Geografia e anarquismo

Amir El Hakim de Paula · Capítulo 4 de 9

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Geografia e anarquismo

3 – Piotr Kropotkin versus Thomas Huxley: a crítica anarcocomunista ao pensamento único darwinista

3 – Piotr Kropotkin versus

 

Thomas Huxley: a crítica

 

anarcocomunista ao

 

pensamento único darwinista

 

Na história das ciências, o debate acadêmico é o momento definidor da supremacia de uma teoria. É quando intelectuais procuram defender as suas teses, e aquela que demonstrar maior evidência e um perfil empírico mais sólido se torna dominante entre os pares. Pensar dessa forma pode ser confortador, já que indica uma coerência nas ciências, cujos resultados seriam apenas e tão somente frutos de pesquisas bem-sucedidas.

Embora encontremos momentos na evolução das ciências no quais um modelo teórico tenha preponderado pelas suas qualidades, nem sempre o debate científico aparenta ser tão puro. Para Marx (1999, p.72),

 

As ideias (Gedanken) da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes; isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios de produção material dispõe, ao mesmo tempo, dos meios de produção espiritual, o que faz com que a elas sejam submetidas, ao mesmo tempo e em média, às ideias daqueles aos quais faltam os meios de produção espiritual.

 

Concordando com a frase acima, pensamos que a defesa do mote “luta pela sobrevivência” contra aqueles que encampavam vários aspectos do apoio mútuo não foi apenas a vitória de uma teoria contra outra. Mais do que isso, para nós, a teoria evolucionista de Darwin e a afirmação de seu principal argumento significava a vitória daqueles que defendiam um capitalismo selvagem contra os que apoiavam a causa dos trabalhadores, naquele momento impulsionada por diversas teorias socialistas.

Conforme Marx aponta no pequeno excerto citado, as ideias da classe dominante caminham ao lado das ideias científicas. Elas também são o principal meio de sustentação social a favor desse interesse de classe. Em contrapartida, as ideias contrárias ao sistema econômico buscam apontar, ainda que de forma secundária, a capacidade da classe dominada em criar seus próprios modelos.

Ainda que não tenhamos a intenção de fechar questão acerca da luta de classes sociais nessa querela científica, acreditamos que as ideias defendidas por Huxley fortalecem um discurso social atrelado à naturalização do capitalismo. Não significa que as análises de Kropotkin sobre o darwinismo sejam exclusivas no movimento socialista. Marx, ao ler A origem das espécies, percebeu nuances diferentes daquelas do geógrafo russo e, ao defender a luta pela sobrevivência, elogiou o trabalho do naturalista inglês, baseado numa perspectiva que ao filósofo alemão era muito cara: a luta de classes. Em uma carta a Darwin, Marx (apud Colp Jr., 1974, p.330, tradução nossa) vai afirmar que: “O livro de Darwin, muito importante e com base nas ciências naturais, serve-me para a luta

de classes”. 1

Naquilo que posteriormente Kropotkin veria como a defesa do sistema capitalista, Marx enxergava a confirmação da sua teoria sobre o progresso humano: a luta de classes. Se a carta de Marx a Darwin corrobora aspectos do evolucionismo centrado na luta pela sobrevivência, no caso das de Marx ao seu companheiro de trabalho intelectual, Friedrich Engels, estão presentes várias críticas

às propostas malthusianas constantes na teoria da evolução. 2 O importante nesse debate é demonstrar como esses autores estavam sintonizados com as disputas ideológicas que permeavam as várias teorias científicas, apoiando ou não seus principais motes.

Para nós, compreender o debate entre Huxley e Kropotkin, tendo como antessala as divergentes propostas sociopolíticas destes autores, contribui para deslindarmos um momento tão marcante no século XIX e que hoje é praticamente desconhecido, seja por biólogos, geógrafos, cientistas sociais etc. Nosso foco último é demonstrar de que maneira as ideias desenvolvidas pelo geógrafo russo dão suporte a suas análises sobre a relação campo-cidade, indústria, imperialismo e tantas outras tão comum ao ideário geográfico.

Partir dessa disputa que, a nosso ver, determinará a sedimentação das grandes áreas do pensamento universal nos possibilita compreender, inclusive, de que maneira a ciência e a academia estão organizadas nos dias atuais, quando reina quase sem nenhum combate externo um produtivismo estéril.

Antes mesmo de adentrarmos nas principais discussões científicas, seria interessante apontarmos alguns aspectos da biografia daquele que seria reconhecido como um dos principais e melhores divulgadores da obra de Darwin: Thomas Huxley.

Thomas Huxley, ou apenas T. Huxley, nasceu em Earling, um distrito de Londres, no ano de 1825, filho de um professor de

Matemática, George Huxley, e de uma dona de casa, Rachel.3 Ainda que graças ao pai recebesse as primeiras letras em casa, foi o autodidatismo que marcou a sua vida adolescente, sendo que, como estudante ouvinte no Charling Cross Hospital, foi agraciado com uma medalha por seus trabalhos sobre Fisiologia e Química Orgânica. Aos 20 anos, conseguiu passar nos exames inicias da Universidade de Londres, ganhando medalha de ouro em Anatomia e Fisiologia.

