Da Loucura e das Manias em Portugal
XIII As mulheres de virtude
XIII
As mulheres de virtude
O meu amigo leitor conheceu já a felicidade? Por mim, conheço-a pouco, e de vista—apenas. Não poderia siquer dizer-lhes em que rua mora nem a que horas está em casa. Creio que sae a miudo, e não se sabe nunca quando recolhe. Lá uma vez na vida, encontra-a uma pessoa, vê-a dignar-se{232} sorrir para si, e está-se quasi a tocar na mão em signal de estima; mas ella pede cem contos de réis á gente, e como uma pessoa não os traz comsigo... nem com outro— a marota da felicidade volta-lhe as costas e dá ás de Villa Diogo!
De outras vezes, diverte-se com a humanidade; reserva os seus favores para a quadra em que já não ha cabello, ou tira-nos a alegria e a saude na vespera de nos dar a riqueza, como succedeu lá ao
Pero Pico
que viveu pouco e pobre
e finou rico!
As bruxarias são destinadas aos que não querem perceber que a{233} vida seja isto e porfiam em comprar a sorte a retalho, nas cartas e em philtros, ás mulheres de virtude. As mulheres de virtude são as chirogromanas, as chiromantes, as cartemantes de Portugal. As crendices populares dão-lhes grande fama e muita da nossa gente e da melhor as vae consultar a occultas. Especuladoras lepidas, vendem elixires para attrair o amor e artificios para encantar; e sabem das cartas tudo que vae pelo mundo.
Ainda não ha dois mezes, contavam os jornaes de Lisboa a prisão de duas mulheres de virtude, mãe e filha, apanhadas na occasião em que saiam de uma casa na rua dos Correeiros, onde{234} tinham ido exercer as ladras funcções da sua industria. Deitavam cartas, e revolviam as casas onde entravam. Haviam roubado quatrocentos e tantos mil réis, além de roupas a titulo de serem lavadas em agua benta. Vendiam frasquinhos com liquidos especiaes para conservar o amor, e ensinavam ás mulheres casadas que déssem d'isso aos maridos na comida para elles nunca se enfastiarem d'ellas. Benziam a casa com um ramo de alecrim molhado n'um cosimento de mostarda, saramago e alho. Quando as prendeu o policia, esse Antunes muito citado nos jornaes, as benzedeiras enfurecidas ameaçaram-o de lhe salgarem a porta á{235} meia noite de sexta feira em que fosse lua nova.
As senhoras portuguezas em geral são dadas a superstições; vivem condemnadas pela educação e pelos costumes do paiz á inacção, captivas no lar domestico, creadas na solidão—mais profunda sempre que a do homem, que se distrae alguma vez nos negocios e vae-vens da vida. Depois, e isto em qualquer paiz, a faculdade mais desenvolvida nas mulheres não costuma ser a logica; em desejando uma coisa, já lhes parece justa; em a receando, já se lhes figura provavel:—acreditam todas na fatalidade —e a fatalidade é a mãe da bruxaria.{236}
Por isso vão ás vezes, ás escondidas, lá a um beco escuro e immundo que lhes ensinou não se sabe quem, uma criada quasi sempre, trepar por uma escada que range e verga, bater a uma porta carunchosa e perguntar pela senhora fulana, a senhora dona fulana de mais a mais, um diabo de velha com bigodes, ou uma grande verruga no queixo, que traz para ali um pires com agua e a lamparina da noite com azeite, resa um credo em cruz em cima do pires que tem agua, e molha no azeite o dedo minimo da pessoa, dizendo tres vezes o nome d'ella e resando:{237}
Deus te fez,
Deus te creou,
Deus te desolhe
De quem mal te olhou.
Se é torto ou excommungado,
Deus te desolhe do seu mal olhado.
