Corações Sujos
5 - A polícia descobre o fumie, a tortura que só fere a alma do preso
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A POLÍCIA DESCOBRE
O FUMIE, A TORTURA
QUE SÓ FERE A
ALMA DO PRESO
U ma semana depois da morte de Chuzaburo Nomura e do frustrado atentado a Shiguetsuna Furuya, a polícia já havia prendido mais de 2 mil japoneses. Embora houvesse presos das mais variadasidades, uma peculiaridade chamava a atenção de todos: não havia uma só mulher entre eles — um retrato fiel do papel secundário que era reservado às mulheres na cultura japonesa. Quando alguém perguntava a um preso por que não existiam mulheres na Shindo Renmei, a resposta era sempre a mesma: “Isto é coisa para homens. As mulheres dos
japoneses ficam em casa”. De fato, ao final do processo contra a Shindo Renmei, de um total
de mais de 5 mil pessoas indiciadas, os nomes de mulheres envolvidas podiam ser contados
nos dedos de uma das mãos.
Com os xadrezes do dops lotados, as novas levas de presos passaram a ser distribuídas
pela Casa de Detenção, Penitenciária do Estado e pelos distritos policiais dos bairros da
capital. A organização obsessiva dos dirigentes da Shindo Renmei facilitava o trabalho da
polícia: os arquivos da sede central guardavam listas de milhares de militantes com endereços
e funções de cada um deles. Além disso, a minuciosa contabilidade da organização registrava
o destino de cada centavo arrecadado dos simpatizantes, permitindo que a polícia descobrisse
o setor da seita que recebia o grosso dos recursos da Shindo Renmei: eram as Suishintai —
“grupos de avanço” —, que forneciam a mão-de-obra para os pelotões tokkotai. Mesmo que a
polícia dispusesse de informações tão abundantes, os interrogatórios policiais eram
demoradíssimos. Primeiro porque a maioria não falava português, o que obrigava a polícia a
dispor, além de um policial e um escrivão, de um intérprete de plantão para o depoimento. E,
também, porque nenhum deles parecia disposto a abrir o bico.
Nos primeiros interrogatórios os policiais imaginavam ter descoberto um meio infalível
para saber quem era e quem não era militante da Shindo Renmei: bastava perguntar quem
venceu a guerra. Se o preso respondesse “o Japão”, não havia dúvidas, era terrorista. O
problema é que era raro alguém responder o contrário: apenas um ou dois em cada vinte
presos respondiam que a guerra tinha sido vencida pelos Aliados. O método foi abandonado
quando chegou do interior um policial que escoltara dois ônibus de presos vindos da região de
Marília. Segundo lhe dissera um delegado da cidade, o segredo era obrigar o preso a fazer o
fumie — ou seja, “pisar a figura”:
“Põe uma bandeira do Japão ou um retrato do imperador no chão e manda o japonês pisar
ou cuspir em cima. Se ele se recusar é porque é da Shindo.”
O fumie era uma prática originária da época dos samurais, no início do século xvii. Para
descobrir entre os japoneses quem havia sido convertido ao cristianismo pelos jesuítas, as
autoridades colocavam no chão uma imagem de Cristo e obrigavam o suspeito a pisar nela. Quem se recusasse era detido como cristão. Para a maioria dos japoneses, o fumie era mais
humilhante e doloroso do que as torturas físicas, estas também freqüentes na polícia. Tidos
como criminosos fanáticos, os japoneses presos não mereciam a compaixão de ninguém. E,
como não havia embaixada nem consulado japoneses no Brasil para protestar, os policiais se
sentiam à vontade para usar a violência ao tentar extrair informações dos presos. Quem se
recusasse a cometer a heresia era castigado com surras de cassetetes na sola dos pés,
afogamentos simulados em tinas cheias de água ou com a ameaça de ser mandado, mesmo sem
processo, para o presídio da ilha Anchieta, situada a menos de um quilômetro de distância do
litoral norte de São Paulo, onde o isolamento era quase absoluto.
Assim, o fumie passou a ser aplicado indistintamente em todo japonês que caísse nas mãos
da polícia — não apenas pelos carcereiros e investigadores, mas até pelos delegados, como
aconteceu com Yoshio Someya, de Pompéia. Preso sob suspeita de ajudar os tokkotai de sua
cidade, ele foi mandado para a Casa de Detenção, em São Paulo, onde passou vários dias sem
que ninguém lhe dirigisse a palavra. Quando chegou sua vez de depor, Someya soube que seria
ouvido pelo próprio chefe do Serviço Secreto do dops, Cardoso de Mello. Ao entrar no
gabinete do delegado, cruzou nos corredores com Seighi Fujihira, diretor das indústrias Hoa,
fabricantes de máquinas de fiação em Moji das Cruzes, cidade vizinha à capital. O que faria
no dops alguém como Fujihira, conhecido ativista do grupo dos makegumi? Someya achou a
resposta quando entrou na sala e viu, sobre a mesa do delegado, uma bandeira japonesa e um
enorme retrato de Hiroíto. Aquilo explicava tudo: o industrial tinha ido ao dops levar a foto e
a bandeira para o fumie. O delegado jogou no chão o retrato do imperador e ordenou que ele
pisasse em cima. Someya se recusou a cometer tal heresia. O policial fez o outro teste:
mandou o preso limpar seus sapatos com a bandeira. Diante de nova recusa, Cardoso de
Mello perguntou:
“Você acha que o Japão ganhou ou perdeu a guerra?”
Someya não caiu na armadilha, mas respondeu com indignação:
“Essa pergunta revela que o senhor é um grande ignorante, não é digno de ser um delegado
de polícia.”
O atrevimento custou caro ao japonês. Levado de volta à Detenção, ele recebeu tantas
borrachadas na sola dos pés que nos quatro dias seguintes teve que se movimentar pela cela
de gatinhas. Seus pés tinham ficado tão inchados que não podiam ser tocados. Meses depois,
Fujihira, suspeito de traição, seria vítima de um atentado a bala, só escapando com vida
graças à péssima pontaria do patrício que o atacou. Além do método de interrogatório
utilizado nos séculos xvi e xvii contra os jesuítas, os policiais brasileiros acabariam
inventando novas formas de quebrar o traço que mais os irritava nos japoneses: a frieza
imperturbável com que culpados e inocentes, jovens e velhos se comportavam durante os
depoimentos. Uma delas (que exigia a cumplicidade de um tradutor de japonês) era insultar os
membros da família imperial utilizando haicus — poemas líricos japoneses compostos de
versos não rimados. Como este, que circulava pelas celas da Detenção e do dops:
Hiroíto foi derrotado na guerra
Está passando fome
Tomando canja de arroz
E está dançando
Qualquer vulgaridade servia para tentar vencer a indiferença daqueles “homenzinhos que só
pareciam se emocionar quando ouviam falar da pátria ou do imperador”, como os descreveu
um relatório do dops. Nem a honorabilidade da inatacável imperatriz Sadako estava a salvo
de um haicu insultuoso, no qual ela aparecia como amante do general MacArthur:
A imperatriz arranjou um amante
O nome dele é Maca-San
Agora Maca-San vai na frente
E o imperador vai andando atrás
O fanatismo dos seguidores da Shindo Renmei, porém, parecia ser proporcional às
provocações da polícia. Preso em Tupã e levado para São Paulo, Fusatoshi Yamauchi não
fora acusado de nada, apenas era filho de Kenjiro Yamauchi, tesoureiro da Shindo Renmei na
cidade. Apesar de saber que seria libertado se aceitasse calado os insultos da polícia — e
mesmo tendo sido ameaçado de “levar chicotadas” se não fizesse o fumie, ele se recusou a
pisar e a cuspir num cartaz com a foto do imperador. O policial que o interrogava numa sala
do quarto andar do prédio do dops, no centro da cidade, perguntou de surpresa:
“Se o imperador mandasse pular desta janela, o que você faria?”
