Corações Sujos

Fernando Morais · Capítulo 6 de 12

Páginas do PDF

Corações Sujos

6 - Japoneses são caçados a laço e arrastados pelas ruas da cidade. chegou o “dia da forra”.

6

JAPONESES SÃO CAÇADOS

A LAÇO E ARRASTADOS

PELAS RUAS DA CIDADE.

CHEGOU O “DIA DA FORRA”.

M esmo depois de permanecer horas em pé, no salão do palácio, nenhum daqueles japoneses parecia impaciente. Segundo diria depois ao jornal A Noite um dos militares presentes, “o olhar gelado daquelas centenas de homens não revelava impaciência, raiva, ódio ou descontentamento; não revelava nada”. Lotado o Salão Vermelho e entupidas todas as dependências térreas e as escadarias, grupos de japoneses se espalhavam pelos jardins da sede do governo estadual. A maioria usava paletó e gravata, e muitos despertavam a

curiosidade de funcionários e policiais por causa de seus jikatabi — os tais sapatos “unha de

vaca”, mais comuns no interior. Era uma platéia composta quase só de homens: entre os 436

japoneses identificados pelos policiais do dops naquela tarde, havia apenas uma mulher.

Ainda aturdidas pela surpresa provocada pela inesperada multidão, as autoridades postaram-

se num semicírculo, de frente para os japoneses — que permaneciam silenciosos e

impenetráveis. O locutor oficial anunciou nomes e postos de todos, do interventor aos dois

intérpretes, e deu início à cerimônia — uma interminável, chatíssima sucessão de leituras de

documentos, Fala do Trono, Rescrito Imperial e documentos da chancelaria japonesa. E como

tudo o que era lido em português tinha que ser vertido para o japonês, e vice-versa, aquilo

prometia ir longe.

Na condição de interventor — e de autor da tese da “mística contra a mística” —, o

primeiro a falar foi Macedo Soares. De gravata-borboleta e óculos redondos, ele apenas

agradeceu a presença de todos, japoneses e autoridades, ressaltou o traço democrático

daquele encontro e disse que voltaria a fazer uso da palavra no encerramento da cerimônia.

Pediu que os trabalhos fossem conduzidos pelo embaixador Kumlin e determinou que se

lavrasse uma ata daquela reunião, “documento que, ao final, todos os presentes assinaremos”,

anunciou, sublinhando a palavra todos. Nenhum dos presentes parecia mover um só músculo

do rosto, nem mesmo depois que o intérprete vertia a frase para a língua japonesa. Segundo os

jornais do dia seguinte, “era impossível saber, pela aparência, o que os nipônicos deviam

estar pensando de tudo aquilo”.

Nessa atmosfera tensa o embaixador Ragnar Kumlin passou a ler a papelada. O primeiro

documento, redigido em Tóquio por ordem do Supremo Comando Aliado, era uma carta

dirigida aos japoneses residentes no Brasil por Shigeru Yoshida, ministro das Relações

Exteriores do Japão. Longa e repleta de circunlóquios, ela não deixava dúvidas: a guerra tinha

mesmo chegado ao fim e o Japão de fato se rendera aos Aliados:

 

[...] Os japoneses residentes no Brasil, por sua parte, não devem ser transviados por

rumores irresponsáveis que circulam no ultramar, mas, com dignidade e paciência,

devem fazer face à realidade dura e rígida de que a última guerra terminou com a

rendição do Japão, que o futuro deste está pleno de dificuldades e que o dever dos

japoneses no Brasil é viver pacificamente e empregar a maior energia em seus afazeres,

contribuindo assim para a prosperidade do Brasil, pátria de adoção.

 

Como a carta do ministro fazia referências à Fala do Trono, ela foi lida na íntegra, com

cada frase sendo traduzida para o português ou para o japonês. Não passou despercebido pela

platéia que as palavras rendição e incondicional, inexistentes na fala de Hiroíto de 2 de

setembro, aparecessem nove vezes na papelada que o embaixador sueco lera. Temeroso de

que isso pudesse despertar suspeitas entre os japoneses, Kumlin esclareceu que os originais

de toda a documentação mencionada estariam à disposição dos interessados na sede do

Consulado da Suécia em São Paulo. Antes de devolver a palavra ao interventor, o embaixador

sueco reiterou que, diante dos documentos que acabara de ler, não havia “a menor

possibilidade de dúvidas a respeito da situação que vosso país passou a viver”. E encerrou

sua participação com palavras duras contra os vitoristas, segundo ele “indivíduos torpes e

inescrupulosos, pessoas de caráter criminoso e subversivo que vêm explorando a boa-fé e a

ignorância dos colonos nipônicos”.

Apesar de serem os destinatários das críticas de Kumlin — afinal, para aquele encontro

tinham sido convocados apenas os kachigumi —, os japoneses permaneceram imóveis e

silenciosos. Depois de algumas horas de leituras de rescritos e declarações oficiais, chegou

finalmente a vez de ouvir Macedo Soares. E o interventor engrossou ainda mais as críticas à

Shindo Renmei, segundo ele uma “associação secreta terrorista” que vinha matando patrícios

“pelo simples fato de se haverem rendido à evidência da realidade”. Chamando os militantes

da seita de “seres indignos da hospitalidade da nossa pátria”, Macedo Soares prometeu

reprimir com dureza “os que insistirem em recalcitrar”:

“Como se vê da leitura dos documentos, a situação do Japão está clara e bem definida. Está

fora de dúvida a rendição incondicional. Todos os implicados serão expulsos do território

nacional, mas ape`nas depois de cumpridas as penas de que se fizeram merecedores pela

gravidade dos seus crimes.”

A seguir, o interventor leu o último parágrafo da ata que mandara lavrar:

“Os japoneses aqui presentes declararam-se de pleno acordo com tudo quanto acabaram de

ouvir, comprometendo-se a colaborar com as autoridades nacionais para evitar a reprodução

dos fatos acima referidos. A presente ata, depois de lida e conferida, vai assinada por todos

os presentes.”

Antes de encerrar o ato, Macedo Soares perguntou se algum dos presentes queria fazer uso

da palavra. Um japonesinho calvo, metido em um terno que parecia duas vezes maior que o

dono, levantou a mão, identificou-se como “Tatayo Omasa, de Duartina”, e pediu para falar,

desculpando-se por não saber português. Enquanto ele discursava, o interventor, sorridente,

parecia festejar o sucesso da teoria da “mística contra a mística”. Mas a alegria das autoridades durou apenas o tempo que Paulo Morita levou para traduzir as palavras de

Omasa:

“Não assinaremos nada que fale de rendição do Japão! Nossa pátria está nessa guerra por

ordem divina. Nós acreditamos piamente na vitória do Japão! O Japão é um país divino, dono

de uma gloriosa história de 3 mil anos.”

