Cultura contemporânea, identidades e sociabilidades
7 Travestis, transformistas, drag queens, transexuais: montando corpo, pessoa, identidade e gênero
7 Travestis, transformistas, drag
queens, transexuais: montando
corpo, pessoa, identidade e gênero
Juliana Gonzaga Jayme 1
Introdução
Este artigo busca discutir a construção das identidades culturais e as relações de gênero na sociedade contemporânea a partir de uma etnografia entre travestis, transformistas, drag queens e transexuais que vou chamar aqui, com Benedetti (2005) de "universo trans",
mas também de transgênero2 , realizada em Belo Horizonte e
Lisboa.3 Como se sabe, a etnografia envolve a observação, conversas informais e entrevistas. Utilizei essas técnicas nas duas cidades. Em Belo Horizonte, a pesquisa de campo foi feita entre 1997 e 1998, com um retorno, no final de 1999, para controle. Em Lisboa, a pesquisa foi realizada entre maio e outubro de 1999. Creio que é se não impossível pelo menos muito difícil fazer etnografia sem pensar nas questões que envolvem a relação entre o sujeito pesquisador e os sujeitos pesquisados e, daí, suas implicações políticas e metodológicas, que, se não se dão apenas no texto, podem, ou devem, ser nele reveladas. Assim, este texto resulta de encontros intensos e de interpretações sobre o que me foi dito com palavras ou não e a escrita expressa esse convívio.
Por meio de uma ação que denominam montagem, travestis, transformistas, drag queens e transexuais reconstroem gêneros, revelando que essa categoria não possui uma estrutura binária, antes, refere-se a multiplicidades. Também via montagem modificam corpo e nome, demonstrando a transitoriedade da pessoa e indicando que sua ação é incorporada, visto que mimetizada e aprendida por meio do corpo e nele observada.
A ideia de uma identidade única e permanente vem se perdendo. Travestis, transformistas, drag queens e transexuais são emblemáticos para refletir sobre essa questão, já que apesar de desejarem demonstrar que são diferentes entre si, também se aproximam no que se refere à intervenção corporal e aos efeitos dessa intervenção na redefinição de gênero. Essa ação redefinidora de masculinidade e de feminilidade enfatiza uma interpretação de gênero como cultural e processual. A noção de incorporação é de grande valia para pensar toda essa ação. Ao construir sua identidade - interferindo no próprio corpo - essas pessoas mostram que o corpo é, ele próprio, um meio de expressão. A alteridade provocada por elas é percebida por seu corpo que transmite um significado, mas também expressa a performance. As "marcas" no corpo de travestis, transformistas, transexuais e drag queens podem ser vistas como um código que tanto as une, como as separa, pois, por meio dessa interferência corporal a um só tempo elas revelam as diferenças entre si e podem se unir em uma identidade frente àqueles que não fazem parte desse universo trans.
Antes de prosseguir a discussão, é importante explicitar - na definição êmica - o que são travestis, transformistas, transexuais e
drag queens 4 . As travestis dizem que são "mulheres" dia e noite, pois interferem no corpo por meio de roupas, maquiagem, cabelo e trejeitos femininos e por meio de medicamentos (hormônios femininos) e silicone em partes do corpo. No entanto, afirmam que
não desejam fazer a cirurgia de transgenitalização, 5 querem manter o órgão sexual masculino.
A diferença entre as transexuais e as travestis, é que as primeiras afirmam que "nasceram com o corpo errado". Seriam "mulheres
presas em um corpo de homem".6 O órgão sexual é visto como um apêndice, portanto, algo que deve ser retirado. Assim, a transexual é aquela que fez (ou deseja fazer) a cirurgia de transgenitalização. Para as transformistas, o tempo define o masculino e o feminino. Dizem: "eu sou homem de dia e mulher de noite". O corpo é modificado com maquiagem, roupa, espuma para fazer seios e ancas. Diante de uma transformista montada não é possível saber se se trata de homem, mulher, travesti ou transexual. A transformação pretende ocultar inteiramente o masculino.
A diferença entre transformistas e drag queens refere-se ao fato de que essas últimas não têm a preocupação das transformistas em "parecer mulher". A maquiagem é carregada, a roupa exagerada, com altas plataformas, cabelos coloridos etc.
Refletindo sobre o gênero
Mesmo não havendo um consenso entre as discussões de gênero, uma ideia recorrente é considerar essa categoria sob uma perspectiva relacional, assimétrica e plural. Suely Kofes (1994), em uma reflexão sobre duas histórias de vida de uma patroa e de uma empregada doméstica , percebe ambiguidades no que poderia se referir a uma identidade feminina. Em termos de categorias, a patroa seria mulher e a empregada seria empregada. Ou seja, não existiria, por parte da patroa, um "nós mulheres". E aqui, Kofes está tratando de assimetria, desigualdade, hierarquia.
Judith Butler (1990) afirma que ao invés de pensar o gênero a partir da identidade, é melhor situá-lo como performance, em função do caráter instável e dramático dessa categoria. Nessa perspectiva, o gênero é uma ação e nunca uma totalidade, sua construção é muito mais complexa e inacabada. Para essa discussão, Butler utiliza a experiência de drag queens,demonstrando como as relações sociais daí as de gênero, raça, etnicidade, classe etc. são múltiplas e sempre recriadas. Então também não é possível pensar na ideia de um terceiro gênero, discussão que já esteve em voga. Em uma crítica à abordagem de Marjorie Garber sobre travestis e transexuais como "criadores" de um terceiro espaço de possibilidade, desestabilizando o sistema de gêneros binários, Judith Halberstan (1998) atenta para a falha dessa reflexão, afirmando que faltaria um quarto, quinto, sexto espaço, já que os gêneros são múltiplos. Ao focalizar o que ela chama de "problema do banheiro", a autora mostra que, no caso dos transgêneros, escolher qual banheiro frequentar em um espaço público torna-se uma decisão complexa.
Ao discutir sobre diferença e identidade Henriette Moore (1994) revê os debates sobre gênero desde a década de 1970 e afirma que um de seus problemas estaria na forma como se teoriza a relação entre sexo e gênero. O discurso antropológico acabaria por manter as diferenças de gênero como localizadas nos corpos sexuados. Dizer que o gênero é socialmente construído e manter o sexo na esfera do biológico, obscurece a ideia de que o sexo também é uma
categoria construída, contextualizada.7 Uma das maneiras de resolver esse impasse estaria, na perspectiva da autora, na aceitação de que - pensando em termos concretos - o feminino e o masculino são identidades incorporadas, ou seja, é necessário perceber, segundo Moore, que "... para além do discurso social e cultural, há uma experiência individual" (Moore, 1994, p.16) que é social e processual. A partir dessa ideia, seria possível diferenciar sexo e gênero, mas perceber também que são categorias relacionadas. Enfim, quando falamos de gênero, discutimos sobre distinções e o gênero só existe ligado a outras formas de diferença. A experiência também só pode ser apreendida pelo social e é atravessada por outras relações, portanto, não é nunca acabada, mas constantemente (re)formulada e intersubjetiva. A questão, segundo a autora, está em perceber em que contexto um tipo de diferença torna-se mais primordial em relação aos outros. Num casamento, por exemplo, diz ela, a diferença sexual torna-se fundamental.
