Esconderijo

Dean R. Koontz · Capítulo 1 de 8 · parte 1/3

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Esconderijo

Um

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

1

Um mundo inteiro se estendia por trás dos contrafortes escuros das montanhas, um mundo agitado e barulhento, e no entanto para Lindsey Harrison a noite era vazia, tão oca quanto as cavidades internas de um coração frio e morto. Tiritando, ela se aconchegou sobre si própria, no banco dianteiro do automóvel Honda.

Blocos compactos de coníferas recobriam as encostas da montanha ao longo da rodovia, abrindo-se ocasionalmente para dar lugar a bordos e bétulas que erguiam para o céu seus ramos retorcidos e desfolhados pelo rigor do inverno. Ainda assim, aquela vasta floresta e as imponentes formações rochosas por onde ela se espalhava não diminuíam a impressão de vazio causada por aquela noite áspera de março. À medida que o Honda descia pela faixa escura e sinuosa do asfalto, as árvores e os rochedos iam ficando para Irás como se flutuassem no ar, imagens de sonho desprovidas de substância concreta.

Fustigada sem cessar pelo vento inquieto, a neve caía em rajadas oblíquas através dos fachos de luz dos faróis do carro. Mas a própria tempestade não poderia preencher aquele vazio.

O vazio que Lindsey sentia não era externo: era no seu próprio interior, Lá fora a noite, como sempre, transbordava com o perpétuo caos da criação, E sua alma era a única coisa vazia naquilo tudo.

Olhou para Hatch. Ele estava inclinado para a frente, meio curvado sobre o volante, olhando adiante com uma expressão que poderia parecer calma e inescrutável aos olhos de qualquer outra pessoa, mas que Lindsey, depois de doze anos de casamento, podia ler com facilidade. Hatch era um excelente motorista, e não se deixava intimidar por uma estrada com mau tempo. Seus pensamentos, assim como os dela, estavam voltados com certeza para o longo fim de semana que tinham acabado de passar no lago Big Bear.

Uma vez mais os dois tinham tentado recapturar a sensação de intimidade que tinham experimentado em outros tempos; e uma vez mais haviam fracassado.

As correntes do passado ainda os aprisionavam. A morte de um filho de cinco anos tinha um peso emocional quase incalculável. Era algo que pressionava a mente o tempo todo, esvaziava seus raros momentos de exaltação, esmagava as pequenas alegrias no momento em que elas começavam a brotar. Jimmy estava morto há mais de quatro anos e meio, quase o mesmo tempo que tivera para viver, e no entanto a sua morte ainda pesava tanto quanto no dia em que ele se fora, e se assemelhava a uma lua colossal percorrendo uma órbita muito baixa, por cima de suas cabeças. Forçando a vista através do pára-brisa embaçado, no intervalo dos movimentos rítmicos com que os limpadores raspavam o vidro coberto de geada, Hatch soltou um suspiro. Olhou para Lindsey e sorriu. Era um sorriso pálido, apenas a sombra de um sorriso verdadeiro; uma contração cansada, melancólica, sem vestígio de prazer. Ele deu a impressão de que iria dizer algo, mas mudou de idéia e voltou a fixar sua atenção na estrada.

As três pistas de asfalto — uma descendo, duas subindo — começavam a desaparecer sob um lençol de neve. A estrada chegou ao fim de uma descida e se aprumou num trecho reto de curta extensão que conduzia a uma curva fechada. A despeito daquele trecho horizontal, ainda não tinham acabado de descer as montanhas de San Bernardino; mais adiante, a rodovia estadual recomeçaria a descida rumo à planície.

Quando começaram a fazer a curva, o terreno à sua volta pareceu mudar: a encosta do lado direito era mais escarpada do que antes, e do lado esquerdo, para lá do asfalto, escancarava-se uma ravina vasta e tomada pela escuridão. Balaústres de metal pintados de branco sustentavam uma grade de proteção que corria ao longo do precipício, quase invisível por entre as rajadas de neve.

Um ou dois segundos antes de terminarem de fazer a curva, Lindsey teve um pressentimento, uma sensação de perigo iminente.

— Hatch... — disse ela.

Hatch devia ter pressentido algo também, porque no instante em que ela falou ele pôs o pé no freio, reduzindo um pouco a velocidade.

Do lado de lá da curva a estrada iniciava uma descida em linha reta, e um caminhão carregado de caixas de cerveja estava parado obliquamente entre duas pistas, cerca de vinte metros à frente deles.

Lindsey tentou dizer Oh, meu Deus, mas sua voz pareceu sumir.

Era evidente que o motorista, durante um serviço de entregas para as estações de esqui, tinha sido surpreendido pela nevasca, que começara a cair poucas horas antes, mais cedo do que a meteorologia tinha anunciado. Os pneus do enorme caminhão, desprovidos de correntes protetoras, deslizavam inutilmente na camada de gelo, enquanto o motorista tentava desesperadamente aprumá-lo novamente na pista da direita para seguir adiante.