O fato que mexeu muito com sua vida foi à viagem a Austrália e Nova Guiné, como assistente de cirurgião, quando então tomou contato com vários invertebrados marinhos, como hidras, caravela portuguesa, medusas. Após alguns anos de seu retorno à Inglaterra, Huxley começou a ensinar História Natural e Paleontologia na Royal School of Mines, ocupando também cadeiras na Royal Institution e na Royal College of Surgeon, bem como organizando palestras públicas aos operários interessados nas ciências emergentes.

Em 1856, inicia uma amizade com Charles Darwin e, principalmente, torna-se um dos maiores defensores da teoria sobre a evolução, pontuando a importância das ideias darwinistas na superação dos principais problemas apresentados por seus antecessores evolucionistas.

Um dos momentos mais importantes e, por isso, seminal para a própria consolidação das ideias de Darwin ocorreu no debate que Huxley travou com o bispo anglicano da cidade de Oxford, Samuel Wilbeforce. Essa querela científica ocorreu na British Association for the Advabcement of Science e pautou-se na tentativa de Wilbeforce, clérigo conservador, tentar demonstrar a ineficácia da teoria da evolução proposta por Darwin. O ponto mais importante ocorreu quando o bispo anglicano, como forma de ridicularizar a teoria, perguntou a Huxley se os avós dele eram macacos.

Huxley, embora um jovem de 35 anos, estava bastante consciente da importância da consolidação das ideias de Darwin em uma das principais entidades científicas britânica. Logo, dar uma resposta contundente poderia significar a solidificação da proposta darwinista nos meios acadêmicos. Não se sentindo constrangido por algumas risadas surgidas na plateia quando da indagação de Wilbeforce, respondeu, calmamente, que preferiria ser descendente de macacos a de um bispo que usava seu poder para ridicularizar um debate científico. É importante frisar que ambos já se conheciam e se respeitavam, pois tinham trabalhado juntos em outras empreitadas, como as ocorridas na Sociedade Zoológica. E, mesmo depois desse encontro mais controverso, continuaram amigos.

A participação constante de Huxley em debates científicos tornou-o bastante popular, sendo que realizava palestras, na Inglaterra ou no exterior, para um público superior a 2 mil pessoas.

Em 1869, abandonando quase que por completo sua formação religiosa, cunhou o termo agnosticismo; ou seja, acreditava que ninguém era capaz de ter completa certeza sobre as coisas imateriais, já que estas iam muito além da capacidade humana de compreensão.

Um dos últimos e principais trabalhos de T. Huxley, The Struggle for Existence in Human Society, teve grande impacto nos meios acadêmicos ao sugerir que os seres humanos estariam destinados pelo processo evolucionário a competirem indefinidamente, argumentando, inclusive, contrariamente a qualquer ideologia social. Para alguns biógrafos de Huxley, esse trabalho pode ser descrito como um dos primeiros artigos defensores daquilo que no final do século XIX seria conhecido como darwinismo social.

Na década de 1890, já com mais de 65 anos, Huxley começaria a sofrer os impactos de viver por muito tempo em Londres, onde reinava cotidianamente o smog, uma mistura de vapor de água com poluição. Sofrendo constantemente com doenças do coração e do pulmão, foi obrigado a se mudar com a família para Eastbourne, arredores de Sussex. As doenças se agravariam, e, em 29 de junho de 1895, Huxley sofreu uma parada cardíaca fulminante, vindo a falecer. Seu enterro ocorreu em 4 de julho daquele mesmo ano no St. Marylebone Cemetery, com a presença de eminentes cientistas da época.

Thomas Huxley teve enorme papel na divulgação do darwinismo, visto que o próprio autor de A origem das espécies, sendo bastante tímido, raramente aparecia para defender suas considerações científicas, cabendo ao seu correligionário essa tarefa.

Neste trabalho, não temos a intenção de esmiuçar a obra deste autor, ainda com poucas traduções para a língua portuguesa. Nossa preocupação é situar um debate que ocorria nos meios acadêmicos na década de 1880-1890 entre ele e Kropotkin, e assim demonstrar um dos motivos que levaram o geógrafo russo a publicar uma de suas principais obras: O apoio mútuo – um fator de evolução.

Uma questão interessante para pensarmos sobre as obras publicadas por Huxley e Kropotkin refere-se ao momento histórico e aos reflexos que este pode ter tido sobre as defesas empreendidas pelos dois autores. A principal obra de Huxley que defende a luta

pela existência nas sociedades humanas foi publicada em 1888,4 enquanto a de Kropotkin, publicada como livro em 1902, foi inicialmente uma série de artigos escritos para a revista Nineteen Century, entre os anos de 1890 e 1896.

A decisão política mais importante da década de 1880 e que poderia, de alguma forma, ter sofrido a influência do darwinismo foi a Conferência de Berlim realizada entre os anos de 1884 e 1885. Esse encontro serviu para que as nações europeias dividissem a África e a Ásia entre si, processo imperialista iniciado com as primeiras incursões portuguesas ainda nos séculos XV e XVI.

