Da Loucura e das Manias em Portugal

Júlio César Machado · Capítulo 9 de 13

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Da Loucura e das Manias em Portugal

IX Encantos

IX

Encantos

Os encantos veem de longe. Circe, a encantadora por excellencia, converteu em porcos os companheiros de Ulysses:

Carminibus Circe socios mutavit Ulyssis

Para quem combatera na guerra dos dez annos não deve ter sido uma methamorphose muito agradavel!—O{156} grande impostor do Simão magico, contemporaneo dos apostolos, para mostrar o seu poder egual ao dos deuses quiz voar por cima de Roma—como o nosso Bartholomeu Lourenço por cima de Lisboa. S. Pedro, que assistia á experiencia, fez por intermedio das suas orações que caisse das alturas e se despedaçasse...

Nos tempos modernos em Portugal os grandes encantos teem sido os das mouras. Querem muitos que ellas hajam ficado no nosso paiz desde a dominação mourisca, e vivam escondidas nas covas e no mar—para melhor guardarem os seus thesouros, que constam de perolas, esmeraldas, rubis, saphiras,{157} cordões de ouro, brincos, anneis, pulseiras, e broches de diamantes de um primor de desenho superior ao do florentino Cellini. Parece que saem de madrugada para arejar em terra os bens, e desapparecem aos primeiros raios do sol, apagando-se-lhes logo a riqueza e voltando outra vez a guardar á sombra a sua formosura e as suas joias. Pretendem outros que ellas se recolhem antes do cantar do gallo, e á meia noite se lhes acaba o encanto e o poder,—como diz Garrett na D. Branca:

E ai! se o gallo cantou, que á meia noite

Encantos quebram, e o poder lh'acaba.

Muitas vivem nas fontes.—Algumas{158} têem ido á India n'uma casca de ovo. No campo ainda se usa hoje quebrar a casca dos ovos para que as encantadas ruins não embarquem nellas, e vão chupar o sangue de meninos por baptisar.—Algumas têem-se fingido encantadas, para as desencantarem melhor. Á sombra dos encantos tem havido muita casta de obra, e não poucas se serviram d'isso para apanhar marido. Lá o indica bem a trova da «Encantada»: o cavalleiro vae á caça e encontra no arvoredo uma donzella que lhe diz achar-se ali por sete annos e um dia, e completar n'esse dia o fadario. Offerece-lhe elle saltar para o cavallo, e dá-lhe a escolher:{159}

Ou nas ancas ou na sella

Onde fôr mais honra minha.

Ella trepa. Partem. Vão seguindo. E lá pela estrada adiante, ella larga a rir, a rir...—Estava a zombar d'elle. Era tão encantada como eu!...

No paiz do peixe e das perolas, do coral e das alforrecas,—no mar—ha-as tambem, e dizem que em maior numero hoje do que em terra. É o reviver das divindades humidas da fabula; successoras das naiades e das nereidas, que o christianismo enxugou com o exorcismo; menos bonitas, provavelmente, do que as sereias pagãs, que encantavam{160} Ulysses com o soltarem a voz deliciosa, e o faziam torcer-se todo, preso ao mastro do navio; mas descendentes, mas netas d'ellas,—e, o que é mais, mulheres como as outras, dos bicos dos pés á cabeça! Conta-se o caso de não sei que moço, que deixou uma d'ellas para ir casar com a filha de um capitão mór de aldeia; durante o jantar das bodas, o noivo ergueu casualmente o olhar e viu um pésinho alvejante e nu a sair do tecto;—affirmou-se, conheceu que era o pé da sua encantada, aquelle bonito pé que elle beijára tantas vezes, e entendeu logo de si para si o que queria dizer um signal d'aquelles. Mandou chamar{161} um padre, confessou-se, pediu os Sacramentos, e dispoz-se a bem morrer. Á meia noite expirou, depois de recommendar muito que o enterrassem em certo sitio...

