Cultura contemporânea, identidades e sociabilidades
1 O que pode a triangulação entre dinheiro, expressões culturais e esfera pública nos dizer sobre diversidade e universalidade?
1 O que pode a triangulação entre
dinheiro, expressões culturais e
esfera pública nos dizer sobre
diversidade e universalidade?1
Edson Farias 2
A proposta de refletir sobre as dimensões teóricas, analíticas e empíricas das contemporâneas feições tomadas pelo par cultura e economia está, nesta comunicação, condicionada pelo objetivo de considerar o relevo de ambos no debate acerca das identidades pessoais e coletivas. Portanto, de antemão sublinhamos que as identidades não serão os focos imediatos da exposição. Se a exposição será de natureza teórica, prevalecendo um discurso com tendência a abstrair os temas arrolados de contextos empíricos mais precisos, cabe registrar que a reflexão aqui desenvolvida estará na contrapartida do percurso de pesquisas até agora realizado a respeito de faces da cultura popular de massas no Brasil. O que hoje se tem por meta, fundamentalmente, é levar à condição de objeto os efeitos da atual triangulação contemporânea entre expressão, dinheiro e esfera pública nas concepções e instrumentais socioantropológicos direcionados ao tema.
A escolha desta tríade deve-se ao suposto de que ela traz ao centro das atenções uma vez mais o dueto diversidade e universalidade. Agora, porém, na medida em que apostamos no argumento de que a discussão a respeito do problema em torno da equivalência entre diversidades étnico-históricas, no movimento em que estas se tornam elementos constitutivos dos fluxos de comércio e serviços de bens intangíveis, introduz o dueto economia e cultura no centro das preocupações envolvendo formações subjetivas e imagens grupais. Lembrando sempre que o horizonte histórico sob o qual se encenam estes alinhamentos é a tensão contemporaneamente estabelecida entre as narrativas da diversidade e da globalização. Estando as últimas em vinculação direta com as dinâmicas atuais da correlação monetarização de símbolos e práticas significantes com as pressões exercidas pelas moralidades sobre a condução das funções corporais, às quais se materializam em expressões vertidas em informações passíveis de compor a esfera pública articulada aos sistemas sociotécnicos comunicacionais.
Antes de avançar na argumentação, cabe delinear melhor nossa proposta à luz do debate travado nas ciências sociais a respeito das convergências hoje em curso entre culturas e expansão do sistema-mundo capitalista. Isto porque as etnografias até agora realizadas da modernidade, de um modo geral, supõem duas alternativas teórico-interpretativas para lidar com o tema do diverso e do idêntico no ambiente da globalidade. Ou asseveram a incorporação cabal das culturas planeta afora ao conjunto da ordem global do capitalismo, em sua fase financeira e culturalista (Jameson, 2001). Díade esta que alteraria qualitativamente o teor daquelas em função do trânsito fremente de mercadorias, pessoas e ideias. Ou advogam a perspectiva da reposição das diferenças étnicas no compasso mesmo da expansão de uma sociedade mundial (Montero, 1993), em que a coordenação das irredutibilidades sociossimbólicas traria, em seu escopo, saídas recíprocas de convivência intracultural, mas na simétrica medida em que são deflagradas "guerras culturais". Se fôssemos deduzir o ponto de entrelaço entre ambas as vertentes, anotaríamos a certeza tácita de que se dá a efetiva universalidade decorrente da unificação dos meios de trocas à luz da supremacia
do dólar, sobretudo, desde o final da última grande guerra. 3 A penetração do dinheiro como instrumento de troca e parâmetro de valor a áreas mais extensas das tramas sócio-humanas parece ter suscitado o problema ético, político e teórico em torno para retomar Appadurai (1988) do "valor das coisas". Em outros termos, a face inversa da existência de um equivalente universal estendido a tantas escalas está na complicação mesma de como apreender a equivalência dos valores, considerando as respectivas irredutibilidades desses últimos.
Espinhosa, a questão já fora alvo de encaminhamentos distintos no interior da teoria social clássica, embora seus autores concordassem com o diagnóstico senão do declínio, pelo menos da subordinação dos diversos étnico-históricos à substancialidade adquirida pela troca interna à autorregulação do mercado capitalista. Primeiro, façamos um recurso às concepções a respeito na obra de Marx. Inspirado na teleologia do espírito absoluto hegeliano, todo o capítulo primeiro de O Capital (1984) detecta, na mecânica da socialidade burguesa, a transformação da diversidade dos valores (de uso) pelo demiurgo da temporalidade abstrata do valor de troca, da qual o dinheiro seria a expressão heurística. Embora seja o núcleo do fetiche do capital, a seiva viva do trabalho humano apenas compareceria no âmago da mercadoria enquanto fantasma da origem do valor. A seguir, vejamos o que diz a sociologia francesa, em dois momentos precisos, nos quais conclui sobre a permanência de um resíduo de crença na dinâmica mercadológica. Vale lembrar, então: em seu debate com os economistas clássicos, Durkheim (2000) infere que, mesmo a princípio submetido aos imperativos da autossobrevivência individual, à disposição para a permutabilidade intrínseca à função monetária atualizaria o indicativo moral de coesão fundador da solidariedade social. Ou seja, a troca permaneceria moralmente antecedente à razão individualista da sobrevivência. Já Marcel Mauss (2005) encontra algo de mágico na fórmula universal do dinheiro, tal como existe e funciona nas sociedades modernas. Para ele, na posse desse artefato, há a potência não somente da diferenciação, sobretudo há a capacidade de singularizar as respectivas personalidades, a qual ultrapassaria a mera aquisição instrumental visando à reprodução biológica, isto no instante em que o prestígio garante o reconhecimento por honorabilidade, ao constituir-se o indivíduo em específica pessoa possuidora de face própria e única.
Talvez um e outro ponto de vista repercutem em algumas das saídas teórico-analíticas nas ciências sociais do presente, as quais tendem aos seguintes rumos. Ou relatar a tradução que subordina o capital pelas tantas cosmologias dotadas de seus particulares ecossistesmas simbólicos (Sahlings, 1988). Ou, então, sublinhar a vigência de um sistema abarcante cruzando e absorvendo parte a parte da diversidade étnico-cultural e biótica do planeta, no movimento pelo qual são reduzidas à condição de matérias-primas da economia-mundo capitalista (Wallerstein, 1997). Quando muito, existem propostas buscando o equilíbrio entre ambas, ao sugerirem que, na contrapartida do sistema-mundo hegemônico, haveria aquele não hegemônico, cujas regras obedeceriam a prescrições locais ou circunstanciais. Isto é, em parceria com a natureza centrífuga da organização das práticas nele implementadas, mas, principalmente, em face da natureza precária dos modos de agir acionados (Ribeiro, 2007).
