Corações Sujos
9 - Um tokkotai será torturado e morto em seguida. acabou a shindo renmei.
9
UM TOKKOTAI SERÁ
TORTURADO E MORTO
EM SEGUIDA.
ACABOU A SHINDO RENMEI.
N em mesmo os companheiros de Namide Shimano sabiam muita coisa a respeito dele. O mistério começava com sua chegada ao Brasil: nascido em Niiagata, imigrara em 1943, ano em que, segundo todos os registros oficiais, não havia entrado um só japonês em território brasileiro. De Santos ele foi direto para a chácara de Katsuto Yamamuro, no bairro de Três Barras, em Cafelândia, onde trabalhou na enxada durante um ano. De lá mudou-se para a fazenda Santo Embré, de Mongo Fukuwara, no mesmo município. Durante o ano de 1945 Shimano arrendou
um sítio no distrito de Tangará, ainda em Cafelândia, onde tentou sem sucesso ganhar dinheiro
plantando algodão. Nesse período ele viveu alguns meses na casa de uma tia distante, Matzuco
Maebara, até conhecer Akira Fugimoto, o tokkotai que tinha chefiado o frustrado atentado ao
“chacareiro Tominaga”, em Mil Alqueires. Nem mesmo a tia ou os seis primos sabiam direito
da vida de Shimano — que aos 27 anos era solteiro, não tinha namorada e só pensava em
trabalhar. Eles não perceberam sequer que o parente havia trocado a lavoura pelo terrorismo.
Afinal, ele nunca andava armado e jamais falara de política ou de guerra em casa. Namide
Shimano só tinha participado de uma ação da Shindo Renmei. Fora ele o autor da
cinematográfica execução de Goiti Mori, no bar de Bilac, quando o tokkotai saltara sobre o
balcão para alvejar a vítima que fugia dos tiros. Convocado para a ação em Mil Alqueires, ele
acabou não podendo participar: em uma escaramuça com policiais em Getulina, logo após o
atentado de Bilac, Shimano fora ferido numa das pernas. Mas, assim como ocorrera com os
demais remanescentes da Shindo ainda em liberdade, ele havia perdido todos os contatos com
a organização, não sabendo sequer quem estava dando as ordens — se é que ainda havia
ordens a cumprir. Apesar de meio coxo da perna direita e transformado em ronin, Shimano
continuava disposto a matar.
Não era só ele. Entre os makegumi havia pelo menos um homem que ainda tinha um ajuste
de contas com a Shindo Renmei: Katsuo Yagui. Ao contrário de Shimano — um descendente
da última linhagem da hierarquia social no Japão —, Yagui, de 43 anos, orgulhava-se de suas
origens nobres. Seu pai, Buhati Yagui, fora membro do Regimento Akasaka da Guarda
Imperial, no reinado do imperador Taisho (1912-26), pai de Hiroíto. Esse era um privilégio
reservado aos descendentes de samurais, que ainda assim só eram escolhidos após uma
devassa completa em toda sua ascendência. O filho Katsuo, que chegaria a cursar até o
terceiro ano de Medicina na Universidade Meiji, de Tóquio, era faixa preta de judô, praticava
esqui e foi um dos primeiros a praticar salto a distância no Japão. Com o início da imigração
para o Brasil, o velho Buhati foi convidado a vir — não na condição de modesto imigrante,
mas como “chefe de delegação”. Instalado com a família em Braúna, em poucos anos Yagui já
era mais que um próspero empresário agrícola. Além de cultivar café e algodão, passou a comprar a produção alheia, tornando-se um dos mais poderosos atacadistas da região. Apenas
uma das fazendas da família, a Kaikai, tinha 100 mil pés de café plantados. Com o passar do
tempo o velho Buhati entregou as propriedades ao filho e mudou-se para a capital paulista, a
fim de dedicar-se apenas a operações financeiras na Bolsa de Mercadorias.
Katsuo Yagui era uma personalidade singular. Em casa era um homem sofisticado, dono de
vasta biblioteca onde se viam clássicos como Dostoievski e Tolstoi, um poliglota capaz de
declamar poemas em inglês para os filhos. Na rua ele não era o Katsuo. Enquanto a maioria
dos japoneses adotava como seus os nomes brasileiros mais comuns, como Mário, Jorge,
Paulo, ele tinha mesmo que ser conhecido como Napoleão — e seus amigos se lembrariam
dele, cinqüenta anos depois, como um sujeito “marrudo”, “valente”, “metidão” ou “um tipo
grandalhão, um japonês de presença”. Com um perfil como o seu, era natural que Napoleão
Yagui se convertesse em alvo da Shindo Renmei. Logo que a seita começou os atentados
dentro da colônia, após o final da guerra, Yagui percebeu que aqueles malucos acabariam
cruzando o seu caminho, e preferiu adverti-los: se encostassem um dedo em alguém de sua
família, ele resolveria o assunto pessoalmente e a bala. E quem ameaçava era um homem
conhecido pela pontaria certeira e pelo fato de andar armado não com um, mas com dois
revólveres na cintura.