Praguejando por entre os dentes, mas sem perder a calma, Hatch retirou o pé do freio, para não derrapar.

Ao perceber o clarão dos faróis do Honda, o motorista pôs a cabeça pela janela. Através daquela distância que diminuía cada vez mais, através da escuridão e da neve, Lindsey enxergou o rosto do homem como uma pálida mancha oval com dois borrões escuros no lugar dos olhos, como se ao volante da carreta estivesse sentado algum espírito maligno... ou a Morte em pessoa.

Hatch começou a desviar o carro para a última pista à sua esquerda, a única não bloqueada pelo caminhão.

Lindsey imaginou se não haveria um outro carro subindo por aquela pista, oculto por trás do vulto maciço do caminhão. Mesmo depois de terem reduzido a velocidade, uma colisão frontal naquelas circunstâncias não lhes daria muitas chances de sobreviver.

A despeito do esforço de Hatch, o Honda começou a derrapar. A traseira foi se desviando para a esquerda, e Lindsey sentiu que se afastava cada vez mais do caminhão. Aquele movimento deslizante, escorregadio e fora de controle parecia a transição entre duas cenas de um pesadelo. Ela sentiu seu estômago se contrair num espasmo de náusea, e embora estivesse presa pelo cinto de segurança ergueu instintivamente a mão esquerda para se apoiar no painel, enquanto a direita agarrava a porta, em busca de apoio.

— Segure firme—disse Hatch, girando o volante na direção que o carro pedia, na esperança de readquirir controle.

Mas a derrapagem acabou se transformando num vertiginoso rodopio, e o Honda fez um giro de 360 graus, como se fosse um carrossel sem música: rordou... rodou... até que o caminhão ficou visível novamente. Por um instante, enquanto deslizavam ladeira abaixo, ainda rodopiando, Lindsey teve certeza de que passariam a salvo pelo outro veículo; podia ver o que havia do outro lado dele agora e percebeu que a estrada estava livre de tráfego.

E então o pára-choque dianteiro do lado de Hatch chocou-se com a traseira do caminhão. Ouviu-se um clangor de metal.

O Honda estremeceu e pareceu explodir para longe do ponto de colisão, chocando-se com violência de encontro à balaustrada de proteção. Lindsey sentiu suas mandíbulas se chocarem com força bastante para deflagrar em seus dentes fagulhas de dor que se espalharam por todo o crânio, enquanto a mão com que se apoiava no painel sofria uma torção dolorosa à altura do pulso. Ao mesmo tempo, o cinto de segurança, que a prendia diagonalmente do ombro direito ao quadril esquerdo, apertou-a com tamanha força que todo o ar que tinha nos pulmões foi expelido bruscamente.

O carro ricocheteou de encontro à balaustrada, não com força bastante para ser arremessado outra vez de encontro ao caminhão, mas o bastante para fazê-lo descrever um novo giro de 360 graus. Enquanto meio derrapavam, meio deslizavam ladeira abaixo, Hatch lutou para recuperar o domínio do carro, mas o volante girava descontroladamente, e ele gritou de dor quando a palma de suas mãos foi queimada pelo atrito da roda desgovernada.

De repente, a inclinação da ladeira pareceu ficar mais abrupta, como a rampa de um tobogã de parque de diversões. Lindsey teria gritado se tivesse fôlego bastante, mas embora o cinto de segurança tivesse afrouxado a pressão sobre seu peito, ele ainda estava percorrido por uma dor irradiante que a impedia de respirar. Num breve instante ela teve o vislumbre aterrador do Honda derrapando até a extremidade da curva mais adiante, rompendo a balaustrada e precipitando-se no vazio — e o terror provocado por essa imagem foi tão forte quanto um soco, fazendo-a arquejar e encher de ar os pulmões.

Quando o Honda concluiu seu segundo giro sobre si próprio, a sua parte lateral, do lado do motorista, chocou-se contra a balaustrada, e o carro deslizou cerca de dez ou quinze metros em contato com o gradil de ferro. Ouviu-se um rangido de ferro contra ferro, enquanto a lataria do carro ia raspando no gradil e erguendo no ar um chuveiro de fagulhas que se misturavam aos flocos da neve que caía, como se um enxame de vaga-lumes de verão tivesse passado por uma fenda no Tempo e surgido no meio da estação errada.

O carro parou por fim, com um solavanco mais brusco, ficando com a parte dianteira semi-erguida do lado esquerdo, apoiada num dos balaústres do gradil. Por um instante, o silêncio que se seguiu foi tão intenso que Lindsey sentiu-se atordoada e soltou um arquejo brusco.

Nunca antes ela tinha experimentado uma sensação de alívio tão intensa.

Então o carro começou a mover-se outra vez.

Estava inclinando-se para a esquerda. A balaustrada estava cedendo, talvez enfraquecida pela corrosão ou pela erosão do terreno onde estava fincada.

— Vamos sair daqui! — gritou Hatch, enquanto tateava freneticamente cm busca do fecho de seu cinto de segurança.