Ha quem diga que são mais bonitas do que as fadas, e querem outros que sejam feias de metter medo. Fazem-se-lhes os dentes verdes e os olhos ficam parecendo olhos de peixe. Não deixa de haver harmonia n'estas opiniões desencontradas; porque, variavel como a onda que a encobre, a encantada no mar deve ora ser horrivel como a vaga furiosa, ora fresca e pura como a agua transparente. Refere-se que em tempos iam todas as manhãsinhas á praça{162} fazer compras; eram conhecidas por terem sempre molhada a orla do vestido. Eram mulheres pallidas quasi sempre, que andavam de olhos no chão sem dar palavra a ninguem. Pagavam tudo com moedas de dez réis furadas. Em Peniche trata-se ainda d'ellas como de coisa certa. Mostra-se perto das Berlengas o sitio em que fallou uma; appareceu, ao sair do luar, com um espelho na mão, e gritou aos marujos que não tivessem medo porque estavam perto de terra: mas em elles lhe vendo a cara não tornavam a ver terra nunca mais e o caso foi que ali se perderam todos n'essa noite...

Teem genio proprio do elemento{163} em que vivem; graciosas e crueis; amantes e perfidas; gostando de levar os homens para debaixo de agua, o que tambem era a balda das nymphas. Quando os affogam já ouvi dizer que não é por mal; até ás vezes se apaixonam por elles, e lá acham maneira de os consolar por esses mares de Christo da travessura de lhes roubar a existencia humana.

Não podem ficar em terra além da hora marcada, e os amores que por cá têem acabam sempre mal. Ainda ha no Baleal a tradição de um rapaz padeiro que morreu doido por causa de encantamentos, e de encantadas,—que ora lhe appareciam á borda dos regatos a{164} pentear os cabellos de oiro, ora á tona d'agua nos poços, ora nas ondas do mar; até que, uma occasião em que elle estava dormindo encostado a um muro, se lhe enroscou ao corpo uma que andava em figura de cobra...

Por duas ou tres vezes na Nazareth uns pescadores as apanharam ao colher da rede e fizeram a diligencia de ver se ellas fallavam:—mas conservaram-se sempre tristes e caladas, sem quererem comer nem beber, e, tão depressa puderam, fugiram outra vez para a agua... Tudo isso já lá vae. Hoje, as banhistas fazem-lhes concorrencia. A Deuza dos Mares, a Flor de Lisboa, e os vapores do{165} sr. Burnay, assustaram-as. Deixaram de vir ter comnosco. D'aquelle serralho liquido já não saem cá para cima senão os mudos,... que são os peixes!...

De que provém, o encanto das mulheres? Não ha sabel-o. Até a formosura poucas vezes lhe vale. As bonitas, bonitas, têem muito quem as gabe e pouco quem se apaixone por ellas. Os defeitos ás vezes são o grande segredo do seu poder,—porque a graça precisa de ser picante. É como com as flores; roseira que não tenha espinhos ha só a do Japão; dá rosas bonitas,—mas sem cheiro! O encanto nos tempos de hoje está onde a gente o põe—n'uma creatura,{166} n'uma vaidade, n'uma paixão, n'uma mania. Para uns é a mulher; para outros é o dote. Para alguns, uma particularidade qualquer; uma imagem emblematica, uma palavra ás vezes—como succede com os titulos dos reis, cada um de seu primor especial; em Hespanha «magestade catholica», em Portugal «fidelissima» na Monomotapa «senhor do sol e da lua»!... Ha um supremo encanto que transforma tudo; vence, derruba, consegue; mas n'esse quasi ninguem faz reparo:—a vontade.

Heroismos, casos de romance, aventuras phantasticas—tem ella o encanto de realisar tudo isso. Um homem de perto de Barcellos, chamado{167} Manuel Corrêa, que em 1838 viveu no Rio de Janeiro, guiou sósinho um navio, que a tripulação abandonára, no meio da tormenta navegando sete dias até fundear no porto de Santos!

O encanto toma differentes fórmas e esconde-se ás vezes nos objectos de apparencia inanimada,—nas bengallas e nos chapeus de chuva por exemplo: trastes perfidos e caçoistas... Em estando para chover já a bengalla o adivinha com o seu instincto nativo de marmeleiro, e vem offerecer-se muito lampeira á hesitação em que uma pessoa está:—depois, em se apanhando fóra de penates, se desaba a cair chuva e o sujeito fica encharcado{168} põe-se a bengalla lustrosa de agua a rir, a rir... Pelo contrario, em o sol estando com tenções de tirar d'ali a nada a caraça de nuvens e brilhar senhor do firmamento azul, o chapeu de chuva dá logo por isso, pressente-o em cada fio da seda, trepa-se no dono antes de elle ter tempo de consultar os ares, e ahi sae para a rua—não chovendo, e ficando o pobre homem condemnado a andar com elle todo o dia debaixo do braço. Ha encanto! ha encanto na bengalla e no chapeu de chuva; representam a vida debaixo dos seus principaes aspectos,—a borrasca e a bonança, a tormenta e a calmaria! O chapeu de chuva ergue-se para o ceu,{169} e a bengalla volta-se para o chão; elle levanta-se, e ella curva-se: elle desabrocha nas nuvens e defende-nos do que vem de cima, ella serve para os casos terrestres e para nos defender o lombo do que vae cá por baixo!