Mesmo que o impasse com referência às teorizações de sexo, diferenças sexuais e gênero não esteja resolvido, é possível buscar uma relação entre essas categorias a partir da ideia de experiência, como sugere Moore. Pensando no caso dos transgêneros, torna-se explícita essa relação, pois em sua experiência revelam muitas vezes que o sexo é uma relação social prioritária na construção de suas identidades, tendo em vista que é no corpo sexuado que eles indicam sua diferença, como é também nesse corpo (ou por meio dele) que transexuais, travestis, transformistas e drag queens "embaralham" o gênero revelando-o como um "através". Pensar na incorporação é uma boa forma de refletir sobre tal relação. Antes de discuti-la, entretanto, parece-me necessário refletir sobre gênero.
Se os estudos feministas em certo momento foram criticados -mesmo supondo relações - por uma perspectiva identitária, hoje vários autores preocupam-se em pensar o gênero a partir de uma perspectiva relacional, atentando tanto para a relação entre masculino e feminino como para as diferenças nas constituições de masculinidades e feminilidades, de acordo com outras distinções (melhor dizer, aqui, desigualdades), tais quais raça, classe, etnicidade, orientação sexual. Como afirma Moore (1994), mesmo que as distinções sejam percebidas categoricamente, sua vivência é relacional, assim, os discursos de gênero sempre atravessam outras relações sociais. Dessa forma, o gênero seria instável e, nessa concepção, não se refere a homens e mulheres como opostos fixos, antes, diz respeito à categorização de diferenças (e desigualdades) ligadas ao corpo, à sexualidade, à raça, à etnicidade etc. Homens, mulheres, travestis, transformistas, transexuais, drag queens são plurais e sua diferença não está apenas no gênero ou no corpo.
A perspectiva construcionista de gênero tem sido criticada porque permaneceria essencializando o dimorfismo sexual, deixando escapar a historicidade da própria noção de diferença sexual. Ao criticar essa perspectiva, Marilyn Strathern (1988) afirma que a partir de uma concepção puramente construcionista outras dimensões do gênero tornar-se-iam obscurecidas, além do essencialismo da diferença sexual. Para a autora, gênero é facilmente relegado à interação entre masculino e feminino, mas seu objetivo é demonstrar que tanto as relações de gênero quanto as interações entre os sexos são mais amplas, já que negociadas com todas as relações sociais.
Partindo da reflexão sobre o dom na Melanésia, Strathern argumenta que não é possível pensar o gênero por meio de classificações duais. Os melanésios não classificam, mas sobrepõem.
Em minha explicação (...) torna-se impossível conceber o
gênero simplesmente como uma questão da relação entre
macho e fêmea. Essa questão incorpora uma visão mercantil
inapropriada que, supondo que as entidades existam em si,
requer explicação quanto à relação entre elas. Este é o modelo
de gênero associado ao papel sexual (...). De maneira mais
geral esse modelo está subjacente à ortodoxia ocidental
corrente que considera as relações de gênero como 'construção
social ou cultural' daquilo que já possui forma diferenciada
através da determinação biológica do sexo dos indivíduos.
(Strathern, 2006, p.278)
Nessa discussão, a autora enfatiza o caráter relacional do gênero, além de contestar algumas oposições, entre as quais, indivíduo e sociedade: as pessoas na Melanésia são pensadas individual, mas também dividualmente, na medida em que suas identidades modificam-se entre a unidade e a composição. O estado unitário das identidades só emerge nas relações sociais, entre as quais, as relações de gênero que, para os melanésios, não está situada entre o feminino e o masculino, mas nas interações entre same-sex e cross-sex, já que as pessoas alternam as relações sociais entre o
estado unitário e o composto. 8
Gênero para Strathern, então, não é visto como uma categoria classificatória, mas revelaria categorias de diferença e, como em Butler, nunca é acabado, por ser, ele próprio, uma categoria aberta que se refere às categorizações tanto de pessoas, quanto dos artefatos e eventos que estejam vinculados a um imaginário sexual.
A partir daí, as relações de assimetria e poder entre masculino e feminino até se mantêm, mas não só. Como aponta Miguel Vale de Almeida (1995 e 1996a), há assimetria e hierarquia dentro mesmo dessas "categorias". Existem, por exemplo, graus de "masculinidade" revelados nas relações sociais e, assim, os indivíduos podem ser menos ou mais "masculinos". O autor também critica a abordagem construcionista dos estudos de gênero, afirmando que essa visão de algum modo pressupõe uma dicotomia de gênero com base na ideia de dimorfismo sexual, o que faz com que a historicidade da diferença sexual seja colocada de lado, além de não abordar a constituição do próprio corpo e de tratar homens e mulheres como entidades fixas e polarizadas. Almeida afirma ainda que tal concepção não permite que se perceba a dinâmica das masculinidades e feminilidades e oculta "... o próprio uso destes termos como operadores metafóricos para o poder e a diferenciação mesmo a níveis que não são de sexo e gênero" (Almeida, 1996, p.185).
Nesse sentido, uma reflexão sobre corpo e incorporação torna-se importante para a reflexão sobre o gênero, já que este teria como base metafórica o corpo e, segundo Almeida, é o corpo que permite o essencialismo, por exemplo, da ascendência social masculina reproduzida de forma "naturalizada", justamente porque os significados de gênero seriam incorporados a partir de um consenso vivido, pois seu aprendizado não é refletido. Moore (1994, p.85) vai na mesma direção quando afirma que "não é que nossos corpos evidenciem naturalmente diferenças de gênero, ou alguma outra forma de diferença, antes, essas diferenças são produzidas como um efeito do corpo". Para fugir a isso, é necessária uma reflexão sobre o corpo que não o situe como passivo, mas como a base existencial da cultura, conforme expõe Thomas Csordas (1990).
Ao situar a incorporação como paradigma da antropologia, Csordas afirma que isso é possível porque o corpo seria um ponto de partida produtivo para a análise da cultura, já que poria um fim à distinção convencional entre sujeito e objeto, permitindo observar como objetos culturais (incluindo os selves) são constituídos de forma fluida e indeterminada na fase adulta. Pensar o gênero em uma perspectiva incorporada permite perceber que ele é inacabado, sendo progressivamente construído, negociado, performatizado na relação com outras interações sociais. A partir dessa visão, torna -se mais clara a ideia de que o gênero não se refere simplesmente a homens e mulheres e que a masculinidade não diz respeito unicamente a homens, enfim, torna-se possível pensar o gênero como multiplicidade.
Almeida, apoiado em Strathern e na teoria da incorporação, sugere uma maneira de compreender o gênero de forma não essencializada:
A busca de sentidos e significados de género deve consistir
num 'mapeamento' exaustivo das áreas semânticas e de acção
relacionadas com o género (...) e não apenas numa focagem da
sexualidade ou da divisão masculino/feminino como divisão
homens/mulheres. Pensar o género como o estudo das
relações entre homens e mulheres é, a meu ver, um obstáculo
(...) a sociedade não é construída independentemente do
género e não pode por isso ser um contexto explicativo para
ele. As relações de género não são nem mais nem menos
autónomas que todas as outras relações sociais (Almeida,
1996, p.166).