Lindsey não teve tempo sequer de libertar-se do seu próprio cinto ou de agarrar a maçaneta da porta, porque nesse instante o gradil cedeu e o Honda tombou na ravina. No próprio instante em que aquilo acontecia, ela não conseguia acreditar que fosse verdade. A mente registrava a proximidade do fim, enquanto o coração teimava em considerar-se imortal. Ao longo de cinco anos ela não tinha conseguido aceitar plenamente a idéia da morte de Jimmy; como poderia aceitar em segundos a inevitabilidade de sua própria morte?

Numa avalanche confusa de balaústres de ferro e pedaços de gradil, o Honda rolou lateralmente ao longo da escarpa recoberta de gelo, até virar com as rodas para cima, quando a inclinação se tornou mais acentuada. Arquejando, o coração batendo furiosamente, sentindo a pressão dolorosa do cinto de segurança, Lindsey rezou para que o carro batesse numa árvore, num rochedo, em qualquer coisa que pudesse deter aquela queda, mas a encosta parecia desimpedida. Ela não sabia mais quantas vezes o carro tinha capotado; talvez tivessem sido apenas duas, mas noções como "acima" e "abaixo" tinham perdido todo o sentido. Sua cabeça chocou-se com o teto do carro, numa pancada que quase a nocauteou; ela não conseguiu saber se tinha sido jogada para o alto ou se o teto tinha sido amassado para dentro até atingi-la, de modo que tentou encolher-se no assento o mais possível, para que na capotagem seguinte o teto não afundasse ainda mais, partindo seu crânio. À sua frente, os faróis do carro eram como lâminas rasgando a escuridão da noite e fazendo brotar torrentes de flocos de neve. Então, o pára-brisa estilhaçou-se, cobrindo-a com minúsculos fragmentos rombudos de vidro, e de repente ela viu-se mergulhada em total escuridão. Aparentemente os faróis tinham sido danificados, e ela agora podia ver apenas as luzes do painel, que iluminavam fracamente o rosto de Hatch, coberto de suor. O carro virou mais uma vez com as rodas para cima e permaneceu assim; naquela posição invertida, começou a deslizar mais e mais para o interior daquela ravina que parecia não ter fundo, emitindo um som que parecia o de toneladas de carvão sendo despejadas através de um conduto metálico.

A treva era total e aterrorizante agora, como se ela e Hatch não estivessem ao ar livre e sim deslizando nos trilhos de uma montanha-russa situada dentro do trem-fantasma de um parque de diversões. Mesmo a costumeira fosforescência natural da neve tinha se tornado invisível. Flocos gelados chocavam-se contra o seu rosto, soprados através da abertura do pára-brisa, mas ela era incapaz de vê-los, mesmo quando eles se derretiam de encontro aos seus olhos contraídos. Lutando para controlar o pânico que a invadia, ela imaginou se teria ficado cega devido aos estilhaços de vidro.

Cegueira.

Esse era o seu maior temor. Ela era uma artista plástica. Seu talento extraía inspiração das coisas que ela observava, e suas mãos extremamente hábeis transformavam essa inspiração em arte, ajudadas pela avaliação crítica dos olhos que as guiavam. O que pode criar um pintor, se se torna cego? O que poderia ela pensar em criar um dia, caso se visse privada do sentido mais importante?

Quando ela começou a gritar, o carro atingiu o fundo e tombou mais uma vez, ficando em posição normal, com um impacto menos violento do que ela temera, e imobilizou-se quase com suavidade, como se tivesse pousado sobre um enorme travesseiro.

— Hatch?...

A voz dela estava rouca. Depois da cacofonia de ruídos que tinha acompanhado a queda do carro até o fundo da ravina, Lindsey sentia-se meio surda, sem saber se o estranho silêncio que pairava em redor era real ou era ilusão sua.

— Hatch?...

Olhou para a esquerda, onde ele devia estar—mas não conseguia vê-lo; não conseguia enxergar coisa alguma. Estava cega.

— Oh, meu Deus, não. Por favor.

Sentia-se tonta também. O carro parecia estar rodando sobre si mesmo, oscilando como uma pipa erguida no ar de um dia de verão, subindo e descendo ao sabor das correntes térmicas.

— Hatch!

Nenhuma resposta.

A tontura aumentou. O carro agitava-se e balançava cada vez mais, e Lindsey pensou que ia desmaiar. Se Hatch estivesse ferido, talvez acabasse sangrando até morrer enquanto ela estaria inconsciente e sem poder ajudá-lo.

Ela tateou às cegas e localizou o corpo do marido, encolhido sobre si mesmo no assento do motorista. A cabeça estava pendida sobre o ombro direito. Ele não se moveu quando Lindsey apalpou o seu rosto; algo quente e pegajoso cobria o lado direito do seu rosto e da testa. Sangue. Um ferimento na cabeça. Com dedos trêmulos, Lindsey tateou os lábios do marido e soltou u m suspiro de alívio ao sentir o hálito quente que passava por entre seus lábios entreabertos.