Não custou muito para as ameaças começarem a chegar não apenas a Napoleão Yagui, mas
também a seu amigo Yoshio Abe — grande produtor agrícola, como ele, e igualmente tachado
de makegumi pela Shindo Renmei. Yagui não brincava em serviço: em vez de se amedrontar,
respondeu convidando Abe para treinamentos diários de tiro ao alvo. Se os tokkotai
aparecessem, como tinham prometido, eles queriam estar preparados. Napoleão Yagui não
sabia, mas a data de sua morte já estava marcada: 10 de julho, em meio às ações que tirariam
a vida de sete japoneses em Bilac, Borborema, Mil Alqueires, Cafelândia e Getulina.
Os três matadores apareceram em Braúna na hora do almoço. Subiram a avenida Rio
Branco até a porta da casa de Napoleão Yagui e, como o caminhão não estivesse estacionado
lá, desceram de volta até a porta de uma barbearia, onde ficaram conversando. A cada
caminhão que passava pela rua os três iam andando até a casa de Yagui para ver se o veículo
era o dele. Nem mesmo o alfaiate Paulo Serizawa, filho de um kachigumi, desconfiou dos
forasteiros que passaram a tarde zanzando pela rua. Aquilo durou até as quatro da tarde,
quando Yagui finalmente encostou seu caminhão na porta de casa. Entrou, foi até o quarto e,
quando voltou à sala, os três tokkotai estavam de pé, à sua frente. Matsu, sua mulher, ainda os
cumprimentou e perguntou o que queriam. Os estranhos responderam disparando as armas que
traziam enroladas em lenços. Matsu gritou, tentando agarrar um dos terroristas enquanto o
marido procurava desabotoar o coldre para puxar a arma. Sem conseguir pegar o revólver,
Napoleão Yagui saltou sobre um tokkotai, arrastando-o para a cozinha. O filho de Yagui,
Paulo, de dez anos, agarrou-se ao punho de outro tokkotai, impedindo-o de fazer mira no pai,
que distribuía golpes de judô enquanto tiros eram disparados a esmo. A filha Rumi, então com
cinco anos de idade, estava ao lado do poço, no quintal, quando viu a mãe grudada, por trás, na cintura de um homem, o irmão Paulo pendurado no braço de outro e o pai sob a mira de um
terceiro. Este errou o primeiro tiro, e quando se preparava para disparar o segundo Yagui já
estava de arma na mão, fazendo fogo contra os matadores.
Os tokkotai perceberam que tinham perdido a viagem. Com um deles aparentemente ferido
a bala, o grupo saiu em disparada pela rua, tomando o caminho que levava a Glicério.
Alertado pela barulheira, o açougueiro Jasão, dono de um curral que dava fundos para a casa
dos Yagui, correu em socorro do vizinho, mas os tokkotai já estavam no final da avenida Rio
Branco. O açougueiro montou no primeiro cavalo que encontrou e, de laço em punho, saiu
atrás dos terroristas, rodando uma corda sobre a cabeça e ameaçando laçá-los. A cena de
faroeste terminaria em pastelão: quando estava a poucos metros dos fugitivos, pronto para
atirar o laço, um deles voltou-se inesperadamente, apontando o revólver na direção do
cavaleiro. Como Jasão confessaria depois, ao ver a arma ele se “encagaçou” e deu meia-
volta, deixando escapar os matadores, cuja identidade jamais se conheceria. A partir daquele
dia, todo mundo sabia: os tokkotai iam pagar caro o atrevimento de entrar na casa de
Napoleão Yagui para matá-lo. Mas Yagui também sabia que essa era uma tarefa para
profissionais — para alguém como Pedro Borges, o “Pedro Seleiro”.
Nascido em Chã de Alegria, no interior de Pernambuco, antes de bater em Braúna Pedro
Seleiro rodou pelo Brasil trabalhando no ofício que acabaria se incorporando a seu nome:
fazer selas para animais. No começo dos anos 40, ele conseguiu ser nomeado “sub-delegado
de polícia ad hoc” — ou “delegado calça-curta”, forma pejorativa como o povo se referia às
pessoas da comunidade que, sem formação universitária específica, eram nomeadas para
exercer as funções de polícia, na inexistência de um delegado titular. Magro, alto, narigudo,
pouco mais de quarenta anos, Pedro Seleiro era um homem de poucos sorrisos e muita ação.