Yamauchi não precisou pensar para responder:
“Pulo mesmo.”
O investigador desabafou em voz alta:
“Esse não tem jeito, vai para a Ilha Anchieta.”
Foi mesmo, e lá permaneceu preso até 1948, sem que pesasse contra ele nenhuma acusação.
Se revelasse às autoridades que era pai de filhos brasileiros menores de idade, Yamauchi
certamente seria beneficiado com a liberdade. Mas isso significava deixar sozinho na prisão o
velho pai — e ele preferiu permanecer preso. Ao ser libertado, Yamauchi juntou as
economias, comprou uma moto Indian de 1200 cilindradas e resolveu percorrer o Brasil “para
compensar” os dois anos que passou na prisão.
No dops aparecia de tudo. Takeichi Maeda apanhou muito até convencer a polícia de que
não era terrorista, mas um inofensivo vendedor de fotos pornográficas. Tetsuo Okubo, um dos
presos cujo nome tinha sido encontrado pela polícia na casa-sede da Shindo Renmei,
surpreendeu os policiais que o interrogavam. Habituados a lidar com lavradores de pouca
cultura, os policiais do dops descobriram que não estavam diante de mais um criador de frangos, mas de um homem erudito, um filósofo com doutoramento na universidade norte-
americana de Princeton. Certos de que tinham prendido um makegumi por engano, os policiais
foram direto à pergunta-chave: quem ganhou a guerra? A resposta de Okubo provocou espanto
proporcional ao do anúncio de seu título acadêmico:
“O Japão ganhou a guerra. Se provarem o contrário, não hesitarei em suicidar-me, em
obediência aos princípios de respeito ao imperador do Japão.”
Apertado pela polícia, o filósofo confessou que havia abandonado suas atividades
intelectuais para se entregar em tempo integral à causa do Japão, passando a realizar, por
orientação da Shindo, “conferências” pelo interior do estado para grupos de simpatizantes.
Como era, entretanto, “pacifista por índole e convicção”, ao ser informado por Ryotaro
Negoro dos planos terroristas da seita, afastou-se da Shindo Renmei, voltando a dedicar-se
“às leituras e à reflexão”.
Aos poucos a polícia paulista ia descobrindo que, onde houvesse um núcleo de japoneses, a
Shindo Renmei tinha lá uma “sucursal”. E não apenas no estado de São Paulo. Entre os muitos
denunciantes que bateram às portas do dops para oferecer pistas dos terroristas japoneses, um
dia apareceu lá o industrial inglês Anthero Arnold para denunciar bandos de fanáticos
japoneses que atuavam no Norte do Paraná. Depois de investir um dinheirão na montagem de
uma empresa para industrializar fibra de rami na cidade paranaense de Assaí, Arnold
descobriu que seu sócio japonês (que deveria ser o responsável pelo fornecimento de matéria-
prima) estava sendo ameaçado de morte pela Shindo Renmei por insistir em continuar
produzindo o vegetal, apesar de todas as advertências. A alegação dos terroristas deixara o
inglês perplexo:
“Esses lunáticos dizem que o tecido produzido pelo rami vai beneficiar o esforço de guerra
aliado. Mas faz sete meses que a guerra acabou!”
Arnold e seu sócio já haviam montado grupos de caça aos terroristas, mas achavam que a
polícia tinha que pegar os cabeças. Segundo o inglês, quem estimulava a ação dos fanáticos
era um espertalhão que vendia passagens de navio e terrenos inexistentes no Pacífico. Ele
estranhava o fato de alguém agir impunemente contra os interesses do Brasil, como esse
homem, sem que houvesse nenhuma “repressão por parte da autoridade”. O nome do vigarista
não era desconhecido dos policiais: Tsuguo Kishimoto, um dublê de intelectual e empresário
que conseguia circular com a mesma desenvoltura na colônia e nas altas rodas dos brasileiros.
Abarrotadas e sem espaço para alojar novos presos, todos os dias as delegacias de polícia
do interior despachavam para a capital hordas de suspeitos. Eles vinham em geral de trem, em
grupos de vinte a trinta presos, guardados por dez soldados armados de fuzis com baionetas
caladas. Quem precisasse ir ao banheiro, durante a viagem, tinha que mobilizar dois soldados:
um guardava a porta e outro entrava dentro da latrina junto com o preso, para impedir que ele
quebrasse a janela de vidro e saltasse com o trem em movimento. As péssimas condições
provocadas pela superlotação das celas das delegacias, nas cidades da Alta Paulista, faziam
parecer confortáveis até os xadrezes do dops. Poder dormir em beliches, ainda que infestados de percevejos, era melhor do que “ter que fazer suas necessidades, comer e dormir num
cubículo onde se espremiam dezenas de pessoas”, como denunciou Shoguro Ogura, transferido
de Braúna para a capital.
Distribuídos por vários presídios e distritos, alguns presos mofavam semanas na fila antes
de ser qualificados e interrogados. Não raro, os policiais se divertiam com a lógica singular
das respostas dos japoneses — como aconteceu quando Ogura foi identificado criminalmente.
O investigador repetia as mesmas perguntas que já fizera centenas de vezes a outros presos,
enquanto o escrivão datilografava:
“Casado?”
“Sim.”
“Com mulher japonesa?”
“Sim.”
“Tem filhos?”
“Sim.”
“Nascidos onde?”
“No Brasil.”
O policial se animou:
“Quer dizer que você tem filhos brasileiros, mas virou inimigo do Brasil?”
“Meus filhos não são brasileiros. São japoneses.”
“Se nasceram no Brasil, são brasileiros.”
“Meus filhos têm pele de japonês, sangue de japonês, cara de japonês. Então, meus filhos
são japoneses.”
Interrogatórios como os de Ogura se repetiam às centenas sem que a polícia obtivesse
progressos significativos nas investigações. Auxiliados pela barreira do idioma, os japoneses
davam respostas evasivas, dissimulavam, respondiam com metáforas e confundiam os
policiais. Uma semana após as primeiras batidas, as autoridades perceberam que não
adiantava nada manter 2 mil pessoas presas pelo simples fato de serem japonesas. Após
interrogatórios sumários, mais de mil suspeitos foram colocados em liberdade. Depois da
enorme repercussão da invasão da casa-sede da Shindo, a polícia não obtivera mais nenhum
progresso. Nada permitia afirmar que a organização tivesse sido desbaratada. Ao contrário: a
despeito da intensa atividade policial, e quando se imaginava que toda a direção estivesse na
cadeia, a Shindo Renmei voltou a atacar.
Nas semanas seguintes, três makegumi de Marília foram feridos a tiros por militantes da
Shindo Renmei de Cafelândia. Em Presidente Prudente, depois de receber cartas de ameaça,
Eikiti Tsuzuki foi vítima de uma emboscada armada por um tokkotai mas escapou com vida.
