Da Loucura e das Manias em Portugal
VII Agouros
VII
Agouros
Agouro e enguiço não são a mesma cousa. O vulgo confunde ordinariamente o sentido natural destas palavras, que têem todavia uma significação diversa. Agouro significava antigamente predizer o futuro pelo canto, gesto, e pasto das aves (ex avium cantu, gestu, vel pastu futura divino) e por extensão conjecturar{118} de qualquer modo. N'este sentido se usa hoje em Portugal, quando por incidentes insignificantes—a que chamamos agouros—queremos predizer o futuro.
O terror—de umas vezes os remorsos, os ciumes queimadores de outras vezes—torna videntes certas creaturas. Mudam de côr, á mesa, se espalham sal na toalha; sobresaltam-se na aridez das praias se succede levantarem com o pé os limos, que cobrem as borboletas do mar; atormentam-se quando ao atravessar charnecas se lhe prende o lenço nas urzes; vêem imagens, conhecidas nos montões de nuvens negras que um relampago allumia. Tudo lhes falla; para elles até a{119} materia muda tem lingua. Ouvem presagios no grão de areia que o vento leva, no tremer das folhas, nas borboletas escuras, no voar das nuvens, na agua que reflecte as figuras, na herva que balança ao peso de uma formiga... Ouvem chorar vozes no orvalho, nas trepadeiras se lhes cáe chuva, no canto do gallo fóra de horas, no mocho, nos morcegos, no uivar do cão...
Respiram ares de vertigem, ares doentios. Avistam estocadas á direita e á esquerda; golpes mortiferos; desgraças precipitadas;—a fatalidade delirante; o horror da incoherencia em que tudo lhes parece harmonico. Vivem de cabeça baixa e braços encruzados, agitando n'alma{120} questões insoluveis, corre-lhes nas veias com preguiça um sangue fraco que arranja o que se chama agora anemia; doença em que ninguem fallava, e que, estou persuadido, principiou por elles. Gente receiosa e triste a quem o nosso clima estonteia ainda mais, gente que podia passear commodamente á sombra glacial das extensas galerias dos castellos do norte, e para quem a vida é um supplicio atroz,—condemnados de manhã ao Chiado, abrazados de calor; de noite ao Passeio Publico sacudidos pelas ventanias.
Têem todavia essas naturezas o que quer que seja de religioso. Vão seguindo na vida como a Electra{121} dos gregos, devota e severa, confiando ás cegas nos oraculos e submettendo-se sem murmurio ás leis da fatalidade. Parecem-lhes legitimos os sacrificios;—dir-se-hia que, como outr'ora, ouvem os deuses pedir-lh'os; offereceriam o pescoço ao cutello resignadamente, como holocausto inevitavel, se o agoiro os avisasse... Os artistas principalmente,—os que são dignos d'este nome, os notaveis, os verdadeiros artistas—têem superstições indestructiveis e muitas vezes os acontecimentos parecem mais tarde dar-lhes rasão. Ha exactamente quatro mezes, n'uma das ultimas manhãs de março, humida e ventosa, o actor Rossi que ia embarcar para o Rio{122} de Janeiro, e a quem de Genova haviam mandado um vapor conduzindo a companhia, que não era aquelle que se lhe havia promettido e que elle esperava do contracto, dizia-me em frente do Tejo:
—Adeus. Sinto que não vou ser feliz. Trocaram-me o barco. Presagio funesto.
As noticias infelizmente tem confirmado esse facto,—um pouco mais singular ainda do que o agouro!
Da maior parte das vezes, as superstições dirigem-se unicamente a evitar o mal e aplanar o caminho; mas, o peior é, que, a poder de se darem a perros para assegurar a felicidade, transformam-a quasi sempre em miseria ou em asneira.{123}
Um, que cuidou sentir-se chamado a representar papel na camara, lá arranjou ser deputado—mas o que não arranjou é fallar, porque os agouros o impedem. Os agouros dizem-lhe que a habilidade do orador é saber ouvir e callar; que, por pouco que se falle, lá succede um dia dizer-se o contrario do que se havia dito tempo antes; que os adversarios abusam d'isso e ficam causticando o sujeito; que a força das maiorias consiste em votar sem abrir o bico; que assim como o nauta dextro caça a véla, e muda o rumo ao leme conforme sopra o vento de um lado ou do outro do horisonte, assim a elle lhe convém variar a proposito conforme as circumstancias,—com{124} socego, e sem bulha. E tudo isto lh'o diz o azeite quando se entorna, e o espelho quando se quebra, e uma aranha no tecto, e um besouro que passa no ar a rosnar-lhe avisos: —«Calla-te, calla-te. As fallas são de prata, e o silencio é de ouro. Calla essa boca!...»
Outro não se move, não vae d'aqui para ali, sem recorrer a um exame prévio de tudo que o cérca. Sabe este mundo e o outro no que respeita a agouros; não sabe mais nada, é certo, não sabe das suas cousas nem trata d'ellas—mas sabe d'aquillo. Não permitte que lhe cosam a fazenda em cima do corpo, que é signal de desmedrar, emmagrecer,{125} definhar, dar á casca;—não corta o cabello em quarto minguante com receio de que lhe não torne a crescer; evita quando está na cama cortar as unhas e olhar para um espelho ao mesmo tempo, indicio de estar jogado aos dados;—não permitte que em sua casa deitem lixo fóra de noite,—pobreza imminente;—não póde vêr sem sobresalto duas facas em cruz, desordem fatal;—e por cousa alguma morará em «casa de esquina, —morte ou ruina!»
