Geografia e anarquismo
5 – Territórios de solidariedade: a sociabilidade do apoio mútuo no tempo e no espaço
5 – Territórios de solidariedade:
a sociabilidade do apoio mútuo
no tempo e no espaço
Um dos principais aspectos da obra de Kropotkin é a sua análise na disposição territorial que as várias comunidades humanas tiveram em seu processo evolutivo, destacando, principalmente, os aspectos mutuais. Mais do que perceber a diversidade de ocupações humanas que surgiram, procurou discuti-las a fim de que as suas sociabilidades se sobressaíssem, demonstrando que esses importantes aspectos foram definidores na capacidade que os seres humanos tiveram de se organizar. Ao realizar essa empreitada, Kropotkin tenta apresentar o apoio mútuo como um dado constituinte dos diferentes tipos de organização espacial e temporal, como também, parte intrínseca formadora do homem.
Para que seu principal objetivo se concretize, a saber, demonstrar a existência de uma predominância do apoio mútuo como fator de organização nas várias sociedades humanas, ele constrói um padrão de entendimento bastante peculiar, no qual territórios mutuais surgem a partir de uma luta contra as intempéries naturais ou uma postura societária baseada no poder e na hierarquia. O apoio mútuo possibilita a constituição de uma formação territorial que tem como substrato a solidariedade entre os indivíduos, postura essa capaz de superar os desafios cotidianos.
É assim que entendemos o trabalho de Kropotkin ao analisar o apoio mútuo entre os bárbaros ou os chamados selvagens, mas também entre os operários de seu tempo, procurando resgatar a presença de uma posição solidária em vários períodos históricos e em lugares tão distantes geograficamente.
Sendo geógrafo e anarquista, Kropotkin quis sempre fazer crer aqueles que o liam que o apoio mútuo se concretizava no território, seja de forma residual (quando era um aspecto subordinado na sociedade) ou mesmo dominante, caso da organização das chamadas cidades livres. O importante é compreender que em diversas épocas históricas os seres humanos estão se organizando coletivamente, e esse processo está essencialmente ligado ao desenvolvimento ulterior dessa espécie animal.
A principal questão levantada por Kropotkin é a importância do apoio mútuo para a sobrevivência e geração de descendentes em seres humanos. Sem esse fator evolutivo, a própria espécie poderia ter enormes dificuldades para se estabelecer em diversos rincões do planeta.
O apoio mútuo, para o geógrafo russo, não é apenas uma solução temporal ou mesmo acidental. Ele é a base da estruturação das sociedades ao longo do tempo, que se utilizando dessa ferramenta conquistam enormes vantagens para seguirem a incrível viagem de ocupação territorial. Como diz:
A sociabilidade e a necessidade de ajuda e apoio mútuos são coisas tão inatas na natureza humana, que não encontramos na história épocas em que os homens tenham se dispersado em pequenas famílias. […] Durante muitos milênios, a organização tribal serviu de tal modo para unir os homens, apesar de não existir nela decididamente nenhuma autoridade
para torná-la obrigatória. (Kropotkin, 1989, p.165, tradução nossa)1
Mais do que acreditar que o apoio mútuo era um fator evolutivo, inato, Kropotkin o compreende como uma sociabilidade solidária entre os seres humanos. Essa sociabilidade solidária diminuiu as lutas intestinas, permitindo que homens e mulheres construíssem uma sociedade cada vez mais complexa materialmente. Ele pensa o apoio mútuo como um fator social de desenvolvimento, base societária primordial para a realização das maiores invenções da humanidade.
Interessante que no fragmento citado anteriormente essa questão ainda é pouco discutida, no entanto, já quase no final dele, há indícios de que a união, esse apoio mútuo inato, nunca foi uma decisão hierárquica, mas fruto de um consenso entre os indivíduos.
Observando algumas passagens de suas obras que discutem profundamente o assunto, quando Kropotkin trata dos vários agrupamentos humanos, fica evidente a força propulsora que essa sociabilidade coletiva teve na criatividade humana, sendo primordial para superação dos desafios apresentados cotidianamente. Seja entre os homens primitivos que procuravam soluções para a melhor caça, uma moradia mais resistente às intempéries climáticas, seja na união para a construção de praças e igrejas como as que ocorreram nas cidades medievais, fica evidente que essas intervenções surgiram devido à sociabilidade existente.