Em Bastos, as terríveis “bombas de mostarda” feriram mais seis pessoas, sem que a polícia
conseguisse pegar o autor (que, como se saberia depois, era Satoru Yamamoto, o assassino
ainda foragido de Ikuta Mizobe). Após seguidos reveses, a polícia marcaria um tento
importante na guerra contra os fanáticos no dia 8 de maio, quando finalmente pôs as mãos no chefe da Shindo Renmei, o coronel Junji Kikawa. Aos policiais que já o conheciam, o coronel
dava a impressão de ter envelhecido anos, desde que estivera no dops, quatro meses antes,
pedindo o registro da seita. Uma noite os intérpretes José Santana do Carmo e Mário Botelho
de Miranda foram chamados para acompanhar mais um interrogatório do chefe da Shindo. Os
dois depararam com um homem “hemiplégico, idoso, falando intermitentemente, sempre
apoiado em seu bastão”. Ao lhe perguntarem que solução via para a guerra entre japoneses,
Kikawa indicou a que considerava “a mais justa”:
“O melhor seria prender todo mundo: os derrotistas, que propalam a derrota do Japão, e
nós, os militantes das sociedades patrióticas. A polícia não teria tanto trabalho e os makegumi
salvariam sua pele...”
Os policiais explicaram que, se a polícia adotasse a proposta dele, não haveria cadeia
suficiente em São Paulo para encarcerar tantos presos. Kikawa não se apertou: se fosse
preciso, a Shindo Renmei doaria recursos à polícia ou construiria ela própria, com seu
dinheiro, tantas prisões quantas fossem necessárias. Santana e Miranda saíram do encontro
certos de que a prisão dele tinha sido um grande feito, mas renderia resultados práticos
insignificantes, já que o ex-militar não revelou nada que a polícia já não soubesse. O que
nenhum dos dois sabia — nem eles nem ninguém mais — é que, mesmo preso, o coronel
Kikawa continuaria não só comandando seus Batalhões do Vento Divino, os temidos tokkotai,
mas distribuindo circulares que ameaçavam “fuzilar no pátio do consulado japonês” (que nem
existia mais) todo aquele que fosse considerado um “coração sujo” — um traidor da pátria.
As batidas que a polícia realizava em todo o estado davam a dimensão da atuação da
Shindo Renmei. Dezenas de edições da revista Life haviam sido fraudadas em gráficas
clandestinas. As falsificações mais freqüentes se resumiam à substituição, em caracteres
japoneses, das legendas das fotografias. Depois do retoque, a página era fotografada,
reimpressa e encartada de novo no corpo da revista. Nas reportagens sobre a cerimônia de
rendição do Japão aos Aliados, a bordo do Missouri, na baía de Tóquio, espadas eram
acrescentadas manualmente à cintura dos representantes japoneses, enquanto as armas dos
oficiais norte-americanos desapareciam misteriosamente, “para deixar claro quem estava se
rendendo a quem”, como confessaria depois um dos fotógrafos encarregados das fraudes. Para
não deixar dúvidas a respeito disso, uma bandeira de guerra do Japão fora “hasteada” pelos
fanáticos no mastro do navio, cujos canhões estariam “voltados para o céu, em sinal de
rendição”. Embora fossem adulterações grosseiras, capazes de ser identificadas por qualquer
criança, as revistas eram disputadas pela colônia. Uma fotografia de Harry Truman ao lado de
um militar aparecia nas páginas da Life da Shindo Renmei como sendo de uma cena em que “o
presidente americano e um oficial superior da Marinha dos Estados Unidos reverenciam o
imperador Hiroíto, que não aparece na foto”. Uma outra fotografia, batida na chegada dos
representantes do governo japonês a Manila para discutir os termos da cessação das
hostilidades, era apresentada como “o momento em que os emissários nipônicos vinham
receber, das mãos de MacArthur, o oferecimento de rendição dos Estados Unidos”. Na foto, grupos de soldados americanos que aparecem conversando ao fundo são identificados como
“tropas desalinhadas, o que quer dizer, sem comando, derrotadas”. Fotografias de navios
americanos e japoneses atracados lado a lado eram republicadas como sendo “nossa esquadra
de guerra, comboiando a esquadra comandada pelo almirante inglês lorde Mountbatten, que se
rendeu”. Como não havia jornais em cores, até uma inocente fotografia publicada no jornal O
Globo, de uma bandeira branca com uma bola negra no centro (símbolo do pândego Clube da
Bola Preta, reduto de boêmios do Rio de Janeiro), era copiada e revendida como uma prova a
mais da vitória do Japão, “cuja bandeira já está hasteada até no Rio de Janeiro”.
A polícia descobriu também que a Shindo Renmei mantinha uma “revista teórica” que saía a
cada dois meses, intitulada Hiraki (“Fulgor”, em japonês), e conhecida na colônia como “o
guia dos compatriotas”. Impressa em formato de livro, sem ilustrações, Hiraki trazia em todas
as edições um encarte com minúsculas notícias de última hora, “recebidas de várias partes do
mundo”:
[...] O canal do Panamá está ocupado por forças da Marinha Imperial japonesa. [...] A
esquadra aliada que se rendeu é composta de aproximadamente seiscentos navios e está
sendo escoltada para a baía de Sagami, conforme notícia da Rádio de Tóquio. [...] O
dinheiro empregado pelos EUA no mundo será confiscado pelo Japão. [...] Será proibido
aos judeus colocar o seu dinheiro em qualquer parte do mundo. [...] Todas as
comunicações mundiais ficarão durante três anos sob controle do Japão. [...] O Ural,
pertencente à URSS, será declarado independente. [...] Está sendo preparada a
reconstrução da Alemanha e a organização da Nova Ásia. Chegou a hora de mostrar ao
mundo a grandeza e a civilização do povo do Mikado.
Ler um número qualquer de Hiraki era tomar conhecimento do grau de perturbação mental
em que viviam os ideólogos da seita. Um interminável ensaio publicado em uma edição de
1946 dedicava-se a refletir se era falsa ou verdadeira a notícia de que “os Estados Unidos
realizaram no ano passado, na ilha Biquíni, uma experiência com bomba atômica, [...] a qual
nada mais fez que provocar o naufrágio de uns dois navios de pequena tonelagem”. Isso foi
escrito e publicado mais de seis meses depois de Hiroshima e Nagasaki terem sido
pulverizadas por bombas atômicas, matando 100 mil japoneses. Segundo o articulista, a
fracassada experiência americana com a energia nuclear “só serviu para provocar uma boa
gargalhada pelo mundo todo”. Outra idéia fixa dos redatores de Hiraki era a “unificação
monetária do mundo”. O autor concluía que a utilização de uma única moeda em todo o
planeta “seria uma revolução para o mundo financeiro, não restando a menor dúvida de que
estão em curso as conferências para a concretização desse ideal”.
Se faltava algum ingrediente nos tormentos da polícia, ele surgiu sob a forma de dinheiro japonês falso. O dops já vinha farejando alguma coisa estranha no mercado de câmbio, mas
quando os policiais deram por si já tinha ocorrido uma verdadeira derrama de ienes em São
Paulo. Tanto havia cédulas verdadeiras, contrabandeadas do Japão para o Brasil via
Argentina, como dinheiro grosseiramente falsificado. Desde meados de 1945, quando a
derrota japonesa já era visível, o valor do iene despencara. Em fevereiro de 1946 o Japão
tinha sepultado a moeda, rebatizada de “iene novo” e brutalmente desvalorizada em relação à
já combalida cotação anterior. Por artes da Shindo Renmei, porém, um dinheiro que não valia
nada em parte alguma do mundo vivia uma eufórica valorização no Brasil. Desde que Getúlio
decretara o confisco dos depósitos de “súditos do Eixo”, quatro anos antes, a colônia passou a
“entesourar”, como havia denunciado o ministro da Fazenda Souza Costa, cada centavo que
lhe caía nas mãos. As economias acumuladas no período tinham sido guardadas em casa, e em
dinheiro vivo. Mas, como o sonho de retornar ao Japão, acalentado por quase noventa por
cento da colônia, requeria a posse de ienes, dezenas de milhares de japoneses, animados pela
campanha vitorista, passaram a comprar a moeda, empurrando a cotação para o alto. Para
atender à demanda, quadrilhas de vigaristas compravam ienes a quilo, no exterior, para
revendê-los no câmbio negro no Brasil a preços trezentos por cento acima da última cotação
oficial da moeda no país, ocorrida em 1942. Outros preferiam simplificar as coisas e
imprimiam em São Paulo mesmo montanhas de cédulas que eram imediatamente colocadas no
mercado como “recém-chegadas de Tóquio”.
