Da casa à praça pública: a espetacularização das festas juninas
Espetacularização e mercantilização das festas juninas na atualidade
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A espetacularização urbana das festas juninas em Cruz das Almas a partir dos anos 1990 se processou em um contexto nacional de diversificação da modalidade turística e, em âmbito estadual, na turistificação dos lugares e na multipolarização turística. Dessa forma, ou se busca explorar eventuais potencialidades turísticas do lugar, prática geralmente ligada à valorização dos seus atributos naturais ou culturais, ou se investe nas tradições culturais do lugar, que passam a ser vistas não como um patrimônio imaterial rememorado através das suas práticas festivas, mas como um produto a ser vendido para turistas.
Neste contexto, retradicionaliza-se mercadologicamente determinadas manifestações festivas e marginaliza-se midiaticamente práticas lúdico-culturais que não representem esse forte chamariz turístico. Depreende-se nesse mesmo contexto que a inserção de festas juninas espetacularizadas no espaço urbano é uma iniciativa das municipalidades que atuam na escala local e que se constituem em um rebatimento de iniciativas adotadas em escala macro, como consequência dos novos ditames consumistas da contemporaneidade.
Contudo, apesar do arranjo estético-espacial das várias festas juninas urbanas da Bahia apresentar similaridades visíveis, como já se enfatizou, existem determinadas especificidades no rebatimento local/regional que são exploradas por determinadas iniciativas adotadas pela macrogestão do território (Governo Federal ou das unidades federadas). A partir do diálogo teoria-empiria e de um enfoque analítico lastreado por uma leitura crítica da dinâmica territorial das festas em Amargosa, Cruz das Almas e Cachoeira, procurou-se compreender as especificidades das festas juninas nessas cidades.
Podem-se apresentar dois exemplos de cidades do Recôncavo Sul nas quais as festas juninas urbanas destoam no estado da Bahia, não só pela sua dimensão espacial, como também pela relevância e suas potencialidades culturais: Cachoeira e Cruz das Almas. Na primeira, desde a década de 1960, encontram-se registros da festa junina urbana ligada à Feira do Porto no plano de turismo para o Recôncavo baiano. Dessa forma, cooptada ou não pela racionalidade mercadológica do turismo, pode-se afirmar que a festa junina em Cachoeira é uma tradição reinventada no/para o espaço urbano. A festa junina em Cruz das Almas pode ser considerada uma tradição reinventada pelos gestores públicos para atrair turistas de eventos para a cidade, que já era conhecida por causa da pirotecnia lúdica da guerra de espadas.
Já em Amargosa a festa concentrada cresceu às expensas dos investimentos em publicidade, na apresentação de artistas conhecidos nacionalmente e no esforço de se fundir a grife cidade-jardim à marca do São João espetáculo como compensação diante da inexistência de peculiaridade cultural local a ser explorada.
As festas juninas concentradas no espaço urbano de Cruz das Almas e Amargosa, se ampliaram na década de 1990 quando o grupo liderado pelo falecido líder político Antônio Carlos Magalhães retoma a hegemonia política no estado e adota uma política pesada de planejamento e divulgação das potencialidades turísticas materiais e imateriais do estado, visando a instituir um marco administrativo assentado em uma modalidade de economia do entretenimento turístico, capaz de se constituir em alavanca política e em um instrumento de desenvolvimento regional e local.
Essa política de promoção turística a partir da ação governamental centrou-se principalmente em Salvador e em algumas cidades do interior, como Porto Seguro, no Extremo Sul, e em outras cidades do Litoral Norte. Alguns gestores públicos locais viram nas festas juninas a possibilidade de inserção no circuito turístico sazonal do estado. Os responsáveis pela ampliação e espetacularização midiática desses eventos foram às municipalidades que buscaram usufruir dos dividendos de uma política de valorização da atividade turística em âmbito estadual.
O São João em Cruz das Almas foi notabilizado em âmbito nacional pela guerra de espadas. A partir do início dos anos 1990, inventa-se a tradição dos chamados “arraias urbanos”. Esta modalidade de festa junina empreendida pelas municipalidades e deflagrada em praça pública se transformou rapidamente em uma estratégia para inserção da cidade, mesmo que perifericamente, no circuito festivo sazonal.
Na referida década acirra-se a competitividade urbana porque várias cidades querem realizar o São João urbano, o que contribuiu de forma substancial para o aumento dos cachês dos músicos de grande difusão midiática. A opção pelas festas juninas como tradição inventada muitas vezes ocorre a partir da sobreposição ou reinvenção de práticas festivas tradicionais, como as festas, em louvor a padroeira ou tradicionais lavagens de bairros.
Para a turistificação das cidades, os segmentos diretamente interessados geralmente apresentam um receituário que consiste inicialmente em priorizar um determinado “produto” ou de uma determinada especificidade local; posteriormente, apresenta-se o conjunto de elementos históricos, artísticos, culturais e ambientais que representariam as eventuais potencialidades daquele lugar.