Se no capitalismo o destaque individual é glorificado sistematicamente, o “competente” é o que sempre alcança as melhores posições e o esforço é visto como sedimentador da caminhada rumo ao status, na ótica kropotkiniana o destaque sempre é coletivo. E, se algum indivíduo merecesse alguma citação expressa é sempre por causa do papel que ele desempenhou no que tange à sua contribuição para a união das pessoas, seja ao
realizarem uma obra ou lutarem contra um usurpador.2
É no processo de constituição dessas uniões de apoio mútuo que aparece a sociabilidade solidária. Ela está calcada em valores anticompetitivos, comunalistas e democráticos, permitindo que o progresso ocorra sempre pautado na decisão consensual. Ao surgir em um determinado local, possui uma dinâmica própria, uma apropriação territorial diferenciada, o que Kropotkin vai chamar, no caso das cidades medievais, de comunas aldeãs. Elas estão fundamentadas “no princípio territorial […]. Esta instituição, por sua vez, serviu para unir os homens durante muitos séculos, dando a eles a possibilidade de desenvolver cada vez mais suas instituições sociais, e além disso ajudando-os a atravessar os períodos mais
sombrios da história” (ibidem, p.165-6). 3
A comunidade aldeã, formada por cidadãos livres que procuram a construção de uma sociedade mais igualitária, está expressa por uma sociabilidade territorial. Essa sociabilidade territorial não é limitada por uma jurisdição nacional que tende a dividir as pessoas. Pelo contrário, é referenciada como uma unidade espacial na qual os interesses da maioria de seus membros são sistematicamente colocados em prática. Ao contrário do Estado-Nação, com seu território determinado por fronteiras fictícias que apenas interessam a uma pequena parcela da aristocracia, nas comunidades aldeãs não é aceito o poder de nenhum senhor, e continuamente se formam redes de proteção e desenvolvimento recíprocos.
A luta pela libertação das cidades não é específica de uma região da Europa. São centenas de núcleos urbanos que se unem e criam um território fluído, no qual os interesses de uma cidade são defendidos por todas as outras que a ela estão ligadas. O espírito nacional ainda não existe. As pessoas que lutam por esse território onde a sociabilidade solidária tem predominância estão focados no espírito de construção de uma vida cotidiana marcada pelo convívio pacífico.
O rei, o senhor feudal, são os elementos estranhos que procuram romper com essa sociabilidade. Eles tentam delimitar seu território, criando uma suposta anterioridade sobre as terras devida a alguma tradição do grupo político a que pertencem. E com isso continuamente defendem a supremacia das ideias nacionais contra aquelas defendidas pelos burgos livres existentes em vários cantos da Europa.
Interessante observar que na cidade, na comuna aldeã, esse princípio territorial por Kropotkin descrito não se restringe apenas à Europa medieval. Onde a luta pela sobrevivência foi o estopim para a formação de uma sociabilidade solidária, esse território livre foi criado. A cidade, vila ou burgo era a porção de solo que seus membros adotavam como forma de construírem essa proteção. Para ele, não se pode restringir esses territórios mutuais a um tempo e espaço específicos. Caso contrário, cairíamos na armadilha de distinguir entre os europeus e em um tempo circunscrito (Idade Média) esse processo de criação, essas verdadeiras autonomias territoriais.
Por isso, ao defender o apoio mútuo entre os seres humanos, Kropotkin pensa nele como um instrumento do qual o homem se utiliza desde tempos primevos, e é graças ao momento solidário que territórios de diversas regiões do planeta foram sendo ocupados.