Estava inconsciente, mas não morto.

Lutando contra o fecho do cinto de segurança, Lindsey começou a ouvir uma série de sons que a princípio não conseguiu identificar. Um estalo apenas audível; depois, um barulho molhado que aumentava mais e mais; e por fim um som estranho como o de alguém agitando com os dedos o líquido de uma vasilha. Por um momento ela se imobilizou, tentando identificar a origem daqueles ruídos.

Sem aviso prévio, o Honda tombou para a frente, e uma cascata de água gelada golfou através da abertura do pára-brisa, encharcando o colo de Lindsey. Ela soltou um arquejo de susto quando aquele banho ártico a enregelou até a medula dos ossos, e só então percebeu que o que sentia não era tontura. O carro estava rodando, sim. Estava flutuando na água. A queda tinha acabado num lago, ou num rio; provavelmente num rio. A superfície plácida de um lago não estaria tão ativa assim.

O choque produzido pela água gelada paralisou-a por alguns instantes e arrancou-lhe um gemido de dor, mas quando ela voltou a abrir os olhos conseguiu enxergar novamente. Os faróis do carro tinham mesmo pifado, mas as luzes dos mostradores do painel ainda estavam brilhando. Ela devia ler sofrido um ataque passageiro de cegueira histérica, em vez de algum dano físico real.

Não conseguia ver muita coisa; mas não havia muito para ser visto no fundo daquela ravina mergulhada nas trevas da noite. Cacos remanescentes do pára-brisa estilhaçado eram vagamente visíveis ao longo da moldura. Do lado de fora, a água oleosa era visível apenas por uma fosforescência prateada que permitia localizar sua superfície revolta e produzia reflexos nos blocos de gelo entrelaçados que flutuavam à deriva. As barrancas do rio estariam mergulhadas em completa escuridão se não fosse pelos fantasmagóricos farrapos de neve apegados aos rochedos, à terra e aos arbustos. O Honda movia-se pela água do rio quase como se fosse uma lancha: a água se encrespava de encontro ao capo e se partia num amplo "V", abrindo-se para os lados como se estivesse sendo fendida pela proa de um barco, chapinhando de encontro aos vidros fechados das janelas. Estavam sendo arrastados correnteza abaixo, e mais adiante o rio com certeza iria se tornar mais turbulento, levando-os na direção de corredeiras, ou de rochas, ou coisa pior.

Num único olhar Lindsey compreendeu a gravidade da situação, mas ainda estava tão aliviada por ter recuperado a vista que mesmo aquela imagem a inundou de gratidão.

Tremendo de frio, conseguiu finalmente libertar-se das correias do cinto de segurança e agarrou Hatch novamente. O rosto dele tinha uma expressão cadavérica, à luz mortiça do painel eletrônico: olhos fundos, a pele cor de cera, os lábios descorados, o sangue escorrendo (mas, graças a Deus, não brotava aos borbotões) do ferimento na têmpora. Ela o sacudiu com delicadeza, depois com mais força, chamando-o pelo nome.

Ela sabia que não conseguiriam sair facilmente do carro enquanto ele flutuava rio abaixo, e talvez isso fosse até impossível; mas tinham que estar preparados para sair caso ele fosse detido por uma rocha ou encalhasse por alguns instantes numa das margens. Uma chance como essa talvez não durasse muito tempo.

Mas Hatch não voltava a si. Mais uma vez sem nenhum sinal prévio, o carro voltou a inclinar-se para a frente, e outra onda de água gelada jorrou para dentro através do pára-brisa; tão fria que teve um efeito semelhante ao de um choque elétrico, fazendo o coração de Lindsey perder o compasso por uma ou duas batidas, e trancando a respiração no seu peito.

A frente do carro não voltou a se erguer de dentro da água, como tinha feito da vez anterior. Estava mergulhando mais e mais, e havia cada vez menos água do rio por baixo do carro para reerguê-lo. A água continuou entrando, e logo o seu nível subia dos tornozelos de Lindsey até o meio da canela. Estavam afundando.

— Hatch! — Agora ela gritava, sacudindo-o com toda força, sem ligar para seus ferimentos.

Uma nova golfada violenta jorrou para dentro, fazendo o nível da água no interior do carro subir até o assento, e erguendo enormes bolhas de espuma que refletiam as luzes coloridas do painel e ficavam parecidas com bolas de árvore de Natal.

Lindsey ergueu os pés de dentro da água, ajoelhou-se no assento e começou a dar tapas no rosto de Hatch, tentando despertá-lo. Mas ele parecia estar mergulhado num nível de inconsciência mais sério do que o de um simples desmaio; talvez num coma tão profundo quanto uma fossa oceânica.

Com uma golfada atrás da outra, a água estava chegando ao nível do volante do carro.

Lindsey lutou desesperadamente com o cinto de segurança de Hatch, tentando desprendê-lo fosse como fosse, e mal se dando conta da dor aguda que percorreu seus dedos quando duas de suas unhas se partiram.

