Esconderijo
Um
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Quando Jonas entrou no setor cirúrgico, após passar pela desinfecção, a equipe do Projeto já estava toda à sua espera. O destino tinha privado Nyebern da mulher e do casal de filhos, deixando-o sem família; além disso, uma timidez inata sempre o tinha impedido de fazer amigos em outros círculos que não aqueles determinados pela sua atividade profissional, de modo que os membros daquela equipe não eram apenas seus colegas, mas as únicas pessoas no mundo com as quais ele se sentia inteiramente à vontade, e as únicas que tinham importância especial para ele.
Helga Dorner estava parada junto ao painel de instrumentos à sua esquerda, mergulhada na semi penumbra produzida pelas lâmpadas de halogênio que iluminavam a mesa de operação. Ela era uma enfermeira extremamente competente, com um rosto largo e um corpo musculoso que lembrava um pouco o daquelas corredoras soviéticas saturadas de esteróides anabolizantes, mas seus olhos e suas mãos eram tão delicados quanto os de uma Madona pintada por Rafael. Os pacientes geralmente a temiam logo ao primeiro contato; depois passavam a respeitá-la, e acabavam adorando-a.
Com a solenidade que lhe era típica em momentos como aquele, Helga não sorriu, limitando-se a fazer um gesto de polegar erguido quando Jonas olhou em sua direção.
Junto à máquina de reciclagem sangüínea estava Gina Delilo, uma enfermeira e técnica em cirurgia de trinta anos de idade que, por alguma razão, gostava de esconder sua extraordinária competência e senso de responsabilidade por trás de uma aparência irreverente e de um rabo-de-cavalo que a faziam parecer uma figurante dos filmes de festinhas na-praia que tinham sido muito populares décadas atrás. Como os demais membros da equipe, Gina vestia o uniforme verde do hospital e tinha o gorro de algodão amarrado à cabeça, ocultando seus cabelos louros; mas era possível ver um par de meias cor-de-rosa despontando acima das botas de pano que cobriam seus sapatos.
Ladeando a mesa de operação estavam o Dr. Ken Nakamura e a Dra. Kari Dovell, do corpo médico do hospital; ambos tinham clínicas particulares bem-sucedidas na cidade. Ken era um desses casos raros de talento em dose dupla, sendo detentor de especialização tanto em medicina interna quanto cm neurologia. A experiência cotidiana com as fraquezas da psicologia humana levava alguns médicos a procurarem refúgio na bebida, e outros a endurecerem seus corações a ponto de se tornarem emocionalmente isolados de seus pacientes; Ken usava como principal arma de defesa um senso de humor às vezes inquietante, mas em última análise sadio. Kari, uma especialista de primeira linha em medicina pediátrica, era dez centímetros mais alta do que o l,70m de Ken, e magra como um caniço, enquanto ele era um tanto corpulento; mas tinha o riso tão pronto quanto o dele. Às vezes, no entanto, Jonas percebia uma espécie de profunda tristeza em seus olhos e chegava a pensar que dentro dela estava encravado um cisto de solidão, tão profundamente que nenhuma amizade poderia prover um escalpelo longo e afiado o bastante para poder extirpá-lo.
Jonas olhou seus quatro colegas, um por um, mas nenhum deles disse uma palavra. Um silêncio inquietante pairava naquela sala sem janelas.
Todos os membros da equipe tinham uma aparência estranhamente passiva, como se não estivessem muito interessados no que estava para acontecer. Mas seus olhos mostravam exatamente o contrário: eram os olhos de um grupo de astronautas agrupados no compartimento de saída de um ônibus espacial, prontos para dar um passeio do lado de fora da espaçonave: brilhando de excitação, de deslumbramento, cheios de espírito de aventura — e tingidos por uma sombra de medo.
Havia outros hospitais com equipes de emergência hábeis o bastante nas técnicas de ressurreição para dar aos pacientes uma chance razoável de recuperação nas situações mais graves; mas o Hospital Geral do Condado de Orange era um dos três centros em todo o sul da Califórnia que podiam se gabar de manter um projeto com verbas especiais e tecnologia de ponta destinado a maximizar as chances de sucesso em trabalhos de reanimação daquele tipo. Harrison iria ser o 459 paciente a ser atendido durante os quatorze meses de instalação do projeto, mas o modo como tinha morrido fazia dele o mais interessante de todos. Afogamento, seguido de uma hipotermia rapidamente induzida. Afogamento significava lesões físicas relativamente pequenas; e o resfriamento rápido do corpo significava que a deterioração das células, logo após a morte, tinha tido seu ritmo drasticamente reduzido.