Para compreender o gênero, então, seria necessário observar as negociações cotidianas acionadas, por exemplo, em torno do poder. A partir daí, tornar-se-ia possível perceber a transformação, plasticidade e incompletude das relações sociais entre as quais o gênero e a incorporação. Os transgêneros mostram essa incompletude. Seu corpo nunca é visto por eles como acabado e, "como os melanésios", podem aparecer como um composto de masculino e feminino ou como só masculino e só feminino, dependendo das interações em que estão envolvidos.
Para compreender as travestis, transformistas, transexuais e drag queens é fundamental, então, observar tanto o que elas dizem quanto a expressão incorporada do que é ser transgênero, homem ou mulher em uma sociedade cuja classificação primeira é a dicotomia sexual. Mas a(s) identidade(s) das pessoas que se encaixam no universo trans não se localiza(m) apenas no corpo, mesmo que este seja percebido como o local do significado dessa(s) identidade(s). A ideia de montagem revela que esses sujeitos montam não só o corpo, mas a pessoa e é aqui que a incorporação torna-se explícita. Mente e corpo, além de não estarem separados, são produzidos, inacabados. No filme Tudo
sobre minha mãe 9 , a personagem Agrado uma travesti diz o quanto gastou para produzir-se, afirmando que "custa muito ser autêntica (...). Nestas coisas não se pode economizar, porque se é mais autêntica, quanto mais se parece com o que sonhou para si mesma". Agrado mostra que o corpo, a pessoa, o gênero, a identidade são produzidos e é isso que lhes confere autenticidade.
Ao compreender a diferença sexual carregada de gênero - e este como ação, portanto, não restrito à dualidade do sexo -, Butler explicita que o gênero se refere a mais do que uma relação assimétrica e dicotômica entre homens e mulheres, pois está ligado a processos, práticas, experiências vividas e negociadas cotidianamente: "Gênero não é cultural e sexo natural, gênero é também o significado discursivo/cultural pelo qual o 'sexo natural' é produzido como pré-discursivo" (Butler, 1990, p.2). E continua:
não há razão para assumir o gênero como binário. Essa ideia
mantém, implicitamente, a crença em uma relação mimética de
gênero para sexo, gênero como espelho do sexo ou restrito
pelo sexo. Quando o gênero é teorizado como radicalmente
diferente do sexo, torna-se livre e, assim, os homens podem ter
um corpo feminino e as mulheres um corpo masculino. (ibidem,
p.6)
Montar-se
A "montagem" de um corpo construído milimetricamente é essencial para o "tornar-se" travesti, transformista, drag queen, transexual. Talvez seja a ação mais importante, porque é por meio dela que se dá a redefinição e a exibição das performances de gênero e, daí, a construção e reconstrução também de identidades. Não há uma "coerência essencializada", mas a própria "desnaturalização" dos gêneros a partir da fabricação do corpo que significa e atua.
A montagem liga-se a outras questões, como o corpo, a pessoa e o próprio tempo. O tempo é um dos definidores das diferentes categorias: as "24 horas" das travestis, o "para sempre" das transexuais, o "dia-noite" das transformistas e drag queens. É por meio do tempo também que os nomes e pronomes são utilizados. Enfim, há uma ligação intrínseca entre corpo, nome, incorporação e tempo na montagem dos transgêneros.
Corpo, incorporação, tempo
Com esse verbo/ação montar os diferentes transgêneros referem-se à transformação de seu corpo, feita de diversas maneiras, de acordo, inclusive, com as distintas classificações: travesti, transformista, transexual, drag queen. É a partir da primeira vez que se montam, que se delineia, muitas vezes, em qual "categoria" virão a se inserir. Em um exercício permanente de construção corporal, incorporam novas pessoas, identidades, gêneros, nomes. Tornam-se travestis, transformistas, transexuais, drag queens.
A primeira vez que "se montou", Henrique10 ainda não tinha um nome feminino - colocou um vestido longo, fez escova no cabelo que era comprido, as sobrancelhas já estavam pinçadas e as unhas feitas. Na família ninguém sabia. Saía de casa como Henrique - com corpo, roupas e trejeitos masculinos - e Cindy, que ficava guardada, escondida da família em uma mala, só tomava vida na casa de amigos e, maquiada, vestida, de cabelos arranjados, se exibia em boates e pontos de prostituição nas ruas de Belo Horizonte. Nessa época se definia como montada, porque saía em trajes e trejeitos femininos apenas em algumas ocasiões.
Para definir-se como travesti, esperou os seios crescerem, a cintura se formar - com uso de injeção de hormônios femininos - e passou a utilizar roupas, maquiagem e cabelo femininos todo o tempo e a ensaiar trejeitos de "mulher". Cindy já não existia mais, dando lugar a Michelle, cujas formas femininas escapavam, sendo difícil escondê-las da mãe. Teria de assumir não mais a homossexualidade, mas uma outra pessoa. A montagem passou a ser diária. O novo corpo - melhor, a nova pessoa - exigia, segundo Michelle, vestimentas e rosto feminino, construído com maquiagem, posturas, trejeitos. E agora era Henrique quem estava escondido nesse corpo/pessoa Michelle. A ideia de que o corpo expressa um significado é revelada, mas também a fala de Michelle demonstra como esse corpo, ele próprio, atua. Assim, pode ser apreendido como sujeito, pois o corpo não só transporta significado, mas também o produz. Não é o meio, mas o fim da significação.
Ela (a mãe) percebeu que meu peito tava crescendo e me
perguntou se eu tava tomando hormônio, eu falei que tava
tomando, só que ela não queria me ver de mulher (...). Lá em
casa eu tinha que ficar de bermuda, calça, nunca saia, nem
salto, nem maquiagem, nem nada. Aí foi passando o tempo, foi
passando, aí eu falei: ah, agora não tem jeito mais, né, aí que
eu comecei a usar roupa de mulher o tempo todo, aí a minha
mãe acostumou. (Michelle, Belo Horizonte)
A partir do momento em que passou a ser feminina todo o tempo, Michelle começou a se denominar travesti. E ela não é a única que se utiliza dessa "marca" para a inserção nessa categoria. Como demonstram as palavras de Porcina e Buzuzu:
o travesti verdadeiro (...) é aquele que tem peito... (Porcina,
travesti, Belo Horizonte).
o travesti, ele tem as formas femininas, independente do horário
que seja ele vai ser feminino, entendeu, ele assumiu isso daí,
ele é mulher 11 , bonita ou não, com barba ou não, ele vai ser
mulher 12 ... (Buzuzu, transformista, Campinas).
A montagem das travestis, então, requer, além de trejeitos, maquiagem, cabelo "de mulher", uma intervenção corporal feminina que esteja explícita "24 horas por dia", ou seja, o masculino precisa estar oculto. Os pelos do corpo não podem aparecer, daí as sessões
de depilação e eletrólise;13 o pênis deve estar escondido; as unhas
feitas, a sobrancelha pinçada. Diz Rosa do Amor14 que a travesti "é um homem, mas com corpo, cara e peito e tudo de mulher". Para se ter tudo de mulher, é necessário trabalho e, mais do que isso, incorporação, aprender fazendo com o corpo - dessa(s) mulher(es).