A necessidade e as possibilidades de turistificação do município de Amargosa, impulsionada pelas festas de São João, aparecem de forma enfática no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano. Os gestores públicos da referida cidade procuram associar eventuais potencialidades do turismo rural, do patrimônio material, como as edificações, e imaterial, como algumas festividades populares. Procura-se estimular uma associação entre o turismo de eventos, ecológico e rural para se viabilizar a perenização dessa atividade. Não existe, no entanto, um escalonamento sistematizado de ações e metas visando a uma eventual consolidação do processo de turistificação do município em tela.
Entretanto, a análise de documentos oficiais e as atividades de campo desenvolvidas ao longo da pesquisa, permitem ao pesquisador fazer algumas ilações sobre as etapas alcançadas e transpostas para efetivação da atividade turística.
Um primeiro passo para atrair diferentes perfis de visitantes é o investimento na diversificação da matriz programática das festas juninas nos últimos anos que mescla o chamado forró eletrônico com festa de largo, tanto no espaço público, quanto em arena privada, com o São João cultural dos folguedos folclóricos locais e a cenografia rural verificada na montagem de cidades cenográficas, que se já se constituem em um dos marcos do São João da cidade de Amargosa.
Uma segunda etapa a se considerar é o aproveitamento racional da hiper-visibilidade da cidade no clímax junino para divulgação do seu patrimônio paisagístico urbano e rural.
Um terceiro momento foi a doação de cerca de 700 hectares de mata Atlântica para ser elevada à categoria de área de preservação ambiental (APA) ou área de preservação permanente (APP) da serra do Timbó, viabilizando-se assim o ecoturismo tanto no ciclo junino quanto ao longo do ano.
A quarta etapa seria a efetivação do projeto de revitalização e readequação da Praça do Bosque, não apenas para os festejos juninos, como também para a apropriação lúdica e funcional dos moradores e visitantes. Esse projeto de requalificação urbana do Bosque, é importante destacar, tem como elemento estruturante da ação urbanística a festa junina, todavia, levando-se em consideração o marco identitário de cidade-jardim que populariza Amargosa, introduziu-se outra tipologia de vegetação, preservando-se as pré-existentes.
Essa proposição de intervenção urbanística no ponto nodal da espetacularização urbana das festas juninas na cidade em tela explicitada no plano diretor urbano começou a ser implementada no início de 2008.
No primeiro semestre de 2008, foi lançado para empresários operadores do trade turístico e para grande mídia nacional nos vários segmentos, na cidade de São Paulo e posteriormente em Buenos Aires, na Argentina, o projeto “São João da Bahia: a maior festa regional do Brasil”, cujo objetivo principal foi transformar as festas juninas do estado em um “produto turístico nacional”, capaz de minimizar os efeitos da baixa estação no mês de junho, quando o afluxo turístico sofre um decréscimo expressivo. Como Salvador, Ilhéus e Porto Seguro são os principais polos turísticos do estado e possuem aeroportos, essas cidades foram consideradas como centros juninos estruturantes dessa nova logística estatal para a turistificação das festividades do ciclo junino.
Apesar de ocorrer uma circularidade interurbana e interregional (no âmbito do território baiano) de turistas, a despeito da incipiência do sistema de hospedagens em vários polos juninos interioranos, o incremento turístico no ciclo junino na Bahia é um fenômeno tipicamente pontual, e reforça polos turísticos já consolidados.
No ano de 2007 o governo da Bahia investiu cerca de 3 milhões de reais nas festas juninas, e estima-se que as cidades do interior movimentaram de cerca de 500 milhões de reais com festejos de São João, segundo a Secretaria de Turismo.
Em 2008, os investimentos estatais se elevaram para a cifra de 10 milhões de reais (4 milhões apenas em propaganda), e, segundo a Bahiatursa, esperava-se para aquele ano um acréscimo progressivo no montante circulante no estado no período junino. Os números das festas do ciclo junino na Bahia são elevados: 1.700 viagens de ônibus intermunicipal por dia, 2.600 shows em único dia, 300 mil carros cruzando o estado, além da geração de mais de 5.000 empregos novos segundo a Secretaria do Turismo e a Bahiatursa.
Em comparação com 2007, o Terminal Rodoviário de Salvador teve um acréscimo no seu movimento durante o São João de 15%, como consequência do aumento de turistas juninos em circulação no estado, a partir de um ponto estruturante, que é a capital. Aumentou-se também a quantidade de ônibus extra, o que contribui para lentidão na fruição de tráfego em rodovias como as BR-324, BR-101 e BR-116, além de dezenas de estradas estaduais.