Na maioria das vezes, Jonas e sua equipe haviam recebido pacientes vitimados por derrames, ataques cardíacos, asfixia por obstrução da traquéia ou overdose de drogas. Em geral, tais pacientes tinham sofrido lesões cerebrais irreversíveis antes ou durante o momento de morrer, bem antes de terem sido entregues aos cuidados do Projeto Ressurreição — o que reduzia suas chances de serem trazidos de volta em perfeitas condições, E entre aqueles que tinham morrido de trauma violento de um tipo ou de outro, alguns estavam tão gravemente feridos que não podiam ser salvos mesmo após as técnicas de ressurreição terem surtido efeito. Outros foram ressuscitados e mantidos em condições estáveis, apenas para acabar sucumbindo devido a infecções secundárias que rapidamente evoluíam para choque tóxico. Três deles ficaram mortos por um tempo tão longo que, depois de ressuscitados, as lesões cerebrais se revelaram severas demais para que eles pudessem recuperar a consciência, e, em outros casos, eram demasiado extensas para permitir que pudessem voltar a levar uma vida normal.
Com uma súbita angústia e uma pontada de remorso, Jonas pensou nas suas falhas até então, nas vidas restituídas de forma incompleta, nos pacientes cm cujos olhos ele pudera ver a dolorosa consciência de sua patética condição...
— Desta vez vai ser diferente.
A voz de Kari Dovell era suave, quase um sussurro, mas foi o bastante para arrancar Jonas de seu devaneio.
Jonas assentiu com um gesto de cabeça. Sentia uma notável afeição por aquelas pessoas. Era mais por causa deles do que por si próprio que ele desejava alcançar um resultado que fosse um sucesso completo, indiscutível.
— Vamos em frente — disse ele.
No instante em que sua voz soou, as portas da sala de operação abriram-se de par em par, e dois enfermeiros entraram, empurrando o corpo morto do homem sobre uma padiola. Com gestos rápidos e eficientes, eles transferiram o corpo para a mesa de operação, tratando-o com mais cuidado e mais respeito do que teriam empregado em outras circunstâncias; saíram logo em seguida.
A equipe começou a trabalhar antes mesmo dos enfermeiros deixarem a sala. Com presteza e com grande economia de movimentos, cortaram com tesouras as roupas que restavam sobre o cadáver, deixando-o totalmente despido, e afixaram nele os sensores para leitura de eletrocardiograma, eletroencefalograma e uma placa adesiva para leitura digital de temperatura.
Segundos valiam ouro. Minutos não tinham preço. Quanto mais tempo aquele homem permanecesse morto, menor a chance de trazê-lo de volta com sucesso.
Kari Dovell ajustou os controles do eletrocardiógrafo, aumentando o contraste da imagem. Para efeito da gravação que estavam fazendo de todo o procedimento médico, disse em voz alta o que todos podiam ver:
— Linha contínua. Sem pulsação cardíaca.
— Nenhuma onda alfa, nem beta—disse Ken Nakamura, confirmando
a ausência de toda atividade elétrica no cérebro do paciente.
Tendo apertado a faixa de borracha de um esfigmomanômetro no braço direito do paciente, Helga forneceu a leitura que todos já esperavam:
— Nenhuma pressão sangüínea.
Gina ficou parada ao lado de Jonas, monitorando a leitura do termômetro digital.
— Temperatura do corpo, oito graus,
— Muito baixa! — exclamou Kari, e os seus olhos verdes se arregalaram de surpresa ao se voltarem para o cadáver. — E deve ter aumentado uns seis graus desde que ele foi retirado daquele rio. Aqui dentro está frio... mas não tanto assim.
O termostato da sala estava ajustado para dezoito graus, para encontrar um ponto ideal entre o bem-estar da equipe de ressuscitação e a necessidade de evitar que a temperatura do cadáver subisse rápido demais.
Erguendo os olhos para Jonas, Kari disse:
— Tudo bem com o frio, queremos que ele permaneça assim; mas não tanto. E se o tecido cerebral se congelar e ele acabar sofrendo lesões nas células cerebrais?
Ao examinar os dedos dos pés e das mãos do cadáver, Jonas ficou quase encabulado ao ouvir sua própria voz dizendo:
— Não há sinal de vesículas...
— Isto não prova coisa alguma — disse Kari.
Jonas sabia que ela tinha razão. Todos eles sabiam. Não houvera tempo suficiente para a formação de vesículas na carne gelada dos dedos e dos artelhos, antes da morte do homem. Mas, que diabo, Jonas não tinha a intenção de desistir de tudo antes mesmo de começar.
— Mesmo assim — disse — não há sinais de necrose...
— Porque o paciente inteiro está necrosado — disse Kari, que não queria dar o braço a torcer. Às vezes ela parecia tão desajeitada quanto um pássaro pernalta que, embora capaz de voar com desenvoltura, sentia-se deslocado ao pousar na terra. Mas em outros momentos, como agora, ela tirava partido de sua altura, projetando uma sombra atemorizante, olhando de cima para baixo para seu antagonista com um olhar de preste-atenção-ou-arranco-seus-olhos-com-meu-bico. Jonas era alguns centímetros mais alto do que Kari, de modo que ela não podia olhá-lo de cima para baixo; mas poucas mulheres eram capazes de olhá-lo assim, quase ao mesmo nível, e o efeito era equivalente.