Por mais que se montem, porém, com o intuito de parecer uma mulher 24 horas por dia é comum em geral de manhã revelar-se aquele homem que foi escondido. A barba pode crescer, a voz torna-se mais rouca, o rosto, sem a maquiagem, demonstra traços masculinos. Às vezes os pelos depilados de todo o corpo começam a crescer e não é possível escondê-los nem retirá-los, é necessário esperar que cresçam mais. Ouvi de todas as travestis com quem conversei, tanto em Belo Horizonte como em Lisboa, que essa situação as incomodava, especialmente porque se era possível esconder as pernas sob largas calças compridas, em certas ocasiões (por exemplo, dias quentes), os braços ficam à mostra.
Segundo minhas informantes, a injeção de hormônios muitas vezes é feita com outras travestis as chamadas bombadeiras , com
silicone industrial aplicado diretamente no corpo.15 Além da falta de assepsia, é comum que o silicone desloque pelo corpo, causando problemas de saúde e quando há esse deslocamento o problema é, de acordo com elas, mais grave: não é o homem que escapa, mas o corpo que se torna disforme. Também se corre o risco de adquirir infecções nesse processo. Ainda assim, o silicone é visto pelas travestis como um produto essencial para a sua transformação. Conversei com algumas que nunca tinham injetado, mas que afirmaram o desejo de fazê-lo e as que já tinham sempre diziam que
precisavam retocar. 16
Bombei três vezes. Aliás, bombei quatro vezes. Eu botei um
copo, aí depois eu botei dois, aí foi pra botar os três, eu não
aguentei. Saiu sangue, como doeu. (...) Mas depois que bota, é
como quadril. A gente faz um/a gente faz com aquele medo,
depois que bota vira um vício. Aí quer botar, botar, botar, botar
(Madonna, in Kulick, 1998, p.69).
A transformação corporal é feita ora com prescrição médica, ora sem e, nesse caso, com a ajuda de outras travestis sejam bombadeiras, sejam aquelas mais "experientes" que informam qual medicamento deve ser ingerido - dependendo, em geral, da disponibilidade financeira. No caso da transexual operada, além dos hormônios e silicone, a montagem inclui a cirurgia de mudança de sexo transgenitalização.
O montar-se é investido, em geral, de um significado ritual. Mesmo as que se denominam travestis, só se consideram totalmente montadas quando, além dos seios, ancas, cintura, pernas depiladas etc., estão maquiadas, com o cabelo arranjado, a sobrancelha feita. Quando acordam, por exemplo, dizem que ainda não estão montadas ou mesmo em alguns locais públicos, como a escola, às vezes não se consideram montadas. É na transitoriedade da performance que o self é recuperado cotidianamente. Diz Guto, referindo-se a Tânia Brasil:
É aquele tal negócio, tô eu aqui, e aí eu começo a me montar,
eu me sinto outra pessoa, tá, porque não é só colocar um salto
e sair rebolando, cê entendeu, é ter uma postura, (...) comportar
como uma mulher comum, tá, aquela coisa mulher, sentar,
cruzar as pernas, tá, andar sempre, não de nariz em pé, mas
ter uma postura, aquela coisa reta, sabe, então quer dizer, eu
me sinto uma outra pessoa em tudo, tanto é que mesmo os
meus amigos (...) não entendem, sabe, como é que pode,
minha mãe até já se assustou quando ela viu, ela falou; 'nossa,
cê é uma outra pessoa', meu irmão também ficou alucinado,
'nossa senhora, não é possível!', sabe, é tipo assim, pegar um
cigarro, fumar diferente, então é bem por aí, eu me sinto uma
outra pessoa. (...) apesar de eu ser homossexual, eu não me
considero uma mulher, mas quando eu tô montado, eu não me
considero uma mulher, não uma mulher, como eu posso te
dizer, mas sim uma menina (risos), cê entendeu? Não aquela
coisa, uma mulher, mas me sinto mais mulher do que homem.
(Guto/Tânia Brasil, transformista, Campinas)
Transformistas e drag queens montam-se apenas em ocasiões e lugares especiais, que elas, na época da minha pesquisa, sempre denominavam noite, embora pudessem estar se referindo a eventos
que aconteciam durante o dia. Boates gay, festas,17 programas de televisão, entre outros eventos, são lugares comuns de encontrá-las. E é possível perceber o significado ritual que essa montagem contém em si a partir da fala de Tânia Brasil, citada acima e de Ginger, que se denomina caricata:
eu não sou travesti, eu sou homossexual, mas de vez em
quando há uma montagem que eu gosto de fazer, né, quer
dizer, eu me transformo em outra pessoa, adquiro a Ginger que
é um personagem que eu criei e aonde eu expresso por ela um
lado mais descontraído, um lado onde ela canta, faz dublagem,
caricato também. (Paulo Henrique/Ginger, Belo Horizonte)
Para compreender travestis, transformistas, drag queens e transexuais, a noção de incorporação é de grande valia, pois, ao mesmo tempo em que abarca a dimensão social e construída do corpo, também revela a dimensão "engendrada" e a subjetividade desses corpos. E, creio, os transgêneros são incorporados e o processo dessa incorporação nos remete à analogia com a aula de tai chi chuan, a que se refere Miguel Vale de Almeida (1996, p.1):
Não é necessário conceptualizar ou sequer contextualizar a
aprendizagem na filosofia chinesa. Basta aprender fazendo com
o corpo, aprender imitando, até que o corpo reproduza os
movimentos certos e estes abram portas para novos níveis de
consciência incorporada.
Ao relatar o início de sua transformação, Porcina revela como, a um só tempo, ela aprendeu fazendo com o corpo e fez um corpo, produziu uma pessoa a partir das roupas que ela mesma fabricou. Nesse relato, a reconstrução da subjetividade torna-se clara, como também se explicita a perspectiva das identidades como artefatos que são produzidos nos espaços intersticiais e não em polaridades primordiais. Ou, de forma talvez mais radical, pode-se falar, com Donna Haraway que as subjetividades pós-modernas só podem ser apreendidas a partir da artificialidade do cyborg, sujeito entre, que confunde as fronteiras, é ambivalente e, mais importante, não é predeterminado, mas se produz, ou, nos termos dos transgênerosse monta.
arranjei uma máquina de costura e aí comecei a fazer minhas
roupas. Fui fazendo minhas roupas, como eu não tinha seios,
eu fazia roupas com uns 'jabôs', assim, com umas coisas assim
na frente, pra tapear, sabe, e umas calças largas, uns bons
saltos. Depois eu comecei a tomar hormônio e em sete meses
eu fiz um corpo, eu tinha um peito maravilhoso com sete
meses, quadril, tudo, comigo foi muito rápido; tem pessoas que
não, mas em mim foi muito rápido, em mim foi rapidíssimo, tem
gente que demora, comigo, sete meses e eu tava com um
corpo maravilhoso, seios lindos (...). Agora eu tenho silicone
nos seios. (Porcina, travesti, Belo Horizonte)
A montagem requer a aprendizagem de um investimento no corpo. Ao fumar um cigarro de forma diferente, calculada, aprendida, Tânia Brasil se sente outra pessoa, pode-se dizer, incorpora outra pessoa, outra subjetividade. Travestis, transformistas, transexuais e drag queens são unânimes em contar sobre o estranhamento do início da transformação e a "naturalidade" dos seus gestos, trejeitos, voz, modo de andar, depois de algum tempo.
