Da casa à praça pública: a espetacularização das festas juninas
Espetacularização e mercantilização das festas juninas na atualidade
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
As arenas privadas das festas de camisa se fecham para posteriormente se abrirem para fluir e diluir a sua massa festiva em amplos espaços públicos. Entretanto, como lembra o próprio Deleuze (1992), no livro “Conversações”, uma máquina não é nada se destituída dos múltiplos agenciamentos coletivos dos quais ela faz parte; o mesmo pode ser aplicado à forma espacial, como a arena festiva privada, que é produto de um determinado contexto, como foi analisado anteriormente. Segundo Deleuze e Guattari (1996, p. 83-84):
Somos segmentarizados por todos os lados e em todas as
direções. O homem é um animal segmentário. A
segmentaridade pertence a todos. Os estratos que nos
compõem. Habitar, circular, trabalhar, brincar: o vivido é
segmentarizado espacial e socialmente. A casa é
segmentarizada conforme a destinação dos seus cômodos; as
ruas, conforme a ordem da cidade; a fábrica, conforme a
natureza dos trabalhos e das operações. Somos
segmentarizados binariamente, a partir de grandes oposições
duais: as classes sociais, mas também os homens, as
mulheres, os adultos, as crianças, etc.
A segmentaridade que os autores se referem nesse trecho de uma das suas obras, é social e física. Além do habitar, do circular, do trabalhar, pode-se incluir o lazer, o entretenimento festivo, que nas cidades modernas podem ser encontrados em parques temáticos ou em espaços de shows públicos (uma praça, por exemplo) ou privados.
As festas juninas privadas apresentam uma segmentaridade física explícita, verificada nas demarcações que separam essa modalidade de evento festivo do lugar onde ocorrem, que é consequência da segmentaridade social. As casas, como apontam Deleuze e Guattari (1997a) sempre foram um exemplo de segmentaridade do habitar: cômodos para dormir, para as refeições, para o banho etc. No entorno da unidade residencial da atualidade, nota-se que os muros e a canalização física de percursos podem demonstrar a natureza sedentária do espaço estriado do não nômade.
Mesmo no tradicional dia da fogueira de São João, no qual as famílias abriam suas casas para recepção aos foliões juninos, as comidas típicas eram colocadas na sala de visita, enquanto que no terreiro no entorno da fogueira se reuniam algumas pessoas. E qual a diferença desse exemplo de segmentaridade física do passado para a do presente? No passado também existia o segregacionismo, as grandes festas em fazendas e as pequenas festas comunitárias ou da esfera familiar, assim como ocorria o trânsito do folião junino por unidades residenciais de diferentes classes sociais, contudo, não se verificava o processo de espetacularização mercadológica das práticas festivas, como ocorre na atualidade.
Sob a ótica dos eventos festivos pode-se afirmar que houve uma intensificação da segmentaridade física e social em termos da acessibilidade de pessoas de distintas camadas da população a determinadas modalidades de festas de São João. Para Lefebvre (1999) o urbano é o local do desejo e também da ação, a concentração de eventos culturais na cidade talvez possa determinar um dinamismo reinventivo dessa modalidade de entretenimento, abrindo-se possibilidades para ampliação da ludicidade junina, que, na atualidade, revela-se de forma intersticial no contexto da espetacularidade do lazer festivo.
Nem a casa nem a rua: a arena privada
As festas privadas de camisa no Recôncavo Sul da Bahia acontecem geralmente na zona rural e periurbana. O “Forró do Bosque” em Cruz das Almas ocorre em uma localidade denominada Pumba, situada a cerca de quatro quilômetros do centro da cidade, enquanto que o “Forró do Piu Piu” ocorre no hotel/fazenda Colibri, nas proximidades da área urbana de Amargosa, em uma propriedade privada que bordeja uma rodovia estadual que acessa cidade de Mutuípe, no Vale do Jequiriçá.
Não é o maior índice de acessibilidade viária que determina uma maior ou menor participação de pessoas da capital baiana em uma determinada festa; a cidade de Cruz das Almas é mais próxima de Salvador que Amargosa e o acesso viário é mais fácil. Entretanto, segundo boletim informativo da prefeitura de Amargosa, a partir de meados dos anos 1990, muitas pessoas que formavam blocos tradicionais do carnaval de Salvador passaram a frequentar o São João daquela cidade, o que colaborou para o surgimento do “Forró do Piu Piu” como uma extensão das festas soteropolitanas em uma ambiência junina.
Pouco se observam elementos ou símbolos juninos na composição estética daquela festa ou mesmo na musicalidade predominante, o que confirma a tese de que se trata de um megaevento festivo de natureza espetacular, que corresponde a uma desterritorialização difusa e relativa de vários blocos carnavalescos de Salvador, ao qual se reterritorializam na zona rural/periurbana de Amargosa, configurando uma massa festiva parcialmente mesclada do ponto de vista dos seus respectivos locais de origem, mas com um predomínio expressivo de foliões da capital baiana.
