Esconderijo
Um
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O frio da água a impregnara, entorpecendo não apenas o seu corpo, mas também sua mente. Ela tentou planejar uma maneira de passar do meio do rio para uma das margens, mas não conseguia se concentrar. Sentia-se como que drogada. Sabia que a sonolência era uma conseqüência natural da hipotermia, e que ceder a ela acabaria arrastando-a para um estado mais profundo de inconsciência e daí para a morte. Esforçou-se para permanecer acordada e alerta, a todo custo—mas subitamente se deu conta de que tinha fechado os olhos, começando a ceder à tentação do sono.
Uma contração de medo percorreu seu corpo inteiro, despertando em seus músculos uma reserva adormecida de energia.
Piscou os olhos; tinha as pestanas pesadas de neve que já não se derretia pelo calor do corpo. Olhou em redor, olhou ao longo da linha de pedras polidas que emergiam das águas. A margem estava a apenas uns cinco metros de distância. Se aquelas pedras pelo menos estivessem um pouco mais próximas umas das outras, ela poderia rebocar Hatch de uma para outra, até a margem, sem que a correnteza conseguisse arrastá-los de novo.
Seus olhos, no entanto, já tinham se adaptado à semi-escuridão, permitindo-lhe ver que séculos de correnteza tinham escavado uma abertura com mais de um metro de diâmetro na própria pedra onde ela se abrigava. A abertura ficava a meio caminho entre ela e a margem. Através da queda incessante da neve, ela podia ver que as águas escuras do rio se afunilavam para dentro da abertura; sem dúvida a correnteza devia explodir com tremenda força ao sair pelo lado oposto.
Lindsey sabia que estava fraca demais para conseguir atravessar aquele ponto. Ela e Hatch acabariam sendo sugados através daquela fenda, para uma morte certa.
No momento em que a perspectiva de entregar-se ao cansaço parecia mais atraente do que a daquela luta sem sentido contra as forças hostis da Natureza, ela viu umas luzes estranhas no topo da ravina, a cerca de cem metros rio acima. Estava tão desorientada e sua mente estava tão anestesiada pelo frio que a princípio aquele brilho avermelhado pareceu-lhe algo estranho, sobrenatural, como se ela estivesse erguendo os olhos na direção de uma presença divina que baixava dos espaços.
Gradualmente, ela começou a perceber que o que estava avistando eram as luzes de uma ambulância ou de um carro da polícia na rodovia lá no alto, e logo a seguir avistou os fachos de luz das lanternas, como espadas prateadas cortando a escuridão. A equipe de socorro estava descendo pela encosta, uns cem metros rio acima, no ponto onde o carro tinha encalhado.
Ela começou a gritar, mas não conseguiu emitir mais do que um sussurro. Tentou mais uma vez, com melhor resultado, mas era impossível que eles a ouvissem em meio às rajadas furiosas do vento; os fachos das lanternas continuavam esquadrinhando a mesma área da margem e das águas do rio. De súbito, ela percebeu que Hatch estava escapando novamente de suas mãos. O rosto dele estava debaixo d'água.
Como se alguém tivesse apertado um interruptor, o medo que Lindsey sentia transformou-se uma vez mais em fúria. Fúria contra o motorista do caminhão que se deixara surpreender por uma nevasca em plena montanha, fúria contra si mesma por ser tão fraca, fúria contra Hatch por alguma razão que ela era incapaz de definir, fúria contra aquele rio gelado e implacável, fúria contra o próprio Deus pela violência e falta de justiça que imperavam em Seu universo.
Lindsey descobriu que a fúria lhe dava mais forças do que o medo. Flexionou suas mãos parcialmente congeladas, agarrou Hatch com mais firmeza, puxou a cabeça dele para fora da água, e emitiu um grito de socorro que soou mais alto do que as vozes uivantes do vento. Rio acima, os fachos de luz voltaram-se todos, ao mesmo tempo, na sua direção.
6
O homem e a mulher levados pela correnteza pareciam já estar mortos. Iluminados pelas lanternas, seus rostos pareciam flutuar acima da superfície da água, brancos como fantasmas — translúcidos, irreais, perdidos.
Lee Reedman, um xerife do condado de San Bernardino, com experiência em resgates de emergência, penetrou na correnteza para tentar trazê-los de volta, segurando-se de encontro às pedras que sobressaíam por entre a torrente revolta das águas. Estava amarrado a um fio de nylon com l,25cm de espessura, capaz de suportar uma tração de duas toneladas, atado com nó de marinheiro ao tronco maciço de um pinheiro e manobrado por dois homens na margem.
Lee tinha tirado sua parka, mas mantinha o uniforme e as botas. Nadar numa correnteza como aquela seria mesmo impossível, de modo que ele não temia que as roupas o atrapalhassem; por outro lado, mesmo encharcadas elas ajudariam a protegê-lo da água gelada, tornando mais lenta a perda de calor do seu corpo.