Certamente, não haveria como entrar, aqui, no mérito propriamente da consideração de cada um dos três pontos de vista assinalados acima. Assim, para o que nos interessa pôr em discussão no tocante ao tema da aproximação e do confronto entre irredutíveis e equivalências, cabe observar que, todas as três opções analítico-interpretativas antes apresentadas se desdobram seja na direção da variação das memórias, seja na transformação delas ou, ainda, na ambiguidade relativa àquilo capaz de parecer diverso e, simultaneamente, identificável. O que anota, portanto, a relevância da questão mnemônica no debate. Se concordarmos consistir a memória em um domínio psíquico-simbólico de coordenação e
regulação das lembranças e dos esquecimentos, 4 e neste sentido com intervenção direta na distribuição do conhecimento socialmente elaborado, sublinhamos sua importância elementar à exteriorização das intenções humanas. Logo, com efeitos no estabelecimento de cadências motoras e temporais vislumbradas tanto nos ritmos cotidianos marcados no controle autorreflexivo dos impulsos corporais quanto na demarcação institucional do horizonte e também da profundidade temporal da existência individual e coletiva. E, com isso, somos conduzidos aos equilíbrios e às disposições entre forças na concorrência para serem habilitadas hábeis a conduzir uma programação de verdades, isto é, critérios de certificação, retidão e veracidade segundo os quais, pelo filtro de seu eixo imaginário, determinada época lida analogamente com outras (Veyne, 1983). Concluímos, em termos de nossa estratégia de abordagem, oportuno verificar esses laços entre mesmo e diverso nos arranjos mnemônico-históricos apostando no plano das expressões culturais. A aposta nesse plano ocorre porque nele convergem prioridades psíquico-sensórios-motoras e anteparos normativos, os quais são decisivos na delimitação dos domínios de memória. Mas tendo em conta, igualmente, o peso das circunstâncias (interpessoais e ecoambientais) para deflagrar cada um deles e colocá-los em ajuste. Mas, antes, a potencialidade da expressão no debate sobre os efeitos da equivalência do dinheiro na diversidade cultural do planeta decorre, exatamente, do fato de contracenar com a notória envergadura adquirida por um espaço
público caracterizado pela autoapresentação. 5 Espaço público em que as condições de visibilidade e, igualmente, a aparência estão embutidas nas redes sociotécnicas informático-comunicacionais.
Esmiúço o argumento claro, em linhas bem gerais , considerando as faces ontológica, analítica e da história sociocultural da expressão.
Grosso modo, a expressão corresponde seja à produção da subjetividade seja à apresentação de si circunstanciada, em que o teor subjetivo adquire exterioridade e se faz componente vital nas coreografias de linguagens que constroem experiências. Para isso, considerando molduras normativas informadas por arcabouços de valores, os quais, por sua vez, estão contextualizados em interações, mas também escudados nos recursos estruturais que delimitam temporal e espacialmente esse "dar-se" a ver ao mundo, o qual é simultaneamente um estar, enfim, um ser do/no mundo. Sem entrar nos meandros de tal debate teórico aqui, a discussão sobre a expressão deriva, então, do problema mais amplo concatenando reconhecimento e exteriorização, lembrando que este último porta o dilema da consciência e nele, o tema do mútuo engajamento da intencionalidade e da imaginação com o mundo. Esta última concebida como a competência de supor e propor, projetar, antecipando os rumos de um fazer, além de acrescentar ou alterar o dado. Em resumo, a expressão faz a síntese de ambos, inserindo o elemento fundamental da significação, ou se quisermos trocar a palavra, sem alterar a semântica, da comunicação. Ao mesmo tempo, ela contracena igualmente com a memória, na medida em que supõe aprendizados por intermédio das funções miméticas pelas quais são transmitidos legados de saberes intergeracionalmente constituídos e reelaborados à de luz das circunstâncias dos seus devidos usos.
Logo, em termos tão somente analíticos, articulando uma sociologia das obras e de seus artífices (acrescentando os modos de produção e as técnicas) a uma analítica dos saberes do fazer e dos meios de transmiti-los, consagrá-los e da apropriação e efeitos de seus usos, enquanto objeto de conhecimento a expressão pode ser enfocada pelo ângulo da coreografia dos gestos. Tal escopo envolve o problema em torno das disposições e percepções prático-corporais no plano fenomênico mesmo do acontecimento. Além, ainda, do tema das normas de validação e do reconhecimento das atitudes, considerando os esforços de distinção e, também, a luta pela atenção e aceitação do outro pelo não idêntico. Algo assim contracena com as discussões sobre o componente cênico-dramático e ritual da apresentação de si, tal como sintetizadas nas noções de performance e máscaras sociais. Ao mesmo tempo permite, ainda, encetar a solução tomando a formação do ego, mediante a visada do desenvolvimento da competência psíquico-simbólica em estágios nos quais os aprendizados encerrados em círculos intersubjetivos normativo-comunicacionais interferem tanto na reprodução quanto na reavaliação crítico-argumentativa das pautas morais cotidianas. Um desdobramento na apreensão da expressão se dá com a atenção às dimensões patrimoniais, nas quais o acento se desloca para o cerne dos modos de ser e fazer e, igualmente, à materialidade dos bens.
Os dois enfoques estão inseridos, porém, em um quadro histórico do pensamento e das práticas cotidianas do Ocidente, em que a ideia de expressão se conecta seja com a ideia de sujeito seja com a de ente coletivo.
Incorporada à evocação de livre arbítrio renascentista e sua premissa antropocêntrica de elevação da potência cognitiva e criadora humana à força propulsora do cosmos, a noção de sujeito repercute igualmente nas acepções do reformismo calvinista de domínio racional do mundo. De um modo ou de outro, ambas terão impactos na formação da imagem iluminista do indivíduo que julga, logo exige a publicidade dos ordenamentos de poder e reivindica a responsável e livre manifestação de suas ideias. Mas, na ascendência da ideia de expressão, ressoam como, de Herder, se alastrou mediante o romantismo tanto a cobrança pelo reconhecimento da autenticidade afetivo-sentimental dos indivíduos quanto em favor da dignidade étnico-histórica dos povos. Absorvida pela esfera estética, um e outro viés passaram a constituir as feições do problema em torno da expressão artística. Bem ilustrativas, as lutas da boêmia em favor da atitude libertária a qual se queria ver emancipada frente à rotina burguesa abriram caminho para os exercícios das vanguardas estéticas que vazaram o século XX. Exercícios devotados aos esforços para tornar autônoma a expressão cultural, quaisquer que fossem suas faces: pictórica, literária, corporal, musical e outras. Seus artífices e engenhos angariaram o status de demiurgo de toda e qualquer possibilidade criativa e comunicativa da espécie e algo assim revestiu e robusteceu o suporte ético e político da arte. Promovida, enfim, a epicentro de experimento e refinamento da expressão humana, a esfera estética avançou por outros campos erguendo a bandeira da emoção, da estima e da identidade. E redefiniu mesmo a esfera pública, deslocando o acento na troca de argumentos racionalmente elaborados para as disputas retóricas entre as autoimagens.
O último século deixou por legado, para além das marcas da industrialização, da urbanização e da tecnificação da guerra, a extensão sem igual dos meios e ambiências sintonizadas à realização do direito à expressão. Os potentes meios técnicos de reprodução cultural e da informação inseriram-se profundamente na importância, montante e volume adquiridos pelas manifestações públicas: passeatas, greves, desfiles marciais e civis, olimpíadas, festivais e outras.