Jonas olhou para Ken, em busca de apoio.
O neurologista não estava nem um pouco preocupado.
— É verdade que a temperatura do corpo pode ter caído abaixo do nível de congelamento depois da morte, e depois subido um pouco, no caminho para cá... e não há como ter certeza disso. Você sabe, Jonas. A única coisa sobre esse cara de que podemos estar certos é que ele está mais morto do que Elvis Presley.
— Se ele está com temperatura de apenas oito graus agora — disse Kari.
Todas as células do corpo humano consistem acima de tudo de água. A porcentagem de água difere nas células do sangue, dos ossos, da pele, do ligado; mas existe sempre mais água do que qualquer outra coisa. E quando essa água se congela, ela se expande. Ponha uma garrafa de soda num freezer para esfriá-la depressa; deixe-a lá por demasiado tempo, e tudo que você irá encontrar serão cacos de vidro e pedaços de soda congelada. Do mesmo modo, as paredes das células — de todas as células do corpo — se rompem quando a água dentro delas é congelada.
Ninguém daquela equipe tinha intenção de reviver Harrison se tivesse certeza de que estaria trazendo de volta uma pessoa seriamente prejudicada. Nenhum médico, independentemente de sua ânsia de curar, estaria disposto a enfrentar e derrotar a morte apenas para ter nas mãos um paciente consciente mas sofrendo de lesões cerebrais irreversíveis, ou um que poderia ser mantido "vivo" apenas em coma profundo e com a ajuda de aparelhos.
Jonas sabia que sua principal fraqueza como médico era a extensão do ódio que votava à morte. Era um ódio que não o abandonava em momento algum. Em momentos como aquele, esse ódio dava lugar a uma fúria contida que podia afetar seus julgamentos. Qualquer morte de um paciente era encarada por ele como uma afronta pessoal. Ele tendia sempre a errar pelo lado do otimismo—levando a cabo ressurreições que podiam ter conseqüências mais trágicas se bem-sucedidas do que em caso de fracasso.
Os outros quatro membros da equipe entendiam essa fraqueza também. E o olhavam agora, cheios de expectativa.
Se a sala de operações tinha estado envolta num silêncio tumular até então, agora estava tão silenciosa quanto o vácuo entre as estrelas remotas, onde Deus, caso existisse algum, formava seu julgamento a respeito de suas criaturas indefesas.
Jonas estava agudamente consciente dos preciosos segundos que se escoavam.
O paciente estava na sala de operações há menos de dois minutos—mas dois minutos poderiam representar uma diferença fundamental.
Sobre a mesa, Harrison estava tão morto quanto um ser humano poderia estar. Sua pele adquirira um tom acinzentado, os lábios e unhas tinham uma tonalidade cianosada e azul, a boca estava entreaberta como numa exalação eterna. Sua carne estava totalmente desprovida da tensão interna que revelava a existência de vida.
Ainda assim, a não ser pelo ferimento de cinco centímetros na têmpora direita, um arranhão no queixo e raladuras nas palmas das mãos, ele estava aparentemente intacto. Tinha excelentes condições físicas para um homem de 38 anos: dois quilos acima do seu peso ideal, se tanto; ossos sólidos; musculatura bem definida. Deixando de lado o que pudesse ter acontecido às suas células cerebrais, ele parecia um candidato ideal a um processo de ressurreição.
Dez anos antes, um médico na posição de Jonas teria se guiado pelo Limite de Cinco Minutos, considerado até então o maior intervalo de tempo que um cérebro humano podia suportar sem oxigenação antes de sofrer lesões irreparáveis. Durante a última década, no entanto, à medida que a medicina de ressurreição fora se tornando um campo de pesquisas fervilhante de novas descobertas, o Limite de Cinco Minutos tinha sido superado com tamanha freqüência que aos poucos foi perdendo a validade. De posse de novas drogas que atuavam eficientemente no resgate de radicais livres, de máquinas capazes de resfriar e aquecer o sangue humano, de doses maciças de epinefrina e outros recursos, os médicos já eram capazes de ultrapassar o Limite de Cinco Minutos e resgatar de volta alguns pacientes clinicamente mortos. E a hipotermia — o resfriamento do cérebro, para impedir a degeneração química das células após a morte — era capaz de estender ainda mais o intervalo entre a morte do paciente e uma ressurreição bem-sucedida. Vinte minutos já se tornara um intervalo rotineiro. Trinta ainda permitia alimentar esperanças. Já havia registros de ressurreições após intervalos de 45 minutos. Em 1988, no Utah, uma garota de dois anos tinha sido retirada de um rio gelado e trazida de volta à vida sem nenhuma lesão cerebral aparente, depois de ter permanecido morta por pelo menos 66 minutos; e fazia menos de um ano que uma mulher de vinte anos da Pensilvânia tinha sido ressuscitada em perfeitas condições, uma hora e dez minutos após ser dada como morta.
