Da Loucura e das Manias em Portugal

Júlio César Machado · Capítulo 12 de 13

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Da Loucura e das Manias em Portugal

XII Coisa má

XII

Coisa má

«Coisa má!»

«Coisa má» se lhe chama; e por peior que seja sempre ha de ser preferivel á ruindade humana;—que mais vale dar uma topada ou uma canellada do que encontrar certas caras!

«Coisa má» é a lua de março;{214} a lua marcina, como lhe chamam no campo—que nem deixa saber se haverá trigo ou milho emquanto ella não passar; coisa má é a terra esquentadiça e delgada, a terra que aperta e não produz, defronte mesmo de chão fresco, chão de barro, ao pé de varzea; coisa má é o lameiro virgem; a espada que matasse homem, ou que passasse tres vezes o Douro e o Minho; o lenço de assoar que nos deram sem que recebessem cinco réis em troca...

Salta nos atomos a ironia, as moleculas andam a rir-se; são laços, armadilhas, ratoeiras, os corpos mortos que nos rodeiam; parece que não ha objecto que não{215} tenha morador, que não tenha inquilino, que não tenha «coisa má» em si; espiritos malignos que espreitam pelos poros com o seu olhinho gasio, fazem caretinhas á alegria em que uma pessoa esteja e rompem em risota perante as maguas que nos pesam... Demonios hostis, pequerruxinhos, invisiveis, que estão sempre á caça de nos pregar peça...

Anda, ás vezes, mezes a fio «coisa má» com a gente—que nem que fosse um cão escondido de que só se aviste a baba e a mordedela... Em se pondo chapeu novo, é sabido que ha de chover. —Fato que se vista pela primeira vez, não deita ao sol posto sem lhe succeder{216} precalço; anda um homem com calafrios na golla, e acrescimos nas abas, passam pressentimentos nas pernas, e apertam-se as fivellas com susto do que se está passando...

Ah! rico palletot velho, chapeu companheiro das noites de inverno, capote das rapaziadas e das aventuras,—que de extensas marchas na estrada da vida! Esses trastinhos é que são amigos, esses é que nos sabem do feitio, e que se ageitam bem ao corpo.

Que differença com o fato novo, que se trata como a Santo Antoninho onde te porei! Se na cidade toda não houver mais do que uma porta pintada de fresco, lá ha de vir caso urgente que leve uma pessoa{217} a ir por ali roçar-se e arranjar divisas na manga como um sargento; ou um diabrete de algum preguito que tenha estado annos n'aquella umbreira sem fazer mal a ninguem, até que nos apanhe com um farpão formidavel!

Ha coisas que se perdem sempre; outras que sempre esquecem: a chave do trinco, por exemplo. Que de noites fica o sujeito durante horas batendo á porta, na esperança de que o visinho se compadeça d'elle,—ou, o que ainda é peor, que de noites tem o homem de ir dormir fóra de casa por não ter comsigo a chave do trinco! Noites de aventura forçada, noites sem graça e sem gosto, quasi sempre{218} a chover, e o pobre diabo a vagabundar e a ir bater quem sabe onde!?

Que, diga-se a verdade e não deitemos toda a carga ao lombo da chave do trinco—não é só ella que tem coisa má, são todas as chaves. Em sendo preciso abrir porta, caixa, armario, ou malla, ahi se somem ellas, e toca a procurar d'aqui, a buscar d'acolá, e vae e gira e anda e volta, até que vão achar-se muito bem fechadas n'uma gaveta!

Em antigas relações de autos da fé e sentenças da Inquisição ha mil historias de «coisa má,»—poços que atiram para fóra com o que se lhes deita; hervas de maleficio{219} que se mettem de proposito debaixo dos pés da gente, pedregulhos em que mora ferrabraz, satanaz, caiphaz...

Ás vezes é o mau olhado. Está a «coisa má» nos olhos, no feitio, na luz e influencia d'elles; e a gente deixa-se levar de apprehensões, de inquietações, a recear de tudo, e a querer saber, a querer explicar... Por isso faziam bem os egypcios,—nunca houve povo com mais juizo!—que cortavam as curiosidades e as manias com a religião, e fizeram da noite origem de tudo quanto ha, mundo, estrellas, soes, divindades. Noite. Armar em dogma e em artigo da fé a escuridão que envolve as coisas, e{220} adoral-a por não saber que explicação lhe dar.

Que ás vezes succede que a «coisa má» possa parecer boa. Ahi está que havendo em Portugal superstição para com os tortos, já um poeta dos principios do seculo passado, mascarado com um pseudonimo, os cantou no poema da Monocléa; poema destinado ao louvor dos cegos, vesgos e zanagas, e em que se diz de Camões como quem dá de vez com o segredo da sua gloria:

De um olho claudicava de tal arte

Que celebre se fez em toda a parte.

Tudo vae da disposição d'animo, do interesse, e da optica. Um agiota,{221} sempre certo no Terreiro do Paço, da uma hora ás tres, debaixo da arcada, emprestava dinheiro—n'uns tempos de crise politica e financeira, de que o paiz ficou guardando má lembrança— a 9 por cento.

Dizia-lhe um amigo:

—Ó homem! Isso é esfollar de mais! Olha lá o ceu não te castigue. Deus vê tudo, e estou que não te perdôa essa!