São ilustrativas a respeito as cada vez mais constantes políticas públicas por parte de governos nacionais e regionais voltadas aos chamados patrimônios imateriais. Tendo por objetos os costumes, saberes, práticas populares, essas políticas de patrimonialização estão em observância às plataformas de incentivo e proteção da diversidade étnico-cultural do planeta tanto frente ao que seria o avanço dos imperativos de homogeneização próprios à lógica da indústria cultural (Brant, 2005a, p.21-56) quanto em complemento a projetos inscritos no combate à pobreza e marginalização social de populações. E ainda nas tentativas de alavancar a tolerância e a paz, dissolvendo o acirramento dos conflitos étnicos entre os povos. Plataformas de pluralidade cultural defendidas por organismos multilaterais como a ONU, por meio da Organização Internacional do Trabalho (OMT) e Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPF), sobretudo pela Unesco que realiza, em 2003, a Convenção para salvaguarda do patrimônio imaterial, ao lado de organizações não governamentais, entre elas a Internacional
Network for Cultural Diversity (INDC).6 Em se tratando do Brasil, a montagem de pauta dirigida à preservação e promoção da cultura imaterial resulta do concerto de ações como o do Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC), da Fundação Pró-Memória, do Centro Nacional de Folclore e de Cultura Popular. Escudados na Constituição Federal de 1988, a qual torna lei o direito cultural e o respeito à diversidade étnica, os desdobramentos dessas iniciativas pioneiras alargam a compreensão do patrimônio histórico e artístico nacional, não mais o restringindo aos conjuntos arquitetônicos, documentos ou peças pictóricas e sonoro-visuais registradas como acervos de instituições devotadas aos bens cultos. O papel do ordenamento público, por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), volta-se àqueles bens definidos como vivos, atuais, em razão da propriedade de serem processuais, enfim, virtuais. Assim, a salvaguarda deve, "antes, estimular e fortalecer as condições de circulação (troca) e a reprodutibilidade (transmissão e mudança) dos bens protegidos, ou seja, contemplar a natureza dinâmica e mutável de seus objetos" (Arantes, p.9). Entusiasta desta promoção dos bens imateriais , segundo o então ministro da Cultura do Brasil, Gilberto Gil, o incentivo estatal fornecendo "ferramentas técnicas, materiais e conceituais" contribuiu ao fortalecimento das populações carentes e não integradas aos padrões culturais eurocêntricos. Ajudaria, para ele, no fomento à cidadania em seus diversos aspectos. Entende que o associativismo empreendorístico teria impacto, a um só tempo, político e socioeconômico, mas o objetivo fundamental atenderia as estimas por meio da evocação das identidades e, da mesma maneira, viabilizaria o respeito à diversidade cultural (Fiochi, 2008).
Nota-se que as políticas públicas orientadas para os patrimônios imateriais enfatizam o reconhecimento cultural como uma alternativa decisiva de construção e resgate da cidadania. São as expressões, justamente, o dado palpável e objeto de intervenção. Deste modo, ainda tratando do caso brasileiro, o jongo, o samba de roda do Recôncavo baiano, o samba carioca, o frevo, o acarajé, entre outros, tornam-se bens patrimonializados por sintetizarem modos de ser, agir e pensar reconhecidos e que dão a reconhecer uma "comunidade", tornando-a idêntica entre si frente às alteridades internas à ecologia humana (Almeida, 2006). Ora, não é à toa que a convenção da Unesco, aprovada em 2006, se volta à "diversidade das expressões humanas".
Ao mesmo tempo, todo o argumento a favor dos bens intangíveis dialoga seja com o incremento do trânsito de informações, em função do raio de atuação ampliado dos meios de comunicação e da linguagem digital, seja com o aumento no volume do comércio de bens e serviços de entretenimento, em especial os fluxos de áudio e
audiovisual.7 Deste modo, semelhante ao despertar da atitude romântico-folclorista de preservação da cultura popular, o empenho contemporâneo contracena com a dinâmica socioeconômica e técnica do capitalismo, no estágio em que as mercadorias culturais adquirem relevo sem precedentes históricos. Diferente da sua matriz europeia do século XIX, no entanto, a patrimonialização da cultura popular atual se insere no cômputo dos circuitos de diferentes escalas da economia simbólica. Inclusive não apenas colaborando na inserção de tais bens, mas reforçando sua diferença na esfera
pública configurada para o movimento fremente das aparências.8 Ao reafirmar o valor artístico-cultural dessas práticas e símbolos, retirando -os do mundo vulgar, a ação legitimadora de autoridades culturais antropólogos e historiadores, principalmente confere-lhes outro status na divulgação em canais tão diversos, sejam eles voltados aos meios cultos ou mais abrangentes à maneira de
jornais, TV e rádio, internet, CD-ROM com fins pedagógicos. 9
Diante da sintonia possível pelo recurso ao tema da expressão, chegamos a uma ilação primeira nesta nossa argumentação. A saber, a despeito das peculiaridades entre os estágios históricos do mesmo processo enlaçando expressão, mercado e técnica, a dinâmica que se delineia em seu desenrolar revela como repercutiu fortemente o triângulo composto por técnica, dinheiro e esfera pública expressiva nas concepções de arte e educação, mesmo na ideia de cultura em geral, desde o século XIX. Inserida nesse contexto, a expressão foi e tem sido cada vez mais potencializada como recurso. Raymond Williams (1969) demonstra como a ideia mesma de cultura, a princípio, tornou-se uma resposta elitista aos impactos da mecanização da produção por parte de uma aristocracia plutocrática. Por sua vez, nos anos vinte do último século, Gramsci argumentava o quanto o peso da tecnificação no conjunto da vida das sociedades industriais levou a uma reorganização da cultura e da figura do intelectual, estando ambos cada vez mais vinculados ao anonimato e ao pragmatismo. Do conjunto dessas interpretações, concluímos que a síntese das etapas no desenvolvimento dos suportes técnicos midiáticos reorientou a produção e reprodução simbólica, dando um relevo historicamente original a tais mediações. Os livros, os jornais, a fotografia, a radiofonia, a fonografia e a televisão fizeram-se ícones de um tempo no qual a música, a dança, os esportes, a dramaturgia, o jornalismo se enraizaram no cotidiano, reformatando as expressões e canalizando-os sempre mais para os domínios do entretenimento. Sobre essas trilhas, toda uma divisão do trabalho e das funções efetiva e se amplia nos ramos de prestação de serviços regulada pelos mecanismos mercantis prevalecentes nas amplas e densas sociedades urbano-industriais e de serviços. No bojo dessa ampliação, a pressão da oferta e demanda contribui na definição de uma balança de poder dotando de distinção os protagonistas da cultura de mercado.
