Da Loucura e das Manias em Portugal

Júlio César Machado · Capítulo 4 de 13

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Da Loucura e das Manias em Portugal

IV Os furiosos

IV

Os furiosos

Estes já não tentam dissimular o estado em que se acham,— triste prova de que não conservam sequer um restosito de juizo!... De physionomia vivaz e animadissima, semblante exaltado, olhos extraordinariamente mettidos pelas orbitas, pelle encarquilhada, face cavada e esqualida, saltam-lhes por entre os{60} beiços corádos pela febre, como por um arquinho vermelho, gritos e apostrophes que nem dardos!...

Têem idéas, mas fugitivas, sem ligação, quebradas. Grande agitação, grandes accionados, grandes berros. Ora vem, ora vão. Fallar sem descanço,—para um—para outro. Puchar a enxerga, atirar com a enxerga. Ir ás grades; segurar, apertar; lucta da carne com o ferro... Vontade visivel de apanhar alguma cousa á unha, de poder deitar-nos a mão. Mas,—nem mesa, nem cadeira: nem, ás vezes, uma tigela para despedaçar...

—Anda cá! Olha! Chega aqui! dizem alguns, com perfida languidez, certo agrado felino, o risinho{61} da hyena,—a morrerem de desejo de nos saccudir de encontro ás grades.

Alguns fallam em dinheiro, desconfiam que fomos nós que os roubámos. Outros, de amores; recordam-se, inquietam-se, agitam-se, enfurecem-se... Alguns têem ainda o sentimento da ambição, querem grandezas,—d'essas mesmas grandezas pequenas que por ahi se arrastam de gatinhas com ares de ir n'um andor—e gritam que são magnates e figurões: a tal ponto é profunda nas creaturas a vaidade, que mesmo mortas para o mundo ainda conservam a idéa de alardear possança! Mas já não têem sequer, como os outros, papel doirado,{62} para fazerem corôas; nem ha coberta na enxerga para poderem fingir que se embrulham no manto dos imperadores...

Donde provêm o mal?

Quem poderá sabel-o! De alguma paixão desordenada, enorme, extrema. Quem nos diz até que a loucura n'aquelle grau, a loucura d'aquella qualidade, não seja simplesmente a paixão levada ao excesso?... Estão ali durante as horas do ataque, as horas da furia, fechados nos quartos, quasi ás escuras para que a claridade lhes não fira a vista. No decorrer do anno, ligeiro para nós, pesado e cruel para elles, quantos dias de agitação e de tortura,—com as mãos{63} atadas, os braços presos, as rações da comida diminuidas; e as grades, as grades frias e negras, por unico horisonte e unica companhia!...

Já não ha ver ali a gordura pagã; são magros quasi todos, e parecem velhos: a loucura ainda envelhece mais do que as paixões; abatem-os, dissecam-os as furias; alguns parecem esqueletos, que a ira unicamente acorda; um ou outro tem a mão finissima, mão de quem não faz nada, de quem não trabalha ha annos; de outras vezes parecem os ossos da morte com pelle por cima... em ar de luva!

Ali gastam e consomem a vida, separados, presos, isolados, nas agonias insondaveis da desesperação.{64} Só a mãe de algum ou a mulher, vão vêl-o; unicas dedicações n'este mundo que não abandonam as angustias persistentes. Lá esteve um, famoso e illustre, o mestre do folhetim em Portugal, e sua esposa ali foi todos os dias vel-o e fazer-lhe companhia—colhendo no ceu a palma do combate terrestre e vendo sorrir-se para ella e abraçal-a meigamente aquelle ente querido, que havia representado um dos primeiros talentos d'esta terra, e que parecia, lucidamente, dizer-lhe com a vista que deve um dia ser feliz na eternidade a alma que n'esta vida teve dedicação pelo infortunio!

Mas, em geral, como se os olhos{65} humanos não devessem contemplar o espectaculo d'aquella dôr horrivel, poucos são os que teem quem os visite, e ali se conservam até que um dia o padre do hospital vá junto d'aquella enxerga resar-lhes ao ouvido, e, na hora em que vão emfim libertar-se do mundo, fazer a diligencia de que elles repitam as orações que lhes disser...

Todos ali, mais ou menos, se entreteem e se divertem. Só elles não. São os poetas da casa;—sonhar, soffrer. Mesmo se teem officio, é raro aquelle que pode aproveital-o uma hora ou outra,—e isso mesmo é arriscado ás vezes. Lá vi, quando fomos visitar as officinas, um que dizem ser excellente marceneiro{66} e de quem me mostraram um trabalho curioso:—uma maquineta, como costuma chamar-se-lhe, um nicho de madeira para Santa Philomena,—santa com que tinha grande devoção uma enfermeira de Rilhafolles, que fôra educada n'um convento de freiras de Leiria, e que morreu ultimamente doida n'este mesmo hospital onde fôra empregada. As outras enfermeiras, em obsequio á memoria da sua antiga companheira, conservam o culto á santa.

O nem sempre amavel marceneiro estava logo á entrada das officinas com o banco e a ferramenta, na occasião em que o director o convidou a mostrar-nos as suas obras.{67}

—Mostrar o que? berrou elle; e logo se lhe injectaram os olhos; e travando de um pedaço de taboa partiu-a, batendo com ella no banco.

—Bem, bem! disse o director. Hoje estás muito zangado; deixemo-nos d'isso! E virou logo comigo pelo mesmo caminho.

