Corações Sujos

Fernando Morais · Capítulo 4 de 12

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Corações Sujos

4 - Mizobe parece estar nadando no ar: Cai morto o primeiro makegumi

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MIZOBE PARECE ESTAR

NADANDO NO AR:

CAI MORTO O

PRIMEIRO MAKEGUMI

A matança já tinha começado, a polícia é que ainda não sabia. A primeira vítima fatal da Shindo Renmei tombara 25 dias antes, em Bastos: era Ikuta Mizobe, o diretor da cooperativa agrícola da cidade, a cab. Ele próprio havia escolhido seu fim no dia em que a guerra terminou, em agosto do ano anterior. Ao receber a curta circular de 77 palavras assinada por Mizobe, informando que a guerra chegara ao fim e que o Japão tinha sido derrotado, os funcionários da cab e a numerosa comunidade japonesa de Bastos já sabiam que ele estava com os dias

contados. Mizobe vivia em uma cidade em que a colônia se orgulhava de uma estatística: de

seus quase 9 mil habitantes, 7 mil eram japoneses (e, destes, conforme a polícia apuraria

depois, 3500 contribuíam para os cofres da Shindo Renmei). Um estranho que lá chegasse

poderia se imaginar no Japão. Não apenas pela aparência física da maioria da população, mas

até pelo comércio local, quase todo identificado por placas escritas em japonês. Nos finais de

tarde, a saída dos tiros de guerra — as pequenas unidades do Exército em que, no interior, os

recrutas prestam serviço militar — criava uma imagem curiosa: jovens nisseis, filhos da

primeira geração de imigrantes japoneses nascidos no Brasil, faziam o footing na pracinha,

envergando engomadas fardas verde-oliva do Exército brasileiro. Assim como eram

japoneses todos os atletas dos clubes de beisebol da cidade, o que fazia com que a seleção

brasileira desse esporte fosse composta, em algumas ocasiões, exclusivamente de jogadores

dos times de Bastos.

Essa altíssima concentração de “súditos do Eixo” deixou a polícia de olho na cidade,

quando a agitação começou a incendiar a colônia. A campana renderia frutos em pouco tempo.

Foi em Bastos que os policiais descobriram que havia quadrilhas de malandros japoneses

especializando-se em ganhar dinheiro à custa da ingenuidade dos simpatizantes da Shindo.

Eram os “vitoristas vigaristas”, como os tratavam os jornais. Suas principais tramóias

consistiam na venda de terrenos fantasmas em ilhas do Pacífico e de passagens falsas para um

imaginário navio que já estaria a caminho de Santos para iniciar o repatriamento da colônia.

Quando o dops conseguiu botar as mãos no desocupado Shigueuyushi Kagawa, pioneiro nessa

rendosa atividade, encontrou no seu quarto de pensão, em Bastos, dezenas de mapas de

loteamentos em “terras conquistadas pelo Japão”. O monumental arquipélago que separa os

oceanos Pacífico e Índico, entre a Austrália e o Vietnã, anunciado pelos espertalhões como

“presa de guerra” conquistada pelo Japão, estava inteiramente loteado. Nas grandes ilhas,

como Bornéu e Sumatra, já não era mais possível conseguir um metro quadrado disponível:

todos os lotes tinham sido vendidos. Sob o colchão de Kagawa, além de recibos de

pagamentos e contratos, a polícia encontrou uma bolada de 80 mil cruzeiros.

E foi também a vigilância rigorosa dos policiais que os levou a descobrir, supostamente em Bastos, a primeira rádio da Shindo Renmei. O dops sabia que estações clandestinas tinham

sido montadas pela Shindo em alguns pontos do estado para transmissão de noticiário

“vitorista” em japonês. Com o auxílio de um radiogoniômetro (um receptor de ondas

radiofônicas que determina a origem do sinal emitido), a polícia acabou sintonizando uma

certa Rádio Bastos. Embora nenhuma estação clandestina jamais viesse a ser localizada na

cidade, alguns trechos do “noticiário” captado pela escuta davam a medida do estado de

delírio em que parecia viver metade, se não a maioria, da comunidade japonesa:

 

Notícia vinda de uma rádio da Alemanha, dia 12 de setembro: o presidente dos Estados

Unidos, sr. Truman, não pôde responder à pergunta do povo americano sobre o fim da

guerra. O povo, exaltado, agrediu-o a tiros, ferindo-o na perna direita. Truman teve que

fugir para o Canadá acompanhado de trinta oficiais.

 

Foi nomeado pelo Japão o novo presidente dos Estados Unidos. É o coronel

Lindemberg.

 

O primeiro-ministro da Inglaterra, Churchill, desapareceu. Um general ia à procura

dele na Itália, mas como a guerra com o Japão já acabou, não há mais necessidade de

procurá-lo.

 

MacArthur suicidou-se.

 

No dia 1 o de setembro vai ser iniciado o desarmamento da União Soviética.

 

O boato de que o Japão perdeu a guerra veio dos judeus do Rio de Janeiro, que estão

fugindo para São Paulo, porque o povo do Rio sabe da vitória certa do Japão.

 

Em Manila e Okinawa aprisionamos onze navios da esquadra inimiga. Na frente do

Ural se renderam 1 500 000 soldados soviéticos. Todas as forças aliadas ficarão sob

controle do Japão durante dez anos. O ministro da Aeronáutica do Brasil, Salgado Filho,

seguiu para Tóquio para assinar em nome do governo brasileiro a rendição

incondicional... Estão sendo esperados em Tóquio os representantes de 46 nações para

fazer o mesmo.

 

Nossas forças estão liquidando e limpando as forças restantes da China e União

Soviética. Até agora já se renderam mais de 7 500 000 soldados dos Estados Unidos,

foram capturados 15 690 aviões e 6500 navios, dos quais 350 estão em perfeito estado

em Yukosuka e seiscentos em Shimizu.

São Francisco, na Califórnia, está em poder das forças japonesas. No momento em que

fazemos esta irradiação, estão lavrando vários incêndios na cidade. Em proclamação ao

povo de Nova York, nossas Forças Armadas declararam que o Japão não quer dominar os

Estados Unidos, mas apenas fazer uma demonstração de força.

 

No dia 7 de setembro desembarcaram na América Central trinta navios nossos, e parte

dessa força deve seguir para Washington.

 

Todos os japoneses que estão fora do Japão terão de regressar à pátria, a fim de

organizar a colonização das ilhas conquistadas no Pacífico.

 

Inglaterra, Estados Unidos e mais nove países serão obrigados a pagar ao Japão

indenizações pelos prejuízos causados pela guerra, conforme anunciou o presidente

Lindemberg.

 

Está sendo esperada a chegada da esquadra japonesa no Rio de Janeiro.

 

E foi também de Bastos que chegaram as primeiras notícias de uma estranha arma que vinha

sendo usada por “vitoristas” contra “derrotistas”: as bombas de mostarda. Apelidadas de

“bico-doce”, caixinhas de madeira eram entregues anonimamente nas casas dos makegumi.

Quando o lacre da encomenda era aberto, a bomba explodia. Os “bicos-doces” não eram

mortais, mas a carga de pó de mostarda espalhada pela explosão penetrava nos ferimentos —

em geral no rosto e nos braços —, provocando dores lancinantes nas vítimas.

O chefe de polícia da cidade parecia ter sido nomeado sob medida para o lugar. Famoso

pela energia com que exercia sua autoridade, o delegado Luiz Bernardo de Godoy e

Vasconcelos era tido como um homem “medonho”, que fazia valer a lei “metendo a borracha”.

Valente e habituado a enfrentar sozinho os “japoneses recalcitrantes” da cidade, decidiu

aplicar à sua moda a legislação de guerra — que nessa época já nem existia mais. Quando o

diretor do Serviço Secreto do dops telefonou pedindo-lhe “especial empenho” na vigilância

sobre a colônia, o delegado sentiu-se à vontade e baixou aquele que certamente foi o mais

opressivo rol de restrições impostas a “súditos do Eixo” durante a Segunda Guerra. A dureza

não só do conteúdo, mas sobretudo da linguagem utilizada, é reveladora da dimensão do

preconceito antinipônico de Vasconcelos.

 

Aos japoneses

Não obstante a ação amena, complacente mesmo, desta delegacia, para com os súditos

de uma Nação, ontem, a caminho da derrota, hoje, humilhante e fragorosamente vencida,

não tendes sabido compreender nosso benévolo, nosso humano proceder para convosco.