Até então impassíveis, os seiscentos japoneses prorromperam em aplausos e gritos de

“Muito bem!” e “Apoiado!”. Só eles parecem não ter visto o ar de perplexidade geral: um

boletim da Shindo Renmei distribuído naquele mesmo dia afirmaria que, “quando o intérprete

Morita traduziu a fala de Omasa, parecia-nos ver lágrimas nos olhos do interventor e outras

autoridades presentes. Os chefes militares, impressionados com o espírito altivo do orador,

sorriam e se admiravam”. Depois de Omasa, a única mulher presente apresentou-se como “a

sra. Sachiko, representante de Agudos”, e falou em português:

“Senhor presidente do estado. Nenhum de nós acredita na derrota do Japão. Se Vossa

Excelência deseja acabar com as disputas e atos terroristas entre japoneses, comece por

anunciar a vitória do Japão e mande suspender imediatamente a propaganda falsa da derrota.

Sem essas medidas, os atos terroristas jamais cessarão.”

Mais aplausos, mais constrangimento das autoridades. Macedo Soares impediu que

policiais presentes prendessem os dois oradores, e manteve o roteiro original: se alguém

ainda quisesse falar, a palavra estava livre. Mais três japoneses reiteraram o que havia sido

dito antes, deixando claro o impasse: ninguém ali assinaria a ata se não fosse excluída dela

qualquer referência à derrota do Japão. Um homem alto e magro, com o rosto encovado,

apresentou-se como Seiiti Hayakawa, “grande comerciante em Tupã”. Falando sempre em

japonês, deixou claro que, se o governo queria o fim da matança, o preço era alto:

“O governo precisa fazer duas coisas: autorizar o restabelecimento do correio entre o

Brasil e o Japão e proibir os jornais de publicar propaganda americana falando na derrota

japonesa. E, como o Japão está empenhado em uma guerra santa, as autoridades brasileiras

perdem tempo querendo convencer os japoneses da derrota da pátria. A menos que um

representante do imperador venha trazer notícias pessoalmente.”

Os japoneses exultavam. Animado com o clima de vitória, outro imigrante sugeriu que no

rol das reivindicações fosse incluída a suspensão do inquérito policial em curso contra os

membros da Shindo Renmei. Mais aplausos e gritos de “Banzai Nippon!”. A muito custo

Macedo Soares conseguiu se fazer ouvir pela agora ruidosa multidão. Convencido de que sua

“reunião de pacificação” caminhava para um desconcertante fracasso, o interventor não

parecia a mesma pessoa que horas antes falara grosso com os fanáticos:

“Meus caros 200 mil japoneses residentes no Brasil. Os senhores são um tesouro do Brasil.

São a parte mais importante da população brasileira. Queiram ouvir-me. O nosso país, o

Brasil, não entrou em guerra com a pátria dos senhores, o Japão. O Japão esteve em guerra

contra a Grã-Bretanha, os Estados Unidos, Rússia e China. Assim, determino que seja

eliminada a expressão ‘rendição incondicional’ da ata.”

Atordoados com o que acabavam de ouvir, o cardeal Mota e os dois militares se

entreolharam, surpresos. O embaixador Kumlin, que já havia cumprido sua tarefa, batera em

retirada logo que o primeiro japonês começou a falar. Macedo Soares continuou fazendo

concessões. Prometeu interceder junto ao governo federal para restabelecer a correspondência

entre o Brasil e o Japão, descartou “por desnecessária” a vinda de qualquer representante do

governo japonês a São Paulo e empurrou para o secretário da Segurança Pública, Pedro de

Oliveira Ribeiro, a embaraçosa missão de responder ao pedido de censura aos jornais.

Contrário desde o começo à realização da reunião, Oliveira Ribeiro (que considerou o pedido

dos japoneses “uma desfaçatez”, como desabafaria depois) teve que ensaiar contorcionismos

políticos e verbais para obedecer à ordem do interventor. Explicou didaticamente aos

imigrantes que o Brasil vivia em uma democracia e que, portanto, a imprensa era livre para

publicar o que bem entendesse. Para não azedar ainda mais a situação, porém, o secretário

acenou com a possibilidade de o governo “apelar aos donos de jornais”, mas desde já

prevenia os presentes de que dificilmente a imprensa deixaria de falar em “capitulação

japonesa”.

Para os japoneses, estava de bom tamanho. O dia começava a escurecer quando o

interventor deu por encerrado o que ele chamou de “encontro histórico”. Excluídas as

expressões derrota, rendição e incondicional, a ata foi assinada pelo interventor José Carlos

de Macedo Soares, pelo cardeal Mota, pelos dois militares e por todo o secretariado. E, em

seguida, por 334 dos seiscentos “súditos japoneses presentes”. Mesmo com as exigências

atendidas, mais de cem japoneses se recusaram a assinar o documento, alegando que aquilo

era “propaganda americana”. Todos os que assim agiram foram identificados por policiais do

dops ali mesmo e fichados como suspeitos. A notícia da indiscutível vitória da Shindo Renmei

chegaria à colônia no mesmo dia, por meio de boletins mimeografados na capital e

distribuídos por todo o estado. Neles apareciam, atribuídas ao interventor, promessas que

ninguém havia feito. Uma frase publicada como sendo de Macedo Soares era reproduzida em

todos os panfletos: “Prometo que de hoje em diante vou proibir toda e qualquer publicação

referente à derrota do Japão e sobre a organização secreta dos japoneses”. A reação da

opinião pública à reunião podia ser vista no dia seguinte nas primeiras páginas dos jornais do

Rio e de São Paulo:

 

Redundou em pleno fracasso a reunião de ontem realizada no Palácio dos Campos

Elíseos.

 

A ação condenável dos fanáticos da Shindo Renmei.

 

Recusaram-se a assinar a ata, fizeram imposições e exigiram até censura à imprensa!

 

A Shindo Renmei impôs condições ao governo do estado.

O secretário da Segurança também promete zelar pelas suscetibilidades dos

 

terroristas.

 

Continuam não acreditando na derrota do Japão!

