Cultura contemporânea, identidades e sociabilidades
4 Imagens de um espelho negro: corpo, cabelo e consumo em Raça Brasil
4 Imagens de um espelho negro:
corpo, cabelo e consumo em Raça
Brasil
Leandro José dos Santos1
Introdução
Tendo em vista o processo de segmentação da cultura e dos leitores no mercado de revista brasileiro, discutimos como as imagens e representações da mulher negra na revista Raça Brasil permitem que identidades individuais e coletivas sejam estabelecidas entre suas leitoras, tendo em vista, inclusive, as relações estabelecidas e permitidas pelo consumo. Assim, abordamos algumas especificidades da revista e seu impacto no jornalismo de revista, além de discutirmos elementos da política editorial e as imagens que a revista elege em busca da identificação de suas leitoras.
Raça Brasil é uma revista segmentada para o público negro que surgiu no ano 1996 em meio ao do processo de segmentação e diversificação dos produtos culturais e do mercado editorial, com a perspectiva de dar visibilidade à população negra brasileira. A primeira edição da revista vendeu cerca de trezentos mil exemplares. Isso porque Raça Brasil foi a primeira revista voltada estritamente para o público negro, que não se sentia contemplado pelo mercado editorial brasileiro; somado a isso, a revista nasceu com uma proposta de resgate e valorização da autoestima do negro, que não se via representado positivamente nos outros instrumentos da mídia; soma-se ainda a publicidade de produtos (cremes e xampus para a pele e o cabelo, maquiagens etc.) e serviços (cabeleireiros/as, maquiadores/as, estilistas etc.) direcionados especificamente aos consumidores e consumidoras negros.
Tendo em vista a quantidade de exemplares vendidos na primeira edição de Raça Brasil, é possível afirmar que, de imediato, houve uma identificação de homens e mulheres negros com a revista. Mas também é importante perceber, segundo Santos (2009, p.9), que Raça Brasil "nasceu na ânsia de querer explorar o potencial econômico de uma classe média negra com alto poder de consumo e que emergia no ambiente urbano e também queria se ver representada na mídia". Por isso mesmo, uma análise mais aprofundada sobre essa revista deve levar em conta o seu "posicionamento diante da competitividade capitalista na economia de mercado".
Ora, de acordo com Aroldo Macedo primeiro editor de Raça Brasil , a ideia de fazer uma revista segmentada para o público negro partiu de uma proposta feita à empresária Joana Woo, dona da editora
Símbolo, que, com a ajuda de Roberto Melo 2 e do próprio Aroldo, passaram a pensar em uma revista que pudesse atender às demandas de consumidores negros.
Segundo depoimento dado em um debate realizado na Universidade de Campinas, Macedo afirma que o projeto de criação da revista foi norteado pelo suposto de que o negro brasileiro quer se valorizar. E, o sentido dado à palavra valor, neste contexto, refere-se também ao consumo de produtos, bens e serviços de luxo. Roberto Melo (apud Kofes, 1996, p.242), por sua vez, argumenta que:
A decisão de fazer Raça Brasil contrariou [...] e derrubou três
dogmas que existiam no mundo das comunicações: O primeiro
dogma era que negro não tem poder aquisitivo para comprar
produtos supérfluos. O segundo dogma era que negros em
capas de revista não vendem revista. O terceiro dogma era que
os negros têm vergonha de serem negros.
O discurso do senso comum diz que os negros brasileiros têm vergonha de ser negros. Essa informação, somada à ideia de que ser negro é sinônimo de pobreza, levou o mercado editorial brasileiro a acreditar que qualquer revista com negros na capa estaria fadada ao fracasso. O desafio de pensar uma revista específica para a população negra foi posto a Roberto Melo justamente nesse contexto. Coube a ele buscar informações sobre o perfil socioeconômico do negro brasileiro, de modo que isso pudesse balizar a decisão sobre o lançamento do periódico. Interessava, especificamente, "saber quantos negros teriam poder aquisitivo para comprar uma revista" (ibidem).
Mas, segundo o próprio jornalista, o levantamento sobre o perfil da população negra já havia sido feito pelo Instituto Datafolha, cujas informações foram publicadas em "Racismo Cordial", pela Editora Ática. As conclusões do Datafolha diziam que a população negra no Brasil superava os 50% do total de brasileiros. Essa informação, de imediato, chamou atenção da editora Símbolo, pois a demonstração de que o país é composto, em sua maioria, por pessoas negras, somada à informação de que, desse montante, havia cinco milhões e quatrocentos mil negros com renda mensal superior a vinte salários mínimos foram os fatores fundamentais para a editora Símbolo lançar a revista. Segundo Melo, aqueles dados definiam o perfil de seu leitor e derrubavam o dogma que relacionava o negro à pobreza.
O segundo dogma saber se o negro na capa venderia ou não só poderia ser respondido após a publicação da revista. Esse ponto revela preocupações ligadas não apenas ao processo de aceitação/rejeição do negro em relação a si mesmo, mas traz à tona as preocupações da editora Símbolo em relação ao posicionamento político da população negra, ou seja, ainda havia dúvidas relacionadas ao posicionamento do negro frente a sua negrice e a sua negritude.
Depois do lançamento da revista, percebi que era totalmente
diferente. Provavelmente tinha um pequeno grupo com orgulho
de ser negro. Ou por ter sido bem sucedido, ou por consciência
política, ou por qualquer outro motivo. E tinha um pequeno
grupo com vergonha de ser negro. E no meio existe uma
imensa maioria de negros que ora tem vergonha, ora tem
orgulho, conforme a situação do dia a dia (Melo apud Kofes,
1996, p.246).
Segundo Melo, Raça Brasil foi o estopim para a valorização e resgate da autoestima daqueles que tinham dúvidas quanto a sua identidade negra. A não utilização do termo moreno ou mulato para retratar seu "consumidor", preferindo-se utilizar o termo negro para definir o leitor da revista fez parte desta estratégia de resgate da negritude e identidade negra. Portanto, o dogma da falta de consciência do negro foi quebrado com a venda, em poucos dias, de quase 300 mil exemplares da revista.
O terceiro problema referente ao não consumo de produtos supérfluos também foi elucidado com o lançamento da revista. Pois, segundo Roberto Melo, Raça Brasil conseguiu atender a uma demanda das mulheres negras, que clamavam pelo consumo de produtos de beleza específicos para seu tipo de pele.