Vindes abusando da nossa paciência, da superior condescendência das autoridades

que governam um povo superior, que não vos tem tratado como inimigos, como

derrotados inimigos. Nós vos vimos tratando como da espécie humana, porém, tem sido

inútil nossa superior condescendência.

Em face, pois, da vossa demonstrada má-fé, da vossa veleidade de resistir, da vossa

insana teimosia, esta delegacia, sob pena de severa punição, vos informa o seguinte:

a) deveis vos expressar em idioma português, em lugares públicos ou de acesso ao

público (vias públicas, casas comerciais, escritórios etc.).

b) até segunda ordem, fica terminantemente proibido: vos reunirdes sem licença da

autoridade em casas particulares, em clubes, escolas, sob qualquer pretexto; praticardes

os desportos atléticos; ouvirdes irradiações estrangeiras.

c) serão responsabilizados os proprietários de casas comerciais, os diretores, ou

gerentes de estabelecimentos que permitirem a prática dos atos constantes de

supracitadas proibições.

d) o boato será energicamente reprimido.

Bastos, 28 de setembro de 1945

O delegado de polícia

Luiz B. de Godoy e Vasconcelos

 

Racista, preconceituoso e imprudente, o delegado decidira isolar, como em um gueto, nada

menos que setenta por cento da população da cidade. Talvez por entender que aquela era uma

briga de japoneses contra japoneses, nem essa estatística parecia assustá-lo. Acompanhado de

dois soldados, o delegado percorreu pessoalmente todas as seções, como eram chamados os

bairros de Bastos, e desarmou os imigrantes que ainda tivessem armas em casa. E, para Godoy

e Vasconcelos, “arma” tanto podia ser uma carabina ou um revólver como até um canivete, um

taco de beisebol ou uma faca de sangrar porco. Por manter num armário, como relíquia, uma

velha farda que usara na guerra do Japão contra a Rússia, em 1905, o velho Itiro Yamanaka

foi preso junto com seu filho Saburo e enviado a São Paulo, onde ambos passaram seis meses

na Casa de Detenção. Não escaparia do rapa sequer a famosa e inofensiva espada do coronel

Jinsaku Wakiyama, que o delegado sabia que só servia como enfeite do guarda-roupa de gala

do ex-militar. Longe de representar risco para quem quer que fosse, o velho Wakiyama

parecia mais interessado em salvar a própria pele: sentindo-se inseguro na cidade, quando a

temperatura entre seus patrícios de Bastos pareceu alta demais, ele juntou suas coisas e

mudou-se para a capital. Embora pretendesse partir sem chamar a atenção de ninguém, antes

de embarcar rumo a São Paulo ele parou alguns minutos para se despedir de um velho amigo,

o seu sucessor na direção da Cooperativa, Ikuta Mizobe. Aquela seria a última vez que os dois

se veriam.

Franzino, silencioso e metódico, Ikuta Mizobe era o que parecia ser: um burocrata de

carreira, do tipo que nem os amigos jamais conseguem ver sem paletó ou gravata. Ao

contrário da maioria da colônia, formada por gente simples, Mizobe era um homem urbano e educado, que começara a carreira na Prefeitura de Yamaguti, sua cidade natal. Quando o

movimento imigratório em direção ao Brasil tomou força, seu nome foi imediatamente

lembrado pelas empresas colonizadoras, já como um especialista em organização e

administração de cooperativas. Dirigir uma cooperativa em plena abertura da fronteira

agrícola significava muitas vezes fazer o papel de prefeito, juiz, delegado e gerente de banco

— o que atribuía a Mizobe posição de destaque na cidade. Aos 53 anos, casado e pai de um

casal de filhos, fazia dois meses que ele comprara a casa em que vivia no dia em que a guerra

acabou. Uma casa de madeira, como quase todas da cidade, mas confortável e feita sob

encomenda pelo mestre-de-obras Jacob Ferro em plena rua Getúlio Vargas, bem no centro de

Bastos. Na manhã de 15 de agosto Mizobe saiu de casa mais cedo, e no caminho para a

Cooperativa passou pelo único hospital da cidade para desfrutar com o médico Katsuto

Hamano o privilégio de ouvir alguns minutos de rádio. Por ser um nissei, nascido no Brasil,

Hamano estava excluído do rol dos “súditos do Eixo” proibidos de ter rádios. Foi lá, em

companhia do médico, que ele ouviu a notícia que iria levá-lo à morte: a Segunda Guerra

Mundial chegara ao fim, o Japão decidira render-se incondicionalmente aos Aliados.

Apesar de se sentir tão patriota quanto qualquer outro imigrante japonês, Mizobe lamentou a

derrota e fez o que achou que tinha que fazer: transmitiu a notícia no mesmo dia aos

empregados da Cooperativa. Ele sabia que estava mexendo em uma casa de marimbondos,

mas manteve-se impassível mesmo depois que começou a receber ameaças. Não pediu

proteção à polícia nem mudou seus hábitos. Quando algum panfleto ou carta com insultos caía

em suas mãos, mandava um empregado levar o documento à delegacia — não porque quisesse

qualquer providência policial, mas apenas por entender que aquela era sua obrigação. Foi

assim quando ele recebeu uma cópia de uma falsa circular dirigida aos funcionários da cab em

seu nome (e com sua assinatura falsificada), desmentindo os termos da anterior, que ele

distribuíra em 15 de agosto com a notícia do fim da guerra. Recebeu o papel, leu sem revelar

nenhuma emoção e mandou entregar ao delegado. O mesmo acontecia com as cartas

ameaçadoras que encontrava sob a porta de casa, como a que mandou para a polícia poucos

dias antes de morrer:

 

Defendeu rendição incondicional? Então, Mizobe, fantoche dos judeus, vai ser

expurgado da raça nipônica com sangue! Vamos empregar todos os meios: fuzilamento,

prisão perpétua, deportação para ilhas, esterilização, linchamento etc. Quando o

liquidarmos, a situação de Bastos melhorará cem por cento. Lave sua garganta, coração

sujo!

Shindo Renmei

21 de fevereiro do 21o ano da Era Showa

 

Ikuta Mizobe não parece ter se assustado nem mesmo quando Koto, sua mulher, contou-lhe a

insólita visita que recebera naquela segunda-feira, dois dias antes do assassinato do marido. Um japonês desconhecido — supostamente um lavrador, descalço e em mangas de camisa —

aparecera na casa deles e lera para ela o verso: “O cadáver do pai exposto ao vento e à

chuva”, extraído de um milenar poema intitulado Hakkotsu no Chichi. O homem bateu à porta

de sua casa, leu o pedaço de papel e foi embora sem dizer uma só palavra além das contidas

no verso — mas foi o bastante para que Koto Mizobe, uma mulher familiarizada com os

simbolismos e as alegorias da língua japonesa, se pusesse a chorar. Ao ouvir o relato da

esposa, Mizobe também entendeu, com frio fatalismo, o significado da estrofe lida pelo

estranho: não adiantava pedir proteção a ninguém, sua morte estava próxima.

Até as dez horas da noite, o dia 6 de março de 1946 foi exatamente igual aos outros para

Ikuta Mizobe. Ele acordou cedo, barbeou-se, aparou o bigodinho fino e saiu para a

Cooperativa. No caminho passou no hospital para ouvir as novidades no rádio do dr. Hamano,

trabalhou até o meio-dia e almoçou lá mesmo, no escritório da cab, comendo no bento, a

marmita japonesa que a mulher lhe preparara. Como esperava visitas naquela noite, foi mais

cedo para casa, onde se hospedava o jovem atleta Yoshito Nomura, filho de um amigo de

Marília. Terminado o jantar, chegaram as visitas: eram o chefe do armazém da cab, Ichigi

Furusawa, e a esposa, Matiko, que tinham aparecido para o chá e uma rápida partida de fuda,

o baralho japonês. Às onze da noite, quando as visitas decidiram ir embora, já fazia duas

horas que a morte estava escondida nos arbustos da casa, encarnada na pessoa do motorista,

verdureiro e professor de esgrima Satoru Yamamoto, de 27 anos.