no começo até eu achava estranho, sabe, quando você não tá
acostumada com aquele tipo de roupa, daí com o tempo você
vai acostumando, mas no começo até eu achava esquisito,
porque eu nunca tinha usado esse tipo de roupa, né, então, tipo
assim, você fica imaginando, é insegurança, um pouco, da
gente mesmo, né, a insegurança que você vai ficar pensando o
que os outros vão achar, o que os outros vão pensar, eu tinha
bastante isso, de uns tempos pra cá é que parou. (Duda,
Travesti, Campinas)
Ah, é assim, eu falo assim com a Fernanda, eu estranho agora
que eu voltei a ser Henrique, que eu tô com cara de homem,
corpo de homem, eu ainda tenho peito, aí é esquisito pra mim e
quando eu comecei a virar travesti também estranhava, porque
crescia peito, né, corpo de mulher, cê estranha nos dois.
(Henrique, Belo Horizonte)
A primeira coisa que chama atenção em qualquer pessoa do chamado universo trans é seu corpo montado. É a partir daí que esses sujeitos primeiramente exibem sua diferença e mostram como "outros". Ao construir cotidiana e ritualmente o próprio corpo, os transgênerosse expressam a si mesmos, significam, comunicando, por exemplo, a multiplicidade do gênero, as diferenças entre travestis, transformistas, transexuais, drag queens e, ao mesmo tempo, o que pode aproximá-las. É no diálogo entre tempo e intervenção corporal que suas distinções são expostas. A travesti, dizem elas, tem de ter peito de verdade, não vale espuma, o seio deve ser feito com hormônio, silicone ou água marinha e com esse
peito18 é possível a recorrente frase: "a travesti é mulher 24 horas por dia".
Transformistas e drag queens brincam com essa construção e, simultaneamente, com o tempo. De dia constrói-se um corpo masculino, que pode ter barba, largas camisas, sapatos baixos. A noite é o momento da elaboração do feminino, feito com espuma nos seios e coxas, grandes e altos sapatos, equilibrados por pernas que não exibem mais pelos, mas meias. Apliques no cabelo, cílios postiços, maquiagem. O nariz não necessita de um cirurgião plástico é afinado no "truque", como elas dizem.
A transexual sabe que seu corpo também não está acabado, pronto. É preciso continuar tomando hormônios. Por outro lado e paradoxalmente - tem mais do que as 24 horas das travestis, como se fosse feita para sempre. Este para sempre é representado pela cirurgia que constrói a genitália diferente daquela com a qual nasceram. O tempo aqui pode ser visto como alívio libertação de
algo incômodo em seu próprio corpo. 19 Mas também pode ser percebido em um sentido oposto, como castração, como a perda do que, para as travestis, é o seu maior "trunfo", a ambiguidade mais
que exposta, exibida como objeto desejável.20
Ao imitar os trejeitos de mulheres e de outras travestis, transformistas, transexuais e drag queens e ao interferirem no próprio corpo - para que o aprendizado e a assimilação sejam percebidos não apenas a partir de trejeitos, mas também do próprio corpo esculpido - esses sujeitos podem ser pensados como incorporados. Por meio desse "corpo-significante", revelam que o corpo vai muito além do físico é um sistema-ação vinculado à experiência, à vivência cotidiana e à formulação da identidade pessoal e de uma nova subjetividade que mostra (por meio do controle do corpo) o que significa.
Travestis, transformistas, transexuais e drag queens, por estarem mais atentos ao próprio corpo, percebem-no mais acentuadamente como meio e fim de expressão, de ação, de identificação e de diferença. Entretanto, esses sujeitos querem dar a maior "naturalidade" possível a seus gestos, seu andar, enfim, sua
performance.21 Mas, como aponta Maria José Fazenda (1996, p.149), "naturalizar o corpo não o devolve à natureza, atribui-lhe uma (outra) identidade".
Para Fazenda, o conceito de incorporação é importante para um estudo sobre a dança, visto que trata o corpo como uma entidade participativa da cultura. Também para pensar os transgênerosessa noção se torna fundamental, pois travestis, transexuais, transformistas e drag queens tornam-se visíveis, em primeiro lugar, por meio do corpo que atua na construção do self e que significa uma intenção. O corpo como um "...instrumento com que se molda o mundo e substância a partir da qual (...) se entende o mundo" (Raposo, 1996, p.126).
Anthony Giddens critica a ideia de Michel Foucault do corpo concentrado na emergência do "poder disciplinar". Para o autor, essa abordagem é incompleta, já que não relaciona o corpo com a agência, como teria feito, antes, Merleau-Ponty.
A disciplina corporal é intrínseca ao agente social competente;
é transcultural, mais do que especificamente ligada à
modernidade; e é uma característica contínua do fluxo de
conduta na durée da vida diária. Mais importante ainda, o
controlo rotineiro do corpo é parte integrante da própria
natureza tanto da agência como do ser-se objecto da confiança
dos outros em ver-nos como competentes (Giddens, 1997,
p.53-4).
Ao abordar a incorporação como paradigma da antropologia, Csordas (também retomando essa ideia de Merleau-Ponty e Bourdieu) quer demonstrar que o corpo não é objeto, mas sujeito da cultura e, como tal, faz parte da vida cotidiana e, ao mesmo tempo em que afeta o pensamento e o comportamento, é afetado por eles. Ou seja, o corpo e (a incorporação) é reconhecido como base da experiência e, assim, não há uma separação entre corpo e mente. "O nosso corpo é o nosso modo de ser-estar no mundo" (Almeida, 1996, p.12).O corpo é parte da construção da autoidentidade, inclusive porque é por meio dele que a pessoa se mostra. Por exemplo, a partir do vestuário, do estilo de andar, tocar, falar.
A abordagem que eu proponho certamente não nega a
problemática da biologia e da cultura, mas esta mudança de
perspectiva oferece uma problemática adicional (...) dizer que a
realidade é psicológica não carrega mais uma conotação
mental, mas define a cultura como incorporada. (Csordas, 1990,
p.36-7)
Em geral, também é a partir do corpo, ou melhor, de sua aparência, que pode ser operada a distinção entre homens e mulheres. Mas os transgêneros vêm desestabilizar exatamente essa dicotomia essencializada e o fazem por meio do próprio corpo, da incorporação. Diante deles, muitas vezes, não é possível definir de que sexo se trata. Giddens retoma os estudos de Garfinkel sobre o gênero, a partir do caso de Agnes, a transexual e discute sobre a relação entre o corpo e as características sexuais.
