Cultura contemporânea, identidades e sociabilidades
8 Exótica, erótica e travesti: nacionalidade e corporalidade no jogo das identidades no mercado transnacional do sexo
8 Exótica, erótica e travesti:
nacionalidade e corporalidade no jogo
das identidades no mercado
transnacional do sexo1
Larissa Pelúcio 2
Hilda Brasil, travesti brasileira que passou uma breve temporada na Espanha, aparece em uma sequência de fotos postadas em um dos sites mais prestigiados pelos clientes daquele país dançando e divertindo-se pela noite de Barcelona. Seu acompanhante é um dos donos daquele famoso site e é dele também a matéria que apresenta Hilda como um "angel de curvas delicadas y discretas".
A divulgada suavidade de Hilda parece não quitar o que nela é sensual e provocativo, pelo menos na opinião dos "foreros" (é desta forma que os frequentadores do fórum que se encontra no site em questão se nomeiam). Assim, muitos deles mostram-se interessados em conhecê-la, ressaltando nos comentário sua graciosidade, fazendo do sobrenome de Hilda um certificado de sensualidade espontânea e insaciável, mais do que uma referência geográfica.
Em uma outra guia erótica, dessa vez portuguesa, Yasmyn Brasil anuncia-se como "bem meiguinha, paciente e carinhosa... uma autêntica BOMBA na cama, super viciosa, louca por sexo". Confirmando os estereótipos ancestrais que habitam as relações
entre Portugal e sua ex-colônia, Yasmyn mostra-se "autêntica",3 pois como brasileira ela é naturalmente fogosa. Como a sua terra, ela é selvagem (uma bomba), mas dominável (meiguinha, paciente e carinhosa). As referências ao Brasil vão além de seu sobrenome, aparecem também em algumas fotos que ilustram o anúncio, onde Yasmyn pousa adornada por penas de papagaio e estrelas lilases grudadas estrategicamente ao longo de seu corpo, que ganha assim, elementos que o tornam, sobretudo "natural", ainda que para isso seja preciso impregná-lo de signos culturais que remetem a Amazônia e aos trópicos. Nesse jogo de sedução, como costuma ser aquele que ocorre no campo do comércio, Yasmyn mobiliza a
seu favor as imagens simplificadas, mas potentes, sobre o Brasil.4
Antes de prosseguir, considero importante esclarecer que o campo desta pesquisa foi bastante reduzido em Portugal e limitou-se a uma breve incursão na cidade de Lisboa, assim, as informações sobre aquele país provêm mais da pesquisa em sites e fóruns na internet do que de um convívio entre as travestis e clientes naquele país, o que, certamente, limita algumas análises. Por isso, centro-me mais na cena espanhola, onde o campo foi mais prolongado.
Instigada por esse campo entre sites e cidades, pelas conversas com clientes e contatos com travestis que estão neste momento se prostituindo na Europa, começo a pensar, ainda que de maneira um tanto ensaística, sobre cultura sexual, corpos que se movem, identidades que estrategicamente jogam com estereótipos, gênero que se racializam, nacionalidades que se sexualizam, desejos transnacionais e gramáticas eróticas.
"Para entender as relações das imagens sobre o Brasil com a inserção das brasileiras no mercado transnacional do sexo é necessário prestar séria atenção aos cenários nos quais as convenções eróticas se materializam", sublinha Adriana Piscitelli (2007, p.19). É o que busco fazer na próxima seção, privilegiando os espaços virtuais de interação entre clientes, e deste com as travestis.
Sexualidades racializadas,"raças" sexualizadas
O corpo da travesti é hoje na Espanha (e acredito que também em Portugal) um corpo que fala do Brasil. O país aparece no discurso
de alguns dos clientes com os quais mantenho contato, 5 como uma terra desafiante, que convida à aventura, mas também como "uma usina de produzir travestis". Sites especializados em serviços sexuais prestados por travestis ajudam a reforçar essa percepção.
