Geografia e anarquismo

Amir El Hakim de Paula · Capítulo 8 de 9

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Geografia e anarquismo

Considerações finais

Considerações finais

 

Esse trabalho procurou apresentar os principais aspectos da teoria do apoio mútuo tendo como interlocutor o príncipe Kropotkin, importante geógrafo e anarquista. Revelou uma face ainda quase desconhecida deste autor e, principalmente, as contribuições que este delegou à ciência geográfica, destacada nas suas preocupações na relação entre o homem e a natureza.

Para que conseguíssemos ter êxito nessa empreitada, percebemos a necessidade de se recuar um pouco no tempo e demonstrar que as ideias anarcocomunistas de nosso autor tinham como um importante ponto de referência o século XVIII, na figura do pensador inglês Willian Godwin.

Da mesma forma, para uma melhor compreensão da importância da teoria do apoio mútuo, identificamos a necessidade de melhor entendermos como essas ideias eram debatidas nos meios acadêmicos e científicos.

Pautamos nosso trabalho também em um resgate teórico que nos mostrasse a origem das ideias de Darwin e de seu principal divulgador, Thomas Huxley. Nesse específico caso, retornamos ao século XVIII e estudamos a obra magna de Malthus sobre a população, um dos principais suportes científico usado por Darwin e Huxley para justificar o seu mote da luta pela sobrevivência.

Os primeiros capítulos tiveram a incumbência de minimamente resgatar tanto as ideias de apoio mútuo quanto a da luta pela sobrevivência. No primeiro caso, voltando às ideias de Willian Godwin e, no segundo, às de Robert Malthus.

A contribuição de Piotr Kropotin para a Geografia aparece, principalmente, nas suas preocupações em questionar o caráter quase oficial dessa ciência, quando então era uma defensora dos nacionalismos e da divisão da humanidade em “raças”. Pensando em uma ciência mais humanizada, Piotr Kropotkin delegou-nos um arcabouço científico totalmente baseado nas descobertas que seus antecessores e contemporâneos realizaram.

O fato de ser declaradamente anarquista não lhe trazia apenas questionamentos ou mesmo perseguições de caráter político. Na ciência, havia nesse momento, século XIX, uma tentativa totalitária de impor um modelo societário baseado na competição e no individualismo, o que significava para o geógrafo russo uma pífia participação nos principais debates. Mesmo assim, esse ostracismo foi sendo rompido por sua grande capacidade de demonstrar a força das suas ideias (anarquistas ou ligadas ao campo científico). Seja em revistas, palestras públicas ou debates em associações científicas, fica claro que a sua estratégia de ação não dissocia o anarcocomunismo da defesa do apoio mútuo.

Embora visto por muitos como um cientista excêntrico (Gould, 1988), o fato é que suas ideias foram importantes para se criar um contraponto ao modelo científico dominante, mesmo que posteriormente elas tenham sido praticamente esquecidas.

Esperamos que nosso principal objetivo tenha sido alcançado: demonstrar as contribuições do anarquista russo para a ciência geográfica, certificar que uma ciência social já despontava muito antes do surgimento das críticas marxistas e que um projeto de uma sociedade pautada na democracia, na liberdade e no igualitarismo não poderia estar desvinculado de uma visão científica mais generosa.