— Hatch! Hatch!

A água estava agora cobrindo metade do volante, e o Honda quase cessou seu movimento para diante; estava pesado demais para ceder à pressão que a água exercia por baixo.

Hatch tinha 1,75m e pesava oitenta quilos; tinha uma estatura mediana, mas naquelas circunstâncias era o mesmo que ser um gigante. Era um peso morto, resistindo a todos os esforços de Lindsey, praticamente inarredável. Puxando, empurrando, sacudindo, cravando-lhe os dedos com todas as forças, Lindsey lutou para libertá-lo e, quando finalmente conseguiu desvencilhar seu corpo das correias do cinto, a água já cobria o painel e estava à altura do seu peito. Em Hatch, que estava encolhido sobre si mesmo, ela já chegava abaixo do queixo.

O rio estava incrivelmente gelado, e Lindsey podia sentir o calor abandonar seu corpo como se fosse sangue fluindo de uma artéria seccionada. À medida que o calor fluía para fora ia sendo substituído por um enorme frio, que percorria os músculos dela em ondas dolorosas.

Mesmo assim ela achou providencial a elevação do nível da água, porque ela tornaria o corpo de Hatch mais leve e mais fácil de manobrar; ela poderia puxá-lo do assento, retirando-o através do pára-brisa arrebentado. Pelo menos isso foi o que ela imaginou, mas quando tentou movê-lo ele parecia estar ainda mais pesado do que antes, e a água já atingia seus lábios.

— Vamos, vamos — disse ela, furiosamente. — Vamos, Hatch, você vai se afogar, que merda!

 

2

Quando conseguiu finalmente conduzir seu caminhão de cerveja para fora da rodovia, a primeira providência de Bill Cooper foi transmitir um pedido de socorro pelo rádio, na faixa do cidadão. Outro caminhoneiro respondeu; tinha um telefone celular além do rádio, e prometeu chamar imediatamente as autoridades da localidade mais próxima, Big Bear.

Bill desligou o rádio, pegou uma lanterna elétrica de seis pilhas que trazia sob o assento e desceu da cabine para o meio da nevasca. O vento da noite era de um frio cortante através da sua jaqueta jeans forrada de lã, mas mesmo aquele frio não podia se comparar ao que ele sentia no estômago desde o momento em que vira o Honda derrapar ao longo da rodovia, romper o gradil e precipitar-se na ravina com seus ocupantes.

Atravessou o mais rápido que pôde a faixa escorregadia de asfalto e caminhou ao longo do acostamento até atingir o trecho em que o gradil fora destruído. Tinha a esperança de ver o Honda logo abaixo dali, preso de encontro a algum tronco de árvore. Mas não havia árvores naquela encosta — apenas um manto de neve acumulado desde as tempestades anteriores, onde eram visíveis as marcas da queda do carro sumindo na escuridão para além do alcance do facho de luz da lanterna.

Uma dolorosa aguilhoada de remorso percorreu o peito de Bill. A verdade é que ele tinha bebido, mais uma vez. Não muito. Apenas alguns goles do frasco cheio de uísque que trazia no bolso do casaco. Ao começar a subida da montanha, tinha certeza absoluta de que estava sóbrio. Agora, no entanto, essa certeza se desvanecera. Sentia-se... zonzo. E de repente pensou que tinha sido uma rematada estupidez tentar fazer uma entrega justamente na hora em que o tempo mostrava claramente que ia piorar.

Abaixo dele, o abismo tinha a aparência sobrenatural de uma cavidade sem fundo, dando a Bill a sensação de estar contemplando o local onde seria precipitado para receber seu merecido castigo, no fim da vida. Ele sentiu-se invadido e paralisado por aquela sensação de futilidade total das coisas, sensação que assalta às vezes mesmo os homens mais determinados — embora geralmente isso aconteça quando estão deitados em casa, às três horas de uma madrugada insone, contemplando o padrão aleatório das sombras projetadas no teto do quarto.

Então, a cortina da neve que caía se entreabriu por um momento e ele vislumbrou o fundo da ravina a cerca de trinta ou cinqüenta metros abaixo, não tão longe quanto ele temera a princípio, Ele passou com cuidado através da parte arrebentada do gradil, com a intenção de se arrastar pela encosta até embaixo e tentar salvar os sobreviventes, se houvesse algum. Acabou detendo-se, hesitante, na faixa de terra à beira da encosta; além de estar ainda meio tonto devido ao uísque, era-lhe impossível enxergar o local exato onde o carro poderia estar.

Lá embaixo a única coisa visível por entre a neve era uma faixa escura e serpenteante, como uma tira de pano negro, que descrevia uma série de curvas até interseccionar o rastro escuro deixado na neve pela queda do carro.

Bill piscou os olhos diante daquela visão, sem entender do que se tratava: era como se fosse uma pintura abstrata traçada no fundo da ravina. Só depois Bill lembrou-se de que havia um rio naquela área.