O caso de Agnes (...) demonstra que ser um 'homem' ou uma
'mulher' depende de uma monitorização crónica do corpo e dos
gestos corporais. Não existe de facto um só traço corporal que
separe todas as mulheres de todos os homens. Apenas aqueles
poucos indivíduos que tiveram qualquer coisa como uma
experiência completa de pertença a ambos os sexos podem
avaliar totalmente quão penetrantes são os pormenores da
demonstração e da gestão com que género é feito (Giddens,
1997, p.59).
Ao utilizarem o termo "montar", travestis, transformistas, drag queens e transexuais revelam o que foi dito acima, mas não no sentido da evidência da distinção homem/mulher. O corpo, como o gênero e as identidades, não é natural. A noção de "montar" indica uma ação, esculpir, na qual o corpo é construído dia a dia com prazer, mas também com dor, em sessões de eletrólise para acabar com os pelos que não param de crescer, com injeção de silicone industrial, com maquiagem, meias, espumas, no "truque" ou na sala de cirurgia.
A incorporação e o simulacro falam também sobre mimesis. E, creio, ambas as ideias se encontram ainda na noção de hiper-realidade. Travestis, transformistas, transexuais e drag queens, de algum modo, hiper-realizam seus corpos. Não imitam mulheres, mas agem
com seu próprio corpo de forma a desestabilizar o gênero.22 Mas nessa desestabilização, e com alto grau de performatividade, esses sujeitos nos revelariam atitudes ambíguas, por meio de suas falas, gestos, maneira como se veem e veem o "outro". A um só tempo embaralham a dicotomia em performances de gênero e a reclamam, para si por meio de um discurso mais próximo da "naturalização" da diferença sexual binária, revelando a atribuição social como um aspecto também fundamental na experiência.
Nome, corpo, pessoa A escolha do novo nome dos transgêneros não é sempre regular.
Alguns escolhem, eles próprios, outros são "batizados"23 por amigos, alguns utilizam o nome de uma estrela da música, cinema ou televisão. Mas, muitas vezes, os transgênerostrocam de nome já depois de transformados. Nessa troca, a "outra pessoa" torna-se explícita, significa.
Nesse momento, Michelle, fala sobre os seus nomes.
Chamava Cindy e no programa Verônica, mas aí ficou Michelle,
porque nesse dia do réveillon mesmo, eu dormi lá. Aí eu
conheci um menino, ele chama Alexandre, ele foi meu primeiro
amor, e ele, assim, apaixonou, falou que eu parecia com a ex-
namorada dele, não sei o que, e aí falou: 'ah, cê vai chamar
Michelle. Ele que me deu o nome. Mas no programa eu dava
Verônica para os caras, porque todo mundo tem um nome,
assim, cê nunca dá o seu nome no programa. Sempre dá outro,
porque se tiver algum problema, sabe, aí, não, meu nome é
esse.
As travestis e as transexuais podem trocar o nome, mas geralmente os mantêm femininos e preferem ser chamados pelos pronomes femininos. Transformistas, montadas, drag queens, diferentemente, possuem dois nomes. O feminino só é utilizado quando estão montadas. "De dia", o nome é masculino e essas pessoas, quando montadas, podem se apresentar com os dois nomes: Yoko/Ricardo, Tânia Brasil/Guto, Luna/Ricardo, por exemplo.
Para Csordas (1990), analisar a percepção e a prática com base no corpo permite o fim das diferenciações convencionais entre sujeito e objeto e, assim, os objetos culturais passam a ser vistos como inacabados, indeterminados, constituídos e reconstituídos por toda a vida. Pensar a incorporação dos transgênerostambém a partir dos nomes e pronomes utilizados por eles, leva-nos, de certa maneira, a essa compreensão da pessoa como inacabada. Pela forma como se apresentam por ele, ela; ele/ela os transgêneros revelam a ação constante de construção e reconstrução de seus nomes, gêneros, identidades, corpo. Da mesma forma que o corpo não está acabado, a pessoa também não está e essa indissociação se torna clara aqui por meio da descontinuidade de seus próprios nomes. Mesmo que essa descontinuidade não seja infinita, uma vez que a experiência dos sujeitos - como evento discursivo (Scott,1999) - não está presa a uma única ordem de significados, só acontece dentro de significados estabelecidos histórica e socialmente.
Concluindo
Para pensar sobre esse universo aqui discutido, é possível formular algumas perguntas: tornar-se transgênero é uma escolha? Se sim, essa escolha pode apresentar limites, se pensarmos na experiência social? Quais as diferenças e pontos em comum nessas construções femininas em um corpo a princípio masculino? Como ocorre essa "significação-mulheres" e suas ressignificações e criação de novas categorias de gênero?
A montagem, parece-me, atravessa todas essas questões, pois essa ação informa sobre gênero, identidade e incorporação. É por meio do que chamam de montagem que eles vão produzindo e reproduzindo femininos performáticos, revelando a multiplicidade do gênero, mas também explicitando por uma (re)organização da duplicidade que a ideia não só do gênero, mas também do sexo, como estrutura binária pode ser "alucinada" na ação, mas com limites, limites esses que são incorporados ao longo da vida. Ou seja, se a duplicidade é vivida como constituinte do reconhecimento do sexo homem ou mulher , travestis, transformistas, transexuais e drag queens mostram que a questão é mais complexa, embora, por outro lado, assumam também esse discurso.
Sua transformação pode, então, ser pensada de algum modo como escolha, entretanto, existem limites nessa escolha que estariam colocados no social. Moore (1994) afirma a existência de uma experiência individual que estaria além do discurso social e cultural, mas enfatiza também que o masculino e o feminino são identidades incorporadas. O que a autora quer dizer com isso? E, mais especificamente, qual a relação entre experiência, incorporação, diferença sexual, gênero e transgênero? Para discutir essas questões, a definição de gênero de Strathern é uma contribuição importante.
Por gênero eu entendo as categorizações de pessoas,
artefatos, eventos, sequências e tudo o que desenha a imagem
sexual, indicando os meios pelos quais as características de
masculino e feminino tornam concretas as ideias das pessoas
sobre a natureza das relações sociais. (Strathern, 1988, p.ix)
Percebe-se que, para a autora, essa categoria não se refere apenas a homens e mulheres, mas, de todo modo, fala de categorias de diferenciações que estão inscritas no corpo, pois o que é percebido é o que desenha a imagem sexual. A imagem sexual dicotômica (homem/mulher, masculino/feminino) está incorporada nos sujeitos "ocidentais" e, então, está incorporada nas travestis, transformistas, drag queens e transexuais. Entretanto,ao montar seu corpo, esses sujeitosmultiplicam o próprio "desenho" da imagem sexual. Diante de uma travesti, estamos diante concretamente de que imagem, masculina ou feminina?