—Deixa-o ver, respondia o outro. Eu bem sei o que faço. O 9 visto lá de cima parece um 6.

Ha dias em que todas as cousas realmente parecem querer-nos mal, e em que as contrariedades veem em ranchos, em grupos, em series;{222} desde o saltar da cama até ao deitar á noite como que se vae caindo de barranco em barranco; parece estar-se destinado como o Sybarita a que até a prega de uma folha de rosa nos sirva de incommodo para nos sentarmos. Não se póde trabalhar, nem pensar sequer. O correio, arauto do torneio da vida que todos de manhã esperam soffregos, ou não traz carta ou traz más novas;— sae-se para a rua sem haver escovado o fato;—as pessoas a quem se procura, em morando alto não estão em casa;—ao voltar da esquina está á porta da taberna um bebedo a comprar castanhas, e entorna por cima da gente o copo que tem na{223} mão;—é n'esse dia quasi sempre que um homem se constipa, rompe a espirrar duas horas, e fica sem o botão do collarinho...

Em Portugal as classes cultas são tão dadas á superstição das series como o povo; em lhes succedendo um revez não descançam emquanto não chegam mais dois; tres é o numero.—Decorrem dias, semanas, mezes, sem haver incendio; mas, em tocando a fogo, dizem que é certo não parar n'aquelle, e os gallegos ficam logo de pé no ar para irem buscar outra vez a bomba.

É da indole da nossa terra dar vulto a estas manias, pelo amor que ha aqui a tudo que seja casos{224} sombrios, dias nefastos, e cousas relamborias. É sabido! Precisamos absolutamente de tudo que for mofino e tetrico. Indifferentes, preguiçosos, desenchabidos, de tudo isto nos consolamos com tanto que venha de tempos a tempos alguma celebreira carregada e tristonha para nos entreter; de Garrett ou de Castilho é raro o que saiba um verso, mas qualquer será capaz de recitar entre a pera e o queijo o fado de João Brandão!

Ha sitios de que se gosta, sem sequer ás vezes saber porque; cada casa tem por assim dizer uma alma, e dá-se uma pessoa bem, mas muito bem, muito melhor que n'outras, n'uma certa; ha um recanto{225} do jardim, que cheira mil vezes bem depois d'estes chuviscos do outomno, e onde a gente gosta de estar ao cair da tarde espreitando o ceu por entre a rama das arvores;—ha até simples objectos, coisitas de nada, que exercem attracção nos animos e nos dão gosto em os ver... Mas lá está, lá está no fundo a coisa má;—e esses objectos a que mais se quer serão os que hão de perder-se mais depressa,—e os sitios queridos, a casa, o quintal, a arvore, têem de ser os que a gente haja de deixar mais cedo contra vontade!

E o mesmo succede a tudo que tiver «coisa má;»—o amor, a formosura, a mocidade: tres coisas realmente boas; as tres coisas{226} melhores que ha; e tambem as que mais depressa fogem, —que até têem azas como os anjos, e voam como as andorinhas!

Nas familias portuguezas o terror pela «coisa má» tem variado muito, e chegado por vezes a ser jocoso. Houve tempo em que mettia medo quem sabia fallar francez. Não se queria matar os meninos com estudos; o estudar fazia mal. Lembravam-se dos exemplos da antiguidade, e do fim desgraçado de homens notaveis, —Euripides despedaçado por uma matilha de cães, Cicero degolado, Socrates succumbindo ao veneno! Destinavam um a mercador, outro a cadete,{227} o mais gordinho ia para padre. Em todo o caso—nada de fallar francez. Dizia-se de um rapaz:

—É um extravagante. Jogador, caloteiro. Bate no pae... Até me dizem que falla francez!

—Sério? perguntavam todos.

—Ha quem o ouvisse.

Depois, e já no meu tempo, inspirava igual panico usar chale-manta quando appareceram os primeiros em Lisboa.

—É um bregeiro, dizia-se. Não é limpo de mãos...

—Sim, sim.

—Deixa andar a mãe a pedir esmola...

—Sim senhor.

—Até anda de chale-manta!{228}

—O quê?!

—Palavra de honra.

Se formos a observar, em quasi tudo conforme as épocas e as manias ha «coisa má»—e em tudo a «coisa má» póde ser evitada ou combatida. Já ouvi contar de um homem que para vencer os maleficios e armadilhas da sorte e por saber os perigos que resultam das cartas de amores—sempre que escrevia alguma punha-lhe a data do dia de entrudo, para que, se alguem de casa lh'a apanhasse, pudesse a obra passar por brincadeira. A mania de se julgar perseguido pela sorte é uma loucura como outra qualquer, muito frequente em Portugal e tanto mais{229} perigosa que se manifesta por gradações insensiveis. Começa pela melancholia, vae azedando o genio, é-se mausinho e tyrannico, e vae-se indo a um estado de ferocidade que póde dar com um homem em doido furioso.

«Coisa má» é querer trabalhar e não ter em quê; querer amar e não ter a quem; querer remar e não ter braços. O politicão que passa a vida a recusar pastas que não lhe offerecem—diz que o paiz tem «coisa má;» o beberrão que troca as pernas—accusa de ter «coisa má» o vinho de mais que bebeu.

«Coisa má» é a mulher que gosta de outro; e o dinheiro que a gente não tem!...{230}

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