Da Loucura e das Manias em Portugal

Júlio César Machado · Capítulo 11 de 13

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Da Loucura e das Manias em Portugal

XI Sinas

XI

Sinas

Portugal é a terra das sinas,—historias quentes e coloridas como o paiz; contos que nas noites de inverno entretem as creanças pequenas... e as grandes, ao pé do amigo lar.

Quem nascer nos fins de janeiro será sujeito a paixões amorosas (como os gatos): de 13 de fevereiro{194} a 20 de março, nascem os que hão de ser gastronomos:—de 21 de março a 19 de abril, os engenhosos e prudentes, com signal visivel no corpo e ameaçados pela ferocidade de algum animal:—de 20 de abril a 20 de maio, o que ha de casar rico, dar uma grande queda (talvez essa!) e ser careca:—de 21 de maio a 22 de junho, os de sentimentos humanitarios:—de 23 de junho a 22 de julho, gente destinada a demandas, e a viver até os 73 annos;—de 23 de julho até 25 de agosto, os bonitos que hão de casar com mulher que soffra de esterico, ter no decurso da vida perigo grande de golpe de ferro ou aguas do mar, felizes nos{195} negocios, achando algum thesouro escondido (o do Lavradio, por exemplo!):—de 24 de agosto a 21 de setembro, os que hão de exercer cargos do governo (entre nós toda a gente!); as senhoras ficarão solteiras, apesar de grande numero de namoros, e hão de gostar muito de côres espantadas:—de 24 de agosto a 21 de setembro, homens castos (oh!), mulheres activas; cabellos ruivos:—de 22 de setembro a 23 de outubro, ventura no que se emprehende, honradez, passar melhor em terras estranhas do que na patria; mulheres elegantes com uma queimadura n'um dos pés:—de 24 de outubro a 22 de novembro, teimosos, inclinados á astrologia;{196} mulheres robustas, de beiços grossos e dentes grandes;—de 23 de novembro a 21 de dezembro, caracter vergonhoso, afavel, dado á navegação; mulheres com falta de cabello;—de 22 de dezembro a 20 de janeiro, genio iracundo, mentiroso, vão; costume de fallar só; pouco saudaveis; mulheres tafulas, que hão de ser mordidas por algum bicho, brancas, de olhos castanhos, gostando de bailes, tendo muitos namoros, quasi todos militares.

Taes são as sinas, e muito mais ainda; centos de coisas;—tudo. Apparecem, por via de regra, em a gente as procurando: vêem do que nos succeder depois de nascer...{197} ou antes. A mão o dirá. Na mão ha muito. A mão diz tudo. Tudo se encontra e reconhece n'ella, —e já se vê que é d'ahi que provém dizer-se ás vezes:

—Disponha de mim, até onde estiver na minha mão!

Ou:

Peço-lhe isto, por ser coisa que está na sua mão!

Procurêmos por exemplo os peccados mortaes:

Soberba, dedos compridos, seccos, aguçados;—avareza, mão dura e encarquilhada;—luxuria, mãos curtas, gordas, lisas, moles, dedos largos na base;—ira, mão esverdeada e aspera, de unha curta;—inveja, mãos compridas e ossudas;—preguiça,{198} mão branda e macia:

Ter bem claro o M da palma da mão é signal de existencia quieta; as linhas confusas e emmaranhadas indicam vida agitada e tortuosa. A mão direita para isto é melhor do que a esquerda, dizem os peritos; se é que isto não é mais uma velhacada das muitas da mão direita, que anda sempre a chamar as attenções e a armar intrigas para pôr na sombra a irmã, que logo pelo nome principia a perder, coitada, a pobre mão esquerda!