Na última atualização de seu catálogo de anunciantes (consulta feita em 17/9/2009), o Taiaka Shemale, um dos sites espanhóis que tem o maior número anunciantes travestis, exibia fotos de 226 profissionais do sexo. Entre as que declaravam sua nacionalidade
(206), 151 eram brasileiras. 6 Uma destas é Amanda Beckman, que se anuncia como sendo dona de um "lujoso culazo [bundão] a lo brasileño". A associação de um estilo corporal, no caso as nádegas protuberantes, a uma nacionalidade específica, generifica o país, o Brasil, uma vez que a bunda, seja ela de uma mulher biológica, de um rapaz ou de uma travesti, é um atributo associado ao feminino, pois é dada à penetração. Nádegas grandes como marca de uma nacionalidade remete a traços raciais, tão solidamente difundidos e assentados no imaginário popular pelos espetáculos públicos, que na Europa e Estados Unidos, apresentavam corpos assombrosos: as crianças astecas, a menina-macaco do Laos, o mongol. Dentre estes corpos "maravilhosos" figurou a Vênus Hotentote, uma mulher africana, de 1,35 metro que, no início do século XIX, assombrava os
europeus com suas nádegas muito protuberantes.7
A apresentação em jaula realçava-lhe a natureza supostamente
perigosa e selvagem, a qual se associava a noção de
sexualidade também perigosa, incontrolável. Para Stephan Jay
Gould, a fama da Vênus Hotentote como objeto sexual provinha
justamente das duas características que seu próprio apelido
realçavam, ao combinar uma suposta bestialidade ("hotentote")
com a fascinação lasciva ("Vênus"). O interesse lascivo
despertado pelas apresentações de Sarah [a Vênus Hotentote]
fica explícito nos inúmeros cartuns que focalizavam suas
nádegas. (Citele apud Ragor, 2008, p.164)
Na Espanha contemporânea, a sexualização das travestis não se separa de uma racialização desses corpos. Os corpos "maravilhosos" das travestis, cuidadosamente preparados por elas para serem expostos em páginas da internet, jogam com as convenções de gênero e raça de maneira que os persistentes estereótipos que compõem a gramática erótica colonial joguem a seu favor. Assim, ser "morena exótica", na linguagem telegráfica dos anúncios que as brasileiras fazem nas guias eróticas on-line, significa ser mestiça e, numa associação que remonta discursos
científicos de vieses evolucionistas, ter pênis grande. 8 Sara, travesti brasileira que vive em Barcelona, faz de sua negritude um diferencial para o marketing pessoal. Anuncia-se como sendo dona de uma "beleza negra" e de um "dote", isto é, de um pênis, de 26 x 6. Ela ri quando conta que este é um tamanho exagerado, que não corresponde à verdade. O que o torna crível é justamente a expectativa que os europeus têm em relação a uma genitália negra
diferente da branca. 9
É interessante verificar que muitas travestis com as quais tenho contato, aprenderam no convívio com a clientela espanhola e nos fóruns de discussões específicos, que ao olhar daqueles homens elas não incorporam o mesmo tipo de latinidade daquelas travestis que são originárias das ex-colônias espanholas. Assim, reforçam essas marcas a partir de uma série de signos que possam diferenciá-las mobilizando imagens sobre o Brasil que circulam mundialmente e ganham significados específicos em cada localidade. Em país como a Espanha, cujos ídolos do futebol nacional são brasileiros, Tahra Wells anuncia-se deitada sobre uma bola que repousa em gramado, vestida com uma minicamiseta da seleção brasileira e um biquíni que reproduz as cores verde e amarelo da bandeira. Sua pele bronzeada e seus longos cabelos negros não podem ser, assim, confundidos com de uma colombiana ou porto-riquense.
Na produção dessas imagens, as travestis procuram marcar em seus corpos referências étnicas, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, buscam uma branquitude ligada ao glamour e à sensualidade, a partir de referências mundializadas pelos apelos de Hollywood. Mais do que mero pastiche, elas mostram, na escolha das poses, dos adereços e das palavras com as quais se apresentar um uso imaginativo desses signos.