Essa leitura, a partir de umas mais tradicionais festas juninas de arena da Bahia, mostra que a assertiva recorrente de que os turistas buscam as particularidades e não as similaridades seria uma simplificação excessiva de um fenômeno social complexo. Assim como muitas pessoas são atraídas para os principais polos juninos pelos particularismos locais, a exemplo da guerra de espadas de Cruz das Almas ou o patrimônio arquitetônico e as manifestações culturais, no caso de Cachoeira, da tradicional feira de Caruaru, no agreste de Pernambuco, muitos outros turistas de eventos se deslocam para eventos como o “Forró do Piu Piu”, em Amargosa, pelas similitudes estéticas entre essa festa privada e os blocos famosos do carnaval de Salvador.
A leitura empírica das especificidades das facetas socioculturais envolvendo os chamarizes do ciclo junino revela que os atrativos que impulsionam as modalidades festivas transitam da peculiaridade da escala local a aspectos supostamente universais de natureza transescalar.
As festas juninas de camisa explicitam a consolidação de práticas festivas de grupos de jovens abertos e semiabertos, de pessoas reunidas por laços de parentesco, de proximidade geográfica, de outras que se conectam afetivamente através dos recursos comunicacionais via internet. Ou seja, se trata de uma modalidade festiva ampla que abarca diversas modalidades de jovens que, por outro lado, apresentam similaridades socioeconômicas, como já foi dito.
Do ponto de vista físico-espacial, a arena festiva apresenta um potencial de sociabilidade e de ampliação grupal maior do que a casa e menor do que a praça festiva pública; entretanto, ao se levar em consideração o decréscimo e o redimensionamento da centralidade do lazer festivo da casa na contemporaneidade e as assimetrias socioeconômicas das festas públicas, pode-se afirmar que as arenas festivas apresentam um maior potencial de ampliação horizontal dos grupos e de trânsito inter-grupal efêmero.
Uma prática muito comum no carnaval de Salvador, o chamado “beijo roubado”, que consiste em uma atmosfera de lúdica conivência, na qual alguns rapazes saem beijando as moças, (e vice-versa), também ocorre nas festas juninas de arena. Essa prática reforça a tese de que as festas juninas de camisa representariam uma desterritorialização espacial e temporal difusa do carnaval metropolitano da capital baiana? Acredita-se que se trata de eventos festivos complementares e que apresentam similaridades e também especificidades nas suas modalidades de interação e sociabilidades. A leitura socioespacial das múltiplas possibilidades de tessitura de sociabilidades festivas em um espaço onde os desníveis socioeconômicos são menos assimétricos pode indicar uma maior probabilidade de interação.
Além das grandes atrações de grande peso midiático, um dos pontos que mais atraem milhares de pessoas para festas juninas em arena privada é a organização no sentido amplo desses eventos. Existem normas, tempo para começar, para terminar, segurança dentro e fora da plataforma festiva, serviços médicos como enfermaria equipada com UTI móvel, serviço de informações, praça de alimentação, bares e boate.
Especificamente sobre segurança, no ano de 2006 os organizadores do “Forró do Bosque” mobilizaram um contingente de 350 pessoas. As festas privadas de arena como o “Forró do Piu Piu”, na fazenda Colibri, em Amargosa, e “Forró do Bosque”, em Cruz das Almas, expressam uma busca de comodidade, segurança e organização do ponto de vista da funcionalidade, o que é uma tendência da contemporaneidade. Mesma comodidade e segurança que explica a proliferação de condomínios fechados na área urbana em várias cidades do Brasil não só dos grandes centros metropolitanos, como também naquelas de médio e até de pequeno porte.
Se, por um lado, os forrós do Bosque e do Piu Piu apresentam um desenho morfológico que pouco se diferencia de outros espaços festivos privados da Bahia, por outro, o conjunto paisagístico e a inserção em espaços rurais próximos à área urbana, associados a um conjunto de comodidades, promovem a peculiaridade desses eventos festivos, que expressam uma das facetas da reinvenção do lazer festivo urbano do ciclo junino da atualidade.
Pelo viés do lazer e do entretenimento, as festas juninas de arena também podem significar reencontro, prazer e alegria vivenciada intensamente e coletivamente. Uma das primeiras festas juninas
dessa natureza na Bahia foi o “Arraiá da Capitá”,13 um evento no qual cantores ou grupos musicais alternam o forró eletrônico com outros estilos musicais, em um cenário estilizado como simulacro de pequena cidade do interior, com pracinhas, igrejas e coreto, entornados por pequenas casinhas, cujo desenho estético remete àquelas unidades habitacionais típicas de pequenas cidades do interior do Nordeste brasileiro.