Os outros quatro membros da equipe continuavam com os olhos fitos em Jonas.
A morte, repetiu ele para si mesmo, não passa de apenas um estado patológico como tantos outros.
A maioria dos estados patológicos podia ser revertida com um tratamento adequado.
Estar morto era uma coisa. Estar morto e praticamente congelado era outra.
Jonas virou-se para Gina.
— Ele está morto há quanto tempo? — perguntou.
Uma das funções de Gina era servir de ligação, via rádio, com os paramédicos que socorriam as vítimas, e registrar todas as informações que pudessem ser de utilidade para a equipe durante o processo de ressurreição. Ela olhou o relógio—um Rolex com uma espalhafatosa pulseira cor-de-rosa, combinando com suas meias — e respondeu, sem sequer parar para fazer as contas:
— Sessenta minutos, mas é aproximado. Eles não sabem exatamente quanto tempo ele ficou debaixo d'água antes de ser retirado. Pode ser um pouco mais do que isso.
— Ou um pouco menos — disse Jonas.
Enquanto Jonas se preparava para tomar a decisão final, Helga rodeou a mesa e postou-se ao lado de Gina. As duas começaram a apalpar o braço esquerdo do cadáver à procura da veia principal, para o caso de Jonas decidir levar adiante o processo de ressurreição. A localização de vasos sangüíneos na carne frouxa de um cadáver não era uma tarefa fácil, e nem mesmo a aplicação de um torniquete de borracha podia ajudar, já que não havia pressão sangüínea.
— Ok — disse Jonas. — Vamos em frente.
Olhou em redor para os rostos de Ken, Kari, Helga, Gina, dando a cada um a oportunidade de questioná-lo. Depois consultou seu Timex de pulso e prosseguiu:
— São nove e doze, segunda-feira à noite, dia 4 de março. O paciente, Hatchford Benjamin Harrison, está morto... mas pode ser recuperado.
Nenhum dos membros da equipe demonstrou a menor hesitação depois de Jonas dar o sinal de partida, independentemente das dúvidas que pudessem ter experimentado até então. Tinham o direito — e o dever — de analisar com Jonas todas as possibilidades, enquanto este se preparava para a decisão f'inal; mas a partir do momento em que esta decisão era anunciada, eles iriam empregar todo o seu conhecimento, todo o seu talento e suas habilidades para demonstrar que aquela decisão estava correta e que aquele homem podia ser recuperado.
Deus do céu, pensou Jonas, espero estar fazendo a coisa certa.
Gina já inseria uma agulha para retirar o sangue da veia que ela e Helga tinham acabado de localizar. Juntas elas ligaram e ajustaram a máquina encarregada de retirar todo o sangue do corpo de Harrison e aquecê-lo devagar até a temperatura normal. Uma vez aquecido, o sangue seria bombeado de volta para o corpo do paciente através de um tubo inserido numa veia da coxa.
Iniciado este processo, outras tarefas mais urgentes exigiam a atenção da equipe. Os sinais vitais de Harrison, até então nulos, tinham de ser monitorados até acusar as primeiras respostas ao tratamento. Também era preciso examinar que tipo de primeiros socorros tinha sido ministrado pelos paramédicos, para determinar se a dose de epinefrina—o hormônio estimulador do coração —- tinha sido suficiente ou se seria necessário aplicar um pouco mais. Enquanto isso, Jonas empurrava um carrinho sobre rodas repleto de medicamentos preparados por Helga antes da chegada do corpo, e calculava a quantidade e o tipo de ingredientes necessários para um "coquetel" químico capaz de resgatar os radiciais livres e retardar as lesões dos tecidos do cérebro.
— Sessenta e um minutos — disse Gina, informando a equipe sobre o tempo estimado de morte do paciente. — Puxa vida. É bastante tempo para se estar batendo papo com os anjos. Trazer isto aqui de volta não vai ser fácil, rapaziada.
— Nove graus — anunciou Helga com solenidade, registrando a temperatura do corpo, que se elevava lentamente para se igualar à temperatura ambiente da sala.
A morte é apenas mais um tipo de estado patológico, repetiu Jonas para si mesmo, uma vez mais. Estados patológicos geralmente podem ser revertidos.
Com seus dedos longos e delicados, Helga estava colocando uma toalha cirúrgica de algodão sobre os órgãos genitais do paciente, e Jonas entendeu que ela não estava apenas fazendo uma concessão ao pudor, mas praticando um gesto de delicadeza que exprimia uma nova atitude para com Harrison. Um homem morto não tem pudor. Um homem morto não requer delicadeza. O gesto de Helga era uma maneira de dizer que acreditava na volta daquele homem ao mundo dos vivos, acreditava no seu retorno para junto dos seus irmãos e irmãs do mundo inteiro, e que daquele momento em diante ele tinha de ser tratado com carinho e atenção, e não apenas como se fosse um simples caso de ressurreição em potencial.