 

Se a Shindo Renmei ia ou não parar de matar, depois de receber tantas concessões de

Macedo Soares, era algo que só o tempo podia dizer. Mas, mesmo sem esta pretensão, a

reunião nos Campos Elíseos conseguiu algo inédito na história da imigração: colocar a

opinião pública brasileira contra a colônia japonesa. Um editorial intitulado “O terrorismo

japonês”, publicado pelo influente jornal A Gazeta, resumia a indignação resultante da reunião

no Palácio dos Campos Elíseos:

 

A reunião de ontem, à qual compareceram os terroristas membros da associação de

delinqüentes denominada Shindo Renmei, é a prova do atrevimento de colônias

estrangeiras. Não tiveram eles a compostura necessária em presença do interventor

federal que lhes deu a honra de audiência como aquela. [...] Indivíduos maus,

perniciosos mesmo, inassimiláveis pelo labor racial, [...] jogam-se ao delito com a

avidez de feras, não retrocedendo na execução dos assassínios ordenados pela sociedade

secreta a que obedecem. [...] A interventoria não tem outra coisa que fazer, senão

mandar às galés tipos tão falhos de sentimentos e educação, obsessionados pela

megalomania de Hiroíto, o caricato filho do sol. [...] Um deles teve, nos Campos Elíseos,

a empáfia de exigir que os jornais silenciem a respeito dos homicídios traiçoeiros

perpetrados por ordem da Shindo Renmei. Os amarelos mostraram a dentuça, como se o

Brasil fosse a Coréia ou as Filipinas. A corja nipo-nazi-fascista se engana. Há de

retroceder, antes que o povo brasileiro se decida a enxotá-los daqui, como bandidos que

são. O que se passou nos Campos Elíseos transcende as raias da tolerância, da paciência

e da boa vontade. Não há dúvida de que é necessário expulsar da nossa casa os

propagadores da onda de delitos que transforma o Brasil em refúgio de bandidos.

 

O bombardeio não parava por aí. O jornalista e tradutor de japonês Mário Botelho de

Miranda criticaria com idêntica dureza o comportamento do interventor:

 

Fizesse a reunião [...] à maneira japonesa, mesmo: um único superior dando ordens

severas para serem cumpridas e ouvidas, sem direito a fazerem uso da palavra;

castigando dali para a enxovia, através da polícia, os que tentassem se rebelar durante a

reunião. Seria uma tentativa mais amoldada à psicologia do nipônico fanático,

incutindo-lhe um complexo de inferioridade de classe e de força física a que estavam

acostumados quando em seu país. Porque a “mística contra mística” que o senhor

interventor pretendeu impor, para o fanatismo japonês foi sinal de fraqueza, foi derrota

e reconhecimento da sua “vitória”. Assim é a psicologia do japonês comum. Que dirá,

então, a de um fanático? [...]

 

O tiroteio prosseguia. Na sua coluna da Folha da Noite o cronista Maragliano Júnior

ironizava o que chamou de “maluquices dos amarelos”:

 

Os japoneses que andam por aí matando os patrícios que não acreditam na vitória do

país exigiram e obtiveram do governo que se riscassem, da ata de compromisso de trégua

da luta fratricida, as expressões referentes à rendição incondicional do país das

cerejeiras. Disse um amigo meu: fazendo-lhes a vontade, eles se acalmam em suas

maluquices e voltam quietos a plantar as batatas de que estamos necessitados. Pois nós

não queremos plantá-las...

 

Para conter a onda de indignação que a reunião provocara, o Palácio dos Campos Elíseos

precisou montar uma operação para apagar o incêndio que lavrava na imprensa. Os primeiros

a socorrer Macedo Soares foram duas autoridades presentes ao ato, o brigadeiro Ararigbóia e

o embaixador Kumlin. Em entrevistas que a Agência Nacional distribuiu para dezenas de

jornais do Rio e de São Paulo, o tom de ambos era o mesmo: segundo o militar, o interventor

tinha adotado uma política inteligente de “persuasão e convencimento” e acertara ao

“combater uma mística com outra mística”. Em uma afirmação taxativa, assegurou que os

resultados do encontro “não se fariam esperar”:

“Aí, então, o interventor colherá os frutos de sua patriótica iniciativa.”

O embaixador Ragnar Kumlin repetiu a dose em outra entrevista, concedida ao jornal

carioca A Noite e também redistribuída aos demais veículos como press-release da Agência

Nacional. O diplomata sueco reiterava que as críticas a Macedo Soares eram prematuras,

afirmando que “como se trata de uma guerra psicológica, e não de uma Blitzkrieg, os efeitos

serão demorados”:

“É preciso não esquecer que o chefe do governo paulista, antes de ser um político, já era

um hábil e destacado diplomata. Ele sabe onde é essencial a força e onde vale o argumento.”

A operação não terminava aí. Chamado a socorrer o governo, o antropólogo Octavio da

Costa Eduardo, professor da Faculdade de Sociologia e Política, deu entrevista à Folha da

Manhã (também republicada por vários jornais) garantindo que a iniciativa do interventor

tinha sido “etnologicamente correta”. O professor, no entanto, considerou “inconveniente” a

idéia de fuzilar os membros da Shindo Renmei, proposta pelos setores mais radicais, “a não

ser que se deseje fazer mártires, já que essa medida só exacerbaria ainda mais as tensões

nervosas”. Quando pediram sua opinião sobre a ameaça de expulsão do Brasil que pesava

sobre os membros da seita, Octavio da Costa Eduardo escapuliu diplomaticamente, dizendo

que essa resposta cabia “à economia paulista”. Até o padre Sabóia de Medeiros, convertido em estrela da direita ao desafiar o líder comunista Luís Carlos Prestes para um debate

radiofônico, saiu em defesa de Macedo Soares. O padre acreditava que a raiz dos problemas

vividos pela colônia japonesa residia no “paganismo selvático dos amarelos”, mas era

contrário à expulsão em massa dos criminosos, por razões econômicas e religiosas:

“Os fazendeiros logo perguntariam: onde estão os braços para substituí-los? Quem plantará

arroz? E os missionários também lamentariam, dizendo: lá se vão, com essas almas, as nossas

esperanças. Em vez de se abrirem ao Evangelho, essas almas vão endurecer ainda mais...”