Como diz o nosso autor:
Na Itália, a comuna sobreviveu ao domínio romano e renasceu depois da queda do Império Romano. Foi regra geral entre os escandinavos, eslavos, finlandeses, os cures e lives. A comuna aldeã na Índia é bem conhecida graças aos trabalhos de sir Henry Mainel […]. Encontramo-las
entre os ulus mongois, na cabila thaddari [atual Paquistão], na dessa javanesa, na kota ou tofa malaia e sob inúmeras designações na Abissínia [atual Etiópia], Sudão, interior da África, nas tribos indígenas de ambas Américas e em todas as tribos, pequenas ou grandes, das ilhas do
Oceano Pacífico. (ibidem, p.140, tradução nossa)4
Percebemos, então, a presença de uma ação territorial solidária em várias partes do mundo. Pode ser dominante e, quando residual combate um princípio territorial pautado no individualismo. A solidariedade se expressa e se espraia por todos os continentes. Onde existam agrupamentos humanos, encontramo-las, segundo o geógrafo russo.
Mais do que uma simples questão de escolha (o que leva às várias críticas anarquistas ou não, como veremos no próximo capítulo), o ser humano, como a parte consciente da Natureza, vai utilizar esse expediente para a constituição e posterior manutenção de inúmeros territórios livres. É essa a tônica no trabalho de Kropotkin. Analisar esses territórios, destacar as suas sociabilidades e a luta constante de seus habitantes para que os princípios de apoio mútuo se mantivessem e proliferassem.
Ao destacar que isso ocorre em várias partes do mundo e em períodos históricos diferentes, Kropotkin almeja demonstrar que a solidariedade é um elemento essencial para que os seres humanos vivam em sociedade. Nunca ouvimos e nem ouviremos falar (exceto em fábulas) na existência de homens ou mulheres que viveram a vida em completo isolamento. É da própria ontologia humana ser um individuo social. Isso não significa que outras formas de organização mais centralizadas, hierarquicamente dispostas não existam. O egoísmo não é negado por ele. O que ele quer alertar é a supremacia de uma ideologia no auge da revolução industrial que desconsidera a união como um bem primordial para a manutenção da vida na Terra.
Se o capitalismo nega isso cotidianamente, se sua sociabilidade está baseada na competição e no lucro, não significa que na história ou mesmo no espaço-tempo contemporâneo não existiam outras sociabilidades contrárias a essa. Há uma luta constante entre a solidariedade e suas múltiplas territorialidades contra a sociabilidade capitalista e seu projeto que culmina no Estado-Nação. Muito embora, no caso europeu, o florescimento das cidades livres baseado no espírito de apoio mútuo predominasse até meados do século XIV, o fato é que essas ideias foram sendo apartadas. Isso se deveu, principalmente, ao fato de algumas ideologias que estavam relacionadas ao poderio romano ganharem força, bem como da aliança entre o clero e os doutores da lei (legisladores), que gerou uma camada social e intelectual capaz de ensinar uma nova forma de pensar entre os cidadãos, principalmente mais
jovens. 5
O fim da supremacia solidária não significou a extinção de quaisquer práticas territoriais livres. Entretanto, estas deixam de ter uma grande evidência e tornam-se escassas, quase sempre ligadas às camadas mais pobres. No momento contemporâneo de Kropotkin a presença de territorialidades comunais ainda é evidente em várias partes da Europa. O cotidiano hegemônico dominado pela propriedade privada convive com comunidades que utilizam a sociabilidade solidária. E não se trata de países com desenvolvimento capitalista ainda inicial, casos da Rússia, Espanha e Itália, mas de grandes centros industrializados como Alemanha, Inglaterra e França.
Nessas últimas nações, onde o capitalismo gerou igualmente um processo de modernização do campo, as comunas aldeãs ainda tentavam manter-se firmes, em que pese a existência de uma legislação contrária. Para o geógrafo russo, essa luta ocorria pois viver de forma comunal sempre foi a melhor opção para os seres humanos e, mesmo quando governantes e proprietários de terras atacavam essas comunidades, o espírito social se sobrepunha ao individual.
O que se evidencia nessas análises é que:
1. No período medieval, havia uma supremacia territorial das
cidades livres sobre o poder de reis, aristocratas e outros governantes (barões e senhores feudais, por exemplo), marcada, inclusive, pela constituição de uma rede solidária que abrangia várias regiões da Europa.
2. Na época histórica posterior (Idade Moderna), essa
territorialidade solidária foi sendo obliterada, visto que um poder
centralizado e altamente hierarquizado ganhou força (formação de exércitos nacionais, direito romano, apoio do clero), tornando-se residual a organização mais comunalista.