O carro havia mergulhado naquela correnteza escura.

Depois de um inverno em que as nevascas tinham sido anormalmente intensas, o clima havia se tornado quente há duas semanas, dando início a um vasto processo de degelo. O deslocamento de grandes massas de água ainda prosseguia, porque o frio retornara há muito pouco tempo e o rio não chegara a se congelar novamente. A temperatura daquela água devia estar um pouco acima do ponto de congelamento, e os ocupantes do carro, mesmo que sobrevivessem ao impacto e conseguissem não se afogar, certamente morreriam de frio dentro de não muito tempo.

Se eu estivesse sóbrio, pensou ele, teria dado meia-volta ao me defrontar com um mau tempo desses. Sou uma piada, um sujeito patético, um entregador de cerveja que não teve nem sequer a lealdade de beber cerveja em vez de uísque. Deus do céu.

Sim, uma piada... mas havia gente morrendo por sua causa. Bill sentiu uma golfada de vômito queimar sua garganta, mas forçou-se a engoli-la de volta.

Em desespero, ele começou a examinar a ravina em todas as direções, até perceber uma luminosidade estranha, quase sobrenatural, que parecia se deslocar lentamente ao longo do rio, à sua direita. Uma luz cor de âmbar que desaparecia e voltava a surgir através do véu dos flocos de neve que continuavam caindo. Ele imaginou que seria a claridade das luzes de dentro do Honda, o qual devia estar flutuando levado pela correnteza.

Aconchegando-se a si próprio para se resguardar do frio cortante, segurando-se aos balaústres do gradil para o caso de escorregar na neve, Bill começou a caminhar ao longo do topo da encosta, indo na mesma direção em que o carro parecia estar sendo arrastado, e tentando não perdê-lo de vista. A princípio o Honda flutuava com certa rapidez, mas essa velocidade foi se reduzindo, até que ele finalmente se imobilizou, talvez detido por alguma rocha ou mesmo pela elevação de um banco de areia no leito do rio.

A luz ia ficando cada vez mais fraca, dando a impressão de que a bateria do carro começava a se esgotar.

 

3

Mesmo tendo conseguido libertar Hatch do cinto de segurança, Lindsey não conseguia movê-lo da posição em que estava; talvez as roupas dele estivessem presas a algo que ela não conseguia ver, ou talvez porque ele estivesse com um dos pés preso sob o pedal do freio ou embaixo do assento.

A água já tinha subido acima do nariz de Hatch, e Lindsey não conseguia erguê-lo mais alto. Ele já estava respirando a água do rio.

Ela largou o corpo dele, esperando que o choque da entrada de água nos pulmões o despertasse, tossindo e debatendo-se, mas também pelo fato de que não tinha mais forças para continuar lutando para tirá-lo dali. O frio intenso da água minara suas energias. Com uma rapidez apavorante, suas mãos e seus pés começavam a perder toda a sensibilidade. O próprio ar que ela exalava parecia sair dos seus pulmões tão frio quanto tinha entrado, como se seu corpo não dispusesse mais de nenhum calor para aquecê-lo.

O carro havia parado de mover-se. Estava imobilizado no fundo do rio, completamente invadido pela água, exceto por uma bolha de ar remanescente no alto do teto; era naquele espaço que Lindsey projetava seu rosto, arquejando.

Ouvia a si própria emitindo gemidos de terror que pareciam vir de um animal; mas não podia evitá-lo.

A luz fantasmagórica do painel do carro começou a enfraquecer, mudando aos poucos do âmbar para um amarelo mortiço.

Uma parte de sua mente dizia-lhe para desistir, para deixar-se arrancar deste mundo e ir para um lugar melhor. Era uma voz minúscula que sussurrava: Pare de lutar... Não existe mais nada que valha a pena... Jimmy já morreu há tanto tempo, e agora é Hatch quem está morrendo ou já morreu... Desista... deixe-se levar, talvez você desperte no Céu, ao lado deles... Aquela voz possuía um apelo persuasivo, quase hipnótico.

Aquele resto de ar não duraria mais que uns poucos minutos, se tanto, e ela iria morrer dentro do carro se não tentasse sair dali imediatamente.

Hatch está morto... está com os pulmões cheios d'água, e só lhe resta ser devorado pelos peixes... Renda-se, deixe-se levar... De que adianta agora? Hatch está morto...

O ar que ela respirava estava começando a adquirir um gosto ácido, metálico. Ela conseguia respirar apenas em pequenos haustos, como se seus pulmões tivessem diminuído de tamanho.

Se ainda havia algum calor no seu corpo, ela não podia mais senti-lo. Seu estômago começou a ter contrações de náusea devido ao frio, e mesmo o vômito que lhe subia à garganta vinha gelado; cada vez que engolia era como se estivesse sorvendo um gole de neve enlameada.

Hatch está morto, está morto...

— Não — murmurou ela, numa voz áspera, raivosa.—Não. Não. Não.