Esse evento antes era organizado de forma consorciada entre o jornal A Tarde, o governo do Estado da Bahia e empresas privadas; depois de alguns anos de interrupção voltou a ser realizado no ano de 2006 no parque de exposições de Salvador, na Avenida Paralela. Um dos objetivos do “Arraiá da Capitá” é inserir Salvador no circuito turístico das festas do ciclo junino, para que a capital baiana possa concorrer com tradicionais centros das festividades do São João como Amargosa, Cachoeira, Cruz das Almas, Jequié e Senhor do Bomfim, para o qual se deslocam anualmente milhares de pessoas, notadamente soteropolitanos.
Apesar de acontecer algumas festas juninas pontuais em algumas casas de shows em cidades do Recôncavo Sul, na primeira quinzena de junho as festas de São João no interior ainda não “aqueceram”. Dessa forma, durante as festividades juninas, pode-se afirmar que ocorre uma efêmera e sazonal reversão da polaridade: Salvador, que é o polo político, econômico, turístico e cultural durante todo o ano, perde momentaneamente o status de centralidade na dimensão festiva para os espaços multipolarizados da sua periferia imediata (Recôncavo Sul) ou de regiões mais distantes no estado da Bahia.
Os meios de comunicação desempenham um papel vital nas sociedades de consumo, no sentido da persuasão, para divulgação e espetacularização das festas de arenas; no entanto, os eventos dessa natureza mais famosos já produziram uma clientela que é fiel e que, ao mesmo tempo divulga gratuitamente a marca ao relatar episódios dos eventos e performances dos grupos no cenário festivo.
Nem todas as iniciativas relacionadas à invenção de tradições juninas no interior da Bahia são exitosas. No ano de 2006 tentou-se organizar uma festa junina de camisa na cidade de Cachoeira, cuja notabilidade nacional está assentada no patrimônio cultural material e imaterial. O evento foi chamado de Cachoeira fest e estrategicamente procurou-se incorporar na estética publicitária aspectos do potencial cultural do lugar, inserindo a secular ponte que liga Cachoeira a São Félix em um cartaz. A festa aconteceu em um balneário porque os organizadores procuraram explorar os elementos da natureza (rio, vegetação), bem como a questão cultural e o topônimo da cidade, que é tombada como patrimônio histórico nacional. Apesar da iniciativa ser lastreada pelos atributos arrolados anteriormente, as festas juninas privadas não se consolidaram como uma modalidade alternativa à Feira do Porto, tradicional festa junina concentrada que acontece na orla do rio Paraguaçu.
A arena festiva do Piu Piu, apesar de se constituir uma nucleação festiva que destoa de toda uma regularidade local, apresenta linhas de interface com a festa pública realizada na Praça do Bosque, na medida em que ao término do primeiro evento festivo os foliões juninos se deslocam para o segundo, porém poucos foliões juninos interagem com a cidade ou com seus moradores. Na verdade, os grupos se dispersam no espaço público na frente do palco, nas barracas, bares do entorno ou pela cidade cenográfica. Evidentemente que não se pode generalizar porque existem aqueles foliões juninos que alugam casas e, apesar de não interagirem com a vizinhança (que pode ser composta por outros turistas de eventos), esporadicamente aproveitam o tempo livre para andar pela cidade. A festa pública para os participantes do forró de arena é uma complementaridade do entretenimento festivo, e por isso as praças festivas fazem parte do seu itinerário.
Já em relação ao “Forró do Bosque”, o nível de interação com a cidade é maior porque muitas pessoas de Cruz das Almas e do entorno participam daquele evento. Aliás, a cidade de Amargosa é o polo festivo do Recôncavo baiano que apresenta o mais expressivo percentual de turistas de eventos de Salvador e parte desses percentuais se deve à fama do “Forró do Piu Piu” na capital baiana.
A segregação e a seletividade são típicas de uma sociedade assimetricamente estratificada. Como lembra Lefebvre (1999), a segregação e a separação rompem com a possibilidade de relação e isso é bastante visível nos dias em que ocorre o “Forró do Bosque” na localidade de Pumba; a relação dos moradores com os foliões é estritamente formal e funcional e ocorre quando um residente da referida localidade trabalha na Fazenda Cabana do Bosque ou limita-se a vender produtos no entorno.
Os visitantes nem sequer mencionam a possibilidade de conhecer uma pequena nucleação urbana situada nas proximidades porque o chamariz turístico não é determinado pelo lugar geográfico no sentido topológico e dos seus atributos físicos e culturais e sim pelo lugar geográfico sazonalmente festivo. Se o magnetismo do lazer festivo é alimentado pela festa de arena, por que o folião junino deveria interagir com o morador do entorno festivo?
