Difíceis decisões: etnografia de um Centro de Tratamento Intensivo

Prefácio

 

Atenção, leitor! Este é um trabalho sobre os limites da vida e sobre os limites da esperança humana. É grave, portanto. A medicina – com seus vastos instrumentos – é aqui examinada à luz crua, artificial, ininterrupta, dos Centros hospitalares de Tratamento Intensivo (CTIs), arena e limiar inquietante de sua capacidade de propiciar a saúde e a vida.

Conheci o trabalho ao participar da banca que o examinou, em 2000, como dissertação de mestrado do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Chamou-me a atenção, desde logo, a qualidade da etnografia, da descrição antropológica, de uma dimensão tão secreta e misteriosa da vida institucional hospitalar moderna – tão grave e temida, aliás, quanto secreta e misteriosa. Diferentemente do que advertia Dante às portas do Inferno – "lasciate ogne speranza voi ch'intrate" –, há aqui a esperança tipicamente antropológica de um conhecimento densamente produzido, de uma objetivação elaborada, de um senso de ordem e sentido, precipitável mesmo nos piores círculos de nosso inferno imanente.

Chamou-me, nesse sentido, particularmente a atenção a sensibilidade aguçada da pesquisadora aos meandros desse fragmento tão peculiar da vida social e seu esforço em explicitar, com lúcida reflexividade, as condições em que foi possível fazer a sua observação, compreender sua lógica, apreender suas contradições e tensões. Sua identidade de médica, ainda que treinada em psicanálise e em antropologia, esteve sempre na linha de frente das negociações da pesquisa de campo, ao mesmo tempo como garantia e desafio de uma etnografia da vida institucional hospitalar.

Essa condição anfíbia, bem conduzida, permitiu à autora apresentar um caso empírico iluminador do grande confronto entre o processo de racionalização do mundo, que se vem constituindo há séculos no Ocidente pela institucionalização e profissionalização dos conhecimentos e cuidados médicos, e a continuada resistência da morte, da destruição e decadência corporal, das doenças graves, crônicas ou terminais. É num CTI que se encena uma das mais renhidas batalhas entre essa racionalização e essa resistência. As condições–limite desse processo são a base da etnografia aqui empreendida: uma bolha institucional, um experimento controlado, uma caixa técnica, caracterizada por uma máxima concentração das tecnologias médicas, das mais 'duras' às mais 'brandas', dos aparelhos mais modernos de monitoramento das funções vitais às técnicas mais atualizadas do atendimento de enfermagem, de fisioterapia ou de psicologia. Nessa caixa, cujo ritmo é mantido impecável por um corpo técnico altamente especializado e treinado, entram e saem continuamente pacientes e cadáveres. Ao máximo de esperança social materializada no complexo médico-hospitalar contrapõe-se o máximo de desafio da manutenção da vida. Ela, ali, entra literalmente por um fio – e desse fio pende a espada de Dâmocles de todos os atores envolvidos. A tensão e o sofrimento dos profissionais – tal como os descreve e analisa Rachel Menezes – não são menores do que os de seus pacientes (e dos familiares destes, inquietamente mantidos num regime controlado de acesso físico e informacional). 'Panela de pressão' é uma significativa imagem, ali usada, dos efeitos psicológicos da distância entre as expectativas de um corpo profissional treinado para medir o sucesso em termos estatísticos e a reiterada e crua experiência do insucesso.

A etnografia da racionalização é muito esclarecedora. Ela abrange a formação do profissional-chave do processo (o 'intensivista'), a arquitetura e disposição espacial do Centro, a parafernália técnica de alta qualidade disponível, e – acima de tudo – os ritmos, rotinas e modos comportamentais que caracterizam esse espaço como um modelo reduzido e ideal da experiência hospitalar. A temporalidade é, aí, particularmente vigiada. Os técnicos falam de 'dedicação 24 horas', de 'atividade máxima', de 'otimização do tempo'; falam de um processo de fino e contínuo monitoramento dos tempos diversos envolvidos e imbricados uns nos outros. Uma contínua, ininterrupta cronometragem, vigilância, controle.

Aos pacientes, no entanto, se lhes tira os relógios: à máxima minúcia e precisão do tempo médico deve corresponder uma máxima suspensão da experiência temporal dos doentes; tanto quanto da sua experiência espacial. O ideal do paciente 'anônimo e submisso' já aí se percebe in actu. As entradas e saídas na caixa devem ser o mais mecânicas possível: números e séries de preferência a nomes e feições.

A etnografia da racionalização se entrecruza com a etnografia do desamparo. Desamparo entrevisto dos pacientes; mas desamparo sobretudo dos profissionais, expostos à permanente impossibilidade de garantir a efetivação do modelo ideal de sua prática. "É muita morte, é morte demais", declara um deles à pesquisadora, resumindo o mal-estar ante a série de 'difíceis decisões' a serem tomadas nos processos de atendimento. Avaliações de 'viabilidade' diferencial dos doentes, de momentos diferenciais de 'viabilidade' e conveniência de intervenção trazem à tona os fantasmas recorrentes em nossa cultura sobre a possibilidade – desejo ou pavor – da eutanásia. Desamparo também no registro menor da dor – não apenas no da morte. Os pacientes, afinal, têm nomes e feições, tanto quanto cada um dos profissionais, em seus mais diversos níveis. Os mecanismos da caixa rangem com a intromissão das relações interpessoais, dos fluxos afetivos e comunicacionais. A tensão é permanente entre os horizontes e investimentos dos tripulantes permanentes e os dos passageiros fugazes, tantas vezes derradeiros.

Muitas outras dimensões experienciais e institucionais são desvendadas pela autora nesse nódulo crítico de nossa organização cultural. A mim, me tocou particularmente a informação sobre as dimensões de 'psicologização' aí envolvidas. Psicólogos fazem parte do corpo profissional. Seu papel, em um contexto tão exacerbado emocionalmente, é complexo e desafiador: uma espécie de mediação técnica entre as dimensões interiorizadas do ideal de racionalização e as condições efetivas da vida psíquica em qualquer circunstância – e tanto mais em face da dor, do desamparo, da morte. Significativamente, é uma psicóloga informante deste trabalho que mais claramente enuncia em dado momento um ideal – o da boa morte, o da morte com 'qualidade de vida' – que Rachel Menezes veio a estudar em sua tese de doutorado, já agora realizada, com idêntico sucesso, e publicada (Menezes, 2004).

Permitam–me uma intrusão pessoal. Tive neste ano – eu próprio –, pela primeira vez, a experiência de uma internação em CTI. Quando Rachel lá me visitou, disse-lhe o quanto me recordava deste seu trabalho. Talvez não lhe tenha dito que a clareza e dignidade que emanam de seu relato me ajudaram a elaborar as minhas próprias racionalizações e objetivações sobre aquela situação; essas que defendem a lucidez possível em momentos de angústia e desamparo. Mas, afinal, é esse mesmo o sentido de toda a humana elaboração simbólica, exposta ao labirinto desafiador da vida. A diferença, num trabalho como este, é a justeza da via, a coerência dos passos, a finura da trama do fio com que ligamos os pontos do roteiro e nos aproximamos e enfrentamos, a cada curva dos meandros, o irredutível Minotauro da dúvida, da perplexidade, da opacidade.

Luiz Fernando Dias Duarte

Doutor em Antropologia e professor adjunto do Programa de Pós-

Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)