Cultura contemporânea, identidades e sociabilidades

Ana Lúcia de Castro · Capítulo 7 de 9

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Cultura contemporânea, identidades e sociabilidades

6 Corpos ciborgues, identidade e cirurgia plástica como consumo cultural

6 Corpos ciborgues, identidade e

cirurgia plástica como consumo

cultural

 

Ana Lúcia de Castro1

Como uma espécie de "resposta teórica" ao crescimento do culto ao corpo na cultura contemporânea, vários trabalhos vêm sendo desenvolvidos no Brasil. A contribuição da historiografia para o estudo do tema tem sido grande (Sant'Anna, 1999; Schpun,1995 e Sevchenko,1992). Boa parte das pesquisas realizadas trabalham a posição central que o corpo vem assumindo na vida social contemporânea (expressa na malhação, na busca por cirurgias estéticas e no uso de cosméticos) sob a perspectiva dos estudos de gênero (Piscitelli, Gregori, Carrara, 2004; Antonio, 2008; Toledo, 1994).

Um dos raros estudos sobre o tema em uma perspectiva antropológica foi empreendido por Alexander Edmonds, adotando o pressuposto de que a cirurgia plástica pode ser entendida como uma das formas de marcação corporal, podendo ser estudada como uma maneira de simbolizar a ordem social. Na mesma linha, apontam Le Breton (2008) e Giddens (1997), ao indicarem a centralidade da preocupação com o corpo na cultura contemporânea como sinal do esgarçamento dos vínculos societários tradicionais e da fragmentação identitária que experimenta o indivíduo contemporâneo. Segundo David Le Breton (2008, p.30):

Além dos imperativos de aparência e juventude que regem

nossas sociedades, muitas vezes os que usam a cirurgia

estética são indivíduos em crise (por divórcio, desemprego,

envelhecimento, morte de um próximo, ruptura com a família),

que encontram neste recurso a possibilidade de romper de uma

vez com a orientação de sua existência, modificando os traços

de seu rosto ou o aspecto de seu corpo...ao mudar o corpo, o

indivíduo pretende mudar sua vida, modificar seu sentimento de

identidade... a cirurgia estética... opera na relação do indivíduo

com o mundo.

O trabalho de Alexander Edmonds aponta, ainda, para um dado importante a ser considerado no estudo da cirurgia plástica no Brasil: sua recente popularização que coloca, segundo o antropólogo, a possibilidade de a cirurgia plástica e práticas de beleza serem consideradas um meio de mobilidade social, algo como uma "forma de esperança popular" no Brasil.

Motivadas pela busca de mobilidade social ou não, as mulheres se submetem bem mais a este tipo de intervenção do que os homens. Embora este projeto não se insira na perspectiva dos estudos de gênero, a discussão acerca da desigualdade dos papéis estéticos entre homens e mulheres se impõe. Como aponta Ilana Lowi (2003), as sociedades ocidentais adotam uma atitude totalmente diferente em relação à beleza masculina e feminina, impondo às mulheres uma maior preocupação com a aparência física; o destino das mulheres, segundo a autora, estaria mais ligado a sua aparência física, comparativamente ao destino dos homens e, sendo a cirurgia estética uma das formas mais evidentes de se mudar a aparência física, as mulheres se submeteriam mais a este tipo de procedimento.

Vários estudos vêm sendo desenvolvidos no sentido de questionar a essencialização do corpo como naturalmente feminino ou masculino, em uma perspectiva que trabalha a identidade de gênero

como fixa.2 Nesta esteira, propomos pensar a cirurgia plástica como a busca da transmutação, de um devir, como um refazer a corporeidade, na busca de um corpo cyborg, no sentido em que Donna Haraway trabalha. Nas palavras da autora (Haraway, 1994, p.283): "a imagística dos cyborgs pode sugerir uma maneira de sair do labirinto dos dualismos com os quais explicamos a nós mesmos, nossos corpos, nossos instrumentos".