Arjun Appadurai cunhou o conceito de "imaginação" a fim de descrever um fenômeno típico da globalização pós-moderna, quando os fluxos de ideias, imagens, coisas e pessoas se intensificam permitindo uma rápida circulação de informações que estimulam ideias, evidenciam desigualdades, colocam em xeque verdades locais, tornam localidades nacionais espaços transnacionais (cito como exemplo brasileiro a cidade mineira de Governador Valadares). Tudo isso faz da "imaginação" uma parte crítica da vida cotidiana e coletiva, como também uma forma de trabalho.
Isto significa que a vida social cotidiana das comunidades em
todo o mundo criou novos recursos para o funcionamento da
imaginação em todos os níveis de ordem social. A imaginação
expressada com força nas pautas de consumo, de estilo e
gostos deixou de ser um assunto individual, de escapismo da
vida cotidiana ou simplesmente uma dimensão da estética.
Trata-se de una faculdade que intervém na vida cotidiana das
pessoas normais de diversas maneiras: é a faculdade que
permite às pessoas considerar a emigração como remédio para
resistir à violência do Estado, buscar compensações sociais e
desenhar novas formas de associação cívica e colaboração,
quase sempre, além das fronteiras nacionais. (Appadurai, 1999,
tradução da autora)
Esse tem sido o movimento feito por várias travestis brasileiras. Elas imigram na busca de vidas mais habitáveis, ainda que indocumentadas, uma vez que muitas delas não conseguem se legalizar. A fim de se manterem mais seguras e poderem trabalhar, as travestis desenvolveram uma série de estratégias capazes de assegurar sua permanência na Europa. Algumas conseguem, muitas falham.
Essas estratégias passam pelo uso sistemático da internet, por onde elas descobrem formas de assegurar um lugar para si fora do país, formar uma rede de contatos, aprender sobre a dinâmica do mercado do sexo de cada país e mesmo sobre como agir na aduana. Nos fóruns e inúmeras plataformas de sociabilidade da web, as travestis trocam informações, agendam programas com clientes, pedem dicas para as mais experientes e para os homens dispostos a ajudá-las. Esses meios permitem também que se "queime" a imagem de um desafeto (seja ele travesti, cliente, um empresário ou empresário da indústria do sexo) ou que se promovam para além do que os anúncios de seus serviços prometem.
A participação atuante em fóruns pode render, por exemplo, o título de "miss do mês" em alguns deles. Título que confere visibilidade e confiabilidade. No Taiaka Shemale, um dos espaços onde esse tipo de premiação acontece, cinco brasileiras foram consecutivamente consagradas "miss". Esse tipo de reconhecimento também ajuda a marcar as linhas de fronteira entre as brasileiras e demais latinas. Recurso necessário para se diferenciarem de tantas outras "morenas exóticas" que são colombianas, equatorianas, venezuelanas, cubanas.
O glamour, categoria nativa que expressa sucesso na feminilização, o reconhecimento público de suas qualidades, sobretudo artísticas e criativas e a possibilidade de materializar isso em bens que remetem ao consumo de luxo, tem sido entre as travestis brasileiras um operador capaz de se contrapor à abjeção. Ou seja: à negação sistemática da legitimidade de suas vivências e escolhas, da desumanização de que são alvo e que justifica a violação de seus corpos que leva, quase sempre, à pobreza e a mortes prematuras. A Europa vem sendo construída pelos discursos de muitas travestis como um contraponto a toda essa realidade. Por isso que ela, a Europa, é "luxo". Um termo que se tomado como categoria analítica e não só como categoria êmica remete a outra expressão recorrente
em seus discursos como "europeias": aqui eu sou respeitada. 10
Por este prisma, afastar-se das equatorianas, nacionalidade extremamente desvalorizada pela média da população espanhola, torna-se bastante estratégico para as brasileiras, que procuram, em contraponto, construir em torno de si uma imagem que pode ser lida como de estudada superioridade, seja frequentando os lugares mais caros e prestigiados da noite espanhola, divulgando intensamente no Orkut fotos de suas viagens mundo à fora, vestindo-se com roupas de grifes (mesmo que sejam falsificadas) e se anunciado como "tops", isto é, mais sofisticadas, bem-sucedidas no mercado do sexo e valorizadas pelos clientes. Atitude que um frequentador dos fóruns especializados classificou de "divismo". Isto é, sentem-se divas e por isso agem com arrogância, esnobando as outras e os próprios clientes.