Diante desses dados, questiona-se: como se pode pensar em ampliar os objetivos do projeto turístico “São João da Bahia”, se existem óbices infraestruturais relevantes? Trata-se inegavelmente de uma política de espetacularização turística de caráter sazonal, cuja expressividade dos números (de turistas, de dinheiro circulando, de veículos em circulação etc.) interessa em termos de imagem de “modelo administrativo empreendedor”, “promotor do desenvolvimento”. Seus resultados em termos de promoção de emprego e renda são pontuais e questionáveis. Em termos de incremento dos lucros dos setores hoteleiros, dos circuitos empresariais e comerciais de modo geral e de projeção política, são considerados relevantes.
Os altos gastos com a promoção do São João urbano, a partir da década de 1990, são justificados pelas municipalidades como uma necessidade de buscar novas alternativas de desenvolvimento local através do turismo de eventos, na qual se vende a imagem de uma cidade que faz festa espetacularizada, preservando os elementos culturais do passado, para que as festas juninas não se transformem em uma extensão das festas de largo de Salvador. Evidentemente que não é só isso; por trás da “identidade festiva” junina inventada nos gabinetes institucionais, existe o claro interesse de obter dividendos políticos.
Massificação e midiatização da musicalidade
junina Segundo Câmara Cascudo (1988) e Mário de Andrade (1989 apud CHIANCA, 2006), o termo “forró” deriva da contração “forrobodó”, que designaria festa dançante em algumas localidades do Nordeste. A pesquisadora Luciana Chianca (2006) destaca, no entanto, que existe outra versão para explicar a etimologia forró, que seria o aportuguesamento de for all, que designaria bailes abertos ao público, realizados por ingleses que trabalhavam no Brasil. Esta última versão é bastante questionada nos meios acadêmicos. O forró, como modalidade musical, foi difundido em nível nacional pelo cantor e compositor Luiz Gonzaga.
Nas festas juninas da atualidade nota-se que mudaram não só as formas de festejar ligadas ao deslocamento no tempo/espaço festivo como também o repertório musical. Em muitas cidades, aquelas músicas nostálgicas que faziam referência aos problemas, situações e cotidianidade rural já são minoria diante da “avalanche” das letras e formas de dançar estilizadas conhecidas como forró eletrônico, que, no caso específico das festas juninas da Bahia, inserem-se em uma programação musical intercaladas com a chamada axé music.
Dessa forma, além de uma espetacularização junina revelada pela dimensão espacial dessas festas área urbana, pode-se destacar também o caráter espetacularizante da musicalidade junina, lastreada midiaticamente por empresários e promotores de eventos, coexistindo com uma musicalidade local/regional, produzida, apropriada e repassada de geração para geração na dimensão popular.
Na década de 1970, as festas juninas eram animadas pelo forró tradicional com sanfona, triângulo e zabumba. Nos anos 1980, estiveram no auge os chamados forrós de duplo sentido, de forte apelo à sexualidade. A partir dos anos 1990, progressivamente, o forró tradicional e o de duplo sentido foram sendo substituídos pelo forró eletrônico, com forte presença feminina e a introdução do teclado, substituindo os instrumentos tradicionais; essa modalidade de forró foi popularizada inicialmente por bandas musicais como o grupo Mastruz com Leite, do Ceará, e Calcinha Preta, de Sergipe.
O arrasta-pé simples mesclou-se com elementos da lambada e se transformou em uma dança mais sensual e provocante, o que serviu como chamariz para os segmentos de pessoas mais jovens que eram mais reticentes em relação ao forró. Esse novo estilo predomina nas festas juninas em arenas privadas nas quais o forró tradicional tem um papel de coadjuvante e cada vez mais apresenta um papel de protagonista nas megafestas de polos festivos baianos. Atualmente existem várias bandas de forró eletrônico famosas, que circulam pelos altos escalões midíaticos de vários estados brasileiros.
No final da década de 1990, surgiu o chamado “forró universitário”, constituído, segundo Chianca (2006), por forrozeiros amadores da classe média, que se apresentavam em concursos universitários e procuravam recuperar a musicalidade típica do forró tradicional, com três instrumentos básicos, sem preocupação de incorporar o sotaque nordestino ou com o uso de vestimentas típicas do forró tradicional chapéu e jaleco de couro.
Aliás, mudaram não apenas as músicas e as formas de dançar como também as formas das pessoas se vestirem; botinas, tênis, calças jeans substituíram os tradicionais trajes “caipiras” quadriculados e remendados e os chapéus de palha. O mesmo se aplica às quadrilhas estilizadas que introduziram não apenas novas peças ao vestuário como também novas performances dançantes.
Qual a relação entre a política de turistificação junina e o papel da musicalidade do São João na composição da grade de programação dessas festas? Muitos foliões juninos apreciam o forró tradicional de sanfona, zabumba e triângulo, chamado popularmente de forró “pé de serra”.