Como espero ter ficado claro, em sua construção, esses sujeitos revelam uma nova subjetividade difícil de ser interpretada a partir de diferenças polarizadas. Mesmo quando se posicionam como um
"nós" frente aos "outros",24 revelam a transitoriedade dessa identidade. Montando performativamente a pessoa, demonstram-se como situados em um interstício ou em entretempos/lugares, para falar com Bhabha (2001). Em sua produção, mostram a ambivalência da chamada subjetividade pós-moderna, fabricada entre o desejo da definição e sua alucinação. Nessa ação, problematizam a relação entre sexo e gênero, ora tratando-os como uma e a mesma categoria, ora explicitando sua diferença e, talvez mais importante, colocando ambas as categorias como inacabadas. Assim, mostram o alcance da afirmação de Moore de que existe uma experiência individual, sim, mas ela só pode ser apreendida por meio do social. A experiência de travestis, transformistas, drag queens, transexuais, aponta para a subversão das normas binárias e heterossexistas da matriz sexual (Butler, 1990), por outro lado, nas relações sociais, os próprios transgêneros podem reafirmar (ainda que mais no discurso do que na ação) essa norma binária.
Kofes (1996) afirma que um dos aspectos fundamentais do gênero para pensar as relações sociais refere-se ao fato de que essa categoria tanto pode revelar a crença de uma oposição dicotômica entre os sexos, quanto embaralhar esta oposição. Travestis, transformistas, drag queens e transexuais ora operam com essa dicotomia, ora a explodem, construindo performaticamente sua subjetividade.
O que é um transgender, um transgender é uma palavra, não é
nada mais do que isso. É uma palavra onde estão englobados
vários géneros diferentes, que são aqueles géneros que não se
enquadram naquilo que é socialmente correcto: que é o género
masculino e o género feminino. Estes são os que, socialmente
são os únicos aceitos, há no entanto muitos outros, como seja:
os transexuais, os travestis, os cross-dresser, os, os andróginos
e os hermafroditas. Isto é uma palavra, é uma única palavra
que engloba vários géneros, que não o masculino e o feminino
e que podem ser inclusivamente os dois, juntos. (Jó Bernardo,
transexual secundário,25 Lisboa)
eu me acho normal, eu me acho uma pessoa normal. Por que
que eu digo que eu sou normal? Tem gente que fica apavorada.
A Sheila mesmo, que morou comigo, ficava apavorada de eu
sair na rua assim, eu digo, meu deus do céu, isso aqui é um
body, isso foi feito para mulher usar, porque existe confecção
masculina, feminina e infantil, não existe confecção para
travesti. Se foi feito pra mulher usar, por que que eu não posso
usar e sair na rua? O que que impede? Tudo isso aqui, exceto
essa blusa, que fui eu que confeccionei, mas é um camisão eu
tenho uma loja de costura o sapato foi feito pra mulher, essa
calça, o body e muitas outras roupas que eu compro prontas,
não existe confecção para travesti. Por que que a mulher pode
usar e eu não posso? Então o que que acontece, a maioria dos
travestis tem vergonha de si próprio, não se assume, tem
vergonha de sair na rua, tem vergonha das pessoas olharem.
Eu não tenho vergonha, eu detesto passar na rua e ninguém
me ver, se isso acontece eu penso, meu Deus, que loucura,
ninguém me viu, eu tô morta! Eu quero que me vejam, que me
enxerguem, que digam: 'ô peituda, ô gostosa', já me chamaram
de maminhas assassinas (risos), juro... (Porcina, travesti, Belo
Horizonte)
De certa forma, por meio das falas de Porcina e Jó, pode-se pensar que o gênero e as identidades são múltilplos, mas nem sempre essa multiplicidade é aceita se for incorporada no sentido de que feita pelo corpo e nele observada de maneira tão visível e percebida como "diferente". Diferente de quê? Exatamente da imagem dúplice do sexo. Transgênero é apenas uma palavra, diz Jó, mas palavra é comunicação, logo, tem significado e o que essa palavra significa passa por hierarquia, assimetria, não aceitação, não existência. E é a própria Jó que afirma isso, ao completar a frase: "É uma palavra onde estão englobados vários géneros diferentes, que são aqueles géneros que não se enquadram naquilo que é socialmente correcto: que é o género masculino e o género feminino". Também é isso que Porcina está dizendo, quando afirma: "eu sou normal!" E, mais adiante: "existe confecção masculina, feminina e infantil, não existe confecção para travesti". Ou seja, ambas estão sugerindo que, embora existam, travestis, transformistas, drag queens e transexuais podem não ser traduzíveis para a nossa sociedade: socialmente não aceitos, é como se não existissem. E essa não tradução estaria vinculada justamente à alucinação dessa duplicidade da diferença sexual e de gênero.
Bhabha retoma Benjamin para refletir sobre a liminaridade da tradução na cultura migrante que, para ele, estaria no entrelugar e afirma que "A tradução é a natureza performativa da comunicação cultural"(Bhabha, 2001, p.313), ou seja, refere-se à linguagem posicionada que revela a fragmentação das diferenças tradicionais polarizadas, substituindo-as por uma subjetividade que dá conta da transitoriedade.
Se teoricamente é possível pensar a tradução cultural, nas relações sociais tal tradução pelo menos para alguns casos, como o dos transgêneros revela-se ainda como utópica. Embaralhar ou subverter (e explicitar essa subversão no corpo, esteticamente) as dualidades de gênero acaba por deixar essas pessoas como intraduzíveis. Talvez por dar conta desse "estrangeirismo", é que travestis, transformistas, transexuais e drag queens ao mesmo tempo que querem subverter a dicotomia, reorganizam-na também em termos binários, revelando (e sentindo) a tensão na categorização de sexo e gênero das sociedades ocidentais.
Se esses sujeitos estão situados em um "entrelugar" que redefine as ideias de tempo e espaço, também querem, muitas vezes, incluir-se em um tempo e espaço determinado, tradicional? Se podem ser observados como um cyborg, que reescreve performativamente o corpo e a pessoa e, nesse sentido, desestabiliza a ideia de uma identidade determinada, por outro lado, por meio da formulação reflexiva de uma identidade podem se unir em uma comunidade e partilhar significados. Tais significados podem dar sentido tanto à fluidez quanto a seus limites, podem transcender as diferenças sexuais, mas também dualizá-las. A tensão do sexo e do gênero torna-se explícita em sua performance, uma vez que eles também lidam com e introjetam a forma de pensar a diferença sexual características do ocidente, as atribuições binárias do gênero. Assim, para compreender travestis, transformistas, drag queens e transexuais e a forma como elas ressignificam o gênero, é fundamental pensar em sua experiência, processual e intersubjetiva, portanto, nunca idêntica, mas, ao contrário, lugar da diferença. E da diferença construída e vivida relacionalmente, ou seja, atravessada por outras distinções e desigualdades, corporais, de gênero, de classe etc.
A ideia de incorporação é heurística para a reflexão dessas questões. Na montagem, os transgêneros constroem corpo e mente, fazem a pessoa. Seu corpo pode ser visto como a marca da pessoa, pois é por meio desse corpo que eles se diferenciam e expressam a alteridade e, mais do que isso, o corpo e, então, o sujeito é transformável, performativo, tanto no sentido de que expressa algo, como naquele de que acrescenta a transitoriedade ao sujeito. Ao tratar do perspectivismo ameríndio, Viveiros de Castro (1996,
p.131)26 diz que os "... corpos ameríndios não são pensados sob o modo do fato, mas do feito. Por isso a ênfase nos métodos de fabricação contínua do corpo". É possível pensar que travestis, transformistas, transexuais e drag queens utilizam seu corpo também como feito, mas nunca terminado. É um fazer e refazer constante. Analogamente aos ameríndios, fabricam continuamente o corpo e, com isso, a pessoa.