O homem escolhido para matar Mizobe estava no Brasil desde 1933. Junto com um irmão

que imigrara em sua companhia, Yamamoto trabalhou durante alguns anos como camarada,

como eram chamados os trabalhadores braçais no interior, plantando e colhendo algodão nas

fazendas Anze, em Araçatuba, e Myamoto, em Guararapes. Foi nessa cidade que ele recebeu

um dos panfletos que falavam dos riscos de se plantar hortelã e criar bicho-da-seda. Quando o

Brasil rompeu com o Japão, em 1942, ele concluiu: se essas atividades beneficiavam os

inimigos do Japão, então plantar algodão, que era o que ele fazia, iria ajudar o Brasil, que

também era inimigo. Munido de lógica tão sólida, decidiu só plantar verduras. Com as

economias que conseguira juntar, comprou um caminhãozinho usado e uma horta em

Araçatuba, e virou motorista e chacareiro.

E era na feira dessa cidade, onde todas as manhãs vendia seus produtos, que Yamamoto se

informava com outro feirante, Tadao Shiraishi, sobre o andamento da guerra. Dirigente da

Shindo Renmei em Tupã, Shiraishi acabou convencendo-o a deixar a chácara para dedicar-se

apenas à organização. E foi já na condição de associado à Shindo que Yamamoto recebeu

instruções para se empregar na Cooperativa de Bastos para atuar como informante da Shindo,

que a cada dia mais suspeitava do comportamento derrotista de seu diretor, Ikuta Mizobe. No

dia em que a guerra terminou, Yamamoto passava o domingo em Mirandópolis, orientando os

participantes de uma competição de kendô, a esgrima japonesa. Transtornado com a notícia da

derrota do Japão, que acabara de chegar, interrompeu a choradeira dos patrícios que se

encontravam no clube com um par de berros:

“O Japão nunca perdeu uma guerra! Não pode ter sido derrotado!”

De volta a Bastos, não conseguiu mais dormir. Com a ajuda de um amigo, passou a montar e

distribuir aos “derrotistas” da cidade as terríveis bombas de mostarda. Mas as notícias sobre

o fim da guerra, que era o que importava, continuavam muito obscuras. As informações eram

contraditórias, ninguém sabia afirmar com certeza o que tinha acontecido. Yamamoto decidiu

se aconselhar com o velho Senjiro Hatanaka, um dos pioneiros da imigração em Bastos e

pessoa muito estimada pela colônia. Mas saiu da casa de Hatanaka — “a minha última

esperança”, diria depois — pior do que chegara: o velho lhe dissera que, desgraçadamente, o

Japão fora mesmo derrotado. De lá foi para a casa de Tadashigue Kato, onde, para sua

alegria, vários dirigentes da Shindo “propalavam ardentemente a vitória do Japão”. No final

do encontro, Yamamoto foi aconselhado a “cortar todas as relações” com os derrotistas e

recebeu uma nova tarefa: dar aulas de japonês em uma escolinha clandestina da seção

Cascata, lá mesmo, em Bastos.

Ele permaneceu em Cascata até o fim de janeiro, quando foi chamado para um encontro em

Tupã, onde seria dura e injustamente repreendido por dirigentes da Shindo “por ter deixado a

Cooperativa antes de captar a simpatia do diretor”. Apesar de ter pedido demissão da cab por

ordens de Tadao Shiraishi — o mesmo que agora o criticava —, Yamamoto ouviu o sermão

em silêncio. Shiraishi falava grosso: “Enquanto não liquidarmos os chefes dos que propalam a

derrota do Japão”, gritava, “a confusão na colônia não será remediada”. Segundo ele, deviam

morrer os líderes “que não passam de fantoches dos judeus”:

“Em Bastos, quem está dirigindo esses fantoches é Ikuta Misobe. Se liquidarmos este, a

situação na cidade melhorará cem por cento. Mizobe faz propaganda derrotista, aproveitando-

se da posição que ocupa na Cooperativa. É um verdadeiro traidor da pátria.”

Satoru Yamamoto entendeu claramente aonde Shiraishi queria chegar e achou melhor

estabelecer seus limites:

“Continuo no movimento contra a plantação de hortelã e criação do bicho-da-seda, mas não

desejo matar ninguém.”

O líder da Shindo não entregou os pontos:

“Um grão de trigo pode produzir milhares. Assim, liquidar um grão de trigo significa a

salvação de milhares que estão em Bastos.”

A pregação acabou dando resultado. Por sua própria iniciativa, Yamamoto marcou a data

da execução de Mizobe: 10 de março, quando se comemora no Japão o Dia do Exército. A

Shindo achou a data “inconveniente” e antecipou a ação em três dias. Assim, às sete e meia da

noite do dia 7 de março, quando o diretor da cab chegava em casa para seu último jantar,

Yamamoto desceu da garupa do cavalo branco em que Tadao Shiraishi o trouxera da seção

Cascata até o centro de Bastos. Manuel Neto, o guarda alagoano que tomava conta do Instituto

de Sericicultura da cab, situado ao lado da casa de Mizobe, já havia recebido instruções de

João Mancini, um dos gerentes da Cooperativa, para ficar de olho em japoneses estranhos que

se aproximassem da casa (apesar das ameaças que recebera, Mizobe insistia em manter apenas um vira-lata como cão de guarda). Armado de um revólver calibre .32 e com uma

lanterna de pilhas para se orientar na escuridão, Manuel Neto nem sequer percebeu quando um

vulto engatinhou pelo matagal e encontrou um local onde pudesse se esconder e ter visão da

casa: era Yamamoto acocorando-se em uma moita entre um ranchinho e um muro de tijolos, a

poucos passos da porta de entrada. A cem metros dali, num terreno baldio, Shiraishi o

esperava com o cavalo pronto para a volta.

Meses depois, quando se entregou à polícia e confessou o crime, Satoru Yamamoto ainda se

lembraria com detalhes das horas que antecederam a execução:

 

Mizobe estava com visita e fui obrigado a esperar quase três horas. Durante a espera

urinei três vezes. A princípio, o cachorro da casa latiu muito, mas logo depois, talvez

cansado de latir, sossegou. Saí uma vez de meu esconderijo e avisei a Shiraishi que

Mizobe tinha visita e que esta parecia não querer se retirar. Disse-lhe, então, para

adiarmos o plano, mas ele não concordou. Voltei, por isso, para o esconderijo. Quando

ia me levantar, em dado momento, pois me achava agachado, ouvi a voz de alguém: era

da visita que se despedia — e senti-me satisfeito. Depois que o visitante saiu, fecharam-

se todas as janelas e apagou-se a luz da entrada da cozinha. Tive, aí, um momento de

hesitação: ou desistir ou atirar através da janela do dormitório, que era de vidro; nisso,

divisei um vulto que saía pela porta da cozinha. Olhei-o bem, mas não pude distinguir

quem era. A pessoa, que vestia quimono, fechou o portão do quintal e entrou na privada

que ali havia. Ainda não podia distinguir se era homem ou mulher. Seria vergonhoso

atirar na sra. Mizobe. Aproximei-me para bem perto, quase a um metro e meio da

privada, para, se ouvisse sua tosse, distingui-la. Mas nada. Nesse momento, ouvi uma

voz, que parecia ser de uma moça, que gritou: “Papai, você está na privada?”, ao que

responderam de dentro da privada: “Sim, estou”. Fiquei satisfeito quando soube que, de

fato, era Mizobe quem estava dentro da privada. Espiei, então, pela fechadura, quando

Mizobe ficou de pé, e calculei sua altura. Pensei que acertaria no coração se apontasse

45 centímetros abaixo do pescoço. Quando viera de Cascata, tinha recebido das mãos de

Shiraishi uma Mauser que experimentara no meio do mato e verificara na arma o hábito

de desviar um palmo para cima do alvo, na distância de quinze metros. Tinha confiança

em minha pontaria, porque quando era motorista exercitava-me muitas vezes. Portanto,

se apontasse trinta centímetros abaixo do pescoço, acertaria no coração. Mas, como a

arma tinha o hábito de desviar para cima, calculei a mira 54 centímetros abaixo do

pescoço. Assim, quando pude divisar Mizobe, dei o primeiro tiro, levando a arma de

baixo para cima. Acertei. Mizobe cambaleou como que arranhando o peito. Era para dar

outros tiros, de trás do tanque de lavar roupa, caso Mizobe levantasse a voz. Mizobe,

porém, caiu logo adiante, sem dizer uma palavra, como se estivesse nadando no ar. Nesse

momento, sua filha saiu da casa, correndo, e sua esposa veio para o quintal, agachando-

se sobre o corpo estendido do marido. Colado ao muro, corri para a frente da casa e

pulei o portão que vai ter à garagem, caindo dentro dum buraco feito pela chuva.

