Da Loucura e das Manias em Portugal

Júlio César Machado · Capítulo 6 de 13

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Da Loucura e das Manias em Portugal

VI Enguiços

VI

 

Enguiços

Quente... quente...

Já estão a lembrar-se de alguem do seu conhecimento, com quem lidaram, com quem viveram, parente, amigo, visinho...

O diccionario de Moraes explica-o assim:—«Enguiço é o mal que se causa de ser olhado por algum torto ou outro qualquer accidente.»{98} Até aqui, o mais notavel é elle chamar aos tortos «accidentes». Lá se avenham.—«Consiste,—continua—em ficar acanhado.» Estão satisfeitos? Eu, não. Procuremos mais, procuremos sempre;—no verbo enguiçar o mesmo auctor exprime-se assim:—«Dizem que o torto olhando para alguem enguiça-o. Passar a perna por cima da cabeça (d'outrem) enguiça; isto é, faz que desmedre, que se faça pêcco e pobre.

D'ahi vem tudo; os habitos excentricos, pueris ou ridiculos; o vasto e incalculavel mal que resulta d'isto ou d'aquillo, conforme o capricho da creatura; a ignorancia creadora; successos triviaes, centos de cousas e cousa pouca, que{99} moem e affligem os enguiçados,—gente nervosa, delicada e phantastica.

Tudo os inquieta. Fal-os tremer um nada, um nadinha os anima. A influencia do tempo ataca-lhes a saude como um barometro. Abate-os o vento sul, torna-os tristes a chuva. Ficam, ás vezes, horas sem fallar e sem vêr. Parecem acordar na primavera pelo canto dos passaros e pela doçura do ar; e ouvem tudo então, as vozes que passam no murmurio das ondas, na rama das arvores, ouvem o que se diz ao longe, ouvem o que não se chegou a dizer,— ouvem-se a si, unicamente a si; a voz do enguiço, que falla dentro d'elles, e compõe,{100} e ordena, e retem, e impelle...

Um levanta-se da cama, veste-se e prepara-se para sair. Sente-se todavia preso ao chão, e não póde dar um passo emquanto o creado não vem dar-lhe um alentado empurrão que lhe quebre o enguiço. Volta-se então para o servo:

—Ó José?

—Senhor.

—Tu deste-me a corda inteira?

—Dei, sim senhor.

—Toda, toda?

—Dei-lhe a corda toda, sim senhor.

—Está bom!

Aquella resposta affirmativa convence-o de que tem movimento para{101} as vinte e quatro horas, como um relogio de algibeira. Se o empurrão foi brando, a machina pára a qualquer hora do dia e precisa nova corda.

Um irmão d'este (os enguiços são familiares e hereditarios, o que é ainda mais pasmoso!) não póde comer a sobremesa sem dar tres voltas em redondo ao prato.

Um velhote anguloso, magro e verde, que se avista na repartição onde é empregado de barretinho de seda preta e mangas de algodão, faz todos os dias antes de entrar para a secretaria um joguinho de passos ao transpor a porta, que consiste em marcar tres vezes estes tres numeros:{102}

«Um.

«Dois.

«Tres.»

Depois, seguro de que tudo irá bem, sóbe e entra.

Um, homem gordo, de physionomia benevola, fallando com ar sentencioso a quem por civilidade fingia dar-lhe ouvidos, ia sempre tomar o seu café ao mesmo botequim havia muitos annos, suppondo ser o unico que não envenenava os freguezes. Achava n'aquelle café, do antigo Nobrega, hoje Aurea Peninsular, rua do Ouro, grandes vantagens para as propriedades sanitarias e digestivas. Em indo a outro, ficava doente. Quando ha sete annos o botequim fechou, elle{103} acabou de jantar, foi muito lepido pela rua do Ouro, dirigindo-se ao seu cafésinho,—encontrou as portas fechadas, e morreu. Muita gente o conhecia em Lisboa, e deve lembrar-se d'elle; os jornaes contaram o caso.