Façam uma revista para nós, façam xampus para nós, nós
temos problemas no nosso dia a dia, nós acordamos com estes
problemas e queremos resolvê-los, deem informações para
nós, nos mostrem bem sucedidos, nos mostrem bonitos, nos
mostrem bem vestidos, façam conosco o que todas as revistas
do mundo fazem com seus leitores, ou seja, façam uma revista
para nós. Eles [leitores negros] estavam pedindo isto, esta foi a
resposta a um produto supérfluo. A relação que houve com a
revista foi uma relação emocional, ideológica, afetiva (ibidem,
p.247-8).
Tanto para Roberto Melo quanto para Aroldo Macedo, o negro brasileiro já vinha conquistando vários espaços sociais, mas num movimento silencioso. Segundo os jornalistas, o que faltava para que esse momento fosse evidenciado e viesse à consciência seria a elevação da autoestima "o que, basicamente, é preciso para o negro no Brasil, seria a autoestima ser elevada ao ponto em que ele tivesse o entendimento" (Macedo apud Kofes, 1996, p.251, grifo nosso) de que no Brasil os negros também estão em movimento.
À primeira vista, essa argumentação revela um discurso paradoxal em relação à condição sociopolítico-cultural enfrentada pela população negra no Brasil, pois sugere que a mobilidade social ascendente da população negra aos postos de liderança tem sido acompanhada por uma falta de consciência desses indivíduos. Mas, contextualizando essa discussão, perceberemos que o termo entendimento, utilizado por Macedo foi empregado no sentido de revelar uma consciência não apenas no plano individual, mas uma consciência que deveria se realizar fundamentalmente no plano coletivo.
Então, partindo desse princípio, a gente fez uma revista que
também não é um segmento dentro do segmento. Ela é um
grande ônibus, é um trem, ela atende a família inteira, porque
normalmente as revistas ou são para adolescentes, ou são para
mulheres, para secretárias, ou para isto ou para aquilo. Esta
revista não, ela está sendo lida por meninas de quinze anos,
por mulheres de sessenta ou homens de setenta (ibidem).
Muitas críticas podem ser feitas quando se fala de ascensão social de parte da população negra no Brasil, pode-se argumentar que se trata de uma parcela muito pequena desse segmento populacional, mas, concordando com Mariza Correa, certamente trata-se de "uma parte importante, uma parte que é relevante em termos de liderança política" (Correa apud Kofes, p.258).
Ressalvadas as observações acerca do peso político que uma publicação como Raça Brasil tem para o público afro-brasileiro, Mariza Correa critica o fato de a revista ser um produto notadamente voltado para um público feminino jovem, tendo em vista a grande quantidade de matérias e anúncios de produtos de beleza para mulheres. A respeito da valorização da imagem do negro em Raça Brasil, a manifestação de Correa (1996, p.260) pondera que: "tem um certo narcisismo na revista [...]. Uma das mensagens que a revista transmite o tempo todo é que o negro é bonito, nós somos bonitos, nós somos fortes, nós somos viris, etc. Nós somos ricos, está implícito".
Sobre esse ponto, Roberto Melo (apud Kofes 1996, p.276-7), argumenta que:
Nós falamos para uma família inteira, nós falamos ao jovem,
homens, mulheres e velhos. Mas, por causa de questões
estatísticas nós dirigimos sim [...] a revista para os mais jovens
e para as mulheres. Porque as mulheres lêem mais revistas de
comportamento do que os homens, mulheres leem mais
revistas, e entre os negros a gente supôs que aconteceria a
mesma coisa [...]. E por que jovens? Porque nós supomos, nós
instalamos a seguinte hipótese: a gente imaginou que os
homens negros, os negros mais velhos já teriam de alguma
forma resolvido, ou não resolvido, mas, enfim, cristalizado de
alguma forma, a postura pessoal em relação a esta questão. Já
tinham conquistado, ou deixado de conquistar, alguma posição.
De certa forma seriam mais acomodados [...]. Os jovens,
portanto, tem mais chances, teriam mais horizontes pela frente
e teriam mais possibilidades, mais esperança, poderiam mudar
a profissão.
Segundo a argumentação do jornalista, o fato de a revista possuir uma quantidade maior de matérias voltadas para as mulheres jovens está ligado ao projeto editorial de Raça Brasil, que, segundo Melo, "é uma revista de comportamento", por isso é difícil colocar nela questões mais ligadas às revistas de informação, que chamam mais atenção tanto dos homens quanto das mulheres adultas. Mas, por outro lado, em virtude de sua política editorial, Raça Brasil destina sua produção ao público feminino jovem porque, conforme diz Maurício Pestana (2009, s. n.), ela "surgiu nesse nicho de moda, ela ainda continua hoje [...], mas Raça [Brasil] é essencialmente moda, ela sempre vai ser uma revista de moda e sobre moda", e, tendo isso em vista, é preciso dizer que "a insistência em associar a feminilidade à beleza não é nova", diz Denise Sant'Anna (1995, p.121) em texto sobre o embelezamento e a história do corpo no Brasil. Segundo esta autora, "a ideia de que beleza está para o feminino assim como a força está para o masculino, atravessa os séculos e as culturas".
Nas revistas do início do século XX, por exemplo, a beleza estava intimamente ligada àquela mulher dona de casa, boa mãe, devota, temente a Deus e obediente ao marido. É justamente por isso que útero e a beleza se confundem. Ao passo que a feiura era diagnosticada pelos médicos como uma moléstia associada aos hábitos de vida de mulheres postas em condição de marginalidade pela sociedade na qual estavam inseridas. Enfim, a feiura daqueles tempos era associada à degenerescência da raça.
Ianni (apud Kofes, 1996, p.262), em seu depoimento sobre Raça Brasil diz que:
A revista tem a ver com o problema da construção da
identidade negra no Brasil. E ela assume um posicionamento já
bastante aberto com relação a este problema. Quer dizer, ela
tem entonação não só atual, mas tem uma entonação, todo o
tempo, otimista, aberta para algo que parece bastante bom.
Seja no nível mais particular do que seria a produção da beleza
da mulher ou do homem, como no que se refere aos problemas
[...]. Lendo uma matéria do primeiro número sobre candomblé
na Bahia, dá para ver que o tom é de otimismo, de entusiasmo
e de certa alegria com o fato de que o Brasil dos Orixás
orientados por milhares de pais e mães de santos baianos
famosos e anônimos, exportam o candomblé para o resto do
país [...]. Então, esta entonação é um elemento muito forte na
revista e que combinado com as cores, com as figuras que são
de jovens bonitos, bem arrumados, transmitem uma imagem
bastante positiva, bastante otimista. É claro que diz algo a
respeito da construção ou da reconstrução da identidade do
negro na sociedade brasileira.