A mania de explicar a sorte pela influencia dos signos, essa podia ter poesia se fosse dita e sentida{199} de outra fórma. Comprehende-se que quem estiver cançado do mundo se refugie nos ceus, com as inquietações que o devoram, a querer ler no firmamento. O astro de Saturno por exemplo tem o que quer que seja de curioso na aureola que o cerca sem lhe tocar, diadema que não se lhe segura na fronte; ha n'isso alguma coisa parecida com a esperança, nimbo de luz que brilha no escuro das magoas, corôa e prisma que nos resplende por cima da cabeça e afasta os raios em vez de os attrair. Os astronomos dizem que aquelle annel não passa de ser mais um satelite—e a esperança é um dos nossos tambem, nuvem de guarda{200} que nos vae consolando com as visões...

A sina é o invencivel, o que está marcado, o que não póde deixar de cumprir-se,—apesar, dizem, de todo o empenho em lhe fugir. Porque se gosta tanto ás vezes de certas mulheres que não são formosas? Porque motivo se deixam em paz as completamente e perfeitamente bonitas, para ir ter paixões devastadoras por uma creatura a quem se reconhecem os defeitos, a quem em certa maneira chega a odiar-se dentro do amor que se lhe tem?!

É a sina, e em tudo é o mesmo: não têem visto ramitos novos a brincarem no tronco centenario{201} dos chorões, e a era a abraçar-se aos muros negros e rachados? Não dizem que as abelhas do Oriente gostam de ir fazer o mel nas ossadas dos animaes mortos? Não se vê os passaros armarem o ninho no colmo das choupanas desertas? É a sina da naturesa material, que tem sina tambem como a natureza intelligente!

Uma formosa que o mundo admira, que se preoccupa de ser bella e de continuar a sel-o, horrorisa-se com a idéa de ter bexigas. A sabedoria das nações diz-lhe que é bom dar duas vezes o braço á lanceta, por mais bonito que o braço seja; que não basta a vaccina da infancia; que é util entregar-se,{202} termo medio, de sete em sete annos áquella operação. Ella consente, e vaccina-se. Espera oito dias como a irmã Anna—sem ver apparecer nada: a vaccina não pegou; tentativa abortada; ahi tem de voltar á obra porque adiante de tudo está a formosura. Segunda representação de vaccina:— trinta segundos; depois, já se vê, da meia hora de preliminares: a paciencia é um facto; ha uma dôrsinha, ha tres borbulhinhas vermelhas, sobresaindo na alvura da pelle immaculada, ha febre, ha tudo: d'esta vez pegou; está segura a formosura. D'alli a dois annos tem bexigas. Diz o povo:

—Era a sua sina!{203}

As trovas dizem-a ás vezes; concertos na eira á desgarrada, cantigas do fado á guitarra; e no mar principalmente, onde os descantes são quasi sempre fatidicos; lá se diz na Chronica de D. Sebastião por Fr. Bernardo da Cruz que na expedição de Africa um tal musico chamado Madeira foi pelo mar cantando á viola a el-rei um romance que dizia: «Hontem eras rei e hoje nem casa tens», trova em que vinha saindo a sina, e que fez tal impressão nos animos que logo se lhe disse que mudasse para outra mais alegre.

Ninguem lhe escapa; dizem que não ha fugir-lhe—nem pessoa nem bicho, porque até os animaes teem{204} a sua sorte escripta:—a sina do porco, por exemplo, é ser comido! Ser comido, haja o que houver; não serve para mais nada; o boi é para a lavoura, o cavallo para a guerra, as aves para o ar: o porco é para a pucilga; as aves são poeticas, o boi é laborioso, o cavallo é nobre, o porco é feio, immundo, e sem prestimo se não para o espeto e para a salga. Ser comido, ser comido; é a sina d'elle!