Apesar de todos os esforços, ninguém tinha dúvida de que a reunião do Palácio dos Campos

Elíseos resultara em retumbante fiasco. Desnorteado e em busca de um veículo por meio do

qual pudesse se comunicar com a colônia, o governo decidiu autorizar a reabertura de um dos

mais importantes jornais japoneses, o São Paulo-Shimbun, que havia sido fechado durante a

guerra. Convocado pelas autoridades, o antigo dono do Shimbun, Kossugue Kohatsu, aceitou a

proposta mas esclareceu que a volta às bancas levaria dois meses — e que, ainda assim, ele

ressurgiria como semanário, e não mais como diário. Aos donos de estações de rádio pediu-se

que fossem divulgados sucessivos boletins “destinados à orientação da comunidade nipônica

para que ela volte à harmonia”. Diante da visível incapacidade do governo paulista em pôr

fim às atividades da Shindo Renmei, o consulado americano decidiu entrar em campo com um

pacote de medidas batizado de “Operação Verdade”. O cônsul-geral dos Estados Unidos em

São Paulo, Cecil Cross, conseguiu que o Supremo Comando Aliado, a máxima autoridade em

território japonês, enviasse de avião ao Brasil dezenas de milhares de exemplares dos jornais

editados em Tóquio, Hiroshima, Fukuoka, Kumamoto, Fukushima, Yamanashi, Nagasaki,

Hokkaido e Okinawa (cidades natais de noventa por cento dos membros da colônia no Brasil),

com farto noticiário sobre o fim da guerra, a derrota do Japão e a rendição incondicional. Em

poucos dias, caminhões do Exército e da Força Pública percorriam o interior do estado

distribuindo pacotes com exemplares dos jornais Mainichi, Asahi Shimbun, Tokio Shimbun e

Yomiuri Hoshi. Além disso, o comando aliado reforçou a munição e enviou ao Brasil latas de

filmes contendo imagens das cidades japonesas devastadas, cenas da cerimônia de rendição e

entrevistas com ex-autoridades japonesas esclarecendo a real situação do Japão. Por mais

cega que fosse a fé dos militantes da Shindo, não parecia restar nenhuma dúvida de que a

“Esfera de Co-Prosperidade da Grande Ásia Oriental” tinha sido varrida do mapa. O que

parecia cristalino até para uma criança, porém, não entrava na cabeça dos kachigumi. Todos

os esforços deram em nada. Para frustração de Thomas Scott, adido de imprensa do consulado

americano, encarregado de dirigir a “Operação Verdade”, as notícias que vinham do interior

diziam que a maioria dos destinatários reagira com absoluto ceticismo. Para os japoneses,

aquela era apenas mais uma jogada, mais um golpe da propaganda americana para quebrar o

moral dos japoneses espalhados pelo mundo.

O interventor José Carlos de Macedo Soares, no entanto, não parecia compartilhar das

apreensões dos diplomatas americanos. Em 30 de julho, onze dias após a reunião com os

japoneses, ele viajou ao Rio de Janeiro para levar ao ministro da Justiça Carlos Luz um relatório sobre a conflagração em São Paulo. Quando saiu da audiência já era noite fechada,

mas os repórteres permaneciam de plantão na ante-sala do gabinete, à espera de notícias.

Macedo Soares insistiu em que o encontro no Palácio havia sido produtivo e, como se

respondesse às críticas da imprensa, repetiu que a atitude de São Paulo com relação à Shindo

Renmei não seria alterada. “Estamos agindo com energia com os terroristas”, disse o

interventor, “mas não nos afastaremos um milímetro da lei.” À pergunta de um jornalista que

queria saber se a guerra entre japoneses tinha chegado ao fim, Macedo Soares reagiu com

tranqüilidade:

“Em oito dias os terroristas mataram dez pessoas. Depois da reunião que realizei no

Palácio, não se registraram mais crimes. Repito aos senhores o que assegurei ao ministro da

Justiça: as evidências indicam que todos os paulistas, tanto os brasileiros como os japoneses,

já podem dormir em paz.”

Minutos depois de despedir-se dos repórteres, o interventor tomava o trem expresso

Cruzeiro do Sul em direção à capital paulista. A oitocentos quilômetros dali, naquela mesma

hora o motorista Pascoal de Oliveira, o Nego, guiava seu caminhão pela estradinha de terra

que ligava Bastos a Osvaldo Cruz, onde ele vivia. Quando faltava pouco para entrar na

cidade, um outro caminhão fechou sua passagem, ao ultrapassá-lo, quase jogando o seu

Chevrolet Gigante num precipício. Depois do jantar, como fazia todos os dias, Nego foi até o

bar do Chico Costa, no centro da cidade, para tomar sua cachaça e conversar com os amigos.

O motorista permaneceu lá até perto das dez da noite, e, quando se preparava para pagar a

conta, um caminhão estacionou na porta do bar e dele desceu o motorista Kababe Massame,

um japonês de pouco mais de vinte anos. Ao reconhecer o recém-chegado como o autor da

fechada que sofrera na estrada, Nego decidiu tirar satisfações com ele. A discussão parecia

ser apenas mais um bate-boca entre dois motoristas, mas Massame sacou inesperadamente um

punhal e desferiu um golpe seco e mortal no coração de Nego. Nenhum japonês esboçou

reação alguma. Aproveitando-se do susto dos brasileiros que tentavam socorrer Nego — que

tivera morte instantânea —, o assassino correu para a rua e sumiu na escuridão. A notícia da

morte correu pela noite, despertando nos brasileiros de Osvaldo Cruz ódios que eles próprios

desconheciam. Aquele não era um crime qualquer, mas o assassinato, por um japonês, de um

brasileiro muito querido na cidade.

 

■

 

A população japonesa de Osvaldo Cruz não alcançava as proporções de Bilac e de Bastos.

Menos da metade dos 12 mil habitantes locais eram japoneses, mas a voz corrente na cidade

dizia que apenas dois deles não eram militantes ou simpatizantes da Shindo Renmei: o

farmacêutico Izuyo Suzuki e o engenheiro Yutaka Abe. Se Suzuki era mais discreto em suas

idéias “derrotistas”, Abe fazia questão de alardear sua condição de imigrante aculturado. Ao

contrário da esmagadora maioria budista da colônia, freqüentava a igreja batista da cidade, naturalizou-se brasileiro, era assinante de jornais brasileiros e desfrutava o privilégio de ser o

único japonês na cidade com autorização para ter um rádio em casa — deferência negada aos

demais membros da comunidade nipônica. Outro traço marcante da tradição japonesa que Abe

abolira em sua casa foi a presença de um personagem milenar, o nakodo — o encarregado de

intermediar casamentos entre filhos de japoneses. Yutaka Abe deixou claro que, se seus filhos

quisessem casar com brasileiros (o que de fato acabaria acontecendo com ambos), o

consentimento já estava dado. E, se “além de brasileiros, fossem pretos”, isso não fazia a

menor diferença. Na sua casa, portanto, o nakodo não poria os pés. A família havia se

abrasileirado de tal forma que o filho Shiguemizu (batizado com o nome cristão de Marcelo),

um adolescente de pouco mais de doze anos, tinha na ponta da língua a resposta para os

colegas de escola que o chamassem de japonês:

“Vá tomar no cu, filho da puta, porque eu não sou japonês. Sou brasileiro, nascido em

Minas Gerais, uai.”