Muitos jovens, por outro lado, preferem forró eletrônico promovido a partir de uma parafernália tecnológica e de uma trama estética, que valorizam a dimensão imagética, o jogo de luzes e as performances dançantes sensuais. Os promotores das festas espetacularizadas em espaço público estão diversificando cada vez mais o repertório musical como estratégia de captura desses segmentos de jovens. Não é uma empreitada fácil fechar uma grade de programação de festas juninas urbanas, porque as preferências do enorme público muitas vezes se antagoniza, como evidenciam as pesquisas nos sites desses eventos, que já há alguns anos fazem questionários de sondagem junto ao público buscando identificar as atrações mais solicitadas.
Nos últimos anos tem se notado estilos de forrós híbridos que mesclam vários ritmos e programações de festas com diferentes estilos coexistindo tanto em eventos do espaço público quanto em arenas privadas. Entretanto, é importante ressaltar que o estilo predominante na matriz programática ainda é o forró eletrônico.
Apesar de muitas pessoas afirmarem que as festas juninas em cidades do interior passaram por um intenso processo de descaracterização nas últimas décadas, que as transformaram em uma extensão de festas de largo de Salvador, a musicalidade típica da capital baiana, o axé music, mesclado com o forró, constitui-se em um relevante atrativo.
O chamado forró eletrônico, a partir dos anos 1990, se consolidou como musicalidade estruturante das festas juninas concentradas, mesmo naquelas nas quais se procurou produzir uma ambiência estética assentada na preservação de traços bucólicos do cotidiano rural brasileiro, como a cidade de Amargosa, que inseriu uma cidade e um sítio cenográficos no meio da praça festiva em algumas edições das festas juninas.
Em meio à espetacularidade tecnotrônica do forró elétrico, imiscuem-se manifestações culturais importantes como ocorre com as festividades de Cachoeira. Já nas festas privadas de camisa, nota-se a força tanto do Axé music quanto do forró eletrônico que se mesclam. Prioritariamente, o forró eletrônico e, mais recentemente, alguns segmentos do forró tradicional têm se constituído em objeto de apropriação pela indústria cultural através de grupos midíaticos. Segundo Canclini (2003, p. 260):
A rigor, não interessa ao mercado e a mídia o popular e sim a
popularidade. Não se preocupam em preservar o popular como
cultura ou tradição; mais que a formação da memória histórica,
interessa a indústria cultural construir e renovar o contato
simultâneo entre emissores e receptores. (Grifo do autor)
O forró eletrônico, que se difundiu, sobretudo na década de 1990, é uma modalidade musical que atrai milhares de jovens porque mescla elementos ligados à sensualidade com o dinamismo pulsante das festas mais “badaladas”. Essa musicalidade é difundida, sobretudo, pelo viés mercadológico da indústria cultural, porque faz circular muito dinheiro em um contexto bem lastreado midiaticamente.
Na festa junina de Amargosa de 2001, a prefeitura local colocou como principal chamariz midiático o seguinte slogan: “Amargosa: o mais autêntico forró”. Buscava-se atrair turistas de eventos que apreciavam a musicalidade junina mais tradicional, por isso proibiu-se a execução de qualquer outro tipo de música que não fosse forró e suas variantes, desde o tradicional “arrasta-pé”, até grupos musicais, como Calcinha Preta, um dos ícones do forró eletrônico.
Priorizava o forró e incentivava os concursos de quadrilhas oriundas de diferentes regiões da Bahia, buscando consolidar a cidade de Amargosa, como polo festivo de divulgação e de visibilidade das manifestações tipicamente juninas.
A composição da programação das festas juninas evidencia o interesse dos gestores públicos dos principais polos juninos pela promoção de eventos festivos para os visitantes e não para os moradores da cidade.
Em algumas cidades como Cachoeira, nota-se as exibições do samba-de-roda e de vários folguedos populares locais que se apresentam geralmente à tarde. As principais atrações são bandas famosas que se exibem no final da noite e início da madrugada, produzindo o clímax na concentração de foliões juninos.
Em Cruz das Almas o papel das filarmônicas é abrir a festa enquanto que o horário de apresentação de algumas quadrilhas
geralmente é à tarde. Em Amargosa as exibições da burrinha12, um folguedo popular que quase desapareceu do mapa cultural da Bahia, ocorre geralmente durante o dia e final da tarde. Depreende-se dessa forma que algumas facetas culturais locais coexistem nos interstícios da espetacularidade musical e imagética da festa junina concentrada no espaço urbano.
Especificamente no “Forró do Bosque”, uma das mais conhecidas festas juninas em arena privada do interior da Bahia – que acontece na zona rural de Cruz das Almas – monta-se um palco principal, no qual os artistas apresentam uma musicalidade diversa, que varia do forró ao rock, e um palco secundário, no qual se apresentam grupos do forró tradicional nos intervalos das grandes atrações que estruturam a matriz programática.