A revolta começou a brotar dentro dela com a fúria de uma tempestade. Ele não podia estar morto. Quem, Hatch? Hatch, que nunca esquecia um aniversário, que lhe trazia flores sem nenhum motivo especial, que nunca perdia a paciência e nunca erguia a voz? Hatch, que sempre encontrava tempo para escutar os problemas alheios e tratá-los com simpatia, que nunca deixava de abrir a carteira quando um amigo estava em dificuldades, Hatch, cujo maior defeito era apenas tentar ser um sujeito Bom demais para com todo mundo? Não, ele não podia estar morto, não estava morto, não iria morrer, nunca. Ele corria oito quilômetros todos os dias, praticava uma dieta sem gorduras e repleta de frutas e verduras, e evitava não apenas a cafeína como até mesmo o café descafeinado. Que droga, será que isso não valia de nada? Ele se bronzeava todo verão, não fumava, nunca bebia mais do que duas cervejas ou dois copos de vinho por noite, e era descontraído o bastante para não temer doenças cardíacas provocadas pelo estresse. Será que tamanha abstinência e autocontrole não significavam nada? Será que o mundo estava tão deteriorado que não se podia mais pedir nenhum tipo de justiça? OK, tudo bem, dizem por aí que os bons morrem cedo, e sem dúvida isso tinha sido comprovado no caso de Jimmy, e Hatch ainda não tinha completado quarenta anos, era jovem de qualquer ponto de vista, OK, certo, mas também dizem muito por aí que a virtude é sempre recompensada, e havia muita virtude nele, que droga, caminhões abarrotados de virtude, e isso devia ser levado em consideração, a menos que Deus não estivesse escutando, a menos que Ele não ligasse a mínima, a menos que este mundo fosse um lugar ainda muito mais cruel do que tinha sido capaz de imaginar.

Ela recusou-se a aceitar aquilo.

Hatch. Não. Estava. Morto.

Ela inspirou um último hausto de ar, o maior que seus pulmões agüentaram; no momento em que as luzes do painel se esvaíram, deixando-a outra vez na escuridão total, ela mergulhou na água, tateou em redor para orientar-se e passou através da abertura do pára-brisa até se ver sobre o capo do carro.

Agora não estava apenas cega, mas virtualmente privada dos cinco sentidos. Não podia ouvir nada mais além das batidas violentas do seu próprio coração, porque a água absorvia todos os outros ruídos. Poderia respirar ou falar, mas sob pena de morrer afogada; e o efeito anestesiante do rio gelado sobre seu corpo a deixava com apenas uma fração do seu tato, de tal modo que ela se sentia como um espírito desencarnado, suspenso num ambiente fluido que devia ser o Purgatório, e esperando a hora do julgamento.

Tendo como certo que o rio não seria muito mais fundo do que a altura do carro, e que ela não teria que prender a respiração durante muito tempo para chegar à superfície, Lindsey tentou mais uma vez libertar o corpo de Hatch. Deitada sobre o capo do carro, ela agarrou-se com uma mão entorpecida à moldura do pára-brisa, lutando contra a tendência natural de seu corpo a subir à superfície; conseguiu enfiar o outro braço dentro do carro, tateando na escuridão total até localizar o volante e depois Hatch.

Experimentou uma sensação de calor dentro de seu corpo, mas não o tipo de calor que precisava sentir: eram os seus pulmões que começavam a queimar pela falta de oxigênio.

Agarrando entre os dedos o casaco de Hatch, ela começou a puxar com todas as suas forças — e para sua surpresa ele desprendeu-se imediatamente do assento, sem nenhum entrave, e flutuou na direção para onde ela o puxava. Ficou enganchado ao volante do carro mas apenas por um breve instante; logo soltou-se e passou através da abertura, enquanto Lindsey recuava para dar passagem ao seu corpo.

Uma dor lancinante como um ferro em brasa pulsava no peito dela. A necessidade de respirar era quase insuportável, mas Lindsey resistiu.

Quando Hatch saiu completamente do carro, Lindsey o abraçou e, agitando as pernas, tomou impulso rumo à superfície. Hatch tinha se afogado, sem dúvida, e ela estava abraçando um cadáver, mas esse pensamento macabro não lhe trouxe nenhuma repulsa. Se conseguisse tirá-lo da água, poderia tentar a respiração artificial. Embora as chances de revivê-lo fossem poucas, pelo menos era possível ter alguma esperança. Ele não estaria morto de verdade, não seria um cadáver de fato, enquanto todos os recursos não tivessem sido tentados.

Ela emergiu das águas no meio da uma rajada de vento que fez o rio parecer quase morno, em comparação. Quando o ar chegou aos seus pulmões fatigados, sua cabeça vacilou e o peito foi atravessado por uma dor quase insuportável; a segunda respiração foi ainda mais dolorosa do que a primeira.