Depois de estar no rio por mais de um minuto, no entanto, quando estava a meio caminho da pedra onde o casal se refugiava, Lee começou a sentir como se ampolas de sorvete tivessem sido injetadas na sua corrente sangüínea. Pensou que mesmo que tivesse entrado nu na correnteza não poderia sentir mais frio do que já estava sentindo.
Teria preferido esperar pela Equipe de Emergência do Inverno que estava a caminho, homens com experiência em localizar pessoas isoladas por avalanches e em resgatar esquiadores descuidados que acabavam caindo entre dois paredões de gelo. Aqueles homens dispunham de vestimentas com isolamento térmico, além de equipamento mais adequado. Mas a situação era desesperada demais para permitir uma tal espera: aquelas pessoas no rio certamente não resistiriam até a chegada dos especialistas.
Lee chegou a uma abertura entre as rochas, com pouco mais de um metro de largura, onde as águas convergiam com uma força espantosa, como se sugadas por um aspirador gigantesco. Ele sentiu que seus pés perdiam o apoio, mas os homens na margem não deixaram a corda ceder, mantendo-a retesada e liberando-a aos poucos, no mesmo ritmo do seu avanço. Lee não foi arrastado através da fenda, mas ainda assim ficou alguns instantes abaixo da superfície, engolindo uma água tão gelada que fez seus dentes latejarem de dor; mas acabou agarrando-se à rocha com firmeza e conseguiu transpor aquela abertura.
Um minuto depois, arquejante e tremendo de frio dos pés à cabeça, Lee chegou ao ponto onde estava o casal. O homem estava inconsciente, mas a mulher se achava alerta. Os fachos de luz das lanternas incidiam sobre seus rostos, perdiam a mira, voltavam a localizá-los; os dois tinham uma aparência terrível. A pele da mulher estava enrugada pelo frio e totalmente descolorida, a tal ponto que a fosforescência natural dos ossos parecia brilhar através da sua carne, revelando a caveira por baixo da pele do rosto. Tinha os lábios tão brancos quanto os dentes; além do seu cabelo preto, ensopado, a única coisa escura sobre ela eram os olhos, tão fundos quanto os olhos de um cadáver e invadidos pela dor da morte próxima. Naquelas circunstâncias ele não podia adivinhar sua idade nem mesmo com quinze anos de margem de erro, nem poderia dizer se ela era feia ou atraente; o que podia ver, no primeiro olhar, era que estava nos limites da própria resistência, apegando-se à vida por pura força de vontade.
— Segure o meu marido — disse ela, empurrando o corpo inconsciente do homem para os braços de Lee. A voz dela era aguda, e suas cordas vocais falhavam continuamente. — Ele levou uma pancada na cabeça, precisa de socorro, vamos, vamos, que droga!
A raiva dela não incomodou Lee. Ele sabia que não era dirigida contra ele, e que aquilo estava dando à mulher forças para resistir.
— Segure-se. Vamos sair daqui todos juntos — disse ele, erguendo a voz sobre o ulular do vento e o barulho encachoeirado do rio. — Não se debata, não tente se segurar nas rochas nem apoiar seus pés no fundo. Eles nos puxarão mais facilmente se ficarmos apenas boiando. Ela pareceu compreender.
Lee virou-se para a margem. Uma lanterna brilhou de encontro ao seu rosto, e ele gritou:
— Pronto! Agora!
Os homens na margem do rio começaram a puxar a corda, enquanto ele rebocava o homem desmaiado e a mulher.
7
Após ser retirada da água, Lindsey teve momentos alternados de lucidez e inconsciência. Durante algum tempo teve a sensação de estar vivendo no interior de um videoteipe, e que de vez em quando alguém apertava o botão fast forward, projetando-a numa cena totalmente diferente após um breve intervalo onde ela percebia apenas o chuvisco prateado de uma imagem fora doar.
Enquanto ela estava deitada, arquejando, na margem do rio, um jovem paramédico com a barba cheia de manchas de neve ajoelhou-se ao seu lado e dirigiu sobre seus olhos a luz de uma espécie de caneta com uma pequena lâmpada na extremidade, checando suas pupilas.
— Está me ouvindo? — perguntou ele.
— Claro. Onde está Hatch?
— Pode me dizer seu nome?
— Onde está meu marido? Ele precisa de socorro urgente.
— Estamos cuidando dele. Responda: Sabe me dizer seu nome?
— Lindsey.
— Muito bem. Está com frio?
Parecia uma pergunta estúpida, mas só então ela percebeu que não se sentia mais gelada. Na verdade, um calor levemente desagradável estava se espalhando pelas extremidades do seu corpo. Não era o calor penetrante e doloroso produzido pelo fogo. Era, em vez disso, como se as mãos e os pés dela tivessem sido mergulhados num fluido cáustico que ia aos poucos dissolvendo sua pele e deixando expostos todos os seus nervos. Ela sabia, sem que ninguém tivesse que dizer-lhe, que a sua impossibilidade de sentir o ar frio da noite era um indício de deterioração física...
Fast forward...
