Da Loucura e das Manias em Portugal

Júlio César Machado · Capítulo 3 de 13

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Da Loucura e das Manias em Portugal

III Os idiotas

III

Os idiotas

Por mais seguro que se esteja de si e dos outros; por mais vaidosa confiança que uma pessoa tenha no seu juizo, e na lealdade dos empregados de Rilhafolles,—é inevitavel o olhar, de quando em quando, como que receioso, para aquelles guardas que fazem o favor de{42} nos formar sequito, com um molho de chaves na mão.

Têem cara de bons, devem ser optimos, propensos a affectos benignos, e dotados de inexhaurivel fonte de branduras—estou persuadido; mas dão ás vezes um geito ao corpo, e de outras vezes olham-se entre si como piscando os olhos, com um modo natural, naturalissimo de certo, bem sei, mas que o sentimento febril de terror—que invencivelmente se apodera de quem ali se encontra, sem estar habituado a ir lá—transforma em indicios de uma perfidia atroz!

Quando nos encaminhavamos para ir ver os idiotas, cortámos por uns corredores que se me figuraram{43} mais escuros, e descemos por uma escada tortuosa, um pouco sinistra, que levava tempo a descer, e dava tempo a pensar,—um diacho de escada que acordava idéas phantasticas de corredores talhados em penedias, paredes com hyerogliphicos e procissões pintadas, quartos, com poços e ganchorras, para ir dar a outros quartos de onde desemboquem outros corredores, mosqueados de gaviões e serpentes;—lendas de pedra que só os doidos entendam bem, mas que nos dêem a pensar a nós que tambem póde succeder o ficarmos lá...

Eu olhava de esguelha para o director, e chegava a parecer-me ás vezes que me olhava elle tambem{44} de soslaio. É o terror, horror, pavor, de Rilhafolles. Sentimento especial que só ha ali, que só ali se conhece. Lembra-me aquelle-caso de um sujeito, a quem o dr. Pulido no tempo em que foi director d'este hospital convidou de uma occasião a jantar dizendo-lhe que lhe havia de mostrar os doidos.

—Nunca viste? perguntava-lhe o doutor.

—Não, nunca vi.

—Pois has de ver. É curioso.

Pozeram-se á mesa em companhia de dois doidinhos socegados, pessoas finas que estavam recolhidas em Rilhafolles havia pouco tempo.

O sujeito olhava para elles pouco{45} á vontade, pensando de si para si no nadinha imperceptivel que separa a razão da loucura...

Depois, por acaso, perguntou ao dr. Pulido como é que costumava fazer para levar para ali os enfermos. O dr. Pulido fixou-o com o olhar um pouco vago que tinha, bem devem lembrar-se d'isto os que o conheceram—e que parecia de alguma maneira ser o reflexo do olhar dos doentes, e respondeu:

—Não custa nada. Em sendo pessoas de certa classe, a familia pede-me para ir vel-as, convidam-se a jantar, veem sem desconfiança, e, tão depressa cá as apanho, em ellas querendo ir-se embora já acham as portas fechadas.{46}

O outro ouviu isto cobrindo-se de suores frios, e acudiu-lhe a idéa de que aquelle convite tambem fosse um laço. Á sobremesa puchou pelo relogio, pediu desculpa de não se poder demorar, levantou-se á pressa, despediu-se, e ao chegar ao pateo largou a correr.

É que, além do estonteamento em que se fica ao vêr aquelles desgraçados, ha uma vertigem peor ainda—é a que resulta de os ouvir.

Quando chegámos ao pateo dos idiotas, estavam acocorados quasi todos elles como as gallinhas no choco, pasmadinhos para o muro, ou fazendo riscos na terra com o dedo. Não lhes importa ar puro,{47} nem horisonte; que o terreno seja vasto ou não seja, que haja verdura ou não, que estejam presos ou livres, para elles é o mesmo. Fincam os cotovellos nos joelhos, encostam a cara ás mãos, e vão dando á cabeça como os bonecos da feira, n'um movimento sempre igual.

Ha lá uns patetas, que quasi toda a gente conhece por andarem no serviço dos banhos,—um sobretudo, que é popularissimo, o que tem voz de tiple—mas esses são a conta d'aquella missanga; a nata, a flor dos idiotas!... Preparam os banhos com a maior diligencia, são modelos de cortezia benevola, perguntam com affectuoso interesse {48} se a gente gosta da agoa sobre o quente, recommendam, com agrado que captiva, que se toque a campainha em querendo que elles appareçam de novo, e estacam de bocca aberta em avistando o bello sexo! Ah! esses são os idiotas tafues, os idiotas como se quer. Não servem para muito; mas, bem aproveitados, até podiam servir para se encostar ás esquinas pelo Chiado fóra, ou espécar ás portas das salas nos bailes,—como janotas!

O tal que tem voz de tiple, toca flauta. Toca flauta, e é um melomano de não se parar com elle. Em se lhe fallando de gostar de musica, redargue logo:

—Se gosto de musica! Mas eu{49} como musica, senhor, musica é que eu como!...

E ahi tira da flauta, e com uma ancia de sopro capaz de fazer virar faluas, larga a tocar coisas incalculaveis.