Octavio Ianni (ibidem, p.264-5) também deixa transparecer que o simples fato de Raça Brasil afirmar e mostrar publicamente, não apenas a existência de uma beleza negra, mas também o fato de Raça Brasil "desenhar uma realidade plural, diversificada, com diferentes perspectivas e possibilidades, inegavelmente Raça [Brasil] se insere no movimento negro". Ou seja, Ianni confere à Raça Brasil o estatuto de um instrumento político a serviço do Brasil e dos brasileiros. "É uma revista que se insere no movimento negro, de certo modo resgata, desenvolve e valoriza primeiro o 'Black is beautiful'. E sai de baixo, porque é pra valer! É tudo muito bonito, muito bonito. É bom que seja assim", continua o debatedor.
Por outro lado, Ianni questiona se o fato de a revista proclamar tanta beleza não seria algo perigoso, visto que, no Brasil, grande parte da população negra vive em condição de pobreza. Ademais, esse mesmo debatedor interroga se o fato de a revista afirmar todo o tempo que tudo é tão bonito também não seria algo arriscado em um mundo no qual as distorções raciais ainda são uma realidade.
Mas, retoma Ianni (apud Kofes, 1996, p.267), Raça Brasil "se insere nitidamente no movimento negro, ela opta por uma diretriz, por uma política [...], ela dá impressão que está despolitizando a questão racial, mas Raça [Brasil] é uma proposta política para o encaminhamento do movimento negro no Brasil". Nesse sentido, precisamos atentar para o fato de que Raça Brasil, mesmo sendo uma revista que trilha pelo mesmo caminho aberto pela antiga imprensa negra brasileira, seu projeto editorial incorpora valores, tendências, estilos de vida e técnicas corporais e de consumo atuais. Ou seja, ela é uma revista que nasceu à sombra de um contexto social específico. Sendo assim, qualquer estudo que se faça sobre a revista deve levar em conta essas especificidades.
Corpo, cabelo e consumo: a identidade negra em
Raça Brasil
Além do fato de estar contribuindo para a formação de uma identidade negra, Raça Brasil parece ainda brincar com o termo raça, que também pode ser utilizado para definir alguém com força de vontade, com garra. Deste modo, o termo raça no título da revista denota dois sentidos diferentes: um ligado ao público alvo, ou seja, a população negra brasileira; e outro também ligado à questão racial, mas contendo a mensagem de que as transformações na condição de vida do negro passam, invariavelmente, pelo esforço e força de vontade individual. Ou seja, a revista joga com outro sentido da palavra, que é raça no sentido de garra. Raça Brasil oferece uma identidade racial cuja premissa é o desenvolvimento individual.
Essa revista trouxe uma contribuição crucial para o
desenvolvimento negro, para o jornalismo e para a imprensa
negra. Não apenas em termos mercadológicos mas também
porque colaborou de forma importante para uma mudança na
cultura de imagem, apresentando uma imagem do negro que,
de certa forma, desmitifica as imagens tradicionais que nós
víamos na mídia, do pagodeiro ou dos nossos excluídos, que
compunham as manchetes do noticiário policial (Almada, 2007,
p.52).
Os editores de Raça Brasil têm consciência de que a publicação traz fortes apelos ao consumo; para Roberto Melo, a publicação traz a mensagem de que o negro brasileiro quer compartilhar os mesmos benefícios historicamente acessados pela população branca, inclusive o consumo de bens e serviços. Segundo o jornalista, o sucesso da revista se deve a isso, ou seja, ela tira o negro da condição de pobreza e o coloca também na condição de consumidor.
Raça funde, aqui, negritude, brasilidade, internacionalismo
(black), cidadania, consumo. Raça aponta para garra, pique.
Raça Brasil inverte alguns dos atributos de "negro" e "negrice"
no Brasil: ao feio, diz, é bonito; à pobreza, diz, é rico; ao cabelo
ruim, diz cabelo bom; reforça alguns dos atributos: ginga,
balanço, sensualidade. A revista recria um lugar identitário: no
número dois, diz o editorial: "Raça Brasil não foi criada para
negros que lamentam sua condição. Foi concebida, isso sim,
para os negros que têm orgulho e consciência de saber que
pertencemos a uma raça que nunca perdeu sua dignidade".
Raça é negro com raça. Com a revista Raça Brasil, diz o
editorial número dois, o "Brasil limpou o espelho para ver o
próprio rosto. E descobriu que era negro. E que era lindo". Raça
é o Brasil Negro. De imediato, portanto, a revista mostra o
potencial semântico, e político, da noção de raça. Seja lá qual
for o referente, raça permite, para o bem e para o mal, uma
chamada identitária. Raça Brasil lida com isto: atribui
qualidades à raça e põe em alta circulação uma redefinição dos
valores atribuídos aos negros no Brasil (Kofes, 1996b, p.299).
Partindo deste ponto de vista, Sueli Kofes (idem, p.300) afirma que "Raça Brasil não 'branqueia' os negros. Em primeiro nível, reclama os valores capitalistas modernos: os bens de consumo são de acesso universal, isto é, acessíveis ao indivíduo, neutros no que se refere à raça, credo, cor". Raça Brasil usa e abusa dos sentidos que podemos dar à negritude, ela atribui características estéticas aos negros brasileiros, valoriza as suas particularidades culturais e psicológicas, mas, "é na ênfase sobre os cabelos que Raça Brasil nos convida a pensar" (ibidem).
Sob o ponto de vista de Adriana Piscitelli (1996, p.303), podemos dizer que um olhar rápido sobre a publicação é suficiente para perceber que:
Raça Brasil outorga um espaço importante às mulheres. De
fato, as diversas partes da revista parecem expressar
concretamente o objetivo presente na carta de intenções com
que ela é inaugurada: oferecer um espaço de construção do
"orgulho da negritude, um reforço à autoestima, através do
sucesso, da alegria e do consumo para os milhares de negros e
negras" que nascem todos os dias no país.
Ainda conforme Piscitelli (ibidem, p.304):
Em Raça Brasil, ser "negro" é o resultado de uma série de
fatores interligados entre os quais se destaca a "herança"
cultural e biológica. Na tentativa de estimular a construção do
orgulho da negritude, a Revista racializa através da associação
entre os aspectos fisionômicos (genéticos) que derivam da
"origem" (africana) tons de pele, tipo de cabelo e uma série de
atributos tais como fortaleza, energia, alegria e, sobretudo,
beleza e sensualidade. As diferenças inscritas no corpo,
particularmente a cor, são, portanto, elementos cruciais em
Raça Brasil. Mas a Revista parte delas para esboçar um
horizonte de igualdade entre "negros" e "brancos" e entre
homens e mulheres.