Estava sendo levada numa padiola. Os homens estavam caminhando ao longo da margem do rio. Com a cabeça colocada para a parte da frente da padiola, ela podia olhar de frente para o homem que a segurava pela outra extremidade. A neve que cobria o chão refletia um pouco da luz das lanternas, mas aquela vaga luminosidade era apenas suficiente para revelar os contornos do rosto do homem, e para dar aos seus olhos um brilho inquietante.
Todo em preto e branco como um desenho feito a carvão, estranhamente silencioso, cheio de mistério e de movimentos que se assemelhavam aos de um sonho, aquele lugar e aquele momento envolviam Lindsey como se fossem pesadelo. Ela sentia que as batidas de seu coração se aceleravam, enquanto olhava de baixo para cima na direção daquele homem sem rosto. Seu medo ganhou os contornos ilógicos de um sonho, e de súbito ela teve a certeza de que estava morta e que os vultos que conduziam a padiola não eram seres humanos, mas carregadores de defuntos que a estavam levando até o bote no qual ela cruzaria o rio Estige até a terra dos mortos e dos condenados...
Fast forward...
Agora ela estava atada à padiola por uma porção de correias, inclinada quase verticalmente, e a padiola estava sendo puxada para o alto através de cordas, por pessoas que ela não conseguia avistar. Dois homens a acompanhavam, um de cada lado da maca, escalando com esforço a encosta onde suas pernas se afundavam na neve até os joelhos, mas ajudando-a a ser içada e cuidando para que ela não virasse de lado.
Estava começando a entrar na região iluminada pelas luzes vermelhas e piscantes. Quando aquela claridade púrpura a rodeou por completo, ela começou a ouvir as vozes cheias de urgência dos homens, sobrepondo-se ao ruído de estática dos rádios dos carros. Quando ela sentiu o cheiro forte da fumaça do escapamento dos carros, percebeu que ia sobreviver.
A poucos segundos de uma solução tranqüila, pensou.
Embora à beira de um delírio causado pela exaustão, mesmo confusa e estonteada, Lindsey estava lúcida o bastante para se inquietar diante daquele pensamento e da ansiedade subconsciente que ele revelava. A poucos segun¬dos de uma solução tranqüila? A única coisa da qual ela tinha estado a poucos segundos de distância era a morte. Será que ela estava ainda tão deprimida pela morte de Jimmy que, mesmo depois de cinco anos, a sua própria morte podia significar um alívio do peso daquela dor?
Nesse caso, por que não me deixei levar pelo rio?, pensou ela. Por que simplesmente não cedi?
Hatch, é claro. Hatch precisava dela. Ela tinha se sentido pronta a abandonar este mundo, na esperança de ir para um lugar melhor. Mas não podia tomar a mesma decisão em nome de Hatch, e naquelas circunstâncias deixar-se morrer teria significado sacrificá-lo também.
Com um ruído áspero e um sacolejo final, a maça foi puxada por sobre a borda da ravina e depositada no chão do acostamento, ao lado de uma ambulância. Neve avermelhada continuava caindo sobre o rosto dela.
Um paramédico com o rosto avermelhado pelo frio e com belos olhos azuis inclinou-se sobre ela.
— Você vai ficar boa.
— Eu não queria morrer — disse Lindsey.
Na verdade não estava respondendo ao homem. Estava argumentando consigo mesma, tentando dizer a si própria que a tristeza pela perda do filho não tinha, afinal, se transformado numa infecção emocional crônica que a levara a desejar a morte. Sua auto-imagem não incluía absolutamente a palavra "suicida" e ela estava chocada e cheia de repulsa em descobrir, depois de ser submetida a tamanha tensão, que esse tipo de impulso podia fazer parte dela.
A poucos segundos de uma solução tranqüila...
— Eu queria morrer? — disse ela.
— Você não vai morrer—tranqüilizou-a o paramédico, enquanto ele e outro homem desatavam as correias presas aos suportes laterais da padiola, para poder, assim, transferi-la para dentro da ambulância.—O pior já passou agora. O pior certamente já passou.
DOIS
1
Meia dúzia de carros da polícia e veículos de socorro estavam estacionados ao longo de duas das pistas da rodovia. A terceira pista estava reservada ao tráfego que subia e descia a montanha, com guardas fardados controlando a passagem dos veículos. Lindsey observou um grupo de pessoas que a observavam fascinadas através dos vidros de um jipe Wagoneer, mas eles logo desapareceram por entre um redemoinho de neve e jatos de fumaça lançados pelo cano de escape, que rapidamente se cristalizavam em contato com o ar frio do lado de fora.
A ambulância tinha acomodações para dois pacientes. Os enfermeiros colocaram Lindsey numa maça sobre rodas que foi presa a dois ganchos na parte esquerda, para impedi-la de deslizar para o lado durante as curvas. Hatch foi colocado numa maça idêntica do lado oposto.
Dois paramédicos entraram depois deles na parte traseira e puxaram as portas, trancando-as pelo lado de dentro. Ao se moverem, suas roupas de nylon com isolamento térmico produziam um som rascante, uma série de pequenas fricções que pareciam ser amplificadas eletronicamente naquele espaço tão apertado.