Nesse contexto musical híbrido, insere-se uma boate techno com luminárias e globo giratório colorido, com DJ ou músicas eletrônicas estilizando as discotecas urbanas da década de 1970. O arranjo espacial da festa junina na Fazenda Cabana do Bosque é um indicativo de que apesar da força mercadológica do forró eletrônico, que é lastreado midiaticamente por importantes grupos do cenário nacional, como foi mencionado alhures, a musicalidade de raízes populares, tradicional, se mantém, a despeito das ilações analíticas que apontam para a crise, declínio ou até mesmo extinção do forró “pé de serra” no contexto das novas gerações apreciadoras do rock, do funk e da axé music.
Vários artistas procuram se apresentar em Cruz das Almas, Amargosa e Cachoeira, porque essas cidades são cabeças de rede no circuito junino da Bahia e, consequentemente, projetam midiaticamente essas pessoas.
É importante salientar que com a consolidação de Cruz das Almas como polo festivo regional, inúmeros grupos musicais surgiram na cidade. Alguns apresentam um trânsito livre na grande mídia, outros apresentam uma expressividade regional, enquanto que a grande maioria apresenta um raio de visibilidade que se limita à escala local.
Paradoxalmente as mesmas pessoas que reclamam do caráter espetacular e tecnotrônico das festas juninas atuais e da falta de visibilidade para a cultura local, são as mesmas que formam as grandes concentrações, tanto em espaços públicos, quanto privados, no clímax festivo.
Como se pode organizar eventos juninos a partir da iniciativa comunitária, que priorize um repertório artístico e musical de projeção local/regional se há um público que deseja ver e ouvir cantores ou grupos diuturnamente exibidos na grande mídia? Falta maior valorização e maior visibilidade tanto para músicos locais como para importantes manifestações culturais que se constituem em permanências e reinvenções em uma sociedade na qual é visível a apologia à efemeridade.
Festas juninas espetacularizadas em espaços
privados
Notadamente a partir dos anos 1990, a modalidade de eventos festivos, em espaços privados, chamados por alguns segmentos da mídia de festas indoors, proliferaram-se no estado da Bahia. As festas juninas de camisa, como são chamadas regionalmente, podem ser deflagradas em espaços privados que oscilam entre áreas periferizadas que bordejam a nucleação urbana, como o Forró do Visgo, em Santo Antônio de Jesus, nas áreas rurais periurbanas, como o “Forró do Piu Piu”, em Amargosa, ou nas áreas rurais como o “Forró do Bosque”, em Cruz das Almas, que acontece em uma fazenda na localidade de Pumba.
Uma estratégia de marketing utilizada pelos organizadores desses eventos é fazer uma relação entre o nome da festa temática privada e o topônimo de uma determinada localidade. O “Forró do Bosque” acontece em uma fazenda de mesmo nome; o extinto Forró do Lago de Cabaceiras do Paraguaçu ocorria às margens do lago artificial formado a partir do represamento das águas do rio Paraguaçu, por exemplo.
As festas juninas privadas mais famosas do Recôncavo Sul podem ser consideradas como espaço/tempo do entretenimento festivo, como também podem ser consideradas símbolo de status, devido ao alto custo das camisas que permitem o ingresso.
Segundo Lefebvre (1991a), houve um tempo no qual as pessoas utilizavam os chaveiros como símbolos de propriedade. A relação entre o sujeito e o objeto, muitas das vezes, é mediada pela questão do signo. Nas festas de arena, a camisa pode expressar o culto à festa, corporificado através de uma indumentária que permite o acesso àquele evento e que, ao mesmo tempo, distingue a pessoa na multidão como sendo o sujeito que participou de uma determinada festa de camisa em Amargosa, Cruz das Almas ou em outro município do interior da Bahia. Identifica-se através da padronização estilística. Segundo Baudrillard (1973; 1995), que foi um crítico da sociedade de consumo e do espetáculo, os objetos não apresentam apenas um valor de uso ou de troca como também um valor como signo, que atribui certo status ao proprietário que pode estar relacionado à questão da distinção. Esse objeto/signo pode ser um veículo sofisticado ou mesmo um utensílio simples. Transportando essa leitura para as modalidades festivas da atualidade, pode-se afirmar que a camisa que permite a entrada em uma megafesta de arena, não significa apenas um objeto permutado por dinheiro; existe toda uma leitura sígnica desse vestuário, que a transpõe em muito o objeto pelo objeto. Como lembra Maria Andréa Loyola (2002), que publicou em livro uma entrevista com Pierre Bourdieu, as ocasiões para se colocar em cena a distinção são inesgotáveis e podem aparecer em práticas banais como no uso de determinados tipos de roupas, de decoração, de transporte, no turismo, no lazer, incluindo-se, portanto, a frequência a determinadas modalidades festivas.