Ao mostrar corpos negros em páginas da mídia impressa brasileira, Raça Brasil não está apenas dando a possibilidade de mulheres negras verem corpos semelhantes aos seus expostos em páginas de uma revista, ela está respondendo aos antigos senhores de engenho e aos teóricos do século XIX que o negro tem uma identidade e corporeidade próprias, uma negritude que revela, inclusive, o lugar de origem dessas vozes.
O público pretendido pela revista são homens e mulheres entre 20 e 49 anos, mas quem lê efetivamente Raça Brasil são as mulheres (70% dos leitores são do sexo feminino) pertencentes às classes A, B, e C, que trabalham e cursaram ensino superior.
São leitores supervaidosos, que se autoafirmam por meio da
aparência e são consumidores ávidos de produtos de moda e
beleza. Querem mais informação sobre esses assuntos, além
de produtos específicos para o seu cabelo e pele. Buscam
identificação com a revista para se sentirem valorizados e,
assim, elevar e conservar a autoestima. São leitores urbanos
que buscam informações relacionadas à comunidade.3
De acordo com Nilma Lino Gomes, o corpo é um território passível de codificações particulares quando inscrito em determinados grupos. Ao estudá-lo, porém, não se podem generalizar as diferentes formas de expressão corporal para todas as culturas e grupos. Cada grupo domina códigos e maneiras diferentes para manipular sua identidade corporal. Os negros não são diferentes. Assim, a forma como tratam o cabelo é uma questão fundamental para o entendimento desses códigos culturais. "Porque o cabelo não é um elemento neutro no conjunto corporal. Ele foi transformado, pela cultura, em uma marca de pertencimento étnico/racial. No caso do negro, o cabelo crespo é visto como um sinal diacrítico que imprime a marca da negritude no corpo" (Gomes, 2006, 26).
Por isso, segundo a autora, diante das inúmeras possibilidades de análises oferecidas pelo corpo, "o trato do cabelo é a que mais se apresenta como síntese do complexo e fragmentado processo de construção da identidade negra". Tanto para o homem quanto para a mulher negros, "o cabelo crespo carrega significados culturais, políticos e sociais importantes e específicos que os classificam e os localizam dentro de um grupo étnico/racial" (ibidem).
Portanto, não podemos perder de vista que o cabelo crespo e o corpo negro estão inscritos em um campo muito mais profundo, a saber, a construção da estética corporal negra, que apresenta uma dimensão simbólica que trafega por vários contextos, na medida em que se apresentam como o primeiro motivo da estética, o primeiro espaço de discussão da beleza.
Tendo em vista essa discussão, é oportuno dizer que as experiências dos indivíduos que manipulam quimicamente ou não o cabelo, por exemplo, não podem ser analisadas apenas como pura imitação de comportamentos alheios. Quando se trata da identidade e do cabelo negro, isso implica questões mais profundas das relações de dominação e poder, pressupõe complexas negociações culturais. Pois a relação dos homens e mulheres negros com o cabelo faz parte de um processo consciente e inconsciente que valoriza a negritude brasileira levando-se em conta, ainda, suas raízes africanas. Por outro lado, há as cabeleireiras étnicas que associam a beleza negra à naturalidade dos cabelos crespos. Nesse caso, assumir a textura crespa do cabelo é entendido como valorização do negro perante a sociedade brasileira.
Por isso, não podemos interpretar o comportamento de um indivíduo negro mediado apenas pela interferência que ele realizou em seu cabelo. Antes de qualquer coisa, é preciso compreender, não apenas o contexto sociocultural em que o sujeito está inserido, mas também sua história de vida e seu posicionamento político em torno das questões étnico-raciais; ou seja, é preciso compreender as negociações desse sujeito em torno de seu pertencimento étnico.
Assim, a manipulação do cabelo pelo negro na atualidade pode gerar duas interpretações distintas: a primeira interpretação sugere que essa manipulação pode ser vista como resultado da introjeção da opressão branca no negro, mediante, inclusive, a imposição de um determinado padrão estético; a segunda interpretação poderia classificar esse comportamento como um modo do negro usar o cabelo, ou seja, poderíamos considerar essa manipulação como um estilo de vida próprio das identidades negras e seu padrão estético, que se constituiu dentro de um sistema opressor.
Além disso, diversas maneiras de lidar com o corpo e com o cabelo expressam particularidades específicas do negro, sua subjetividade e cultura em determinados contextos sociais, históricos e políticos. É esse contexto, juntamente com a experiência individual, que vai compor o complexo terreno da identidade negra nos contextos em que as relações de poder estão estruturadas em pilares nos quais a ideia de raça é um elemento central.
A reportagem "Revolução na prateleira" (Raça Brasil, edição 90, setembro/2005), por exemplo, demonstra como as grandes empresas na área de beleza descobriram um mercado consumidor de produtos étnicos, que hoje não para de avançar. Quando a revista foi lançada, praticamente não havia produtos para a pele ou cabelo negros. Hoje, as gôndolas estão abarrotadas. "Toda a equipe de Raça vibra de emoção com isso e se envaidece de ter sido o espelho no qual vemos nossa imagem com orgulho", diz o editorial.
Em virtude disso, é preciso dizer que Maria Celeste Mira (2001) defende que dependendo dos usos que se faça dos produtos culturais, pode-se ter contribuições efetivamente válidas para a construção das identidades. A autora parte do pressuposto de que dentro do próprio caráter fragmentado dos produtos da indústria cultural, que alude ao consumo apenas como reprodução, pode haver a compreensão de que o consumo fragmentado também pode ser visto como produto e produtor de sentido às identidades.
Sob essa perspectiva, podemos dizer que, por mais que o consumo seja organizado e orientado pelos dispositivos da indústria cultural, o uso de que se faz de seus produtos é, sempre, algo personalizado. Mesmo que tenhamos de escolher dentre os estilos, técnicas e convenções disponíveis, o uso de perpetramos de determinados objetos constitui elemento essencial da nossa personalidade.
O ato de decorar o corpo, por exemplo, se faz elucidativo para essa argumentação, posto que essa ação, entendida aqui como um momento simbólico de manipulação da identidade, revela as vontades e a criatividade humana por meio da interpretação individual que os indivíduos fazem diante de determinado contexto sociocultural. Os indivíduos, antes de expor seus corpos ao crivo dos olhares externos, promovem, eles mesmos, o próprio julgamento daquilo que veem (Bueno, Castro, 2005).