Com um uivo lamentoso da sirene, a ambulância começou a se mover. Os paramédicos equilibravam-se sem dificuldade durante os sacolejos do carro, valendo-se de uma longa experiência.
Colocando-se lado a lado no estreito espaço entre as maças, os dois se voltaram na direção de Lindsey. Seus nomes estavam bordados no bolso das jaquetas: David O'Malley e Jerry Epstein. Com uma curiosa combinação de frieza profissional e preocupação sincera, os dois começaram a trabalhar nela, trocando informações médicas um com o outro num tom frio e objetivo, enquanto falavam com ela com uma entonação simpática, encorajadora.
Essa dicotomia em seu comportamento contribuiu para alarmar Lindsey ainda mais, em vez de tranqüilizá-la, mas ela estava demasiado fraca e desorientada para poder expressar seu temor. Sentia-se irritantemente frágil. Enfraquecida. Lembrou-se de uma pintura surrealista, Este Mundo e o Outro, que executara no ano anterior, onde a figura central era um acrobata de circo andando na corda bamba e acometido de insegurança. Agora, a consciência era o estreito fio onde ela própria tentava se manter equilibrada. Qualquer esforço para falar com os paramédicos não podia ser mantido por mais de uma ou duas palavras, sob pena de abalar seu equilíbrio e precipitá-la numa queda sem fim.
Embora ela tivesse a mente enevoada demais para poder entender por completo o que os dois homens diziam, ela captou o bastante para perceber que estava com hipotermia, talvez até choque devido ao frio excessivo; e que eles se preocupavam com o seu estado. A pressão sangüínea estava muito baixa. Ritmo cardíaco lento e irregular. Respiração lenta, em haustos muito curtos.
Talvez aquela solução tranqüila ainda fosse possível,
Se ela quisesse de fato.
Sentia-se numa posição ambivalente. Mesmo que tivesse subconscientemente desejado a morte desde o funeral de Jimmy, não tinha agora por ela nenhuma atração especial—embora também não achasse essa possibilidade totalmente indesejável. O que tivesse de lhe acontecer, que acontecesse; naquele estado em que se via, com suas emoções tão entorpecidas quanto os seus cinco sentidos, não se preocupava muito com seu próprio destino. A hipotermia desligava seu instinto de conservação com a mesma eficácia narcotizante de uma embriaguez alcoólica.
Então ela teve um breve vislumbre, por entre os médicos agachados ao seu lado, do corpo de Hatch estendido na outra padiola, e de súbito a preocupação por ele produziu um impacto que a despertou daquela espécie de transe em que se achava. Ele estava tão pálido. Mas não estava apenas branco: era uma tonalidade doentia, acinzentada. O rosto dele estava virado em sua direção, com os olhos cerrados, a boca ligeiramente entreaberta; era como se um fogo intenso e fugaz o tivesse queimado por dentro, não deixando nada entre a pele e os ossos a não ser as cinzas da carne consumida.
— Por favor — disse ela. — Meu marido...
Ela ficou surpresa ao ouvir a própria voz... um som áspero, como o coaxar de uma rã.
— Você primeiro — disse O'Malley.
— Não. Hatch. Ele... precisa... ajuda.
— Você primeiro — repetiu o homem.
A firmeza dele a tranqüilizou, de algum modo. Hatch não parecia nada bem, mas certamente estava a salvo, devia ter respondido bem à ressuscitação cardiopulmonar... Estava melhor do que ela; se não fosse assim, os médicos estariam cuidando dele em primeiro lugar. Não era mesmo?
Seus pensamentos tornaram-se confusos novamente. O sentimento de urgência que a invadira por alguns instantes voltou a se desvanecer. Ela fechou os olhos.
2
Depois...
No torpor hipotérmíco em que estava mergulhada, Lindsey percebia as vozes ao seu redor como uma espécie de acalanto, desprovido de melodia mas obedecendo a um ritmo. Mas o que a mantinha desperta eram as agulhadas cada vez mais dolorosas que sentia nas extremidades do corpo e os gestos bruscos dos médicos, que estavam amontoando de ambos os lados de seu corpo objetos que pareciam pequenos travesseiros. Fossem o que fossem — almofadas térmicas, alimentadas a eletricidade ou a reações químicas, ela imaginou —, irradiavam um agradável calor, muito diferente da dolorosa sensação de queimadura que ela experimentava nos pés e nas mãos.
— Hatch precisa ser aquecido — disse ela, com voz pastosa.
— Ele está bem. Não se preocupe — disse Epstein. Seu hálito se condensava em pequenas nuvens de vapor a cada frase que pronunciava.
— Ele está frio.
— Está bem assim. Precisamos que ele continue desse jeito.
O'Malley interveio:
— Mas não demais, Jerry. Nyebern não vai querer receber um picolé.
Cristais de gelo se formam nos tecidos, e ele pode ter lesão cerebral.
Epstein voltou-se para a pequena janela entreaberta que separava a parte traseira da boléia do carro. Ergueu a voz para o motorista:
— Mike, aumente o aquecedor, só um pouquinho.