O antropólogo Roberto DaMatta, no livro A Casa e a Rua, que se constitui em uma relevante contribuição ao estudo de práticas socioculturais do povo brasileiro, destaca que a estrutura interna da casa urbana tradicional apresenta um corredor que se assemelha à rua e cômodos que se constituiriam em edificações bordejando a artéria viária pública. Segundo DaMatta (1987, p. 56), “andar pelos corredores equivale a percorrer ruas de uma cidade”
A partir de meados do século passado, as casas da área urbana do Recôncavo Sul da Bahia passaram a apresentar um desenho arquitetônico diferente dessa morfologia descrita anteriormente: os corredores desaparecem, a sala de visitas é ampliada, os jardins entornados com cercas baixas desaparecem por detrás de muros, o mesmo ocorrendo com quintais e terreiros que passam a ser menores devido à valorização do solo urbano provocada pela rarefação de áreas livres de edificação. Todas essas transformações na produção do espaço do habitar se constituem no rebatimento espacial de mudanças socioeconômicas e culturais na sociedade brasileira.
Os eventos festivos de camisa surgem e se consolidam nesse contexto de mudança do desenho residencial, de expansão de condomínios fechados e de midiatização espetacularizante das festas juninas no espaço urbano. A mesma segurança, comodidade, funcionalidade, o mesmo conforto que os moradores dos conjuntos habitacionais fechados procuram, os frequentadores das festas privadas de arena buscam em eventos como os forrós do Bosque, em Cruz das Almas, e do Piu Piu, em Amargosa.
As festas juninas em arena privada atraem milhares de jovens que buscam a distinção na indistinção. Alguns optam por essa modalidade de evento por segurança, mas outro fator a se destacar é que essas festas atraem um público constituído na sua maioria por pessoas de classes sociais mais elevadas, do ponto de vista da estratificação socioeconômica. Muitos festeiros buscam dividir o espaço festivo com pessoas que apresentam similaridades em termos de frequência a determinadas modalidades festivas, como os tradicionais blocos de abadás do carnaval de Salvador.
As várias nucleações territoriais de jovens observadas nessas festas revelam a era da explosão das “galeras festivas”, que veem nas festas privadas de camisa seu momento de aproximação, concentração, abertura, e, após esses eventos, apresentam uma situação de dispersão e reconcentração.
Como destaca Sack (1986), o território tanto pode ser um indicativo de pertencimento, quanto pode também restringir, excluir; no caso específico das festas juninas de camisa, pode-se afirmar que se trata de um território delimitado fisicamente e vigiado no sentido apontado por Michel Foucault (1979; 1977), que contém uma miríade de nucleações territoriais abertas e semiabertas formada pelas várias “galeras” urbanas que podem ser duradouras, polifestivas ou efêmeras e pontuais. Segundo Corrêa (2004), o conceito de território a partir dos anos 1970 passou a apresentar novas acepções para além daquelas tradicionais, transitando da materialidade (substrato físico-espacial) a imaterialidade (dimensão do simbólico).
Em países periferizados como o Brasil, as discrepâncias na estratificação são evidentes na tessitura social e na dinâmica espacial. Os eventos festivos constituem-se em reflexos das disparidades sociais no país, o que pode ser notado através de barreiras tácteis e visíveis. Canclini (1983) destaca de forma enfática que a festa não é lugar de subversão da ordem social porque as diferenças sociais nela se repetem.
Mesmo nas festas abertas do espaço público nota-se uma atitude auto-excludente por parte de alguns festeiros. Não existe nenhuma barreira física, a festa é completamente aberta, no entanto as roupas e os chapéus, como signos associados a um potencial de consumo elevado, criam um campo de força simbólico que promove uma modalidade de apropriação desse espaço público e deixa transparecer as assimetrias socioeconômicas e as diferenças étnicas.
Nas festas juninas do passado, tanto as pessoas de baixa renda, quanto aquelas de maior poder aquisitivo, transitavam por caminhos parecidos, encontravam-se, mas também o tipo de receptividade iria depender do nível de proximidade afetiva entre o proprietário de uma fazenda e o visitante. Nas festas em arenas privadas, mesmo no espaço intrafestivo, existem assimetrias claras verificadas nas barreiras físicas que separam os camarotes das pistas e o público de modo geral do artista. No caso das festas de camisa do período junino de cidades como Amargosa e Cruz das Almas, as cercas das fazendas representam a barreira física que impede o acesso àquelas festas, enquanto que a exiguidade da renda erige a inacessibilidade socioeconômica.
Deve-se destacar, no entanto, que as festas juninas de arena são eventos abertos à participação de pessoas independente da sua opção sexual, tipologia étnica, religiosa, exigindo-se apenas que paguem para dispor de ingresso; esses eventos diferem de outros das primeiras décadas do século XX que proibiam acesso de negros, mulheres separadas ou homossexuais.