No caso específico das revistas femininas, o papel da "garota da capa e da estrela de tevê é ensinar às leitoras essa 'tecnologia da imagem' [...]. Além do ato de cuidar de si, de ver e transformar a própria imagem, a mulher retira prazer do consumo de imagens, ou seja, do ato de ver as outras mulheres, da observação atenciosa que faz das modelos das revistas" (Mira, 2001, p.138).
Assim, a ideia de que Raça Brasil seria um espelho que refletiria a imagem do negro brasileiro é veiculada na revista desde a sua gênese. Trata-se de um discurso inerente ao processo de identificação cujo objetivo é fazer com que o leitor se reconheça na materialidade da revista. Nesse sentido, a proposta da revista era de ser um espelho onde seriam mostrados os feitos dos negros brasileiros. Por isso, a construção discursiva de Raça Brasil projeta o leitor ao lugar da beleza, do sucesso, do orgulho de si, ou seja, a lugares de significação que se constituem como condição de sua autoestima. E, por outro lado, a revista se coloca na posição de quem possui 'o saber' necessário para 'suprir' as necessidades dos negros brasileiros.
É preciso lembrar ainda que o tipo de cabelo é fator fundamental na orientação da escolha por parceiros, pois, "nesse caso, o cabelo simboliza a possibilidade do embranquecimento" (Gomes, 2006, p.140-1). Ou seja, estamos falando do processo de rejeição/aceitação que opera na esfera da afetividade e que toca questões relacionadas, inclusive, a aparência dos filhos que se deseja ter. Diante disso, percebe-se nitidamente que o processo de rejeição/aceitação projetado para o futuro representa a possibilidade, ou não, de "clareamento da raça". No limite, a autora quer nos apontar que "esse movimento revela que tanto a aceitação do ser negro quanto a sua rejeição não se dão apenas na esfera da racionalidade. [...] A expressão desse conflito passa, necessariamente, pelo corpo" (ibidem). Esse processo, construído social e historicamente, permeia toda a vida dos sujeitos.
O desenvolvimento desse processo está em consonância com as diferenciações sociais e com o racismo. A primeira opera em termos situacionais e relacionais, enquanto a segunda opera em termos de uma racionalização ideológica que constrói e advoga a existência de distâncias biológicas. A luta contra esses distanciamentos sociais e contra o racismo opera de maneira diferenciada pelos diversos sujeitos políticos envolvidos no processo. Para uns essa luta se realiza por meio da não modificação dos sinais presentes no corpo negro, pois a presença desses sinais remete a uma ascendência africana; por isso, segundo os adeptos desse projeto identitário, a negrice e a negritude passam pelos processos de manipulação do cabelo. Nesse contexto, os negros autênticos seriam aqueles indivíduos que valorizam seu cabelo em sua textura natural.
Gomes (2006) acredita que esse posicionamento também precisa ser valorizado em função de sua importância na luta contra a questão racial, mas, por outro lado, esse tipo de posição acaba envolvendo uma áurea ideológica radical em torno da construção da negritude. Sendo assim, alerta a autora, ao considerarmos o conflituoso processo identitário que envolve os corpos negros, precisamos agir com desabrida cautela, pois a manipulação do corpo e dos cabelos não significa, necessariamente, que o indivíduo negro negue seu pertencimento identitário. Pois a manipulação do corpo e do cabelo pode significar atos conscientes e inconscientes em direção ao reconhecimento da identidade negra.
Alterar e/ou cuidar do cabelo crespo, um dado objetivo do
corpo, transformado pela cultura, faz parte desse processo, o
qual é cheio de tensões e ambiguidades e por isso comporta
vários sentidos que vão desde a busca de penteados que
camuflam o pertencimento étnico/racial até aqueles que o
destacam ainda mais (Gomes, 2006, p.144).
Sendo assim, a manipulação do corpo e do cabelo por meio de cirurgias, tinturas, penteados, cremes etc., são vistos como partes constitutivas do processo de reconhecimento social, que, segundo Gomes, interpretando Todorov, comporta duas etapas distintas: a primeira seria o reconhecimento propriamente dito, enquanto a segunda etapa seria a confirmação dessa existência. A confirmação social da existência de alguém só acontece se o reconhecimento for realmente efetivado. Por isso, segundo o ponto de vista de Gomes (ibidem, p.145), "mais do que um sentimento de negação/afirmação do 'ser negro', a maneira como esses sujeitos lidam com o cabelo, a cor da pele e o corpo revela, na realidade, a construção de um sentimento de rejeição/aceitação".
O processo de rejeição/aceitação é sutilmente diferente da
negação do 'ser negro', pois negar-se a si mesmo e ser
totalmente ignorado pelo outro representa um processo mais
complexo. Já que o reconhecimento do nosso ser e a
confirmação de nosso valor podem ser considerados o oxigênio
da nossa existência, viver um processo de negação provoca um
resultado muito mais danoso à nossa subjetividade e à nossa
identidade (ibidem, p.147, grifos da autora)
Desse modo, Nilma Lino Gomes (idem, p.148) considera que "o movimento de rejeição/aceitação do cabelo crespo e do corpo negro diz alguma coisa sobre a existência desse sujeito". Portanto, é preciso acrescentar que esse movimento é, ao mesmo tempo, uma experiência dolorosa e libertadora que se realizada consciente e inconsciente, que pode servir de impulso na reversão das representações negativas construídas sobre o negro.
Ademais, o processo de rejeição/aceitação do negro é uma questão que passa, necessariamente, pelo escravismo brasileiro, período no qual o negro foi impedido de sua corporeidade, tendo em vista que havia se tornado uma coisa, um objeto. Entretanto, o escravizado ainda se reconhecia como humano, fator que gerava tensões terríveis; pois, de um lado havia a sociedade afirmando a inferioridade e o caráter não humano do "ser negro", mas, de outro, havia também a luta do próprio negro pela afirmação de sua humanidade e sua reivindicação como um ser pensante.