Espadanando na água, agarrando Hatch com todas as suas forças, Lindsey engoliu água do rio e voltou a cuspi-la para fora, enquanto a correnteza batia de encontro ao seu rosto. A natureza parecia uma criatura viva, uma besta hostil e desmesurada, e ela se sentiu invadida por uma raiva irracional contra o rio e a tempestade, como se fossem entidades dotadas de consciência que estivessem se encarniçando contra ela.

Tentou orientar-se mas não era nada fácil, no meio da escuridão e do vento que uivava em redor, e sem o apoio de chão firme sob os seus pés. Quando avistou a margem do rio, vagamente luminosa em seu manto branco de neve, tentou nadar para lá com um braço apenas, enquanto rebocava Hatch com o outro; mas a correnteza era forte demais e ela não teria podido vencê-la, mesmo que nadasse com os dois braços. Ela e Hatch foram arrastados rio abaixo, afundando, voltando à superfície, chocando-se contra pedaços de galhos de árvores e blocos de gelo também arrastados pela correnteza, rumando de forma inexorável e indefesa na direção de alguma cachoeira ou algum trecho mortífero de corredeiras que estaria à espera de tudo que a correnteza do rio arrastava desde as montanhas.

 

4

Tinha começado a beber depois que Myra o abandonara. Não conseguia aceitar o fato de estar sem uma mulher. Sim, isso mesmo, e será que Deus Todo-Poderoso levaria em conta essa desculpa, quando chegasse a hora do seu julgamento?

Ainda segurando-se firmemente ao gradil, Bill Cooper agachou-se hesitante à borda da ravina e espreitou mais uma vez na direção do rio. Por trás da cortina formada pela neve que caía, as luzes do Honda tinham desaparecido de vez.

Bíll não se atreveu a tirar os olhos da escuridão lá embaixo para esquadrinhar a rodovia à procura de sinais da aproximação de uma ambulância. Temia olhar novamente para a ravina e não ser capaz de localizar o ponto exato onde a luz do carro tinha desaparecido; e não queria correr o risco de indicar às equipes de socorro uma direção errada nas margens do rio.

O fundo da ravina, uma nebulosa paisagem em preto e branco, não oferecia muitos pontos de referência visual.

— Vamos, vamos, cheguem logo — murmurou ele.

O vento era cortante de encontro ao seu rosto, fazendo seus olhos lacrimejarem e ensopando de neve o seu bigode; o uivo que produzia era tão forte que acabou abafando o som das sirenes dos veículos de socorro Bill os percebeu apenas quando eles fizeram a curva numa subida da colina, enchendo a noite com o brilho de suas luzes coloridas e piscantes. Ele ficou de pé agitando os braços para atrair sua atenção, mas ainda mantendo os olhos fitos na direção do rio.

Estacionaram no acostamento, por trás dele. Uma das sirenes demorou mais tempo a ser desligada, e Bill, ainda sem se virar, percebeu que eram dois veículos — provavelmente um carro de polícia e uma ambulância.

Iriam perceber o seu hálito de uísque. Não, talvez não — com todo aquele frio, e ainda mais o vento. Ele pensou que merecia morrer pelo que tinha feito— mas já que não estava ameaçado de morrer, pensou em seguida que merecia perder o emprego. Aqueles eram tempos difíceis. Tempo de recessão. Bons empregos eram difíceis de encontrar.

Os reflexos das luzes giratórias dos carros davam um ar estroboscópico à noite. A vida real tinha se transformado num filme de animação com objetos, um filme tecnicamente incompetente onde os gestos eram fragmentados e bruscos, em meio à neve que, iluminada pelas luzes vermelhas parecia uma chuva de sangue caindo de um céu mortalmente ferido

 

5

Mais cedo do que Lindsey supunha, ela e Hatch foram levados pelo rio de encontro a uma formação de rochas que emergia da superfície das águas como dentes rombudos e polidos por séculos de correnteza. Acabaram entalados numa fenda suficientemente estreita para evitar que continuassem a ser arrastados rio abaixo. A água espumava e gorgolejava em volta dos dois mas com a barreira formada pelas rochas ela pôde finalmente parar de lutar contra a força da corrente, que ameaçava a todo instante afundá-los de vez. Ela se sentia flácida, os músculos cansados e respondendo com dificuldade aos seus comandos. Mal conseguia segurar a cabeça de Hatch para evitar que ela ficasse sob a água, embora isso fosse uma tarefa muito mais fácil agora que não precisava mais lutar contra a força das águas.

Não admitia largar a cabeça de Hatch, embora soubesse que mantê-la fora da água era um esforço inútil: eleja tinha se afogado. Ela não conseguia enganar a si própria e tentar pensar que ele ainda estava vivo. E a cada minuto que passava ficava mais remota a possibilidade de revivê-lo através de respiração artificial. Ainda assim, ela não se entregava. Não se entregaria. Estava espantada com a sua própria obstinação, com a sua recusa de abandonar as esperanças, quando minutos antes do acidente ela pensava que a esperança a tinha abandonado para sempre.

Continuar: parte 2 de 3