Lindsey ficou pensando quem poderia ser Nyebern, e sentiu um pouco de alarme diante das palavras "lesão cerebral". Mas estava esgotada demais para poder se concentrar melhor e extrair maiores significados do que ouvia.
Sua mente começou a vaguear, deixando emergir uma série de imagens da infância, mas eram tão estranhas e distorcidas que provavelmente ela tinha deslizado através da fronteira entre a consciência e o sono, onde seu inconsciente podia distorcer suas recordações e dar-lhes aparência de pesadelo.
...ela via a si própria, aos cinco anos de idade, brincando num prado que ficava por trás de sua casa Os contornos irregulares do terreno eram familiares, mas alguma influência maligna tinha se infiltrado em sua mente e alterado alguns detalhes, como a corda grama, que agora era negra como os pêlos de uma aranha. As pétalas das flores eram negras também, como estames vermelhos que pareciam pesadas gotas de sangue...
...ela se via aos sete anos, no playground da escola, à luz do crepúsculo, mas sozinha — como nunca tinha ficado ali, em toda a sua vida. Em redor dela estavam os brinquedos de sempre: os balanços, gangorras e tobogãs, projetando sombras retorcidas de encontro à luz alaranjada daquele final de tarde. Aqueles mecanismos de brincadeira pareciam agora estranhamente ameaçadores. Erguiam-se com um ar malévolo, como se a qualquer instante pudessem começar a mover-se, rangendo, produzindo um clangor de metal, com uma fosforescência azul brilhando ao longo de suas bordas enquanto saíam à caça de sangue para lubrificar suas juntas, como robôs-vampiros feitos de alumínio e aço...
3
A intervalos regulares Lindsey escutava um grito estranho e remoto, como o lamento de algum animal enorme e misterioso. Depois de um certo tempo, mesmo em sua condição semidelirante, ela percebeu que aquele som não se originava de sua imaginação, nem tampouco era distante: vinha exatamente de cima de sua cabeça. Não era nenhum animal tampouco: era a sirene da ambulância, acionada apenas de vez em quando para pedir passagem em meio ao tráfego rarefeito daquelas estradas cobertas de neve.
A ambulância deteve-se mais cedo do que ela esperava, mas talvez isso fosse porque sua percepção do tempo estava em descompasso com seus outros sentidos. Epstein escancarou a porta de trás do veículo, enquanto O'Malley desafivelava as correias que prendiam a padiola.
Quando a retiraram, Lindsey ficou surpresa ao constatar que não estava num hospital em San Bernardino, como tinha esperado, e sim no estacionamento diante de um pequeno shopping center. Àquela hora tardia, o local estava praticamente deserto, a não ser pela ambulância e, surpreendentemente, por um enorme helicóptero que tinha pintadas na parte lateral uma enorme cruz vermelha e as palavras SERVIÇO DE AMBULÂNCIA AÉREO.
A noite ainda estava fria, e o vento continuava a uivar. Estavam agora abaixo da linha da nevasca, embora tivessem chegado apenas ao sopé da montanha, ainda muito longe de San Bernardino. O chão estava limpo de neve, e as rodas metálicas da padiola rangiam ritmicamente enquanto Epstein e O'Malley a empurravam rumo ao helicóptero e aos dois homens que estavam parados à espera.
O motor do helicóptero estava ligado, emitindo um barulho contido, cheio de expectativa.
A simples presença daquele veículo e a sensação de extrema urgência que ele deixava transparecer foram como um raio de sol que dissolveu parcialmente o nevoeiro espalhado pela mente de Lindsey. Ela percebeu que tanto ela quanto Hatch deviam estar em pior situação do que julgara a princípio, porque somente um caso extremamente crítico poderia justificar um socorro tão dispendioso e insólito. E certamente estariam sendo levados para um lugar mais distante do que San Bernardino — talvez para algum centro médico provido da última palavra em equipamentos para socorro de emergência. No momento em que a consciência disso brotou em sua mente, ela desejou que voltasse a se dissipar o quanto antes, deixando-a mergulhar de novo na quietude que aquele nevoeiro mental acarretava.
Quando os enfermeiros do helicóptero começaram a transferir a padiola para dentro do veículo, um deles gritou por sobre o ruído do motor:
— Mas ela está viva!
— Ela não está bem—-respondeu Epstein.
— Sim, sim, parece mal paca — replicou o outro —, mas ainda está viva. Nyebern está esperando um corpo.
— É o outro—disse O'Malley.
— O marido — disse Epstein.
— Vamos pegá-lo agora — completou O'Malley.
Lindsey teve consciência de que uma informação importantíssima tinha sido revelada ao longo dessas breves frases, mas não conseguiu perceber claramente do que se tratava. Ou talvez ela simplesmente não quisesse perceber.