No caso do Forró Piu Piu a relação do folião com o entorno local é ainda mais tênue ou simplesmente nula na medida em que a Fazenda Colibri está situada às margens de uma rodovia pavimentada que liga Amargosa a Mutuípe, em uma área relativamente próxima ao bairro Catiara, que é apenas um espaço de passagem para os festeiros, que, posteriormente, aderem à festa-espetáculo na Praça do Bosque. Evidentemente que em casos esporádicos alguns foliões de arena param em alguns bares ou supermercados das imediações periurbanas para beber ou comprar determinados utensílios.
Tanto no “Forró do Bosque” quanto no “Forró do Piu Piu”, os foliões juninos buscam uma modalidade de festa junina que possa associar a ambiência rural com o conforto urbano, viabilizado a partir de toda uma logística e infraestrutura providenciada previamente, emoldurada em um cenário de espetacularização e de apreciação de elementos da natureza.
Na fazenda Colibri, o cenário da festa é montado em uma depressão próxima a uma lagoa entornada com vertentes espalmadas que se abre para um vale encoberto por gramíneas e arbustos. A fazenda Cabana do Bosque está situada em uma área plana com uma pequena ondulação na entrada principal, próxima a uma pequena lagoa e também entornada por uma vegetação rasteira utilizada para pastagens. O espaço da festa é arborizado com eucaliptos entornados por uma vegetação rasteira. Os componentes paisagísticos integram a composição estética do espaço festivo e o torna peculiar, agradável, seguro e ao mesmo tempo explosivo, contagiante, alegre. A soma desses fatores contribuiu para consolidar o “Forró do Piu Piu” e o “Forró do Bosque” como as duas festas de arena, do ciclo junino, mais badaladas e famosas da Bahia.
Festas em arenas privadas: papel das
municipalidades Existe uma relação de simbiose entre a promoção das festas públicas por parte dos gestores públicos de Amargosa e Cruz das Almas e os promotores das festas de arena, na medida em que um evento contribui para a divulgação midiática do outro sem que necessariamente se sistematizem formalmente acordos de publicidade mútua.
No caso específico do “Forró do Bosque”, no ano de 2007, um dos óbices que inviabilizaram uma aproximação mais efetiva foi o fato de os organizadores da festa pública no Parque Sumaúma e os promotores da festa privada de camisa terem fechado acordos com cervejarias patrocinadoras que são concorrentes no contexto regional e nacional.
Os impactos econômicos do São João espetáculo tanto da arena privada como do espaço público são de difícil mensuração. As festas privadas contribuem também para o city marketing na medida em que um artista famoso afirma em uma grande rede de TV nacional como a Globo que estará em Cruz das Almas, no Bosque, ou no Piu Piu, na Fazenda Colibri, em Amargosa. Essas festas privadas acontecem fora do circuito urbano, mas as municipalidades aproveitam o merchandising gratuito, uma vez que poucos segundos na Rede Globo custam milhares de reais.
Do ponto de vista do pragmatismo administrativo, os organizadores de festas privadas como o “Forró do Bosque” solicitam da prefeitura o apoio logístico, no sentido infraestrutural, como melhorias e conservação da rodovia que permite a acessibilidade viária e a eletrificação da estrada vicinal que liga a BR-101 à localidade de Pumba, onde acontece a festa.
Já a fazenda Colibri está situada a 1 quilômetro da área urbana, às margens da rodovia BA-540, que está em boas condições de trafegabilidade. Entre o ano de 2006 e 2007, ventilou-se em Cruz das Almas a possibilidade de cobrança do ISS (imposto sobre serviços) aos organizadores do “Forró do Bosque”, que se configura como modalidade de serviço do segmento de lazer e entretenimento.
Evidentemente que a questão da tributação de determinadas modalidades de serviços geralmente é uma empreitada um pouco complicada. Para evitar um acirramento das discussões em decorrência dos antagonismos de opiniões, o organizador das festas juninas de Cruz das Almas (anos 2006 e 2007) propôs uma contrapartida social dos organizadores desses megaeventos privados.
A ideia principal seria solicitar que se recupere uma praça pública ou uma unidade escolar municipal nas localidades de Pumba ou Lisboa, que entornam aquele evento festivo espetacularizado, uma área predominantemente de baixa renda do município. Trata-se de uma iniciativa que permite um canal de conexão entre a iniciativa privada e o espaço público em um município no qual essa relação ainda é muito incipiente. Contudo os organizadores do Forró Bosque têm razão quando argumentam que existe uma simbiose entre as festas privadas e as públicas na medida em que uma promove a outra e as duas promovem a cidade do ponto de vista de um eventual turismo sazonal.