Além dos aspectos relacionados ao gênero, a discussão proposta neste projeto deverá contemplar a variável geração, uma vez que, como demonstra Andrea T. Antonio (2008), uma das principais motivações para a realização da cirurgia plástica consiste no combate ao envelhecimento, em uma tentativa de apagamento dos sinais da idade. Como aponta Gitta G. Debert (2000), na cultura contemporânea experienciamos um processo de dissolução da ideia de vida adulta, no qual ocorre uma perda de associação entre um grupo etário particular e as ideias de juventude ou velhice, que são, ambas, expressas menos pela idade e mais por um estilo de vida, o qual implica em consumo de determinados bens e serviços, aspiração a alguns valores e atitudes frente à vida.

Considerando que a cirurgia plástica consiste em uma espécie de consumo cultural, expressando uma das formas mais evidentes e radicais de execução de um projeto corporal, o qual, por sua vez, corresponde a um determinado estilo de vida, pretendemos, com este projeto de pesquisa, colaborar para a reflexão sobre o culto ao corpo como uma das dimensões dos estilos de vida na contemporaneidade. O estilo de vida (que é atravessado pelas variáveis gênero, geração e classe social) corresponde ao modus operandi do sujeito, englobando vários aspectos interligados que apontam para um ethos particular. Segundo Bourdieu (1983, p.83):

Cada dimensão do estilo de vida simboliza todas as outras, as

oposições entre as classes se exprimem tanto no uso da

fotografia ou na quantidade e qualidade das bebidas

consumidas quanto nas preferências em matéria de pintura ou

de música.

Tendo em vista estes aspectos teóricos, buscamos contribuir para a compreensão das relações entre consumo e construção de identidades na cultura contemporânea. Para tanto, tomamos o corpo como o principal território de construção de identidades e focalizamos, especificamente, a busca de tratamentos estéticos e de cirurgias plásticas, dentre a diversidade de serviços e bens de consumo voltados aos cuidados corporais.

O Brasil é, atualmente, o maior mercado deste tipo de cirurgia no mundo, superando os Estados Unidos, que lideravam o ranking de cirurgias para fins estéticos. Segundo informações fornecidas pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, em 2000,

350.000 pessoas se submeteram a pelo menos um

procedimento cirúrgico com finalidade estética. Fazendo as

contas, isso significa que, em cada grupo de 100.000

habitantes, 207 pessoas foram operadas em 2000. Os Estados

Unidos, tradicionais líderes do ranking, registraram 185

operados por 100.000 habitantes no mesmo ano.3

O Quadro 1 indica a evolução do número de cirurgias plásticas realizadas no Brasil, demonstrando que a tendência ao crescimento acentuou-se no decorrer da primeira década deste século.

Quadro 1 Número de intervenções cirúrgicas para fins estéticos

realizadas no Brasil:

Ano 1994 1995 1996 2000 2004 2008 Número 100.000 120.000 150.000 350.000 616.200 620.000

Fonte: Assessoria de Imprensa Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Há, atualmente, seis mil cirurgiões plásticos no país, mas apenas 50% têm o título de Especialista, isto é, a habilitação para realizar a cirurgia. Das cirurgias realizadas no Brasil, 80% têm finalidade estética, enquanto apenas 20% são reparadoras, isto é, têm uma relação direta com a saúde.

As mulheres, mais que os homens, sempre procuraram esse tipo de intervenção cirúrgica. Recentemente, a diferença na distribuição do número de cirurgias realizadas por sexo tem diminuído. Se, nos primeiros anos da década de 1990, a proporção era de 85% de mulheres e 15% de homens, atualmente, ela é de 70% de mulheres e 30% homens. Com relação ao tipo de cirurgia mais realizada de acordo com o sexo, nas mulheres predominam as intervenções na mama, abdômen e face, nos homens, na barriga, pálpebra e correção de ginecomastia (retirada de mamas).

Partimos do pressuposto, neste projeto, de que a realização de cirurgia plástica constitui-se em um tipo de consumo cultural, envolvendo, sobretudo, uma dimensão simbólica, impalpável. O que se busca, ao se submeter a este tipo de intervenção cirúrgica, é algo que nada tem de palpável ou concreto: beleza, prestígio, aceitação social, elevação da autoestima.

A partir da constatação de que a expansão da produção capitalista de mercadorias deu origem a uma vasta acumulação de cultura material na forma de bens e locais de compra, que levou à predominância cada vez maior do lazer e das atividades de consumo nas sociedades ocidentais contemporâneas, as análises socioantropológicas sobre consumo desenvolveram-se sob duas perspectivas diferenciadas.