Os homens a levaram para o espaçoso compartimento traseiro do helicóptero e a transportaram para uma padiola presa à parede interna; enquanto afivelavam em redor dela as correias que a fixavam sobre o colchão de vinil, ela deixou-se mergulhar mais uma vez naquelas recordações da infância que surgiam contaminadas de medo:
...tinha nove anos, e brincava com o cachorro, Boo, mas quando ele lhe trouxe de volta a bola de borracha e a deixou cair aos seus pés, não era mais uma bola. Era um coração pulsante, com artérias e veias dilaceradas. E pulsava, mas não porque estivesse vivo, e sim porque uma massa informe de vermes e de insetos fervilhava no interior de seus compartimentos apodrecidos...
4
O helicóptero levantou vôo, O seu movimento, talvez por causa dos fortes ventos, lembrava menos o de uma aeronave do que o de um barco enfrentando um mar encapelado. O estômago de Lindsey teve contrações de náusea.
Um enfermeiro curvou-se sobre ela, com o rosto oculto pela sombra, e aplicou um estetoscópio ao seu peito.
Do outro lado da cabine, o outro enfermeiro gritava alguma coisa de encontro a um microfone enquanto examinava Hatch; talvez não estivesse se dirigindo ao piloto, e sim a um médico no hospital que certamente estaria à espera deles. Os rotores do aparelho pareciam fatiar suas frases em breves fragmentos, transformando sua voz numa sucessão irregular de graves e agudos, como a voz de um adolescente nervoso.
— ...concussão no crânio sem maior gravidade... nenhum ferimento mortal... causa aparente da morte... possivelmente... afogamento...
No lado oposto da cabine, próximo aos pés da padiola onde estava Hatch, a porta corrediça estava entreaberta alguns centímetros, e Lindsey percebeu que a outra porta do lado oposto também não estava totalmente cerrada, o que criava uma corrente de ar gelado no interior do aparelho. Isso também explicava por que o ruído do vento e das hélices era tão ensurdecedor lá dentro.
Por que deixavam que aquilo ficasse tão frio? O enfermeiro que atendia Hatch continuava a gritar no transmissor: — ...boca a boca... ressuscitador mecânico... O2 e CO2 sem resultados. .. epinefrina ineficaz...
O mundo real estava se tornando demasiado real, mesmo entrevisto através do seu delírio. Ela não estava gostando daquilo. As paisagens distorcidas dos sonhos, apesar das horríveis mutações que sofriam, eram mais atrativas do que o interior daquela ambulância aérea, talvez porque inconscientemente ela tinha pelo menos um mínimo de controle sobre os pesadelos, um controle que não possuía sobre os acontecimentos reais.
...estava no baile de formatura, dançando nos braços de Joey Delvecchio, o seu namorado daquela época. Estavam sob um dossel de fitas de papel colorido; ela estava recoberta de reflexos de luz azul, branca e amarela, que brilhavam como lantejoulas, reflexos produzidos pela esfera coberta de fragmentos de espelhos que girava por sobre o salão. A música que tocava era a música dos bons tempos, dos tempos em que o rock-and-roll ainda não tinha começado a perder a alma, tempos anteriores à disco-music e ao hip-hop, quando Elton John e The Eagles estavam no auge, quando os Isley Brothers ainda gravavam, os tempos dos Doobie Brothers, de Stevie Wonder, de Neil Sedaka fazendo o seu retorno triunfal, quando a música ainda estava viva, quando todo mundo e todas as coisas estavam intensamente vivas, quando o mundo era cheio de esperanças e de possibilidades que agora tinham sumido para sempre. Eles estavam dançando devagar ao som de uma canção de Freddy Fender que a banda local conseguia reproduzir com competência, e ela estava invadida por uma sensação de felicidade e de bem-estar— até o momento em que ergueu a cabeça do ombro de Joey e ao fitá-lo não viu o rosto de Joey, mas as feições apodrecidas de um cadáver, com dentes amarelos aparecendo por entre os lábios enegrecidos, a carne cheia de manchas e de feridas, e olhos injetados de sangue vazando um líquido fétido por entre as rachaduras provocadas pelo apodrecimento. Ela gritou e tentou afastar-se dele, mas tudo que conseguiu foi continuar dançando, ao som das frases melodiosas de Before the Next Teardrop Falls, e percebendo que estava vendo Joey como ele iria ser dali a poucos anos, depois de morrer na explosão do acampamento dos fuzileiros americanos no Líbano. Sentiu que a morte começava a passar do corpo frio de Joey para o dela, e soube que precisava romper aquele abraço antes que aquela onda mortal a invadisse. Mas quando olhou em redor à procura de alguém que pudesse ajudá-la, percebeu que Joey não era a única pessoa morta entre os dançarinos. Sally Ontkeen, que dali a oito anos iria morrer de overdose de cocaína, deslizava pela pista em adiantado estado de decomposição nos braços de seu namorado, que sorria para ela como se não percebesse nada. Jack Winslow, a estrela de futebol da escola, que menos de um ano depois iria morrer num acidente ao dirigir embriagado seu automóvel, passou dançando ao lado deles com sua garota; seu rosto estava tumefato, a pele vermelha com manchas verdes, e seu crânio estava fendido do lado esquerdo, do modo como ficara após o acidente. Ele disse algo na direção de Lindsey e Joey, numa voz áspera que não pertencia a Jack Winslow mas a alguma criatura recém-saída de um cemitério, com as cordas vocais reduzidas a superfícies ressequidas que ainda conseguiam dizer: "Que noite! Cara, que noite esta, hem?"