O aspecto interessante de uma eventual contrapartida social do “Forró do Bosque” seria a possibilidade de se visualizar através das formas espaciais os benefícios comunitários daquele evento, diferentemente da arrecadação formal do fisco municipal, cuja tributação poderia ser alocada para pagar parte dos custos da dispendiosa festa pública na Praça do Parque Sumaúma. Os ganhos com a projeção da imagem da cidade seria uma contrapartida que se sobrepõe à recuperação de um espaço ou prédio público? A resposta a esse questionamento depende da concepção de cidade dos gestores públicos.
Se o objetivo é consolidar o processo de turistificação sazonal do lugar, evidentemente que os ganhos com a divulgação do nome e da imagem da cidade terão um papel importante nesse contexto. Por outro lado, os gestores públicos municipais pretendem melhorar os espaços públicos de lazer, de esportes ou mesmo investir em festas comunitárias a partir da contrapartida das megafestas privadas, a opção seria a tributação dos grandes eventos. A relação entre a gestão pública e o empreendedorismo privado no Brasil é sempre sinuosa, meândrica e a dimensão do lazer festivo não foge a essa regra.
Duas questões: ao se utilizar o patrocínio de festas comunitárias nas localidades que entornam o “Forró do Bosque” não se estaria consolidando o hiato entre festas consideradas elitizadas de pessoas de médio a alto poder aquisitivo e festas populares de bairros ou de localidades para pessoas de baixa renda, naturalizando assim a projeção da segregação socioespacial para os espaços/eventos festivos?
As vantagens fiscais que corresponderiam à contrapartida das festas-espetáculo privadas não expressariam um dirigismo administrativo dos gestores públicos de Cruz das Almas, comprometendo, assim, uma eventual organização de festas comunitárias horizontalmente concebidas nesses meios comunitários?
Quanto ao primeiro questionamento, pode-se afirmar que a segregação socioespacial, apesar de ser típica das sociedades capitalistas, assentadas nas desigualdades do acesso aos meios de produção e aos bens de uso cotidiano, não deve ser naturalizada para não se adotar uma visão fatalista e determinista de mundo e também para não comprometer a ação política no sentido apontado por Arendt (2000; 2002), da transformação social, e nem perder de vista o horizonte utópico que apresente elementos palpáveis para construção de uma sociedade menos assimétrica.
Quanto ao segundo questionamento que remete a um esboço autonomista, tanto se deve ter cuidado com os verticalismos de planos e projetos concebidos pela gestão pública e também pela iniciativa privada, à revelia dos sujeitos sociais envolvidos, quanto se deve evitar leituras “românticas” e idealizadas de determinadas comunidades rurais ou urbanas. Será que realmente os moradores das localidades de Pumba e Lisboa querem organizar e participar como protagonistas do tempo/espaço festivo na dimensão comunitária com atrações locais/regionais e sem a participação dos grupos musicais de forte inserção na grande mídia?
Durante o “Forró do Bosque” várias pessoas buscam posições estratégicas no entorno da plataforma festiva, dançando ou observando a multidão nucleada no espaço delimitado. Essas pessoas gostariam de estar ali. Desterritorializam-se nos seus desejos e se reterritorializam mentalmente nos espaços que no plano material não podem circular, porque, diferente do mundo virtual, na realidade inteligível, imediata, as barreiras para a esfera do desejo apresentam uma materialidade: cercas, muros e telas vigiadas.
A arena festiva privada como um espaço festivo
efêmero
Apesar de serem eventos frequentados predominantemente por adolescentes e jovens de modo geral, nas festas juninas de camisa a transgressão e a irreverência dos participantes limitam-se às suas performances estéticas dançantes.
Trata-se de eventos muito bem organizados, estriados normativamente, vigiados por dezenas de segurança com cobertura da polícia militar. Talvez o único ponto em comum entre as festas juninas de camisa e as festas rave da atualidade seja o perfil etário dos seus integrantes: a grande maioria é jovem, como comprovam pesquisas de sondagem feitas por organizadores desses eventos.
As festas rave são de duração indeterminada, com elevado grau de permissividade, além de serem incertas do ponto de vistas locacional, podem acontecer tanto em áreas rurais, chácaras periurbanas, clubes ou prédios abandonados na cidade. Já as festas de camisa têm hora para começar e acabar pré-determinadas e acontecem em espaços privados definidos e racionalizados do ponto de vista comportamental. Enquanto que nas festas rave a música eletrônica é ouvida e dançada em todo transcurso do evento, nos forrós de camisa os organizadores diversificam a musicalidade, apesar do predomínio do forró eletrônico ou eventualmente da axé music.
Se na dimensão espacial há um predomínio da concentração nas festas juninas espetacularizadas da atualidade (em praças públicas ou em arenas privadas), em relação à questão temporal pode-se falar em uma dispersão, na medida em que as comemorações do ciclo junino se ampliaram e se atomizaram, indo, portanto, além da pontualidade cronológica das festas do passado, restritas aos dias 23 e 24 de junho.