Este, se vê um «ladrão» na véla—sabe que vae ter carta.— Aquelle, em caindo uma thesoura e espetando os bicos no chão, espera uma má visita.{126}
Muitos não se desfazem de pombos. Ou não os ter nunca, ou tel-os sempre; o mais a que chegam é dar o ultimo casal ao Espirito Santo no dia da Ascenção do Senhor.
Ha noivos que fogem de ir ouvir os banhos para o seu casamento,—porque, se os ouvem, ou não casam ou morrem. Diz-se que quem cáe de cama ao domingo, nunca mais se levanta.—No campo, em os martyrios de um jardim dando muita flôr, julga-se breve a morte do dono da casa.
Na existencia de alguns parecem agrupar-se maliciosamente os presagios. A vida de Isidoro—o nosso popular actor Isidoro, do theatro da Trindade—é um pinhal de agouros.{127} Vamos vêl-os com cautella; se têem medo, tragam luz... Nasceu em dia de finados de 1828; foi baptisado n'uma sexta feira, 2 de janeiro de 1829; principiou em 1842 a aprender o officio de tecelão na fabrica de Xabregas, e foi tres annos numero treze; trabalhou dois annos no tear numero treze; depois de official foi obrigado a dar seis mezes de aprendiz em castigo de uma falta que commetteu na sexta feira de Passos de 1845, e ficou tendo o numero vinte e seis, que é duas vezes treze. Assentou praça no 2.º batalhão movel em 1846, e durante oito annos foi numero treze. Representou pela primeira vez em theatro particular a{128} treze de junho de 1846; em theatro publico n'uma sexta feira, 30 de novembro de 1849. Foi escripturado para o Porto e embarcou para lá no dia treze de maio de 1851. Fez o primeiro ensaio no Gymnasio n'uma sexta feira, 11 de março de 1853. E—para corôar este catalogo de memoranda—casou em dia de S. Bartholomeu!... Por entre este capharnaum de vaticinios tem lidado, triumphado, mais invulneravel do que o capitão de Homero— que o não foi no calcanhar.
Não só é dia de agouro a sexta feira; tambem para muitos o é a terça. O actor Santos,—depois de uns arrufos de artista com poeta, que houve entre elle e Francisco{129} Palha—não quiz apparecer pela primeira vez no tablado da Trindade n'uma terça feira que se destinára para primeira recita de Frou-frou. Mas já estavam afixados os cartazes, alugados os camarotes: que remedio havia de dar-lhe? E deu-lh'o. Foi na vespera, segunda feira, ao palco; representava-se a Flor de Chá; no ultimo acto vestiu-se de china; na ultima scena, perdido entre os comparsas, dançou com elles o can-can com que terminava a peça. Na noite immediata representou Frou-frou; era a segunda vez que apparecia ao publico da Trindade; não o sabia ninguem, mas sabia-o elle! Os agouros contentam-se assim.{130}
O quarto treze nas hospedarias está de voluto quasi sempre. Agora já principiam a adoptar um expediente malicioso, e, visto o treze não se alugar unicamente por ser treze, substituem-lhe o numero por um doze repetido, e já não se vê por cima da porta senão 12—12.
Treze pessoas á mesa, prophetisa que isso custará a vida brevemente a algumas d'ellas. Ha pouco tempo esteve retido n'uma casa o filho de um amigo meu, que ia passear as tardes, quando o chamaram d'uma janella e lhe explicaram ser indispensavel a sua presença á mesa para se principiar a jantar. O rapaz allegava que não tinha vontade de comer, que acabára de jantar{131} com os paes n'aquelle instante. Debalde! Não o largaram senão ao café.
Na vida aventureira dos mares têem sido sempre triviaes estes medos que vem das tradições e das prophecias. Deixam ás vezes de ser tolice, para ser apenas o terror sublime que se apossa dos espiritos mais elevados e mais nobres. Teve-os Moysés no cimo do monte quando avistou na baixa do valle os hebreus revoltosos, já com saudades da escravidão e das cebolas: e desanimou e julgou estar doido, e o certo é que avistou a terra da promissão, mas não conseguiu pôr lá o pé—e morreu á beira da realisação da sua idéa... {132}
A illustração dos officiaes de marinha de hoje já quasi não admitte os agouros, mas entre a maruja ha ainda alguns. Padre a bordo, quando não é capellão do navio, annuncia refrega dura, viagem contrariada.—Mulato a bordo, é salceirada frequente, e por vezes—na linguagem maritima—vento de gaveas nos terceiros e de traquete na passadeira.—Cadaver ao mar, predispõe para tareia e tem de se aguardar vigilante o salto do vento para evitar o empandeiramento do velame.
Ás vezes veem como que disfarçadas, as predicções, nos brinquedos das creanças. Em os pequenos figurando batalhas na rua, em elles{133} armando barretinas, arranjando bandeirolas, e travando combates, é signal de reboliço, signal de guerra. De outras vezes, se fingem conduzir um saimento, morre dentro em pouco alguem no sitio... É certo? Não é? Como quizerem. Os agouros, para mim, são o tinha de ser: consolação—de quem não tem outra!...{134}
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