Embora não saibamos se as ideias dessas conferências tiveram a influência de Huxley, o fato é que, em um artigo publicado em 1865, ele destaca uma possível diferença cognitiva entre negros e brancos, inclusive apontando uma suposta superioridade do segundo grupo: “Pode ser muito verdadeiro que alguns negros sejam melhores do que os homens brancos; entretanto nenhum homem racional, conhecedor dos fatos, acredita que o negro, médio ou superior, seja igual ao médio homem branco” (Huxley, 2011, p.67,

tradução nossa).5 Apontando, posteriormente, no mesmo texto que, em um concurso de mordidas, quem sabe, o negro levaria vantagem, Huxley deixa claro no final deste parágrafo que os estrados mais altos da civilização humana nunca serão ocupados pelas pessoas de pele mais escura. Longe de afirmarmos que existe uma conexão entre o imperialismo europeu e as ideias darwinistas defendidas por Huxley, o fato é que uma boa parte da intelectualidade britânica pode ter se utilizado dos pressupostos huxleynianos para justificar o avanço europeu.

A conferência de Berlim (1884-1885) se enquadra em um evento que justificaria as ideias da “sobrevivência do mais capaz”, quando a “entrada” de uma “raça branca” superior nesses continentes significaria, mais do que opressão, um fato decisório para a implementação de um ideário “civilizatório” em outras regiões do planeta.

Interessante perceber que o momento histórico é propício para a hegemonia das ideias de Charles Darwin, que eram avaliadas e defendidas por intelectuais de peso não só como Huxley, mas

também Spencer, 6 corroborando a penetração europeia em outros continentes. Logo, a repulsa do morador local contra essa investida deveria ser combatida por todos os meios, visto que ela atrapalharia o curso natural da história.

O darwinismo defendido por T. Huxley se adequava a uma visão de mundo que defendia abertamente as “conquistas” territoriais europeias na Ásia e na África. Não se tratava apenas de apontar as mudanças que a seleção natural ocasionaria na evolução das espécies, mas de determinar o que ela trouxe para o surgimento de uma importante divisão racial entre os homens. E, essa divisão entre raças justificaria o massacre de uma sobre as demais.

Essa dinâmica de compreensão baseada em uma completa cisão na humanidade entre capazes e não capazes estaria sendo justificada por aqueles que viam o imperialismo europeu não apenas como uma demonstração de força, mas um necessário processo civilizatório. E se Kropotkin critica ferozmente esses pressupostos darwinistas defendidos por uma grande parte da intelectualidade britânica, outros importantes geógrafos, como Friedrich Ratzel e Vidal de La Blache, de certa forma, aceitavam-nos como uma etapa inexorável do desenvolvimento humano.

Só a título de exemplificação, deixamos abaixo dois trechos que demonstram isso. O primeiro do geógrafo francês sobre a importância da Geografia no ensino primário, e o segundo acerca da visão ratzeliana desse processo neocolonialista

 

Assinala as condições e deixa à competição, lei universal dos seres vivos, o cuidado de obter resultados. […] Daí surge a necessidade que tem cada povo de informar-se seriamente dos recursos próprios que ele traz à luta. […] Para isto, a Geografia é também uma boa conselheira. (La Blache, 2008 [1943], p.21)

 

A organização de uma sociedade depende estreitamente da natureza de seu solo, de sua situação; o conhecimento da natureza física do território (pays), de suas vantagens e de seus inconvenientes, resulta então na história política.

[…] a aquisição de um território novo, ao obrigar os povos a empreender novos trabalhos, estendendo seu horizonte moral, exerce sobre eles uma ação verdadeiramente libertadora. (Ratzel, 1983, p.99)

 

Vemos, nos dois trechos, a defesa incondicional da supremacia de um povo sobre o outro. Levando-se em consideração a origem de ambos e que estes foram porta-vozes da implementação da Geografia como uma disciplina escolar de extrema importância para a consolidação dos Estados-Nações, não seria de todo equivocado argumentar que uma supremacia europeia é defendida nos dois excertos.

As ideias darwinistas ganham outro aspecto. Elas explicariam a supremacia de uma raça sobre a outra, a defesa do território e a necessária incursão europeia nos continentes africano e asiático.

Não se trata apenas de um aspecto racial, mas também territorial. A dominação territorial deve ocorrer para que os recursos naturais possam ser “adequadamente” utilizados pelas potências europeias e com isso contribuir para uma suposta “libertação” dos povos conquistados. A dominação também é uma forma de libertação, pois produz um uso mais racional desses recursos, até então quase sem utilidade econômica para os povos autóctones.

O pensamento eurocêntrico fica mais evidente e cruel quando analisamos alguns manuais de Geografia das escolas brasileiras do final do século XIX:

 

Raças humanas

 

A sciencia que estuda as raças dá-se o nome de ethnografia. A classificação das raças funda-se especialmente nas differenças physicas e na diversidade de línguas e de costumes dos povos. As differenças physicas são determinadas pelo clima, gênero de vida e costumes e nada provam contra o grande princípio social e religioso da unidade da espécie humana. Os homens formam, portanto, uma única espécie que se divide em cinco raças principaes. 1ª raça branca, 2ª raça amarella, 3ª raça preta ou negra, 4ª raça malaica e 5ª raça americana. De todas a mais inteligente, civilizada, activa e poderosa é a raça caucaseana e as menos civilisadas é a negra.