O encanto principia a ter poder n'uma pessoa antes mesmo d'ella nascer. Chorar na barriga da mãe é annuncio de que se ha de ser feliz n'este mundo—Mas, se a mãe, em conversa, contar a alguem que o filho lhe chorou no ventre, corta-lhe a sorte, e nasce anão ou gigante. Qualquer das coisas não é boa. Os gigantes em Portugal saem sempre inferiores—haja vista aquelle do Minho, que esteve ha{170} annos em exposição na rua Nova do Carmo, espantalho enorme para qualquer profissão, mas um tanto chôcho para gigante. Depois a vida que levam é de mau fadario; nem namorar podem, por não haver donzellas que se exponham a affrontar seu desmesurado affecto, e por ser necessaria uma escada de mão para se lhes fazer festas na cara!

Ser anão tem mais vantagem, cabem em qualquer buraco, vestem-se com um metro de fazenda, e quando morrem basta-lhes um caixão pequenino; mas não se póde dizer que seja muito bonito, e é arriscado a desordens, porque ás vezes, mesmo sem querer, lá dão{171} uma cabeçada nos callos de quem vae passando...

Em as meninas tendo comichão no nariz é aviso de que n'esse dia um rapaz lhes ha de dar um beijo;—em lhes comendo a palma da mão, já a gente sabe que está para receber dinheiro, mas é preciso não coçar e fechal-a logo;—a orelha direita quente, estão a dizer bem de nós: quente a esquerda, alguem nos corta na pelle.— Na madrugada de S. João quem fôr lavar a cara á fonte, fica bonito: —e quem nadar n'essa noite alcança o que quizer, levado na onda que dá fortuna e indo ao porto onde os amores sorriem...

Os dois encantos negros são as{172} almas penadas e os lobis-homens. A preta Domingas, que vendia fava rica, enviuvára; ao lado da sua casa morava um sapateiro, menos barbudo que Merlim mas da força d'elle em malandrinices. Alta noite o sapateiro trepava-se-lhe á chaminé e gemia lamentosamente:

—Eu caio! A minh'alma anda pinando as penas di purgatorio. Sou o teu difunto marido, i peno por ter ficado a diver uma moeda ao vijinho sapateio...

—Pois não ha de pinar por isso a tu'alma, pae Faxico! respondeu a preta. Eu lhi pagaré, ao vijinho sapateio!

E pagou. E o sapateiro foi arrecadando{173} a moeda, dizendo com modestia que não era pressa. E d'ali em diante era certa a lamuria, pela noite velha, ora por dividas de jogo, ora de marufo, e a Domingas ia pagando até que uma vez se cançou do encanto e lhe redarguiu:

—Qui a tu'alma vá p'ra o ceu, qui a tu'alma vá p'rá inferno, eu já não dou mais rial ao vijinho sapateio!

E o caso foi que desde então a alma do sapateiro é que principiou a penar deveras e tambem o seu corpo, porque a preta cumpriu o que disse e nunca mais lhe deu vintem.

As almas penadas são d'esta qualidade;{174} e tambem defuntos, que por lhes faltar alguem á palavra dada—vagam n'este mundo, até que lhes satisfaçam as ultimas vontades.

Lobis-homens são pessoas que andam a cumprir sina, a cumprir um fadario, mudados em animaes; em lobo, em cão, em gato, em burro... Tão depressa apanham encruzilhada onde se tenha espojado animal, despem-se logo, mudam-se n'elle, e espojam-se tambem. Isto é,—espojavam-se. Isso não continua, e até já ouvi dizer que succede agora ao contrario, para variar, e que tem por ahi apparecido seu burro—mudado em homem.{175}