Em Portugal, 11 negociar a nacionalidade de brasileira é preciso considerar a relação colonial que liga esses dois países e os diferentes fluxos imigratórios que articularam a relação passada e
presente entre portugueses e brasileiros.12 Some-se ainda as percepções estereotipadas sobre o gênero feminino, que encontram no passado colonial e no presente transnacional referências sobre o que os portugueses devem esperar de uma mulher brasileira.
Em seu trabalho sobre a representação de mulheres brasileiras na mídia portuguesa, Luciana Pontes (2004, p.232) avalia que
existe uma grande associação entre gênero e nacionalidade
nas representações da mulher brasileira na mídia portuguesa.
(...) Essas representações feminizam o Brasil, ao mesmo tempo
em que sexualizam gênero. Esse processo de femininização da
representação da nação está relacionado tanto à história do
imperialismo e colonialismo quanto aos processos mais
contemporâneos relacionados à globalização, como o turismo
internacional. Estes processos têm como pano de fundo as
relações desiguais entre países, em que as relações "centro-
periferia" se expressam no campo simbólico em representações
de tropicalidade e exotismo, em que os diferenciais de
desenvolvimento e distribuição de renda são sensualizados. No
caso da identidade brasileira em Portugal, tal processo resulta
numa essencialização cujos principais atributos são a alegria, a
sensualidade e a simpatia.
Além de reforçarem os predicados da sensualidade e simpatia, as travestis brasileiras costumam abusar dos diminutivos em seus anúncios nas guias portuguesas (meiguinha, mulatinha, gatinha, safadinha), em um misto de submissão e sedução, sugeridos pela associação do diminutivo com a feminilidade. Esse jogo semântico é também tático, uma vez que o sexo com travestis, quase sempre mantido em segredo pelos clientes, representa uma ameaça à masculinidade desses homens que buscam prazer nesses encontros. A ausência desse recurso nos textos de anúncios espanhóis sugere que há diferenças a serem consideradas quando se pensa na construção das masculinidades e de normas sexuais consentidas.
Ser erótica e exótica no contexto transnacional 13
A exotização14 e erotização do "outro" têm sido formas de expressar simbolicamente, nas relações cotidianas, processos de dominação econômica e cultural. O colonialismo parece ser um desses eventos que saturou de signos eróticos não só as terras "exóticas", mas também seus habitantes. Na tradição moderna ocidental, o erótico guarda marcas históricas persistentes que dão sentido aos encontros sexuais contemporâneos. "O prazer de sentir o diverso" (Segalen apud Leitão, 2007), não se separa das experiências coloniais, dos mitos acerca do "outro" não europeu, de um "orientalismo" (Said, 2007) como conhecimento articulado a partir do olhar hegemônico, sobre uma vasta periferia, e assim, permeado por relações de poder.
Piscitelli (2002a, p.218) observa que a "ideia de exotismo é construída através de procedimentos nos quais a alteridade é delineada mediante distinções inseridas em nítidas relações de desigualdade no sentido de distribuições diferenciadas de poder.