A primeira vertente analítica aponta o consumo como estimulador da manipulação ideológica e controle sedutor da sociedade, dificultando a organização e mobilização social. Vale lembrar que o desvendamento e a crítica da lógica implacável da mercadoria a serviço da dominação e do controle tem o marxismo como matriz de pensamento, que se opõe à perspectiva da economia clássica, na qual o objetivo de toda produção é o consumo, com os indivíduos maximizando suas satisfações a partir da aquisição de um elenco de mercadorias em constante expansão. Partindo dessa ideia, os teóricos da Escola de Frankfurt afirmam que a expansão da produção e consumo de bens implicará a ampliação das possibilidades de consumo controlado e manipulado.

A indiferenciação entre realidade e ilusão constitui-se em uma importante premissa da análise frankfurtiana. Em um mundo em que a realidade tecnológica envolveu a todos, vida social e alienação, realidade e aparência confundem-se, transformam-se em uma única coisa. Na visão de Theodor Adorno (1986, p.71), um dos senão o principal, ao menos do ponto de vista oficial representantes da Escola: "O fictício que hoje deforma todo e qualquer atendimento das necessidades é inconsistentemente percebido sem questionamentos; provavelmente contribui para o atual mal estar na cultura".

Por outro lado, Jean Baudrillard (1985) aborda esta mesma problemática a partir da Semiologia, ajudando a compreender os nexos da questão. Entendendo que o consumo supõe a manipulação ativa de signos e na sociedade capitalista tardia o signo e a mercadoria teriam se juntado para formar a mercadoria-signo, afirma que a distinção entre imagem e realidade é gradativamente abolida pela reduplicação infinita de signos, imagens e simulações por meio da mídia. Preocupado em denunciar o consumo como o elemento central e redutor das sociedades capitalistas, Baudrillard (1985, p.141) considera beleza corporal um signo com valor de troca.

A ética da beleza, que também é a da moda, pode definir-se

como a redução de todos os valores concretos e dos 'valores

de uso' do corpo (energético, gestual e sexual), ao único 'valor

de permuta' funcional que, na sua abstração, resume por si só a

ideia de corpo glorioso e realizado.

A evidência do corpo na vida social, por ele denominada de redescoberta do corpo, estaria associada às necessidades de consumo:

Da higiene à maquiagem, passando pelo bronzeamento, pelo

desporto e múltiplas 'libertações' da moda, a redescoberta do

corpo passa antes de mais nada pelos objetos. Parece que a

única pulsão verdadeiramente libertada é a 'pulsão de compra'

(ibidem, p.143).

Evidencia-se, então, que esta primeira vertente analítica enfatiza o papel do consumo como reforçador da lógica do sistema capitalista, a qual conduziria à padronização das consciências e comportamentos. Esta visão não deixa de conter uma dimensão verdadeira, porém, um olhar mais aproximado e atento para o interior da diversidade dos grupos sociais urbanos, nos permite perceber que esta corrente teórica ilumina parcialmente a problemática do consumo.

Uma segunda vertente, complementar à primeira referida, entende que a satisfação propiciada pelo consumo deve-se ao fato de os bens proporcionarem prestígio social. As pessoas usariam as mercadorias para criar vínculos ou para estabelecer distinções sociais, demarcando grupos e estilos de vida. Roland Barthes (1980) foi um dos primeiros teóricos a apontar o duplo aspecto no consumo: satisfazer as necessidades materiais e carregar estruturas e símbolos sociais e culturais, aspectos que considera inseparáveis.

Para Bourdieu (2007) um dos principais representantes desta segunda vertente explicativa sobre o consumo o gosto é classificador e classificatório, classificando o classificador. Os sinais das disposições estéticas e esquemas classificatórios revelam a origem e a trajetória de vida da pessoa e manifestam-se na forma do corpo, altura, peso, postura, andar, conduta, tom de voz, estilo de falar, desembaraço ou desconforto em relação ao próprio corpo.