Chovesse ou fizesse sol, lá estava ele com seu rifle Winchester .44 “papo-amarelo” debaixo
do braço. Amigo pessoal de todos os makegumi da cidade, quando começaram a chegar
notícias de atentados e ameaças ele decidiu se converter no pesadelo dos japoneses suspeitos
de ligações com os terroristas. Por conta própria, sem que ninguém lhe pedisse, passou a dar
proteção a Napoleão Yagui e pediu a seu superior, o delegado de Araçatuba, autorização para
que o japonês pudesse andar armado. Como a resposta foi negativa (“Se é japonês, não pode e
está acabado”), Pedro Seleiro decidiu assumir a responsabilidade. Pegou alguns revólveres e
carabinas, foi até a casa de Yagui e entregou as armas a ele:
“Olha aqui, Napoleão: eu sei que a lei não permite isso. Mas eu te conheço e você não vai
morrer feito cachorro no meio da rua. Fica com essas armas para se defender.”
Sua folha de serviços denunciava o estilo de trabalho: em sete anos ele respondera a treze
processos por abuso de autoridade no exercício da função. Com toda essa fama, Pedro Seleiro
preferia enfrentar “a japonesada” sozinho. Em ocasiões excepcionalmente perigosas, levava a
seu lado o guarda-noturno da cidade, mas o mais comum era fazer trabalho solitário. Poucos
dias após a tentativa de assassinato de Yagui, ele recebeu a denúncia de que a Shindo andara
arregimentando gente no bairro Padre Claro, onde só viviam japoneses. Pedro Seleiro, que não falava japonês, tocou para lá sozinho, invadiu casas, deu pescoções — sempre com o rifle
debaixo do braço — e voltou horas depois com seis japoneses amarrados por cordas. Meteu-
os dentro da cela, trancou a grade e jogou alguns baldes de água fria no chão de ladrilho. Sem
conseguir dormir, os japoneses estariam exaustos na manhã seguinte, o que facilitaria o
transporte para a cadeia de Glicério. Na cidade era a mesma coisa: o policial andava pelas
ruas bisbilhotando o interior das casas dos japoneses, em busca de fanáticos. Um dia viu na
parede de uma casa uma velha fotografia oficial de Getúlio Vargas com uma faca espetada no
meio do rosto do ex-presidente. O delegado foi até o cavalo, pegou o chicote de couro de anta
preso à sela e surrou o japonês que era dono da casa até deixá-lo roxo, no chão.
Que Pedro Seleiro detestava japoneses, todo mundo já sabia. A novidade era que quem
estava tirando o sono dos suspeitos de ligação com a Shindo Renmei era Napoleão Yagui.
Mesmo depois de passadas várias semanas, quando a paz parecia ter voltado à cidade, era
comum algum japonês mudar de calçada para não cruzar com Yagui. Uma tarde entrava na
cidade com sua carroça de cinco burros o lavrador Isao Makimoto, do bairro Moritomo, na
zona rural de Braúna. Makimoto não era um tokkotai, mas nunca escondera sua simpatia pela
Shindo Renmei. Parou a carroça, desceu devagar e, quando olhou para o lado, viu Napoleão
Yagui de arma na cinta, vindo em sua direção. De um salto Makimoto sumiu debaixo dos
burros para reaparecer na calçada, já com um pé na entrada da casa de Serisawa, onde se
escondeu.
Foi em meio a esse clima que Pedro Seleiro recebeu a denúncia, no último dia de setembro
de 1946, de que um grupo de tokkotai estaria se reunindo clandestinamente na cidade. Ele
ainda tentou conseguir reforços em Araçatuba, mas recebeu da seccional a recomendação de
se arranjar por lá mesmo, se fosse preciso “com a ajuda de alguns japoneses amigos”.