Alertada pelas notícias do dinheiro falso, a polícia voltou a mexer na papelada apreendida
na sede da Shindo Renmei em São Paulo. Ali tinham sido encontradas misteriosas cédulas de
dólares, pesos e florins holandeses que traziam impressas, no alto, o nome do emissor: “The
Japanese Government”. Com medo de ver o nome da organização associado a vigaristas e
distribuidores de dinheiro falso, os chefes da Shindo Renmei apressaram-se a explicar que as
cédulas encontradas nos seus arquivos eram falsas, sim, mas se destinavam à propaganda.
Pesos, dólares e florins “emitidos pelo governo japonês”, afirmaram, eram a prova
indiscutível de que o Japão estava dominando o mundo.
■
Os quatro remanescentes dos atentados a Nomura e Furuya que ainda estavam em liberdade
permaneceram um mês e meio escondidos em lugares diferentes. Só em meados de maio é que
voltaram a ter contato com a Shindo Renmei. Por ordem do coronel Kikawa eles se
encontraram na Tinturaria Oriente, onde receberam instruções para uma nova ação. Por
decisão pessoal do “implacável coronel Kikawa”, o próximo makegumi a ser eliminado era o
seu antigo colega de farda no Japão, o coronel Jinsaku Wakiyama. A ordem de Kikawa para
eliminar um velho amigo, um homem idoso, pacato, e que tinha sido um dos fundadores da
Shindo Renmei (com o nome original de Kodosha), não comoveu nenhum dos quatro
terroristas. Sem que nada lhe fosse perguntado, o dono da tinturaria, Kamegoro Ogazawara, apressou-se a explicar que Kikawa “teve muito sentimento” antes de decidir pela execução do
companheiro, mas fizera questão de ressaltar que “o compromisso de um patriota é com a
pátria, não com os amigos”. Ogazawara tinha motivos de sobra para tentar diminuir a
gravidade do gesto de Kikawa: embora também fosse amigo de longa data de Wakiyama, o
tintureiro se prestara a fazer um papel tão ou mais torpe que o do chefe da Shindo Renmei.
Segundo ele próprio confessaria depois à polícia, nas semanas que antecederam o atentado,
Ogazawara passou a espionar a vida do amigo. Para dar informações seguras aos tokkotai que
iriam matá-lo, passou a freqüentar a casa do coronel Wakiyama. A pretexto de levar-lhe
pequenos presentes caseiros, o tintureiro esteve lá várias vezes, observando à vontade seus
hábitos e os pontos vulneráveis da casa, e certificando-se de que ela não estava guardada pela
polícia.
Orientados por Ogazawara, os quatro tokkotai ouviram mais uma vez as mesmas instruções
(usar capas amarelas de feirante, não esquecer as bandeiras sob a roupa, levar o “conselho
para suicídio” e a adaga para o haraquiri) e souberam que, por ser o mais velho, Shimpei
Kitamura iria chefiar a operação. Antes de receber ordem para se dispersar, o grupo ainda
teve que esperar o jornalista Seijiro Mihara escrever duas longas versões do “conselho para
suicídio”. Mihara exercia ali, na verdade, apenas o papel de calígrafo, já que os termos do
“conselho” eram ditados por Ogazarawa, que explicou a razão das duplicatas:
“Vocês vão à casa do coronel Wakiyama e fazem o serviço. Se sobrar tempo, voltem à casa
de Shibata Miyakoshi e tentem pegá-lo. Então o melhor é levar duas cartas de suicídio, uma
para cada um.”
Dali a duas semanas, no dia 2 de junho, os quatro se reencontraram às sete da noite no local
combinado: a entrada do Circo Seyssel, armado na avenida da Liberdade, no bairro japonês.
O lugar e a hora tinham explicação: como aos domingos as sessões do circo eram muito
concorridas, os quatro poderiam circular no meio da multidão a salvo de olhares suspeitos.
Além de Kitamura, estavam lá Tokuiti Hidaka, o caçula dos tokkotai do “caso da bandeira”,
em Tupã, e mais Kozonori Yoshida e Hiromi Yamashita. As ordens de Ogazawara não
pareciam muito lógicas: Yoshida e Yamashita iriam desarmados, já que a função deles seria
apenas entregar a Wakiyama o “conselho para suicídio” e o tanto, a adaga para o sacrifício.
Caso ele se recusasse a praticar o haraquiri, Kitamura e Hidaka, que estavam armados de
revólveres, se encarregariam de liquidá-lo. Como não havia muito o que conversar, os quatro
tomaram um táxi e às sete e meia desceram na porta da casa do coronel.
Apesar do ar mal-encarado dos quatro, a mulher de Wakiyama não hesitou em mandá-los
entrar — eles diziam ter um documento importante para entregar ao coronel. O barulho de
vozes na sala atraiu o dono da casa e seu filho. A mulher explicou que aqueles homens tinham
trazido algo importante para ele. Nem ela nem o filho arredaram pé da sala. Foi Shimpei
Kitamura quem falou:
“O senhor vai lavar com a vida o crime de ter traído a pátria.”
Apesar de dramática, a cena parecia tão inevitável e previsível que nenhum dos três — Wakiyama, a mulher e o filho — se assustou com a ameaça. A um olhar do chefe, Kozonori
Yoshida esticou o braço e entregou o “conselho para suicídio” a Wakiyama. Ao lado, Hiromi
Yamashita ficou como que em posição de sentido, com a bandeira japonesa dobrada nos
braços estendidos e sobre ela o temível tanto. O coronel pegou as três folhas escritas em
japonês e pôs-se a ler. Enquanto ele andava vagarosamente de um lado para outro da sala,
lendo o documento e cofiando uma barba imaginária, sua família e os quatro terroristas
permaneciam em silêncio. Wakiyama leu calmamente o “conselho”, que parecia ter sido
escrito em um asilo de loucos:
Conselho para suicídio
Ao ilustríssimo senhor coronel Wakiyama
O nosso grande Império do Japão, que possui uma gloriosa história de 3 mil anos, é
um país divino, governado por um soberano sem igual no mundo. Nossa estrutura
nacional será tão duradoura quanto a existência do sol.
[...] As incomparáveis e valorosas forças armadas imperiais conquistaram contínuas
vitórias no ar, mar e terra. À sombra dessas vitórias houve porém o sacrifício daqueles
que se lançaram em bombardeios, contra belonaves inimigas, como que formando um só
corpo com os seus aparelhos, o que é a máxima expressão do Yamatodamashii ,
concretizando a fidelidade ao imperador e a dedicação à pátria — fato que comoverá até
o próprio satanás.