Depois, sempre em bichancros e tregeitos, olhando para a cliente,—fregueza, victima,—assustando-a com a vista, com os modos, vão resmungando de fórma que mal se perceba —«Sant'Anna teve a Virgem, a Virgem teve Jesus: assim como isto é verdade, Deus te desolhe do teu mal olhado!» Se o pingo do azeite fôr ao fundo, tem olhado; como não vae, não tem—e cumpre averiguar as coisas, deitar uma sorte, vencer obstaculos,{238} descobrir de onde vem o mal e acabar com elle;—quer dizer que cumpre principiar a mugir o caso e a roubar dinheiro á consultante. Precisam um dia de uma coisa, no outro dia de outra. Hoje um lençol, ámanhã um annel de ouro, depois um córte de seda preta para fazer um vestido e ir offerecer á egreja uma promessa...—Sei tudo isto por uma mulher que esteve como criada em casa de uma d'ellas.
Entremeiam aquellas exigencias com pedidos faceis, um lenço de assoar, vellas de cêra, e—como diz o povo—para compôr, um pouco de cabello. O cabello é o ponto romantico da gerigonsa. O cabello{239} dá amor, lembrança, consolação; o cabello dá força, o cabello ampara e vivifica. Havia um homem em Alcantara que morreu velhissimo, que levava sempre o amor conjugal a limites extremos—o que não o impediu de casar por duas vezes. Tinha o vicio das mulheres de virtude, e ellas aconselharam-lhe por tal fórma o ter cabello da pessoa amada que o homem resolveu—para conservar sempre fresca e amorosa a lembrança das duas mulheres que haviam feito a felicidade da sua existencia—aproveitar as tranças de cabellos que lhes tinha cortado piedosa e successivamente quando tivera a desgraça de as perder, e{240} mandar fazer daquillo um chinó. Cobria o topete com o cabello de ambas. Os cabellos não eram bem da mesma côr—mas isso não fazia nada ao caso e o ponto era não o abandonarem nunca, por aquella maneira, nem uma nem a outra. Era um chinó de virtude!...
Diz-se que as bruxas teem um signal no olho esquerdo,—mas que só dá por isso quem fôr muito experiente. Ha uma resa para as apanhar, e só podem soltar-se quando o que as prendeu desdisser a oração. Saem de noite correndo e saltando invisiveis por cima de arvores, sebes, e vallados, logo que digam a sua prece de segredo, que acaba por estas palavras: «Vôa,{241} vôa, por cima de toda a folha!» O marido de uma, que não sabia que a mulher era bruxa, notou que ella desapparecia alta noite, espreitou-a de uma vez, viu-a esfregar-se com umas ervas, ouviu-lhe a resa, e teve occasião de observar com que rapidez ella cortou logo o espaço por ares e ventos. Foi-se ás ervas, esfregou-se tambem, e começou de dizer a oração; mas enganou-se n'uma palavra, e em vez de «por cima de toda a folha!» disse:—«Vôa, vôa, por baixo de toda a folha!» Sentiu-se levado por força occulta, foi correndo tambem, correndo, mas a rasgar-se, por baixo das arvores e por baixo dos silvados...{242}
Contou-me este caso um rapaz de Goes, que o affiança tanto ou mais que a si proprio; affirmou-me elle que em uma pessoa sonhando que as bruxas lhe estão chupando o sangue—accorda de nodoas no corpo; e assegurou-me que a boa bruxa é a de nascença, e não a que aprende.
Ora as mulheres de virtude são bruxas que aprendem. Vae aquella arte de mãe para filha. D'isso vivem, d'isso comem e bebem, d'isso compram ás vezes papeis de credito. Não teem só virtude, teem talento, teem saber: até se lhes chama sabias. A humanidade tem-se gosado sempre de possuir seres privilegiados para a instruirem, quer{243} queira, quer não; a sibylla de Gumas, Orpheo, Apolonio; sem fallarmos no Lavater que lia na cara do sujeito, ou no Gall, capaz de cortar o cabello á escovinha ao genero humano para lhe apalpar melhor as bossas. De tudo isto a mulher de virtude é o que tem havido melhor!
