Difíceis decisões: etnografia de um Centro de Tratamento Intensivo

1 Entrando no CTI

 

Tento relatar algo e, mal me calo, noto que ainda não disse

nada. Uma maravilhosa substância luminosa, refratária,

permanece em mim e escarnece das palavras. Será o idioma,

que lá não compreendi e que agora deverá se traduzir

lentamente dentro de mim? Lá existiram acontecimentos,

imagens e sons, cujos significados só agora começam a se

constituir para mim; que não foram captados nem delimitados

por palavras; que estão além das palavras, que são mais profundos e mais prenhes de significado do que aquelas.

Sonho com um homem que tenha desaprendido os idiomas do mundo, que não entenda mais o que se diz em nenhuma parte

da terra.

O que é a língua? O que ela esconde? O que nos rouba?

(Canetti, 1987)

Ao decidir desenvolver pesquisa de campo em CTI, conversei com alguns amigos médicos sobre o projeto, pedindo-lhes sugestões. Os comentários causaram surpresa: a preocupação deles era, sobretudo, com minha integridade física. Fui aconselhada por um destes médicos a vacinar-me contra hepatite tipo B, antes da primeira visita ao serviço. Outro disse: “não se aproxime muito dos leitos, pode espirrar sangue em você...”. A imagem era o risco de contaminação e, por isso, seria aconselhável reforçar minhas defesas. Parecia que partia em viagem para uma selva muito perigosa.

A observação etnográfica no CTI iniciou-se em 2 de fevereiro de 1999, com autorização oficial das chefias do hospital e da unidade. Freqüentei o serviço durante três meses, em 26 visitas, totalizando cerca de cem horas, conhecendo as equipes de todos os sete dias da semana. Não realizou-se observação à noite nem de madrugada, mas em diferentes períodos do dia, de forma a captar o ritmo de trabalho.

Segundo Bronislaw Malinowski (1980), a observação participante coleta dados por meio da imersão do pesquisador na vida cotidiana do grupo social que investiga. Foi o que se buscou durante a investigação, ao freqüentar todos os espaços do setor, sempre com roupa ‘mundana’, por não ter sido solicitado o uso de vestimenta especial.

Na primeira observação, quase todos os profissionais já tinham notícia da presença de uma pesquisadora. A chefia médica havia informado à equipe sobre o projeto. Houve uma receptividade inicial positiva. Aos poucos, os profissionais começaram a questionar o intuito da observação. À medida que ficava claro que a pesquisadora era uma mestranda, com propósito de estudo, os profissionais ficavam mais relaxados. Apenas aparentemente, pois alguns não pareciam se comportar com espontaneidade, o que um médico confirmou:

Eu acho que só daqui a um tempo você vai poder realmente

saber como é, porque muita gente não vai agir naturalmente

com você aqui. Depois de algum tempo as pessoas vão voltar a

agir naturalmente, quando se esquecerem da sua presença...

(médico plantonista)

De fato isso ocorreu. No período inicial da observação, um médico resolveu, apenas para ilustrar o procedimento, fazer a reunião com os familiares sem a presença da psicóloga, geralmente a coordenadora do evento. Com o transcurso da observação, os profissionais passaram a agir mais naturalmente. Entretanto, ao mesmo tempo em que havia uma preocupação da equipe em ‘passar’ a melhor imagem, as fantasias sobre a investigação surgiam. Ao ser apresentada a outro médico por um plantonista, este disse: “aqui tem de tudo, tem até mestranda de num sei de quê, que é o FBI...” Isso foi dito em tom de brincadeira e sorrisos, mas a idéia era clara: não se tratava de um estudo e sim de controle e espionagem.

O diário de campo também foi objeto da curiosidade dos profissionais. Alguns pediram para vê-lo, “mas só prá ver se você anotou direitinho...” e, dito por um médico-residente, “Ih, você sempre fazendo anotações, deve estar fazendo um estudo psiquiátrico de todos aqui, cada um mais louco...”. A fantasia era que ‘a loucura dos profissionais’ poderia ser ali captada. Um médico plantonista disse, brincando: “vou até a Psiquiatria pegar haldol, volto logo”. Fez perguntas sobre a especialização médica da pesquisadora e o objetivo do estudo. Ao ouvir as respostas, disse: “Ih, agora estou ferrado, ela vai achar que sou louco porque fui na Psiquiatria...”. Tais comentários foram feitos sem o conhecimento da especialização em Psiquiatria da autora, pois a maior parte dos profissionais sabia apenas que cursava o mestrado em medicina social. Somente após certo tempo de observação, alguns membros da equipe souberam da formação como psiquiatra e psicanalista.

O fato de a pesquisadora ser médica podia dar margem a duas situações distintas: tanto poderia aproximá-la dos colegas como, eventualmente, fazer com que alguns se sentissem julgados tecnicamente. Depois de várias idas ao campo, um médico plantonista perguntou: “Afinal de contas, o que você quer estudar aqui no CTI?” Após tomar conhecimento do título do projeto disse, rindo: “Ah, então você está aqui pra estudar a minha competência médica, a competência do Dr. Fulano!”.