Até nisso Abe era diferente dos demais patrícios. Antes de instalar-se em São Paulo,

destino da maioria dos imigrantes, ele foi bater primeiro em Araguari, no Triângulo Mineiro,

onde nasceram seus filhos. A guerra ainda não tinha chegado ao fim, mas, quando ele ouviu no

rádio que o Japão perdera a Manchúria para tropas soviéticas, não teve mais dúvidas de que a

derrota da pátria era uma questão de dias. Além de tornar públicas suas convicções, Abe

dizia, para quem quisesse ouvir, que não acreditava nas maluquices difundidas pela Shindo

Renmei, como a prometida chegada de navios para o repatriamento de japoneses ou a

inacreditável história da venda de terrenos nas ilhas supostamente conquistadas pelo Exército

Imperial no Pacífico. Apesar de tamanha veemência, os kachigumi não tinham perdido

totalmente a esperança de convertê-lo à causa patriótica. Dias depois de terminada a guerra, o

clube nipo-brasileiro da cidade, o bunka, organizou uma reunião para “discutir a real situação

do Japão”. Mesmo sabendo que a associação estava infestada por fanáticos da seita

nacionalista, Abe não se amedrontou: pediu a palavra e disse, com todas as letras, que a

guerra já havia acabado, que o Japão fora derrotado e que isso não era boato que alguém lhe

contara. Ele ouvira, pessoalmente, o imperador anunciando o ato de rendição. O auditório

pegou fogo. O corretor de imóveis e madeireiro San-Iti Chimen, chefe da Shindo Renmei na

cidade, levantou-se indignado e gritou para a platéia:

“Ele está mentindo!”

Em vez de aceitar a provocação, Abe reagiu com frieza:

“Você não tem rádio em casa, eu tenho. Eu posso escutar o noticiário internacional, você

não. Como você pode dizer que estou mentindo? Se você quiser podemos ir agora à minha

casa, eu ligo o rádio para quem quiser ouvir as notícias do fim da guerra.”

Ninguém queria ouvir propaganda americana, reagiram todos — à exceção do farmacêutico

Suzuki, aparentemente o único na cidade a compartilhar das opiniões de Abe. Os dois

deixaram a reunião do bunka acusados de pertencer à “quinta-coluna americana”, em meio a

gritos exaltados exigindo “vingança contra os traidores”. Em vez de aproximá-los dos patrícios, a reunião aumentou o fosso que separava os dois amigos da colônia. A ousadia dos

fanáticos da Shindo Renmei na cidade parecia não ter limites. Convencidos de que a guerra

ainda não chegara ao fim, e que seu país estava às portas da vitória, eles estenderam a

agressividade e a arrogância não apenas aos makegumi, os traidores da pátria, mas também

aos gaijin, os brasileiros. A ameaça que antes era apenas sussurrada passou a ser alardeada

em voz alta pelas ruas de Osvaldo Cruz: terminada a guerra, eles não iam botar canga só nos

patrícios derrotistas, mas também nos brasileiros.

Abe sabia que San-Iti Chimen era capaz de desatinos. Um dos raros casos de kachigumi

rico, ele fazia jus à origem de seu nome — San-Iti significa literalmente “três em um” —, já

que se tratava de um valentão de péssimos bofes. Ainda assim, não temia que Chimen e os

kachigumi da cidade pudessem fazer alguma loucura, mas, por insistência dos amigos

brasileiros, concordou em tomar precauções. Cada dia alguém da família — ele, a mulher, o

filho Marcelo ou a filha Toshiko, também adolescente — ficava encarregado de “fazer a

ronda” da casa antes de dormir, sempre de revólver na mão. Todas as noites o enorme

casarão, de madeira, como quase todas as construções da cidade, era varejado em busca de

algum sinal estranho. Lâmpadas de 150 velas foram instaladas em todos os cantos da casa,

iluminando os pontos cegos onde algum intruso pudesse se esconder. Assim como Suzuki, Abe

fora autorizado pelo delegado de polícia, Eduardo Paixão, a comprar revólveres para si e

para toda a família, e a partir de então ninguém mais na casa dormia sem ter sob o travesseiro

um .32 cheio de balas. Foi um esforço em vão. A Shindo Renmei já havia escalado os

carrascos para executar a sentença imposta a Abe e Suzuki. Em meados de julho o enfermeiro

Eiiti Sakane (um dos sete que participaram da frustrada tentativa de degola do cabo Edmundo,

em Tupã) convocou um grupo de jovens para liquidar os dois makegumi de Osvaldo Cruz.

Os escolhidos foram Sueto Yiama, Kazuto Yoshida, Kohei Kato e Kohei Itikawa, todos

lavradores, com idades entre 25 e trinta anos e moradores em chácaras espalhadas pela

região. A primeira reunião do grupo com Sakane aconteceria nos fundos do Bar do Ponto,

onde os quatro tinham sido instalados dias antes. O lugar era um conhecido reduto da colônia

japonesa “vitorista” da região, e sobre seu dono, o mestre em artes marciais Takeiko

Massuda, pesava a suspeita de usar o estabelecimento como um dos muitos “santuários”

mantidos pela Shindo Renmei para esconder tokkotai procurados pela polícia. Sakane

entregou a cada um deles uma trouxinha de pano contendo um revólver, 25 balas, uma

bandeira japonesa, uma faca tanto e 2 mil cruzeiros em dinheiro, e anunciou duas missões a

serem executadas imediatamente: Kato e Yoshida deveriam matar “o farmacêutico Assano”,

enquanto Yiama e Itikawa eliminariam “o chacareiro Maramatsu”, ambos residentes no então

distrito de Inúbia. Mesmo sem saber sequer os nomes completos das vítimas, os quatro

montaram a cavalo e partiram ignorando até os crimes que Assano e Maramatsu teriam

cometido. A expedição foi um fiasco. Toshimi Assano (que era advogado, e não farmacêutico)

preenchia todos os pré-requisitos para ser tachado de “derrotista” pela Shindo Renmei. Amigo

das autoridades brasileiras, era formador de fazendas, tinha caminhões e freqüentemente intermediava grandes negócios de terras. Falava três idiomas e durante muitos anos trabalhara

como guia de empresários em viagens para os Estados Unidos e para a Europa, o que o

aproximara dos brasileiros ricos da região da Alta Paulista. Sempre que tinha oportunidade,

aconselhava os patrícios a “largar dessa história de Shindo Renmei”.