Alguns são beatos. Têem uma religião lá d'elles;—a religião do enguiço. Não querem ouvir comedias com receio de frescuras; nos bailes, em traje de ceremonia, luvas, etc., permittem-se olhar para as senhoras embora decotadas; mas em S. Carlos impõem-se crueldades gothicas, e quando apparecem as bailarinas, tão frescas e tão pouco vestidas que até o beato Antonio haveria arriscado um olho, como{104} o meu amigo leitor ou eu, fecham elles ambos.— Conheci um que, quando lia n'um jornal a palavra Deus, interrompia a leitura para atirar com o papel ao ar.—Ha outro que não póde passar diante de um nicho de santo sem que immediatamente leve as mãos ao rosto e o esfregue, como para se lavar das impurezas que o santo não deve presencear. Como fosse em certo dia guiando um carro e visse um nicho cavado na fronteira de certo predio, largou immediatamente as redeas e pôz-se a lavar o rosto em sêcco. O cavallo, sentindo-se sem governo, tomou o freio nos dentes, fugiu, e por felicidade não deu cabo do enguiçado e do amigo{105} que elle levava em sua companhia.

Ha uns que porfiam em conservar toda a noite durante o somno a attitude em que estão quando o somno os surprehende. Um diligenciou muitas vezes ser mais forte ainda e fez grandes tentativas para dormir de corpo no ar, só com as mãos ambas encostadas á bordinha do colxão, como se faz ao saltar para a cama; não o conseguiu, como podem crêr, e deu muitos trambulhões.

Um pintor, que foi do Porto para o Rio de Janeiro, tinha enguiço de pintar pretos. Por mais que o instassem, o pobre artista negrophilo não consentia por ter dó de{106} obrigar os moleques a estarem para ali espécados, e cuidar que isso tiraria a fortuna ao quadro. Punha um creado branco no logar do escravo, depois de lhe farruscar a cara de preto.

Este espantalho de espinha angulosa e nariz atrevido é rico;— faz casas para não morrer. Lá diz o proverbio campesino—«ninho feito, pêga morta.» Avarento, sordidamente miseravel, só é grandioso em fazer predios. Suppõe que em terminando uma obra, morre. Vae acrescentando sempre a casa; compra terrenos, faz crescer a cosinha, estende a capella, alarga as cocheiras. Aguenta-se na vida com muleta de pedra e cal!{107}

Aquelle está já por tal modo aferrado a manias que chega ás vezes a parecer criminoso, e sente que dá cabo da intelligencia quebrando-lhe os raios com o fechal-a no ciclo estreito e febril dos medos e das apprehensões. Tem sete filhas; quatro estão casadas; duas principiaram a namorar os que hoje são seus maridos no circo Price; as outras duas no Gymnasio. Estão ricas e felizes as duas primeiras; as duas ultimas, pobres e desgraçadas; elle tem a scisma de que ás tres que estão solteiras não convém irem ao Gymnasio, e suspira por vêr aberto o circo Price, a cujos espectaculos sempre concorre com a familia, resmungando á entrada uma{108} prece, não sei que lérias piedosas que só elle entende...

Que dança! que dança!

Os d'aqui têem scisma com o sair da escada sem pôr primeiro o pé direito.—Os d'ali em pondo as meias do avesso ficam em torturas, contando que hão de ter dádiva ou insulto, e receiando que venha insulto em vez de dádiva.—Os d'acolá pedem a benção á mãe, e emquanto ella não estender a mão seis vezes não lh'a beijam.—Uns têem terror ás aranhas; outros assustam-se em sonhando com uvas pretas; estes não passam em certas ruas senão do mesmo lado sempre.—Alguns, brutos com toda a gente, são timidos com as creanças. As{109} creanças têem o que quer que seja de maravilhoso. Já o Fernão Lopes, na Chronica de D. João I, cita uma ainda de leite que proclamou: Real, real, pelo mestre d'Aviz, rei de Portugal. Os enguiçados que leram esta chronica ficaram tendo pelas creanças uma veneração profunda; os que não a leram—tambem. Batia na mulher todos os sabbados á noite um saloio, ao voltar da taberna—para onde ia tão depressa lhe pagavam a féria. A mulher, coitada, conformára-se com a sua sorte por gostar d'elle e acabára por se costumar com aquella renda. N'isto foi mãe. Apesar de todos os sabbados estar bebado como d'antes, o marido parecia esquecer-se da tósa{110} semanal. A mulher, pasmada, disse-lhe uma vez:

—Porque é que tu já me não bates?

E o saloio, enguiçado, desejando romper e quebrar por uma vez com a prisão imaginaria que o tolhia, mas confrangendo-se, esquivando-se, escrupuleando, respondeu de mansinho, apontando para o berço:

—Tenho medo de acordar o pequeno!...

De tudo, entretanto, o mais trivial é não se poder vêr um corcunda sem ficar enguiçado. Parece que, sobretudo em jejum é desastroso. Os corcundas sabem isto; sabem-o á legua; não sabem outra cousa; estão fartos de o saber; e{111} por isso são tão joviaes. Andam sempre a rir-se do mundo e a enguiçal-o o mais que podem! O melhor do caso, porém, é que um corcunda neutralisa o outro. Eis a rasão porque nunca desde o principio do mundo nenhum philosopho fez a observação de haver encontrado dois corcundas de braço dado. São inimigos capitaes. Um d'estes dias foi encontrado um sujeito—se eu lhes dissesse o nome riam-se!— encerrado n'um portal á espera que passasse um corcunda para o desenguiçar de outro que havia visto.

Ha comtudo um remedio para este mal. Consiste em esfregar na parede uma moeda de dez réis que tenha tocado na giba de um corcunda.{112} Mas—para obter o remedio—quantas difficuldades! quantas astucias! quantas subtilezas! O corcunda está sempre prevenido e não se deixa tocar. Ha um muito conhecido em Lisboa, que por mais de uma vez tem posto a policia em bolandas— sómente para garantir a giba do contacto impudico da moeda preservativa.

Ha quem affirme que os vesgos são ainda peiores que os corcundas, e que a sua influencia é de maior malignidade. Felizmente o Mascaró promette acabar com elles,—e não haverá mais enguiçados por este accidente!...

Consolem-se todavia os que teem a scisma do enguiço,— sujeitos de{113} pouca fortuna, sedentarios que fazem gallos na nuca a dar com a cabeça nas costas da cadeira; peões para quem estão de reserva as topadas nas pedras das ruas; homens das fatalidades, heroes das pequenas miserias, que farejam na malicia da sorte inquietações para todas as horas do dia; consolem-se uns com os outros, porque ha muitos.

São sujeitos a enguiços os homens pequenos e os grandes homens; homens grandes no corpo e na força;—homens grandes no espirito; phantasistas, poetas, os artistas quasi sempre, a nobreza e o povo, os sabios e os ignorantes; têem enguiços os pastores; e os reis—ha{114} uns tempos—andam muito enguiçados!...

Os patetas riem-se d'isto; os homens de juizo, tambem. Singular harmonia! Toda a cautella é pouca em não se indispôr a gente com elles, nem com o acaso;—os enguiços são como as paredes, têem ouvidos; e lá se entendem, lá se entendem entre si... Basta uma palavra de mais para uma pessoa se comprometter e vir depois isso a custar-lhe caro... Máu! Ahi está que n'este instante a penna não quer tomar tinta e está a espirrar-me entre os dedos como se lhe repugnasse escrever.—Vou mergulhal-a no tinteiro... Peior! Deitou-me um borrão no papel...—Basta!{115} Talvez que este borrão resuma, melhor do que eu podesse fazel-o, o systema dos enguiços. Não escrevo mais.{116}

{117}