A presença de uma observadora parecia ameaçar especialmente alguns profissionais mais jovens, como, por exemplo, um residente que disse certa vez, dirigindo-se a um estagiário (ambos de medicina): “Cuidado com o que diz perto dela, ela anota tudo, depois vai sair escrito que o Fulano de Tal disse isto e aquilo”. Reafirmou-se então o compromisso com a chefia do CTI acerca da não identificação do hospital e de seus integrantes.

Os contatos com as equipes se deram de maneiras distintas: os membros da equipe de enfermagem (enfermeiros e auxiliares de enfermagem) mostravamse mais contidos, em uma postura inicialmente submissa. Colocavam-se à disposição para o que fosse preciso, ofereciam ajuda e esclarecimentos mas, quando a pesquisadora aproximava-se da equipe médica, os enfermeiros se afastavam – um dos primeiros indícios das tensões entre as duas categorias profissionais.

No final do período de observação, alguns enfermeiros e auxiliares já se comportavam com maior espontaneidade, em relação à presença da pesquisadora no setor. Em uma ocasião, à despedida, alguns auxiliares de enfermagem disseram: “Vai com Deus”, “Volte logo, você vem na segunda-feira?”, “Tudo de bom pra você, bom descanso”. Essas mesmas expressões eram usuais nas despedidas com seus colegas e com a equipe de fisioterapia, mas não no contato com os médicos.

Com a freqüência das observações houve maior aceitação e a pesquisadora passou a ser vista, pela equipe, como colega. Algumas vezes em que observei a execução de ‘procedimentos’ nos corpos dos doentes, o estagiário de medicina solicitou ajuda para abrir um frasco ou pacote. Apenas em uma ocasião uma auxiliar de enfermagem fez o mesmo tipo de solicitação: ela estava de luvas e pediu que arregaçasse as mangas do seu avental. Nenhum membro da equipe de fisioterapia fez demanda semelhante durante todo o período de observação.

Após certo tempo de freqüência à unidade, alguns médicos de outros setores do hospital passaram a cumprimentar a pesquisadora como se fizesse parte da equipe do CTI. Em certa ocasião um médico disse: “Você não estava no plantão de domingo? Te vi com a Fulana, plantonista, sei que você veio e está aqui de novo...”. E passou a contar sobre sua vida e plantões. Esse episódio é indicativo de uma inclusão da pesquisadora no CTI, talvez uma forma da equipe ‘domesticar’ a presença de um intruso, afastando a ameaça de uma ‘espiã’, o que chegou a ser explicitado por uma profissional:

Em certo momento me senti perseguida pela presença de uma

observadora, e imaginei que todos devem se sentir assim. Mas,

depois, pensei que você está aqui pra escrever um trabalho,

para pensar o CTI, que então é mais uma pessoa para

colaborar conosco. (psicóloga)

Em outra ocasião, ao chegar, o plantonista me cumprimentou dizendo: “Já estava com saudades, há quanto tempo você não aparece aqui”. Ao ser considerada como colega, o diálogo fluía mais facilmente: em certa ocasião, fui abordada por uma enfermeira interessada no tema da pesquisa, por pretender fazer mestrado sobre o cuidado humano.

Segundo Malinowski (1980), a pesquisa de campo deve ser desenvolvida em três níveis denominados figurativamente como ‘esqueleto’, ‘carne/sangue’ e ‘espírito’ de determinado grupo social. O primeiro seria constituído por fatos relativos à organização da ‘tribo’ ou à ‘anatomia’ de sua cultura. O seguinte, pelos imponderáveis da vida real, coletados por meio de observações minuciosas e detalhadas sobre o modo pelo qual os ‘nativos’ vivem ou atualizam as normas ou regras formais. Finalmente, o terceiro nível seria constituído pelo modo como o grupo pensa suas práticas: “Estas três linhas de abordagem conduzem ao objetivo final que o etnógrafo nunca deve perder de vista. Este objetivo é, resumidamente, apreender o ponto de vista do nativo, sua relação com a vida, compreender sua visão do seu mundo” (Malinowski, 1980: 60).

Do mesmo modo como os profissionais percebiam minha presença de distintas formas – ora como familiar, ora como exótica – eu também oscilava. Em muitos momentos, por minha formação médica, sentia-me em ambiente familiar enquanto em outras situações era uma estranha, muito distante daquele universo. Uma das mais tradicionais premissas das ciências sociais é a necessidade de uma distância mínima que garanta ao pesquisador condições de certa objetividade em seu trabalho. É inevitável e imprescindível, entretanto, um envolvimento com o objeto de estudo, o que necessariamente conduz à idéia de movimentos sucessivos de distanciamento e aproximação (Velho, 1981).