Tempo e espaço são duas importantes categorias analíticas para as Ciências Humanas que priorizam a matriz espacial como o Urbanismo e a Geografia, por isso deve-se evitar acepções estanques e dicotômicas. Segundo Santos (2005, p. 63):
Tempo e espaço conhecem um movimento que é, ao mesmo
tempo, contínuo, descontínuo e irreversível. Tomado
isoladamente, tempo é sucessão enquanto espaço acumulação,
justamente uma acumulação de tempos.
O autor enfatiza que o espaço atual e o tempo atual complementam-se, mas também estão em contradição, pois, somente a partir da unidade do espaço e do tempo, das formas e do conteúdo, é que se podem interpretar as diversas modalidades de organização espacial.
No caso específico das festas juninas no Recôncavo baiano, pode-se afirmar que há um predomínio da concentração que permite, nas suas interfaces e fissuras, uma relativa atomização da festa (em bares, residências, em uma praça periferizada, em torno de veículo).
Do ponto de vista temporal, qual a importância em termos de uma cronologia mecânica de 4 ou 5 dias de festas em um calendário anual de 365 dias? A frieza estatística da racionalidade temporal instituída não é capaz de revelar a importância simbólica dos poucos dias dos festejos juninos para os foliões. O que aconteceu, sobretudo, a partir da década de 1990, com as festas juninas, foi uma dispersão temporal. Ao longo do ano, dezenas de bandas de forró realizam shows que se tornam mais frequentes e concentrados nos meses que antecedem as festas do ciclo junino, como março, abril e maio.
O mês de junho é o ápice festivo e em julho acontecem as “ressacas” de algumas festas. Nos outros meses do ano acontecem vários shows, principalmente em arenas privadas e, eventualmente, nos espaços públicos, comemorando-se o aniversário da cidade, uma inauguração importante ou mesmo como extensão das atividades profanas no entorno das festas do sagrado, em homenagem à padroeira ou ao padroeiro da cidade.
Fora do ciclo junino pode-se notar tanto a musicalidade quanto as performances dançantes típicas do período do São João. Essa atomização do tempo, destacada neste trabalho, evidentemente foi acompanhada de uma consequente atomização espacial; as festas de conteúdo junino fora do ciclo formal acontecem em espaços eventuais da cotidianidade funcional, a exemplo de uma praça periférica que foi reformada, ou nas múltiplas arenas privadas de alguns bares ou restaurantes que periodicamente realizam festas dessa natureza. Essa relativa atomização da festa é notada no espaço e ocorre ao longo do tempo, portanto trata-se de uma deflagração festiva que não sincroniza com os megaeventos do clímax junino.
Entende-se desta forma que as festas juninas urbanas da contemporaneidade revelam-se como eventos predominantemente concentrados e eventualmente dispersos, sob a ótica espacial, e predominantemente atomizadas, do ponto de vista temporal, e/ou sazonalmente concentrada na segunda quinzena de junho.
O rearranjo espaço-temporal pode ser entendido como um indicativo de descaracterização que pode comprometer a “essência” das festas juninas tradicionalmente organizadas no mês de junho? Deve-se ter o cuidado para não se procurar “resgatar” a essência de uma pretensa festa perdida no passado. Predominantemente o viés mercadológico das festas juninas urbanas contribuiu para acelerar algumas transformações notadas em eventos dessa natureza nas duas últimas décadas; entretanto, as circunstâncias são outras, por isso, a dinâmica cultural dessas festas também passou por mudanças estruturais.
Segundo Lipovetsky (1989), o efêmero revela o essencial da modernidade em plena contradição ao culto à estabilidade, ao durável. Não precisa existir uma razão mítica ou auriática para justificar a deflagração de grandes festas juninas de arena, na medida em que a rememoração cultural é prescindida em um contexto no qual o importante é festejar aquele/naquele momento.
As festas juninas brasileiras inegavelmente se constituem em manifestações que expressam a diversidade do patrimônio cultural brasileiro; no entanto, algumas festas privadas, como as festas de arena, podem ser consideradas como um desdobramento do ciclo junino, voltado especificamente para um determinado tipo de diversão explosiva e efêmera, que coopta determinada faixa etária, cujo interesse dos promotores é auferir lucros, e dos festeiros é se divertir, reencontrar amigos, namorar, “ficar”, flertar, dançar etc.