Que se torça o caminho, que se evite o atalho, que se fuja á estrada, não ha outra saida, dizem, senão ir cada um para a sua sorte. Póde zombar, póde não crer;—a sua sina lá está, ironica ás vezes, maliciosa, cassoista. Um moço{205} elegante e pallido que durante um tempo foi grandemente amado como se lá diz á direita e á esquerda, fez um dia a côrte a uma senhora casada. O marido tinha as maiores mãos de que ha memoria; grandes, gordas, inchadas, vermelhas;—o mancebo detestava as mãos d'elle, e queixava-se sempre de que a sorte houvesse consentido que tão peregrina creaturinha pertencesse a um lapuz com taes mãos. A poder de esforços conseguiu de uma occasião que ella o deixasse ir fallar-lhe tres minutos, tres minutinhos. Estava elle no corredor protestando sua respeitosa adoração, quando se ouviu bater á porta. O susto traz{206} complicações medonhas, e a senhora por não saber o que fizesse—deixou-o esconder debaixo de um sophá! Entrou o nosso homem das mãos grandes, conversou, pegou n'um jornal, estirou-se no sophá, e poz-se a ler. O outro, contrafeito, esticado n'um collete comprido e n'uma calça justa á perna, precisou no fim de tempo mudar de attitude, e fez alguma bulha. O das mãos grandes, sempre lendo, disse:

—Que é isto? É o cão que está ahi debaixo? Anda cá, tó, tó, anda cá tollo...

E deitou o braço de fora deixando pender a mão, a mão enorme, vermelha...

O outro lembrou-se que qualquer{207} suspeita n'aquellas alturas podia perdel-o; e de mansinho, de mansinho, lambeu-lhe a mão; aquella mão phenomenal de que elle tanto se rira sempre!...

Ainda se a sina fosse sempre brincalhona! Mas é cruel, mas é fatal, ás vezes. Abre feridas que nem fecham, nem saram. Quando na primavera da vida o amor surprehende um homem e o prega na parede como se fôra uma borboleta, está feita a sina. A liberdade chegue quando chegar, virá sempre tarde. Os poetas podem ver n'elle Prometheo no Caucaso; mas é isto, simplesmente isto—uma borboleta pregada, a querer fugir, a querer dar ás azas sem poder— porque,{208} de cada vez que as quer librar, alarga ainda mais a ferida e não lhe serve de nada!

A sina annuncia-se tambem no canto de certas aves, que atiram aos ares a buena-dicha. Os rapazes do campo quando andam de povo em povo a assistir ás festas do logar e á feira na intenção de verem as moças e escolherem noiva se as do seu sitio lhes não agradam, mudam de idéa e de rumo se acaso ouvem pelo caminho o canto melancholico d'aquelle mensageiro da primavera que annuncia as folhas—e dizem que annuncia tambem outras coisas,— canto um pouco extravagante, canto de duas notas, o canto do cuco!{209}

A sina vae de geração em geração. De Aben-Afan diz Garrett no poema de D. Branca:

Por onde o traz seu fado?

Oh! negra sina entrou n'essa familia...

Querem dizer que todos vêem ao mundo destinados já para o que hão de ser; por este systema, a vontade, o juizo, e a educação, não têem força alguma; nascem uns para padres, outros para sachristães, estes para ricos, aquelles para pobres; até se diz que muitos nascem para ladrões, e que não podem deixar de o ser: ia á casa de pasto do antigo Simão um freguez, que a unica coisa que{210} não furtava era a má fama que tinha. Levava as colheres, os guardanapos, tudo o que podia apanhar. O Simão tinha muito dó d'elle, por entender que não fazia com aquillo senão obedecer á sua sina; deu ordem para não se lhe dizer nada, e de uma vez quando o homem pediu a conta teve o gosto de ler:—«Pratos 800 réis.»

—Que é isto! exclamou. Então vocês mettem os pratos na conta?

—Cuidei que o senhor os levava! disse-lhe o criado.

A sina é o que a gente a faz ser. A inteireza e o trabalho, que são os cimentos do commercio da vida, dão resultado certo. Até o tempo faz sempre justiça, e apesar{211} de destruir, por maiores que sejam, os monumentos, apesar de arrasar thronos e imperios, respeita certos nomes e conserva-os levantados como pharoes no horisonte da historia e do pensamento. A felicidade não póde estar senão em se ser gente de bem. Tirar a Deus a tutela do mundo para a ir dar a um poder meio fadista a que se chame sina, parece-me uma impiedade e uma tolice!{212}

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