[...] Em 15 de agosto do vigésimo ano da Era Showa, os violentos e perversos inimigos,
não resistindo à nossa justa causa, capitularam incondicionalmente e pediram a paz. No
entanto, o rádio e os jornais deste país anunciaram a falsa propaganda segundo a qual o
nosso país havia capitulado incondicionalmente. Entre os 300 mil japoneses residentes
no Brasil nasceram duas facções: a das pessoas que acreditam na eternidade da
estrutura nacional do Império, e a facção dos que, concordando com a falsa propaganda
inimiga, declararam ter sido a nossa pátria derrotada. Essa cisão se transformou em
antagonismo crescente, chegando a provocar conflitos sangrentos entre os patrícios.
[...] O fato de ter assinado um documento de falsa propaganda da derrota da nossa
pátria, publicado pelo inimigo, constitui um ato que conspurca o brio e a dignidade do
bravo e fiel Exército Imperial; o crime de traição merece 10 mil mortos.
E assim, nós, os tokkotai, respeitando o seu posto de militar do Império, aconselhamos
Vossa Senhoria a manter a honra de soldado, pagando com o suicídio o grande crime de
traição à pátria, em vez de prolongar a vida e acumular mais crimes.
Assinado,
Tokkotai
Como se não tivesse entendido bem o significado do documento, Wakiyama perguntou se
podia lê-lo novamente. Shimpei Kitamura concordou e o coronel andou mais alguns minutos pela sala, ao fim dos quais devolveu o papel ao homem da Shindo Renmei:
“Eu gostaria de saber se posso dispor de algum prazo para decidir.”
Foi Kitamura quem respondeu:
“Infelizmente não tenho autorização para conceder-lhe nenhum prazo. O senhor tem que se
decidir neste momento.”
Uma aflição contida parecia tomar conta de todos, vítima, assassinos e testemunhas. Sem
esperanças de escapar com vida, Jinsaku Wakiyama encerrou a conversa com dignidade:
“Eu não sou um traidor da pátria, não vou praticar o haraquiri. Vocês façam o que quiserem,
eu prefiro morrer como um patriota honrado.”
Shimpei Kitamura nem esperou o coronel terminar a frase. Sacou um revólver e disparou-
lhe um tiro à queima-roupa no peito. Wakiyama caiu morto, mas ainda recebeu mais dois
disparos dados por Tokuiti Hidaka. Decididamente, boa pontaria não era o forte dos tokkotai.
Embora estivesse a poucos centímetros do corpo, Hidaka só conseguiu acertar um tiro no
peito: a segunda bala pegou no braço do coronel. Sob o olhar de pavor da mulher e do filho,
os quatro se perfilaram, bateram continência para o cadáver e correram para a rua, onde
Shimpei Kitamura parou o primeiro táxi que encontrou. Enquanto os outros entravam atrás, ele
se sentou no banco da frente e deu o destino ao motorista:
“Vamos para a rua Brigadeiro Tobias.”
Yoshida estranhou o endereço desconhecido:
“Mas não vamos voltar para a tinturaria, ou para a chácara do Sawai?”
Kitamura, porém, parecia disposto a fazer tudo conforme as instruções que havia recebido.
A ação que terminara com a morte de Wakiyama fora realizada ritualisticamente e o morto
tivera a oportunidade de fazer o haraquiri. Para que tudo saísse conforme o figurino da
Shindo, eles não podiam voltar para casa e se esconder como criminosos: o que tinham
praticado, segundo a lógica delirante da seita, não era um crime, mas o justiçamento de um
traidor. Foi pensando assim que Kitamura respondeu, sem olhar para trás:
“Não vamos para a chácara do Sawai. Nós vamos nos entregar à polícia.”
Dito e feito. Meia hora depois o grupo se apresentava aos surpresos investigadores de
plantão no Gabinete de Investigações da polícia.
■
A morte de Wakiyama parece ter desatado uma nova onda de atentados terroristas contra
japoneses, só que agora o palco era o interior. A polícia só ia perceber isso nas semanas
seguintes, quando pegou fogo o triângulo compreendido entre as cidades de Araçatuba, Bauru
e Presidente Prudente. Em meados de abril a região havia sido abalada pela morte brutal de
três japoneses na cidade de Bilac, mas o crime não tinha nenhuma relação com o terrorismo
político. Por se recusar a pagar uma conta em uma pensão da cidade, um desequilibrado
mental, o soldado da Força Pública Antônio Lopes Xavier, matou a tiros o dono da pensão, Nobor Matsuyuki, o filho dele, Sanjiro, e a doméstica brasileira Clarice da Silva, deixando
feridos Shiguero Kitano e a menina Kaoru Matsuyuki, de nove anos. Se o crime não tinha nada
a ver com a Shindo Renmei, ia levar pouco tempo para que a população da cidade fosse
apresentada à seita.
A exemplo de Bastos, Bilac abrigava uma concentração tão alta de imigrantes japoneses
que durante onze anos a cidade chamou-se oficialmente Nipolândia, nome que em novembro
de 1938 o nacionalismo do recém-nascido Estado Novo se encarregou de mudar para Bilac,
em homenagem ao poeta Olavo Bilac. A polícia não deveria se surpreender, portanto, que lá
começassem a explodir ações da Shindo Renmei — como aconteceu exatamente às 19h34 do
dia 10 de julho de 1946. Foi essa a hora registrada numa lousa de sinuca por Goiti Mori, a
primeira vítima da Shindo, segundos antes de morrer baleado. Dono de um bar no centro da
cidade, Goiti, de 47 anos, já desconfiava que os kachigumi estavam de olho nele. Não que ele
fosse um derrotista exaltado, mas o simples fato de estar bem de vida podia ser suficiente para
que os vitoristas colocassem alguém sob suspeita. Primeiro um japonês embriagado aparecera
no bar fazendo ameaças e prometendo que o patrício que falasse em derrota do Japão seria
“amarrado e levado de arrasto pelas ruas da cidade”. Goiti entendeu aquilo como “conversa
de bêbado” e não o levou a sério. Depois foi a vez de Nobuo Sato, conhecido por suas
ligações com a Shindo Renmei, fazer insinuações. Sato chegava em seu bar, tomava umas
cachaças a mais e se punha a provocá-lo:
“Você está ganhando muito dinheiro, não é, Mori? Quanto é que os americanos estão lhe
mandando por mês?”
Na noite de 10 de julho, Goiti se dividia entre o atendimento aos fregueses das duas mesas
de sinuca e a conversa com o irmão mais velho, o alfaiate Marui, de 54 anos, que viera visitá-
lo. Um dos jogadores de sinuca, o brasileiro Marcelino Bezerra, encerrou sua partida contra
Thierso Bortoluzzi e pediu a Goiti que calculasse o “tempo de mesa” utilizado por ele. O dono
da casa veio até a lousa, onde tinha sido marcada a giz a hora do início da partida, olhou o
relógio de pulso da marca Regent e, depois de escrever no pequeno quadro-negro a hora —
19h05 —, avisou a Bezerra:
“Vocês jogaram 29 minutos.”
Quando ele caminhava em direção à caixa registradora, dois japoneses entraram
apressadamente no salão, armados de revólveres e trombando nos tacos de sinuca. Eram os
tokkotai Namide Shimano, de Penápolis, e Hitoshi Ohara, de Getulina. Sem pronunciar uma só
palavra, cada um foi atrás de sua presa. Enquanto Ohara disparava contra Marui, que estava
sentado em uma cadeira atrás do balcão, Shimano avançou em direção a Goiti. Este ainda
tentou correr para a porta dos fundos do salão, que dava para os cômodos em que ele vivia
com a família. Namide Shimano deu um salto, subiu no balcão e descarregou todo o tambor da
arma contra ele. Ao ouvir o barulho dos tiros, de sua casa contígua ao salão, Kameju Mori,
mulher de Goiti, pensou que o dínamo da geladeira tivesse explodido. Por via das dúvidas,
porém, pegou o revólver do marido e correu para o salão. Mas já não havia o que fazer: ao abrir a porta, em meio a uma nuvem de fumaça, Kameju encontrou Goiti e o cunhado sem vida,
caídos no chão do bar.