Quando me levantava, ouvi o guarda-noturno do Instituto de Sementagem apitar e

percebi que apontava contra mim seu revólver. Enfrentei-o também, ouvindo um barulho

de alguém que vinha correndo rua acima, não podendo saber quem era, pois achava-me a

uns quinze metros de distância do guarda. Ao apontar minha arma contra o guarda, este

correu para detrás da cerca e apitou novamente. Enquanto isso, corri em direção leste,

passando ao lado da casa do dr. Ferraz, e me aproximei de Shiraishi, que estava atrás do

hospital, fazendo-lhe sinal de bom êxito. Shiraishi, montado a cavalo, desapareceu na

estrada. [...] Passando, então, ao lado da quadra de tênis e através das amoreiras,

cheguei à minha casa em Cascata. Shiraishi fugira em direção a Quatá, passando por

Esperança e Monteiro. Durante três noites não consegui dormir.

 

Quando saiu de casa, alertada pelo barulho do tiro, Koto Mizobe deu com o marido caído

de bruços a um metro da porta da privada, com o quimono vermelho e azul empapado de

sangue. Ao lado dele, de revólver em punho, o guarda Manuel Neto. O jovem Yoshito

Nomura, hóspede da família, acordou o médico Takao Mori, vizinho da casa, na tentativa de

salvar a vida de Mizobe, mas o diretor da Cooperativa já estava morto. E, a julgar pelas

investigações da polícia, ele teria morrido de qualquer jeito: na pressa de fugir, Yamamoto

abandonou, no meio dos arbustos, uma granada pronta para ser detonada.

Antes que os primeiros amigos começassem a chegar para o velório, na manhã de quinta-

feira, o delegado Godoy e Vasconcelos já tinha colocado no xadrez vinte japoneses, dos quais

doze eram suspeitos de pertencer à Shindo Renmei. Os interrogatórios revelaram um dos

principais mandamentos da organização: jamais delatar um companheiro, fossem quais fossem

as circunstâncias. Entre os membros da organização, a delação era um pecado quase tão grave

quanto o fumie — o crime supremo de pisar na figura do imperador ou na bandeira japonesa.

Para sorte dos presos, no entanto, o delegado não havia estabelecido nenhuma relação entre a

Shindo e a morte de Mizobe. E, quando as perguntas se referiam ao crime, eles procuravam

confundir e desviar a atenção da polícia. Isso durou dias. Entre os presos estava Tadashigue

Kato, em cuja casa o assassino recebera as primeiras tarefas dadas pela Shindo. Assim como

fariam quase todos os seus patrícios, ele negou qualquer ligação com a sociedade secreta e

sustentou na polícia que a morte de Mizobe devia ser obra de algum ex-empregado da

Cooperativa demitido pelo diretor. Sem a menor cerimônia, levantou sobre a memória do

honesto e bem-comportado Mizobe suspeitas de corrupção e adultério. Segundo a versão de

Kato (que a Shindo já espalhava pela cidade), o mandante do crime poderia ser “uma de suas

amantes” ou, quem sabe, alguém que tivesse sido prejudicado “pelos desfalques que Mizobe

vinha aplicando nos cofres da Cooperativa”. Sem meios de arrancar dos japoneses mais do

que eles estavam dispostos a contar, o delegado foi libertando-os aos poucos. Cada

movimento era imediatamente transmitido à direção da Shindo Renmei em São Paulo. A

primeira providência tomada por Kato, tão logo foi libertado, foi comunicar a notícia a seus superiores:

 

Sede central de Shindo Renmei

Em virtude do assassínio de Ikuta Mizobe, aqui em Bastos, foram presos oito de nossos

correligionários; mas hoje (dia 18 março) alguns deles (Samejima, Kato, Mizuno, Chida

— irmão mais novo) foram soltos. Não receberam uma só pergunta sequer ligada à

suspeita do homicídio; apenas foram interrogados durante uma hora e meia, com relação

à Shindo Renmei, somente. [...] Quanto ao matador, este ainda não foi esclarecido:

parece que a autoridade está se sentindo embaraçada. É essa minha comunicação

apressada, recém-saído da cadeia.

Kato — Filial da Shindo Renmei de Bastos

 

Três dias depois o delegado parecia ter capitulado diante da trama japonesa e libertava,

por absoluta falta de provas, os demais acusados de ligações com a organização secreta. De

novo a sede paulistana era a primeira a ser informada:

 

Ilmos. srs.

Sede central da Shindo Renmei

Peço desculpas por ser breve e por entrar diretamente no assunto: os correligionários

presos por suspeita decorrente do assassínio de Ikuta Mizobe, verificado há dias, foram

postos em liberdade, ontem (dia 20), sem novidade; estejam, pois, tranqüilos. Em

conseqüência desse incidente, porém, não fomos alvo de nenhuma averiguação; apenas

fomos inquiridos sobre os objetivos de Shindo Renmei, tendo-nos sido feitas duas ou três

perguntas mais sobre outros assuntos. Logo em seguida fomos postos em liberdade. Em

suma, acredito que as autoridades trabalharam em conseqüência de ardis da ala

derrotista. [...]

Saudações,

Ichisaburo Chida — Sucursal de Shindo Renmei de Bastos

 

A libertação de seus militantes sem que nenhuma suspeita tivesse sido levantada em relação

à execução do “derrotista” Mizobe foi festejada pela direção da Shindo Renmei em São

Paulo. Estava claro que houvera uma mobilização da colônia de Bastos para obstruir e

confundir as investigações da polícia — para os dirigentes da sociedade clandestina, uma

clara demonstração da penetração das idéias dos kachigumi entre os imigrantes. Tão perdida

quanto a polícia, a imprensa contribuía para aumentar a confusão nas investigações,

inventando a cada dia o nome de um novo “matador fanático”. Na falta de um suspeito mais

consistente, o delegado Godoy e Vasconcelos voltou seus olhos para o guarda Manuel Neto.

Afinal, ele fora visto ao lado do cadáver na hora do crime, armado de um revólver Colt .32 —

o mesmo calibre da bala que matara o japonês. Só duas semanas depois do crime é que o guarda seria inocentado, quando chegaram da capital os resultados dos exames de balística

comprovando que a bala que matou Mizobe não saíra do revólver de Manuel Neto. Do

verdadeiro assassino, no entanto, nenhuma notícia.

 

■

 

Os policiais do dops só juntaram as duas pontas do novelo — a morte de Ikuta Mizobe e a

Shindo Renmei — quase um mês depois, no dia 2 de abril de 1946, quando o ex-diplomata

Shigetsuna Furuya escapou de um atentado e o empresário Chuzaburo Nomura, “o Rei do

Rami”, tombou morto pelas balas da organização fundamentalista japonesa. O chefe do

Serviço Secreto do dops, delegado Geraldo Cardoso de Mello, foi alcançado naquela manhã

pelo rádio do Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo paulista na época, quando

supervisionava o exame do cadáver de Nomura, na casa da rua Zacarias Klein, no Jabaquara,

a cinco quilômetros do bairro japonês. Era o secretário de Segurança Pública, Pedro de

Oliveira Ribeiro Sobrinho, comunicando que acabara de baixar uma portaria determinando a

instauração de inquérito e abertura de processo de expulsão de todos os envolvidos na morte

de Nomura e na ação frustrada na casa de Furuya. E que, por ordem do interventor Macedo

Soares, o inquérito seria presidido por ele, Cardoso de Mello. Munido de tais poderes, o

delegado convocou os investigadores disponíveis para rever tudo o que houvesse sobre seitas

japonesas nos arquivos da polícia. Em poucas horas concluiu que as mortes de Mizobe e

Nomura e o atentado a Furuya apontavam para o mesmo lugar: o casarão de número 98 da rua

Paracatu, no bairro do Bosque da Saúde – o mesmo endereço deixado no dops por Junji

Kikawa no começo do ano, quando o coronel tentou registrar a Shindo Renmei.

O exagerado aparato montado pela polícia naquela noite revelou-se desnecessário. Quando

Cardoso de Mello e o delegado de Segurança Pessoal, Alfredo de Assis, arrebentaram a porta

de entrada do sobrado, dezenas de policiais armados de fuzis, pistolas e metralhadoras já

estavam a postos em todas as demais portas e janelas da casa. Os onze japoneses que se

encontravam lá dentro, no entanto, estavam desarmados e não pareciam dispostos a oferecer

nenhum tipo de reação. Segundo um jornalista presente à invasão, eles “não demonstraram

nenhuma surpresa, conservando-se calmos, pretendendo fazer crer tratar-se de uma reunião

entre amigos”.