Doravante, os heróis e os épicos da narrativa moderna passam a florescer nesse espaço social da esfera pública cujo emblema é a exposição de autoimagens (individual e de grupos), a qual fomentou identificações e espelhou identidades na contrapartida de ter atingido em cheio às estimas, isto mediante o apelo da emoção a matéria-prima elementar operacionalizada pelos bens culturais. Em meio ao mesmo embalo, a popularização das câmeras (analógicas e digitais), dos PCs, dos equipamentos de reprodução e ampliação sonora, mas também dos videocassetes e, recentemente, dos reprodutores e gravadores de DVDs, além dos telefones celulares e outros, contribuiu na difusão das bases para o incremento das condições de elaboração da duplicação audiovisual das expressões. Condições que, nas três últimas décadas, se tornaram constituintes dos ambientes formativos nos quais as crianças são educadas e suas sensibilidades moldadas pela sincronia entre corporeidade e técnica, delimitando determinada feição do humano. O cenário de tal educação é desenhado pelo advento de instituições e de formatos midiáticos à maneira da World Wide Web, a Weblog, o MP3 e o YouTube, os quais estão requalificando a interação sócio-humana pelo status conferido aos fluxos da informação digitalizada.
O que denominamos de informacionalização das expressões tem nessas mesmas condições seu laboratório; situações em que os experimentos são gradualmente sistematizados em costumes e instituições, naturalizando em hábitos relativos a ritmos corporais em obediência a específica economia emocional. Portanto, inscrita nesse atual contexto, a figura histórico-cultural da expressão repõe o problema sobre os modos de objetivação das intenções humanas. Estamos cientes de que, nos domínios da sociologia, algo assim tem envolvido uma longa e sinuosa discussão sobre a disputa em torno da centralidade ou não da categoria trabalho e, inversamente, da inserção de outras possibilidades de mediação entre intenção e
mundo. 10 Por isso mesmo, estamos convencidos de que, no cenário contemporâneo, a categoria expressão detém bastante relevância a esse respeito. O destaque dado ao reconhecimento das estimas e das identidades alia-se com as novas tecnologias de comunicação e à reconfiguração do capital. Poderíamos arrolar a hipótese de sermos, hoje, partes da ascendência da produção de subjetividades enquanto mecanismo sociopsíquico interno ao processo de informacionalização das expressões. O que nos leva especular sobre ter, este último, rebatimentos profundos nos modos de vida e na trama dos estilos pelo andamento da tendência civilizatória na qual a modelagem dos impulsos humanos se realiza cada vez mais em sintonia com o apelo do se dar a ver (e ouvir) engajado aos sistemas sociotécnicos de informação-comunicação.
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Certamente, o enunciado mesmo de nossa hipótese é remissivo ao ponto nevrálgico desta fala remete ao objetivo de insinuar a possível correlação entre equivalência das diversidades étnico-históricas promovida pelo dinheiro e a natureza da esfera pública contemporânea, a partir da centralidade gozada pela questão da expressão no debate e nas atuais lutas socioculturais. Porém, para uma perspectiva canônica do pensamento humanista, cometemos uma heresia ao tomar a importância do tema da expressão como imanente ao desenvolvimento de uma esfera pública definida pela autoapresentação de si e comprometida originariamente com o implemento da técnica. Afinal, um aspecto incontornável a respeito é o fato de que o avatar da industrialização trouxe, igualmente, em muitos dos exercícios literários e ensaísticos, a tendência de tratar o virtual impacto da técnica e a condição humana, em especial o que se demarcou como expressão, enquanto contraditórios entre si. Podemos até anotar desvios nessa rota. Momentos do século XIX representados pelas utopias socialistas apostando todas as fichas no deslanche da produção mecanizada, à maneira do Falenstério de Fourier e a acepção épica com a qual Marx se volta para o grande maquinário. Ou, ainda, a evocação fantástica e otimista do cientificismo na ficção de Júlio Verne, por exemplo. Porém tais e outras lembranças não camuflam o suficiente a senda trágica:
Frankenstein 11 12 (de Mary Shelley) e o Médico e o monstro (Robert
Louis Stevenson)13 são apresentações do anúncio da peste que se abateria sobre a humanidade no rastro do desacorrentamento da arrogância promovida pela industrialização. Mais tarde, em Metrópole, de Fritz Lang, a encenação cinematográfica retrata a comoção de toda espécie tragada pela danação maquínica. Já em Admirável mundo novo, Aldous Huxley antecipa um futuro em que a autonomia promovida pela técnica gerou a renúncia à autorresponsabilidade, em nome da acomodação hedonista.
Nas quatro narrativas, elas mesmas ícones do prestígio adquirido pelas expressões em sua componente autorreflexiva e autocompreensiva, o mesmo fundamento: a percepção da e a acusação de hubris na base de todo o infortúnio humano. Ou seja, o excesso da atitude moderna de infringir os limites, de violar o cosmos, segundo a imagem de A caminho do planetário de Walter Benjamin, inspirada na Primeira Guerra:
Se, como fez uma vez Hillel com a doutrina judaica, se tivesse
de enunciar a doutrina dos antigos em toda concisão em pé
sobre uma perna, a sentença teria de dizer: "A Terra pertencerá
unicamente àqueles que vivem das forças do cosmos". Nada
distingue tanto o homem antigo do moderno quanto sua entrega
a uma experiência cósmica que este último mal conhece. O
naufrágio dela anuncia-se já no florescimento da astronomia, no
começo da Idade Moderna. Kepler, Copérnico, Tycho Brahe
certamente não eram movidos unicamente por impulsos
científicos. Mas, no entanto, há no acentuar exclusivo de uma
vinculação ótica com o universo, ao qual a astronomia muito em
breve conduziu, um signo precursor daquilo que tinha de vir. O
trato antigo com o cosmos cumpria-se de outro modo: na
embriaguez. É embriaguez, decerto, a experiência na qual nos
asseguramos unicamente do mais próximo e do mais distante,
e nunca de um sem o outro. Isso quer dizer, porém, que
somente na comunidade o homem pode comunicar em
embriaguez com o cosmos. É o ameaçador descaminho dos
modernos considerar essa experiência como irrelevante, como
descartável, e deixá-la por conta do indivíduo como devaneio
místico em belas noites estreladas. Não, ela chega sempre e
sempre de novo a seu termo de vencimento, e então povos e
gerações lhe escapam tão pouco como patenteou da maneira
mais terrível na última guerra, que foi um ensaio de novos,
inauditos esponsais com as potências cósmicas. Massas
humanas, gases, forças elétricas foram lançadas ao campo
aberto, correntes de alta frequência atravessaram a paisagem,
novos astros ergueram-se no céu, espaço aéreo e profundezas
marítimas ferveram de propulsores, e por toda parte cavaram-
se poços sacrificiais na Mãe Terra. Essa grande corte feita ao
cosmos cumpriu-se pela primeira vez em escala planetária, ou
seja, no espírito da técnica. Mas, porque a avidez de lucro da
classe dominante pensava resgatar nela sua vontade, a técnica
traiu a humanidade e transformou o leito de núpcias em um mar
de sangue. Dominação da natureza, assim ensinam os
imperialistas, é o sentido de toda técnica. Quem, porém,
confiaria em um mestre-escola que declarasse a dominação
das crianças pelos adultos como o sentido da educação? Não é
a educação, antes de tudo, a indispensável ordenação da
relação entre gerações e, portanto, se se quer falar de
dominação, a dominação entre as gerações, e não das
crianças? E assim também a técnica não é dominação da
Natureza: é dominação da relação entre Natureza e
humanidade. Os homens como espécie estão, decerto, há
milênios, no fim de sua evolução; mas a humanidade como
espécie está no começo. Para ela organiza-se na técnica uma
physis na qual seu contato com o cosmos se forma de modo
novo e diferente do que em povos e famílias. Basta lembrar a
experiência de velocidades, por força das quais a humanidade
prepara-se agora para viagens a perder de vista no interior do
tempo, para ali deparar com ritmos pelos quais os doentes,
como anteriormente em altas montanhas ou em mares do Sul,
se fortalecerão. Os Luna Parks são uma pré-forma de
sanatórios. O calafrio da genuína experiência cósmica não está
ligado àquele minúsculo fragmento de natureza que estamos
habituados a denominar "Natureza". Nas noites de
aniquilamento da última guerra, sacudiu a estrutura dos
membros da humanidade um sentimento que era semelhante à
felicidade do epilético. E as revoltas que se seguiram eram o
primeiro ensaio de colocar o novo corpo em seu poder. (...).