Mas isso são idiotas á maneira do que manda o diccionario da lingua portugueza de Fonseca—«Idiota, adj. es. de 2 g. ignorante, sem estudos.» E disse. A natureza, porém, vae um pouco mais longe do que o diccionario; e a pobre creatura humana recua atterrada na presença de uma aluvião de desgraçados que ha em Rilhafolles, não como o da flauta, que falla e toca, mas dos que não fallam: não pensam: não ouvem: chiam, guincham,{50} riem, e babam-se. Esses são um pouco mais do que ignorante e sem estudos, e a gente ao vel-os tem vontade de segurar a cabeça, fragil como aquelle vaso de cristal a cujos manes Heliogabalo levantou um mausoleu para eternisar a memoria das ebriedades que lhe devia,—tal é o medo que se sente de que ella estale e se quebre como a taça do Cesar idolatra,—com a differença de que estes manes, que são as idéas e as paixões, em se caindo em idiota... não voltariam nunca mais!...

Estão para ali, no pateo; uns, passivos, fixos, sem sensações, parados e quietos, como o soldado na guarita, olhando no direito do{51} nariz, capazes de ficar encostados á parede o dia todo...

Outros, agachados, conchegando o peito e as pernas, olhando sem saber para onde, nem se perceber para o quê; existencia vasia; vida sem drama; o horror sem lances.

Um, está gordo. Testa de um dedo de largura, cara de pau, pançudo, bonacheirão,—certo ar de paspalhice, immobilidade de figura decorativa.

Este, sentado no chão, junta um montinho de folhas, e depois dispõe-as a seu modo em carreirinhos: mas, se succede desmandarem-se-lhe, faz como a Sibylla de Cumas, que em o vento lh'as espalhando tirava dali o sentido. Depois, vergando{52} a cabeça, fica a olhar para ellas...

Já estiveram alguma vez ao pé de uma cova aberta no cemiterio? Chega a parecer que os cadaveres são as almas dos tumulos, e que o sepulchro é que morre em não tendo ossos dentro.

Tambem com os idiotas, quando a gente olha para elles, pergunta o que será feito do que devia ter havido dentro d'aquellas cabeças, e parece que elles é que não existem já.

Não se lhes falla: que poderia dizer-se-lhes, se o da flauta é o formica leo d'aquelle pateo horrivel? se elles percebem mal os gestos, e alguns não ouvem? se o destino{53} os seccou como o sol secca os regueiros!...

Lembram o cortejo de Momo. Anda-lhes o corpo a cavallo nas pernas; teem cabeça de quem viu bicho; esgroviados: sorrir bruto: dando sempre aos hombros: uma especie, nos modos, do perfil de uma bengalla com castão figurando um saguí; voz difficil; meio gagos: o que quer que seja de um palhaço morto!...

Um, perdeu de todo a memoria, depois de um ataque de congestão cerebral; e está para ali sem dar accordo de si. Tratam-o como ás creanças; recommendam-lhe que não metta os dedos no nariz, e que não ande de joelhos pelo chão para{54} não estragar as calças. Elle ouve, e esquece-se.

Alguns mastigam palavras, as mesmas palavras sempre, muito contentes, a rir sosinhos...

A macaca apparece aos pulos. Conhecem-a todos por este nome. Não tem outro. Quando a mandam chamar, diz-se: «Chamem a macaca»; os guardas acenam-lhe e dizem-lhe:—«Anda cá, macaca!» Ella vem. Toda a gente que foi alguma vez a Rilhafolles nos ultimos annos a conhece. Entrou para ali no dia 5 de setembro de 1855. Tinha nove annos. Entrava no mundo pela peior das portas,—pela porta de Rilhafolles. Era enfesada, cabecinha aguda, orelhas grandes, ar bestial;{55} ali lhe tem crescido o corpo, ha dezeseis annos. Não pede de comer, nem lhe importa isso. Diz-lhe o instincto que a natureza e a sociedade lhe devem um prato de sopas no jantar de cada dia e espera que lh'o vão metter na boca. Quando vão dar-lh'as, come-as,—sem cuidado e sem agradecimento. Agradecimento de quê? Quem imagina que o ar no dia de ámanhã já não seja respiravel, e que o sol nunca mais torne a sair? O mesmo se dá para ella com as sopas. É abrir a bocca, e lá lhe irão parar. Está gorda, agora, com os seus vinte e quatro annos. O director diz que está magnifica; e queria que eu lhe apalpasse a cabeça para vêr{56} até que ponto é molle. Consideram geralmente lá em Rilhafolles que ella está muito bem; saudavel e feliz. E dahi,— talvez! Pobre macaca! Desraizada do mundo, e plantada na vida como uma cebola de jacintho na agua!...

Passam ali a sua vida, no pateo, e quando olham uns para os outros—não sei se se vêem. Toda a gente faz alguma coisa, elles não fazem nada; toda a gente pensa alguma coisa, elles não pensam em coisa alguma; até os animaes teem memoria, e lembram-se de quem lhes faz mal, de quem lhes faz festas, conhecem as pessoas com quem teem vivido:—elles não se lembram nem conhecem ninguem. Uma aranha é{57} mais do que elles! a aranha arranja a teia, elles não arranjam nada!... De fóra d'aquella casa, anda ahi pela cidade o espirito, a religião, a politica, a honra, o crime, as desordens da turba: elles não sabem nada d'isso; estão exilados no mundo, e ouvem apenas cortando os ares os gritos bravios dos furiosos!{58}

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