Quando Kato e Yoshida apearam dos animais, depois de cavalgarem duas léguas até Inúbia,

Assano atendia a um freguês na farmácia do filho Jorge, que saíra por alguns minutos. Os dois

perguntaram quem era Assano, e quando o japonês atrás do balcão respondeu: “Sou eu”, Kato

disparou um tiro contra o patrício. A bala entrou pela têmpora e saiu pelo maxilar, cruzando

em diagonal a cabeça, mas milagrosamente Assano estava vivo. Caído atrás do balcão, ele

ainda levaria mais três tiros. Os dois tokkotai montaram em seus cavalos e retornaram a

Osvaldo Cruz, deixando para trás um makegumi ferido, mas vivo. Kato e Yoshida, na

verdade, tiveram sorte de não encontrar pela frente o brutamontes Vicente Careca, capanga de

Assano, famoso pela façanha de apanhar jibóias com as mãos e colocá-las dentro da camisa.

A dupla formada por Yiama e Itikawa, encarregada de matar “o chacareiro Maramatsu”, nem

sequer chegou a vê-lo: a segunda vítima estava viajando.

Escaldado com o fracasso dos estreantes, Eiiti Sakane decidiu incorporar-se ao grupo na

próxima ação. O alvo dessa vez estava mais próximo, a pouco mais de dez quadras do bar

onde o grupo se refugiava: eram as casas do farmacêutico Izuyo Suzuki e do engenheiro

Yutaka Abe. Na gelada noite de 22 de julho, Sakane juntou os quatro no fundo do bar para

anunciar:

“É hoje. As duplas de Inúbia serão mantidas: Kato e Yoshida vão explodir a casa do Abe,

enquanto Yiama e Itikawa vão incendiar a casa do Suzuki. Eu vou com a dupla que vai pôr a

bomba no Abe.”

Não faltava muito para o dia clarear quando os cinco deixaram o Bar do Ponto se

esgueirando pelas sombras. Levando em um embornal de pano a bomba fabricada por um

ferreiro de Tupã, Sakane e os outros dois tokkotai tomaram o rumo da casa de Abe. A

caminho da casa do farmacêutico, Yiama e Itikawa carregavam em cada mão um galão de

gasolina. Naquela noite a família Abe tinha ido a um baile em uma cidade vizinha, só

retornando perto das cinco horas da madrugada. Fatigados pela noitada, os quatro desabaram

em suas camas sem que ninguém tivesse feito a ronda cotidiana. Minutos depois, quando

estavam todos dormindo, um estrondo despertou a cidade. Colocada sob o assoalho da casa, a

bomba da Shindo Renmei explodira exatamente debaixo do quarto onde dormia o garoto

Marcelo. Além de fazer na terra um buraco de um metro de profundidade, a bomba arrancou o

piso feito de três camadas de peroba dura e fez voar um guarda-roupa, que se espatifou no

chão, do outro lado do quarto. Uma lasca de madeira atingiu sem gravidade o queixo do

menino, fazendo dele a única vítima do atentado. No meio da fumaceira que tomou conta da

casa, os quatro se levantaram de armas em punho, mas já não havia sinal dos terroristas.

Mal a polícia chegava ao local e alguém trouxe a última notícia: um incêndio criminoso

lavrava naquele momento na casa do outro membro da lista negra dos makegumi da cidade, o farmacêutico Izuyo Suzuki. Algum espião informara aos tokkotai que Suzuki armazenava em

casa um grande estoque de garrafas de álcool, e eles pretendiam fazer o imóvel arder

espalhando gasolina à sua volta e ateando fogo. Antes que as chamas se alastrassem, porém, o

farmacêutico saiu de casa atirando, o que pôs em fuga os fanáticos. Ninguém dormiu mais

naquela noite em Osvaldo Cruz. A polícia descobriu que a bomba colocada na casa de Abe

era uma engenhoca feita com um fole de matar formigas cheio de pregos, pedras e estilhaços

de ferro, à qual tinha sido amarrado um estopim longo o bastante para permitir que os tokkotai

estivessem longe na hora da explosão. O clima de revolta entre os brasileiros era

generalizado. Um amigo de Yutaka Abe, o derrubador de mato José Pombalino, ofereceu os

serviços de quarenta jagunços armados de carabinas para caçar os autores dos dois atentados.

Mas o gordo e pacato japonês não estava interessado em vendeta. Em vez de reagir a tiros ele

propôs que fossem todos para a igreja local, onde o padre rezou uma missa pela paz na

cidade.

As preces encomendadas por Abe não surtiram resultados. Uma semana depois dos dois

atentados, com a cidade ainda imersa em uma atmosfera de revolta, o motorista japonês

Kababe Massame reacenderia os ódios da população ao tirar a vida de Nego. Na longa noite

que se seguiu ao crime, a cidade parecia estar em vigília permanente. Grupos de brasileiros

armados de porretes iam e vinham nas imediações da casa onde o cadáver de Nego estava

sendo velado. Massame desaparecera depois de cometer o crime, mas durante a noite alguém

apareceu no velório para anunciar que o assassino estava escondido dentro de uma latrina, na

casa de uns japoneses da Vila Califórnia, a caminho da zona rural da cidade. O criminoso

conseguira encolher-se a ponto de caber atrás do vaso sanitário — de onde, minutos depois,

seria retirado a pauladas por uma horda de brasileiros que viera do velório. Não fosse a

imediata intervenção do delegado de polícia, o japonês não sobreviveria à fúria de seus

captores.

Quando o dia clareou um grupo de brasileiros tomava café da manhã no Bar do Ponto. O

assunto de todas as mesas era, naturalmente, o crime da noite anterior e os atentados contra

Abe e Suzuki. Ao aproximar-se de uma das mesas com uma cesta de pães, o dono do bar,

Takeiko Massuda, foi provocado por um brasileiro:

“Abre o olho, japonês, porque o povo está doido para pegar um de vocês para vingar a

morte do Nego.”