Liberado por seus superiores, Pedro Seleiro contou a história para Napoleão Yagui, que se
encarregou de selecionar o pelotão para pegar os kachigumi. Convocou alguns rapazes bons
de tiro — o confeiteiro Rioji Endo e os lavradores Takeshi Shirikawa e Mitsuyuki Kono — e
chamou para se incorporar à caravana seu amigo Yoshio Abe, outro que recebera ameaças e
que andava às turras com os tokkotai. Um caminhão da fazenda de Abe, dirigido por um
motorista japonês, também armado, levou o grupo pela noite adentro. Na boléia iam o
motorista, Yagui e Pedro Seleiro, e os demais viajavam atrás, na carroceria. Eles só
chegariam ao bairro Perobal, onde esperavam pegar os tokkotai, quando o dia já estava
clareando. Era alarme falso. Rodaram mais um pouco e foram até a colônia Senador. Pedro
Seleiro ia na frente e o grupo alguns metros atrás. Ao abrir a porta de uma casa com o cano da
espingarda, o policial viu lá dentro uma bandeira do Japão. Intimidou a dona da casa para
saber se alguém se reunira ali. Ela negava, ele insistia, até que Seleiro viu uma cama com
aparência de ter sido usada recentemente. Foi até lá, pôs a mão no colchão e sentiu que ainda
estava quente. Os moradores acabaram entregando tudo: os tokkotai tinham estado lá, sim,
mas já haviam partido para a casa do patrício Jiro Tetsuya, no bairro São Martinho, a poucas
horas dali.
A expedição prosseguiu pelo mato. Cortou as terras da antiga aldeia Icatu, dos índios
caingangues, e por volta das dez horas da manhã chegou a São Martinho. Pedro Seleiro ainda
tentou conseguir que um inspetor de quarteirão do lugar os guiasse até a casa do tal Tetsuya,
mas, ao ver aquela quantidade de homens armados, o sujeito desconversou e escapuliu. O
grupo acabou chegando à casa, no meio de um cafezal. Pedro Seleiro foi na frente, carabina
engatilhada na mão, e deu ordens para que seus companheiros esperassem a distância —
confiante em que a Shindo Renmei não queria encrenca com as autoridades brasileiras, ele
preferia ir sozinho. Se precisasse de socorro, gritaria. O policial chegou perto da casa,
identificou-se e deu ordens para que os japoneses saíssem de mãos para cima. Quatro jovens
deixaram a casa pela porta dos fundos, correndo em direção ao cafezal. Quando Pedro Seleiro
gritou: “É a polícia!”, começaram a atirar. O delegado respondeu ao fogo, ao mesmo tempo
que dava ordens para seus companheiros se jogarem no chão e dispararem. Com balas voando
sobre sua cabeça, ele se arrastou até atrás do tronco de uma mangueira, de onde poderia mirar
melhor e se proteger dos tiros dos tokkotai. Cada vez que disparava seu rifle, Pedro Seleiro
via um japonês pulando entre as leiras — as ruas que separam os pés de café. O sujeito pulava
de um lado para outro, disparando contra Pedro cada vez que saltava. Meio século depois, o
comerciante Alonso Borges ainda lembra dos detalhes de como o pai, Pedro Seleiro, encerrou
o tiroteio:
“Meu pai contou o tempo que o japonês levava para pular. Contou uma, contou duas, e
quando o tokkotai pulou outra vez, meu pai o pegou.”
Um certeiro tiro no peito prostrou Namide Shimano debaixo de um pé de café. Sob a camisa
empapada de sangue, uma bandeira do Japão onde havia sido escrita, em japonês, a consigna:
“É bom morrer pela Pátria!”. Pedro Seleiro, o flagelo dos tokkotai, ia carregar a honra de ter
imposto à Shindo Renmei a única baixa que a seita sofreria em toda sua breve e sangrenta
história. Com o cadáver na carroceria do caminhão, a caravana refez o mesmo percurso da
ida, passou por Braúna e deixou na delegacia de Glicério os restos do tokkotai.
Esta foi a versão oficial. Como nas vezes anteriores, foi instaurado um inquérito e, aberto
um processo, alguns foram denunciados, outros julgados e todos absolvidos. Para que a trama
tivesse sido perfeita, porém, teria sido necessário destruir um “auto de exame de corpo de
delito” lavrado no dia 2 de outubro — um dia após a morte do japonês — pelo legista Romeu
Ferraz, de Araçatuba, e pelo clínico Amir Leite, morador de Penápolis. O laudo assinado
pelos dois médicos, depois de examinar o cadáver de Namide Shimano, revelava que o ódio
deixara de ser um sentimento apenas dos kachigumi:
[...] O cadáver apresentava ao nível da região da bossa frontal direita extenso
hematoma, de contornos irregulares, arroxeado, medindo seis centímetros por quatro em
suas maiores grandezas. Ao nível da região tempo-maseterina esquerda, outra lesão não
edemaciada, mas igualmente arroxeada, medindo sete centímetros por três, em suas
maiores grandezas. Ambos os lábios mostravam-se edemaciados, e o superior, na parte
dental, em sua parte média, apresentava uma ruptura perpendicular à linha mediana,
interessando a mucosa e o músculo articular subjacente, medindo um centímetro de
extensão por quatro milímetros de largura. Todas estas lesões, pelo seu aspecto e
características, lembravam aquelas produzidas pelos instrumentos contundentes.