"A própria ideia do exótico só é possível através da dominação e da domesticação do que é diferente, não por uma 'melangé' com a alteridade", afirma Igor Machado (2003, p.21), ao discutir a inserção de brasileiros no "mercado da alegria", na cidade do Porto. No caso desta pesquisa, a domesticação do Brasil "exótico" é construída a partir de diversos elementos que os clientes ibéricos conseguem reunir desde seus países sobre essa terra longínqua, mas familiar. As imagens que viajam em anúncios turísticos e a convivência com diferentes travestis somam-se à promoção de produtos brasileiros (caipirinha, sandálias havaianas, biquínis), documentários e notícias sobre criminalidade veiculadas pela mídia internacional. Em Portugal existem, ademais, as novelas, que ajudam a compor um grande mosaico do que seria o Brasil contemporâneo, criando uma ideia de familiaridade e de superioridade para os estrangeiros.
Em relação às travestis, o grande número delas que hoje frequentam sites especializados, os fóruns e espaços virtuais de interação, oferecem a esses homens um conhecimento prévio sobre elas. Acionam, por esses meios, táticas de apresentarem a si mesmas e seus serviços a partir de referências que buscam atender às expectativas dessa clientela em relação às travestis brasileiras (ser carinhosa, "quente", sexualmente disponível etc.).
As travestis estão, hoje, inseridas no vasto menu de ofertas da indústria do sexo europeu, ou pelo menos, ibérico. Os clientes sabem, em grande medida, o que esperar delas, de que países costumam ser, como sairá o serviço sexual e por quanto. Por outro lado, as travestis brasileiras foram se adaptando às demandas
locais.15 Se o exótico sugere o erótico, elas se esforçam para transformar essa associação em capital simbólico, social e material.
Semanticamente, o exótico refere-se também ao que não é nativo, da terra. Assim, apresentar-se como recém-chegada à Europa, ou seja, aquela que veio de fora tem sido uma estratégia das mais acionadas pelas travestis, sobretudo nos anúncios que fazem nos sites portugueses. Talvez pelo prolongado contato entre as duas terras, ser recém-chegada possa ser lido como um diferencial excitante, uma vez que novidade e variedade são termos importantes na gramática dos prazeres. Enquanto na Espanha, os anúncios ressaltam a doçura e feminilidade, contrastando-a com as fartas medidas dos seios e do pênis. O exótico ganha, assim, significados que guardam implicações estético-morais: "àquele que é esquisito, extravagante" (Dicionário eletrônico Houaiss).
Os jogos eróticos que o exótico pode sugerir têm estreita relação com a própria corporalidade travesti. Seios e pênis, nádegas fartas e disponibilidade para o sexo anal, performance feminina e a atividade sexual atribuída ao masculino, encontram-se juntos nas travestis que atuam no mercado do sexo transnacional. Misturam-se a esses elementos híbridos a possibilidade da presença do sêmen nas relações. Este fluido impregnado de significados simbólicos é capaz de suscitar cumplicidade (ambos obtiveram prazer na relação) e excitação (a transgressão do sexo entre "iguais"). Ainda que nas interações on-line desses clientes, as práticas, genitália e fluidos corporais venham quase sempre encobertos por eufemismo feminilizantes como chamar o pênis delas de "grelão" (no caso dos portugueses) ou de "sorpresita" (como fazem os espanhóis).
Nos fóruns portugueses e espanhóis tópicos sobre qual é mais "dotada" (com o maior pênis) costumam fazer sucesso, o que é verificável não só pelo número de respostas que suscitam, mas pela
quantidade de visualizações dos mesmos,16 evidenciando o interesse sexual que o órgão sexual da travesti provoca. Interessante frisar que a maioria absoluta dos clientes, tanto no Brasil como nos países ibéricos, não tem qualquer atração por homens. O corpo que os atrai é o da travesti. Esse corpo transgressivo, no qual os gêneros se embaralham, que são capazes de denunciar que a anatomia não é destino e que os gêneros são performativos. Ou seja, que ele é um mecanismo que naturaliza o masculino e o feminino (Butler, 2002).
