia aparecer como Pensamento de Kikawa. O

centro de sua pregação era um só: a desordem reinante na comunidade japonesa no Brasil

desde que ela fora “relegada à mais cruel orfandade” pelo rompimento de relações entre os

dois países. Aquele velhinho míope e calvo não parecia inspirar temor em ninguém. Nem

mesmo nos carcereiros da Detenção, que em troca de modestos subornos deixavam Kikawa

escrever livremente e fechavam os olhos quando alguma visita subtraía da cela dele mais um

Idéia de Kikawa. Mimeografado, o panfleto era distribuído clandestinamente pela colônia. O

primeiro deles circulou poucos dias após a prisão:

A situação de desordem dos japoneses cresceu de maneira tão indecorosa que nem se

pode olhar. Aumentou muito o número de japoneses que não se preocupam com o

resultado desfavorável à pátria e dos conterrâneos no Brasil que só pensam em

enriquecer. Tenho ouvido dizer que há japoneses que falam impetuosamente que “não se

importam que o Japão perca a guerra” ou que “se atreveriam a levantar revolta contra o

imperador” e, frente a isso, senti uma enorme perplexidade com o futuro dos japoneses

no Brasil. Pode-se dizer que, da noite para o dia, a experiência de mais de dez anos dos

japoneses no Brasil se perdeu. O embaixador e os cônsules, que deveriam ser os líderes

supremos dos japoneses no Brasil, tinham a obrigação de ter mostrado, no momento do

rompimento das relações diplomáticas entre os dois países, atitudes concretas de

conduta aos conterrâneos, ter-lhes dado uma orientação adequada para superar a

opressão. [...] Porém, quando receberam a ordem de repatriamento, aproveitando a

oportunidade, retornaram sem demora ao Japão, praticamente fugindo. Enquanto na

frente de batalha todos os soldados japoneses tomaram armas de ataque e os 100 milhões

de compatriotas, na frente doméstica de guerra, estão tentando superar a dificuldade

nacional, com espírito de tokkotai [pelotão especial de ataque], o que eles, que voltaram

fugidos, estariam pensando dos conterrâneos no Brasil? Se fossem verdadeiros

cavalheiros, ao receber a ordem de repatriamento, teriam pedido demissão e ficado com

os 300 mil conterrâneos no Brasil, como simples imigrantes, e permaneceriam junto com

eles na vida e na morte. E, no caso de não poderem fazer isso, eles deveriam se suicidar

sem hesitação.

 

Para parte expressiva da colônia, palavras como aquelas acendiam as esperanças que a

guerra parecia ter sepultado para sempre. Finalmente alguém falava em nacionalismo, em

respeito à Família Imperial, em Yamatodamashii e, principalmente, alguém acenava com a

possibilidade de realização do sonho da maioria: voltar ao Japão. E a prisão não parecia

inibir a atividade de Kikawa. Durante todo o tempo em que esteve preso, o coronel

transformou os horários de visita em reuniões de trabalho com seu staff. A presença mais

freqüente era a de seu velho companheiro de viagem, o capitão Kiyo Yamauchi. O terceiro

membro do grupo do navio, o coronel Jinsaku Wakiyama, certamente por já ser também um

ancião e viver a quase quinze horas de distância da capital, não apareceria nenhuma vez na

Detenção. Além de sua mulher, Fumi, e de Yamauchi, Kikawa passaria a ser visitado por dois

outros homens: o engenheiro Ryotaro Negoro, de 64 anos, e Seiichi Tomari, um taciturno

japonês de quarenta anos que ora se apresentava como químico, ora como verdureiro.

No dia 15 de agosto, ao ouvir as notícias da rendição, um desolado Tomari registrara em

seu diário — um hábito comum entre os japoneses: “Hoje deveria ser um dia de grande

alegria; no entanto, ouço falarem na rendição incondicional do Japão, iludidos por notícias

falsas enviadas dos Estados Unidos. Temos assim um dia de vergonha. Passei a noite sem dormir, chorando. Espero amanhã poder visitar o Velho Kikawa”. O encontro parece tê-lo

reanimado, a julgar pelas anotações feitas no dia seguinte: “Dele ouvi palavras

tranqüilizadoras. Resumindo, concluo que foi uma grande vitória do Japão. Lágrimas de

alegria correm sem parar. Só alegria... não me vem outro pensamento”.