Nas ruas de uma Bilac convulsionada pelos crimes, na manhã seguinte o ataque tokkotai
ganhava versões cinematográficas. A mais rocambolesca dizia que ao chegar ao salão os
terroristas saltaram sobre o tampo das mesas de sinuca, disparando de lá seus certeiros
revólveres, como dois caubóis, sobre os irmãos Mori. Uma das testemunhas, Marcelino
Bezerra, que jogava sinuca na hora do crime, deu dois depoimentos contraditórios à polícia.
No primeiro contou o que de fato ocorreu: ao ouvir um disparo, saiu correndo para a rua. No
segundo, Bezerra daria inacreditáveis detalhes da cena:
[...] o depoente, apesar da rapidez da cena que presenciou, pode ligeiramente
caracterizar o agressor, o qual trajava-se com um capote de casimira ordinária,
pintadinho de preto e marrom, evidenciando mais esta última cor, e um chapéu claro,
surrado; que o agressor mostrava-se visivelmente pálido e, quando atirava, cerrava os
dentes e mostrava no maxilar superior, lado esquerdo, na altura do incisivo, uma placa
onde havia sido incrustada uma coroa, ou melhor, uma chapa de ouro, ou talvez mesmo
uma coroa [...]
O rebuliço provocado pela tragédia dos Mori fez com que passasse quase despercebida na
cidade a presença, no dia do enterro, de dois jovens japoneses vindos de Tupã. O objetivo
deles em Bilac era um costume comum na região: arranjar adversários para jogos de beisebol.
No caso, o desafiante era o time de Anápolis, uma colônia nas imediações de Tupã. Os
rapazes andaram pela cidade, fizeram perguntas sobre os times locais e acabaram descobrindo
o que de fato procuravam: a casa de Ossamu Sabanai, makegumi de 36 anos cuja cabeça tinha
sido posta a prêmio pela Shindo Renmei. O crime de Sabanai era o mesmo que as demais
vítimas eram acusadas de cometer: acreditar na derrota do Japão e não ter medo de dizer isso
publicamente. Ao chegar lá, porém, os dois descobriram que o endereço que lhes havia sido
dado era do empório, e não da residência de Sabanai. Assim mesmo eles entraram e souberam
pela mulher dele, Yuki, que o marido estava no velório dos Mori e iria direto de lá para casa.
Os dois estranhos — na verdade dois tokkotai a mando da Shindo Renmei — beberam
guaraná, comeram peixe seco, pagaram a conta e sumiram.
Os terroristas só iriam reaparecer às sete da noite, na casa de Sabanai, na então Vila de
Piacatu, nos arredores de Bilac. Ele chegou em casa, saudou a mulher e foi até o quintal para o
hábito diário, o banho no ofurô, mas nem teve tempo de tirar a roupa. Ao aproximar-se da
enorme tina circular de madeira, de cujo interior saíam nuvens de vapor da água quente, viu os
dois vultos surgirem do mato, ambos armados de revólveres. Atraída pelo ruído, Yuki ainda
chegou a tempo de ver duas línguas de fogo saindo dos canos dos revólveres: foram apenas
dois tiros, mas certeiros. Sabanai caiu com o peito varado pelas balas. A mulher só conseguiu
ouvir um dos homens gritando para o outro, na escuridão, enquanto fugia:
“Yatta! Yatta!” [Matei! Matei!]
O atrevimento da Shindo Renmei, ao executar três pessoas em menos de 24 horas, na mesma
cidade, foi entendido pela polícia como um desafio. Bilac amanheceu coalhada de
investigadores vindos de vários municípios e até da capital, com ordens expressas de prender
os autores o mais depressa possível, “para dar uma satisfação à sociedade paulista”, como
dissera aos jornais o interventor Macedo Soares. Mas ainda não seria daquela vez. Dos
matadores de Sabanai, jamais se ouviria falar. E cada um dos tokkotai que haviam fuzilado os
irmãos Mori tinha tomado rumo diferente: Namide Shimano voltou para o sítio em que vivia
em sua cidade, Penápolis. Hitoshi Ohara seguiu as instruções que recebera e escondeu-se na
casa de um certo Ito, em Braúna. Na noite seguinte Ohara teve que dividir o esconderijo com
um japonês desconhecido que batera na porta da casa coberto de hematomas e com vários
ferimentos na cabeça e nos braços. Era Akira Fujimoto, de 24 anos, tokkotai que acabara de
executar mais uma ação sangrenta da Shindo Renmei em Coroados, a poucos quilômetros dali.
A história que Fujimoto contou não era muito diferente das de Ohara, Shimano e de todos os
demais matadores da organização. Antes de chegar aos tokkotai, as ordens davam voltas de
boca em boca por várias sucursais da seita. As de Fujimoto, ele as recebeu do “sapateiro
Shichiro Ono, de Cafelândia”, que as teria recebido de “Sussumu, de Guaiçara”, e assim por
diante, numa corrente que, supunha a Shindo, mesmo que fosse quebrada pela polícia,
permitiria que os cabeças se escondessem. Embora não tivesse dado resultados (afinal, toda a
direção estava na prisão), a tática continuava sendo adotada pela organização. Fujimoto
recebera de Ono um surrão de pano contendo uma bandeira do Japão, uma faca tanto, um
poema-manifesto sobre a vitória militar da pátria, um revólver calibre .32 (“com a marca e o
número raspados”, diria depois a polícia) e uma caixinha de papelão contendo quinze balas. A
ordem era encontrar-se na estação de Birigüi com Namide Shimano (o companheiro de Ohata
na execução dos Mori, em Bilac) e com um terceiro tokkotai chamado Noboru Nawa, um
rapazinho que parecia ser pouco mais que um adolescente. De lá os três partiriam para o sítio
Mil Alqueires, no município vizinho de Coroados, para matar “o derrotista Tominaga”.
Fujimoto não conhecia sequer o prenome da vítima. Sem Shimano, que não aparecera no local
combinado, os dois tomaram uma jardineira — nome dado aos velhos ônibus de carroceria de
madeira de então — e às seis e meia da tarde estavam na porta do armazém onde vivia o
makegumi. Entraram sem bater na porta e deram com quatro homens e uma mulher, todos
japoneses, sentados em volta de uma mesa. Foi Nawa quem se dirigiu à mulher, perguntando
quem era Tominaga. A mulher apontou na direção de um homem forte, de bigodes, sentado no
outro extremo da mesa:
“É aquele ali, é o meu marido.”
Fujimoto e Nawa sacaram as armas e começaram a disparar na direção do homem. Mas
eles não sabiam que estavam diante de quatro judocas experimentados. Estes saltaram sobre
os terroristas, que atiraram a torto e a direito, descarregando os dois tambores. Um homem
desabou no chão de terra batida, com o peito coberto de sangue. Ao tentar pegar um revólver caído no chão, Tominaga viu sua mão ser varada pelo punhal de Fujimoto. Havia sangue por
todo lado. Quando conseguiu correr para a rua, Fujimoto viu Nawa, coberto de hematomas,
tentando escapar dos lutadores — de quem apanhou muito antes de alcançar a porta de saída.