3. No período contemporâneo de Kropotkin (século XIX), embora
sobrante, ela se expressa de outras formas, como veremos a seguir, quando tratarmos dos operários e das populações de baixa renda.
Seja na Idade Média ou no momento em que Kropotkin vivia, as múltiplas territorialidades ganhavam forma e momentos de hegemonização. Essa hegemonia territorial estava intrinsecamente ligada a uma sociabilidade, solidária ou não, que determinava as próprias relações entre aqueles que nelas viviam.
O que é interessante nas análises de Kropotkin é a possibilidade da existência de sobreposições de territorialidades (Fernandes,
2009),6 quando junto à territorialidade dominante convivem em eterno conflito outras territorialidades. Então, coexistem dois processos dinâmicos nos trabalhos de Kropotkin sobre a presença do apoio mútuo entre as várias formas temporais e espaciais humanas:
1. Sociabilidade: processo que expressa uma dada organização
interna de seus indivíduos, sendo que, quanto menos hierárquica e mais democrática for essa tendência, mais a solidariedade será o seu principal eixo constituinte.
2. Territorialidade: em que pese não falar abertamente em
territorialidade, Kropotkin discute a formação de um princípio territorial. Esse princípio seria, por exemplo, a constituição de uma comuna aldeã descentralizada e federalista, formada por uma sociabilidade solidária.
O importante é perceber que não existe territorialidade sem sociabilidade e a sociabilidade apenas se expressa por um princípio territorial que chamo aqui de territorialidade. Nesse sentido, não é possível analisarmos as várias discussões sobre o apoio mútuo sem realizar essa pequena reflexão. Quando fala de um princípio territorial, Kropotkin expressa que a presença de uma sociabilidade solidária é inerente a ele.
O apoio mútuo nos diversos espaços e momentos históricos significa também a luta constante entre aqueles que querem viver em uma sociedade mais libertária, organizada federativamente com outras nessa mesma situação, contra os que defendem privilégios e a centralização do poder. Até aqui, percebemos claramente essa divisão. Em alguns períodos, prevalece uma sociabilidade solidária que se expressa em uma territorialidade mais comunal, caso das cidades medievais, muito embora o poder dos soberanos tente miná-la e impor outra mais centralista e baseada na propriedade privada. Em um momento posterior, essa sociabilidade solidária é substituída, diga-se de passagem, não inteiramente, por uma mais hierárquica, regida por leis e territorialmente expressa pela propriedade individual. Nesses dois casos, vislumbramos a coexistência de dois modelos de organização social: um baseado no apoio mútuo e outro na competição. Essa existência não é pacífica, porque os interesses de um não se coadunam com o de outro.
A análise não finda na existência dessas territorialidades. É interessante perceber que existe uma terceira forma de expressão territorial, não mais ligada a uma disputa por hegemonia, mas sim em uma sociabilidade que, embora não se expresse concretamente como no caso das cidades medievais, está sempre presente entre as camadas mais pobres. Isso ocorreu, principalmente, no século XIX, no período da revolução industrial, e está vinculada aos processos urbanos, diferente do que até agora vimos, predominantemente agrários. Essa territorialidade pode ser
compreendida como simbólico-cultural (Costa, 2004),7 visto que surge nas relações sociais de alguns grupos específicos e está pautada pela crítica aos valores dominantes.
Ao analisar a sociedade inglesa, Kropotkin percebe que, onde a sociabilidade do capital predomina (luta pela competição, busca desenfreada pelos lucros), caso de algumas cidades, como Manchester, entre os estratos mais pobres economicamente ocorre uma sociabilidade anticapitalista. Esta não é hegemônica, mas está presente nas lutas cotidianas, nos vários momentos de lazer, aparecendo como um sentimento de apoio, amizade que transcende pura e simplesmente a questão familiar.
Essa territorialidade solidária entre os operários e aqueles que moravam nos subúrbios das cidades industriais inglesas é analisada por Kropotkin quando ele vai discutir o apoio mútuo na sociedade moderna. No caso dos operários, essa territorialidade está personificada no surgimento dos órgãos de defesa contra a exploração do capital.