Em algumas festas públicas nota-se um esboço de “presentificação” do passado na composição estética, com a inserção de alguns elementos como casas de taipa, lamparinas ou simulacros de pequenas capelas. Para Arendt (2002), a cultura relaciona-se com objetos e é um fenômeno do mundo, enquanto que o entretenimento relaciona-se com as pessoas e é um fenômeno da vida. Nesse contexto, a sociedade de massas produz continuamente novas formas de entretenimento em um viés claramente mercadológico porque, a sociedade de massas precisa de diversão e não de cultura e essa diversão está assentada, sobretudo, no presenteísmo e na efemeridade. (ARENDT , 2002)
O caráter efêmero, pontual e mercadológico das festas de arena privada apontaria para uma leitura espacial desses eventos como exemplos de não lugares? Essa questão remete a outra: não lugar para quem? Retomando as reflexões de Augé (1994), que concebe os lugares como espaços relacionais, identitários e históricos, pode-se afirmar que um dos pontos mais consistentes das festas de camisa é a perspectiva relacional intra e inter-grupal, como comprovam as pesquisas de campo.
Os contatos através de recursos da internet como sites de relacionamentos ocorrem no período pré-junino e junino e envolvem grupos de amigos, parentes, colegas de escola ou faculdade, vizinhos, colegas de trabalho entre outros. A opção pela modalidade de festa junina pode ser também um indicativo de traço identitário ou multidentitário do festeiro, que, à sua maneira, constrói uma curta e explosiva história de vida naquele lugar festivo e com aquelas pessoas do seu circuito afetivo, mesmo que com um caráter sazonal e pontualizado temporalmente.
Partindo-se das abordagens de Yi-Fu-Tuan (1983), que considera lugar um recorte espacial significativo, independente da sua dimensão espacial, pode-se afirmar que a arena festiva pode ser considerada como lugar não no sentido da durabilidade da sua apropriação, mas pelo caráter simbólico afetivo da vivência do tempo festivo junino por parte de alguns jovens.
Pode-se afirmar que as festas de arena aguçam a desterritorialização na dimensão incorporal, que prescinde da mobilidade. Como lembram Deleuze e Guattari (1997a) a vida é um incessante processo de desterritorialização/reterritorialização, que obriga as pessoas a mudarem de um território para outro constantemente sem destruir os territórios anteriores.
Além dessas assertivas sobre os processos territoriais, a dialogicidade teoria/empiria ao longo da pesquisa nos permitiu notar a existência de espaços de interface no entorno das festas de arena, que correspondem àqueles locais apropriados provisoriamente por vendedores ou mesmo observadores na entrada das fazendas promotoras das festas privadas.
Esses espaços de interface teriam um caráter híbrido, na medida em que mesclam o elemento toponímico (relação do morador com o lugar) e topológico, relacionado à inserção geográfica da arena festiva e, ao mesmo tempo, destoante e artificializado pelo suporte tecnotrônico, pela sonoridade e tipologia do público presente.
O espaço festivo da festa de arena é demarcado pela sonoridade, na medida em que os aparelhos eletrônicos também territorializam o espaço, como afirmam Deleuze e Guattari (1997b), referindo-se ao espaço privado do lar.
A ação persuasiva dos meios de comunicação, a monumentalidade tecnotrônica da plataforma festiva, as formas espaciais efêmeras, a fama dos artistas e a sonoridade que se espraia difusamente pelo entorno criam uma atmosfera de desejo que pode desembocar em um processo de desterritorialização festiva em um plano imaginário. A não-participação na festa famosa fará com que esse folião procure outras modalidades festivas gratuitas (praças públicas) ou privadas mais acessíveis economicamente. No entanto, o desejo ficará subjacente como uma reserva subliminar, podendo ser reativado a qualquer momento.
Depreende-se, portanto, que a concepção de território, quando aplicada à análise das festas juninas de arena, transita do mundo incorporal, passando pela dimensão do simbólico e abarcando o substrato físico, material, palpável e visível, demarcado e vigiado no sentido apontado por Michel Foucault (1977) e sobrecodificado no sentido da sociedade de controle de Gilles Deleuze (1992). Os processos de territorialização/desterritorialização/reterritorialização festiva, tanto na dimensão material quanto incorporal, transitam do estranhamento ao reencontro de forma processual.
A partir da leitura do “Forró do Bosque” enquanto espaço/ plataforma racionalmente montado que gera eventualmente estranhamento por parte de alguns idosos residentes nas localidades de Pumba e Lisboa, e de desejo para muitos jovens, pode-se questionar se essas pessoas efetivamente desejam empreender um evento festivo de contraespetacularização na dimensão microescalar, comunitária, a qual os partícipes protagonizam a trama festiva.
Será que a pequena festa na capilaridade comunitária poderá ocorrer avizinhando-se com a festa-espetáculo das arenas privadas e com os megaeventos do espaço-público? São problematizações que surgem ao longo da pesquisa para as quais não se encontram respostas imediatas, mas que permitem várias digressões.