Lindsey estremeceu dos pés à cabeça, e não apenas por causa do vento frio que penetrava com ruído pelas portas entreabertas do helicóptero.
O enfermeiro, ainda com o rosto mergulhado em sombras, estava tirando sua pressão sangüínea. Ela estava com o braço esquerdo para fora das cobertas; as mangas do suéter e da blusa tinham sido arregaçadas, expondo a pele nua. A borracha do esfigmomanômetro estava enrolada em torno do seu bíceps e presa firmemente com uma faixa de velcro.
Seus tremores eram tão pronunciados que, aos olhos do enfermeiro, deviam parecer os espasmos musculares que acompanham as convulsões. Ele apanhou uma pequena placa de borracha numa bandeja próxima e começou a inseri-la em sua boca, para evitar que Lindsey acabasse mordendo a língua ou sufocando-se com ela.
Lindsey empurrou de volta a mão dele.
— Eu vou morrer — disse.
Aliviado em perceber que ela não estava tendo convulsões, o homem disse:
— Não, você não está tão mal. Fique tranqüila. Vai ficar boa.
Ele não tinha entendido. Impaciente, ela insistiu:
— Todos nós vamos morrer.
Era esse o significado das suas recordações distorcidas pelo sonho. A morte a acompanhava desde o dia em que ela nascera, sempre ao seu lado, uma companheira constante; algo que ela nunca tinha compreendido antes da morte de Jimmy, cinco anos antes, e que não tinha aceitado até aquela noite, quando a morte lhe arrebatara Hatch.
Seu coração pareceu contrair-se dentro do peito como um punho cerrado. Uma nova espécie de dor começou a invadi-la, uma dor diferente das outras que tinha experimentado, e muito mais profunda. A despeito do terror e do delírio e da exaustão, de tudo quanto ela tinha usado até então como escudos contra a terrível insistência da realidade, a verdade finalmente a atingiu de cheio, e ela não pôde fazer outra coisa senão aceitá-la. Hatch estava morto.
Hatch tinha se afogado. O socorro tinha chegado tarde demais. Hatch tinha ido embora para sempre.
...ela tinha vinte e cinco anos, e estava deitada de encontro às almofadas em sua cama na ala da maternidade do hospital St. Josephs. A enfermeira lhe estendia um pequeno volume embrulhado em lençóis... seu bebê, seu filho, James Eugene Harrison, que ela tinha carregado no ventre por nove meses mas não tinha visto ainda, que ela amava de todo o coração mas ainda não tinha tocado. Sorrindo, a enfermeira ajeitou o bebê nos braços de Lindsey, e ela ergueu a franja do lençol, bordada de cetim. Então ela viu no interior do lençol um pequeno esqueleto, com órbitas vazias no crânio, e com os pequenos ossos dos dedos meio curvados, no gesto característico dos recém-nascidos... Jimmy tinha nascido já com a morte dentro de si, como todas as outras pessoas, e em menos de cinco anos o câncer iria levá-lo embora. A pequena boca do bebê-esqueleto abriu-se, num grito longo, lento, silencioso...
5
Lindsey podia ouvir as hélices do helicóptero cortando o ar noturno; mas percebeu que não se encontrava mais dentro do veículo. Estava sendo empurrada na padiola ao longo de um pátio aberto, na direção de um enorme edifício cheio de janelas acesas. Pensou que devia saber o que era aquilo, mas não conseguia pensar com clareza, e de fato ela não se importava em saber o que era aquilo, ou onde ela estava, ou por que razão a levavam para ali.
Mais à frente, uma porta abriu-se de par em par, revelando um espaço iluminado por uma luz cálida e amarelada e as silhuetas de vários homens e mulheres. Depois, Lindsey penetrou naquela área de luz, por entre as silhuetas... um longo saguão... uma sala com cheiro de álcool e desinfetantes... as silhuetas aos poucos se transformavam em pessoas com rostos, e depois outros rostos começavam a surgir... vozes suaves, mas falando com um tom de urgência... mãos que a agarravam, que a erguiam no ar... já não estava na padiola, e sim numa cama... a cama se inclinava para trás, deixando sua cabeça num nível abaixo do resto do corpo... bips ritmados e cliques que eram emitidos por algum tipo de aparelhagem eletrônica...
Ela desejou que fossem todos embora e a deixassem sozinha, em paz. Fossem embora dali, e pronto. Desligassem a luz quando saíssem. Deixassem-na na escuridão. Precisava de silêncio, tranqüilidade, paz.
Um odor desagradável de amônia invadiu suas narinas. Queimava a mucosa, fazendo seus olhos lacrimejarem e se abrirem, contra a sua vontade.
Um homem de guarda-pó branco estava segurando algo de encontro ao seu nariz e olhando com curiosidade bem dentro de seus olhos. Quando ela começou a tossir e soluçar devido ao cheiro, ele afastou o objeto e o entregou a uma enfermeira morena, com uniforme branco. O cheiro pungente logo desapareceu.