 

Civilisação

 

Os povos segundo o seu adiantamento e progresso dividem-se em três grandes classes: selvagens, bárbaros e civilisados. Os selvagens tem culto grosseiro, adoram o vento, o fogo, o sol, etc.; não conhecem as artes e vivem da caça e pesca; algumas tribus são antropophagas. Os povos civilisados conhecem todas as artes mechanicas, cultivam as sciencias e as letras. Eles tem argumentado, pelas suas luzes e inteligencia, pela sabedoria de suas leis, por sua indústria e pelo commércio, as commodidades e confortos da vida, contribuindo para torná-la mais doce e mais feliz. (Amaral, 1890 apud Ferracini, 2012, p.160)

 

Dentro de uma linha de pensamento que parte de Huxley, passa por Ratzel e La Blache e chega às escolas brasileiras, percebemos o uso de termos e conceitos muito comuns à época.

Não se trata de afirmar categoricamente que a influência de Huxley é determinante no pensamento dos geógrafos europeus e destes no pensamento de Tancredo do Amaral, um dos primeiros autores de livros didáticos de Geografia. Mas queremos demonstrar que, ao universo científico desse período, Kropotkin aparece de forma bastante inusitada aos defensores do processo neocolonialista que ganharia ares organizacionais com a Conferência de Berlim de 1884-1885.

Mesmo que não possamos imputar a Thomas Huxley a culpa dos massacres que surgiriam no curso do processo colonialista europeu (caso da invasão alemã na Namíbia quando aproximadamente 100 mil hereros e namaques foram mortos pelas tropas comandadas por

Lothar Von Trotha), 7 a defesa intransigente que o naturalista inglês fazia da luta pela sobrevivência funcionaria como uma “pedra filosofal” burguesa no que tange à naturalização do sistema do

capital. 8

Para uma melhor compreensão das ideias de Huxley acerca da seleção natural e suas implicações na evolução humana, realizaremos uma análise de duas obras sobre a transformação do homem pela seleção natural: The Struggle for Existence in Human Society e Evolution and Ethics. Publicado em 1888 na revista Nineteenth Century, o primeiro artigo teve uma grande repercussão nos meios acadêmicos britânicos, visto ampliar a visão darwinista da vitória do mais capaz aos seres humanos.

Quando Piotr Kropotkin leu o artigo se sentiu chocado com as afirmações ali encontradas e, na sua autobiografia, afirmou:

 

Quando Huxley publicou em 1888 o seu terrível artigo “A luta pela existência: um programa” resolvi reunir sob uma forma literária o material que havia acumulado durante dois anos e acrescentar as objeções que tinha a fazer à sua maneira de conceber a luta pela vida tanto entre os homens como entre os animais. Falei sobre isso aos meus amigos, mas compreendi que a “luta pela vida” interpretada como um grito de guerra à infelicidade dos fracos e elevada à altura de lei natural, consagrada pela ciência havia lançado raízes tão profundas na Inglaterra que se tornaria praticamente um dogma. (Kropotkin, 1946, p.468-9)

 

E a impressão que fica ao leitor após o término da análise do texto de Huxley é de que, embora estejamos organizados em sociedade há vários séculos, a luta feroz pela sobrevivência ainda é o principal substrato formador do homem.

Sendo um texto relativamente curto (41 páginas segundo a edição original de 1894), podemos dividi-lo em três temáticas principais:

 

1. A primeira parte (e para nós a principal) reflete sobre o papel da

natureza (como algo separado do homem “civilizado”) na evolução dos seres vivos (incluso os seres humanos), e aponta que a luta pela sobrevivência é o principal mecanismo desse processo. A partir dessa inferência, Huxley procura apresentar a luta extraespécies como algo normal, e que a presença de um olhar mais “moral” nessas disputas ocorre entre os homens com “melhor” organização social, caso dos britânicos, visto que a natureza não é imoral, é apenas e tão somente amoral. O olhar humano sobre essa luta enviesa a forma de compreendermos o processo evolutivo entre os seres vivos, como quando uma suposta vitória do indivíduo mais fraco (cervo, por exemplo) sobre o mais forte (como um lobo) devesse ser “comemorada”.

2. Como complemento à primeira parte, Huxley, conforme vamos

avançando as páginas, busca em Malthus e no malthusianismo uma explicação científica para essa disputa entre os seres vivos. Nesse sentido, procura defender um discurso econômico liberal perante a ação deletéria de um Estado que nem sempre consegue determinar uma vida mais igualitária para todos.

3. Por fim, Huxley procura discutir o sistema educacional de sua

época, apontando as vantagens (tanto para empregados quanto para empregadores) da constituição de escolas técnicas voltadas ao mercado de trabalho, possibilitando um padrão de vida superior para as classes menos abastadas.

 

A partir dessa pequena explanação, vamos agora destacar alguns fatos que possam elucidar a visão predominante de Huxley sobre a evolução das espécies. Para tal êxito, vamos ressaltar algumas passagens do texto, tecendo alguns comentários breves sobre a visão deste autor.

Uma das principais questões levantadas por Huxley é sobre o papel da natureza no processo de evolução dos seres vivos. Tendo como base o mote “os fins justificam os meios”, defende a luta feroz entre os indivíduos: “Pelos evolucionistas, de outra forma, com muita tranquilidade diz-se que a terrível luta pela existência tende a um final feliz e que o sofrimento dos ancestrais será compensado pela crescente perfeição de seus descendentes” (Huxley, 1894,

p.198-9, tradução nossa). 9 Logo, para Huxley, demonstrar a benevolência como um fator superior entre os aspectos evolucionistas científicos é incorrer em um seríssimo erro.