(Benjamin, 1993, p.68-9)
Diferentemente do que ocorre a Prometeu, contudo, a interpretação benjaminiana sugere que a desmesura então se perpetua em uma nova era: aquela do tempo linear infernalmente repetitivo, em que se acumulam ruínas no curso de uma história progressiva. Entretanto, em coerência com seu método das imagens dialéticas, o autor supõe a ascendência de irrupção revolucionária do vórtice mesmo das forças promotoras da estética dos escombros. Assim, ele concebeu o cinema como máquina de uma política transformadora pela experiência do choque a que estavam submetidas as massas urbanas das metrópoles industriais, fomentando a emergência de uma nova percepção e, consequentemente, expressões (Benjamin, 1975). Algo em nada sintonizado a seus colegas frankfurtianos, os quais diagnosticaram a modernidade tanto naquilo que Adorno e Horkheimer conceituam de "a dialética do esclarecimento" quanto na concepção de "consciência unidimensional" por Marcuse. Sob o signo bíblico da queda, essas narrativas concebem o incremento da técnica na denúncia de uma força desumanizadora ironicamente deflagrada pela ambição criadora, própria à humanidade. Excesso de confiança em si e insegurança comporiam a aliança maligna encerrando a modernização no mito do eterno retorno à degradação, subalternizando ainda mais no afã de emancipar.
Direção oposta foi tomada pelas narrativas identificadas à tradição pós-modernistas, a qual se ergueu sobre o legado de autores à maneira de Heidegger. Os últimos são igualmente críticos da era da técnica, porém tendo nesta o fruto mais ruidoso da prepotência antropocêntrica, sombra mesma do humanismo. Há, no entanto, aqueles intérpretes cujo exemplo maior é McLuhan que abandonando o apelo humanista, saúda a evolução interativa, mesmo complementar, entre instrumentos e corpo humano; para ele, sendo o "meio é a mensagem", o artefato continua e elucida as potencialidades sensório-motoras humanas. Sem o mesmo otimismo dessa pedagogia, Deleuze e Guatarri descrevem a humanidade na figura das alternâncias de fluxos e cortes entre máquinas "desejantes" dispostas nas tramas rizomáicas, no deslize superficial próprio à matéria, pura aparência. Por sua vez, Lyotard diagnosticou o desmonte do projeto huboltiano do saber movido à formação espiritual, em função do nivelamento do conhecimento em informação processável e perfomatizada nos circuitos da microeletrônica. A realidade simulada, de acordo com sentença de Pierre Lévy, teria absorvido as condições de toda experiência nos domínios da virtualidade.
A despeito de encaixá-las nesta ou naquela denominação ("apocalíptico" em oposição aos "integrados"), é interessante sublinhar o empenho do conjunto de intérpretes citados em dirimir o enigma dos limites da feição humana, na medida em que a secularização da história empurrou a experiência do fundamento da providência à ânsia da mudanidade empírica. No recurso ao vocabulário de Lévi-Strauss, diríamos que tal narrativa repõe a oposição mitológica entre subjetivo versus objetivo, a qual se tornou um dilema existencial, psicológico e socioantropológico. O desconforto encerra-se no seguinte: onde se encerram as fronteiras humanas: nos confins de sua alma? Na gama dos objetos que produz?
Na mesma esteira da história do pensamento social, o triângulo composto por Hegel, Marx e Simmel concentrou os esforços no sentido de oferecer uma saída filosófico-científica à questão. Os três voltaram-se ao tema do espírito objetivo e cada um, a sua maneira, encontrou tanto uma alternativa quanto deixou-nos outra vez em um dilema. Se Hegel concedeu à história o status de palco e substância mesma de aparição e resolução dos conflitos, o fez no recurso a um absoluto trans-histórico, ou melhor, decidiu-se por resolver toda a história no autoconhecimento fenomenológico do espírito. Marx escapou da transcendência incorpórea, ao privilegiar a materialidade produzida no curso social das reciprocidades tecidas entre disputas e novos ajustes de interesses de relações voltadas à sobrevivência material com instrumentos de aquisição e transformação da natureza. No entanto, ele concedeu centralidade à necessidade como mola propulsora e fator lógico da história, determinando um curso elucidado no implemento revolucionário dos mecanismos em favor da concretização da intencionalidade. Em Simmel, o alfa-ômega do trajeto humano estaria na tragédia do fluxo vital em se transformar ele mesmo em sua negação, na forma que o molda. Tal dialética se realizaria, na história concreta, pela incessante e sempre mais robusta emancipação dos meios, os quais se tornariam fins em si mesmos. No embalo desse movimento, o autor vislumbrou a desconexão e o isolamento do espírito subjetivo frente ao manancial de suas criações, estas o oprimindo pela volúpia da totalidade de sua extensão inabarcável.
Podemos considerar a interpretação dada pelos três autores como o retorno gradual à inevitabilidade da cultura enquanto uma encruzilhada em que objetivo e subjetivo estariam frente a frente, mas cindidos. Sem desprezar essa vertente, uma outra e na qual aposto compreende o quanto cada uma das contribuições justamente se propõe à resolução do mesmo enigma na atenção concedida para a expressão na condição humana. Elas atentam ao modo como bens e patrimônios instauram um senso de preenchimento de vazio, por inserirem cadência ao ritmo do desenrolar histórico enfileirando a temporalidade na sequência da perspectiva (futuro), da circunstância (presente) e da memória (passado). É inaugural o esforço hegeliano em desvelar o problema do reconhecimento na existência e experiência humanas pelo desenvolvimento da autorrelação do sujeito ativo do espírito. Pela mediação laboral, segundo Marx, a intenção adquire substância histórica e empírica, a qual se projeta no mundo, perfazendo a generalidade civilizatória. Signo de toda concentração de meios e riquezas advindos da cooperação humana, a peculiaridade de meio universal de equivalência do dinheiro manifestaria o feito da era burguês-capitalista de propiciar o intercâmbio entre todas as faces da humanidade. O dinheiro desvelaria em sua essência o movimento, a um só tempo pessoal e coletivo, de apropriação da natureza já modelada pelo trabalho; movimento civilizatório que realiza a socialização de cada indivíduo, mesmo que a figura do artifício monetário o faça aparecer um fetiche. Nos rastros da mesma discussão marxiana sobre o equivalente universal, mas à luz da preocupação com as bases às motivações das condutas humanas, para Simmel (1999) a estilização, quer dizer, a expressão é a contrapartida do incremento das interdependências; no anverso da universalização do dinheiro estaria a modulação da subjetividade. Em tal andamento, a última se torna parte do comércio de valores.