2
A relva e o mato rasteiro chegavam até os seus joelhos. Aquele tinha sido um inverno mais chuvoso do que habitual, e o mato estava verde e luzidio. Uma brisa fria soprava através dos campos. De vez em quando, morcegos ou pássaros noturnos passavam por sobre sua cabeça ou faziam um vôo rasante nas proximidades, momentaneamente atraídos como se tivessem reconhecido nele um predador, um semelhante; mas logo subiam de volta aos espaços, percebendo o terrível grau de diferença existente entre eles.
Ele parou em atitude de desafio e fitou as estrelas cintilantes por entre as nuvens pesadas que se deslocavam devagar rumo ao leste no céu de final de inverno. Ele acreditava que o universo era o reino da morte; um lugar onde a vida era um fenômeno tão raro que chegava a ser uma anomalia, um lugar onde os espaços vazios se alternavam com planetas desertos — um atestado não dos poderes criativos de Deus, mas da esterilidade de sua imaginação e do triunfo das forças das trevas que se opunham a Ele. Das duas realidades que coexistiam naquele mundo — vida e morte — a vida era a menor e a mais inconseqüente. Os cidadãos do mundo dos vivos tinham sua existência limitada a anos, meses, semanas, dias, horas. Mas os habitantes do mundo dos mortos eram eternos.
Ele vivia na fronteira entre os dois mundos.
Odiava o mundo dos vivos, onde nascera. Desprezava as encenações que compunham a vida dos vivos — seus valores, suas atitudes, sua moral, suas pretensas virtudes. A hipocrisia das relações humanas, onde o altruísmo era louvado em público e o egoísmo às ocultas, deixava-o ao mesmo tempo divertido e enojado. Qualquer ato de bondade parecia ser praticado com um olho nas recompensas futuras que poderiam acarretar.
Seu maior desprezo — e às vezes sua maior fúria — era reservado para as pessoas que falavam de amor e que diziam experimentar esse sentimento. Ele sabia que o amor era como todas as outras virtudes proclamadas pelos pais, pelos professores e pelos padres. Não existia. Era uma farsa, um meio de controlar outras pessoas, um embuste.
O que ele almejava, em vez disso, era a escuridão e a estranha antivida do mundo dos mortos, ao qual ele pertencia mas para onde não podia retornar ainda. Seu lugar era entre os malditos. Sentia-se à vontade apenas entre aqueles que desprezavam o amor, entre os que sabiam que o único propósito da existência era a busca do prazer. O ego era tudo. Conceitos como "erro" e "pecado" não tinham o menor sentido.
Quanto mais ele fitava as estrelas por entre as nuvens, mais brilhantes elas pareciam, até que cada um daqueles pontos de luz no vazio parecia perfurar seus olhos. Cansados daquela fixidez, seus olhos se encheram de lágrimas, e ele abaixou a vista para o chão. Mesmo à noite, a terra dos vivos era demasiado brilhante e clara para criaturas como ele. Ele não precisava de tanta luz para enxergar. Sua visão tinha se adaptado à escuridão uniforme do mundo dos mortos, às catacumbas do Inferno. Para olhos como os dele, a luz não era apenas supérflua: era um incômodo e, às vezes, uma verdadeira tortura.
Mantendo os olhos afastados do céu, ele caminhou de volta pela relva, na direção do caminho pavimentado, cheio de rachaduras. Seus passos ecoavam naquele vazio que um dia tinha reverberado ao som das vozes e dos risos de multidões de pessoas; mas se ele quisesse poderia deslocar-se tão silenciosamente quanto um gato que sai em busca de uma presa.
As nuvens se abriram e a luminosidade da lua jorrou por entre elas, fazendo-o contrair os olhos. Em volta dele, as ruínas da estrutura que lhe servia de esconderijo projetavam sombras angulosas e distorcidas, sombras que a olhos estranhos pareceriam lúgubres, mas que para ele desenhavam-se no pavimento como se pintadas com tinta luminosa.
Ele retirou um par de óculos escuros do bolso de sua jaqueta de couro, e os colocou. Melhor assim.
Hesitou por um instante, enquanto decidia o que fazer pelo resto da noite. Na verdade só tinha duas opções para as horas restantes antes do nascer do sol: ficar na companhia dos vivos ou na companhia dos mortos. Desta vez a escolha era ainda mais fácil do que em outros dias. No estado de espírito em que se encontrava, seria muito melhor voltar para os mortos.
Caminhou ao longo de uma sombra projetada pela lua, cujo formato lembrava uma enorme roda dentada partida em duas, e encaminhou-se para o interior úmido e abafadiço da estrutura de cimento onde guardava os mortos. A sua coleção.
3
Sessenta e quatro minutos — disse Gina, consultando seu Rolex de pulseira cor-de-rosa. — Isto aqui pode acabar dando problemas.