Em ellas estendendo as cartas, parece que se abre a terra. Dilata-se-lhes a palpebra, despedem dois raios de fogo de queimar tudo, dão á cabeça, batem o pé no chão, guincham, resam, praguejam, misturam nomes de santos e nomes de bichos, benzem-se, maldizem-se, riem e choram... A pessoa que as consulta, senhora quasi sempre, estremece{244} com aquelle olhar de fascinação, com aquellas palavras de sortilegio... Os bonecos das cartas apertam-na, angustiam-na como se fossem animados; ou então, ao envez, parece zombarem do que se passa e é como se a dama piscasse o olho, o rei deitasse a lingua de fóra, o az de espadas tivesse olhos, nariz e bôca. A bruxa, fumegante de suor, ora tem como que arrepios na espinha, ora tem extasis; anima-se, geme, grita de contente, hurra, arrepela-se, esperneia á proporção que saem as cartas... E como se o espirito da verdade fallando pela boca d'ella estivesse a patentear o quadro das vicissitudes da vida intima, apalpando{245} o presente, avistando o futuro... O valete de ouros é o amante, o cinco de copas são lagrimas, o az de paus fandangos (amores), sete d'espadas desgosto formal, az de ouros prenda, tres de copas com certeza, dois de paus a caminho, quatro de paus prisão, e a espadilha affirma!
É um horror. Não é uma tolice, não é um disparate, não é uma estupidez—é um horror. E a desgraça de familias, a guerra na vida de casados, o mal estar permanente, a calumnia, o roubo, a infamia. Um horror!
Vae esta gente procurar torturas áquellas casas que vendem a inquietação, a angustia, as noites raladas{246} de ciume, de despeito e de odio; casas sinistras em que se respira a fatalidade em tudo— na mobilia que se compõe de uma bilha quebrada e de uma cadeira côxa, nas rodilhas que supprem os vidros das janellas, nas paredes a cair, no fogareiro ao meio da casa com uns carvõesitos quasi afogados na cinza, no galo grande que canta como o diabo, no pucaro com bagos de café e clara d'ovo, no sacco dos bruxedos com pedra d'era e coke, na cruz de alecrim, no espelho, na thesoura, aberta em cruz em cima do sal, no palavrorio de resa que precede o botar a falla:—Credo—cruzes—canhoto—temos bruxaria —saramago—mostarda—alho{247} e arruda—maravalhas e palhas de alhos!
Tudo isto faria rir se não fosse funesto, e não tivesse tanta influencia na gente portugueza, dada a melancholias sem razão, melancholias do acaso, saboreando tudo que é chocho e amargo. Fizeram-nos falta os conventos, casas por excellencia para a indole sombria que temos. Todas essas allucinações de que lhes tenho fallado, telha, enguiços, encantos, agouros, feitiços, sonhos, sinas, coisa má, provêem da falta de educação. Ou se tem fé em Deus, ou nas mulheres de virtude. Quem duvida está ás escuras; o principio de ver é crer; crer no renascer das folhas; na{248} volta da quadra florida; crer que a dor não é sempre esteril, que ha affectos fieis, amores que duram, feridas que saram. A fé não é bem o dia, mas é o fim da noite; é a luz a chegar-se á alma. Toda a nossa mania e o nosso mal é não termos fé senão em duas coisas,—em enguiços e em economias! O mesmo deficit de que tanto por ahi se falla, é um enguiço publico, enguiço official! Assim somos. Enguiços e economias! Tristes e pobres;—duas vezes tristes!
FIM
{249}
INDICE DOS CAPITULOS
PAG.
I —Os doidos 5
II —As doidas 23
III —Os idiotas 41
IV —Os furiosos 59
V —Telha 77
VI —Enguiços 97
VII —Agouros 117
VIII —Feitiços 135
IX —Encantos 155
X —Sonhos 175
XI —Sinas 193
XII —Coisa má 213
XIII —As mulheres de virtude 231
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Júlio César Machado
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