Como destacou Lefebvre (1991a), toda sociedade de classe está assentada na persuasão (ideologia) que cria a noção de bem comum e opressão viabilizada através de punições para quem não respeitar o pacto social. Nos espaços públicos, as festas são monitoradas pela polícia militar que organiza e normatiza o lugar festivo, criando espaços disciplinares para a/na festa. Nas arenas privadas, os seguranças desempenham o mesmo papel com o apoio logístico da polícia militar. É sempre importante destacar que as festas de camisa de Amargosa e Cruz das Almas são eventos festivos que destoam da regularidade socioeconômica do entorno, o que leva os moradores das comunidades próximas a subir em árvores, ou no telhado das casas para assistir a performance dos foliões juninos que formam a massa festiva. No caso específico de Amargosa, como os organizadores do “Forró do Piu Piu” edificam a arena em uma área de relevo acidentado, muitos curiosos observam o evento das bordas da depressão, notadamente a partir da rodovia que liga Amargosa à cidade de Mutuípe.
Segundo Santos (1987), a rede urbana, para as pessoas de baixa renda, limita-se à dimensão onírica, na medida em que indivíduos desprovidos de renda apresentam uma margem de mobilidade limitada. Partindo-se desse pressuposto, pode-se afirmar que as pessoas dos extratos inferiores da pirâmide socioeconômica brasileira dificilmente terão condições de se fazerem presentes em todos os espaços de consumo da atualidade, como shopping centers ou mesmo naqueles espaços funcionais considerados elitizados, como grandes aeroportos metropolitanos.
Ao se relacionar essas assimetrias sociais com a dimensão festiva, pode-se afirmar que Nestor Garcia Canclini (1983) está correto quando afirma que a festa não tem esse poder de transformação, mesmo que efêmera, de uma das facetas mais explícitas do capitalismo: a segregação socioespacial.
A renda permite o entretenimento festivo multiterritorial do festeiro junino situado nos patamares superiores da estratificação socioeconômica, que poderá circular por várias ambiências festivas: festas de arena, públicas, comunitárias, familiares etc. Evidentemente que até aí não se nota nada de novo; trata-se apenas de uma das facetas das desigualdades sociais do Brasil. No entanto, nas festas de camisa em arenas privadas da atualidade basta pagar para participar, já nos clubes sociais, no passado, ocorria tanto a discriminação racial quanto a social.
Dos clubes à arena: a questão físico-espacial nas
festas juninas em espaços fechados
No passado, as festas privadas no Brasil aconteciam nos clubes tradicionais tanto das grandes cidades como nas pequenas unidades urbanas do interior. Alguns clubes fecharam as portas como espaço festivo e cultural e foram refuncionalizados, como a Associação Educativa e Desportiva Paraguaçu de Cachoeira e outros, como o Clube Alvorada de Amargosa, que além de fechar as portas, desabou, mantendo de pé apenas a fachada modernista.
Em Cruz das Almas, notou-se, ao longo do século XX, uma mudança contínua na localização do principal lugar festivo privado da cidade; inicialmente era o seletivo salão nobre da prefeitura, posteriormente esses eventos passaram a ocorrer nas filarmônicas locais, como Euterpe Cruzalmense e Lira Guarani, que acirraram as rivalidades entre os espaços festivos fechados.
Durante muito tempo o papel de centralidade festiva na área urbana foi exercida pelo Cruz das Almas Clube, situado no centro da cidade, e pelo espaço festivo mais recente entre esses citados: o Clube de Campo Laranjeiras, inaugurado na década de 1970, próximo à então recém-inaugurada rodovia BR-101.
Na década de 1930, a construção do Cruz das Almas Clube expressou um esboço de ampliação do espaço festivo. A edificação do Clube de Campo Laranjeira na década de 1970, em estilo modernista, demonstrou claramente a natureza funcional dos espaços festivos através de seu estilo arquitetônico: uma entrada larga com percurso canalizado até uma arena festiva fechada, ampla e com acesso à piscina e outras formas de lazer contíguas.
Décadas mais tarde iniciam os ciclos de festas juninas de arena no Recôncavo Sul em cidades como Amargosa e Cruz das Almas, em áreas rurais, expressando assim não uma crise que determinasse o fim das festas na arena periurbana do Teatro Laranjeira, mas uma transição que redefiniu os papéis de alguns espaços festivos: o Cruz das Almas Clube continua sendo utilizado para outras modalidades de festas ao longo do ano, o Clube Laranjeiras passou a ser utilizado para eventos do período pré-junino, as filarmônicas locais passaram a participar de algumas festividades ao longo do ano, incluindo-se a abertura oficial do São João urbano no na Praça do Parque Sumaúma. Ocorreu um rearranjo, uma redefinição do principal lugar que exercia relativa centralidade no ciclo junino em Cruz das Almas, que é protagonizado atualmente pela Praça do Parque Sumaúma e pela Fazenda Cabana do Bosque.
Do ponto de vista comportamental, vários fatores concorreram para a crise nos clubes sociais da Bahia e de outras unidades da federação. Dentre esses pode-se citar a relativa diversificação das formas de lazer e entretenimento, mesmo em pequenas cidades, e a popularização da televisão.