Jonas não podia acreditar que o tempo estivesse passando tão depressa, fugindo, fugindo, muito mais rápido do que o usual, como se o continuum espaço-tempo estivesse sofrendo algum estranho tipo de aceleração. Mas era sempre assim naquelas ocasiões em que a diferença entre a vida e a morte podia ser medida em termos de minutos e segundos.
Ele olhou para o sangue que fluía no interior do tubo transparente da máquina de exsanguinação: mais azul do que vermelho. Um corpo humano médio contém cerca de cinco litros de sangue. Antes que a equipe de ressurreição tivesse terminado seu trabalho, os cinco litros de sangue de Harrison teriam sido repetidamente reciclados, aquecidos e filtrados.
Ken Nakamura estava parado diante de um painel luminoso, estudando c Impas de raios X do crânio e do tórax e sonogramas corporais tirados durante n trajeto na ambulância aérea, ao longo de seu vôo a quase trezentos quilômetros por hora da base de San Bernardino até o hospital, em Newport Beach. Kari estava inclinada sobre o rosto do paciente, examinando seus olhos através de um oftalmoscópio, procurando indícios de excesso de pressão pelo acúmulo de fluidos no cérebro.
Ajudado por Helga, Jonas encheu uma porção de seringas com doses de diversos neutralizadores de radicais livres. As vitaminas E e C eram eficazes no resgate dessas moléculas e possuíam a vantagem de ser substâncias naturais, mas ele também tinha a intenção de administrar a Harrison neutralizadores químicos.
Radicais livres são moléculas instáveis que ricocheteiam em alta velocidade através do corpo humano, causando reações químicas que provocam danos na maioria das células com as quais entram em contato. As teorias mais recentes sustentam que são elas as responsáveis pelo envelhecimento do corpo, o que explica por que substâncias como as vitaminas E e C estimulam o sistema imunológico e proporcionam, quando usadas a longo prazo, uma aparência mais jovem e níveis mais altos de energia. Os radicais livres são um efeito colateral de processos metabólicos costumeiros e estão sempre presentes no corpo humano. Mas quando o corpo vê-se privado de sangue oxigenado por um período muito longo, mesmo que protegido pela hipotermia, formam-se enormes aglomerados de radicais livres, em quantidade muito superior à que o organismo está habituado a controlar em condições normais. Quando o coração recomeça a funcionar, essas moléculas destrutivas são impelidas ao longo do corpo pela circulação sangüínea até atingir o cérebro, onde podem ter um efeito devastador.
As vitaminas e demais neutralizadores químicos iriam combater esses radicais livres antes que eles pudessem causar qualquer dano irreversível... ou pelo menos era isto que Jonas esperava.
Ele instalou as seringas em diversas aberturas ao longo do tubo de alimentação endovenosa aplicado à coxa do paciente, mas não começou a injetar o líquido.
— Sessenta e cinco minutos — disse Gina.
Era muito tempo para se estar morto, pensou Jonas.
Era quase o tempo recorde para uma ressurreição bem-sucedida.
A despeito do ar refrigerado, Jonas sentiu o suor porejando no seu couro cabeludo, por sob os fios ralos de cabelo. Nunca podia evitar esse tipo de envolvimento emocional. Alguns dos seus colegas viam com desaprovação a excessiva empatia que ele demonstrava para com casos desse tipo; achavam que era preciso manter uma perspectiva imparcial, através de um distancia¬mento profissional entre o médico e seus pacientes. Mas nenhum paciente era apenas um paciente. Cada um deles era um ser humano, alguém de quem outras pessoas precisavam, alguém amado e querido. Jonas tinha a nítida consciência de que cada possível fracasso iria prejudicar não apenas uma pessoa, mas traria dor e sofrimento a toda uma rede de amigos e parentes. Mesmo quando tratava de alguém como Hairison, a respeito de quem não tinha virtualmente nenhuma informação, ele não podia deixar de imaginar todas as demais vidas que se interligavam à vida daquele homem, e se sentia tão responsável por ele quanto se se tratasse de alguém que conhecesse intimamente.
— O cara parece estar bem — disse Ken, erguendo os olhos das chapas de raios X e sonogramas. — Nenhum osso fraturado, nenhuma lesão interna.
— Esses sonogramas foram tirados depois da morte dele — observou
Jonas. — Eles não mostram órgãos em funcionamento.
— Certo. Vamos tirar outros depois que ele for reanimado, para ter certeza. Mas até agora parece estar tudo bem.
Endireitando o corpo após examinar os olhos do homem morto, Kari Dovell disse:
— É possível que haja alguma concussão, mas é difícil ter certeza.
— Sessenta e seis minutos.
— Cada segundo é importante. Todo mundo pronto? — disse Jonas, mesmo já sabendo a resposta.
O ar refrigerado não podia alcançar sua cabeça devido ao gorro cirúrgico, mas o suor em seu corpo cabeludo era frio como gelo. Pequenos calafrios percorriam seu corpo.
Aquecido a 39 graus, o sangue já fluía ao longo do tubo de plástico transparente, entrando no corpo de Harrison através de uma veia da coxa, impelido ritmicamente pela pulsação artificial da máquina.