A natureza é soberana sobre as paixões e sentimentos humanos, impor uma perspectiva moral sobre ela não contribui para um melhor entendimento desse processo evolutivo. O sofrimento pode ser visto como um aspecto favorável às mudanças: “os homens que possuem qualquer virilidade acham a vida muito valiosa quando vivem-na sob as piores condições” (ibidem, p.202, tradução

nossa).10

Ainda nessa perspectiva, Huxley demonstra que os aspectos morais surgiram em pessoas que estavam em um processo civilizatório mais avançado (caso do inglês), subsumindo àqueles baseados em uma metodologia científica. Entretanto, isso não ocorria com todos os seres humanos, visto que entre os mais “atrasados” os aspectos morais eram inexistentes: “É demais desejável, senão necessário, afirmar que a sociedade e a natureza diferem pela questão moral; o homem ético – membro de uma sociedade ou cidadão – sempre se contrapõe ao não ético – o selvagem primitivo, ou o homem enquanto um mero membro do

reino animal” (ibidem, p.203, tradução nossa).11

Ao apontar essa diferenciação entre os seres humanos “civilizados” e aqueles que supostamente estão ainda em estado natural, Huxley corrobora uma gama de intelectuais que defendiam peremptoriamente a superioridade europeia sobre os povos de outras regiões do planeta. Avançando nesse debate, ele naturaliza o sistema capitalista, entendendo-o como algo intrínseco ao processo evolutivo. Para justificar essa separação entre os homens e a presença de uma sociedade capitalista nos países mais avançados, utiliza, largamente, as proposições do pároco britânico Malthus.

Igual a seu compatriota, nega a validade científica das utopias sociais, pois elas não condizem com um perfil competitivo que molda homens e mulheres civilizados: “Enquanto a multiplicação for ilimitada, será uma perda de tempo idealizar uma organização social com distribuição de renda, livrar a tendência da sociedade de se autodestruir na sua forma mais intensa, visto que a luta pela sobrevivência é o objetivo da sociedade” (ibidem, p.211-2, tradução

nossa).12

Depois de justificar uma naturalização da luta pela sobrevivência entre os homens, a partir de pressupostos liberais calcados na teoria populacional de Malthus, Huxley defende a presença de uma educação técnica profissional voltada, especialmente, para as classes mais pobres. Essas escolas seriam um projeto importante no que tange à melhoria das classes operárias, visto que estariam em um sistema educacional voltado para os interesses das indústrias locais. Assim, os alunos aprenderiam uma profissão ligada aos interesses da classe patronal, proporcionando uma maior produtividade destas empresas em comparação às indústrias existentes em outras partes da Europa.

Percebemos, a partir desse trabalho, que Huxley, como Darwin, acreditava piamente na teoria populacional de Malthus e a aplicava ao meio natural. Huxley acentuava a seleção natural no cotidiano dos seres vivos (e da luta entre as espécies e não intraespécie) para reafirmar o capitalismo, alçando esse sistema econômico a um grau de naturalização extrema. Ao fazer isso, o conhecido “buldogue” de Darwin compreendia as tendências socialistas como antinaturais, já que a luta pela sobrevivência que ocorria no cotidiano fabril inglês estaria calcada nas premissas darwinistas e não, como entendiam os socialistas, nos efeitos de uma sociedade pautada pela desigualdade social.

Seu o artigo Evolution and Ethics procura discutir se é factível a existência de uma ética solidária no decurso de um processo de evolução, caracterizado por uma luta pela sobrevivência e pela vitória do mais capaz. Baseando-se, mais uma vez, nas análises malthusianas, Huxley demonstra que, no mundo animal, a presença de uma ética solidária que se contraponha a “natural” luta entre os seres vivos nunca ocorrerá e, se o homem tentasse bloquear qualquer tendência ligada à competição entre os indivíduos, a luta, por fim, retornaria lentamente. Huxley ademais esclarece que, se alguma cooperação existe entre os insetos (abelhas e formigas, por exemplo), ela ocorre, pois todos os membros são obrigados a alimentar a rainha.

Nesse sentido, o naturalista procura afirmar que a cooperação é digna das sociedades onde todos perderam seu lado individual, aceitando passivamente a função que a natureza lhes deu: “essa sociedade é produto direto de uma necessidade orgânica, obrigando a que cada membro aja tendendo ao bem do todo. Cada abelha tem seu dever e nenhum direito” (idem, 2009, pp.24-5, tradução

nossa).13

A ideia de uma sociedade humana comunalista na qual a cooperação predominasse sobre a competição é inviável para ele, pois, ao ter livre-arbítrio, o homem abandona rapidamente qualquer tendência social e pensa apenas nos seus interesses individuais.