Em muitas conversas que tive com travestis que se prostituem ou se prostituíram na Espanha, foi ressaltado o gosto daqueles homens por práticas tidas por elas como "estranhas", fossem as "chuvas dourada, marrom ou branca" (sexo com urina ou fezes e ejaculação no rosto), ou prazer de fazer sexo anal como "passivos" e o chamado "transformismo", isto é, vestir-se com roupas femininas e
exercer o papel de "passivo" no ato sexual. 17 Uma de minhas entrevistadas brasileiras, que vive atualmente em Barcelona, ressalta ainda que os espanhóis querem de tudo: "loira, negra, eslava, mulher, travesti, alta, magra...", apontando a variedade como um quesito que aquece o mercado e instiga o desejo.
Variedade, nacionalidade e identidade
Adriana Piscitelli toma o fator variedade/diversidade como um dos elementos relevantes na indústria espanhola do sexo.
Autores que estudam a relação entre produção e consumo de massa chamam a atenção para o surgimento de uma nova diversidade no mercado de consumo, a partir da década de 1960, que contrasta com a homogeneização na produção existente até esse período (Miller, 1987). A grande variedade presente em clubes e apartamentos voltados para a oferta de serviços sexuais em grandes cidades espanholas parece remeter a essas observações (Piscitelli, 2009, p.185).
Ainda que se refira principalmente ao sexo pago com mulheres, é possível tomar a observação de Piscitelli também no que se envolve às travestis. Os comentários que circulam em um dos sites espanhóis sugerem que variar é "morboso" [excitante]. Um dos foreros escreve entusiasmado por ter descoberto "trannys"
[travestis] 18 russas, enquanto outro espera conseguir estar com alguma delas para poder dar um parecer sobre a relação nacionalidade/qualidade do serviço. As russas também causaram frison em um fórum português, uma vez que são uma novidade aguardada em terras lusitanas, onde a variedade de oferta é bem mais escassa que no país vizinho.
Os corpos se tornam, assim, metonímias dos lugares, de maneira que espanhóis não precisam mais viajar aos países do Sul para sentirem o "exótico" dessas terras. "Para cosas exóticas hoy en día no hace falta salir del país, pero esta variedad de travestis no existía hace 8 o 10 años" (cliente de travestis, comentário postado no site Rincontranny em agosto de 2007).
Porém, no caso das travestis, já foi possível observar que ser de um determinado país ou região é algo que não se separa facilmente da própria corporalidade travesti e, por sua vez, de uma sexualidade específica associada a determinados povos. Eu diria que os clientes buscam não são profundas distâncias culturais, pois esse hiato pode inviabilizar o jogo erótico pela incompreensão de uma certa gramática dos prazeres que precisa ser compartilhada para funcionar. O que está na mira dos desejos, me parece, é muito mais um tipo de expressão de gênero e sexualidade singular, que parece se relacionar fortemente com as culturas sexuais latino-americanas, com marcada peculiaridade no que se refere àqueles países onde a escravidão negra foi mais intensa, unindo ao sistema de plantation, submissão racial e exploração sexual.
Ao analisar a forma como o poder imperial atua, Anne McClintock propõe que, no âmbito deste poder, "gênero está vinculado à sexualidade, mas também ao trabalho subordinado e raça é uma questão que vai além da cor da pele, incluindo a força de trabalho, atravessada por gênero" (Piscitelli, 2008, p.268). Em relação às travestis brasileiras inseridas no mercado do sexo europeu, essa observação ganha dimensão empírica.
Imaginativamente, no sentido que Appadurai dá ao termo, as travestis brasileiras têm se integrado nesse mercado transnacional, fazendo de seus corpos, textos capazes de provocar desejos coloniais. Fantasia, racismo e sexo enlaçam-se compondo os termos de uma densa gramática, que tem nas teorias raciais do século XIX um solo firme, capaz de fazer que ainda hoje a brancura remeta à civilização. Do mesmo modo como consegue associar todo o hibridismo a uma natureza humana selvagem (Young, 2005, p.117-9). Relação que, na economia transnacional do sexo, acaba por favorecer as travestis brasileiras, por mais paradoxal que soe essa sentença.