Para o geógrafo russo, caso predominasse o espírito individualista entre todos os homens, independente do tempo histórico ou do espaço, como queriam alguns darwinistas, esses trabalhadores não se entenderiam como uma única classe explorada, com as mesmas mazelas e demandas. Não se uniriam, aumentando mais ainda o seu estado de penúria. Logo, a formação dessas entidades de classe e a sua luta contra o projeto socioeconômico dominante era para ele a demonstração cabal de que, em momentos de grandes dificuldades, as pessoas tendem a se unir em busca de um objetivo comum.
Um fato interessante nesse pensamento é que essas lutas sociais, como greves e manifestações, ocorrem em praças públicas, ruas e grandes avenidas, quando colunas de trabalhadores circulam exigindo melhores condições de trabalho, aumento de salários, entre outras pautas. Os sindicatos, como agremiações corporativas, buscam a união de todos os indivíduos que possuem a mesma formação laboral, criando uma sinergia entre eles que se expressa nessas movimentações. Entretanto essa luta ainda está calcada em um único agrupamento corporativo. Conforme as demandas econômicas e sociais não são atendidas, outras corporações socorrem uma coirmã que necessita somar forças para conquistar seus objetivos mais imediatos.
Quando dezenas de corporações se aglutinam para que o espírito solidário se fortaleça, ocorrem as greves de solidariedade:
[…] cada ano na Europa e na América se produzem milhares de greves e demissões em massas, e as assim chamadas “por solidariedade”, provocadas pelo desejo dos trabalhadores de apoiar aos companheiros despedidos do trabalho ou para defender os direitos de suas uniões, são
as que se destacam pela sua essencial duração e severidade. (Kropotkin,
1989, p.261, tradução nossa)8
Então percebemos a ampliação de uma territorialidade solidária local e ligada a uma entidade específica para outra, muito mais forte, porque consegue aglutinar muito mais trabalhadores, inclusive de ramos econômicos diversos. E com essa ampliação setorial, especialmente, essas ações solidárias ocorrem em locais muitas vezes distantes entre si, pontuando a formação de uma rede territorial solidária de sindicatos.
Embora não discuta detalhadamente essa expansão entre os operários, o fato é que, em outros momentos da história, Kropotkin percebe a formação dessas redes: a territorialidade solidária se
expressando por uma federação de corporações.9
A grande diferença das corporações medievais para as operárias é que, na sociedade moderna, essa rede solidária de territorialidades tem como principal exemplo a luta dos setores mais espoliados da sociedade contra uma organização social e econômica toda ela determinada pelos desejos e paixões dos grandes industriais. Derivadas dessa organização trabalhista e sua posterior unidade em uma ação federativa surgem em diversos centros industriais outras experiências solidárias, como teatros, escolas, bibliotecas, piqueniques baseados na territorialidade mutual. Nesses verdadeiros equipamentos urbanos autogestionários, cotidianamente se promovem encontros que servem para reforçar os laços de amizade, construindo uma sociabilidade anticapitalista, que tem na greve apenas um dos seus mais importantes momentos.
Se os valores individualistas que levam a uma luta entre os seres humanos, ao lucro desenfreado e à meritocracia são dominantes nas cidades monopolizadas pela ação do capital, nos estratos mais organizados da classe operária busca-se sempre a realização de valores que estejam mais ligados ao apoio mútuo, à solidariedade, à amizade e ao respeito ao indivíduo. Uma sociabilidade solidária contra a sociabilidade individualista. Ambas se corporificam no território e propiciam um embate cotidiano, às vezes até violento (como nas greves, manifestações de rua, ocupações de fábricas)
Interessante que para Kropotkin os sindicatos e as várias agremiações defensoras da classe operária e mesmo associações esportistas, culturais, econômicas conseguem significativos avanços sociais, propiciando a formação de uma grande federação solidária capaz de, em várias situações, ter relevância no território de atuação.