Uma circumstancia interessante é a placidez do director, o desembaraço com que anda por entre os doidos, e a bondade e descanço com que os trata. É isto resultado do seu genio, e em parte tambem de querer dar exemplo aos empregados de que não deve ter-se medo dos doidos, porque o medo aconselha cobardemente toda a especie de crueldade. Em vez de injurias{68} e de chicotadas, como se usava d'antes para com os pobres furiosos, sem se lembrar ninguem de que mais humana seria a lei que de vez os condemnasse á morte, emprega-se o geito, a doçura, o bom modo, para não espatifar brutalmente, e apagar de todo aquelles restos de intelligencia, que ás vezes só de passagem está nublada.

Todos mais ou menos se entretêem ali e se divertem alguma vez, menos os furiosos. Ha theatro de tempos a tempos; e pelas festas de junho, arraial.

De ordinario os doidos que representam,—dos mais quietos, já se vê, e dos que costumam estar dias, semanas, mezes ás vezes sem{69} dar signaes de alienação—dizem os seus papeis regularmente, mas falta-lhes expressão de physionomia, gesto, movimento, olhar, tudo que auxilia e completa a phrase. São espectaculos mais curiosos do que recreativos.

Até os idiotas poderão bailar nos arraiaes ao som da flauta do companheiro:—os furiosos, não; arredados de tudo e de todos, hão de ir gritando, extorcendo-se, rugindo na solidão atroz do seu carcere!...

O sentimento da liberdade, que sobrevive a todos, até nas creaturas que perderam o juizo, não os abandona ainda assim. Querem sair, sair!

As mulheres são mais furiosas do que os homens. Estes de ordinario{70} agitam-se durante horas, depois caem prostrados no somno lethargico que succede á furia. Ellas, fallam e berram, dias, noites inteiras, e tornam-se mais notaveis nos insultos, no descomposto do fato, e até nas tendencias malfazejas—atirando sempre que podem uma tigella contra as grades, e os cacos á cara de quem vae.

Algumas são verdadeiramente horriveis.

Uma gira todo o dia—mas todo o dia!—descalça, em roda do quarto. Tira-se-lhe a enxerga para poder andar n'aquellas voltas, como a hyena na jaula. Depois, á noite, põem-lhe a enxerga: cae sobre ella, e enrosca-se.{71}

Uma rapariga de Coimbra, que não falla senão de um retrato, tem de estar de collete porque marinha pelas grades.

Aquella, de Lamego, que dá pancadas em quem apanha, atira com o pão em pedaços—para as almas!

Esta, de Guimarães,—com certo ar de astucia machiavelica no fundo da loucura—está doida um dia sim, um dia não. No dia em que não está doida, trabalha. É uma alienação á maneira das sezões.

—Como está? pergunta-lhe o director.

—Sempre estou boa! responde ella.

—Ah! E então?

—Então sardinha com pão!{72}

E, sem mais nada, enfurece-se, grita, ameaça, quer saltar, terrivel, hedionda, como se a noite e as Parcas lhe desenhassem no semblante as caretas da loucura.

Um moço esbelto e forte conserva-se de gravata de coiro, para não poder dobrar o pescoço—porque se morde.—Um velho grita por tal fórma, que ás vezes, de noite, as patrulhas de Arroios têem ido, sem saber o que é, em procura do sitio de onde vem aquelles ais...

Passados dias,—por não haver trazido apontamentos dos furiosos na primeira visita que fiz a Rilhafolles,—tive de voltar ali.

A tarde declinava, e os ultimos raios do sol iam a despedir-se d'aquellas{73} tristes paredes. Ao passar com o sr. dr. Guilherme Abranches, que teve ainda a bondade de me acompanhar, por um d'aquelles corredores que serpenteiam ali em todas as direcções, vi dois homens sentados á porta de um quarto.

—Estão de guarda ao cadaver! disse-me o director.

Entrámos no quarto, vi um embrulho no chão, como que o corpo de um homem amortalhado,—um boneco, suppuz eu,—e duas tochas ao lado.

Não era boneco, era deveras um cadaver.

Na vespera fallecera em Rilhafolles um doido israelita. Prevenidos os seus, mandou o presidente{74} da Sociedade hebraica dois homens para envolverem o cadaver n'um lençol, deposital-o n'um quarto isolado, de cara e ventre para baixo, sem caixão, e ficarem de guarda á porta. Como era sabbado—dia santo para elles —não lhe mechiam em quanto não fossem nove horas. Haviam pedido, para a noite, café, pão, manteiga, genebra e cigarros. Na madrugada deviam partir para levarem o cadaver e enterral-o no alto do Varejão.

Aquelle era talvez o mais feliz de quantos ali ficaram n'essa noite. Já não ouvia sequer os clamores da raiva, os rugidos da paixão, os arrancos de desespero e de furia dos companheiros. Estes estão mortos{75} tambem, de alguma maneira; mas é de mais, e é pouco! Se aquelles braços que se agitam, se aquellas vozes que estrugem, se aquelles dentes que rangem são a materia—que é da alma?...

 

Á saida, o jardim é triste, triste; e os pingos de chuva, que ficam nas pétalas das flores, brilham que parecem lagrimas. Depois, se se levanta a cabeça, estremece-se ao ver o ceu, como contraste—por cima d'aquella miseria continua!...{76}

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