Essa mentalidade permeia nossas vidas ainda nos dias atuais, pois, "embora atualmente se negue o discurso de baixa intelectualidade dos negros, as pessoas ainda se admiram quando veem um homem ou uma mulher negra se destacar entre a intelectualidade brasileira" (Gomes, 2006, p.155). Embora não vivamos mais sob a égide do regime escravista, nem da empresa colonial, as imagens e representações negativas sobre o negro acabam se constituindo na ideologia da "cor e do corpo perfeitos". Temos uma imagem do negro e da negra construída à priori na medida em que essa imagem foi ligada ao estigma da doença e da sujeira. Se nos tempos da escravidão essa sujeira estava ligada ao regime de trabalho escravo, nos dias atuais essa situação ainda se encontra atada às questões do mundo do trabalho, pois a falta de integração dos negros na sociedade resultou em uma ampla camada de pessoas negras vivendo do subemprego, em condições indignas e expostas ao desemprego, aos bicos, e aos empregos mal remunerados, atividades que comumente exigem o esforço físico.
Combatendo a feiura: beleza negra em revista
Estudando a revista Época, Leandro Santos (2010) constata, que nas páginas deste periódicoasrepresentações simbólicas sobre as mulheres negras também tendem a associar o feminino negro ao signo da miséria, da pobreza e da violência. O autor verifica que a corporeidade é manipulada de forma a atender, não apenas interesses sociais e comerciais, mas serve igualmente para mascarar as relações raciais e para esconder relações de poder e dominação de um segmento populacional sobre o outro.
Esse mesmo autor (Santos, 2009) demonstrou que estudos recentes comprovam que a iconografia do corpo feminino negro ainda está diretamente atrelada às estruturas e papéis sociais determinados por um passado que marca a população negra com o estigma da ignorância e da selvageria. Interpretando Patrícia Farias (2003), o autor verificou que na publicidade das revistas da década de 1970, a imagem do negro em textos publicitários naquele período é quase inexistente, e, quando apareciam eram frequentemente estereotipados pelo signo da pobreza e da inferioridade. No que se refere especificamente à mulher negra, percebeu-se que havia, de um lado, a intenção de a publicidade conectá-la ao espaço doméstico, em uma tentativa incessante de mantê-la associada ao passado escravista, mas, por outro lado, alguns anúncios relacionavam o corpo negro ao corpo sensual e exótico. Já os textos publicitários da década de 1990 mostravam as mulheres negras vinculadas ao turismo sexual. Em revistas como Veja e Marie Claire, por exemplo, essas mulheres apareciam com formas "sinuosas" e "bundas arrebitadas".
Se considerarmos a produção da indústria cultural dos anos 1940, verificaremos que já era possível encontrar imagens de mulheres glamorosas, cheias de espuma em banheiras perfumadas, no interior das revistas. Contudo, aquelas imagens mantinham-nas tímidas em relação ao prazer de as modelos estarem consigo mesmas. Segundo Denise Sant'Anna (1995, p.133):
São imagens que mal deixavam ver o corpo feminino e,
raramente, mostravam os cabelos e o rosto da mulher
molhados. Nelas, a modelo aparecia, em geral, de olhos
abertos, buscando o leitor, mãos apresentando o produto
anunciado, rosto mantido, muitas vezes, visivelmente
maquiado, corpo vestido pela densa espuma branca.
O olhar fixo no leitor tem o objetivo de conquistá-lo, de conseguir a sua aprovação e de seduzi-lo ao consumo. As expressões publicitárias desse período, por sua vez, revelam fórmulas breves que estimulam o gozo e o prazer em detrimento dos sacrifícios em busca da beleza. O corpo feminino libera-se de algumas amarras e o cuidar de si adquire outro status: gera prazer e sedução.
A maquiagem, neste sentido, "deixa de ser considerada um verniz ou uma máscara para favorecer a naturalidade e a expressão ao mesmo tempo juvenil e sexy em voga". A cosmetologia, que passou, cada vez mais, a ter importância e independência cria diversas maquiagens que, "ao invés de simplesmente dissimular os pontos 'feios', quer preveni-los e corrigi-los. O receio moral de parecer uma mulher libertina ao se embelezar, cede terreno ao receio de não ter acesso aos produtos de beleza e de não saber exatamente como escolhê-lo e utilizá-los" (Sant'Anna, 1995, p.135).
Nesse contexto, os conselhos de beleza insistem que é preciso a mulher se conhecer, tocar e explorar o próprio corpo para torná-lo mais autêntico e natural.
O corpo parece se transformar no único guia e na principal
finalidade do processo embelezador. Embelezar-se é
necessário não somente para garantir um bom casamento, mas
para cultivar 'o prazer de se curtir'. Diante da imagem das novas
modelos de beleza desta época, descontraídas, magras e
flexíveis, as modelos do passado ganham uma fisionomia
rígida, pesada e artificial (ibidem, p.136).
Embelezar-se passa a significar também um momento de contato mais íntimo com o próprio corpo, pois é preciso saber escutá-lo, ouvir o que ele tem a dizer. Ou seja, ser bela significa estar bem consigo mesma e saber responder a seus anseios mais íntimos e inconscientes. Nos dias de hoje, pois, ser bonita significa estar de bem consigo mesma. E todos os métodos de embelezamento vão ressaltar essa característica. A beleza passa a significar um estado de espírito, uma sensação de bem estar consigo mesma, é uma beleza que produz satisfação e prazer da mulher consigo mesma. Nas revistas, por exemplo,
os cabelos podem ser vistos molhados e 'ao natural', na medida
em que estejam bem nutridos e bem lavados; a mulher aparece
de minissaia e de biquíni [...] na medida em que seu corpo está
devidamente bronzeado, depilado e vestido com cremes [...]. A
maquiagem mais perfeita de toda a mulher se torna a sua
própria pele, diariamente submetida aos tratamentos
embelezadores (ibidem, p.137).
Nos tempos de hoje, o que se quer não é mais combater a feiura, salienta Sant'Anna (1995, p.137), "o que se exige é a obtenção de um estoque de beleza suplementar". Nesse sentido, se o embelezamento significa mais do que um simples combate à feiura, ele engendra a promessa de a mulher se encontrar com ela mesma, "resistir à compra dos cosméticos ou, ainda, às aulas de ginástica, aos regimes, às cirurgias, etc., significa, sobretudo, resistir a proporcionar para si mesma um prazer suplementar. E, muitas vezes, tal renúncia representa uma experiência intolerável".
Mas, cabe ainda dizer que, ao consumir determinados bens, os consumidores não o fazem apenas sob a perspectiva do mercado, pois veem esses bens enquanto produtos culturais, com alto valor simbólico, cuja reflexão é exigida daquele que os consome. No caso específico de Raça Brasil, a valorização do ser negro se produz por meio do fortalecimento da negrice e da negritude, por meio da autoconfiança, do autoconhecimento e do sentimento de pertença. Não estamos falando apenas do pertencimento a uma coletividade negra, mas da inclusão a uma coletividade humana, com atenção especial ao mundo do trabalho e do consumo por meio da valorização da estética negra.