Confiante na sua condição de detentor do nono dan — o mais alto grau que um lutador faixa

preta de judô pode alcançar —, Massuda não se intimidou com a presença quase que só de

brasileiros à sua volta e deu uma resposta atravessada:

“Vingar o Nego por quê? Além de brasileiro, ele era preto. Por mim podia matar uns dez

vagabundos desses que dava na mesma...”

Era a gota d’água que faltava para transbordar o ódio represado. O brasileiro que recebeu o

desaforo de Massuda levantou-se pronto para brigar:

“Ô, seu filho de uma puta! Tá pensando que manda no Brasil? Vamos ver se você é mesmo macho pra matar um brasileiro.”

A cena que se seguiu foi testemunhada pelo pequeno Marcelo Abe — que jamais veria algo

parecido, nem meio século depois, quando os efeitos eletrônicos do cinema fariam voar os

invencíveis ninjas. Com um único e certeiro golpe, dado com as pontas dos dedos no gogó do

brasileiro, Massuda colocou-o no chão, fora de combate. Os quatro amigos que tomavam café

com ele partiram para cima do japonês, mas tiveram que pedir reforços ao perceber que

sozinhos não podiam com o sujeito. Muitos anos depois Marcelo Abe se lembraria, sem

esconder o entusiasmo, da inesquecível exibição de técnica de um mestre de artes marciais:

“Em instantes havia dez brasileiros brigando com o dono do bar. E apanhando, porque ele

era um sujeito feroz, era dos bons, faixa preta. Dali a pouco já deviam ser uns vinte — e o

cara enchendo todos de porrada. No melhor da luta, um caboclo amigo do meu pai gritou para

eu ir embora para casa, porque o pessoal decidira pegar a japonesada de pau e nem todo

mundo sabia que eu era filho do Abe. Se eu não caísse fora, podia sobrar para mim.”

O menino foi descendo a avenida Brasil em direção à casa dos pais. Quando já havia

andado um quarteirão, olhou para trás e viu que foi preciso quase cinqüenta brasileiros para

conter Massuda. Arrebentado de pancadas, o valente japonês saiu do bar com as mãos e os

pés amarrados por cordas e foi arrastado pelas ruas como um fardo. Um homem ia na frente do

grupo, gritando como um louco:

“Lincha! Lincha! Chegou o dia da forra! Hoje não fica um japonês em pé na cidade!”

A impressão que se teve, a partir daquele instante, é que todos os brasileiros de Osvaldo

Cruz — velhos e jovens, pretos e brancos, ricos e pobres — tinham dívidas pessoais a cobrar

de algum japonês. E que o dia da cobrança havia chegado. O que se veria em seguida não era

obra de um grupo de desordeiros, como se lembraria, mais de cinqüenta anos depois, o

historiador José Alvarenga, na época secretário da Prefeitura da cidade. Até hoje cheio de

dedos, temendo mexer numa ferida já cicatrizada, ele reconhece que o surto coletivo de

violência contaminou todos os brasileiros, indistintamente:

“Não eram só pessoas comuns, eram também pessoas destacadas. Houve participação de

pessoas comuns, mas muitos eram esclarecidos e respeitáveis. Não gostaria de citar nomes,

em respeito aos descendentes e aos seus familiares que ainda moram aqui. Mas posso dizer

que, se o povão e as pessoas humildes colaboraram, a iniciativa das agressões e dos

massacres foi de pessoas tidas como esclarecidas.”

Sem que ninguém pudesse jamais explicar por que fazia aquilo, pacatos pais de família

pareciam ter despertado com o diabo no corpo naquela fria quarta-feira, dia 31 de julho de

1946. Não se tratava mais de Shindo Renmei ou de vitoristas contra derrotistas, mas de um

acerto de contas de brasileiros com japoneses — algo nunca explicado suficientemente. Se a

morte de Nego tinha sido o estopim, a espoleta fora a reação de Massuda no café da manhã no

Bar do Ponto. Depois de imobilizado, o judoca, desacordado e moído de pancadas, foi

amarrado com cordas e arrastado pelas ruas da cidade. Em vez de se condoer, a população

parece ter se animado com a cena, e minutos depois bandos de homens tomados de fúria passaram a percorrer as ruas no encalço de japoneses. Ninguém parecia querer pegar

especificamente esse ou aquele, mas qualquer japonês. Homem, mulher, criança, velho, não

importava. Pais de famílias brasileiros invadiam casas tão simples quanto as suas, e de lá

tiravam, arrastados pelos cabelos, pais de família japoneses humilhados na frente de suas

mulheres e de seus filhos. Crianças japonesas viam, aterrorizadas, seus pais serem espancados

pelos pais de seus amigos brasileiros. O jovem Marcelo Abe subiu ao segundo pavimento do

sobrado da família, de onde desfrutava de uma privilegiada visão do centro da confusão, a

avenida Brasil:

“A avenida estava cheia de gente, de brasileiros querendo pegar japoneses. O pau comia

para todo lado. Um caboclo laçou um japonês e o arrastou pela avenida.”

Alguém achou original a idéia do laço, e a partir daí todo mundo queria laçar seu japonês e

arrastá-lo pelas ruas. Era o troco à ameaça de “pôr canga nos brasileiros” quando o Japão

ganhasse a guerra. Cavaleiros rodavam o centro da cidade buscando japoneses já

imobilizados para amarrar e arrastar pelas ruas, com a ponta da corda presa na chincha do

arreio. O historiador José Alvarenga, que acompanhou de perto o levante, recorreu a uma

imagem bovina para descrever o pesadelo vivido pela cidade:

 

O dia amanheceu e num estalo teve início a desvairada tragédia, como um estouro de

boiada que se esparrama em tropel louco e desenfreado, disparando sem rumo,

arrebentando tudo. Populares, impulsionados por instintos animalescos, saíram, em

grupos desatinados, à caça de indefesos japoneses que nada tinham a ver com o crime ou

com a ação dos fanáticos da Shindo Renmei. Invadiam seus lares, trazendo-os à força

para a rua, maltratando-os impiedosamente, açoitando-os, ferindo-os, puxando-os a laço

pelas vias públicas e cavalgando neles. Cenas iguais se repetiram, alternada e

inesperadamente, no decorrer do dia, em pontos diferentes da cidade, praticadas por

grupos que se desfaziam e se formavam de novo com alteração de seus integrantes. Os

japoneses suportaram, com resignação, e sem esboçar nenhuma reação, a injusta

violência a que foram inexplicavelmente submetidos.