[...] No caso em apreço o que é interessante discutir é a diversidade do calibre dos
projéteis que feriram a vítima. Foram por certo diversas as armas. Os diâmetros
diferentes dos orifícios de entrada provam-no, de sobejo. Qual deles o mortal? O que
transfixou-lhe o tórax? Ferindo ambos os pulmões? O que foi encontrado dentro do
coração? Qualquer um deles seria capaz de provocar a morte imediata da vítima. O que
não padece dúvida, entretanto, é que ela foi primeiramente ferida por instrumento
contundente, não se pode afirmar qual seja. Mãos, pés, cacete, pau? As lesões
contundentes, descritas na parte referente ao exame externo, edemaciadas, arroxeadas,
foram produzidas em vida. As reações orgânicas de edema e cianose, assim o
demonstram.
Tentando lembrar-se dessa época, o filho de Pedro Seleiro reconhece que o pai pode ter
chutado e batido com a coronha da carabina no corpo do japonês. Mas não é essa a revelação
do laudo, e sim a de que as lesões tinham sido “produzidas em vida”. O ronin Namide
Shimano fora apanhado vivo, torturado e, só depois, fuzilado.
O acaso, no entanto, se encarregaria de aproximar a vítima de um de seus carrascos: no
cemitério municipal de Penápolis, as sepulturas de Shimano e de Pedro Seleiro estão
separadas por apenas vinte metros. A mesma distância que os separava quando o policial
matou o tokkotai.
■
No dia 5 de janeiro de 1947 o juiz de direito de Tupã, Antônio Rodrigues Porto, decretava
a prisão preventiva de Eiiti Sakane. Era mera formalidade, já que aquele deveria ser o sexto
ou sétimo mandado de prisão emitido contra o último tokkotai, sem que a polícia tivesse a
mais remota idéia de seu paradeiro. Sakane devia estar preparando alguma coisa. No final do
ano anterior tirara a mulher e os três filhos de Tupã, escondendo-os em local seguro. Nos
últimos dois meses ele sumira, para reaparecer no começo de janeiro pedindo pouso em uma
chácara de Osasco, cidade da região metropolitana de São Paulo, que fora usada antes como
refúgio da Shindo Renmei. A ida do kachigumi para a capital nada tinha a ver com o mandado
de prisão decretado em Tupã, do qual ele nem tomaria conhecimento. Eiiti Sakane estava lá
para cumprir uma ameaça feita um ano antes, em Marília, quando ele vira o “cão policial”
Paulo Morita trabalhando como intérprete para a polícia.
Morita podia se considerar um sobrevivente. Na primeira lista de condenados à morte pela
Shindo Renmei, o nome dele já aparecia. Mesmo sabendo que estava marcado para morrer, continuava colaborando com a polícia, denunciando patrícios suspeitos de ligação com os
fanáticos e aparecendo em cerimônias públicas ao lado de policiais que reprimiam os
nacionalistas japoneses. Matar um makegumi como aquele tornara-se uma questão de honra
para Eiiti Sakane — a Shindo não podia deixá-lo vivo. O tokkotai reservou para si a missão.
Durante uma semana ele seguiu Morita todos os dias, até se sentir seguro para agir. A hora
ideal para pegá-lo era de manhã cedo, quando o intérprete, antes de ir para o trabalho,
passeava com a filha Mayumi no parque da Aclimação, a poucas quadras de sua casa.
No dia 6 de janeiro, uma abafada segunda-feira de verão, Sakane arrebanhou mais três
amigos e junto com eles postou-se atrás de um muro da rua Castro Alves, onde Paulo Morita
vivia. Por volta das nove horas Morita apareceu, levando no colo a filha de apenas oito
meses. Os dois chegavam perto da avenida Aclimação, e Sakane cortou caminho, esperando-
os na entrada do parque. Quando Morita pôs os pés na calçada, Sakane disparou três tiros em
seu peito. Eiiti Sakane saiu correndo rumo ao bairro vizinho do Paraíso — para nunca mais
ser visto. Atraídos pelos tiros, populares tentaram acudir o homem caído sobre uma poça de
sangue ao lado da garotinha que esgoelava, desesperada. Não havia mais o que fazer, ele
estava morto. Um policial apareceu e retirou um documento do bolso do cadáver, para
identificá-lo. O morto não era Paulo Morita, mas Nassaji Suzuki, seu cunhado. A Shindo
Renmei encerrava sua carreira de crimes com mais uma dramática trapalhada.