As festas juninas concentradas em arenas privadas como o Bosque e Piu Piu representam uma modalidade de rerruralização das festas juninas? Acredita-se que não tanto pela tipologia e natureza dessas festas como pelo seu caráter destoante em relação aos seus respectivos espaços de inserção.
Trata-se mais de uma reinvenção mercadológica do entretenimento festivo junino que é aproveitada intensamente por determinados segmentos de foliões juninos. Segundo Lefebvre (1991a), a vida urbana começa ao mesmo tempo nos restos da vida rural e nos destroços da cidade tradicional. Desta forma, não existe hiato cartesiano entre o rural e o urbano, nem do ponto de vista da materialidade (configuração espacial) e muito menos na perspectiva dos aspectos intangíveis da sociedade, como as suas manifestações culturais, a exemplo das festas populares.
Será que no cenário festivo de espetacularização e segregação socioespacial não aparecem às microfestas da dimensão comunitária, reinventadas pelos moradores das cidades-polos festivos? Lefebvre (1991a; 1991b) defende o reencontro da festa com a superação da oposição cotidianidade – festividade. Para isso, o autor em tela defende a imprescindibilidade do sujeito urbano ativo:
Na medida em que o urbano se realiza criando a sua obra
(morfologia, estrutura urbana, lugares modelados e moldados,
espaços ou espaços adequados), a apropriação volta à cena,
sobrepuja os opressores e subordina o imaginário ao estilo e à
obra: pelo monumento e na festa. Desde então a vida urbana
devolve a atividade lúdica (ao jogo) sua importância perdida,
suas condições de possibilidades. [...] Paradoxalmente, o lúdico
e o jogo, restituindo-se, contribuem para se restituir o valor de O subcapítulo intitulado “Nem a casa, nem a rua: as festas juninas espetacularizadas na arena privada” pode passar a impressão equivocada de que se trabalha nesta obra com proposições dicotômicas, a partir das quais um elemento, evento ou processo social substitui abruptamente outro, impedindo coexistências, aproximações, vizinhanças, um arranjo acentrado em uma perspectiva fragmentária.
uso, o uso dos lugares e dos tempos, situando-se acima do
valor de troca. A vida urbana não proíbe a mass media, as
trocas, as comunicações, as significações; ela exclui a
metamorfose da atividade criadora em passividade, em olhar
puro e vazio, em consumo de espetáculos e de signos. A vida
urbana pressupõe essa intensificação das trocas materiais e
não materiais, mas por hipótese transforma em quantidade a
qualidade [...]. (LEFEBVRE, 1991a, p. 201-202)
Tanto as festas em espaço público como as privadas são consideradas pelos gestores de Amargosa e de Cruz das Almas como vitrines para mostrar as potencialidades locais, estimulando assim o retorno do visitante em outro período fora do ciclo junino, ou seja, trata-se de uma estratégia de venda da imagem da cidade.
Nesse contexto de espetacularização mercadológica pode-se afirmar que após os anos 1990 a praça pública e a arena privada substituíram a casa como espaço festivo do ciclo junino?
No presente trabalho evita-se a utilização de acepções binárias, duais, que tentam simplificar ou banalizar de forma excessiva fenômenos sociais revestidos de certa complexidade. A casa foi ressignificada como espaço festivo no período junino, nesse quadro de reinvenção do lazer festivo urbano na dimensão das festividades populares, como se destacou no capítulo anterior.
Novas modalidades e espaços para deflagração de festas surgem, desaparecem, são reinventados ou adaptados ao longo do tempo em um dinamismo sociocultural incessante, e, nesse contexto de permanências, rupturas, transformações e recriação surgiram as festas juninas de arena como uma estratégia mercadológica para os promotores, mais uma modalidade de lazer festivo para os foliões que delas participam, e sonho de consumo para aquelas pessoas que desejam participar de um evento dessa natureza, mas que dificuldades de ordem financeira lhes inviabilizam a participação. A proliferação desses eventos não significa uma descaracterização do período junino e sim o surgimento de uma nova modalidade de festa.
A expressão “Nem a casa nem a rua” foi elaborada inspirada na clássica obra de DaMatta, “A casa e a rua” (1987), e o seu objetivo é exatamente o de mostrar diferentes facetas espaciais das festas juninas da atualidade e a natureza assimétrica da polaridade desses espaços, ou seja, a força do magnetismo de alguns lugares festivos, como praças públicas e arenas privadas já consagradas, que é mais expressivo que o da casa ou das ruas de determinados bairros populares.
Apesar de existirem vários espaços festivos, como bares, barracas, clubes, ruas, hotéis e casas, a arena da dos forrós de camisa é o principal espaço da trama festiva para os jovens, enquanto que as praças do espaço público se constituem no espaço topológico que protagonizam a trama festiva para diferentes faixas etárias, como será abordado no próximo capítulo.