Na sala de reuniões da casa, sob duas bandeiras japonesas, a polícia prendeu Ryotaro

Negoro e Seiichi Tomari — substitutos do foragido coronel Kikawa na direção da

organização — e mais nove imigrantes, entre os quais estava Eiiti Sakane, o japonês de

barbicha que fizera parte do grupo dos sete que haviam tentado degolar o cabo Edmundo no

“caso da bandeira”, ocorrido em Tupã no começo do ano. Os demais eram dirigentes de

sucursais da Shindo no interior do estado. Na parede, ao lado de uma foto do imperador

Hiroíto, um estandarte exibia uma enorme flor de cerejeira lilás, bordada sobre tecido branco:

era o símbolo da Shindo Renmei, a Liga do Caminho dos Súditos. Kikawa falara a verdade: não havia dúvidas de que ali era o quartel-general dos terroristas japoneses.

Por uma passagem aberta no muro do quintal, tinha-se acesso à casa vizinha, também

ocupada pela Shindo Renmei. Nos cômodos dos dois imóveis os policiais iam encontrando

altares xintoístas, salas para treinamento de judô e jiu-jítsu, salas de reunião, tipografias,

estúdios e laboratórios fotográficos. E pilhas de papéis, documentos, ordens internas, cartas

de ameaças, “listas negras” com nomes de “derrotistas”, caixas contendo milhares de

cruzeiros em cédulas empacotadas, circulares, fotografias fraudadas e as trouxinhas que eram

entregues aos matadores, contendo armas, bandeiras e manifestos. Salvo um revólver

enferrujado e duas garruchas decrépitas, nenhuma outra arma de fogo foi encontrada na casa.

O “material subversivo” espalhado pelos vários cômodos da sede, porém, era fartíssimo. Num

cômodo revestido de placas isolantes de cortiça tinha sido instalada uma poderosa estação de

rádio, capaz de se comunicar, em segundos, “com o território metropolitano japonês”, segundo

explicou didaticamente o engenheiro Negoro. Para espanto dos policiais, o japonês chegou a

se oferecer candidamente para fazer uma demonstração do equipamento: se a polícia quisesse,

ele faria uma ligação direta com o Japão para que todos pudessem verificar “a excelente

qualidade da recepção” — no que foi impedido pelo delegado Assis, que considerou a oferta

“um atrevimento desse criminoso”.

Os repórteres pareciam se deliciar com o comportamento insólito dos líderes da Shindo

Renmei — rebatizada pelos jornalistas, no noticiário do dia seguinte, como “a Ku Klux Klan

nipônica” ou “a Gestapo oriental”, tudo sempre seguido de garrafais pontos de exclamação.

Curiosamente, apesar de chegar ao exagero na condenação aos crimes da Shindo, muitos

jornalistas e intelectuais não conseguiam esconder uma ponta de admiração por aqueles tipos

tão exóticos. O jornalista Agostinho Rodrigues Filho, que cobriu os acontecimentos para a

revista Diretrizes — uma publicação tida como esquerdista, dirigida por Samuel Wainer, o

jornalista que seis anos depois criaria o jornal Última Hora —, escreveria, emocionado,

sobre o que testemunhou:

 

Assisti aos depoimentos de membros da famosa Shindo Renmei. Vi criminosos impávidos,

inconscientes do próprio delito, indiferentes às conseqüências de sua atitude, assumirem

plena responsabilidade de atos cruéis friamente narrados. Homens de bem, com vidas

impolutas, vinte ou trinta anos de trabalho honesto no campo ou na cidade, respeitadores

das leis e respeitados pelos seus costumes, bruscamente se manifestavam implacáveis

assassinos.

 

Em um profético artigo publicado no jornal A Gazeta, o poeta modernista Menotti del

Picchia enxergava “fé patriótica” por trás dos crimes da Shindo Renmei e previa a posição

que o país recém-derrotado iria ocupar meio século depois:

 

No xadrez político das forças ocidentais, o japonês seria a melhor vanguarda do mundo

capitalista no Oriente. Era só cultivar-lhe a mentalidade nacionalistvvvva, rígida

barreira forjada com fanatismo. Pelo Japão, pelo imperador, pela bandeira, a fé

patriótica de cada súdito do Mikado é capaz de todos os crimes. Os tokkotai são as

resultantes desse exacerbado clima de amor a uma tradição mais que milenar.

 

A exibição dos “troféus” arrebatados aos japoneses aconteceria no dia seguinte, quando a

polícia chamou a imprensa para uma entrevista coletiva com o delegado Alfredo de Assis —

que o jornal A Gazeta já tratava como “o homem do momento, a quem coube a difícil missão

de responder, em nome da polícia de São Paulo, da lei e da justiça, aos desafios lançados na

capital e no interior, pelos componentes das sociedades terroristas”. Assis colocou sobre

estrados a montanha de papéis, bandeiras, mapas e fotografias encontradas na sede da Shindo

Renmei: seis bandeiras japonesas; quatro álbuns de fotografias de membros da diretoria da

organização; cinco pacotes com fotografias adulteradas do ato de rendição do Japão (nas

quais o general MacArthur aparecia como o derrotado); edições falsas da revista norte-

americana Life, nas quais as legendas das fotos eram substituídas por outras, dando a entender

que o Japão saíra vitorioso da Segunda Guerra Mundial; pacotes contendo maços de notas

falsas de ienes, a desvalorizada moeda japonesa; fotos de tabuletas contendo ameaças a

“derrotistas” e relações de sócios, recibos de pagamentos de mensalidades, mapas do estado

de São Paulo com a localização de cada sucursal da Shindo. Num armário foram encontrados

pacotes contendo falsos selos postais japoneses, supostamente emitidos pelo governo do

Japão para festejar a vitória sobre os Aliados. No meio da confusa papelada dos japoneses a

polícia encontrou uma nova “lista negra” de quarenta nomes da colônia condenados à morte

pela Shindo Renmei por traição à pátria.

Dos imigrantes escolhidos agora para morrer apenas três não eram empresários: o tradutor

“Paulo” Yoshikazu Morita, funcionário da Seção Japonesa do Consulado da Suécia em São

Paulo (e que atuara como intérprete do dops em Marília, nos interrogatórios sobre a ameaça

de degola do cabo da Força Pública de Tupã), e os jornalistas Sukenari Onaga, ex-dono do

jornal Nippon Shimbun, e seu filho, Hideo, repórter do Jornal de S. Paulo. Juntamente com

um pequeno grupo de colegas, entre os quais estavam Claúdio Abramo e Hermínio Sacchetta,

Hideo havia deixado a Folha da Manhã (embrião do que seria, anos depois, o jornal Folha

de S.Paulo) em protesto contra a venda do jornal ao industrial Francisco Matarazzo ii, o

“conde Chiquinho”. Embalado pela ventania democrática que varrera o Brasil no fim do

Estado Novo, o grupo fundara o Jornal de S. Paulo, um diário ágil e moderno. Era lá que

Hideo publicava as reportagens que tanto irritaram os fanáticos da Shindo Renmei. Para ele, a

questão se resumia a separar a colônia em três grupos: os velhacos, que estavam ganhando

dinheiro com o fanatismo da colônia; os japoneses ignorantes, que se deixavam levar por

idéias tão sem pé nem cabeça; e os “cultos”, ou “esclarecidos”, estigmatizados como

derrotistas ou traidores. Poucos dias depois da morte de seu amigo e vizinho Chuzaburo

Nomura, Hideo Onaga publicaria um artigo sobre o tema:

[...] Navios japoneses aportariam no Rio de Janeiro a fim de recolher os súditos que

acreditavam na vitória do Japão. Passagens foram vendidas... Para a compra das

passagens, que custavam milhares de cruzeiros, fora os direitos de reserva com

antecedência, vendiam os pobres japoneses suas terras (a preços exíguos, dada a

pressa), retiravam dos bancos as economias, suspendiam os cursos dos filhos nas

escolas, visando conseguir o dinheiro necessário para seguir... rumo à Canaã acenada

pelos inescrupulosos patrícios. Os hotéis, pensões, em São Paulo, ficaram abarrotados

de gente que vinha esperar o navio ou apenas cumprimentar o enviado especial do

imperador. Não houve, naturalmente, nem navio e nem enviado especial. O navio tivera

um desarranjo, sendo obrigado a retornar ao Japão. O enviado especial chegaria por via

aérea. Enquanto isso, no interior, a colônia festejava a vitória do Japão. Os delegados,

cientes do fato que comemoravam, não podiam evitar um sorriso de compaixão...