Em suas vidas vividas nos entre-espaços, o paradoxo tornou-se a própria condição de existência das travestis brasileiras. Desejadas e rechaçadas; expulsas de seu país pela intolerância e ícone nacional quando no exterior; nem só homens, tampouco somente mulheres; complexas em sua humanidade integral e em seu gênero desestabilizador, elas tem sido capazes de denunciar que o gênero é performativo (ainda que, de forma, nem sempre consciente). Ou seja, que o gênero é um mecanismo político e social capaz de naturalizar o masculino e o feminino. E para não fugir do paradoxo, são elas também as que provam que este mesmo mecanismo regulador pode servir para desconstruir o binarismo, alargando, com a força dos seus corpos, o campo semântico do gênero e as fronteiras literais e metafóricas do desejo.
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1 Este texto traz uma reflexão inicial da pesquisa que realizo junto ao projeto temático "Gênero, corporalidades", o qual desenvolvo sob a supervisão de Adriana Piscitelli, no Núcleo de Estudos de Gênero Pagu como bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Parte dos dados apresentados aqui provém de trabalho etnográfico realizado nas cidades de Madri, Barcelona e Lisboa, e de incursões quase diárias a algumas guias eróticas espanholas e portuguesas.
2 Pesquisadora do Núcleo de Estudos de gênero Pagu/Unicamp.
3 Adriana Piscitelli (2002) discute a importância da noção de autenticidade para alguns clientes que viajam para países do chamado "terceiro mundo", em busca de sexo com mulheres nativas. O "autêntico" traria uma espécie de garantia de que eles estariam usufruindo de um tipo de experiência "descontaminadas" dos valores superficiais e frívolos que julgam permear as relações sexuais em seus países de origem. Faz parte também dessa discussão a distinção entre a viagem como uma experiência exploratória e de descobertas que promovem um crescimento pessoal a partir do contato com o Outro e sua cultura, versus o turismo, atividade vista por alguns autores como pasteurizada, uma simulação do que seria de fato autêntico no lugar visitado.
4 Nas palavras de Homi Bhabha (1998, p.105), "um aspecto importante do discurso colonial e sua dependência do conceito de 'fixidez' na construção ideológica da alteridade. A fixidez, como signo da diferença cultural! histórica/racial no discurso do colonialismo é um modo de representação paradoxal: conota rigidez e ordem imutável como também desordem, degeneração e repetição demoníaca. Do mesmo modo, o estereótipo, que e sua principal estratégia discursiva, e uma forma de conhecimento e identificação que vacila entre o que está sempre 'no lugar', já conhecido, e algo que deve ser ansiosamente repetido".
5 Neste momento, a maior parte deles é composta por espanhóis, com os quais mantenho contato via MSN e e-mails. Ao longo dos três meses em que fiz pesquisa etnográfica na Europa estive pessoalmente com quatro deles, sendo apenas um português. O fato de trabalhar com a clientela travesti desde a pesquisa de doutorado (transformada no livro Abjeção e desejo uma etnografia travesti sobre o modelo preventivo de aids, São Paulo, Editora Annablume, 2009) foi um grande facilitador para essas aproximações.
6 Nas duas guias portuguesas consultadas, as nacionalidades das travestis não estão explicitadas. Algumas declaram sua origem, quase sempre brasileiras. As portuguesas também costumam valorizar sua procedência. Não encontrei anúncios de latino-americanas hispanofalantes nas guias eróticas portuguesas.
7 Para uma discussão mais aprofundada sobre os corpos exóticos, racializados e espetacularizados ver Leite Júnior (2006) e Rago (2008).
8 Cecília Patrício (2008, p.154 e 157) em sua tese sobre a construção da identidade de "europeia" entre as travestis brasileiras também chama atenção para a expectativa gerada entre a clientela espanhola de que as travestis, sendo mestiças, terão órgãos sexuais grandes.