 

Como ainda estava em vigor a lei de guerra que proibia o porte e a propriedade de armas,

quase ninguém tinha revólveres ou espingardas em casa — o que certamente poupou a vida de

muitos dos feridos na chacina de Osvaldo Cruz. Incapazes de conter a fúria popular, as duas

únicas autoridades da cidade, o prefeito Valdemar Pio de Oliveira e o delegado Eduardo

Paixão, ligaram o serviço de som que chegava a todo o centro da cidade pelas cornetas

penduradas em postes e marquises de prédios. Primeiro tentaram dar ordens, mas no fim os

dois faziam apelos desesperados para que as pessoas acabassem com aquilo e voltassem para

casa. Ninguém deu a menor atenção ao que eles diziam. Por todos os cantos era possível ver

japoneses sangrando, apedrejados e sem ter onde se esconder. No fim da manhã uma alma

generosa se compadeceu dos imigrantes: contra a opinião de todos, o médico Oswaldo Nunes decidiu sair de casa para socorrer os feridos. A vizinhança pedia para ele deixar os japoneses

entregues à própria sorte. “Não vai não, doutor”, gritavam homens e mulheres, “deixa esses

filhos da puta morrerem!”

À medida que se aproximava do centro, Nunes ia tendo uma noção do tamanho da encrenca

em que estavam metidos os japoneses da cidade. Um grupo de populares instigados “por um

conceituado cidadão de Osvaldo Cruz”, segundo o médico, tentava atear fogo numa pensão

japonesa em cujo forro tinham sido escondidas quinze crianças. Nunes foi obrigado a

empunhar uma pistola calibre .45 e brandir a carteira de oficial da reserva do Exército para

impedir a insanidade que ia sendo praticada. Mais adiante ele deparou com um japonês que se

escondera sobre uma montanha de sacos de arroz, dentro de um armazém. Descoberto por

brasileiros, ele foi arrastado para a rua e apunhalado várias vezes no peito e nas costas com

um furador de tirar amostras de grãos. Até o médico se espantou com o estado em que o

anônimo japonês tinha sido deixado: uma das cutiladas atingira o pulmão, fazendo com que o

ar expelido saísse pela axila, produzindo borbulhas no sangue que jorrava dos ferimentos.

Mas as armas preferidas eram o laço, pedras e paus. Nenhum japonês era poupado. A próxima

parada de Nunes, metros depois, foi para socorrer um idoso, franzino e de cabelos brancos,

que tinha sido descadeirado a pauladas. Em meio à algazarra dos atacantes, o velhinho

conseguiu levantar-se, trôpego e ensangüentado, escondendo-se no desvão onde o médico o

encontrou. Em alguns casos os feridos, já sem ação, eram agarrados pelos braços e pelas

pernas e jogados para o alto, como sacos.

Pouco depois do meio-dia uma nova ameaça aterrorizou ainda mais os japoneses: dali a

alguns minutos chegariam ao centro, vindas da zona rural, dezenas de criancinhas japonesas

cujas aulas começavam à uma da tarde. Era preciso impedir que elas entrassem em Osvaldo

Cruz, sob pena de estarem todos na iminência de uma tragédia de proporções ainda maiores.

Um pequeno grupo de japoneses conseguiu sair sorrateiramente do campo de batalha em que

se convertera o centro e tomou o rumo das colônias, chegando a tempo de mandar as crianças

de volta às suas casas.

O médico ainda tentou salvar pelo menos alguns japoneses, seus amigos, trancando-os no

único lugar supostamente seguro da cidade, o xadrez da delegacia local, mas logo percebeu

que a conflagração só seria contida com ajuda militar. Ele próprio tomou a iniciativa de ligar

para o comando da v Companhia do Exército, sediada em Tupã, que horas depois despachava

cinco caminhões com tropas armadas de metralhadoras para ocupar militarmente a cidade.

Quando o Exército se sentiu dono da situação, já eram onze da noite. O balanço da revolta

registrava, além de milhões de cruzeiros em prejuízos materiais, 49 pessoas internadas em

hospitais, todas com ferimentos graves. Quando um dos oficiais disse que só um milagre

explicava a inexistência de mortos, alguém explicou que não era bem assim:

“As pessoas não queriam matar os japoneses. Só humilhar.”

De fato as feridas da alma dos japoneses levariam muito mais tempo para cicatrizar do que

as fraturas e cabeças quebradas. Embora a Shindo Renmei não viesse a realizar mais nenhuma ação em Osvaldo Cruz, a relação da colônia com os dois makegumi da cidade, Abe e Suzuki,

piorou ainda mais. A comunidade suspeitava que eles tivessem sido os mandantes da revolta,

acusação a que Abe respondia de dedo em riste:

“Vocês é que são os responsáveis. No dia que explodiu a bomba na minha casa eu tinha

quarenta homens armados para matar vocês. Eu não deixei matar. Mas tenham certeza de uma

coisa: se eu morrer, não fica um japonês vivo em Osvaldo Cruz. Isso eu garanto a vocês: meia

hora depois da minha morte, os homens do Pombalino vão caçar os tokkotai onde eles

estiverem.”

A vingança da Shindo só viria a se materializar seis meses depois, no começo de 1947,

quando chegou à delegacia de polícia da cidade uma ordem de prisão contra Abe e Suzuki.

Não se tratava de um mandado emitido por um juiz, mas de uma ordem de alguém na cúpula da

polícia. Único dos procurados que estava na cidade, Izuyo Suzuki já saiu de casa algemado,

direto para a cadeia local, onde passou uma semana encarcerado. Yutaka Abe almoçava com

um amigo, o delegado de polícia da cidade de Oriente, a cem quilômetros de Osvaldo Cruz,

quando soube que havia “ordens de São Paulo” para prendê-lo. O policial aconselhou-o a

esconder-se durante alguns dias até que a situação se esclarecesse melhor, mas Abe resolveu

colocar o assunto em pratos limpos. Em vez de se refugiar, ele tomou um trem para São Paulo,

onde tinha um vasto círculo de relações que poderiam ajudá-lo a descobrir o que podia estar

por trás da misteriosa ordem de prisão. Não foi preciso muito esforço para chegar à ponta do

novelo. Depois de conversar com amigos influentes, Abe espantou-se ao descobrir que a

maquinação para colocá-lo na cadeia partira de ninguém menos que o recém-eleito

governador de São Paulo, Ademar de Barros. E soube mais: ao mandar prendê-lo, Ademar —

que conseguira o apoio eleitoral da Shindo Renmei em troca de favores — pagava à seita uma

das muitas promessas de campanha que fizera aos kachigumi.