O que estamos querendo dizer é que o papel de Raça Brasil era justamente o de desconstruir os estereótipos que pesam sobre a mulher negra em Terra Brasilis. Na perspectiva de suas leitoras, essa era a questão primordial da revista. Contudo, o direcionamento que os produtores de Raça Brasil deram ao periódico foi outro. Faltou tanto a Roberto Melo quanto a Aroldo Macedo a perspicácia necessária para interpretar o que estavam dizendo os números do Datafolha. Pois aquela pesquisa tinha uma metodologia e objetivos próprios, e que divergem completamente de uma pesquisa de mercado.
Assim, o que Raça Brasil conseguiu detectar não foi uma massa de consumidores faminta pelo consumo. Na realidade, foram os consumidores negros que acreditaram que a revista conseguiria atender suas demandas. Mas quando perceberam que o direcionamento dado à revista divergia de seus anseios, abandonaram a revista ao seu próprio destino e isso provocou apreensão em seus editores, forçando-os a repensar o projeto de identidade de Raça Brasil.
Isso não significa que as mulheres negras não se identifiquem com a revista, não é isso, mas essa queda nas vendas revela que a identificação não é incondicional. Mas, de qualquer maneira, é preciso dizer que a revista é uma referência para muitas mulheres. Essa referencia parte da identificação, que não é absoluta, mas cumpre um papel. Trata-se, pois, de uma identificação fragmentária. Entretanto, apesar de as mulheres não se identificarem com os estilos de vida mostrado na revista, há outros elementos que chamam sua atenção.
A revista, ao positivar a estética negra, também sai na contramão do conjunto de imagens e leituras negativas sobre o negro. Ela também tenta recriar um padrão estético negro, em uma associação entre a modernidade, a tecnologia e os padrões africanos. Assim, da mesma maneira como afiançamos que o tratamento que a revista dá ao corpo negro e ao cabelo crespo é um ato político, acreditamos também que o consumo da revista por homens e mulheres negros de todo o país também possa se encaixar nessa interpretação.
Assim, o que diferencia Raça Brasil das outras revistas são as múltiplas possibilidades de encontrar informações, de adentrar em discussões, ter o contato com imagens e pessoas que visualizem com positividade a beleza, a cultura e a identidade negra. Pois é por meio deles que a proposta de discussão da estética negra é posta nos debates sobre a beleza negra. Deste modo, a intervenção no corpo e no cabelo impulsiona a inúmeras interpretações: pode representar o desejo de uma mudança na aparência física, pela expectativa de a pessoa se sentir bem ou mais bela; pode estar vinculada à crença de que a mudança no cabelo no corpo pode ser usada como um passaporte para maior aceitação dentro de determinado grupo; mas pode representar, ao mesmo tempo, uma maneira de afirmação da identidade negra pela transformação criativa e autônoma da própria imagem.
Jornalismo de revista e a política editorial de
Raça Brasil
Além da valorização da beleza negra por intermédio do trato com o cabelo, Raça Brasil também publica dicas de maquiagem e de moda, entrevistas com personalidades negras, biografias de homens e mulheres negros que tiveram ascensão social, discussões sobre temas polêmicos de interesse étnico, notícias sobre comunidades quilombolas etc.
O jornalismo de Raça Brasil está preocupado em revelar o corpo negro por meio da fotografia. Percebe-se com muita facilidade nas páginas dessa revista que o Brasil está repleto de pessoas negras "vencedoras" e "felizes", apesar das dificuldades encontradas durante o dia a dia de quem vive em um país como o nosso. Mas, apesar dessa característica de Raça Brasil, a periferia dificilmente é retratada por meio da fotografia. Para a revista, a periferia existe, apresenta problemas estruturais, tem problemas relacionados à violência, possui uma população extremamente carente de recursos materiais e que sente a ausência do poder público em quantidade e em qualidade, mas essa periferia jamais é fotografada da maneira como ela realmente se apresenta aos nossos olhos. Em Raça Brasil, o que se tem é uma periferia descrita e cuidadosamente interpretada por aqueles que falam sobre ela. Há um cuidado em não serem abordados temas que possam identificar a população negra ao estereótipo da pobreza e da miséria, nem menção a algo que possa levar o leitor a relacionar o negro à marginalidade, à violência e ao consumo de drogas.
A periferia também aparece nas reportagens de Raça Brasil, mas ela é apresentada como um espaço transformado e transformador de pessoas marginalizadas em cidadãos cientes e conscientes de seu papel na sociedade. Foi esta discussão que nos fez perceber que, em Raça Brasil, o negro e a negra estão sempre bem vestidos, sempre bem penteados e sempre bem maquiados, por mais que se fale em problemas de periferia, de quilombo ou de favela. O homem e a mulher negros da periferia podem obter ascensão social, dignidade, fama e dinheiro sem que precisem adentrar no mundo do crime. As fotografias publicadas na revista portam a especificidade de tentar eliminar o estigma da violência, o estereótipo da miséria e da pobreza que se criou em torno dos negros da periferia.
Pelos indicativos, Raça Brasil abre espaço ao negro, valorizando sua história, cultura e sua descendência africana. A pretensão da revista é ser "uma revista para a família negra brasileira, com conteúdos interessantes e úteis para todos no seu dia a dia" (Editorial de Raça Brasil, Edição 90, setembro/2005). Por outro lado, é preciso dizer que, em determinados contextos, o corpo também é manipulado de forma a atender aos interesses político-econômicos de determinados grupos. Tal manipulação, na medida em que é fixada no imaginário coletivo, passa a ser traduzida como natural e inerente à condição humana, funcionando como instrumento de conhecimento e reconhecimento social. Raça Brasil, nesse sentido, não escapa a essa lógica. Numa reportagem publicada na edição número 102, de setembro de 2006, intitulada "A sedução é negra", é possível perceber que a revista afirma que a negrura da pele é o "tempero da raça". No contexto dessa reportagem, esta oração está sendo usada para garantir que a negrice é algo importante durante o processo de procura e conquistas amorosas; e também informa que o corpo negro seria mais sensual do que o corpo branco.
Se considerarmos o desenvolvimento histórico da humanidade, vamos perceber que o corpo negro foi preconceituosamente utilizado em várias épocas para segregar sociopolítico-econômico, cultural e espacialmente homens e mulheres negros à condição de imperfeição e animalidade, justamente por terem sido identificados como seres da desordem, do mistério e do prazer, em outras palavras, o corpo negro recebeu o degredo do convívio social por ter sido considerado, em determinados períodos históricos, a morada da sensualidade e da sexualidade descontrolada, não domesticada (Fonseca, 2005, 2000, 1994).