Minutos depois de terem entrado na casa, os dois tokkotai saíam de lá humilhados. Além de
terem executado o homem errado — o morto era Shigueo Toyoda, uma visita dos Tominaga —
e deixarem fugir o makegumi que deveriam matar, eles próprios tinham escapado
milagrosamente com vida da ação. Ao ser preso, meses depois, a primeira coisa que Fujimoto
perguntou aos policiais foi se eles não teriam encontrado, na casa de Tominaga, “um chapéu
de feltro cinza, marca Cury de Luxe, comprado na Casa Chic, de Cafelândia”, que ele perdera
durante a luta.
Mesmo executado por equívoco, aquele era mais um cadáver na contabilidade da Shindo
Renmei. Num espaço de 24 horas os fanáticos tinham feito quatro mortos, vários feridos e
espalhado o terror pela colônia. E, por maiores que fossem os esforços da polícia, os crimes
não paravam. Dois dias depois do tiroteio na casa de Tominaga, um garoto foi ferido em
Cafesópolis. No dia 16, o makegumi Hiroshi Yamanaka, gerente do Banco América do Sul em
Bastos, foi parar no hospital depois de ser ferido por uma descarga de tiros de pistola Mauser,
desferidos por japoneses desconhecidos. Um tenso jogo de gato e rato parecia começar entre
policiais e kachigumi. Mal as turmas do dops chegavam a uma cidade para acudir ao chamado
de uma vítima e o alarme disparava em outro lugar. Assim, enquanto o bancário Yamanaka
folheava álbuns da polícia, tentando identificar seus agressores, a Shindo preparava mais uma
ação na região.
Na noite de 17 de julho, cinco rapazes se registraram no Hotel Isséia, no centro de
Cafelândia, e saíram em seguida. Eram Side Ito, Ytsuki Sakuma, Keishi Goto e os irmãos
Tadashi e Kazuo Ono. Meia hora depois estavam na casa de um desconhecido da cidade, onde
os esperava o sapateiro Shichiro Ono — tio de Tadashi e Kazuo e o mesmo que planejara o
fracassado atentado a Kazuke Tominaga, em Mil Alqueires. Os jovens receberam as
instruções, uma trouxinha de pano com o equipamento de sempre (revólver, balas, tanto,
bandeira japonesa...) e os nomes dos patrícios que deveriam executar na manhã seguinte: o
dentista Kisso Ymai e o atacadista Shohei Kussunoki. Já se sabia em Cafelândia que mais
cedo ou mais tarde Ymai entraria para a lista negra da Shindo. Afinal, no começo do mês o
jornal Folha da Noite publicara uma carta em que o dentista tornava pública sua discordância
com a Shindo Renmei e seus fanáticos.
Não era de se estranhar, portanto, que ele estivesse com os dias contados. Mas, se Ymai
tinha motivos de sobra para se sentir ameaçado — ele chegou a pedir autorização à polícia
para andar armado —, o mesmo não acontecia com Kussunoki. Caso típico de “japonês
esclarecido”, como era chamado o imigrante que vencia na vida e se ocidentalizava, Shohei
Kussunoki não era, porém, um makegumi, um propagador da derrota japonesa. Nunca recebera
nenhuma ameaça e, se restasse alguma dúvida a respeito de seu patriotismo, bastava olhar a
parede de seu escritório, onde ele manteve, mesmo durante a guerra, dois quadros grandes com as fotos do imperador e da imperatriz — a quem respeitava e reverenciava tanto ou mais
que qualquer tokkotai. Kussunoki nunca escondeu da mulher, Mitsue, nem dos sete filhos do
casal que torcia pela vitória do Japão — país para o qual não perdera a esperança de voltar.
Quando a guerra acabou ele ficou profundamente abalado com a notícia da rendição do Japão,
sem conseguir acreditar que aquilo fosse possível. Com o tempo, conformou-se com a derrota,
mas jamais tocou nesse assunto — nem mesmo em conversas familiares. Segundo suspeita que
duraria décadas entre os envolvidos no conflito, Kussunoki teria sido incluído na lista negra
por denúncia de “alguém movido pela inveja”. É possível. A ordem para a execução pode ter
vindo de São Paulo, mas a inclusão do nome de Shohei Kussunoki foi defendida na Shindo
Renmei de Cafelândia, sob a vaga acusação de “não comungar do ideal que anima os membros
da nossa organização”.
Os cinco tokkotai saíram às seis da manhã do hotel de Yassuharo Sato, também da Shindo,
tomaram café numa venda perto de um canavial e se dividiram em dois grupos. Side Ito e
Tadashi Ono iam matar Shohei Kussunoki, e Ytsuki Sakuma, Keishi Goto e Kazuo Ono se
encarregariam do dentista Kisso Ymai. Exatamente às oito e meia da manhã os dois bandos
tokkotai armaram o bote. Enquanto os dois primeiros se apresentavam como compradores de
cereais no depósito de Kussunoki, o grupo de Sakuma, Goto e Ono sentava-se na sala de
espera do consultório de Ymai. Como foi apanhado de surpresa, Kussunoki não pôde sequer
reagir. Depois de inventar que queriam comprar uma partida de grãos, Ito e Tadashi Ono
foram chamados pelo dono para entrar com ele no armazém. Kussunoki foi na frente e seus
assassinos um passo atrás, por entre os escuros corredores formados pelas imensas pilhas de
sacas de cereais. Quando retirava uma amostra, Kussunoki foi atingido pelas costas por um
tiro à queima-roupa. Ele ainda conseguiu dar alguns passos, mas morreu na porta de sua casa,
que ficava ao lado do armazém.
Com o trio encarregado de matar Ymai as coisas tinham sido mais complicadas. Ao ver os
três clientes com ar suspeito na sala de espera de seu consultório, o dentista entrou
discretamente em sua casa, que funcionava no mesmo imóvel, e colocou no bolso do guarda-
pó branco um pequeno revólver calibre .32. Foi Keishi Goto quem se dirigiu a ele:
“Eu e meu amigo Sakuma precisamos fazer curativos nos dentes, o senhor pode nos
atender?”
Ymai mandou-o sentar na cadeira e, ao abaixar-se para examinar a boca do paciente, sentiu
uma “dor quente” no umbigo: o sujeito acabara de enfiar a lâmina de um punhal na sua barriga.
No mesmo instante o dentista percebeu que Sakuma e Ono entravam no consultório, o primeiro
com um canivete aberto e o segundo armado de revólver. Ymai tirou o seu revólver do bolso e
disparou. Ao tentar desarmá-lo, Sakuma provocou um corte profundo na mão do dentista, mas
ele continuou atirando. Atraída pela barulheira, a mulher de Ymai entrou no consultório com
uma vassoura nas mãos, com a qual batia furiosamente nas costas dos tokkotai. Mesmo ferido,
o dentista continuou disparando seu revólver, obrigando os três a fugir. Um deles, Keishi
Goto, atingido de raspão por um tiro, sangrava abundantemente nas costas. Os três correram em direção à saída de Guarantã, mas nem chegaram a atingir o cafezal: cercados por
populares armados, foram presos e levados à delegacia da cidade. A dez quadras dali os
assassinos de Kussunoki tinham destino idêntico: um grupo liderado pelo oficial de justiça
Ângelo Palmezan saiu a cavalo no encalço dos dois tokkotai. Um quilômetro depois de
iniciada a perseguição, Side Ito e Tadashi Ono levantaram as mãos para o alto e se entregaram
passivamente, sem nenhuma reação. Mais afortunado que Kussunoki, o dentista Ymai
sobreviveria aos ferimentos.