Apontando a máxima cristã de negar a violência a qualquer custo como antinatural e ineficaz, diz Huxley em um longo trecho:

 

Estritamente observado, a “regra dourada” é a negação da lei, ao recusar em se colocar contra os infratores; e no que diz respeito às relações externas de uma política, é a recusa de admitir a luta pela existência. Ela pode ser obedecida, mesmo parcialmente, somente sob a proteção de uma sociedade que a repudia. Sem tal proteção, os seguidores da “regra dourada” poderiam entregar-se às esperanças de um paraíso, com a certeza de que outras pessoas seriam as donas da Terra. (ibidem, p.32-

3)14

 

Nesse fragmento, fica expresso que Huxley até admite uma sociedade mais harmônica, com maior igualdade social e econômica. Entretanto, vê essa possibilidade como ineficiente, pois, ao não punir os que não se ajustam, estaria fadada a ser implodida. A solidariedade humana levada às últimas consequências nunca conseguiria vingar, pois teria a tendência de ser subsumida pelo comportamento competitivo.

Ao compreender como algo impossível a predominância de uma visão ética de compartilhamento nas sociedades humanas, o naturalista avança apontando que o principal corolário das comunidades de seres vivos (humana, inclusive) sempre será a luta pela sobrevivência.

Eu apontei que as sociedades humanas tiveram a sua origem nas necessidades orgânicas expressas pela imitação e pelas emoções simpáticas; e que as sociedades em que os homens praticavam uma cooperação estreita levavam vantagem sobre aquelas que nas quais vigorava a luta pela sobrevivência. Entretanto, a partir do momento que cada homem retivesse para si as faculdades, mais ou menos, comuns, e principalmente, um pleno desejo de autossatisfação, a luta pela existência

poderia ser gradualmente eliminada. (ibidem, p.35, tradução nossa)15

 

Para ele, a satisfação individual seria superior ao bem comum, mesmo em qualquer sociedade baseada em organização igualitária, visto que as necessidades particulares aflorariam inexoravelmente. Não se tratava de ser ético ou não. A luta pela sobrevivência não era uma escolha pessoal ou organizacional. Ela era o principal fator da seleção natural e o que propiciaria o surgimento de descendentes muito melhores do que os seus progenitores.

Embora Huxley abertamente defendesse o mote da teoria evolucionista, como vimos, aparece na obra do naturalista inglês evidências de que o apoio mútuo também teria importância.

Se no livro A origem das espécies a presença da solidariedade é residual, em outra obra não menos importante como A origem do homem e a seleção sexual ela é mais presente. Não se trata aqui de afirmar que em Darwin a perspectiva solidária era um fator predominante na evolução dos seres vivos, mas que ele não negava essa hipótese seja quando analisava os animais ou no caso da própria evolução humana. Um dos aspectos discutidos nessa segunda obra citada era entender o que era instinto e aprendizagem, e como os dois aspectos contribuíam ao longo do processo evolucionário.

Diferente de Alfred Wallace,16 que acreditava que os instintos eram transmitidos a partir de um processo de aprendizagem, Darwin parecia ter alguma dúvida a esse respeito:

 

Muitas vezes foi essa a primeira advertência que os viajantes recebiam de que o gelo estava começando a adelgaçar-se, tornando-se perigoso. Agora, pergunto: teriam os cães agido desse modo devido a experiência individuais, ao exemplo dos cães mais velhos e experientes, ou devido a um hábito adquirido, isto é, instinto? (Darwin, 2004, p.37)

Podemos compreender que, pela aprendizagem mútua, os animais vão passando às demais gerações quais os cuidados que devem ter para que consigam sobreviver e produzir descendentes. Obviamente que as considerações de Mendel sobre o papel da genética ainda não eram conhecidas pelos naturalistas, gerando ilações de ambos de como as habilidades eram adquiridas no meio natural e, principalmente, como eram transmitidas às próximas gerações.

Se no trecho citado a questão da solidariedade fica restrita aos membros de uma mesma espécie, em outros momentos da obra, Darwin parece ampliar essa percepção:

 

Parece-me bastante racional a premissa de que qualquer animal dotado de bem marcados instintos sociais irá inevitavelmente adquirir um senso moral ou uma consciência, tão logo seus poderes intelectuais se tornem bem desenvolvidos, levando-o a alcançar um grau de desenvolvimento próximo daquele que o homem hoje possui. Com efeito, em primeiro lugar, os instintos sociais levam um animal a experimentar prazer na companhia de seus companheiros, a sentir certo grau de solidariedade para com eles e prestar-lhes favores e serviços. (ibidem, p.53)

 

Ou, nesse caso, quando diz:

 

Macacos órfãos são sempre adotados e criados com cuidado pelos outros do bando, sejam eles machos ou fêmeas. Era tal o instinto maternal de certa fêmea de babuíno, que ela não somente adotava jovens macacos de outras espécies, como roubava cãezinhos e gatinhos, levando-os consigo para criar. (ibidem, p.33)

 

Entendemos que, embora os traços mais definidores e propagados da obra darwiniana estejam intrinsecamente ligados à competição e a vitória do mais capaz, é inegável a presença de trechos nos quais predomina a solidariedade ou, como queria Kropotkin, o apoio mútuo.

Ainda que no ambiente científico europeu predominassem pesquisadores que defenderiam a luta pela sobrevivência como fator evolucionário (o que até hoje pauta grande parte das relações humanas) e que, mesmo em Darwin os aspectos solidários não fossem tão marcantes, é bom frisar que seus críticos sempre existiram.