Gislene Aparecida dos Santos argumenta que, na cultura ocidental, as pessoas de cor preta em alguns momentos da história provocaram sentimentos de fascínio, e, em outros, uma sensação de medo ou horror. Para a autora, essas imagens foram construídas antes mesmo dos discursos racialistas do século XIX ganharem força. Isso aconteceu porque durante muito tempo o imaginário europeu sobre a África e a Ásia remetia a imagens de seres assustadores, criaturas fantásticas e monstruosas. E, "Esse mundo maravilhoso também era um mundo demoníaco com um diabo quase sempre pintado de preto já que, entre os medievais, Satã é chamado de Cavaleiro Negro e de Grande Negro" (Santos, 2002, p.278). Nesse ambiente clerical, o ser negro conduzia as mentes ocidentais a criar uma imagem de lasciva e de pecado.
Segundo Cohen, conforme Santos (idem, ibid.), "os europeus enxergavam o preto como marca do mal e da depravação humana e não podiam entender que houvesse povos portadores de uma cor que era motivo de grande inquietação". Essa inquietação motivou muitos homens a tentar buscar explicações de por que os negros tinham a pele escura. Alguns argumentaram que isso se deu em função da influência do sol em suas peles. Outros disseram que os negros tinham a pele escura por causa de sua descendência de Caim, que teve a pele enegrecida por Deus após matar Abel. Houve tantos outros que afirmaram que o enegrecimento aconteceu por conta da maldição lançada aos filhos de Cam, por Noé. Além daqueles que indicavam a dieta alimentar africana como a causa para o escurecimento da cor da pele.
Guiadas pelo pensamento cristão, as concepções de negro que se tinha eram aquelas que criavam uma assimetria entre a cor branca e a cor negra. De modo que o branco esteve relacionado às qualidades de Deus e o negro remetia aos símbolos do Demônio. Juntando-se ainda o repúdio à cor negra que se manifesta também no imaginário social pela ciência e o progresso, o branco "cravou-se na consciência negra como sinônimo de pureza artística, nobreza estética, majestade moral, sabedoria científica, etc." (Costa apud Santos, 2002, p.279).
Ora, se o branco representa a razão, o belo, o bom, o justo e a humanidade, como valores desejáveis, o negro, por seu turno, em nossa maneira maniqueísta de ver as coisas, só poder representar a não razão, a loucura, a feiura, a injustiça e a animalidade. Deste modo, a imagem estigmatizada que o negro carregava em seu corpo, ao passar pelo crivo da ciência, ganhou outro status, e, na tentativa de demonstrar apenas pela "razão" a existência das coisas e/ou dos fatos, a ciência atribui à população negra a estampa de raça inferior. O que era diferente torna-se desigual, propiciando a desqualificação sociocultural e político-econômica de certos grupos étnicos.
Com isso, temos que, ao requerer para o negro a condição de possuidor de um corpo sedutor e sensual, Raça Brasil também traz consigo toda uma carga pejorativa, histórica e culturalmente produzida em torno da associação entre as duas palavras que aparecem no título de sua matéria, quais sejam: negra e sedução. Contudo, por mais contraditório que isso possa parecer, atribuir ao negro a condição de um ser atraente e sedutor não desqualifica a argumentação utilizada pela revista. Mesmo que o caminho utilizado pela jornalista Gabriela Sampaio, profissional que assina a matéria, sugira a perpetuação e (re)afirmação de alguns estigmas e estereótipos sobre o corpo negro, em especial ao feminino negro. Pois vista sob o prisma do culto ao corpo na sociedade de consumo, a reportagem adquire sua coerência mediante a utilização, ressignificada, das palavras que nomeiam e convidam o leitor a ler o texto.
Para muitos, a tentativa de resgate da identidade negra por intermédio do corpo, valorizando-se excessivamente o cuidado com o corpo, a corporeidade e o cabelo, parece revelar reflexões contraditórias em relação ao negro. De acordo com Nilma Lino Gomes (2006, p.26), "o cabelo não é um elemento neutro no conjunto corporal. Ele foi transformado, pela cultura, em uma marca de pertencimento étnico/racial. No caso do negro, o cabelo crespo é visto como um sinal diacrítico que imprime a marca da negritude no corpo". Alguns acreditam que a revista favorece uma visão e uma autoestima dos segmentos negros "embaçada" pelas lentes dos olhos brancos, como se o ideal de negro mostrado pela revista fosse pura e simplesmente o negro assimilado e embranquecido. Tantos outros não conseguem entender como uma revista, ciente de que a maioria da população negra brasileira vive em condições sociais de carência, recheia suas páginas com propaganda de produtos inacessíveis à maioria dessas pessoas.
Mas, diante do perfil de consumidor pretendido pela revista, é mais fácil compreender os por quês dos apelos ao estímulo para o consumo de produtos para a pele e cabelo negros. Os editores da revista parecem compreender que o conceito de identidade também é algo historicamente construído por meio de uma série de mediações culturais diversas. Tanto o corpo, quanto o cabelo e a cor da pele são aspectos significativos nesse processo, pois são largamente usados como critério de classificação racial. De qualquer forma, não podemos recusar as evidências de que as propagandas de produtos étnicos, bem como as diversas imagens sobre o negro em Raça Brasil revelam homens e mulheres negros fora do contexto da marginalidade, da opressão e da pobreza. Isso, de uma forma ou de outra, exerce influências positivas na construção da autoestima daqueles/as que leem Raça Brasil.
Precisamos entender também que o uso de determinados estilos de cabelo, que em outras épocas incorporava um sentido político, pode ser usado, em outros contextos, com sentidos diversos daquele uso anterior, podendo, inclusive, expressar uma maneira pessoal e individual de o sujeito se expressar diante dos outros. No limite, o que queremos dizer é que o tipo de cabelo que, em um momento, pode ter sido utilizado como forma de posicionamento político pode sugerir, em situações específicas, uma maneira de ser, um estilo de vida.
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1 Bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp); mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação da mesma Faculdade e pesquisador do Centro de Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra (Cladin) e do Laboratório de Estudos Africanos, Afro-brasileiros e da Diversidade (LEAD). Bolsista Fapesp.
2 Gerente editorial da editora Símbolo em 1996.
3 Fonte:
<http://www.simbolo.com.br/institucional/Conteudo/0/artigo5342-
1.asp.> Acesso em agosto de 2007.