Lindsey se apercebeu do movimento que havia em redor, rostos que se aproximavam, olhavam para ela e logo desapareciam. Ela sabia que era o centro das atenções, um objeto de intensa curiosidade, mas não se incomodava, não conseguia se incomodar. Era mais parecido com um sonho do que todos os sonhos que já tivera no passado. Uma maré suave feita de vozes subia e baixava em redor, pulsando ritmicamente, como o ruído compassado das ondas arrebentando-se numa praia:
— ...palidez acentuada na epiderme... cianose nos lábios, unhas, pontas
dos dedos, lobos das orelhas...
— ...pulso fraco, acelerado... respiração rápida e curta...
— ...pressão sangüínea tão baixa que não consigo ler...
— Aqueles idiotas não lhe deram tratamento imediato?
— Claro que sim. O tempo todo.
— Mais oxigênio, mais CO2. Rápido.
— Epinefrina?
— Sim, pode preparar.
— Epinefrina? E se ela tiver lesões internas? Você não sabe se ela está
tendo uma hemorragia.
— Foda-se, vamos arriscar.
Alguém colocou a mão sobre seu rosto, como se quisesse sufocá-la. Lindsey sentiu que algo era introduzido em suas narinas e por um instante não conseguiu respirar. O mais curioso é que não se importava com isso. Então, jatos de ar frio e seco foram projetados em seu nariz, parecendo fazer seus pulmões se expandirem.
Uma mulher loura, jovem, toda vestida de branco, inclinou-se sobre ela, ajustou o inalador e deu um sorriso vitorioso.
— Muito bem, querida. Está melhor agora?
A mulher era bonita, etérea, com uma voz estranhamente musical, e a luz por trás dela parecia envolvê-la num halo dourado. Uma aparição celestial. Um anjo. Respirando com dificuldade, Lindsey disse:
— Meu marido morreu.
— Está tudo bem, querida. Relaxe e respire fundo, o mais fundo possível. Tudo vai ficar bem.
— Não, não, ele morreu — disse Lindsey. — Morreu, foi embora para sempre. Não minta para mim. Anjos nunca mentem.
Do outro lado da cama, um homem também vestido de branco estava esfregando um algodão embebido em álcool na parte interna do seu braço, na junção do cotovelo. O líquido era gelado.
Lindsey fitou o anjo e repetiu:
— Morreu. Foi embora.
Com uma expressão de tristeza, o anjo assentiu com um gesto de cabeça. Seus olhos azuis estavam cheios de amor, como convém aos olhos de um anjo.
— Sim, querida, ele se foi. Mas pode ser que desta vez isso não tenha
sido o fim de tudo.
A morte era sempre o fim de tudo. Como poderia ser de outra forma? Uma agulha foi cravada sem seu braço.
— Desta vez — estava dizendo o anjo —, desta vez há uma chance.
Temos um programa especial aqui, um que...
Uma outra mulher invadiu o quarto, excitada, falando alto.
— Nyebern está aqui! — disse. — Acabou de chegar.
Ouviu-se um suspiro coletivo de alívio, quase que um murmúrio de aplauso, percorrendo todas as pessoas dentro do quarto.
— Estava jantando no Marina Del Rey quando foi localizado — continuou ela. — Deve ter dirigido como um louco para chegar aqui tão depressa.
— Está vendo, querida? — disse o anjo, voltando-se outra vez para Lindsey. — Existe uma chance. Ainda existe uma chance. Vamos orar.
E daí?, pensou Lindsey com amargura. Orações nunca funcionaram, pelo menos comigo. Eu não espero milagres. Os mortos continuam mortos, e os vivos apenas esperam a hora de juntar-se a eles.
TRÊS
1
O setor de emergência do Hospital Geral do Condado de Orange havia preparado uma sala de operações para receber o corpo de Hatchford Benjamin Harrison, de acordo com orientações que o Dr. Jonas Nyebern deixara arquivadas nos escritórios do Projeto Médico de Ressurreição. A equipe entrou em ação desde o momento em que os paramédicos de San Bernardino anunciaram pelo rádio que estavam de posse de uma vítima de acidente: um homem afogado em água gelada e que havia sofrido apenas ferimentos sem maior gravidade, o que o tornava o paciente ideal para o projeto Nyebern. No momento em que o helicóptero-ambulância descia no heliporto do hospital, à parafernália de equipamentos eletrônicos da UTI já havia se somado o equipamento do grupo de ressurreição.
O tratamento não teria lugar numa sala de cirurgia comum, onde o espaço restrito das instalações não permitiria cuidar de Harrison em meio ao fluxo normal de pacientes. Jonas Nyebern era um cirurgião cardiovascular, e sua equipe cirúrgica era de alto nível; mas os procedimentos de ressurreição raramente incluíam intervenções cirúrgicas. Somente a descoberta de alguma grave lesão interna poderia levá-los a abrir o corpo de Harrison. A utilização de uma sala de cirurgia era mais uma questão de conveniência do que de necessidade.