As contribuições dos três intérpretes permitem encontrar no dinheiro espécie de catalisador histórico do feixe de alternativas consagradas como modos de exteriorização e simbolização. Neste sentido, o dinheiro define-se como plasma do entrecruzamento de valências sociofuncionais. Entrelaçamento de interações estabelecendo regras, no compasso em que as interdependências se dão a si mesmas suas próprias formas de ser e estas e, no anverso, supõem modos de aparecer e obterem reconhecimento. Lanço mão, aqui, de um idioma antropológico baseado no modo como Gregory Bateson propõe compreender o ritual do "naven", privilegiando a categoria de "cismogênese. Para ele, tal experiência define-se pelo exercício de descrição do comportamento humano, mas considerando a prerrogativa de estar o observador interno ao objeto da observação. Logo, eleger um dos aspectos na descrição da sociedade é a contrapartida da simbiose entre descrição e interpretação. Tal enquadramento metodológico efetivaria a plataforma teórica, para a qual a operação descritiva deve priorizar aqueles mecanismos em que "um único microorganismo pode revelar mecanismos essenciais para compreender qualquer organismo" (Bateson, 1958, p.23). Para o que nos interessa argumentar, uma subsequente concepção é a de que a diferenciação das normas comportamentais obedece aos desdobramentos dos processos interativos cismogenéticos. Assim, o autor enfatiza que anterior à angulação funcional e causal, os estudos de rituais devem ater-se ao estilo, à forma. Entendendo esta como o complexo resultante das interações e, igualmente, o plasma habilitado a qualificar as materialidades de suas manifestações em gestos ou domínios textuais.
À luz da proposição batesoniana, o debate sobre expressão, dinheiro e esfera pública contemporânea conduz as interdependências sócio-humanas a suas potencialidades plásticas de estilizarem-se em formatos e, ao mesmo tempo, exulta a busca da economia biopsíquica e a moldura de valores cujos recursos simbólicos lhe conferem densidade significativa. Não se trata de abrir mão da topologia ontológica entre o "dentro" e o "fora", o "subjetivo" e o "objetivo", mas evitando substancializar a ambos. Pois o que se torna objeto de estudo são justamente as maneiras (isto é, recursos, rituais e procedimentos) como as agências (individuais e institucionais) possibilitam substancializar algo em expressão, ou seja, em aparição da intangibilidade das relações viabilizadoras das disposições à exteriorização significativa e sua virtual familiaridade enquanto componente tátil do mundo inteligível. Fator mundano este inerente à educação mesma das sensibilidades que são dispostas dialeticamente em diferente e idêntico, gênero e indivíduo, evento e processo, ato e artefato, acontecimento e patrimônio.
Para encerrar este esboço interpretativo, uma vez mais, sem o propósito etnográfico, apenas ilustrativo, tomaremos para análise um fato desta vez, recortado do cotidiano brasiliense atual.
Situada em um dos blocos de prédios que constituem o conjunto arquitetônico da Quadra 201-Norte, em Brasília, a loja do Café Cristina insinua-se naquele arranjo de comércio e serviços de alimentação e lazer em razão de sua ambiência. Do espaço consta o balcão ao fundo, onde os clientes são atendidos por jovens baristas que conhecem curiosidades da marca para qual trabalham e são especializados não apenas no preparo de diversas alternativas da bebida: mas em suas perfomances extraem adornos do próprio líquido, ora são folhas e flores isoladas, ora surgem guirlandas. As três prateleiras em uma das laterais contêm, acima, as máquinas de preparo de diferentes tipos de café. Logo em seguida se dispõem, ao lado de distintos tamanhos de pacotes do produto, jogos de cozinha americano confeccionados em chita e outros objetos para o uso da bebida (xícaras com pires, bules, colherinhas e outros), além de peças artesanais de decoração (bonecas de pano figurando de negras quituteiras em vestido e turbantes brancos, junto a toalhas de mesa estampadas, etc.). Embaixo, também em chita, almofadas de vários tamanhos. Ainda na lateral, a parede em frente, em estuque, deixa à amostra algumas varas de bambu, à maneira da aparência de casas populares no meio rural brasileiro. Aliás, a começar pelo nome, todo o cenário faz alusão a essa região e setor da vida do País, em especial aos modos de viver e aos conhecimentos transmitidos pela tradição de geração a geração. Cristina é nome de uma cidade situada no sul do estado de Minas Gerais, destacada pela qualidade da cafeicultura, segundo a informação do texto de um dos folhetos de divulgação ali presentes:
Das muitas Minas e suas Gerais vêm o cantar, o tecer, o prazer
e o colher.
Trabalhar o grão leva tempo, talento e criatividade. Descobrir o
sabor deste café premiado, não requer pressa. Tal qual a
sabedoria mineira, é preciso tempo para conhecer o melhor
café. Tempo para se tornar o melhor produtor. Um sonho que se
transformou em realidade, em uma terra generosa com quem
se dedica há mais de 100 anos para transformar café em ouro.
É isso o que sempre fez Sebastião Alves Pereira, patriarca da
Fazenda Colina da Pedra. E é isso que a sua família tem
orgulho de continuar a fazer. Um café artesanal cultivado a uma
altitude de 1.400 metros aonde um a um os frutos são colhidos
manualmente e no ponto ideal de maturação. Com sentimento e
habilidade. Com cuidado são levados para um terreiro
suspenso onde são secos. Cada fruto é descascado num
processo minucioso, de excelente resultado. Sentimento de
nacionalidade no fazer, no colher, no trazer. Riqueza que vem
de Minas. Do Brasil para os Brasileiros. Sabor e originalidade
que não dá pra esquecer jamais.
Obediente ao prescrito no folheto, enquanto espera o atendimento e preparo de seu pedido, o consumidor é orientado a sem pressa percorrer os detalhes do espaço. Deve colher ele mesmo as informações a respeito daquela tradição, já que o ambiente mesmo conforma uma espécie de narrativa contada nas cores, texturas e formas dos objetos dispostos. Incluído no rol destes, os livros tratando do cultivo do café, da diferença dos grãos e até da Estrada Real, que no passado colonial permitia o trânsito entre as minas de ouro e o porto de Parati; hoje, roteiro turístico. Análogo ao processo de produção do produto, ali tradição e modernidade estão em complemento mútuo: o conforto (decorrente da tecnologia empregada e do serviço prestado pela mão de obra qualificada) é aliado da atmosfera aconchegante da prosa esticada, da atitude tranquila na realização simples da tarefa por quem é possuidor de um saber antigo, mas renovado. É como se se estivesse sentado em torno de uma mesa rústica, na cozinha de uma generosa casa de fazenda mineira.