Estavam vendo? Os delegados de polícia tinham recebido uma ordem direta do

representante do governo japonês, no sentido de que soltassem imediatamente os

japoneses que comemoravam a vitória da pátria, sob pena de serem castigados. [...] Veio

daí a idéia de extermínio. O primeiro em Bastos, morto a tiros. O segundo em São Paulo,

antigo jornalista... Um ex-diplomata por pouco não pagou com a vida... Todos do

terceiro grupo estão incluídos nas listas de morte de organizações que agem sob

denominações patrióticas e pomposas...

 

Para a polícia paulista, no entanto, a descoberta do mais importante “covil amarelo”

transformava a Shindo Renmei numa coisa do passado. Agora restava apenas prender o velho

coronel Junji Kikawa e o ainda desconhecido matador de Ikuta Mizobe, que continuavam

foragidos e, segundo palavras do delegado Alfredo de Assis, “estava liquidada a duplicata”.

O policial saboreava a vitória sobre o “perigo amarelo”, oferecendo detalhes aos repórteres:

“No dia 5 de março, desembarcaram em São Paulo, procedentes de Quintana, Marília,

Pompéia e Tupã, quarenta súditos japoneses, bem instruídos sobre o que deveriam levar a

efeito nesta capital. Divididos em oito grupos de cinco — os tokkotai, ou ‘Unidade Especial

de Ataque’ —, constituíam uma verdadeira tropa de choque terrorista, cujo fanatismo exigia

até o sacrifício da própria vida para executar os japoneses que duvidavam da vitória de sua

pátria. Mas desde ontem à noite, graças à ação enérgica da polícia, esse perigo deixou de

existir.”

Segundo o policial, antes de embarcar, cada membro da tokkotai recebia “de uma pessoa

muito importante e influente” a importância de mil cruzeiros em dinheiro e uma série de

instruções, que começavam pela obrigação de obter um emprego na capital para não despertar

suspeitas das autoridades. O delegado acertara o nome do grupo e a data do embarque dos

japoneses para São Paulo. Só que eles não eram quarenta, mas apenas dez, e o perigo estava

longe de chegar ao fim.

Os matadores vinham sendo aliciados desde que os makegumi de São Paulo publicaram nos

jornais o manifesto falando do fim da guerra e da derrota do Japão. Encarregado pela direção

da Shindo Renmei de montar os “Batalhões do Vento Divino” (como também eram chamados

o s tokkotai), o chacareiro Sunao Shinyashiki, de Quintana, saiu em busca, segundo suas

próprias palavras, de “rapazes dispostos a dar a vida pelo Japão e pela família imperial”. Em

poucas semanas já tinha dez nomes selecionados. No fim de fevereiro o grupo se encontrou

pela primeira vez, altas horas da noite, em Quintana, na casa do ferreiro Massao Honke — ele

próprio um voluntário tokkotai. Shinyashiki resumiu, mais uma vez, os objetivos da missão

que tinham pela frente: iam matar traidores da pátria, portanto, não estariam cometendo um

crime, mas realizando um trabalho de “limpeza” da colônia; a todo condenado deveria ser

dado o direito de se suicidar, se preferisse isso a ser executado; quando a tarefa de um grupo

chegasse ao fim, isto é, quando todos os “derrotistas” da sua lista tivessem sido executados, o

grupo deveria se entregar às autoridades; quem fosse apanhado pela polícia durante uma ação

deveria se entregar sem reagir, já que a organização nada tinha contra o Brasil ou os

brasileiros; quem possuísse revólver devia levar o seu, e quem não tivesse receberia dinheiro

em São Paulo para comprar um usado; e, finalmente, ninguém deveria jamais admitir ligação

alguma com a Shindo Renmei.

Na noite de 5 de março, pontualmente às sete da noite, saiu de Tupã o trem noturno da

Companhia Paulista com destino a São Paulo. Precisos trinta minutos depois, a composição de

vinte vagões parava na estação de Quintana. Um japonês jovem, com o rosto semi-encoberto

pelo chapéu e com uma passagem na mão, espiou pelas janelas, viu a primeira classe — onde

as poltronas eram almofadadas e as cabeceiras protegidas por fronhas imaculadamente

brancas — e percebeu que estava no vagão errado. Deu mais alguns passos em direção à

velha locomotiva a vapor que bufava na ponta da estação e entrou na segunda classe, com

bancos de madeira nua. Era o lavrador Massakiti Taniguti, 32 anos, plantador de algodão em

Quintana. Depois de uma rápida parada em Paulópolis, às 19h50 o trem encostou na estação

de Pompéia, onde havia pouco mais de dez pessoas para embarcar. Entre elas estavam cinco

jovens japoneses que se sentaram em lugares separados, como se nunca tivessem se visto

antes. Eram Tatsuo Watanabe, farmacêutico, 33 anos, Hiromi Yamashita, vendedor ambulante,

21 anos, Shimpei Kitamura, tintureiro, 26 anos, Tokuiti Hidaka, vinte anos, comerciário, e

Taro Mushino, lavrador. A maioria só conhecia São Paulo de passagem, no caminho entre o

porto de Santos e o interior, no dia da chegada ao Brasil. Ao contrário do que afirmara o

delegado Assis na entrevista à imprensa, salvo Watanabe, que levava 5 mil cruzeiros

escondidos no fundo da trouxa (dinheiro que lhe fora dado por alguém que ele conhecera

apenas como “Tsuji”, dono da Confeitaria Deliciosa, em Quintana), os demais viajavam só

com a roupa do corpo e um previdente bento de arroz, legumes e peixe defumado. Os dois

mais jovens, Yamashita e Hidaka, que ainda viviam com os pais, tiveram que inventar

mentiras em casa para poder viajar. Isso embora Hidaka já tivesse tido complicações com a

polícia, ao participar da tentativa de degola do cabo Edmundo em Tupã, façanha da qual participara outro passageiro daquela viagem, o tintureiro Shimpei Kitamura.

Às sete da manhã — pontualmente, como convinha a um trem da Paulista — a composição

parou na Estação da Luz, no centro de São Paulo, onde os seis eram esperados por Sunao

Shinyashiki. Os primeiros dias na capital foram passados num lugar fantasmagórico: a

Tinturaria Oriente, do patrício Kamegoro Ogazawara, um radical de 57 anos. As primeiras

instruções eram dadas nos salões dos tanques de tingimento, espalhados pelos porões de

várias casas geminadas. A precária iluminação do lugar vinha da luz mortiça de algumas

lâmpadas penduradas no teto. Sob um calor insuportável, dezenas de japoneses seminus, com

as cabeças protegidas por turbantes, molhados de suor, passavam dia e noite num trabalho que

parecia não ter fim. Correndo de um lado para outro, baixavam e levantavam varais cobertos

de peças de tecido fumegante que eram mergulhadas nos tanques onde fervia a anilina — em

cada tanque, uma cor diferente. E era nesse inferno colorido que Kamegoro Ogazawara dava

as instruções diárias aos tokkotai — aparentemente sem se preocupar com o fato de estar

sendo ouvido pelos empregados, que sumiam e reapareciam atrás de nuvens de vapor, o tempo

todo respirando um asfixiante cheiro de amoníaco proveniente da anilina.

Para alívio de todos, quatro ou cinco dias depois da chegada Ogazawara anunciou que o

grupo iria mudar de esconderijo, pois era preciso liberar os dois quartinhos que os seis

ocupavam, ao lado dos tanques de tintura, para abrigar outros rapazes que chegariam do

interior. Em horários e dias diferentes eles deixaram o bairro japonês, atravessaram a cidade

e foram bater em Santo Amaro, nos confins da Zona Sul, onde tinha sido preparado para

recebê-los um novo “covil amarelo”, como diriam depois os jornais. O endereço dado por

Ogazawara — um matagal batizado com o surpreendente nome de alameda Paris — era uma

chácara, em cuja porta esperava-os o dono. Para alguns ele se apresentava como Tsurutaro

Ushisawa, seu verdadeiro nome, e para outros como “Kenjo Sawai”, nome artístico pelo qual

preferia ser tratado. A senha combinada parecia pouco lógica para dar acesso a um lugar que

se dedicava exclusivamente a produzir verduras. Para poder entrar, cada um que chegava tinha

que repetir a mesma frase para Sawai:

“Vim do interior e gostaria de aprender a técnica de criação de frangos.”