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1 Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais/PUC-MG.
2 Travestis, transformistas, drag queens e transexuais são diferentes e fazem questão de se diferenciar uma em relação à outra. O termo "universo trans" possibilita englobar as diferentes autoclassificações dessas pessoas sem "achatá-las" em uma única identidade. "Além das travestis, transexuais e transformistas há uma verdadeira miríade de tipos que poderiam ser listados na categoria universo trans" (Benedetti, 2005, p.19). Quando realizei a pesquisa empírica em Lisboa, uma informante, Jô Bernardo, usava transgender (em inglês) como um termo que englobava todas as categorias, mas mantendo a ideia das diferenças entre elas. Hoje transgênero é largamente utilizado no Brasil, mas não exatamente com esse sentido. É comum, por exemplo, a diferenciação entre transgêneros e transexuais. Por fim, mas não menos importante, como será discutido ainda neste paper, ainda que enfatizando as diferenças, em certos momentos travestis, transformistas, drag queens e transexuais se unem em uma identidade trans frente aos não trans. Como este artigo foi escrito a partir daquela pesquisa, uso também o termo transgênero e da forma como foi pensado naquela época (Jayme, 2001).
3 Pesquisa feita entre 1997 e 1999 para minha tese de doutorado.
4 Em Portugal, diferentemente do Brasil, o termo travesti serve para designar pessoas que se vestem com roupas do sexo oposto, mas que não transformam o corpo com hormônios, silicone etc. Seria o que no Brasil é chamado transformista.
5 "A operação consiste em remover o conteúdo do pênis e dos testículos, usando a pele que sobra para criar a vagina e os grandes lábios"(Rito, 1998, p.177).
6 Esta não é só uma visão êmica. Os médicos, em geral, concordam com essa definição do transexual. É comum também usarem "... mulheres, presas em um corpo masculino..."(Stoller, 1982, p.73).
7 Thomas Laqueur (1994) mostra, por meio da História, como a teoria dos dois sexos se construiu a partir do século XVIII. Na Antiguidade, a ideia era que havia apenas um sexo que se manifestava de forma diferenciada em homens e mulheres.
8 Nesse estado, a pessoa é dividual, um composto de elementos masculinos e femininos.
9 Direção de Pedro Almodóvar. Título original: Todo sobre mi madre, 1999.
10 Henrique/Michelle que durante minha pesquisa voltou a ser Henrique (ver Jayme, 2001) foi a(o) principal informante da pesquisa em Belo Horizonte.
11 É interessante notar a ambiguidade no próprio gênero gramatical utilizado.
12 A ideia da tese de doutorado partiu da pesquisa que fiz para o mestrado (Jayme, 1996), realizada em Campinas e Belo Horizonte.
13 Eletrólise é uma técnica utilizada para retirar os pelos pela raiz, de maneira que depois de certo tempo em geral por volta de cinco anos eles deixam de nascer.
14 Travesti brasileira que vivia em Lisboa à época da pesquisa de campo feita naquela cidade.
15 As minhas informantes travestis utilizavam o termo "bombar" para a injeção de silicone industrial diretamente no corpo, feito pelas "bombadeiras". Mas se o silicone fosse colocado em uma clínica com médicos -, passava a ser chamado cirurgia plástica.
16 A noção do cyborg de Donna Haraway (1991), um organismo entre homem e máquina, frequentemente artificializado por intervenções externas, sempre "mutante" e fabricante de si, é interessante para refletir sobre isso.
17 Hoje em dia é comum encontrar as chamadas drag queens, como atração, em festas particulares, não necessariamente gays.
18 O seio, ou peito é uma metáfora. Como já foi explicitado, a construção corporal da travesti inclui depilação ou eletrólise, silicone em outras partes do corpo, uma, se não realizada, desejada cirurgia plástica no nariz etc. Além dos hormônios e silicone, a cirurgia plástica para afinar o nariz é considerada muito importante para a transformação em travesti e transexual. Ainda que muitas vezes a cirurgia seja mais "um sonho", um desejo. A maioria das travestis e transexuais com quem tive contato dizia que ainda não havia operado nariz, mas o faria assim que pudesse.
19 Ao pensar sobre a cura ritual em religiões pentecostais nos Estados Unidos e a incorporação, Csordas discute sobre o papel do demônio nessas religiões. Os demônios podem ser encontrados na vida cotidiana, afetando o pensamento e o comportamento, ou seja, são incorporados, presos nos corpos do fiel. E afirma: "A metáfora da prisão simultaneamente invoca uma condição material/corporal, como uma condição psicológica/espiritual dirigida à cura"(Csordas, 1990, p.16). É possível pensar nessa metáfora da prisão para a representação que os transexuais têm de seu corpo. "O feminino preso em um corpo masculino", possível de ser libertado em uma sala de cirurgia.
20 "... jamais quis me operar, me operar pra quê? Pra ficar frustrada? Como bicha frustrada? (...) uma coisa que nunca entrou na minha cabeça é esse negócio de operação, eu gosto de mim do jeito que eu sou..." (Rosa do Amor travesti brasileira em Lisboa).
21 As drag queens não se preocupam tanto com esta "naturalidade", uma vez que sua performance e a própria "montagem" se pretendem mais exageradas, teatrais, caricaturais.
22 "O travesti não é um imitador de mulher, assim como a fotografia não é uma duplicata do real sensível. Tal confusão remonta à questão da mimese. (...) se o travesti inicialmente imitou uma mulher foi para livrar-se dela, como um dia se livrou do homem. A repetição sistemática o ensaio acaba por transformar o material: revela outro que não o referente. Se a congruência fisionômica garantisse a transformação de um homem em mulher, o travesti não apareceria tão problematicamente em nossa cultura. As categorias homem e mulher ali já não têm eficácia, alternando-se em vertigem para o observador. Não se trata de uma mera oposição. Ultrapassa isso porque nele o corpo experimental, e jamais terminado, é sedução aberta" (Cabral in Denizart, 1997, p.15).
23 Carmen fez questão de reunir amigos em sua casa para a escolha do nome. "Nossos nomes não são escolhas nossas. Ganhamos um dos pais, ao nascer, portanto não queria ser eu mesma a escolher meu novo nome e ficou Carmen".
24 Outros no plural porque transgênerosora se identificam como um "nós", frente ao "não transgênero", ora se diferenciam entre si, e então a travesti é "o outro" da transformista, da transexual, da drag queen, a transformista é "o outro" da travesti, da transexual, da drag queen e assim sucessivamente.
25 O que no Brasil é chamado travesti.
26 A discussão de Viveiros de Castro refere-se à perspectiva ameríndia da relação entre natureza e cultura, utilizo o exemplo, apenas para referir-me à analogia que pode haver entre a montagem de travestis, transformistas drag queens e transexuais e a fabricação corporal dos ameríndios.