Naquela ambiência, à maneira do que se dá com o patrimônio imaterial, são ressaltados os modos de ser e os saberes, dos quais aquela bebida-mercadoria é uma expressão. Modos de ser e saber responsáveis pela diferença do bem, que o posiciona original diante de seus virtuais concorrentes e o torna atraente para o consumo daqueles possuidores de "bom gosto" e, a julgar pelos preços do cardápio, podem arcar com os custos da personalização do consumo. Justamente, se é o recurso aos tons e artefatos do cotidiano rural que dão o estilo da loja e dos produtos expostos à venda, os mesmos bens são enaltecidos por viabilizarem o desenvolvimento sustentado da comunidade inserida na dinâmica do agronegócio regional. Algo possível ao promover a melhoria das condições de vida da população local, incentivando a entrada no mercado da tradição artesanal feita em pano. Do que somos informados por outro folheto, também ali à mão:
Numa parceria inédita com a Associação Sara Kauage, o
Cristina está mostrando para as mulheres da região que elas
são capazes de produzir muito mais do que excelente café. Das
mãos habilidosas que cuidam da terra e colhem os frutos, estão
brotando maravilhosas peças artesanais. São bolsas,
almofadas, colchas, bonecas e uma série de outros produtos
que estão fazendo com os períodos de entressafra se tornem
tão produtivos quanto os períodos de safra.
Graças ao apoio de Cristina esse trabalho de capacitação e
renda que foi plantado lá atrás começa a gerar frutos. A
atividade que essas mulheres estão desenvolvendo tem
permitido a criação de políticas de trabalho, de um polo de arte
na região e o mais importante: está trazendo de volta a
autoestima de todos que se envolvem direta ou indiretamente
com o projeto.
Só para se ter uma ideia, os cursos semestrais, as oficinas, a
doação de matéria-prima e o intercâmbio com estilistas e
revendedores já beneficiou mais de 250 famílias entre 2005 e
2006.
Segundo a ênfase posta no texto do folheto, o principal resultado do fomento ao desenvolvimento sustentável está na devolução da autoestima ao trabalhador. Tal como se dá com o consumidor dos produtos na loja em Brasília e ainda com o artífice alvo das políticas de patrimonialização da cultura imaterial , por exemplo, dinheiro e estima estão na aliança visando atender às demandas por autorrealização em um plano bem além da satisfação biológica. Ambos tornam reconhecidas às autoimagens de produtores e consumidores finais, expressam-nas na mediação possibilitada pelo produto-mercadoria.
Ao final, somos tentados a sugerir que, se o dinheiro de acordo com a afirmação de Marx é a manifestação de todas as qualidades em sua generalidade abstrata de meio de troca universal, apenas no instante em que estas últimas são engendradas nos circuitos cosmopolitas de produção e consumo monetarizados, elas se tornam expressivas uma às outras. Instante em que conformam um fórum público de exposição, de apresentação de si. A prerrogativa de as diversidades serem capazes de equivalerem entre si está, exatamente, na passagem à condição de expressão, a qual se impõe o padrão às exteriorizações. Idênticas por corresponderem a específico gênero de forma e meio de classificação, na simétrica medida de se tornarem diversas umas às outras, já que a mesma natureza as definem pelas respectivas singularidades de propiciarem tanto a exteriorização quanto a simbolização de intenções e motivações.
A economia simbólica, portanto, encerra uma concepção de conjugar materialidade e espírito não propriamente de acordo com o eixo da economia política clássica (Farias 2007b). Sabemos estar a última estruturada em sintonia com a cosmologia (com sua caudatária narrativa) da moderna civilização ocidental, na confluência de dualidades próprias a esta última. Ou seja, entre sagrado e profano, fé e conhecimento, razão e afetividade, tempo e espaço, racional e irrazão, ideal e empírico, real e ilusão, sujeito e objetividade (Latour, 1996). Espécie de síntese de tal eixo elementar, o dueto economia e cultura como resultou da economia política ressignificou as semânticas dos seguintes termos, ao serem estes introduzidos em outras polaridades. Assim se concertaram tensamente técnica e emoção, espírito e matéria, realidade e ficção, criatividade e determinação, artificial e natural, ócio e negócio, útil e inútil, singularidade e valor de troca, local e fluxo. Obra do século XVIII europeu, cultura e economia cruzaram os últimos séculos norteando duas lógicas sociais semelhantemente complementares em sua correlação dicotômica as lógicas culturalistas e desenvolvimentistas da modernidade. Respectivas filhas diletas da economia política clássica e da linhagem romântico-historicista, ambas perseveram igual princípio da distinção entre o que seriam substâncias irredutíveis; a saber, aquela da singularidade e a da abstração. Talvez não seja exagero propor que tanto o embate quanto o atravessamento entre uma e outra cidadela compuseram decididamente o épico mesmo da expansão ocidental, deixando em seu rastro a instalação do sistema econômico-político mundial e a montagem da modernidade enquanto a primeira civilização
planetária. 14
Contemporâneos do século XXI, entretanto, nós assistimos a um ajuste sintático e semântico resvalar o sentido de toda herança da cosmologia moderna. Sem dúvida se trata de uma vicissitude da mesma dinâmica em que se encadearam, afirmativamente, adensamento urbano (com a virtual penetração de seus modos e estilos de vida pelo conjunto da experiência humana), industrialização, Estado nacional, mercado capitalista e esfera simbólica laica (Farias, 2009). Mas o fato é que economia e cultura, nas figuras do dinheiro e da expressão, já agora, cada vez mais, comparecem como matizes em uma mesma escala cromática e, logo, não mais dicotomias estruturais, por serem faces recíprocas da mesma dinâmica de uma esfera pública apta a fazer visíveis os valores, tornar tátil o invisível emoções, afetos, saberes e afins. A economia simbólica instaura-se um regime composto, em sua variedade institucional e limites às estratégias de encaminhamento de iniciativas, de repertórios lógico-conceituais deliberando possibilidades de codificações das manifestações socioculturais na dinâmica de uma esfera pública voltada para as imagens de si (indivíduos, grupos e espaços) no comércio de informações tecnologicamente disponibilizadas. Tendo em conta, ainda, o quanto, neste intercâmbio, unidade monetária e expressão cada vez mais se tornam recíprocos. Tal regime é, também, oriundo de arquiteturas normativas e tramas jurídicas decidindo o estatuto de propriedades e de possibilidades de alienação e acesso, na medida em que são ativadas outras modalidades de mercados e, também, de instâncias de visibilidade e transmissão legítimas de bens simbólicos.