Como vimos anteriormente, as asseverações de Huxley causaram enorme indignação a Kropotkin, já que moralmente defendiam a luta sanguinária entre os seres vivos e, cientificamente, não eram compatíveis com as pesquisas que o geógrafo russo empreendeu pelas regiões siberianas. Desta forma, defender a postura científica e moral de Huxley não era admissível, pois as pesquisas empíricas realizadas refutavam os argumentos defendidos pelo cientista britânico.

Para demonstrar os equívocos de Huxley, Kropotkin utiliza algumas ideias de Rousseau como contraponto, não se furtando a criticar as propostas inviáveis do filósofo francês: “O erro de Rousseau consiste esquecer completamente da luta com garras e dentes, e Huxley o oposto; mas nem o otimismo de Rousseau nem o pessimismo de Huxley podem ser aceitos como uma interpretação imparcial e científica da natureza” (Kropotkin, 1989, p.42, tradução

nossa).17 Para o geógrafo russo, há um exagero na defesa da luta pela sobrevivência, visto que o próprio Darwin analisou esse pressuposto da seleção natural paralelamente àqueles que influenciavam a vida dos seres vivos a partir de uma perspectiva do apoio mútuo (ibidem).

A seleção natural tinha uma ação diferenciada, determinada pelas múltiplas condições ambientais existentes. Logo, analisar o processo evolucionário a partir das regiões tropicais não garantiria a construção de um corpus teórico universal capaz de explicar o fenômeno em regiões climáticas nas quais os animais sobrevivem em temperaturas baixíssimas. Como o geógrafo anarquista afirma, “a outra particularidade é que não encontrei, naqueles lugares mais isolados onde a vida animal parecia abundante, apesar de buscar seus traços sem trégua, a luta cruel pelos meios de subsistência entre os animais pertencentes a uma mesma espécie” (ibidem, p.28,

tradução nossa).18

Se para Huxley a luta era inevitável entre os animais, incluso os seres humanos, e só os mais capazes gerariam descendentes, Kropotkin, tendo como base os seus estudos na região do Amur, chegava a uma conclusão completamente diferente. Não que negasse a luta pela sobrevivência. O geógrafo em vários momentos destaca a existência dessa luta. Ela ocorre principalmente contra as intempéries de um clima rigoroso e entre espécies diferentes, e não como defendia alguns arautos do darwinismo.

Alçar essa prerrogativa pontualmente localizada entre os seres vivos das áreas mais quentes para as outras regiões do planeta não contribuía para a formação de um debate científico de qualidade. “O que nos causa surpresa quando estudamos a luta pela sobrevivência, seja no sentido direto ou mesmo no figurado, é que nas regiões escassamente habitadas por humanos predomina o

apoio mútuo entre os animais.” (ibidem, p.46, tradução nossa) 19

Uma expressão marcante entre esses dois cientistas é que, como partem de pontos de vista divergentes, o mesmo fato aparece também de forma diferenciada. Como para Huxley a luta pela sobrevivência é o mote do processo evolutivo, quando ele analisa a batalha entre lobos e cervos, destaca-a como uma “guerra sanguinária” entre as espécies, e a morte e posterior devoração do cervo são vistas como algo natural e necessário para o processo evolutivo continuar.

O mesmo fato para Kropotkin (a luta entre as espécies), analisado sob o ângulo do apoio mútuo, tem como destaque não a luta, mas as estratégias de ação comum, tanto para a alcateia de lobos que quer matar algum cervo para a sua sobrevivência, quanto o bando de cervos que foge para dificultar ao máximo a morte de um de seus membros.

Além de desenvolver o apoio mútuo nesses momentos de batalha entre as espécies, Kropotkin demonstra-o nas ações mais triviais dos seres vivos, quando, por exemplo, ficou quase duas horas em um aquário observando o esforço conjunto dos caranguejos em retornar a posição habitual de um indivíduo que descuidadamente tinha virado sua carapaça para baixo (o que o transformaria em uma presa fácil) (ibidem, p.47).

Outro aspecto analisado por Kropotkin refere-se ao entendimento de como o apoio mútuo é determinante na organização dos chamados “povos inferiores”. Enquanto uma gama de intelectuais europeus entendia os povos não europeus como incivilizados, com inteligência limitada e muito próxima dos outros animais, para o geógrafo russo, os europeus tinham muito a aprender com essas comunidades humanas. Bradando contra a postura “civilizada” europeia, Kropotkin (2014, p.40) afirma que

 

Esta segunda tarefa é, todavia, maior; mas existe uma terceira, talvez ainda maior: a de acabar com os preconceitos que criamos a respeito das chamadas “raças inferiores” – e isto precisamente em uma época em que tudo faz prever que logo entraremos em um contato muito mais próximo do que nunca. Quando um estadista francês proclamava recentemente que a missão dos europeus é a de civilizar as raças inferiores com os meios a que haviam recorrido para civilizar algumas delas – isto é, com as baionetas e os massacres de Bacleh – não fazia mais do que elevar à categoria de teoria os fatos vergonhosos que protagonizam a cada dia os europeus.