Semelhantes associações, naturalmente, não mudam a estrutura econômica da sociedade, muito embora, em essencial nas cidades pequenas, ajudem a nivelar as diferenças sociais, posto que tendem a unir-se em grandes federações nacionais e internacionais, e contribuem com o desenvolvimento das relações amistosas. (ibidem, p.269, tradução
nossa). 10
Outra abordagem sobre a sociabilidade solidária que se territorializa ocorre quando Kropotkin discute as populações mais pobres. Não as enquadrando como elementos constituintes da classe operária, fica patente que os indivíduos hiperproletarizados, pela própria necessidade de sobrevivência, cotidianamente se apoiam. Essa sociabilidade se apresenta nas ruas e quadras onde essa população mais carente mora, parecendo uma territorialidade solidária. Diferente da sociabilidade solidária que ocorria nas cidades medievais e semelhante àquela realizada pelas organizações de classe existente na indústria nascente, ela é simbólica e representa um questionamento à sociabilidade dominante.
Nesse espaço circunscrito à moradia, desenvolve-se uma troca comunal, um vínculo de amizade que procura trazer alento a uma vida repleta de dissabores. Embora as pessoas que ali vivam possam ser membros da classe trabalhadora, não significa que estejam vinculados aos seus órgãos de resistência. Como vimos anteriormente, esse vínculo institucional gera uma sociabilidade muito ligada aos interesses corporativos, quase sempre direcionados a uma luta contra a exploração do trabalho.
No caso das comunidades que vivem em bairros mais pobres, percebe-se que Kropotkin não as analisa sob um ponto de vista classista, mas procura demonstrar essas ações cotidianas como uma busca por uma vida melhor. Então, mesmo que pertençam à classe trabalhadora, não é esse o foco da análise dele, mas sim tentar compreender a presença de uma territorialidade não somente vinculada à luta, mas também ao cotidiano. Diz:
Sob o sistema moderno de vida social, os laços de união entre os habitantes de uma mesma rua ou “vizinhança” desapareceram. Nos bairros ricos das grandes cidades, os homens vivem juntos sem saber sequer quem é seu vizinho. Mas nas ruas e ruelas densamente povoadas dessas mesmas cidades, todos se conhecem bem e se encontram em
contínuo contato. (ibidem, p.273, tradução nossa)11
Embora o sistema capitalista tenha conseguido impor a sua ética individualista aos vários estratos sociais e por isso seja hegemônico, ele não destrói totalmente essa sociabilidade mais solidária. E aparece nas franjas da sociedade capitalista, nos chamados subúrbios ou arrabaldes, onde o cotidiano significa, quase sempre, um momento de sofrimento. Lá, simbolicamente e silenciosamente, transparece uma sociabilidade anticapitalista, permeada de valores humanitários, próprios daqueles que precisam se unir para conseguir sobreviver.
Essa sociabilidade se expressa na troca comercial sem lucro entre os vizinhos, no cuidado do filho da mãe que necessita trabalhar fora, na limpeza do espaço para que as ruas sejam transitáveis e agradáveis etc. Uma sucessão de eventos ocorre gerando um território a parte, ainda que momentaneamente. Enquanto nas fábricas próximas, a relação social é hierárquica, a competição é a norma, os ataques pessoais são comuns, nesse pequeno espaço e tempo predomina outra sociabilidade, muito mais solidária. E isso ocorre por um motivo bem simples. Aceitar passivamente a sociabilidade do capital é compartilhar nas ruas e quarteirões mais pobres um modelo de vida mais individualista. É aceitar o próprio perecimento dessa parte da sociedade organizada. Então, a sociabilidade mutual não está em toda a cidade. É dominante em um pedaço da urbe. Como afirma Kropotkin (ibidem, tradução nossa): “Entre os pobres, o meu e o seu se distinguem
muito menos do que entre os ricos”.12
Podemos pensar que é próprio dos pobres serem mais solidários. Na verdade o que Kropotkin que alertar em seu trabalho é que, onde as necessidades exigem, a luta é substituída pela solidariedade. Tanto assim que não nega que essa sociabilidade poderia surgir entre os ricos. Entretanto, isso não ocorre pois: “[…] também entre os ricos, deixando de lado um pouco a mesquinhez e os gastos irracionais, no círculo da família e dos amigos, observa-se a mesma prática de ajuda e apoios mútuos dos pobres” (ibidem, p.278,
tradução nossa).13 O sistema do capital tem a sua ética impregnada na vida das pessoas. Entretanto ela não é soberana. É isso que vemos na obra do geógrafo russo.