Era o suficiente para atravessar a cerca viva coberta de chuchuzeiros que protegia a

chácara de olhares indiscretos. Embora o destino o tivesse convertido em um modesto

plantador de couves e rabanetes, Kenjo Sawai, de 51 anos, era um homem refinado. Durante

toda a juventude fora cantor profissional de operetas japonesas — vinha dessa época o

pseudônimo que adotara em caráter permanente. Franzino e totalmente calvo, nunca chegou a

ser um astro reconhecido por multidões, mas foi graças à voz que resistiu durante mais de dez

anos à tentação de imigrar para o Brasil. Em 1931, porém, a crise econômica que massacrava

o Japão não lhe deu alternativas: no meio do ano ele desembarcava em Santos. Embora tivesse

vindo, oficialmente, como um par de braços a mais para a lavoura, Sawai conseguiu trabalhar

durante seis meses na sua profissão. Corria a colônia de trem, de ônibus, a cavalo e de carona,

cantando em aniversários e casamentos. Mas seus patrícios eram pobres demais para se dar a tais luxos, e ele teve que mudar de ramo, permanecendo sempre no campo das artes: tornou-se

importador de filmes japoneses, que ele próprio levava para o interior para exibir de cidade

em cidade, nas regiões de grande concentração de imigrantes japoneses. Sawai estava com a

vida arrumada: casou-se com uma imigrante, com quem teve cinco filhos, e vivia em paz até

que começou a Segunda Guerra Mundial. Como empresário e importador de filmes, ele se viu

enquadrado em vários artigos da dura legislação brasileira contra os “súditos do Eixo”, e teve

que encerrar suas atividades cinematográficas. Juntou o que tinha e comprou a chácara, onde

passou a plantar verduras.

Quando a guerra acabou, Sawai, patriota exaltado, picou em pedaços, na frente da mulher e

dos filhos, o jornal que trazia o manifesto dos japoneses “esclarecidos”. Jurou que faria tudo

para que fossem castigados sem piedade os “traidores indignos” que haviam assinado o

documento. Quando soube da existência da Shindo Renmei, não precisou ser aliciado por

ninguém: pela mão de um amigo, ficou conhecendo Sunao Shinyashiki, por intermédio de quem

se colocou a serviço da organização. Ao saber o que estava sendo tramado, Sawai ofereceu-se

para hospedar em sua chácara alguns dos tokkotai que viriam a São Paulo, segundo

Shinyashiki, para “lavar com sangue a honra da pátria”. Nos fundos do seu terreno havia dois

grandes galpões de madeira que, recobertos de tatames de judô, poderiam abrigar várias

pessoas. A partir daquele momento o sítio de Sawai convertia-se na sétima “base” que a

Shindo Renmei instalava na capital para acoitar matadores de makegumi. As outras eram as

tinturarias Oriente e Aragaki e mais quatro propriedades como a de Sawai, todas situadas em

bairros distantes na periferia de São Paulo ou em cidades vizinhas.

Ao chegarem à chácara de Sawai os rapazes vindos da Oriente descobriram que não

estavam sós. Já se encontravam lá, além de Sunao Shinyashiki, mais quatro japoneses com

idades em torno dos trinta anos, que eles já conheciam de reuniões preparatórias no interior.

Fumio Ueda, Kozonori Yoshida e Massao Honke eram de Quintana, e Mitsuro Ikeda, de

Pompéia. Dono de uma pequena fábrica de carimbos, Ikeda (que por alguma razão preferia ser

chamado de “Antônio”, e não Mitsuro) se destacava dos demais pela elegância. Alto, magro e

bonito, ele dava à vasta cabeleira e ao bigodinho fino, muito em moda na época, tratamento

digno de um astro do cinema. E tanto podia aparecer com vistosos lenços amarrados ao

pescoço como calçando botas de montaria, cujos canos lustrosos vinham até o joelho. Mas não

foi a formosura que levou a Shindo a escolhê-lo: a fama de Ikeda na Alta Paulista dizia que

ele era capaz de espatifar com um tiro de revólver de calibre .45 uma caixa de fósforos

atirada ao ar.

Com o reencontro dos dez na chácara de Sawai estavam montados os dois primeiros

pelotões de matadores — por alguma razão nunca explicada, os estrategistas da Shindo

Renmei decidiram que os tokkotai deveriam atacar sempre em grupos de cinco. Nas duas ou

três semanas seguintes o grupo ouviu de novo as instruções para quando estivesse em ação,

que eram repetidas ou pelo mesmo Ogazawara, da Tinturaria Oriente, ou por Sunao

Shinyashiki. Às vezes algum dos rapazes sumia por dois ou três dias, para retornar contando que tinha estado em reuniões na Oriente ou na “chácara do Tomizuka”, onde havia outros

grupos de rapazes hospedados. As recomendações eram mais ou menos as mesmas de sempre:

todos deviam usar bandeira do Japão sob a roupa; toda ação teria que ser precedida da

entrega de uma “carta de suicídio” ao traidor, junto com um tanto, a adaga japonesa

recomendada para a prática do haraquiri, ou do seppuku, o suicídio ritual. Embora a Shindo

Renmei tivesse sido apresentada pela imprensa de São Paulo e do Rio como uma organização

que usava “técnicas modernas em seu diabólico trabalho”, em suas reuniões o amadorismo

lembrava um grupo de crianças brincando de matar. Na noite de 23 de fevereiro, por exemplo,

os dez rapazes hospedados na casa de Sawai foram convocados para uma reunião com

Ogazawara e Shinyashiki. Era para anunciar os nomes dos três primeiros “corações sujos” que

eles estavam encarregados de matar: os empresários Shibata Myakoshi e Chuzaburo Nomura,

“o Rei do Rami”, e o ex-diplomata Shigetsuma Furuya — dois signatários e um idealizador do

manifesto à colônia. Quando um dos rapazes vindos do interior perguntou onde os condenados

moravam, Shinyashiki respondeu que descobriria isso ao final da reunião, “consultando a lista

telefônica” da capital. E, para que os assassinos pudessem se familiarizar com suas futuras

vítimas, Kamegoro Ogazawara fez circular entre os tokkotai velhos recortes de jornais

japoneses com fotos em que um dos três aparecia.

Não deveria surpreender a ninguém, portanto, o fiasco em que resultou a estréia da

“máquina de matar” da Shindo Renmei. No começo da madrugada de 30 para 31 de março os

dez foram acordados por Shinyashiki e Ogazawara com uma ordem: eles tinham meia hora

para se aprontar, porque os três “derrotistas” iam ser mortos naquela noite. Junto com os dois

apareceu uma cara nova: o jornalista Seijiro Mihara, que havia sido encarregado de redigir as

“cartas de suicídio” para o caso de os “derrotistas” preferirem praticar o haraquiri.

Ogazawara fez questão de frisar que a inclusão de Shibata Miyakoshi na lista dos condenados

era mais uma prova do “caráter implacável” do coronel Kikawa: mesmo sendo amigo de

Miyakoshi desde o Japão (havia sido ele, inclusive, quem escrevera cartas a Takako, filho do

coronel, convencendo-o a imigrar para o Brasil), Kikawa pusera “os brios da pátria acima

dos sentimentos pessoais” e decidira pela execução. Divididos em duplas ou grupos de três,

no meio da madrugada eles deixaram Santo Amaro, tendo ficado combinado que se

encontrariam às quatro horas da manhã em frente ao número 12 da rua Pamplona, nas

imediações da avenida Paulista, de onde partiriam para o acerto de contas com o makegumi.

Embora a presença de onze japoneses (na última hora Shinyashiki decidiu participar da ação,

para estimular os demais) em plena madrugada, fora do bairro japonês, pudesse chamar a

atenção da polícia, eles se reencontraram na hora e local acertados. A ação tinha tudo para dar

certo, não fosse um detalhe ignorado pelo bando, composto quase integralmente de gente do

interior: a mansão de Myakochi ficava na mesma rua e a poucos metros daquele que era

provavelmente um dos imóveis mais bem policiados da cidade, a casa do conde Matarazzo, o

homem mais rico do Brasil. Os japoneses tiveram que dar meia-volta e desistir do plano.