Jonas pressionou até a metade do embolo das três seringas, introduzindo doses maciças de neutralizadores de radicais livres no fluxo de sangue que se escoava através do tubo. Esperou menos de um minuto, e empurrou os êmbolos até o fim.
Helga já tinha preparado outras três seringas, de acordo com suas instruções. Ele removeu as seringas vazias das aberturas do tubo e colocou as cheias, sem injetar seu conteúdo.
Ken já tinha deslocado para perto do paciente a máquina portátil de desfibrilação. Depois que o corpo de Harrison fosse reanimado, caso o seu coração começasse a acusar fibrilação — pulsação errática ou desordenada — poderia ser reconduzido a um ritmo normal pela aplicação de choques elétricos. Essa seria uma estratégia de último recurso, no entanto, pois desfibrilações bruscas poderiam também ter um efeito prejudicial num paciente que, recém-reanimado após morte clínica, encontrava-se num estado excepcionalmente frágil.
Consultando o termômetro digital, Karin disse:
— Temperatura do corpo subiu para apenas treze graus.
— Sessenta e sete minutos — disse Gina.
— Está indo devagar demais — disse Jonas.
— Calor externo?
Jonas hesitou.
— Vamos em frente — disse Ken.
— Treze graus e meio — disse Kari.
— Muito devagar — disse Helga. — Desse modo já terão se passado uns oitenta minutos até que ele esteja aquecido o bastante para que seu coração volte a bater.
Almofadas térmicas tinham sido colocadas sob o lençol da mesa de operação, antes mesmo do paciente ter sido trazido para a sala. Estavam alinhadas ao longo de sua espinha dorsal.
— OK —disse Jonas.
Kari acionou o interruptor que ligava as almofadas térmicas.
— Cuidado — advertiu Jonas.
Kari ajustou os controles de temperatura.
Tinham que aquecer o corpo, mas fazê-lo depressa demais poderia acarretar uma série de problemas. Cada ressurreição era uma caminhada na corda bamba.
Jonas voltou a segurar as seringas inseridas no tubo endovenoso, administrando doses adicionais de vitamina E e C e neutralizadores químicos.
O paciente continuava imóvel e pálido. Lembrava a Jonas uma figura em tamanho natural, no interior de alguma antiga catedral: o corpo deitado de um Cristo, esculpido em mármore branco, recriado pelo artista sob a forma de um cadáver em decúbito dorsal, como Ele devia ter ficado antes da ressurreição mais bem-sucedida de todos os tempos.
As pálpebras de Harrison tinham sido erguidas por Kari Dovell para o exame oftalmoscópico, de modo que seus olhos pareciam estar fitando o teto, sem expressão. Gina estava pingando lágrimas artificiais sobre eles para garantir que o globo ocular não ficasse ressecado; ao mesmo tempo, cantarolava baixinho Little Surfer Girl. Ela era uma fã dos Beach Boys.
Não era possível perceber nenhuma expressão de choque ou de medo nos olhos do cadáver, como seria de se esperar. Em vez disso, tinham uma expressão quase que de paz, como se estivessem contemplando algo maravilhoso. Harrison tinha a expressão de alguém que, no momento da morte, tivesse avistado algo capaz de arrebatar seu espírito.
Ao terminar a aplicação das gotas, Gina olhou o relógio. — Sessenta e oito minutos.
Jonas sentiu um impulso repentino de mandá-la calar a boca, como se o tempo pudesse parar, desde que ela não estivesse anunciando a passagem de cada minuto.
O sangue continuava a pulsar ao longo dos tubos da máquina.
— Dezesseis graus e meio. — A voz de Helga era áspera, como se ela estivesse censurando o homem morto pela lentidão com que seu corpo se reaquecia.
A linha luminosa do eletrocardiógrafo continuava horizontal, inalterada.
A do eletroencefalógrafo também.
— Vamos, reaja — disse Jonas, a voz tensa. — Vamos lá, rapaz.
4
Ao entrar de volta no museu dos mortos ele não utilizou uma das portas superiores e sim a depressão formada no terreno pelo leito seco de um pequeno lago, onde três gôndolas ainda jaziam abandonadas no piso de concreto cheio de rachaduras. Eram modelos com capacidade para dez passageiros, e tinham sido arrancadas há muito tempo dos trilhos metálicos onde haviam navegado em círculo, guiadas por correntes, repletas de gente alegre. Mesmo à noite, e usando óculos escuros, ele podia ver que essas gôndolas não ostentavam as proas esguias das gôndolas de Veneza, com seus sinuosos pescoços de cisne; em vez disso, exibiam gárgulas de olhar malévolo esculpidas na madeira, pintadas em cores berrantes — monstros que em outras épocas podiam ter inspirado medo, mas que agora estavam estragados pelo tempo, rachados, e com a pintura descascando. Os portões do lago, que antigamente se abriam com suavidade para dar passagem às gôndolas, estavam com o motor inutilizado. Um deles jazia aberto há muitos anos; o outro estava fechado, pendendo apenas das dobradiças corroídas pela ferrugem. Ele passou através do portão aberto e entrou numa galeria muito mais escura do que a noite lá fora.
