Difíceis decisões: etnografia de um Centro de Tratamento Intensivo

Apresentação

 

Este livro está fundamentado em minha dissertação de mestrado em saúde coletiva, apresentada ao Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj), em março de 2000, denominada Difíceis Decisões: uma prática antropológica da prática médica em CTI (Menezes, 2000). Ela marcou o início de minha trajetória em pesquisa, voltada mais especificamente às áreas da saúde coletiva e antropologia da biomedicina, e destaca sua instituição paradigmática, o hospital e seus profissionais.

A etnografia de um Centro de Tratamento Intensivo (CTI) de um hospital público universitário do Rio de Janeiro é uma investigação sobre a complexidade que permeia o difícil processo de tomada de decisões sobre a vida e a morte. Este livro relata a observação realizada em um hospital público, escolhido por ser um espaço onde a assistência em saúde é capaz de expressar as desigualdades e tensões sociais presentes tanto entre as diversas categorias profissionais quanto entre equipe, pacientes e seus familiares – alvo do interesse da pesquisa. A opção por um hospital universitário deve-se à possibilidade de apreensão do processo de transmissão de conhecimento dos objetos e valores preeminentes na assistência em saúde, em especial na formação dos médicos.

O CTI é um microcosmo que reflete – de forma aguda, tendo em vista a gravidade e a liminaridade da situação vivida pelos doentes ali internados – representações sociais mais amplas, referentes à doença/saúde, vida/morte, juventude/ velhice, entre outras.

Desde meus primeiros contatos com o hospital público – ainda cursando a faculdade de medicina – o processo de tomada de decisões médicas relativas à doença e ao sofrimento dos pacientes constituíram objeto de meu interesse. No mestrado, tive acesso a uma produção teórica voltada ao estudo das formas de interação entre os diversos atores sociais no que concerne à saúde e aos valores envolvidos.

Tendo como fundamento essa bibliografia das ciências sociais, desenvolvi a pesquisa que deu origem a este livro. No primeiro capítulo, descrevo minha entrada no campo – o Centro de Tratamento Intensivo –, a metodologia utilizada, assim como as reações da equipe à minha observação. No segundo faço uma descrição geral desse setor hospitalar, apresentando a seguir os atores que se movimentam nesse espaço e suas tarefas profissionais. O terceiro capítulo é dedicado à análise do modo pelo qual é construída a identidade profissional dos integrantes do CTI, as relações entre as diversas categorias profissionais que compõem o próprio grupo dessa unidade e as relações com os outros serviços do hospital. O quarto capítulo contempla uma discussão sobre o processo de tomada de decisões por parte dos profissionais do centro observado, e o modo como tais decisões são formuladas, tendo como pano de fundo um 'sistema' classificatório dos doentes internados. A partir das diversas categorias produzidas pelo grupo profissional, decisões são tomadas quanto ao prolongamento da vida dos internados, nas quais a equação 'competência-cuidado' é atualizada sob distintas formas. Finalmente, nas conclusões, são apresentadas algumas questões que permanecem em aberto e possibilidades de investigação no campo. Uma vez que várias falas de profissionais contêm termos técnicos da biomedicina, foi elaborado um glossário para facilitar a leitura.

A pesquisa no Centro de Tratamento Intensivo somente foi possível graças à abertura de suas portas à observação. Agradeço, portanto, às chefias do hospital e do CTI e, especialmente, às equipes que ali trabalhavam, por sua paciência diante de minhas perguntas.

Em minha trajetória no Instituto de Medicina Social da Uerj tive o privilégio de contar com a orientação atenta e amiga de Sérgio Carrara, que soube sempre encontrar a melhor forma de me conduzir à clareza. Agradecimentos especiais também a Maria Luiza Heilborn, tanto por sua contribuição decisiva para a definição do objeto de pesquisa como por suas ricas sugestões.