Vestir a capa de etnólogo é aprender a realizar uma tarefa, que pode ser contida em duas fórmulas: “transformar o exótico em familiar e/ou transformar o familiar em exótico” (DaMatta, 1978: 28). A familiaridade representa um certo tipo de apreensão da realidade, que conforma o conhecimento da vida social de uma época e de um grupo. Assim, ao estudar o que está próximo, o antropólogo expõe-se, com maior ou menor intensidade, a confrontos com outros especialistas ou mesmo com leigos, que podem discordar das interpretações do investigador (Velho, 1981).

Após algum tempo de freqüência no CTI, dei-me conta de estar presa de anthropological blues, expressão cunhada por Roberto DaMatta (1978), ao se referir ao envolvimento do pesquisador para além do contexto da observação. O setor passava a me preocupar de uma forma especial. Fora do CTI, pensava nos pacientes – se teriam melhorado ou não – ou se determinados materiais e medicamentos escassos no hospital já estariam disponíveis. Em certa ocasião, me emocionei com o anúncio dado por uma médica à mãe de uma paciente jovem, sobre a proximidade de sua morte. Como diz DaMatta, parafraseando Lévi-Strauss, o sentimento e a emoção seriam “os hóspedes não convidados da situação etnográfica” (DaMatta, 1978: 30).

O surgimento de emoções na pesquisa de campo, obriga a refletir sobre a posição de observadora e sobre as formas de envolvimento emocional dos profissionais da saúde que trabalham no CTI. Assim como o profissional de CTI necessita de certa distância de seus pacientes, o pesquisador também deve saber afastar-se do seu objeto de investigação. Há, pois, um paradoxo na situação etnográfica: “Para descobrir é preciso relacionar-se e, no momento mesmo da descoberta, o etnólogo é remetido para o seu mundo e, deste modo, isola-se novamente” (DaMatta, 1978: 32).

Além da observação direta, buscou-se apreender as interpretações dos profissionais sobre os eventos do setor – o ‘espírito’ do grupo –, conversando com eles e participando de suas conversas. Após cerca de dois meses de freqüência, entrevistas gravadas foram

realizadas com dez profissionais: três médicos 1 staff , um médico-residente, um estagiário de medicina, uma psicóloga, uma enfermeira, dois auxiliares de enfermagem, um residente de fisioterapia. A maior dificuldade em sua execução foi a disponibilidade, pois os profissionais diziam não ter tempo fora do CTI. Elas ocorreram sempre no horário de trabalho, o que fazia com que fossem interrompidas em diversas oportunidades. Apenas um profissional negouse a conceder entrevista. Todos disseram ter gostado muito da conversa, dando a impressão de que tinham muito a falar, talvez por haver pouco espaço para reflexões na prática do CTI.

A principal característica da entrevista é ser um ‘fato de palavra’, no qual o poder expressivo da linguagem verbal pode alcançar descrições, explicações, justificativas e avaliações sobre uma série de questões, que se impõem quando se deseja abordar certos temas (Hammersley & Atkinson, 1986). A realização de uma entrevista pode ser comparada a uma arte, por ser um instrumento flexível, não obedecendo a regras técnicas muito estritas. A qualidade da interação entrevistador/entrevistado é que vai decidir o desenrolar da entrevista, um encontro. Entreter-se com alguém é uma experiência singular que não pode ser conduzida, codificada, estandardizada ou profissionalizada. Trata-se de uma situação que comporta sempre uma possibilidade de pontos desconhecidos – portanto, de riscos – inerentes ao fato de ser um processo interlocutório e não simplesmente um levantamento de informações (Blanchet & Gotman, 1992). Como o habitus, a entrevista é um tipo de ‘improvisação regrada’. Improvisação porque cada entrevista é uma situação singular, suscetível de produzir efeitos de conhecimento particular. Regrada porque para produzir tais efeitos de conhecimento, a entrevista demanda um certo número de ajustamentos que constituem propriamente sua técnica.

A entrevista pode ser definida como um percurso ou uma via de acesso: não se reduz a uma manipulação técnica, nem a um encontro social rotineiro (Blanchet & Gotman, 1992). Assim, elegeu-se a entrevista como instrumento privilegiado para a compreensão dos fatos observados concernentes às práticas sociais e à produção de discursos sobre estas.

Para captar o que Malinowski nomeou de “esqueleto, carne e sangue, e espírito”, foi necessária uma imersão – provavelmente com conseqüências tanto para o próprio serviço investigado como para o pesquisador. Na observação, foram apreendidas as práticas e a lógica de um grupo profissional. A partir da visão e da escuta dos atores observados, é construída uma versão – a do pesquisador –, dentre tantas outras possíveis.

 

Notas

1 O termo staff refere-se ao profissional que possui estabilidade, em geral concursado e ocupando posição hierárquica superior aos profissionais trabalhando em contrato temporário.