Nos locais de moradia das famílias mais pobres e nos sindicatos de resistência contra o capital, predomina outra sociabilidade que se expressa territorialmente nas lutas cotidianas (manifestações de rua, greve) ou no dia a dia (troca de alimentos, cuidado com as crianças). Embora simbólica é perceptível a sua existência. E, sendo contrária aos valores dominantes, propicia o surgimento de uma ética solidária contra-hegemônica.
Diferente do que ocorria anteriormente na idade medieval, quando as sociabilidades “disputavam” territórios, quando a comuna aldeã combatia os interesses privativos de poucos soberanos (principalmente em relação a terra), no mundo industrial, essa sociabilidade solidária não tem mais territórios a reclamar. Mesmo assim, está presente, viva e atuante, contrapondo-se ao modelo individualista e demonstrando que a luta pela sobrevivência, tão apregoada pelos darwinistas, não é necessariamente a única realidade.
Interessante é perceber que, no modelo industrial, o predomínio da sociabilidade do capital não é pleno. O proletariado urbano constrói uma ética solidária que se corporifica nas lutas cotidianas. O que Kropotin nos apresenta é que a ética comunal combate sistematicamente a sociabilidade individualista. Ela desconstrói a todo o momento uma determinada visão de mundo que tenta se tornar única. O impacto disso é que a promessa de um mundo novo assombra cotidianamente os donos do capital e do poder. Um mundo no qual as ideias de apoio mútuo sejam o seu princípio norteador.
A sociabilidade de expressão territorial solidária é forte e fundamenta essa esperança de dias melhores nas classes mais populares. É como se os trabalhadores e trabalhadoras dissessem aos seus patrões que não aceitam a sua ideologia burguesa, que ela não lhes serve e que detêm para si outra maneira de compreender o mundo. Isso não é qualquer coisa. É uma clara demonstração de rebeldia contra os valores comumente aceitos pela classe dominante como “normais”.
Enquanto ao capital interessa defender e apresentar como inexorável aos indivíduos, ricos ou pobres, a exploração do homem, o regime do salário, a meritocracia, a hierarquia nas suas diversas formas, o centralismo nas decisões, cabe ao proletariado organizado ou não desmanchar essas falácias ideológicas. E isso só é possível se ele defender somente o que é próprio da sua constituição como classe social antagônica ao sistema social dominante. Contra a exploração do homem, a solidariedade; contra o regime de salário, propor o comunismo; em vez da meritocracia individual defender o apoio mútuo; e contra a hierarquia e o centralismo, a autonomia, a autogestão e o federalismo.
É assim que o geógrafo russo percebe as diversas territorialidades existentes. De um lado, uma territorialidade autoritária, excludente e individualista, defendida pelos poderosos; e de outro lado, uma mais descentralizada, fluída, solidária e combativa. A batalha entre as duas é constante. Quando a supremacia da sociabilidade do capital torna-se quase absoluta, quando os trabalhadores a aceitam e dispensam as suas formas de organização, percebemos um claro enfraquecimento da organização dos trabalhadores, a transformação dos sindicatos em empresas, a meritocracia como uma única verdade e os modelos autoritários como paradigmas.
Nos dias de hoje, quando a sociabilidade capitalista parece ser suprema, focos de resistência teimam em aparecer. Eles estão nas manifestações de rua de grupos autônomos (Movimento Passe Livre, por exemplo), na ocupação de escolas (na auto-organização que leva ao rodízio de funções) ou nas periferias das grandes cidades, onde o cotidiano insalubre exige a solidariedade dos mais pobres.
O recuo da territorialidade solidária não significa a vitória de uma ideologia calcada na submissão. Mas pode demonstrar às camadas mais pobres que usar as armas que os mais ricos e poderosos oferecem como neutras (democracia representativa, meritocracia, exploração do semelhante) não trarão nunca as transformações sociais necessárias para a construção de um mundo mais justo.