Uma última palavra se refere, então, à maneira como repor os debates sobre identidades à luz do relevo teórico e analítico dado para o regime da economia simbólica. A nosso ver, há um vasto terreno empírico à espera de cuidados por parte das ciências sociais e este compreende as mediações, considerando a triangulação entre expressões, dinheiro e esfera pública contemporânea. Contudo, não nos parece ser o melhor caminho o de entender as mediações como pontos de vinculação, pois algo assim deixa sem resposta a pergunta sobre o que intermedeia as mediações. Creio que uma alternativa é aquela herdada da tradição hegeliana, mais tarde retomada por Adorno, para a qual a mediação não diz respeito ao que está entre, mas o que constitui. Deste modo, o exercício analítico e interpretativo sobre as identidades se reencontra com o problema em torno da formação, considerando os planos múltiplos de interdependências que as constitui. Sob tal ângulo, os seguintes aspectos parecem figurar cruzamentos constituintes relevantes, quando interessa observar como imagens coletivas e pessoais estão sendo tecidas e redefinidas nos processos sociais que envolvem síntese entre cultura e economia atualmente. São eles: as disputas em torno da classificação das práticas e dos símbolos; as redes institucionais, os círculos de intelectuais, e outros conversores, no trânsito de ideias que definem agendas de cultura e desenvolvimento e seus efeitos na compressão sobre os saberes, fazeres e os artefatos; os princípios e as direções no implemento de políticas públicas voltadas para o setor cultural (incluído o tema dos patrimônios material e intangível); as relações entre estilos vidas, memórias coletivas e sistemas sociotécnicos informacionais; os enlaces dos circuitos e escalas monetarizados de produção, circulação e consumo com as matrizes, os gêneros e formatos culturais, considerando para isso modos e meios de produção, agências, vocabulários expressivos e, ainda, a diversidade das recepções e as alternativas dos usos, atravessados pela lógica mercantil.
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1 Conferência proferida durante a abertura do seminário Cultura contemporânea, corpo e novas tecnologias: diálogos em torno das identidades, promovido pelo DAPFG e Programa de Pós-Graduação em Sociologia (Unesp, campus de Araraquara), em 14 de outubro de 2009.
2 Professor do departamento de Pós-Graduação em Sociologia/ICS/UnB; professor do mestrado em Memória: Linguagem e Sociedade/UESB; pesquisador do grupo Cultura, Memória e Desenvolvimento.
3 Esta unidade monetária é possível com a assinatura, em 1944, do Acordo de Breton Woods, o qual determinou que o dólar estadunidense substituísse a onça do ouro, tornando-se o parâmetro monetário internacional. O acordo estava calcado na invejável situação financeira e econômica dos Estados Unidos naquele momento, em que o governo norte-americano detinha a maior reserva de ouro em barras do mundo. Arranjo básico ao surgimento seja do Fundo Monetário Internacional seja do Banco Mundial como respectivos instrumentos de controle da economia-mundo capitalista e de financiamento dos desenvolvimentos dos Estados nacionais inseridos no que se passou a denominar de Terceiro Mundo.
4 Ver Fentress; Wickam, 1994, p.13-176
5 Tomo de empréstimo a inferência de Habermas (2007, p.17)
6 Ver Obuljen, p.121-29
7 Ver Goldsmith, 2005. Não é demais recordar que antecedendo, e mesmo tornando incontornável a convenção sobre a diversidade cultural, desde a década de 1980, as rodadas de negociações e plenárias em órgãos como a OMC e as discussões no Gate tiveram por fermento as disputas em torno das trocas de bens e serviços relativos a filmes e outros suportes audiovisuais, artefatos musicais e outros. A respeito, consultar Brant, 2005b, p.96-114.
8 Manuela Carneiro da Cunha (2005) chama atenção para os complicadores da política de preservação do patrimônio imaterial, na medida em que é aplicada a camadas sociais e povos com trajetórias bem diversas. Entre os impasses e dificuldades que pode gerar está, por obra do procedimento do registro dos bens, o ingresso de concepções de unicidade de autoria, própria à defesa da propriedade intelectual, no seio de círculos socioculturais em nada afinados com valores como originalidade e criatividade individual. Ver Cunha (2005, p.20-1)
9 A ocasião do último Carnaval no Rio de Janeiro é exemplar. Em uma das laterais da Passarela do Samba, local dos desfiles das principais escolas de samba da cidade, um grande outdoor destacava ser o samba carioca um "patrimônio brasileiro". Logo abaixo estava a logomarca da Petrobras, uma das patrocinadoras da última versão do evento.
10 Para uma discussão preliminar a respeito, ver Farias (2007a).
11 Também sugestivamente nomeado de o Prometeu Moderno.
12 Relatando uma de suas conversas com Lord Byron, no castelo deste último, a própria autora descreve o que a imagem que, ao anunciar, inspirou o livro: "A noite escoou por sobre essa conversa, e até mesmo a hora das bruxarias há muito havia passado, quando nos retiramos para repousar. Coloquei a cabeça sobre o travesseiro, mas não consegui dormir, nem podia dizer que estivesse pensando. Minha imaginação, solta, possuía-me e guiava-me, dotando as sucessivas imagens que se erguiam em minha mente de uma clareza que ia além dos habituais limites do sonho. Eu via com os olhos fechados, mas com uma penetrante visão mental , eu via o pálido estudioso das artes profanas ajoelhado junto à coisa que ele tinha reunido. Eu via o horrível espectro de um homem estendido, que, sob a ação de alguma máquina poderosa, mostrava sinais de vida e se agitava com um movimento meio-vivo, desajeitado. Deve ter sido medonho, pois terrivelmente espantoso devia ser qualquer tentativa humana para imitar o estupendo mecanismo do Criador do mundo. O sucesso deveria aterrorizar o artista; ele devia fugir de sua odiosa obra cheio de horror. Ele esperava que, entregue a si mesma, a centelha de vida que ele lhe comunicará extinguir-se-ia, que aquela coisa que recebera uma animação tão imperfeita mergulharia na matéria morta, ele poderia então dormir na crença de que o silêncio do túmulo envolveria para sempre a breve existência do hediondo cadáver que ele olhara como berço de uma vida. Ele dorme; mas é acordado; abre os olhos; avista a horrorosa coisa de pé ao lado de sua cama, afastando as cortinas e contemplando-o com os olhos amarelos, vazios de expressão, mas especulativos" (Shelley, 1997, p.9-10).
13 Conjuntamente a Frankenstein, O médico e o monstro é registro como obra precursora do gênero ficção científica. Nela, o autor volta ao mito do duplo já focalizado pelo romantismo alemão em Doppelgänger. Também em The private memoirs and confessions of a justified sinner (1824), o escocês James Hogg retoma a mesma narrativa, igualmente o que acontece em A história maravilhosa de Peter Schlemihl (1813), de Adelbert von Chamisso. O dualismo na novela de Stevenson constitui a personalidade do personagem Henry Jekyll, o qual se dilacera entre civilização e instinto; segurança e liberdade.
14 Para um tratamento mais pontual deste argumento, ver Farias (2005).