9 Como forma de valorizar e referenciar a genitália avantajada muitas travestis negras que trabalham na Espanha adotam o sobrenome de Anaconda, em referência a cobra mítica e enorme que habitaria a selva Amazônica e que ficou famosa a partir de um filme produzido em 1997, por Luis Llosa, com a norte-americana-latina Jennifer Lopez.
10 Para uma discussão mais acurada sobre a categoria europeia, consultar Patrício (2008) e Pelúcio (2009).
11 Meu campo em Portugal foi bastante reduzido e se limitou à cidade de Lisboa, assim, as informações sobre aquele país provêm mais das incursões a sites e fóruns na internet do que de um convívio entre elas naquele país, o que limita algumas análises, por exemplo, quais seriam as nacionalidades com as quais elas procurariam contrastar a sua brasilidade. Pelo que pude observar nos ambientes virtuais, a diferenciação dar-se-ia com as próprias portuguesas, pois não encontrei anúncios de latino-americanas hispanofalantes nas guias eróticas portuguesas.
12 Para uma discussão aprofundada sobre imigração brasileira para Portugal e os sentidos simbólicos e culturais desses deslocamentos ver Machado (2003 e 2007).
13 Refiro-me a transnacionalidade como sendo um espaço de relações diversas que é transversal às nações, pois se dá simultaneamente em diferentes localidades nacionais, com o fluxo de signos e significados, pessoas e bens, assim como pela internet, onde em diferentes sítios, plataformas e correios eletrônicos informações e afetos circulam para além de qualquer fronteira nacional.
14 Ainda que possamos pensar que tem havido uma sistemática domesticação desse exotismo, dado o volume de informações que circulam sobre o Brasil como local de turismo tropical, de sua pobreza e criminalidade (divulgadas pelos telejornais) criando uma ideia de familiaridade e de superioridade para os estrangeiros. No caso específico das travestis, o grande número delas que hoje frequentam sites especializados, os fóruns e espaços virtuais de interação oferecem a esses homens um conhecimento prévio delas e mesmo que se apresentem a partir de referências que buscam atender a expectativas que essa clientela tem em relação às travestis brasileiras (ser carinhosa, "quente", sexualmente disponível etc.).
15 Por exemplo, passaram a fazer fotos e textos para os anúncios adaptados às expectativas da clientela de cada país. Como observou Cecília Patrício (2008), em sua etnografia feita entre travestis brasileiras na Espanha (e meus dados corroboram), valorizar o tamanho do pênis, anunciar-se como ativa e mesmo mostrar o membro ereto em fotos, é algo bastante comum nos sites espanhóis (e um pouco menos nos portugueses), o que não costuma ocorrer nos sites brasileiros (ainda que isso esteja mudando).
16 Os fóruns costumam ter uma interface bem parecida: as áreas de interesse aparecem claramente divididas e formam links dentro dos quais cada membro inscrito previamente pode lançar tópicos, isto é assuntos relacionados à temática daquela seção. À frente de cada item proposto para discussão e interação é possível visualizar o número de respostas recebidas, e em uma outra coluna, a quantidade de vezes que o tópico foi visualizado.
17 Em Barcelona, entrevistei uma travesti brasileira muito bem contada no mercado sexual espanhol. Ela atribui parte de seu sucesso ao fato de dedicar-se às fantasias de submissão desses homens e ao transformismo. Para garantir a satisfação dos clientes, mantém em um armário com diversos pares de sapatos femininos de tamanhos que variam do 40 ao 46, todos pertencentes a homens que a visitam. A referida profissional tem ainda diversas fantasias que remetem ao feminino que podem ser usadas pelos clientes. Por uma seção de sexo com transformismo ela cobra quatrocentos euros.
18 Nesse site, os seus frequentadores adotam, muitas vezes, este termo anglo-saxão para se referirem a travestis.
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Ana Lúcia de Castro
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