Embora o fluxo constantemente renovado de mercadorias torne mais complexo o problema da leitura do status ou da posição hierárquica do indivíduo, a noção proposta por Simmel e desenvolvida por Bourdieu de estilo de vida pode ainda ser entendida como importante chave analítica nos estudos sobre consumo cultural e, portanto, nesta nossa reflexão. Para Bourdieu, o estilo de vida está estreitamente associado às diferentes posições ocupadas pelos indivíduos na sociedade, como a "retradução simbólica de diferenças objetivamente inscritas nas condições de existência"(Bourdieu, 1983, p.82)

Ou seja, o estilo de vida, no âmbito da cultura de consumo, pode indicar individualidade, autoexpressão e consciência de si estilizada. O corpo, as roupas, o discurso, os entretenimentos de lazer, as preferências de comida e bebida, a casa, o carro, a opção de férias etc. de uma pessoa são vistos como indicadores da individualidade, do gosto (Featherstone, 1995, p.128).

É consensual, dentre os autores que discutem as sociedades contemporâneas, a ideia de que a esfera do consumo vem, cada vez mais, se sobrepondo à esfera da produção, ou seja, para entendermos melhor o mundo que nos cerca, temos de lançar o olhar para a forma como as mercadorias são consumidas e os sentidos conferidos à vida, via consumo, uma vez que a sociedade, que antes girava em torno da esfera da produção, passa agora a produzir-se na esfera do consumo. Como aponta Featherstone (ibidem, p.127):

Usar a expressão cultura de consumo significa enfatizar que o

mundo das mercadorias e seus princípios de estruturação são

centrais para a compreensão da sociedade contemporânea.

Isso envolve um foco duplo: em primeiro lugar, na dimensão

cultural da economia, a simbolização e o uso de bens materiais

como "comunicadores", não apenas como utilidades; em

segundo lugar, na economia dos bens culturais, os princípios de

mercado oferta, demanda, acumulação de capital, competição e

monopolização que operam dentro da esfera dos estilos de

vida, bens culturais e mercadorias.

A antropóloga Mary Douglas e o economista Baron Isherwood debruçaram-se sobre a questão, lançando luzes para se pensar o consumo como forma de dar sentido à vida. Segundo os autores, ao contribuir para a estabilização de significados, reforçar laços de solidariedade e realizar marcações temporais, o consumo poderia ser compreendido como atividade ritual no mundo contemporâneo. Nas palavras dos autores:

Se vem sendo dito que a função essencial da linguagem é sua

capacidade para a poesia, assumiremos que a função essencial

do consumo é sua capacidade para dar sentido. Duvidemos da

ideia da irracionalidade do consumidor. Duvidemos de que as

mercadorias servem para comer, vestir-se e se proteger.

Duvidemos de sua utilidade e tentemos colocar em troca a ideia

de que as mercadorias servem para pensar. Aprendamos a

tratá-las como meio não verbal da faculdade criativa do gênero

humano. (Douglas, Isherwood, 1990, p.77)

Bastante inovadora foi a visão sobre o consumo apresentada por este livro, publicado na segunda metade dos anos 70. Dela nos interessa reter a ideia de que o consumo nos permite pensar a maneira como os indivíduos buscam tecer suas relações sociais, posicionando-se no mundo e dando sentido a suas vidas.

O antropólogo norte-americano Marshall Sahlins vem contribuir para este debate, ao apontar para a necessidade de considerarmos o conjunto dos objetos modernos como um código que deve ser apreendido em sua relação com a ordem social burguesa. O autor propõe que se abandone a perspectiva analítica que considera os objetos como portadores de qualidades intrínsecas, e se considere que a utilidade dos bens, uma combinação indissociável entre praticidade e simbolismo, é elaborada e permanentemente reelaborada na estrutura das trocas de um grupo social específico. Embora por caminhos diferentes, conduz a uma perspectiva analítica próxima à de Baudrillard (1985), ao deslocar o foco do marxismo clássico e destacar a importância do valor de uso, afirmando que se os bens materiais não têm uma utilidade em si, seu valor de uso, ou seja, os tipos de uso que as pessoas farão dos mesmos, é tão social quanto seu valor de troca.