Retirou os óculos escuros. Não precisava mais deles.
Também não precisava de uma lanterna. Ali, onde um homem comum se veria totalmente cego, ele enxergava com facilidade.
O canal de concreto ao longo do qual as gôndolas se moviam antigamente tinha um metro de profundidade e dois e meio de largura.
Um canal mais estreito, ao longo de sua parte central, continha o rústico mecanismo movido a correntes de metal — uma longa série de ganchos de ferro com quinze centímetros de altura, que se engatavam nos anéis de ferro presos ao fundo das gôndolas. Quando o mecanismo entrava em funcionamento, os ganchos ficavam ocultos debaixo d'água, dando a ilusão de que as gôndolas navegavam soltas. Agora, vistas à distância, naquele ambiente carregado de sombras, pareciam uma longa fileira de vértebras ao longo da espinha de algum imenso animal pré-histórico.
É assim o mundo dos vivos, pensou ele: enganoso, repleto de ardis. Por baixo dessa superfície tranqüila, há mecanismos monstruosos movendo forças ocultas.
Ele penetrou mais na construção. A inclinação do piso ao longo do canal era quase imperceptível de início, mas ele já passara por ali inúmeras vezes antes.
Por cima dele, ao longo de cada parede do canal, corriam passarelas de concreto com mais de um metro de largura. As paredes do canal eram pintadas de preto por dentro, para absorver os reflexos luminosos e contribuir para criar aquele número ingênuo de ilusionismo levado a cabo diante do público.
A intervalos regulares as passarelas se alargavam, formando nichos que em alguns casos tinham as dimensões de um quarto em tamanho natural. Na época em que o túnel-do-terror estava em funcionamento, aqueles nichos eram ocupados por painéis em tamanho natural que tinham por objetivo divertir, atemorizar, ou as duas coisas ao mesmo tempo: os painéis mostravam fantasmas e duendes, espectros e monstros, loucos homicidas de machado em punho curvados sobre o corpo decapitado de suas vítimas. Em um desses nichos maiores, surgia um cemitério repleto de zumbis ameaçadores; em outro, um enorme disco-voador, de aparência convincente, de onde desembarcavam alienígenas com enormes mandíbulas de tubarão. Aquelas figuras se moviam como robôs, erguendo-se, fazendo caretas ameaçadoras e ameaçando os espectadores com vozes gravadas em fita magnética, repetindo eternamente as cenas curtas para as quais tinham sido programados, com as mesmas frases de ameaça e os mesmos grunhidos.
Não; não eternamente. Tinham sumido após a falência do parque, levados embora pelos oficiais de justiça, pelos representantes dos credores e pelos marginais que pilhavam o parque abandonado. Nada era eterno. Exceto a morte.
A cerca de trinta metros depois das portas de entrada, ele alcançou o fim da primeira seção do mecanismo que impelia as gôndolas. O piso do túnel, que vinha num declive quase imperceptível, agora começava a declinar bruscamente, a um ângulo de 35 graus, sumindo na escuridão. Era naquele ponto que as gôndolas costumavam se desprender dos ganchos de ferro e, com uma guinada capaz de revirar pelo avesso o estômago de qualquer um, mergulhavam de vez na piscina, espadanando água em todas as direções, encharcando os passageiros da parte da frente e provocando gargalhadas naqueles mais afortunados — ou mais espertos — acomodados na parte traseira.
Não sendo um homem igual aos outros, e possuindo certos poderes especiais, ele podia enxergar boa parte da rampa descendente, mesmo numa treva tão profunda, embora sua percepção não alcançasse até o fundo. Tinha a visão noturna dos felinos, mas dentro de certos limites. Num raio de três a cinco metros, podia ver as coisas tão claramente quanto se estivesse em plena luz, do dia; a partir daí os objetos tornavam-se indistintos, fora de foco, sombrios, até que numa distância de dez a quinze metros a treva voltava a absorvê-los.
Mantendo o corpo inclinado para trás, a fim de equilibrar-se ao longo da descida íngreme, ele penetrou na parte mais recôndita do túnel-do-terror naquele parque de diversões abandonado. Não tinha receio do que poderia encontrar ali embaixo. Nada podia amedrontá-lo. Afinal de contas, ele era ma is mortal e mais selvagem do que qualquer dos possíveis perigos do mundo que o cercava.
Antes de ter percorrido metade da distância até a câmara inferior, ele começou a sentir o odor da morte. Subia até ele levado pelas correntes de ar frio. Aquele odor o excitava. Nenhum perfume, por mais sofisticado, mesmo espalhado sobre a garganta suave de uma bela mulher, era capaz de excitá-lo tanto quanto aquele cheiro peculiar, adocicado, da carne em decomposição.