Meio século depois o tokkotai Tokuiti Hidaka se lembraria envergonhado do malogro daquela noite:

“Nós estávamos tão perdidos naquela cidade desconhecida que parecíamos onze caipiras

japoneses fazendo turismo na porta da casa do Matarazzo em plena madrugada...”

O supersticioso Shinyashiki achou que o fracasso da ação era um sinal de mau agouro e

decidiu adiar para a noite seguinte as outras duas execuções. O dia clareava quando os onze

retornaram desolados ao sítio de Sawai. Na madrugada de 1o de abril foram todos tirados

novamente das camas, dessa vez apenas por Kamegoro Ogazawara, que desistira de voltar à

casa de Myakochi. Os escolhidos daquela noite eram o ex-diplomata Shiguetsuna Furuya e o

industrial Chuzaburo Nomura. Os dez matadores foram divididos em dois grupos. O primeiro,

comandado por Tatsuo Watanabe, era formado por dois membros do “caso da bandeira”,

Shimpei Kitamura e Tokuiti Hidaka, pelo elegante “Antônio” Ikeda e por Kozonori Yoshida, e

ficaria encarregado de eliminar Furuya. Do segundo, chefiado por Massakiti Taniguti, faziam

parte o ferreiro Massao Honke, Fumio Ueda, Hiromi Yamashita e Taro Mushino, aos quais

caberia liquidar Nomura. Além dos revólveres e das bandeiras para enrolar no corpo,

Ogazawara entregou a cada um deles uma capa amarela, idêntica às que eram usadas pelos

feirantes de São Paulo — japoneses, em sua maioria. A ordem final era: terminadas as ações,

os grupos deveriam se dispersar, e cada um se esconderia em um determinado lugar.

Os cinco do primeiro grupo saíram da chácara antes da meia-noite. Para não dar na vista,

cada um deles tomou num ponto diferente o bonde que os levaria até as proximidades do

endereço de Furuya — também localizado por Watanabe com a ajuda da lista telefônica —, no

bairro da Aclimação, não muito longe do bairro japonês. Como o portão estava aberto, eles

entraram sem ser percebidos e se esconderam nas moitas do jardim. Ali permaneceram,

acocorados e em silêncio, até por volta das cinco da madrugada, quando uma luz se acendeu e

alguém abriu a janela, como se tivesse ouvido algum ruído suspeito — era Shiguetsuna

Furuya. Ao olhar para Watanabe, à espera de ordens, e vê-lo apontar dois revólveres na

direção da janela, disparando-os ao mesmo tempo, os quatro também começaram a atirar. Por

alguns instantes o jardim da casa de Furuya ficou iluminado pelo fogaréu que saía dos canos

das armas dos cinco japoneses. Quando a barulheira infernal terminou, os tokkotai

descobriram, perplexos, que tinham feito o mais difícil: Furuya continuava vivo. Ninguém

conseguira acertá-lo, a menos de cinco metros de distância, apesar de terem sido feitos

dezessete disparos de revólveres — dos quais cinco tinham vindo da arma de “Antônio”

Ikeda, o tal que diziam ser o melhor atirador da colônia. Ao perceber que Furuya fugira para

outro cômodo, Watanabe e Ikeda tentaram, sem sucesso, arrombar a porta de acesso ao

interior da casa. Ao ouvir um apito de um guarda-noturno, Watanabe gritou que ia se entregar

e deu ordens para que todos fizessem o mesmo, mas só Ikeda obedeceu. Quando a polícia

apareceu, Yoshida, Hidaka e Shimpei Kitamura já haviam desaparecido nas ladeiras da

Aclimação, cada um a caminho de um esconderijo diferente. Obedecendo às ordens de

Ogazawara, Kitamura apresentou-se como “Goto” em uma granja de frangos do bairro de

Rudge Ramos, a caminho de Santos, onde já o esperavam com um quarto arrumado. Yoshida foi para a chácara de um certo Matsura, em Osasco, e Tokuiti Hidaka voltou para o quartinho

abafado e malcheiroso da tinturaria de Kamegoro Ogazawara.

O segundo grupo, chefiado por Massakiti Taniguti, saíra do sítio de Sawai às quatro da

madrugada, depois de receber as armas, as capas amarelas e as bandeiras do Japão. Em

poucos minutos dois táxis atravessavam as capoeiras de mato fechado que formavam o bairro

do Jabaquara, a poucos quilômetros da chácara de Sawai, deixando-os nas proximidades do

casarão onde vivia Chuzaburo Nomura. Os cinco vestiram as capas e empunharam as armas.

Massao Honke ficou de guarda no portão da casa, enquanto Taniguti, Hiromi Yamashita,

Fumio Ueda e Taro Mushino entraram pelos fundos da casa e bateram na porta da cozinha,

onde a mulher de Nomura fazia café. Ao ouvir o barulho da chave rodando na fechadura, os

quatro invadiram a casa. Ueda agarrou a mulher de Nomura por trás, aplicando-lhe uma

gravata com o braço esquerdo e tapando sua boca com a mão direita. O tokkotai sussurrou no

ouvido da aterrorizada japonesa:

“Pode ficar tranqüila, a Shindo Renmei não mata mulher nem criança. Viemos matar seu

marido, que é traidor da pátria.”

Alguém que ouvira o barulho gritou lá de dentro:

“Não deixem papai sair do quarto!”

Yamashita e Mushino tentaram entrar no cômodo de onde viera a voz, mas o filho de

Nomura, que se encontrava lá dentro, trancou a porta. Nesse momento o dono da casa surgiu,

descalço e vestindo um pijama listrado. Sem dizer uma palavra, Taniguti apontou o revólver

contra a cabeça de Nomura, apertando o gatilho. Uma mancha vermelha pareceu brotar em seu

pescoço, e ele cambaleou esguichando sangue pela casa, agarrando nos móveis, como se

tentasse entrar no quarto cuja porta o filho trancara. Mas permaneceu de pé. Yamashita e

Mushino apareceram e atiraram nele várias vezes . Ueda largou a mulher gritando no meio da

sala e também disparou dois tiros sobre o dono da casa. Nomura desabou no chão. Sem saber

o que fazer com a carta de suicídio e com a adaga que levava nas mãos, Yamashita arrastou

Nomura pelos braços para o meio da sala, onde havia mais luz, para certificar-se de que

estava morto. Estava, mas ainda assim Fumio Ueda voltou alguns passos, encostou o cano do

revólver na altura do coração e disparou à queima-roupa uma última bala no peito de Nomura,

gritando:

“Morra, traidor indigno!”

A ação durou poucos minutos. Os quatro deixaram a casa correndo, encontraram Honke no

portão e desapareceram pelos matagais do Jabaquara. Na hora de saltar uma mureta no jardim

da casa de Nomura, Yamashita perdeu um pé do sapato. Honke livrou-se da capa amarela e

atirou-a num buraco, e cada um sumiu numa direção diferente. Taniguti e Ueda chegariam no

fim da manhã ao sítio de Tomizuka, na Chácara Flora, também na região sul da cidade, onde

Massao Honke já estava. Hiromi Yamashita foi para a Estação da Luz e tomou um trem para a

cidade de Suzano, nas vizinhanças de São Paulo, onde foi instalado na granja de Fukugiro

Hoshino. O único a não aparecer em nenhum dos esconderijos foi Taro Mushino, que, segundo se soube depois, se perdera na cidade e fora parar na casa de um amigo, nos confins da Penha.

No sítio da Chácara Flora, Honke e Ueda foram aconselhados pelo dono, Tomikuza, a se

esconder em um lugar mais seguro, e mudaram-se para a tinturaria de Kamako Aragaki,

também em Santo Amaro, onde Sunao Shinyashiki os esperava. Não podiam ter feito troca

pior: três dias depois o dops apareceu e prendeu todo mundo — menos Shinyashiki, que havia

saído horas antes, deixando no ar uma sombra de suspeita.

Uma semana depois da primeira aparição da Shindo Renmei na capital, o relatório

apresentado pela polícia ao interventor Macedo Soares exibia um saldo desanimador para os

kachigumi: além dos cinco tokkotai e de quase toda a diretoria já estarem na cadeia, cerca de

setecentos japoneses tinham sido presos sob suspeita de ligações com a organização. Agora,

porém, até a polícia tinha certeza de que aquilo não significava o fim da matança de

japoneses. Ainda havia tokkotai soltos, mas faltava saber quem eram, quantos eram e onde

estavam escondidos.