Vale ressaltar que partimos do pressuposto, assim como Bocock (1983), de que o consumidor não deve ser considerado como totalmente passivo, mas capaz de selecionar criteriosamente as mercadorias. Os indivíduos, nesta perspectiva, não podem ser resumidos a segmentos de mercado cooptados e aprisionados pelo sistema, passivos, espécies de idiotas culturais, ou vítimas que imitam as classes superiores, embora seja necessário considerar que suas ações são regulamentadas e influenciadas pela ordem social, consciente ou inconscientemente. É neste terreno escorregadio, tenso e ambíguo no qual ocorre o jogo entre liberdade e coerção, entre subjetividade e objetividade, que os indivíduos vão construir seus estilos de vida, por meio do consumo, na contemporaneidade.

Em outras palavras: Sem desconsiderarmos os mecanismos de controle e coerção do mercado como uma das principais instâncias na cultura contemporânea, é importante nos perguntarmos como os indivíduos selecionam estilos com base em sua própria noção de identidade.

Para que estes pressupostos sejam discutidos e reconsiderados, tomaremos como recortes temáticos uma das formas mais visíveis de consumo: os cuidados corporais, que podem ser resumidos pela expressão culto ao corpo.

 

Corpo e identidade

Para melhor compreendermos a importância da apresentação corporal no estabelecimento de relações sociais, vale lembrar que o corpo é, também, locus comunicacional, o que se realiza por duas vias: a linguagem/gestualidade e a forma, que, como coloca Featherstone(1993, p.55), é culturalmente codificada para operar como um indicador de poder social e prestígio. Aqui cabe, mais uma vez, referir Bourdieu, que aponta para a linguagem corporal como marcadora de distinção social. O consumo alimentar, cultural e a forma de apresentação (incluindo o consumo de vestuário, artigos de beleza, higiene e de cuidados e manipulação do corpo) são, segundo o autor, as três mais importantes maneiras de distinguir-se.

O corpo é a mais irrecusável objetivação do gosto de classe,

que se manifesta de diversas maneiras. Em primeiro lugar, no

que tem de mais natural em aparência, isto é, nas dimensões

(volume, estatura, peso) e nas formas (redondas ou quadradas,

rígidas e flexíveis, retas ou curvas, etc.) de sua conformação

visível, mas que expressa de mil maneiras toda uma relação

com o corpo, isto é, toda uma maneira de tratar o corpo, de

cuidá-lo, de nutri-lo, de mantê-lo, que é reveladora das

disposições mais profundas do habitus... (Bourdieu, 2007,

p.179)

O espaço de centralidade ocupado pelo corpo no mundo moderno foi discutido em nossa tese de doutorado (Castro, 2007) que tomou

o culto ao corpo 4 como forte tendência de comportamento e uma das dimensões dos estilos de vida construídos nas sociedades contemporâneas. A frequência à academia de ginástica foi percebida como uma das dimensões do estilo de vida e forma de sociabilidade para os indivíduos. O trabalho apontou que a prática do culto ao corpo constitui-se como forma de consumo cultural e atravessa todas os setores, classes sociais e faixas etárias, apoiada em um discurso que ora lança mão da questão estética e ora da preocupação com a saúde.

Partimos do pressuposto de que o corpo é expressão da sociedade e dos modos de vida cotidianos. Os hábitos adotados sobre o corpo, os padrões que definem sua normalidade e aceitação são a representação da organização social na qual ele está inserido, levando a crer que a relação corpo e sociedade é de fundamental importância. A despeito desta importância, o corpo, durante muito tempo, foi negligenciado, como objeto de discussão, no interior das

ciências sociais.5 Ainda assim, podemos pinçar alguns marcos teóricos importantes no esforço de problematizar a questão, desde o clássico ensaio de Marcel Mauss (2003, p.401) sobre as técnicas corporais, por ele definidas como "as maneiras como os homens, sociedade por sociedade e de maneira tradicional, sabem servir-se de seu corpo". Neste pioneiro trabalho, Mauss chama atenção para a compreensão das práticas corporais e suas origens e implicações sociais, apontando para o corpo como o arcabouço simbólico da sociedade, signo maior das representações coletivas.