Passados dois meses, os advogados contratados por Tomari tiraram Kikawa da cadeia. O

próprio coronel revelaria depois, num de seus escritos, a surpresa com que soube da

libertação: ele era estrangeiro, súdito de um país inimigo do Brasil, fora preso por sabotagem

e submetido ao Tribunal de Segurança, célebre pela dureza com que defendia o que seus juízes

consideravam os interesses do Estado brasileiro. E, no entanto, tinha sido posto em liberdade

por uma formalidade jurídica: um juiz do tsn considerou “ilegal” sua prisão — que, como

dezenas de outras, fora efetuada sem mandado judicial. É possível que o tribunal da ditadura

tenha levado em conta também, para tomar a decisão, o estado de saúde de Kikawa, vítima de

problemas vasculares que às vezes o impediam até de andar.

No dia em que ele foi solto, 17 de novembro de 1945, já fazia dois meses que a guerra tinha

acabado. O Japão havia sido calcinado pelas bombas aliadas. Seguindo o exemplo do general

Korechika Anami, ministro da Guerra, vários auxiliares do imperador praticaram o haraquiri

ou seppuku — a forma ritual do suicídio japonês por meio da qual o morto recupera a honra

perdida em vida. O Supremo Comando Aliado parecia ter se esmerado em impor aos

japoneses uma derrota com humilhação. O mesmo rigor que decidira pela dissolução pura e

simples do invencível Exército Imperial japonês descia a minúcias consideradas ultrajantes

pelos derrotados. No dia 27 de setembro, por exemplo, Hiroíto deixou o palácio pela primeira

vez após a rendição, para um encontro com o general MacArthur, o Maca-san, na embaixada

americana. Capitaneada pelo veículo que transportava o imperador — a limusine Mercedes

Benz cor de vinho que lhe havia sido presenteada por Adolf Hitler em 1933 —, a comitiva

andou poucas centenas de metros pelas ruas de Tóquio e parou inesperadamente. Hiroíto quis

saber o que acontecera de anormal e ouviu de um ajudante de ordens a desconcertante

resposta:

“O sinal está vermelho, majestade. Agora nós também temos que parar. Ordens do Supremo

Comando.”

Hiroíto sabia que os americanos estavam cobrando um preço alto por sua manutenção no

trono. Três semanas antes o ministro das Relações Exteriores Mamoru Shigemitsu, cavaleiro

da Ordem Imperial do Sol Nascente, chegara ao cruzador Missouri, na baía de Tóquio,

munido de uma procuração do imperador para assinar a rendição diante de MacArthur.

Setuagenário e perneta (uma mina arrancara sua perna direita quinze anos antes), Shigemitsu

subira sem nenhuma ajuda, à custa de um esforço sobre-humano, os noventa degraus da escada

que levava ao convés do navio. Ao chegar ao topo, esbaforido, pediu ao almirante William

Halsey um copo d’água, para ouvir do militar americano um sonoro não.

O imperador tinha motivos de sobra, portanto, para temer o encontro com o general

americano. Mesmo informado pelo cerimonial de que Hiroíto compareceria ao encontro vestido em traje de gala, de casaca e cartola, MacArthur não parecia querer deixar dúvidas a

respeito de quem estava mandando no país. Recebeu Hiroíto metido em uma surrada farda

cáqui, de serviço, em mangas de camisa, sem gravata e sem quepe. E, na hora da foto oficial

ao lado de Sua Majestade, o general americano não hesitou em enfiar ambas as mãos nos

bolsos de trás da calça. Os japoneses ainda tentaram evitar a publicação de uma imagem tão

humilhante, mas prevaleceu a vontade de Maca-san, e a foto distribuída à imprensa foi aquela

mesmo. O império pomposamente batizado de “Esfera de Co-Prosperidade da Grande Ásia

Oriental”, em que Hiroíto sonhava transformar o Japão, tinha virado pó.

O mundo inteiro parecia saber disso. Menos “o admirável coronel Kikawa”. Quando ele

assinava o alvará de soltura no cartório da Casa de Detenção, um dos intérpretes da polícia

aproximou-se e perguntou:

“E aí, coronel, ficou triste com a derrota do Japão?”

Kikawa respondeu sem bravata, como se falasse a coisa mais natural do mundo:

“Mas o Japão não foi derrotado. O Japão venceu a guerra.”

O intérprete insistiu:

“Mas, coronel, todo mundo ouviu Hiroíto no rádio lendo o Rescrito Imperial com a

rendição incondicional.”

O velho deu o assunto por encerrado:

“O Rescrito Imperial não contém nenhuma dessas duas palavras. Nem rendição nem

incondicional. O Japão ganhou a guerra.”

A roda de policiais que se formara à sua volta explodiu em gargalhadas.