A semana fatídica, porém, não havia chegado ao fim. Junto com a notícia dos atentados
daquela manhã, soube-se que na noite anterior, a quinze quilômetros dali, em Getulina, o
japonês Horinte Tosi, diretor da cooperativa agrícola da cidade, tinha sido morto a tiros por
um bando de nove tokkotai. Em Lucélia, japoneses não identificados haviam baleado Toshimi
Assano, que se encontrava em coma na Santa Casa de Marília. Os irmãos Ono começavam a
depor na delegacia de Cafelândia quando o tio deles, Shichiro, batia na porta da casa de
Maria Iwata, em Borborema. Apresentando-se como membro do Batalhão do Vento Divino,
Ono leu para ela o agourento poema “O cadáver do pai exposto ao vento e à chuva”, enquanto
seu companheiro Kiosaku Watanabe entregava uma carta explicando por que seu marido,
Tokuso Iwata, ia ser executado:
Olhando nos olhos de seu marido e esposo, eu tenho grande sentimento por ter que matá-
lo. É um nipônico, mas ele erra ao acreditar que o Japão está derrotado. Mais cedo ou
mais tarde chegaria a hora de seu marido morrer. É verdade que o marido auxilia a
esposa e a esposa auxilia o marido. As mulheres japonesas devem respeitar e obedecer a
seus maridos — portanto elas não são culpadas do que está acontecendo; por isso, não
faremos nada à senhora. [...] Mesmo que sejam amigos, sendo inimigos da pátria devem
ser mortos. Seu marido já morreu. Família de esposa e mais patrícios e amigos ficarão
bastante sentidos. O acontecimento de hoje trouxe um grande sentimento para a senhora,
filhos e netos. É verdade que a mãe japonesa não tem mais o que pensar; o que era para
acontecer já aconteceu. [...] Nós estamos na terra do inimigo, pensando naqueles que
morreram por amor à pátria. Nós, formigas brancas, não podemos ficar quietos.
Batalhão do Vento Divino
Cinco horas depois, Ono e Watanabe cumpriam a ameaça crivando de balas o agricultor
Tokuso Iwata, mais uma vítima da Shindo Renmei. A “carnificina”, como a intitulara o
escandaloso jornal O Dia, de São Paulo, explodiu não só nas primeiras páginas da imprensa
de São Paulo e do Rio, mas até no exterior. Sob o título “Homicídio honroso”, a revista Time
revelaria aos norte-americanos as proezas da Shindo Renmei:
Um ano após o dia da vitória sobre o Japão, japoneses radicados no Brasil ainda têm
certeza de que o Japão não perdeu a guerra. Foram assim convencidos por alguns
compatriotas embusteiros que tinham uma razão para isso. Esses embusteiros formavam
um grupo que vendia terrenos “conquistados pelo Japão” em Java e nas Filipinas para
os seus ingênuos compatriotas. Valiam-se do terrorismo para manter vivos o mito e o
negócio. Utilizando a poderosa sociedade Shindo Renmei, esses embusteiros haviam
lançado fanáticos contra todos os japoneses “que não se comportavam como
compatriotas” e aceitavam a mentira de que o Japão fora derrotado. Por serem
considerados “derrotistas”, setenta japoneses encontraram a morte nos últimos cinco
meses.
Acusado de estar sendo leniente com quadrilhas de assassinos fanáticos, o interventor José
Carlos Macedo Soares resolveu tomar a iniciativa. Por sugestão do secretário de Governo,
Edgar Batista Pereira, e contra a opinião do titular da Secretaria de Segurança Pública, Pedro
de Oliveira Ribeiro Sobrinho, Macedo Soares decidiu pôr em prática a tática que anunciou
como sendo “a mística contra a mística”. Ex-embaixador e político experiente, com duas
passagens pelo ministério de Getúlio Vargas, ele fora nomeado interventor federal em São
Paulo pelo presidente interino José Linhares, que sucedera a Vargas, deposto em outubro de
1945. Interessado pela cultura japonesa, sobre a qual publicara um ensaio intitulado “Espírito
público no Japão”, Macedo Soares acreditava que o milenar senso nipônico de respeito à
hierarquia falaria mais alto que o fanatismo. Se a autoridade máxima do Estado dissesse a
verdade de viva voz aos japoneses nacionalistas, eles não teriam como duvidar. Ou seja, só
contrapondo a “mística da autoridade” à “mística da hierarquia” é que os japoneses lhe
dariam ouvidos. Para o interventor, “a admirável e cega obediência que os japoneses
conservam em relação à autoridade” prevaleceria sobre o fanatismo. Com essa certeza na
cabeça, mandou convidar, pelo rádio e pelos jornais, as lideranças de todos os movimentos
“vitoristas” do estado para uma reunião com ele, no dia seguinte, no Palácio dos Campos
Elíseos. Encarregado de “identificar as lideranças” antes da audiência oficial, o secretário da
Segurança, apesar de discordar da reunião, pediu à Agência Nacional, empresa de notícias do
governo federal, que distribuísse aos vespertinos que circulariam dali a algumas horas uma
convocação que, na pressa, incluiu até a Zaihaku Gunjinkai, uma das muitas organizações
extintas para dar lugar à Shindo:
De ordem do secretário da Segurança Pública, deverão se apresentar impreterivelmente
no Departamento de Ordem Política e Social, dia 19, das seis às doze horas, todos os
japoneses residentes na comarca da capital pertencentes às sociedades Shindo Renmei,
Zaihaku Gunjinkai e outras.
Macedo Soares marcou a reunião para uma e meia da tarde. A fim de reforçar ainda mais,
aos olhos dos japoneses, o caráter solene do ato, convidou para a cerimônia, além de todo o
seu secretariado, o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Carlos Carmelo de Vasconcellos Mota, o embaixador Ragnar Kumlin, da Suécia (país que ainda respondia pelos interesses
japoneses no Brasil), e os comandantes da ii Região Militar, general Milton de Freitas
Almeida, e da iv Zona Aérea, brigadeiro Armando Ararigbóia. Dois intérpretes foram
convocados: um japonês, Paulo Yoshizaku Morita, que já ajudara a polícia em interrogatórios
d e tokkotai, e um brasileiro, o tradutor público José Santana do Carmo. O cardeal, o
diplomata e os dois chefes militares chegaram ao palácio pouco depois do meio-dia, conforme
sugerira o anfitrião, e passaram diretamente a uma sala de refeições, onde o interventor já os
esperava para o almoço. Na chegada aos Campos Elíseos os convidados puderam ver
numerosos grupos de japoneses nas imediações do palácio, muitos deles no local desde as
seis horas da manhã.
O almoço terminou pontualmente à uma e meia. Os cinco convivas se levantaram e, a
caminho do Salão Vermelho, onde se realizaria o encontro, Macedo Soares sorriu para
Manoel Sodré, o oficial-de-gabinete que viera buscá-los, ao ouvir o rumor de vozes que vinha
do salão principal, onde as lideranças já os esperavam:
“Que bom que eles vieram, eu não disse? São muitos?”
O assessor cochichou qualquer coisa no ouvido dele, como se não quisesse que os outros
ouvissem. Macedo Soares não gostou do que ouviu e alterou levemente a voz:
“Mas sessenta, meu filho? Tínhamos falado em dez, vinte pessoas...”
O sujeito empalideceu:
“Perdão, interventor, mas eu não disse sessenta. Segundo os cálculos da polícia, há
seiscentos”, repetiu e soletrou, “seis-cen-tos japoneses aqui. Eles não falam português e não
me pareceram muito polidos.”