O corpo é também objeto central na análise de Mary Douglas (1976), que demonstra a evidência do simbolismo social no corpo humano. Segundo a autora (1976, p.143), os rituais públicos sobre o corpo por ela estudados evidenciam interesses coletivos, e não pessoais, pois se o corpo é próprio do indivíduo que participa do ritual, "o que está sendo gravado na carne humana é a imagem da sociedade". Haveria uma espécie de estoque de símbolos criados socialmente, que aparecem nos rituais, que, por sua vez, representam as formas de relações sociais, o que permite aos indivíduos a compreensão de sua própria sociedade.

Um outro marco importante encontra-se na obra de Michel Foucault, que ao cunhar o conceito de biopoder definido como uma tecnologia disciplinadora que visa ao controle utilitarista do corpo, buscando maximizar seus esforços e reduzi-lo à dimensão da economia política revela que as tecnologias disciplinares tinham no corpo o foco do poder, tendo como principal finalidade o adestramento e a docilização dos indivíduos para extrair dos mesmos as forças necessárias aos interesses do capital.

Vale ressaltar que a preocupação com a aparência está ligada à cisão, própria da modernidade, entre o ser e o parecer. A preocupação com o corpo e a construção da aparência, cresce em importância na mesma medida em que a preocupação com a construção da identidade torna-se tarefa crucial dos indivíduos. Diferentemente de outros momentos históricos, as sociedades modernas impõem aos indivíduos a necessidade de definirem suas identidades, não mais predeterminadas pela tradição e pelo costume. Como aponta Giddens (1997), em uma sociedade em constante mudança, o indivíduo deve repensar-se e redefinir sua identidade cada vez mais frequentemente.

Segundo Anthony Giddens, no contexto da modernidade, o self entendido como autoidentidade é produto de um projeto reflexivo, sendo o indivíduo o principal responsável por ele. Nesta perspectiva, a reflexividade joga importante influência sobre a dinâmica da vida moderna, uma vez que "diz respeito à possibilidade de a maioria dos aspectos da atividade social, e das relações materiais com a natureza, serem revistos radicalmente à luz de novas informações ou conhecimentos" (Giddens, 1997, p.18).

Percebe-se, claramente, um esforço do autor de pôr em relevo a efemeridade e multiplicidade de espaços e instituições que marcam a condição moderna, situando o indivíduo como ser atuante neste processo. Diante da multiplicidade e segmentação de cenários que constituem a vida social, os estilos de vida configuram-se em espaços, ou ambientes de ação específicos, denominados pelo autor de "setores de estilo de vida. Em parte devido à existência de múltiplos ambientes de ação, as escolhas e atividades de estilo de vida tendem com grande frequência a ser segmentárias para o indivíduo: os modos de ação seguidos num contexto poderão variar mais ou menos substancialmente em relação aos adotados em outros contextos" (Giddens, 1997, p.17).

O constante processo de redefinição do self implica a construção de um estilo de vida, no qual o corpo assume papel central: os regimes do corpo, como dietas e fitness, na modernidade tardia, tornam-se abertos a uma contínua atenção reflexiva sobre o pano de fundo da pluralidade de escolha.

Assim, o estilo construído pelos indivíduos possibilita o contraponto ou o equilíbrio entre a coletividade da moda e a personalidade individual, garantindo a possibilidade de cada um identificar-se com os outros e ser único. Tal possibilidade de construção de estilos é dada pelo consumo, importante espaço de definição de identidades nas sociedades contemporâneas.

 

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1 Professora do Departamento de Antropologia, Política e Filosofia e do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Faculdade de Ciências e Letras, Unesp/Araraquara.

2 A este respeito, ver Buttler, 2003, bem como os trabalhos desenvolvidos pelos pesquisadores do Núcleo de Estudos de Gênero Pagú/Unicamp.

3 Revista Veja, 17/01/2001, p.84

4 Culto ao corpo é entendido como toda forma de cuidado com a apresentação corporal que busque a aproximação do padrão de beleza estabelecido socialmente, envolvendo não só a prática de atividade física, mas o consumo de cosméticos, alimentos da linha light e moda.

5 A este respeito, vale consultar Turner (1989). Neste trabalho, o autor relaciona a ausência de reflexões sobre o corpo com a resistência das ciências sociais a explicações de cunho biologizante, como parte da reação ao positivismo que imperava como paradigma dominante.