Na cidade de Cachoeira, na década de 1960, era comum algumas famílias se reunirem na Associação Desportiva Paraguaçu para assistir a TV, um eletrodoméstico sofisticado e caro para a época. Já do ponto de vista administrativo, muitos desses clubes sociais passaram a acumular dívidas trabalhistas, com fornecedores e com o fisco, o que colaborou para a diminuição da capacidade de reforma e manutenção da estrutura física edificada.
Nas últimas décadas, a TV deixou de ser um objeto de uso seletivo, assim como ocorreu também um popularização de outras modalidades de eletrodomésticos, sobretudo nos anos 1990, o que contribuiu para desestimular a procura dos clubes, ou seja, o espaço de lazer coletivizado e multifamiliar foi progressivamente sendo substituído pelo espaço de lazer predominantemente domiciliar e esporadicamente extradomiciliar.
Pode-se falar em uma crise/transição/reinvenção dos lugares que, ao longo do tempo, se ampliaram da casa para as ruas, desenhando um itinerário, que alternava do canalizado ao errante, e também se ampliaram no espaço público das praças festivas, sincronicamente, nas festas fechadas do espaço privado.
A versão atual das festas juninas de rua se caracteriza pela ampliação espacial e pela natureza concentrada desses eventos. Não foram as formas espaciais que determinaram as mudanças nos sentidos do festejar nas cidades objeto de pesquisa. Partir desse pressuposto seria adotar uma leitura formalista já superada. Essas mudanças podem ser explicadas pelo dinamismo sociocultural e econômico das últimas décadas, que provocou mudança de hábitos, comportamentos e atitudes subjetivas, familiares, grupais, na coletividade cultural de modo geral, cujo rebatimento espacial transforma esses processos em elementos tangíveis.
A crise nos clubes sociais e a ampliação dos eventos festivos em espaço público como as festas de largo em Salvador, carnavais fora de época e o São João nas cidades do interior, nas décadas de 1980 e 1990, fizeram surgir, nesse mesmo contexto temporal, novas modalidades de festas privadas, como os forrós de camisa temáticos, que representam tanto uma reinvenção do entretenimento festivo, quanto uma expressão da cooptação de natureza mercadológica, de um determinado segmento de festividades populares no estado da Bahia.
Uma diferença a se destacar é que nos antigos bailes de clubes a família exercia um papel importante, enquanto que em festas de arena da atualidade os circuitos jovens protagonizam a trama festiva.
Do ponto de vista morfológico as arenas festivas juninas de Amargosa e Cruz das Almas, correspondentes aos Forrós do Piu Piu e do Bosque, respectivamente, apresentam-se como um espaço quadriculado e demarcado. Quando o folião junino entra, destaca-se a sua frente um amplo espaço festivo, com suas formas racionais e sem corredores.
Apesar de serem festas fechadas, a sensação de muitos festeiros é de amplitude, conforto e segurança. Essa forma espacial contrasta com o desenho e com a dinâmica sociocultural de alguns espaços festivos fechados de cidades do Recôncavo baiano. A arquitetura das sedes das Filarmônicas Euterpe Cruzalmense e Lira Guarany, antigos espaços festivos de Cruz das Almas, apresentam uma morfologia que se assemelha a uma casa: um corredor lateral que desemboca em uma pequena sala no fundo, paralelo ao salão de festas, que se assemelha a uma sala de visitas de uma unidade habitacional tradicional; aliás, o front das duas edificações se assemelha a uma típica casa de família do interior da Bahia.
Já a centenária Associação Cultural e Desportiva do Paraguaçu, de Cachoeira, apresenta na sua estrutura interna uma sala de recepção e triagem prévia e uma escada de madeira que dava acesso ao salão principal do prédio, que é um sobrado típico daqueles habitados por famílias tradicionais daquela cidade. Essas diferenças físicas, tanto na estrutura interna quanto na forma espacial visualizada externamente, entre os espaços festivos fechados do passado e recentes, caracterizam claramente o dinamismo sociocultural que redimensionou espacialmente os sentidos do festejar.
Alguns espaços festivos se assemelhavam a uma casa tradicional, na sua morfologia e nas suas normas de conduta, porque a concepção de festa estava diretamente relacionada à ideia de família e esta era simbolizada e sintetizada culturalmente pela casa como lar, enquanto forma espacial afetiva e normatizadora.
A família continua exercendo um papel importante na trama festiva atual; um papel mais relevante na relação com as festas em espaço público, pouco expressivo em relação às privadas. Entretanto, houve uma redefinição, uma ressignificação clara do papel familiar nas últimas décadas, que, obviamente, influenciou na forma e na concepção dos espaços festivos.
Tanto do ponto vista socioeconômico, como também espacial, as festas juninas em arenas privadas se configuram como eventos segmentarizados. Para participar, o folião deve comprar um ticket numerado que dá direito a uma camisa que permite a entrada na festa, portanto, trata-se de um evento codificado, planejado, delimitado, vigiado, filmado e determinado cronologicamente.