 

Ao estudar os povos não europeus, Kropotkin também teve a preocupação em demonstrar que os seres humanos não organizados sob a égide do capital e do Estado tendiam a viver de forma comunalista. Negando a máxima huxleyaniana que creditava à organização cristã e ocidental ser a mais próxima dos princípios de liberdade e cooperação, o geógrafo anarquista, baseando-se em estudos antropológicos, diz sobre os Kabilas, povo da África centro-ocidental:

 

Os Kabilas não reconhecem qualquer autoridade exceto sua djemaa ou assembleia da comuna aldeã. As decisões da djemaa, evidentemente, devem ser tomadas por unanimidade, ou seja, o julgamento se arrasta até que todos os presentes estejam de acordo em tomar uma decisão ou

mesmo submeter-se a ela. (idem, 1989, p.156, tradução nossa)20

 

Ao se utilizar dos kabilas para demonstrar a presença de valores comunalistas, Kropotkin procura desmentir um discurso dominante

entre várias comunidades científicas de Geografia,21 no qual a civilização europeia tinha conquistado níveis altíssimos de organização.

O interessante neste capítulo foi demonstrar as divergências de concepção de mundo de dois cientistas de meados do século XIX, com posições que tiveram grande influência na sociedade ocidental daquele período.

A partir de uma pequena explanação das divergências de pensamento entre esses importantes intelectuais do século XIX, percebemos que a supremacia de uma teoria sobre a outra pode ter significados que vão além de uma querela científica. Isso ocorre pois a defesa intransigente de um modelo quase todo ele baseado na luta e na vitória do mais capaz significa uma posterior naturalização de um sistema baseado na desigualdade social.

Independente de Huxley ser ou não um arauto do sistema capitalista de modelo inglês, o fato é que suas ideias disseminam valores muito mais próximos de um sistema baseado na supremacia de uns poucos sobre uma imensa maioria. Kropotkin percebe o significado da “vitória” desse modelo científico sobre os anteriores, e a negação, quase que completa, que este faz da importância dos aspectos comunais e gregários no processo evolutivo dos seres vivos. Ao tentar questionar esses pressupostos, o geógrafo russo tentava afirmar uma visão de apoio mútuo muito vinculada às ideias que defendia na teorização de um anarquismo de base comunista. Neste sentido, procurar demonstrar a presença de aspectos comunais na organização dos animais e, principalmente, dos seres humanos, é tentar apontar a prevalência dessa modalidade de organização sobre uma dinâmica societária quase que subsumida por preceitos individualistas. Ao realizar isso, destacava também que o anarcocomunismo era viável, pois a sua presença era empiricamente comprovada pelas pesquisas que realizou na Sibéria e por vários autores citados em sua obra magna sobre o assunto.

Huxley e Kropotkin debatem em um momento sociocultural importante para a consolidação e posterior expansão de um modelo econômico baseado na propriedade privada e na exploração do homem. Huxley pretende justificar a tendência globalista do capitalismo a partir de suas pesquisas realizadas sobre o papel da seleção natural no desenvolvimento evolutivo. Isso poderia funcionar como um aporte científico à corrida imperialista dos países europeus na África e na Ásia. Para Kropotkin, seria um momento ímpar para que as ideias pautadas na autogestão e na democracia direta tivessem alguma importância acadêmica, sugerindo a constituição de um corpo teórico factível e não pleno de veleidades.

É por isso que o geógrafo russo trava debates com vários intelectuais na Inglaterra. Procura demonstrar que as ideias ácratas por ele defendidas não são apenas utopias de pessoas que almejam uma sociedade perfeita, mas se baseiam em conhecimentos científicos empiricamente comprovados, bem como, em uma metodologia de análise comumente aceita pelas comunidades acadêmicas.

Entendemos que Huxley e Kropotkin procuram defender suas ideias sociais e econômicas dentro de um espírito acadêmico, no qual a aceitação delas por um grupo seleto de intelectuais seria um ponto-chave para a sua posterior divulgação.

Mais de cem anos depois desse debate (embora até hoje no Brasil o principal artigo de Huxley ainda não esteja traduzido), fica a sensação de que as ideais de Huxley ganharam forma e proeminência conforme essas décadas que nos separam foram passando. Se não podemos imputar a ele o chamado darwinismo social e suas consequências nefastas, fica claro que muito do discurso por ele empreendido na academia ganhou corpo e se tornou quase que uma norma inexorável nas sociedades modernas. Não soa estranho falar de meritocracia, vitória do mais competente e tantas outras cantilenas defendidas cotidianamente por uma parte considerável da intelectualidade do mundo globalizado dos dias de hoje.

No caso das ideias de Kropotkin, embora “derrotadas” nesse percurso mais acadêmico, foram resgatadas pelo movimento operário dos países de língua latina (Espanha, Portugal, Itália, Brasil, Argentina etc.) e serviram de base para que muitos processos sociais de grande envergadura (caso da Revolução Espanhola de 1936) tivessem alguma expressividade, embora, efetivamente, nunca ganhassem maior expressão, soando aos ouvidos, quase sempre, com muita excentricidade.

O importante aqui foi demonstrar que as ideias de apoio mútuo defendidas por Kropotkin e tantos outros tiveram um momento importante de atuação (seja acadêmica no século XIX ou servindo de modelo para a organização dos movimentos operários no século XX) e, embora ainda minoritária, aparece em vários movimentos sociais urbanos e rurais, que se utilizam dessa proposta como forma de romper com uma lógica social fundamentada na hierarquia e na exploração do homem, entre tantos traços comuns a nossa sociedade atual.