Cultura contemporânea, identidades e sociabilidades
Apresentação
Este livro reúne a reflexão acerca das identidades na cultura contemporânea, realizada por pesquisadores que participaram do seminário Cultura contemporânea, corpo e novas tecnologias: diálogos em torno das identidades.
O objetivo geral das reflexões aqui apresentadas é tomar as inovações tecnológicas e seus impactos na vida cotidiana -particularmente na renovação e reinvenção de formas de sociabilidade e de construção de identidades - como uma chave privilegiada para o adentramento em meandros da cultura contemporânea.
O corpo, suporte da cultura e território de construção de identidades, ao incorporar os recursos tecnológicos disponibilizados pelo mercado estético, como próteses, implantes, intervenções e tratamentos à base de laser, tem seu estatuto modificado e as fronteiras entre natureza e cultura passam a ser revistas em novos parâmetros, impondo novos desafios à reflexão socioantropológica. Este livro busca contribuir para este debate, somar um pequena centelha ao enorme esforço que se faz necessário no sentido de repensarmos as clássicas dicotomias conceituais que vêm marcando a reflexão das ciências humanas e se demonstrando cada vez mais abaladas em seu alcance explicativo, frente às aceleradas transformações vivenciadas na vida social nesta modernidade do início do século XXI.
Neste sentido, o texto de Edson Farias discute o tema da cultura popular de massa, relacionando-o aos processos de modernização e aos fenômenos produzidos pela espetacularização da cultura e das tradições locais. Para tanto, vincula economia, políticas públicas, processos de afirmação identitária e resgate da cidadania, na construção de um quadro de relações que procura elucidar as formas como pequenas comunidades se inserem no ciclo capitalista de mercantilização da cultura e das especificidades regionais, assim como as tradições e símbolos ganham a dimensão de marcas publicitárias.
Por meio de alguns exemplos retirados de diferentes universos empíricos, Edson discute processos culturais contemporâneos, destacando a questão da construção de identidades regionais que ainda mantém um vínculo com tradições e heranças culturais, bem como apontando a relação entre estruturação da subjetividade e dinheiro, como elemento cognitivo e mediador.
Estaríamos, na cultura contemporânea, presenciando uma modificação nas relações sociais e nas formas de sociabilidade, uma vez que as tecnologias inserem novas plataformas e técnicas de comunicação, permitindo tanto a recepção, circulação e produção mais autônomas e aceleradas, ampliando as possibilidades de ação dos indivíduos e propiciando novos instrumentos cognitivos? O texto de Marco Antonio de Almeida lança luzes a esta questão, ao discutir as interações entre seres humanos e aparatos tecnológicos e as mudanças socioculturais decorrentes desses processos. Partindo da ideia de ciborgue, lançada por Donna Haraway, contribui para a reflexão acerca da relação tecnologia-cultura, enfatizando as formas de sociabilidade em curso na atual sociedade da informação mediadas pelos aparatos tecnológicos.
A reflexão de Expedito Leandro da Silva demonstra como a imbricação entre a difusão de equipamentos eletrônicos e da internet com as tradições locais da região Norte do país, destacadamente Belém e Amazonas, propiciou a formatação de um novo estilo musical: o tecnobrega. A partir da análise do fenômeno tecnobrega, o autor nos aponta para questões cruciais no debate acerca da cultura contemporânea, como as mudanças nas formas de sociabilidade de jovens habitantes de centros urbanos e a discussão acerca do embate tradição/modernidade ou local/global.
A pesquisa de Juliana do Prado discute aspectos apontados pelas telespectadoras da telenovela Belíssima, exibida no horário nobre da Rede Globo, no ano de 2009. A partir dos conteúdos dos capítulos analisados e dos depoimentos das expectadoras entrevistadas, focaliza, especificamente, a inserção de merchandising dentro da telenovela em questão, a influência (identificação/ projeção) dos personagens na vida cotidiana dos telespectadores, bem como a problemática relativa às identificações de gênero.
Outra importante contribuição aos estudos de recepção, bem como à reflexão acerca das relações étnico-raciais encontramos no trabalho Leandro José dos Santos. Tomando a revista Raça Brasil como recorte empírico, e partindo das apropriações efetuadas por mulheres negras, o autor pontua aspectos importantes relativos às temáticas corpo, sexualidade e identidade.
Tendo como pano de fundo a preocupação acerca do impacto das aceleradas mudanças socioculturais vivenciadas na contemporaneidade sobre as subjetividades, a reflexão de Ana Lúcia de Castro retoma a ideia de corpo ciborgue, problematizando as práticas de modificação corporal, particularmente a cirurgia plástica, entendida como modalidade de consumo cultural. Enfatiza a dimensão simbólica que envolve este tipo de intervenção cirúrgica, que tem as noções de prestígio, autoestima, aceitação social como as principais motivações apontadas pelos que se submeteram ou desejam se submeter a este tipo de intervenção cirúrgica.
Os trabalhos que encerram esta coletânea discorrem sobre a mudança nos papéis e nas construções de identidade de gênero, recorrentemente apontada como característica marcante do cenário contemporâneo. O texto de Juliana Jayme discute a forma pela qual indivíduos constroem sua identidade por meio da modificação de seus corpos e da apropriação de símbolos próprios do universo feminino, em uma reflexão sobre a fluidez e instabilidade das fronteiras de gênero na contemporaneidade.
Por fim, Larissa Pelúcio discute a condição dos travestis brasileiros que atuam no mercado de sexo em Portugal e Espanha, apontando para o embricamento das variáveis gênero, raça e nacionalidade como uma das chaves para o entendimento das construções simbólicas estabelecidas nas relações entre os travestis brasileiros e os clientes europeus.